Álcool e outras drogas

Sergio Alarcon · Capítulo 16 de 19

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Álcool e outras drogas

14. Surtado ou assustado? Algumas considerações sobre violência e cuidado no contexto dos serviços territoriais de saúde mental e atenção psicossocial

14 – Surtado ou assustado?

 

Algumas considerações sobre

 

violência e cuidado no contexto

 

dos serviços territoriais de

 

saúde mental e atenção

 

psicossocial 1

 

Nina Isabel Soalheiro Prata

 

Cada vez o Brasil fica mais poluído,horrível, violento, pobre e morto, e cada

21% de pessoas são ricas no Brasil inteirinho! E cada 247% de pessoas no

Brasil são pobres (...)Ou alguém para essa coisa ou o mundo vai despedaçar!

Lara e Carol, 7 e 9 anos, em seu Livro sobre a Pobreza

 

O presente trabalho aborda a temática da violência e do cuidado na prática cotidiana dos serviços territoriais de atenção psicossocial. Embora possa parecer que essa questão se apresente com mais urgência de debate no cotidiano dos serviços para atenção diária às pessoas que fazem uso prejudicial de álcool e outras drogas, trata-se de um problema comum a todos os serviços de saúde mental. Assim, o tempo que vivemos exigiria um esforço de resistência e construção de novas estratégias para o enfrentamento da violência no território, um trabalho decidido de fortalecimento dos coletivos e construção de uma cultura do cuidado baseada na potência dos afetos e da solidariedade.

A vulnerabilidade das nossas instituições à violência do entorno, seus códigos e mandatários parecem ter uma relação direta com a fragilidade dos processos coletivos e o abandono, pela equipe, do acompanhamento dos laços afetivos e sociais que se fazem a partir da convivência. O modelo Caps/casa vem sucumbindo à complexidade da realidade urbana, da miséria e da cultura de rua, aproximando-nos perigosamente da violência e do caos.

O entendimento das nossas instituições como espaços públicos dotados de uma complexidade própria parece apontar saídas, como o fortalecimento dos vínculos e dos coletivos e a valorização da dimensão política das práticas e das redes de solidariedade entre aqueles que – apesar do abandono e desamparo – fazem a opção pela dignidade, pela vida e pelos valores que a sustentam.

 

Numa sexta-feira comum, de muito trabalho, num Caps situado

no extremo oeste do Rio de Janeiro, recebo um telefonema vindo

da sede da coordenação do estado, no centro da cidade. Um

pedido de acolhimento para uma mãe desesperada que teria ido

até lá pedir ajuda para seu filho enlouquecido. Acertado tudo, a

mãe vem no dia seguinte: uma senhora idosa que, antes de

conseguir dizer qualquer coisa, chora de cansaço e tristeza diante

de mim. Seu filho, muito jovem, está em casa, atormentado,

insone, agitado, violento. Penso, nesse momento, que a mãe foi

procurar no centro da cidade o Estado que não encontra em seu

território, onde ‘tá tudo dominado’. Me conta que o filho era

usuário de drogas, mas adoeceu e acabou ficando refém das

suas relações em torno da droga e das suas alucinações, agora

sem alucinógenos. Seu comportamento enlouquecido tornou-se

uma ameaça para a milícia que domina a área, trazendo riscos

para o seu filho. Ela só se acalma com a promessa de que iremos

à sua casa, ao seu território.

Na data combinada, chegamos num carro quase sem

identificação, conduzidos por um motorista terceirizado que não

conhecia o lugar, e nos deparamos com um carro prateado,

luxuoso e reluzente, cercado por alguns homens, que não

deixavam dúvidas quanto ao seu domínio daquele território, já

nos examinando e permitindo a nossa entrada. Encontramos uma

cena comum nesses casos, um jovem assustado, delirante, olhos

esbugalhados, pronto para reagir à nossa invasão de sua casa –

uma casa coletivizada, onde mora com a mãe, avó, muitas

crianças. Ele não estava em condições de conversar, acuado,

defensivo, delirante, negando qualquer tipo de ajuda. Uma vizinha

que chegou para ajudar tentou uma aproximação afetiva, mas

infrutífera. Depois de muitas tentativas de convencimento,

decidiu-se então por uma medicação forçada e saímos, eu e a

mãe, para procurar ajuda com vizinhos para a sua contenção.

