Ainda sou eu

Jojo Moyes · Capítulo 1 de 1 · parte 12/16

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Ainda sou eu

Epígrafe

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

— Ei! Eu não sou uma sem-teto! — gritei às costas dele. — Fiz protestos em defesa deste lugar! Moço! EU NÃO SOU UMA SEM-TETO!

Duas mulheres ergueram os olhos no meio da conversa que estavam tendo.

Uma delas ergueu uma sobrancelha.

E então eu me dei conta: eu era, sim, uma sem-teto.

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Querida mãe,

Desculpe se faz algum tempo desde que entrei em contato pela última vez. Estamos trabalhando dia e noite nesse negócio com os chineses, e eu tenho passado muito tempo acordado à noite, lidando com os diferentes fusos horários. Se pareço um pouco cansado, é porque estou de fato. Recebi o

bônus, o que foi muito bom (estou mandando uma parte para Georgina, para que ela possa comprar o carro que quer), mas, nas últimas semanas, eu

me dei conta de que não estou mais me sentindo bem aqui.

Não é que eu não goste do estilo de vida — e você sabe que eu nunca tive

medo de trabalho pesado. É só que eu sinto saudade de muitas coisas da Inglaterra. Sinto falta do senso de humor. Sinto falta dos almoços de domingo. Sinto falta do sotaque inglês, pelo menos o verdadeiro (você não

iria acreditar na quantidade de gente que soa mais cheia de pompa do que

Sua Majestade). Gosto de passar o fim de semana em Paris, Barcelona ou Roma. E essa coisa de ser expatriado é muito chata. Na bolha do mercado

financeiro acabamos sempre dando de cara com as mesmas pessoas, seja em

Nantucket ou Manhattan. Sei que você acha que eu tenho um tipo, mas aqui

é quase cômico: loura, manequim 36, guarda-roupa padronizado, aula de Pilates...

Então, é o seguinte: você se lembra do Rupe? Aquele meu amigo do

Churchill? Ele me disse que tem uma vaga na empresa dele. O chefe dele está

vindo para cá em duas semanas e quer me conhecer. Se tudo der certo, talvez eu esteja de volta à Inglaterra antes do que você esperava.

Eu adorei Nova York. Mas tudo tem seu tempo. E acho que eu já tive o meu.

Com amor.

Beijo, W

* * *

Nos dias seguintes, liguei para me informar a respeito das vagas que vi no Craigslist, mas a mulher gentil procurando uma babá desligou quando soube fevereiro/2018

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que eu não tinha referências, e os trabalhos de garçonete já estavam

preenchidos quando liguei. A vaga de assistente na loja de sapatos continuava

disponível, mas o homem com quem falei me disse que o salário seria dois dólares a menos por hora por conta da minha falta de experiência relevante no

varejo, e eu calculei que com isso mal sobraria o suficiente para o transporte. Eu passava as manhãs na lanchonete e as tardes na biblioteca de Washington Heights, que era silenciosa e aquecida e, exceto por aquele único guarda, ninguém olhava para mim como se eu estivesse prestes a cantar bêbada ou a fazer xixi em um canto.

A cada dois dias, eu encontrava com Josh para almoçar no bar especializado

em noodles ao lado do trabalho dele, o atualizava sobre a minha procura por trabalho e tentava ignorar que, em sua presença imaculadamente bem-vestida e

profissional, eu me sentia cada vez mais uma loser desleixada que dorme no sofá dos outros.

— Você vai ficar bem, Louisa. Segura a onda — dizia ele e me beijava ao sair,

como se, de alguma forma, nós já tivéssemos concordado em ser namorados.

Com tantas coisas para pensar, eu não conseguia refletir a respeito do que isso significava. Sendo assim, eu achava que, ao contrário de tudo o mais na minha vida, isso não era algo necessariamente ruim e o assunto podia ficar na gaveta por enquanto. Além disso, Josh sempre tinha um hálito muito agradável

e refrescante de hortelã.

Eu não poderia ficar no quarto de Nathan por muito mais tempo. Na manhã

anterior, eu havia acordado com um braço enorme jogado em cima de mim e alguma coisa dura pressionando minha lombar. O muro de almofadas parecia ter desaparecido, migrando para uma pilha caótica aos nossos pés. Fiquei paralisada, tentando me desvencilhar discretamente de suas garras sonolentas,

quando ele abriu os olhos, olhou para mim e pulou da cama como se tivesse levado uma ferroada, com um travesseiro no meio das pernas.

— Cara. Eu não queria... eu não estava tentando...

— Não sei do que você está falando! — reforcei, vestindo um moletom.

Eu não podia olhar para ele se...

Ele estava saltando de um pé para o outro.

— Eu só estava... eu não me dei conta de que... ah, cara. Ai, meu Deus.

— Tudo bem! Seja como for eu precisava acordar!

Saltei da cama e passei dez minutos escondida dentro do banheiro

minúsculo, o rosto ardendo de vergonha enquanto o ouvia fazendo barulho ao

se vestir. Quando saí, ele não estava mais lá.

Qual era o sentido de tentar ficar, afinal? Eu só podia dormir no quarto de Nathan por mais uma ou duas noites, no máximo. Aparentemente, mesmo que

tivesse sorte suficiente para encontrar outro emprego, o melhor que eu poderia

esperar era um salário mínimo e dividir com alguém um apartamento infestado

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de baratas e percevejos. Se eu voltasse para casa, pelo menos poderia dormir no

meu próprio sofá. Talvez Treen e Eddie estivessem apaixonadas o bastante para

quererem morar juntas, e então eu recuperaria meu apartamento. Tentei não pensar na sensação dos quartos vazios e de voltar para onde eu estava seis meses antes, sem falar na proximidade com o local de trabalho de Sam. Cada sirene que escutasse seria uma lembrança amarga do que eu havia perdido.

Tinha começado a chover, mas eu diminuí o passo ao me aproximar do

edifício e, por baixo da aba do meu chapéu de lã, olhei para as janelas dos Gopnik. As luzes ainda estavam acesas, embora Nathan tivesse me dito que os

dois estavam em um evento de gala. A vida havia continuado para eles com tanta tranquilidade como se eu nunca tivesse existido. Talvez nesse momento Ilaria estivesse passando o aspirador de pó, ou reclamando das revistas de Agnes espalhadas pelas almofadas do sofá. Os Gopnik — e aquela cidade —

haviam me sugado e cuspido em seguida. Apesar de todas as palavras

carinhosas, Agnes tinha me descartado tão completa e absolutamente como uma lagarta trocando de pele — sem nem sequer olhar para trás.

Se eu não tivesse vindo, pensei, irritada, que talvez ainda tivesse uma casa. E

um emprego. Se não tivesse vindo, ainda estaria com Sam.

Esse pensamento me deixou ainda mais sombria; curvei os ombros e enfiei

as mãos geladas nos bolsos, preparada para voltar para a minha acomodação temporária, um quarto onde eu precisava entrar às escondidas e uma cama que

eu precisava dividir com alguém que entrava em pânico se tocasse em mim.