Nesse momento, ela olha para os homens da milícia e diz: ‘Eles

não, pelo amor de Deus!’. Um outro vizinho acaba nos

acompanhando relutante, dizendo que o jovem ‘tem muita força’.

Entramos novamente, a cena era a mesma, só que agora ele

gritava com veemência: ‘Eu só quero paz, me deixem em paz, eu

só quero paz!’. Nessa hora, os anos de profissão não amenizam

em nada a angústia diante do ato – naquele momento

considerado por todos inevitável – da contenção física. É então

que vejo os milicianos adentrar pela porta, sem pedir licença;

querem restabelecer a ordem no seu território. Percebo o

desespero da mãe, enquanto o chefe deles tenta, ainda em pé,

dominar com os olhos, intimidar, controlar o jovem. Mas ele não

consegue e, com uma discreta irritação, constata que aquele não

está mais susceptível ao seu controle, está fora de si. Por fim,

para minha indignação, deposita ao meu lado uma arma metálica

e reluzente como o carro, para conseguir se abaixar e fazer com

tranquilidade uma contenção competente, que possibilita que o

paciente seja medicado. Fico paralisada, me perguntando o que

eu estava fazendo ali, ao lado daquela arma, envolvida com

aquele homem e seus seguranças. Mas eles saem

tranquilamente de cena da mesma forma que entraram. A mãe

está muito abalada, convido-a para ir conosco ao Caps, deixar um

pouco o filho aos cuidados de outros, participar do encontro

semanal dos familiares, talvez assim ela pudesse se sentir

melhor. Ela aceita prontamente, mas depois fica insegura, prefere

ficar com o filho e ir outro dia.

Na volta ao Caps, muito afetada, vou falando no carro sobre as

diversas sensações que me atingem. Por fim, ainda assustada,

me refiro ao jovem: ‘Ele estava muito assustado!’. Mas alguém

retruca: ‘Assustado? Ele tá é surtado!’. A minha indignação ficou

ainda maior: ‘Cadê o Estado’?, ‘Nós somos o Estado?’, ‘Rede

com a milícia?’, ‘Contenção com arma?’. Chegando ao Caps, ao

me reunir com os familiares, contei a história do dia, dividindo

com eles o horror de sermos reféns de tudo isso. E ficamos ali,

conversando, eu e aquelas mães, pais, irmãos, pessoas que se

relacionam cotidianamente com a violência, que já perderam

muitos jovens, que defendem os filhos vivos e doentes até a

morte, constatando que, felizmente, ali estávamos todos muito

assustados e indignados.

A mãe retorna depois para dizer que o filho teve uma melhora

significativa, aceitou acompanhá-la a um centro de saúde próximo

à sua casa, foi acolhido e estava em tratamento lá, e que queria

apenas garantir que ela própria pudesse continuar voltando ao

Caps. Comigo ficaram as questões: uma rede foi feita ali, algum

Estado existiu, pessoas, instituições, todos muito precários, muito

longe da paz.

 

Violência e cuidado no cotidiano dos

 

Caps

 

Vivemos hoje, nos Caps, um momento difícil, que exige um grande esforço de enfrentamento, na convivência com os usuários e no cotidiano da instituição, da insidiosa presença da violência no interior das nossas relações. Convivemos com agressões, mortes, assassinatos, desaparecidos e pacientes envolvidos e vítimas do tráfico, trazendo sua linguagem, seus códigos, seus subprodutos. A violência do entorno, entrando pela nossa porta, obriga-nos a pensar na falta de estrutura para lidar com um problema dessa envergadura, incluindo-nos numa dimensão maior do problema da vulnerabilidade das instituições e políticas públicas.