Minha vida havia se tornado uma coisa ridícula, uma piada ruim passando em

looping. Esfreguei os olhos, sentindo a chuva gelada na pele. Ia marcar minha passagem naquela noite e voltaria para casa no próximo voo. Ia engolir o choro

e recomeçar. Eu não tinha escolha.

Tudo tem seu tempo.

Foi quando vi Dean Martin. Ele estava parado no carpete sob o toldo que levava ao edifício, tremendo sem agasalho e olhando ao redor, como se

decidisse aonde ir. Dei um passo em sua direção, espiando para dentro do saguão, mas o porteiro da noite estava ocupado separando alguns pacotes e não

o vira. Não vi a Sra. De Witt em nenhum lugar. Rapidamente me aproximei, me

abaixei e o peguei no colo antes que ele pudesse se dar conta do que eu estava

fazendo. Segurando seu corpo agitado nas mãos, com os braços estendidos, entrei correndo e subi depressa a escada dos fundos para devolvê-lo para ela,

cumprimentando o porteiro da noite com um aceno de cabeça ao passar.

Era um motivo válido para eu estar ali, mas saí apreensiva da escada no corredor dos Gopnik. Se eles voltassem de repente e me vissem ali, será que o

Sr. Gopnik concluiria que eu estava aprontando alguma coisa? Ele me acusaria

de invasão? Minha presença no corredor deles valeria como tal? Eram as

perguntas que passavam pela minha cabeça enquanto Dean Martin se contorcia

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furiosamente e tentava morder meus braços.

— Sra. De Witt? — chamei baixinho, olhando para trás.

A porta da frente dela estava entreaberta novamente, e eu entrei, erguendo a

voz.

— Sra. De Witt? Seu cachorro fugiu de novo.

Ouvi a televisão alta invadindo o corredor e dei mais uns passos para dentro

do apartamento.

— Sra. De Witt?

Como não ouvi resposta, fechei a porta cuidadosamente atrás de mim e

coloquei Dean Martin no chão, não querendo segurá-lo por mais tempo do que o

necessário. Ele saiu trotando na direção da sala de estar.

— Sra. De Witt?

Primeiro vi a perna, esticada no chão ao lado da poltrona. Levei um instante

para registrar o que havia diante de mim. Então corri até a frente da poltrona e

me joguei no chão, o ouvido colado em sua boca.

— Sra. De Witt? — chamei. — Está me ouvindo?

Ela estava respirando. Mas seu rosto estava branco-azulado, feito mármore.

Eu me perguntei brevemente por quanto tempo ela devia estar ali.

— Sra. De Witt? Acorde! Ah, meu Deus... acorde!

Corri pelo apartamento, procurando o telefone. Estava no corredor, em cima

de uma mesa que também continha várias agendas telefônicas. Liguei para a emergência e expliquei o que havia encontrado.

— Tem uma equipe a caminho, senhora — disse a pessoa do outro lado da

linha. — Pode ficar com a paciente e deixar o pessoal entrar?

— Sim, sim, sim. Mas ela é muito velhinha e frágil e está gelada. Por favor, venham logo.

Corri, peguei uma colcha no quarto e coloquei por cima dela, tentando lembrar o que Sam me dissera sobre como cuidar de idosos que haviam sofrido

uma queda. Um dos maiores riscos era morrerem de frio por ficarem

descobertos durante horas. E ela parecia muito gelada, mesmo com o

aquecimento central do prédio ligado no máximo. Eu me sentei no chão ao lado

dela e segurei sua mão gelada, acariciando-a gentilmente, tentando fazer com que ela soubesse que havia alguém ali. De repente, uma dúvida passou pela minha cabeça: se ela morresse, iriam me culpar? O Sr. Gopnik testemunharia que eu era uma criminosa, afinal. Por um segundo me perguntei se não deveria

sair dali, mas eu não podia deixá-la.

No meio da minha torturante série de pensamentos ela abriu um olho.

— Sra. De Witt?

Ela piscou para mim, como se estivesse tentando entender o que havia

acontecido.

— Sou eu, Louisa. A do outro lado do corredor. Está com dor?

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— Não sei... meu... meu pulso — disse ela baixinho.

— A ambulância está a caminho. A senhora vai ficar bem. Vai ficar tudo bem.

Ela me lançou um olhar vazio, como se estivesse tentando compreender

quem eu era e se o que eu estava dizendo fazia algum sentido. Então franziu a

testa.

— Onde ele está? Dean Martin? Onde está o meu cachorro?

Olhei ao redor da sala. O cachorrinho estava deitado no canto, examinando ruidosamente os próprios genitais. Levantou a cabeça quando ouviu seu nome e

se endireitou.

— Ele está bem ali. Está bem.

Ela fechou os olhos, aliviada.

— Pode tomar conta dele? Se eu precisar ir para o hospital? Eu vou para o hospital, não vou?

— Vai, sim. E claro que posso.

— Tem uma pasta no meu quarto que você precisa entregar a eles. Na minha

mesa de cabeceira.

— Sem problemas. Farei isso.

Fechei a mão ao redor da dela. E com Dean Martin da porta olhando para mim com desconfiança — bom, para mim e para a lareira —, ficamos esperando

em silêncio pela chegada dos paramédicos.

* * *

Fui até o hospital com a Sra. De Witt, deixando Dean Martin no apartamento, já

que ele não podia entrar na ambulância. Depois que a papelada estava

resolvida, e a instalaram devidamente, voltei para o Lavery, garantindo a ela que tomaria conta do cachorro. Apareceria de manhã para dizer como ele

estava. Os olhinhos azuis dela se encheram de lágrimas enquanto dava

instruções sobre a comida, os passeios, o que ele gostava e não gostava, até os

paramédicos pedirem que parasse de falar, insistindo que ela precisava

descansar.

Peguei o metrô de volta para a Quinta Avenida, ao mesmo tempo exausta e

ligada de adrenalina. Entrei no apartamento usando a chave que a Sra. De Witt

havia me dado. Dean Martin estava esperando no corredor, de pé nas quatro patas, o corpo compacto irradiando desconfiança.

— Boa noite, garoto! Quer jantar? — perguntei, como se fosse uma velha amiga dele e não alguém que esperasse perder um pedaço das canelas.

A caminho da cozinha, passei por ele fingindo segurança, e lá tentei decifrar

as instruções quanto à quantidade correta de frango cozido e ração que eu havia

anotado nas costas da mão.

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Coloquei a comida no prato dele e a empurrei em sua direção com o pé.

— Aí está! Bom apetite!

Ele ficou me encarando, os olhos saltados tristes e rebeldes, a testa repleta de

rugas de preocupação.

— Comida! Nham!

Ele continuou me encarando.

— Não está com fome ainda, hein?

Saí lentamente da cozinha. Precisava definir onde eu iria dormir.