Lidamos cotidianamente com os revezes das relações humanas e da violência afetiva que se faz presente nelas diante da qual não podemos nos manter neutros. Mas como enfrentar essa dimensão de uma sociedade violenta? Como investir em um trabalho permanente de construção de uma cultura do cuidado, num contexto de tal banalização da vida e dos valores que a sustentam? Seria necessário retomar uma dimensão pedagógica para dar conta da sustentação de coletivos criativos, solidários e fundados nos valores civilizatórios e nos direitos humanos? Sobretudo se falamos de “um direito não dado, não garantido, que afirma a vida em toda a sua potência de criação (...), que implica um desafio permanente de invenção de novas práticas e novos mundos que incluam as diversidades” (CRP-RJ, 2007: 7).

Encontramos em Bezerra Júnior (2007) indicações da importância dessa temática, quando o autor acentua o fato de que a consolidação da reforma psiquiátrica brasileira vem trazendo à tona uma quantidade crescente de desafios, que precisariam ser incorporados à agenda dos campos da saúde mental e da saúde coletiva. Para ele, a construção de um sistema assistencial, um imaginário cultural e uma rede de laços sociais inspirados nos ideais da reforma exigiriam imaginação, criatividade e reflexão crítica diante da realidade de um país de dimensões continentais e enorme diversidade cultural. Por isso, pondera que não seria possível pensar um único modelo assistencial que sirva, igualmente, para as megalópoles e as pequenas cidades do interior, para áreas de grandes concentrações populacionais e regiões de população escassa, enfim, que abarque as diversidades de territórios do nosso país.

Ao discutir alguns aspectos intrínsecos à esfera da clínica, Bezerra Júnior aponta a formação de recursos humanos como um desses desafios, ressaltando a dificuldade inerente pelo fato de que, em sua maioria, os profissionais da rede seriam constituídos por jovens que não viveram o processo de luta política e ideológica que envolveu a criação do Movimento Antimanicomial e o intenso intercâmbio com intelectuais de referência do movimento, como Basaglia, Foucault, Rotelli e outros. O autor pondera que, além disso, um processo de esvaziamento do debate político e o relativo abandono das grandes bandeiras de transformação política tornariam mais complexo o processo de formação teórica e técnica desses profissionais.

O autor fala, ainda, do que seriam, na sua visão, temas cruciais para a formação de profissionais capazes de levar adiante o processo de transformação defendido pelo ideário reformista: as novas formas de organização das equipes, a transformação dos papéis destinados aos técnicos, o trabalho interdisciplinar e intersetorial, a articulação entre os aspectos clínicos e políticos da atenção psicossocial, o entrelaçamento entre estratégias de cuidado e estratégias de responsabilização ou interpelação do sujeito, e a temática dos direitos humanos e da defesa da dignidade da pessoa, dos direitos civis e sociais. Ressalta, também, a importância de tomarmos isso como desafio para o próprio futuro do movimento, já que este se encontraria num momento estratégico. Para ele, ou o movimento aprofunda seu ideário, deixando claro seu horizonte ético e seu projeto de transformação social e subjetiva, ou corre o risco de deixar-se atrair pela força da burocracia e da institucionalização conservadora.

Em outro momento, o mesmo autor já nos apontava que “nem tudo são flores”, referindo-se a um fenômeno presente na rede de serviços do município do Rio de Janeiro: do lado da gestão, entusiasmo e clareza quanto ao projeto de ampliação da rede de Caps; do lado dos trabalhadores dos serviços, muitas aflições, dúvidas e até um certo desânimo quanto ao futuro da proposta. Para ele, o diálogo entre os dois lados seria essencial, bem como o desafio de trabalhar tensões, transformando-as em instrumento de avaliação e avanço do projeto. O autor identifica um enredo conhecido: demanda excessiva sobre as equipes, superlotação dos serviços, surgimento de novos processos de cronificação de usuários e profissionais e dificuldades gerais de funcionamento das equipes, um sentimento compartilhado de que todos os serviços estariam sendo extremamente exigidos (Bezerra Júnior, 2004).

O tema das relações entre violência e cuidado é apontado como recorrente no contexto dos Caps do Rio de Janeiro, identificando a relevância da questão da violência urbana generalizada e sua progressiva entrada nos espaços e atividades institucionais. Para discuti-la, Bezerra Júnior propõe uma reflexão da violência referida aos valores e à estrutura da sociedade em que vivemos: o império do valor econômico, o imperativo do consumo, a lógica do mercado, a perda da crença na história e na ação coletiva, a destruição dos sistemas coletivos doadores de confiança, o culto à satisfação imediata. Propõe, então, uma discussão sobre a cultura que produz a violência e seus efeitos na construção dos laços sociais e na vida subjetiva. Para ele, pensar sobre essa questão, no contexto dos Caps, já não se trata de analisar casos de violência – por mais numerosos que sejam –, mas trata-se, sim, de pensar sobre uma constelação cultural na qual a violência torna-se, cada vez mais, um elemento do cenário, não um episódio, mas uma constante, um estado.

O autor resgata também um aspecto importante no contexto da natureza das práticas nos serviços, ressaltando que qualquer dispositivo de cuidado buscaria não apenas evitar o sofrimento desnecessário, mas também criar espaços de tolerância e modos de acolhimento e convivência com aquilo que, na vida subjetiva, é da ordem “do intratável, do inevitavelmente doloroso, do que não tem remédio nem nunca terá” (Bezerra Júnior, 2004: 6) Enfim, se trabalhamos com a perspectiva de transformação de vidas, essa dimensão não poderia ser esquecida, sobretudo porque os Caps são dispositivos que visam contribuir para que a vida coletiva e as existências individuais sejam mais interessantes, abertas e criativas.

Trabalhos de alguns autores, como Meiguins (2007) e Melman (2007), referentes à área técnica de Cultura de Paz da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, acenam para a importância de construir um projeto de formação permanente que considere a complexidade dessas questões para a área de saúde, em especial para a capacitação de profissionais envolvidos no cuidado às pessoas em situação de violência. Esses autores identificam a necessidade de conhecimento do universo atual desses profissionais da saúde, suas dificuldades e resistências, e a necessidade de elaboração de estratégias pedagógicas capazes de modificar as representações da violência, desenvolvendo talentos e potencialidades para sustentar o papel de cuidadores. Ressaltam ainda a importância, no contexto da formação permanente, da dimensão de uma construção da cultura de paz – noção referida ao Manifesto 2000 por uma Cultura de Paz e Não Violência, da Unesco – que parte da premissa de que a paz não pode ser cultivada por decreto, e que, embora necessárias, as medidas políticas, econômicas ou militares não seriam suficientes para estabelecê-la. Assim, argumentam que cada indivíduo deveria assumir, na prática, o compromisso com uma cultura de paz por meio dos atos mais simples em sua vida diária.

Os autores apresentam reflexões importantes sobre o que denominam ‘o universo sombrio da violência’ e suas relações com o cuidado e os cuidadores. Apontam o despreparo dos serviços e as consequências da violência para os profissionais da saúde, que oscilariam entre uma total impotência e a onipotência heróica de salvar corpos e vidas. Dessa forma, o desafio consistiria em ajudar os profissionais a tomarem para si seu real poder pessoal e profissional.

Segundo os princípios da cultura de paz e da comunicação não violenta, a violência pode ser entendida como expressão trágica da condição humana: o sofrimento, a desigualdade, a injustiça, o desrespeito, a insegurança e o desejo de poder sobre o outro geram violência. Os autores ponderam que os trabalhadores da saúde, mergulhados na cultura da violência e do medo, tenderiam a reproduzir as representações hegemônicas no que diz respeito à violência, e qualquer mudança exigiria um processo lento de intervenções. Defendem, então, a proposta de estratégias ampliadas de formação, que incluiriam espaços de acolhimento, campos de experiência e de reflexão coletiva. Propõem processos de acompanhamento do trabalho dos profissionais e das equipes, ressaltando o caráter complexo desse trabalho, o que exigiria esforço e compromisso de todos os atores envolvidos, incluindo coordenadores e gestores das políticas. Um processo que, necessariamente, deve associar mudanças individuais com transformações do coletivo, apoiadas por uma sólida estrutura organizacional. Destacam o aspecto do sofrimento dos profissionais da saúde, demonstrando como o atendimento que envolve situações de violência pode ser experimentado como uma sobrecarga demasiada, razão pela qual adoeceriam mais. Associam a essa discussão a ideia de que a paz não seria uma conduta passiva, necessitando de condições objetivas e subjetivas para existir. Se, por um lado, a paz nasce dentro de cada pessoa, por outro só é efetivamente construída quando a sociedade garante uma vida com dignidade para todos.