O apartamento da Sra. De Witt tinha aproximadamente metade da área do

apartamento dos Gopnik. Mas isso não queria dizer que fosse pequeno. Tinha uma enorme sala de estar com janelas do chão ao teto com vista para o Central

Park, decorada em tons de bronze e vidro fumê, como se tivesse sido projetada

nos tempos do Studio 54. Havia uma sala de jantar mais formal, cheia de antiguidades que exibiam uma camada de poeira, o que sugeria que nada era usado havia gerações. Uma cozinha de melamina e fórmica, uma área de serviço

e quatro quartos, incluindo a suíte principal, que tinha um banheiro e um quarto de vestir de bom tamanho do lado de fora. Os banheiros eram ainda mais

antigos do que os dos Gopnik — e com vazamentos imprevisíveis. Dei a volta no

apartamento com a reverência silenciosa e peculiar de estar na casa

desocupada de alguém que eu não conhecia direito.

Quando cheguei ao quarto principal, respirei fundo. Estava cheio, três

paredes e meia de roupas cuidadosamente guardadas em araras, cobertas de plástico e penduradas em cabides almofadados. O quarto de vestir era uma profusão de cores e tecidos, pontuados acima e abaixo por prateleiras com pilhas de bolsas, caixas de chapéu e sapatos combinando. Percorri lentamente o

perímetro, passando a ponta dos dedos pelos tecidos, fazendo pausas

ocasionais para puxar com cuidado uma manga ou empurrar um cabide para

ver cada roupa melhor.

E não eram apenas aqueles dois quartos. Com o pequeno pug trotando desconfiadamente atrás de mim, entrei em dois dos outros cômodos e encontrei

mais: fileiras e mais fileiras de vestidos, ternos, casacos e boás, em armários compridos com ar-condicionado. Nas etiquetas, Givenchy, Biba, Harrods e

Macy’s, sapatos Saks Fifth Avenue e Chanel. Havia etiquetas das quais eu nunca

tinha ouvido falar — francesas, italianas, até russas. Roupas de diversas épocas:

terninhos quadrados e discretos estilo Kennedy, túnicas fluidas, paletós de ombros marcados. Espiei dentro de caixas e encontrei chapéus e turbantes, imensos óculos de sol com armação de jade e delicados fios de pérola. Como não

estavam arrumados de algum modo específico, simplesmente me joguei naquilo

tudo, tirando coisas aleatoriamente, desdobrando papéis de seda, sentindo os tecidos, o peso, o cheiro mofado de perfume velho, levantando as peças para admirar os cortes e as estampas.

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No espaço de parede que ainda era visível acima das prateleiras, vi desenhos

de roupas emoldurados, capas de revistas dos anos cinquenta e sessenta com modelos radiantes e magras usando vestidos psicodélicos ou camisas

cinturadas incrivelmente justas. Devo ter ficado uma hora ali até me dar conta

de que não havia localizado outra cama. Mas, no último quarto, lá estava ela, coberta de peças de roupa descartadas — uma cama de solteiro estreita,

possivelmente dos anos cinquenta, com uma cabeceira de nogueira

ornamentada. No quarto também havia um guarda-roupa e uma cômoda

combinando. E ainda mais quatro araras do tipo mais básico e, junto delas, caixas e mais caixas de acessórios: bijuterias, cintos e echarpes. Tirei algumas cuidadosamente de cima da cama e me deitei, sentindo o colchão ceder no mesmo instante, como costumam fazer os colchões velhos, mas não me

importei. Basicamente, eu estaria dormindo em um guarda-roupa. Pela primeira

vez em vários dias, me esqueci de ficar deprimida.

Pelo menos por uma noite, eu estava no país das maravilhas.

* * *

Na manhã seguinte, dei comida para Dean Martin e passeei com ele, tentando não me ofender por ele ter percorrido a Quinta Avenida inteira andando na diagonal, com um olho sempre fixo em mim, como se esperasse por alguma transgressão, e depois fui para o hospital, ansiosa para tranquilizar a Sra. De Witt de que seu bebê estava bem, ainda que permanentemente preparado para

a maldade. Decidi que seria melhor não contar a ela que a única maneira de convencê-lo a comer o café da manhã tinha sido ralar queijo Parmigiano-Reggiano por cima.

Quando cheguei ao hospital, fiquei aliviada por encontrá-la com um tom

rosado mais humano, ainda que seu rosto estivesse estranhamente sem forma

sem a maquiagem e a peruca de costume. Ela de fato havia fraturado o pulso e

estava com uma cirurgia marcada. Depois do procedimento ela ficaria no

hospital por mais uma semana, em virtude do que os médicos chamaram de

“complicadores”. Quando revelei que não era da família, se recusaram a dizer mais qualquer coisa.

— Você pode tomar conta do Dean Martin? — perguntou ela, o rosto tenso

de ansiedade.

Ele havia sido a preocupação principal dela no período em que eu não estive

lá.

— Será que não podem deixar você entrar e sair para vê-lo durante o dia?

Você acha que Ashok pode passear com ele? Ele vai se sentir muito sozinho. Não

está acostumado a ficar sem mim.

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Eu havia me perguntado se devia dizer a verdade a ela. Mas verdade era algo

que estava em falta no nosso prédio ultimamente, e eu queria que tudo fosse transparente.

— Sra. De Witt — comecei —, preciso contar uma coisa para a senhora. Eu...

eu não trabalho mais para os Gopnik. Fui demitida.

A cabeça dela deitou um pouco no travesseiro. Ela repetiu a palavra baixinho,

como se não a conhecesse.

— Demitida?

Engoli em seco.

— Acharam que eu havia roubado dinheiro deles. Tudo o que posso lhe dizer

é que não roubei. Mas acho que o correto é contar, porque talvez a senhora decida que não quer a minha ajuda.

— Bem — disse ela baixinho. E mais uma vez: — Bem.

Ficamos ali sentadas em silêncio por um tempo. Então ela estreitou os olhos.

— Mas você não fez isso.

— Não, senhora.

— Tem outro emprego?

— Não, senhora. Estou à procura.

Ela balançou a cabeça.

— Gopnik é um tolo. Onde você está morando?

Olhei para os lados.

— Ahn... eu... bom, na verdade estou ficando no quarto de Nathan, no

momento. Mas não é o ideal. Nós não somos... sabe... envolvidos

romanticamente. E, é claro, os Gopnik não sabem disso.

— Bem, parece que podemos fazer um arranjo bom para nós duas. Você pode

cuidar do meu cachorro? E talvez continuar procurando emprego do meu lado

do corredor? Só até eu voltar para casa?

— Sra. De Witt, eu adoraria.

Não consegui esconder o sorriso.

— Você terá que cuidar dele melhor do que antes, é claro. Vou deixar tudo anotado. Tenho certeza de que ele está terrivelmente inquieto.

— Vou fazer tudo o que a senhora disser.

— E preciso que você venha aqui diariamente para me dizer como ele está. É

muito importante.

— Claro.

Com isso decidido, ela pareceu sossegar um pouco de alívio. Fechou os olhos.

— Não há tolo mais tolo do que um velho tolo — murmurou ela.