Luzio e L’Abbate (2006), ao resgatar os aspectos históricos e técnico-assistenciais das experiências de São Paulo, Santos e Campinas, tratam de algumas questões importantes a respeito dessa dimensão dos processos coletivos e das relações entre violência e cuidado. Inicialmente, retornando à emblemática experiência de Santos, conduzida, na época, por atores importantes do movimento da reforma sanitária, as autoras descrevem a radicalidade das ações iniciais da intervenção no Hospital Anchieta, que deram origem ao grande projeto de transformação e construção de um novo modelo de cuidado.

A proposta de intervenção em Santos começou com a criação de um conjunto de estratégias de mudanças no ambiente do hospital, visando criar condições mínimas de convivência. Para isso, foram tomadas medidas que incluíram a suspensão de toda e qualquer situação ou ato de violência, agressões verbais e físicas, celas fortes, eletrochoques etc. Ao mesmo tempo, foram abertos todos os espaços físicos internos, recuperadas as condições de higiene, alimentação e saúde dos internos, reconstruídas identidades e resgatadas histórias de vida. As autoras ressaltam que esse conjunto de ações continha um significado importante, pois refletia a instauração de uma nova ordem institucional sem violência, com tratamento digno e liberdade.

Kinoshita (1997) e Nicácio (1994) definem a intervenção como a desconstrução de uma “velha ordem”, sem modelo a ser seguido, cujo ponto de partida era a necessidade dos usuários. Foram instituídos espaços de convivência, recorrendo-se à grupalidade, às discussões coletivas de necessidades, conflitos, desejos e reinvindicações. Investia-se, assim, na dimensão coletiva, em especial nas assembleias, que tinham o objetivo fundamental de desnudar os papéis codificados, possibilitando aos profissionais e internos a construção de diálogo, reflexões e alternativas para as questões coletivas. Um enfrentamento que, ainda hoje, tomamos aqui como experiência exemplar.

Na experiência de Campinas, as autoras destacam a priorização da responsabilização pelo cuidado e a ampliação da prática clínica, de modo que se alcançasse a dimensão subjetiva e social dos processos de saúde e doença, além do investimento em um sistema de cogestão. Além disso, destacam também o investimento em um sistema de cogestão com forte ênfase nos espaços coletivos, incluindo os conselhos locais de saúde, colegiados de gestão, além de outros dispositivos como oficinas, assembleias com usuários, reuniões por categorias profissionais etc. O objetivo maior seria a gestão cotidiana e democrática na análise de temas e tomadas de decisão envolvendo os diversos atores sociais interessados. Uma valorização dos espaços coletivos que operacionalizavam as diretrizes do governo, fortaleciam os sujeitos e produziam a democracia institucional.

Uma direção que podemos pensar, com as autoras, como um conjunto de estratégias políticas e pedagógicas de fortalecimento dos sujeitos (gestores, trabalhadores e usuários) e espaços coletivos, permitindo a transformação das relações de dominação, criação de novos contratos, composição de consensos, alianças e implantação de projetos. Enfim, as experiências estudadas demonstram os muitos caminhos possíveis para se produzir uma mudança de modelo em saúde mental e, sobretudo, a importância das intervenções e o fortalecimento dos coletivos como alternativa para a sustentação da vitalidade destes e de qualquer transformação que se faça necessária.

Lancetti (2006) define o trabalho nos Caps como um conjunto de estratégias destinadas a pessoas que não se adaptam aos protocolos clínicos tradicionais, que demandaria um esforço permanente de inovação em tratamentos, muitas vezes, burocratizados, sem descobertas, repetitivos. Ele argumenta que, na prática, há de fato uma tendência à cronificação dos Caps quando criamos coletivos altamente repetitivos, rotinas segmentarizadas e relações muitas vezes infantilizadas. O autor aponta o risco de os profissionais se enclausurarem em diversas formas de corporativismo, trabalhando com recursos reduzidos e repetidos, e propõe como forma de enfrentamento uma ação combinada que inclua estratégias de socialização do conhecimento e de distribuição de saberes para o estabelecimento de uma relação continuada de cuidado.

Um cuidado que, para Boff (2004), exigiria o testemunho e a presença de quem cuida, e – numa referência à relação, desde a etimologia da palavra, entre cuidado e cura – afirma que o humano se definiria justamente pela necessidade de cuidados desde o nascimento até a morte. Partindo da constatação inevitável de que tudo o que existe e vive precisa ser cuidado para continuar a existir e a viver, o autor chama a atenção para o fato de que, no nosso tempo, haveria um abandono da reverência indispensável para se cuidar da vida e de sua fragilidade. E nos leva a pensar uma concepção de cuidado, na qual cuidar, mais do que um ato, é uma atitude – de ocupação, de preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro. O que, por sua vez, demandaria uma mudança de concepção na própria formação, que, ao incluir essas questões, possibilita novas práticas e novas relações entre quem cuida e aquele que necessita de cuidados.

O que nos remete à discussão de Merhy (2004), quando este recorre à imagem do “olho do furacão” para designar o lugar de conflitos e desafios em que se encontram os trabalhadores dos serviços substitutivos. O autor fala de problemas atuais, ressaltando a necessidade de o profissional produzir novos coletivos para fora de si mesmo, e do perigo engendrado naquilo que identifica como certezas antimanicomiais. Critica a ideia de que o Caps deve seguir modelos fechados ou receitas, ressaltando a importância da multiplicidade deste de manter um fazer coletivo, solidário e experimental (Merhy, 2004).

O autor se refere a uma necessidade de fabricação de novos coletivos de trabalhadores de saúde no campo da saúde mental, defendendo que esse trabalho deve ser compreendido como um processo de alta complexidade, múltiplo, interdisciplinar e intersetorial, cujo sucesso dependeria de uma “revolução cultural” no imaginário social, envolvendo os vários sujeitos e atores sociais. Ressalta o caráter inovador das práticas, apontando para as necessidades do trabalhador/cuidador, que deve também ser cuidado.

Para isso, Merhy propõe construir espaços de escuta desse exigente fazer cotidiano, no qual os trabalhadores estariam suportando um grande peso, o que os faria experimentar sensações tensas, polares e paradoxais, muitas vezes oscilando entre a potência e a impotência. O autor fala da necessidade de se abrir para escutar essas dificuldades, de gerar processos no cotidiano que exponham essas questões, permitindo que o coletivo as problematize, pense e fale sobre elas. Conclui, afirmando a importância da construção de processos de trabalho que produzam cuidados para os usuários e cuidados para os cuidador.

A tradição basagliana, que queremos tão viva em nossas práticas, concebe a doença mental como uma contradição do homem que pode ser verificada em qualquer tipo de sociedade (Basaglia, 2005) e que faz dela o que mais lhe convém. Identifica aquilo que denomina a face social da doença, afirmando que esse aspecto será determinante em sua evolução. Para Basaglia, é nesse sentido que se pode falar de uma estreita relação entre psiquiatria e política, entre psiquiatria e ordem pública. Para ele, se é verdade que a política não cura os doentes mentais, por sua vez, o adoecimento e seus códigos interpretativos têm um caráter político preciso.

Passados mais de 30 anos de aprovação da lei italiana de reforma psiquiátrica, neste ano de 2012 em que comemoramos os 11 anos da lei brasileira, retomemos com Basaglia o contexto e o sentido de sua origem:

 

(...) aquilo que, aos olhos de muitos, parece uma aventura arriscada e cheia

de ameaças é somente a inserção, nas normas sanitárias, de um elemento

civil e constitucional que deveria estar implícito nelas e não o estava: o

reconhecimento dos direitos do homem são e doente. (Basaglia, 2005: 326)

 

O autor acrescenta que, “embora fruto de uma luta, uma lei pode ser apenas o resultado da racionalização de uma revolta, mas pode também conseguir difundir a mensagem de uma prática, tornando-a patrimônio coletivo” (Basaglia, 2005: 328).