Eu não tinha certeza se ela se referia ao Sr. Gopnik, a ela mesma ou a outra

pessoa. Então, esperei até que caísse no sono e voltei para o seu apartamento.

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* * *

Durante toda a semana, me dediquei aos cuidados daquele pug de seis anos, desconfiado, de olhos arregalados e mal-humorado. Caminhávamos quatro

vezes por dia, eu ralava queijo parmesão em cima do café da manhã dele e, depois de vários dias, ele abandonou o hábito de ficar parado em qualquer ambiente em que eu estivesse, me encarando com o cenho franzido, como se à

espera de que eu fizesse algo inominável. Em dado momento, ele simplesmente

começou a se deitar a alguns metros de distância, de onde ficava arfando suavemente. Eu ainda tinha um pouco de medo, mas também sentia pena dele.

A única pessoa que ele amava havia desaparecido abruptamente, e não havia nada que eu pudesse fazer para garantir que ela voltaria para casa.

Além disso, era meio legal estar no prédio sem me sentir uma criminosa.

Ashok, que estivera afastado por alguns dias, ouviu minha descrição dos

eventos com choque, indignação e depois encantamento.

— Caramba, que sorte que você o encontrou! Ele poderia ter simplesmente

desaparecido e ninguém saberia que ela estava caída no chão.

Ele estremeceu de maneira teatral.

— Quando ela voltar, vou começar a conferir todos os dias se ela está bem.

Nós nos entreolhamos.

— Nada a deixaria mais furiosa — falei.

— É, ela odiaria isso — disse ele, voltando ao trabalho.

Nathan fingiu ficar triste por ter o quarto de volta e levou minhas coisas para

o apartamento com uma pressa quase indecorosa para me “economizar o

trajeto” de cerca de seis metros. Acho que ele só queria se certificar de que eu

estava realmente indo embora. Deixou minhas malas e espiou ao redor do

apartamento, olhando com espanto para as paredes de roupas.

— Quanta tralha! — exclamou ele. — Isso aqui é tipo o maior brechó do mundo. Cara, eu detestaria ser da empresa de limpeza contratada para se livrar

dessas coisas quando a velha bater as botas.

Mantive o sorriso fixo e equilibrado.

Ele contou a Ilaria, que bateu na minha porta no dia seguinte para saber notícias da Sra. De Witt, então me pediu que levasse para ela uns bolinhos que

havia assado.

— A comida nesses hospitais é capaz de deixar a pessoa doente — disse ela,

dando um tapinha no meu braço e saindo rapidamente antes que Dean Martin

conseguisse mordê-la.

Ouvi Agnes tocando piano do outro lado do corredor. Certa vez, uma peça bonita que parecia tranquila e melancólica. Outra vez, algo apaixonado e furioso. Pensei nas várias ocasiões em que a Sra. De Witt havia atravessado o fevereiro/2018

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corredor e exigido furiosamente o fim do barulho. Desta vez, a música parou de

repente sem sua intervenção, com Agnes aparentemente martelando as teclas com as mãos. De vez em quando, eu ouvia vozes elevadas, e levei alguns dias para convencer meu corpo de que a minha adrenalina não precisava se elevar

com a deles, que aquelas pessoas não tinham mais nada a ver comigo.

Passei pelo Sr. Gopnik apenas uma vez no saguão principal. Ele não me viu,

então olhou uma segunda vez, aparentemente preparado para se opor à minha

presença ali. Ergui o queixo e segurei a ponta da guia de Dean Martin.

— Estou ajudando a Sra. De Witt com o cachorro — falei, com o máximo de dignidade que consegui reunir.

Ele olhou para Dean Martin, cerrou o maxilar e se virou como se não tivesse

me escutado. Ao seu lado, Michael olhou para mim e então voltou a atenção para o celular.

* * *

Josh foi até o apartamento na sexta-feira à noite depois do trabalho, levando comida pronta e uma garrafa de vinho. Ele ainda estava de terno — trabalhando

até tarde a semana inteira, disse. Como ele e um colega estavam disputando uma promoção, ele passava quatorze horas por dia no escritório e estava pensando em ir no sábado também. Olhou ao redor, erguendo as sobrancelhas

para a decoração.

— Bom, babá de cachorro era um trabalho que eu certamente não havia

considerado — observou ele enquanto Dean Martin o seguia, desconfiado.

Ele deu a volta lentamente na sala, pegando o cinzeiro de ônix e a sinuosa escultura de mulher africana, colocando os objetos de volta no lugar e

observando atentamente as pinturas douradas nas paredes.

— Não estava no topo da minha lista também.

Fiz uma trilha de biscoitos caninos até o quarto principal e fechei o

cachorrinho lá dentro até que se acalmasse.

— Mas estou tranquila com isso.

— E como você está?

— Melhor! — respondi, indo para a cozinha.

Eu vinha querendo mostrar a Josh que era mais do que a caçadora de

trabalho desarrumada e permanentemente bêbada com quem ele se encontrou

na última semana. Por isso, coloquei meu vestido preto estilo Chanel com gola e

punhos brancos, meus Mary Janes verde-esmeralda de couro de crocodilo falso

e sequei e alisei bem o cabelo.

— Bem, você está uma graça — disse ele, vindo atrás de mim.

Ele colocou a garrafa e a sacola de lado na cozinha, então se aproximou de fevereiro/2018

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mim, ficando a tão poucos centímetros de distância que seu rosto preencheu meu campo de visão.

— E, sabe, nada sem-teto. O que é sempre um bom visual.

— Temporariamente, pelo menos.

— Então isso quer dizer que você vai ficar aqui por mais um tempo?

— Quem sabe?

Ele estava a poucos centímetros de mim. Tive uma repentina lembrança

sensorial de ter enterrado o rosto no pescoço dele uma semana antes.

— Você está ficando cor-de-rosa, Louisa Clark.

— É porque você está muito perto de mim.

— Eu provoco isso em você?

A voz dele ficou mais baixa e ele ergueu a sobrancelha. Então deu um passo

para ainda mais perto e colocou as mãos em cima do balcão da cozinha, uma de

cada lado dos meus quadris.

— Pelo jeito — falei, mas minha voz saiu quase como uma tosse.

E então ele encostou os lábios nos meus e me beijou. Eu me apoiei nos armários da cozinha e fechei os olhos, absorvendo o hálito mentolado, a sensação ligeiramente estranha do corpo dele contra o meu, mãos

desconhecidas apertando as minhas. Imaginei se essa seria a sensação de beijar

Will antes do acidente. E então pensei que nunca mais beijaria Sam. Mas me dei

conta de que provavelmente era bem ruim pensar em beijar outros homens

quando se estava beijando um homem perfeitamente agradável naquele exato

instante. Quando inclinei a cabeça um pouco para trás, ele parou e olhou nos meus olhos, tentando entender o que aquilo queria dizer.

— Desculpe — falei. — É... é só um pouco precipitado. Eu realmente gosto de

você, mas...

— Mas você acabou de terminar com o outro cara.