Basaglia afirma ainda que, no contexto dessa prática, a saúde não representa a norma, pois a condição humana é a de estar constantemente entre a saúde e a doença. Afirma isso para enfatizar a importância de, na relação com o paciente, o profissional se colocar diante de um sofrimento que ele deve enfrentar – sem instrumentos, sem defesas – para apreender o mundo de necessidades do qual provém e remetê-lo à história da qual foi banido, no momento mesmo em que foi definido como doença.

Dessa forma, convida-nos a uma aproximação, a qual caracteriza de forma incisiva:

 

(...) desarmados como estamos, privados de instrumentos que não sejam

uma explícita defesa diante da angústia e do sofrimento, somos obrigados a

nos relacionar com essa angústia e esse sofrimento sem objetificá-los

automaticamente nos esquemas da doença, e ainda sem dispor de um novo

código interpretativo que recriaria a antiga distância entre quem compreende

e quem ignora, entre quem sofre e quem assiste. (Basaglia, 2005: 31, grifo do

autor)

 

Assim, recorremos ao pensamento basagliano para, ‘desarmados’, refletirmos sobre o enfrentamento necessário de uma das faces sociais da doença do nosso tempo – a violência.

 

Considerações finais

 

O presente trabalho pretende se somar aos esforços de reflexão sobre a construção de novas estratégias para a abordagem da violência nos serviços territoriais de saúde mental e atenção psicossocial. Pretendemos contribuir também para o debate em torno de um trabalho sistemático de fortalecimento dos coletivos e de construção de uma cultura do cuidado que possa vir a se constituir como contraponto e resistência à cultura da violência.

Procuramos, então, identificar aqui alguns pontos de partida para a discussão da vulnerabilidade das nossas instituições de cuidado à violência do entorno – sua linguagem, seus códigos e subprodutos – e sua relação com a fragilidade dos processos coletivos e o relativo abandono, pela equipe do acompanhamento, dos laços afetivos e sociais que se estabelecem a partir da convivência nos espaços coletivos. Isso nos leva a uma necessidade de revisar e repensar o modelo de acolhimento e organização dos Caps, a fim de construirmos estratégias de resistência aos efeitos da complexidade da realidade urbana, da miséria e da violência.

Com base nessa discussão, propomos um certo resgate dos processos coletivos que se constroem nessas instituições, entendendo que valorizar a dimensão coletiva e política das práticas referendaria a perspectiva de entendimento dos Caps como espaços públicos dotados de uma complexidade própria. Ao trazermos o tema dos efeitos da violência nesses espaços coletivos e associá-lo à necessidade de criar e sistematizar estratégias de formação e qualificação das equipes, esperamos contribuir para a construção de uma cultura de resistência à violência e banalização da vida, uma perspectiva que se somaria ao conjunto das iniciativas teóricas e práticas fundamentadas na defesa da vida e dos valores que a sustentam.

 

Referências

 

BASAGLIA, F. Escritos Selecionados em Saúde Mental e Reforma Psiquiátrica. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.

 

BEZERRA JÚNIOR, B. O cuidado nos Caps: os novos desafios. In: ALBUQUERQUE, P. & LIBÉRIO, M. (Orgs.). O Cuidado em Saúde Mental: ética, clínica e política. Rio de Janeiro: Coordenação de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, 2004.

 

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BOFF, L. Saber Cuidar: Ética do Humano – compaixão pela terra. Petrópolis: Editora Vozes, 2004.

 

CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA (CRP/RJ). Direitos Humanos? O Que Temos a Ver com Isso? Rio de Janeiro: CRP-RJ, 2007.

 

KINOSHITA, R. T. Em busca da cidadania. In: CAMPOS, F. C. C. B. & HENRINQUE, C. M. P. (Orgs.). Contra a Maré à Beira-Mar: a experiência do SUS em Santos. São Paulo: Hucitec, 1997.

 

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NICÁCIO, M. F. S. O processo de transformação da saúde mental em Santos: desconstrução de saberes, instituição e cultura, 1994. Dissertação de Mestrado, São Paulo: Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.