— Sam.

— Que é claramente um idiota. E não é bom o bastante para você.

— Josh...

Ele tombou a testa para a frente, apoiando-a na minha. Não larguei sua mão.

— É que as coisas ainda parecem um pouco complicadas. Desculpe.

Ele fechou os olhos por um instante, então os abriu de novo.

— Você me diria se eu estivesse perdendo meu tempo? — perguntou ele.

— Você não está perdendo seu tempo. É só que... faz pouco mais de duas semanas.

— Muita coisa aconteceu em duas semanas.

— Bem, sendo assim, quem sabe onde nós vamos estar daqui a duas

semanas?

— Você disse “nós”.

— Pelo visto sim.

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Ele assentiu, como se fosse uma resposta satisfatória.

— Sabe — disse ele, quase para si mesmo —, eu tenho essa sensação a nosso

respeito, Louisa Clark. E eu nunca estou errado sobre essas coisas.

E então, antes que eu pudesse responder, soltou a minha mão e foi até os armários, que ele abriu e fechou em busca de pratos. Quando se virou, estava com um sorriso largo e radiante.

— Vamos comer?

* * *

Fiquei sabendo de muitas coisas a respeito de Josh naquela noite. Sobre sua criação em Boston, a carreira no beisebol da qual seu pai executivo meio irlandês o havia feito abrir mão por achar que o esporte não garantiria uma renda segura a longo prazo. Sobre a mãe dele, que, diferentemente das amigas,

era uma advogada que não abandonou a carreira enquanto criava o filho, e que, já aposentados, seus pais estavam se acostumando a ficar juntos dentro de casa.

Aparentemente, a convivência estava enlouquecendo os dois.

— Somos uma família de gente ativa, sabe? Então, meu pai já assumiu um papel executivo no clube de golfe, e minha mãe está dando aula para crianças na

escola local. Qualquer coisa para não precisarem ficar olhando um para a cara

do outro.

Josh tinha dois irmãos, ambos mais velhos. Um administrava uma

concessionária da Mercedes perto de Weymouth, Massachusetts, e o outro era

contador, como a minha irmã. Formavam uma família unida e competitiva, e ele

havia odiado os irmãos com a fúria impotente do caçula torturado até os dois saírem de casa. Depois disso, Josh descobriu que tinha saudade dos dois ao sentir uma dor persistente e inesperada.

— Minha mãe diz que foi porque eu perdi a minha régua, pela qual eu

sempre julgava tudo.

Agora os irmãos estavam casados, com dois filhos cada. A família se reunia nos feriados e alugava a mesma casa em Nantucket todo verão. Na adolescência,

ele não gostava disso, mas agora era uma semana pela qual esperava com mais

ansiedade a cada ano.

— É ótimo. As crianças, não ter que fazer nada e o barco... Você precisa ir —

disse ele, servindo-se de mais char siu bao.

Ele falava sem timidez, um homem acostumado com as coisas fluindo à sua

maneira.

— Para uma reunião de família? Achei que os homens de Nova York só

quisessem saber de encontros casuais.

— É, bom, eu já fiz tudo isso. Além do mais, eu não sou de Nova York.

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Josh parecia o tipo de homem que se dedica a tudo que faz. Trabalhava um milhão de horas por dia, lutava por promoções e ia para a academia antes das

seis da manhã. Jogava beisebol com o time da empresa e estava pensando em fazer trabalho voluntário na escola local, como a mãe, mas tinha medo de não

conseguir se comprometer com regularidade devido à agenda profissional. Ele

passou pelo sonho americano como uma flecha: você trabalha duro, é bem-

sucedido e ganha em troca. Tentei não fazer comparações com Will. Ao escutá-

lo, ficava meio admirada, meio exausta.

No espaço entre nós, Josh pintou um quadro do seu futuro — um

apartamento no Village, talvez uma casa de fim de semana nos Hamptons, se conseguisse os bônus certos. Ele queria um barco. Ele queria filhos. Ele queria

se aposentar cedo. Ele queria ganhar um milhão de dólares antes dos trinta. Ele

pontuou grande parte dessa conversa acenando com os hashis e recitando as frases “Você precisa ir!” ou “Você ia adorar”. Parte de mim ficava lisonjeada, mas eu estava especialmente grata por isso dar a entender que ele não ficou ofendido com a minha reticência anterior.

Ele foi embora às dez e meia, já que planejava acordar às cinco, e ficamos parados no corredor ao lado da porta da frente, com Dean Martin montando guarda a poucos metros de distância.

— E então, vamos conseguir encaixar um almoço? Mesmo com toda a

história do cachorro e do hospital?

— Quem sabe nos vemos uma noite?

— Quem sabe nos vemos uma noite? — repetiu baixinho. — Adoro o seu

sotaque inglês.

— Eu não tenho sotaque — retruquei. — Você tem.

— E você me faz rir. Não são muitas garotas que conseguem isso.

— Ah. Então você simplesmente não conheceu as garotas certas.

— Ah, acho que conheci.

Ele parou de falar e olhou para o alto, como se estivesse tentando não fazer

alguma coisa. Depois sorriu, como que reconhecendo o que havia de ridículo em

dois adultos chegando à casa dos trinta anos tentando não se beijarem diante da porta. E o sorriso me bastou.

Levantei o braço e o toquei na nuca, muito levemente. E então fiquei na ponta

dos pés e o beijei. Disse a mim mesma que não fazia sentido insistir em algo que

havia acabado. Disse a mim mesma que duas semanas certamente era tempo o

bastante para tomar uma decisão, ainda mais quando a outra pessoa ficou longe

por meses e, portanto, disse a mim mesma que precisava seguir em frente.

Josh não hesitou. Ele me beijou de volta, deslizando lentamente as mãos pelas minhas costas, me empurrando contra a parede, para que eu ficasse deliciosamente presa a ele. Ele me beijou e me obriguei a parar de pensar e me

entregar à sensação, ao corpo desconhecido, mais estreito e ligeiramente mais

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duro do que o outro que eu conhecia. A intensidade da sua boca na minha.

Daquele americano bonito. Nós dois estávamos um pouco zonzos quando

paramos para recuperar o fôlego.

— Se eu não for agora... — disse ele, dando um passo para trás, piscando com

força, levando a mão à nuca.

Sorri. Desconfiava que meu batom estivesse por todo o meu rosto.

— Você precisa acordar cedo. A gente se fala amanhã.

Abri a porta e, depois de um último beijo na minha bochecha, ele seguiu pelo

corredor principal.

Quando fechei a porta, Dean Martin continuava me encarando.

— O que foi? — perguntei. — O que foi? Eu estou solteira.

Ele abaixou a cabeça, enojado, se virou e seguiu para a cozinha.

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Para: SreSraBernardClark@yahoo.com

De: AbelhaAtarefada@gmail.com

Oi, mãe,

Que bom saber que você e Maria se divertiram no chá na Fortnum & Mason no aniversário dela. Embora, sim, eu concorde: é MUITO caro para um pacote de biscoitos e tenho certeza de que vocês duas fariam melhores em casa. Os seus são muito leves. E, não, a coisa do banheiro no teatro não foi legal. Com certeza, sendo ela mesma atendente, tem um olho muito afiado para esse tipo de coisa. Que bom que alguém está cuidando das suas... necessidades de higiene.

Por aqui, tudo bem. Está bem frio, mas você me conhece, tenho roupas para todas as ocasiões. Tem algumas coisas acontecendo no trabalho, mas espero que tudo esteja resolvido quando nos falarmos. E, sim, estou totalmente tranquila em relação a Sam. É uma dessas coisas inevitáveis.

Lamento que o vovô não esteja bem. Espero que quando ele estiver se sentindo melhor você possa retomar suas aulas noturnas.

Sinto saudade de todos. Muita.

Com amor.

Beijos, Lou

P.S.: Talvez seja melhor você mandar e-mails ou escrever via Nathan, já que estamos com alguns problemas com o correio.

* * *

A Sra. De Witt deixou o hospital dez dias depois de ser internada, estreitando os

olhos, desacostumada à luz do dia, o gesso que envolvia o braço direito parecendo pesado demais para o corpo frágil. Levei-a de táxi para casa. Ashok

saiu para recebê-la na calçada e a ajudou a subir lentamente os degraus da entrada. Ao menos daquela vez ela não implicou com ele ou o afastou; foi caminhando com cautela, como se o equilíbrio já não fosse mais garantido. Eu

tinha levado para o hospital a roupa que a Sra. De Witt exigira — um terninho

de calça e blazer, da Céline, dos anos setenta, de um azul-claro, com uma blusa

amarelo-narciso e uma boina de lã rosa-claro —, junto com alguns dos

cosméticos que estavam sobre a penteadeira dela, e me sentei ao lado de sua cama de hospital para ajudá-la a passá-los. Ela comentou que suas próprias tentativas com a mão esquerda a haviam deixado com a aparência de quem fevereiro/2018

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havia bebido três Sidecars no café da manhã.

Dean Martin, encantado, corria e bufava ao redor dos tornozelos da Sra. De

Witt, olhava para ela, então me encarava com determinação, como se estivesse

querendo dizer que eu já podia ir embora. Havíamos chegado a uma espécie de

trégua, o cachorro e eu. Dean Martin comia suas refeições e se aconchegava em

meu colo toda noite, e acho que ele tinha até começado a apreciar o passo um

pouco mais rápido e nossas caminhadas mais longas, porque seu rabinho

balançava loucamente sempre que me via pegar a guia da coleira.

A Sra. De Witt ficou eufórica ao vê-lo, se alegria pudesse ser traduzida por uma série de reclamações sobre a minha óbvia negligência nos cuidados com o

cão, pelo fato de que em um espaço de doze horas ela o considera tanto acima

quanto abaixo do peso, e por uma sequência de emocionados pedidos de

desculpa por tê-lo deixado em minhas mãos inadequadas.

— Meu pobre bebê. Eu o deixei com uma estranha? Deixei? E ela não cuidou

direito de você? Está tudo bem. Mamãe está em casa agora. Está tudo bem.

Ela estava obviamente encantada por ter voltado para casa, mas não posso fingir que não estava ansiosa. A Sra. De Witt precisava de um imenso número de

comprimidos — mesmo para os padrões americanos — e me perguntei se ela por acaso teria alguma síndrome de ossos frágeis: eram comprimidos demais apenas para um pulso quebrado. Comentei com Treena, que disse que, na

Inglaterra, teriam receitado uns dois analgésicos, recomendado que não

levantasse nada pesado e que gargalhasse com gosto.

Mas eu tinha a sensação de que a Sra. De Witt havia se tornado ainda mais

frágil depois do tempo que passara no hospital. Estava pálida e tossia sem parar, e suas roupas sob medida ficavam largas em lugares estranhos ao redor

do corpo. Quando servi o macarrão com queijo, ela comeu quatro ou cinco garfadas com delicadeza, declarou que estava delicioso, mas se recusou a comer

mais.

— Acho que meu estômago encolheu naquele lugar horrível. Provavelmente

tentando se proteger daquela comida horrorosa.

Ela levou metade de um dia para checar todo o apartamento, caminhando

com dificuldade de um cômodo a outro, lembrando a si mesma que tudo estava

como devia e se tranquilizando com isso — tentei não interpretar aquilo como

se ela estivesse conferindo que eu não havia roubado nada. Finalmente, a Sra.

De Witt se sentou em sua poltrona alta e fofa e suspirou com discrição.

— Nem sei dizer como é bom estar em casa — disse ela, como se uma parte

sua houvesse esperado não voltar.

Então, cochilou. Pensei pela centésima vez no meu avô, e em sua sorte por ter

minha mãe cuidando dele.

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* * *

A Sra. De Witt estava obviamente frágil demais para ser deixada sozinha, e ao

que parecia não tinha a menor pressa de me ver ir embora. Então, sem qualquer

discussão a respeito, simplesmente fiquei. Ajudei-a a tomar banho e a se vestir,

preparei suas refeições e, ao menos na primeira semana, saí para caminhar com

Dean Martin várias vezes por dia. Já no fim daquela primeira semana, descobri

que ela abrira um pequeno espaço para mim no último dos quatro quartos, afastando livros e peças de roupa, um de cada vez, para revelar uma mesinha de

cabeceira utilizável, ou uma prateleira sobre a qual eu poderia colocar as minhas coisas. Reivindiquei o banheiro de hóspedes, dei uma boa limpeza nele e

deixei as torneiras abertas até a água sair limpa. Então, discretamente, me dediquei a limpar todas as partes da cozinha e do banheiro da Sra. De Witt que

sua vista fraca começara a negligenciar.

Levei-a ao hospital para as consultas de revisão, e fiquei sentada do lado de

fora com Dean Martin até ser chamada de volta para pegá-la. Marquei horário

no cabeleireiro que a Sra. De Witt estava acostumada a frequentar e esperei enquanto seu cabelo fino e prateado voltava às antigas ondas elegantes, um pequeno ato que pareceu mais restaurador do que qualquer atenção médica

que ela havia recebido até ali. Ajudei-a com a maquiagem e encontrei seus vários pares de óculos. A Sra. De Witt agradecia tranquila e enfaticamente a minha ajuda, como se costuma fazer com um hóspede querido.

Como eu tinha consciência de que, por ter morado sozinha por anos, ela precisava do espaço só para si, costumava sair por algumas horas durante o dia,

me sentava na biblioteca e procurava emprego. Mas sem a urgência de antes e,

para dizer a verdade, não havia nada que eu quisesse fazer. A Sra. De Witt normalmente estava dormindo ou plantada em frente à televisão quando eu

voltava.

— Ora, Louisa — dizia ela, endireitando o corpo como se eu a houvesse encontrado no meio de uma conversa —, estava me perguntando aonde você

tinha ido. Faria a gentileza de levar Dean Martin para um rápido passeio? Ele está parecendo um tanto preocupado…

Aos sábados, eu ia com Meena aos protestos diante da biblioteca. A

aglomeração tinha diminuído, o futuro da biblioteca dependia não só do apoio

da população, mas também de um desafio jurídico de arrecadação de fundos.

Ninguém parecia ter muita esperança de sucesso. Ficávamos paradas ali, menos

animadas a cada semana, acenando com nossos cartazes surrados e aceitando

com gratidão as bebidas quentes e as comidinhas que ainda chegavam, cortesias

de vizinhos e lojistas da área. Eu havia aprendido a procurar por rostos conhecidos — a avó que eu conhecera na minha primeira visita, que se chamava

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Martine e que agora me cumprimentava com um abraço e um sorriso largo.

Várias outras pessoas acenavam ou gritavam oi, o funcionário da segurança, a

mulher que levava pakoras, a bibliotecária do cabelo lindo. Nunca mais vi a senhora com as insígnias rasgadas.

Eu já estava morando no apartamento da Sra. De Witt havia treze dias

quando esbarrei em Agnes. Dada a nossa proximidade, era espantoso que isso

não houvesse acontecido antes. Estava chovendo forte e eu usava uma das antigas capas de chuva da Sra. De Witt — laranja e amarela, de plástico, dos anos setenta, com estampa de flores redondas, enormes e de cores fortes —, e

ela tinha vestido Dean Martin com uma capinha de chuva e levantado o capuz, o

que me fazia ter que segurar o riso toda vez. Estávamos correndo pelo corredor,

eu rindo da carinha cheia de dobras dele embaixo do capuz de plástico, e parei

de repente quando as portas do elevador se abriram e Agnes saiu, seguida por

uma jovem com um iPad, o cabelo preso em um rabo de cavalo esticado. Ela parou e me encarou. Algo que não consegui decifrar completamente passou por

seu rosto — talvez constrangimento, talvez um pedido mudo de desculpas, ou

mesmo raiva contida por eu estar ali… era difícil dizer. Os olhos de Agnes encontraram os meus, ela abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa, então

cerrou os lábios e passou por mim como se não tivesse me visto, o cabelo louro

e reluzente balançando e a garota logo atrás.

Fiquei olhando enquanto a porta da frente se fechava enfaticamente depois

de elas entrarem, meu rosto ardendo como o de uma amante rejeitada.

Tive uma vaga lembrança de nós duas rindo em um bar de noodles.

Somos amigas, Louisa?

Então, respirei fundo, chamei o cachorrinho para prender a guia na coleira e

saímos para a chuva.

* * *

No fim, foram as garotas do Vintage Clothes Emporium que me ofereceram um emprego remunerado. Um contêiner de peças estava chegando da Flórida — o

conteúdo de vários guarda-roupas — e elas precisavam de um par de mãos extra para examinar cada item antes de colocá-los à venda, para reforçar a costura de botões e garantir que tudo o que fosse para as araras estivesse limpo

e bem passado, a tempo para a feira de roupas vintage no fim de abril. (Artigos

que não tinham cheiro de novos eram os mais devolvidos.) O pagamento era um

salário mínimo, mas a empresa era boa, o café à vontade e elas me dariam vinte

por cento de desconto em qualquer coisa que eu quisesse. Meu apetite para comprar roupas novas havia diminuído com a minha falta de acomodação, mas

aceitei satisfeita a oferta de trabalho e, depois de garantir que a Sra. De Witt fevereiro/2018

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estava recuperada a ponto de caminhar sozinha com Dean Martin ao menos até

o fim do quarteirão e voltar, passei a ir para a loja todas as terças-feiras às dez da manhã e passava o dia lá, no quarto dos fundos, lavando, costurando e conversando com as garotas durante as pausas para o cigarro delas, que

pareciam acontecer a cada quinze minutos mais ou menos.

Margot — eu estava proibida de continuar chamando-a de Sra. De Witt

(“Você está morando na minha casa, pelo amor de Deus”) — ouviu com atenção

quando contei a ela sobre meu novo papel, então perguntou o que eu estava usando para consertar as roupas. Descrevi a enorme caixa de plástico com botões antigos e zíperes, mas acrescentei que a coisa toda era tão caótica que muitas vezes eu não conseguia encontrar dois botões iguais e, raramente, três.

Ela se levantou pesadamente da poltrona em que costumava ficar e gesticulou

para que eu a seguisse. Eu caminhava bem próxima a Margot agora — ela não

parecia completamente firme nos pés e com frequência oscilava para um lado,

como um navio em alto-mar com a carga maldistribuída. Mas por fim ela

conseguiu, deixando a mão correr pela parede para estabilidade extra.

— Embaixo da cama, querida. Não, ali. Há dois baús. Isso.

Eu me ajoelhei e tirei duas pesadas caixas de madeira com tampa de debaixo

da cama. Quando as abri, vi que estavam cheias com fileiras de botões, zíperes, fitas e franjas. Havia colchetes de gancho, fechos dos mais diversos tipos, todos

meticulosamente separados e etiquetados, botões de marinheiro de metal e

minúsculos botõezinhos chineses, cobertos de seda vistosa, botões de osso e de

casco de tartaruga, costurados com cuidado em pequenas faixas de cartolina. Na

tampa acolchoada, ramalhetes de alfinetes, fileiras de agulhas de tamanhos diferentes e uma variedade de fios de seda em minúsculos carretéis. Passei os

dedos por eles com reverência.

— Ganhei isso no meu aniversário de quatorze anos. Meu avô mandou vir de

Hong Kong. Se precisar, pode dar uma olhada aí. Eu costumava tirar os botões e

os zíperes de tudo o que não usava mais, sabe. Assim, se perdemos um botão de

alguma roupa boa e não conseguimos repor, sempre teremos uma vasta

possibilidade de opções para substituí-lo.

— Mas não vai precisar deles?

Ela descartou a ideia gesticulando com a mão boa.

— Ah, meus dedos agora estão desajeitados demais para costurar. Metade do

tempo nem consigo abotoar as minhas roupas. E tão poucas pessoas se dão ao

trabalho de consertar botões e zíperes atualmente… elas simplesmente jogam as roupas no lixo e compram alguma coisa nova e horrível nessas lojas de descontos. Fique com eles, meu bem. Vai ser bom saber que estão sendo úteis.

* * *

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Assim, por sorte e talvez um pouco por intenção, agora eu tinha dois empregos

que amava. E com eles encontrei certo contentamento. Toda terça-feira à noite

eu levava algumas peças de roupa para casa em uma sacola plástica xadrez de

lavanderia e, enquanto Margot cochilava, ou assistia à televisão, eu removia cuidadosamente todos os botões restantes de cada uma delas e costurava um novo conjunto. Depois, mostrava para Margot, para ver se aprovava.

— Você costura muito bem — comentou ela, examinando meus pontos

através dos óculos, enquanto assistíamos ao programa Roda da Fortuna. —

Achei que seria tão ruim nisso quanto é em todo o resto.

— Na escola, trabalhos de agulha eram praticamente a única coisa em que eu

era boa.

Alisei as dobras do tecido e me preparei para continuar dobrando um casaco.

— Comigo foi da mesma forma — contou ela. — Aos treze anos, eu já fazia

minhas próprias roupas. Minha mãe me mostrou como cortar um molde e

pronto. Fui fisgada. Fiquei obcecada por moda.

— Em que você trabalhou, Margot?

Abaixei a costura.

— Fui editora de moda da Ladies’ Look, que já não existe mais… nem chegou

aos anos noventa. Mas a revista esteve no mercado por trinta anos ou mais, e fui

a editora de moda pela maior parte desse tempo.

— Essa é a revista que está nas molduras? As que estão penduradas na

parede?

— Sim, aquelas foram as minhas capas favoritas. Fui um tanto sentimental e

guardei algumas.

A expressão de Margot se suavizou por um instante, e ela inclinou a cabeça e

me olhou com o semblante de quem estava prestes a fazer uma confidência.

— Era um emprego e tanto na época, sabe. A revista não era muito inclinada

à ideia de ter mulheres em cargos sênior, mas as páginas de moda estavam sob

a responsabilidade de um homem horrível, e meu editor… um homem

maravilhoso, o Sr. Aldridge… argumentou que ter um velho pernóstico, que ainda usava suspensórios para segurar as meias, ditando o que era moda

simplesmente não funcionaria para moças mais jovens. Ele achou que eu tinha

olho para a coisa, me promoveu, e foi isso.

— Então é por esse motivo que você tem tantas roupas lindas.

— Ora, eu certamente não me casei com um ricaço.

— Mas chegou a se casar?

Ela abaixou os olhos e ficou brincando com alguma coisa no joelho.

— Santo Deus, você faz mesmo um monte de perguntas. Sim, eu me casei.

Com um homem adorável. Terrence. Ele trabalhava no mercado editorial. Mas

morreu em 1962, três anos depois de nos casarmos, e para mim bastou de casamento.

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— Nunca quiseram filhos?

— Eu tive um filho, meu bem, mas não com o meu marido. É isso o que você

quer saber?

Corei.

— Não. Quer dizer, não desse jeito. Eu… nossa… ter filhos é… quer dizer, eu

não presumiria que…

— Pare de gaguejar, Louisa. Eu me apaixonei por alguém que não deveria enquanto estava de luto pelo meu marido e engravidei. Tive o bebê, mas isso causou certa comoção e, no fim, ficou decidido que seria melhor para todos se

meus pais o criassem em Westchester.

— Onde ele está agora?

— Ainda em Westchester. Até onde eu sei.

Eu a encarei, sem compreender.

— Vocês não se encontram?

— Ah, nos encontrávamos. Todos os fins de semana e nas férias, por toda a

infância dele. Mas quando chegou à adolescência, acabou ficando com raiva de

mim por eu não ser a mãe que ele achava que eu deveria ser. Tive que fazer uma

escolha, entenda. Naquele tempo, não era comum trabalhar se você se casasse

ou tivesse filhos. Escolhi meu trabalho. Sinceramente, eu tinha a sensação de que morreria se ficasse sem ele. E Frank, meu chefe, me apoiou.

Ela suspirou.

— Infelizmente, meu filho nunca me perdoou de verdade.

Houve um longo silêncio.

— Sinto muito.

— Sim. Eu também. Mas o que está feito, está feito, e não adianta lamentar.

Margot começou a tossir e eu lhe servi um copo de água. Ela pegou o frasco

de comprimidos que deixava na mesinha lateral e esperei enquanto tomava um.

Margot, então, voltou a se acomodar, como uma galinha depois de arrumar as

penas.

— Qual é o nome dele? — perguntei, quando ela já havia se recuperado.

— Mais perguntas… Frank Junior.

— Então, o pai dele era…

— …meu editor na revista, sim. Frank Aldridge. Ele era bem mais velho do que eu, e casado, e temo que esse tenha sido o maior ressentimento do meu filho. Foi difícil para ele na escola. As pessoas eram diferentes em relação a essas questões na época.

— Quando foi a última vez que teve contato com ele? Com seu filho, quero dizer.

— Foi em… 1987. O ano em que ele se casou. Descobri depois que o

casamento já havia acontecido e escrevi uma carta dizendo que tinha ficado magoada por ele não ter me convidado. Frank me disse sem rodeios que havia

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muito tempo eu abrira mão de qualquer direito de ser incluída em qualquer coisa que dissesse respeito à vida dele.

Ficamos sentadas em silêncio por um instante. O rosto dela estava

absolutamente imóvel e era impossível saber o que estava pensando, ou mesmo

se estava simplesmente concentrada na televisão. Eu não sabia o que dizer a Margot. Não conseguia encontrar palavras que servissem de consolo para uma

mágoa tão grande. Mas então ela se virou para mim.

— E foi isso. Minha mãe morreu uns dois anos depois e ela era meu último

ponto de contato com ele. Às vezes me pego imaginando como ele está… se está

vivo até, se teve filhos. Escrevi para ele por algum tempo. Mas com o passar dos

anos, acho que acabei me conformando com a situação. Ele estava certo, é claro.

Eu realmente não tinha qualquer direito no que lhe dizia respeito, ou a nada relacionado à vida dele.

— Mas ele é seu filho — sussurrei.

— É, mas eu nunca me comportei como mãe, não é mesmo?

Ela deixou escapar um suspiro trêmulo.

— Tive uma vida muito boa, Louisa. Amava meu trabalho e trabalhei com

algumas pessoas maravilhosas. Viajei para Paris, Milão, Berlim, Londres, fiz muito mais do que a maior parte das mulheres da minha idade… Tinha meu lindo apartamento e alguns amigos excelentes. Não se preocupe comigo. Toda essa bobagem sobre as mulheres poderem ter tudo… Nunca pudemos e

provavelmente nunca teremos. As mulheres sempre têm que fazer as escolhas

mais difíceis. Mas há um grande consolo em simplesmente fazer algo que se ama.

Ficamos sentadas em silêncio, digerindo aquilo. Então, ela apoiou as mãos espalmadas nos joelhos.

— Aliás, menina querida, você me ajudaria a chegar até o meu banheiro?

Estou bem cansada, e acho que vou para a cama.

* * *

Naquela noite, fiquei acordada na cama, pensando no que Margot me contara.

Pensei em Agnes e no fato de que aquelas duas mulheres, que moravam a poucos metros uma da outra e viviam envoltas em uma tristeza muito

específica, poderiam ter sido, em outro mundo, um conforto uma para a outra.

Pensei que parecia haver um preço muito alto para qualquer coisa que uma mulher escolhesse fazer com a própria vida, a menos que se contentasse em querer pouco. Mas eu já sabia disso, não é mesmo? A ida para Nova York me custara caro. Com frequência, de madrugada, eu evocava a voz de Will me dizendo para não ser ridícula e melancólica, para em vez disso pensar em todas

Continuar: parte 13 de 16