Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida
Regra 6: Abandone a ideologia
REGRA 6
ABANDONE A IDEOLOGIA
OS LUGARES ERRADOS
Depois do lançamento de 12 Regras para a Vida, minha esposa, Tammy, e
eu embarcamos em uma longa viagem de palestras por todo o mundo
anglófono e uma boa parte da Europa, especialmente no Norte. A maioria
dos teatros em que palestrei eram antigos e muito bonitos, e foi uma delícia
estar em prédios com histórias arquitetônicas e culturais tão ricas, onde
tantas bandas que amamos tocaram e onde outros artistas tiveram seus
grandes momentos. Reservamos 160 salas — geralmente com capacidade
para cerca de 2.500 a 3 mil pessoas (embora houvesse espaços menores na
Europa e maiores na Austrália). Fiquei — e ainda estou — profundamente
impressionado com o fato de haver um público tão grande para minhas
palestras — e aparentemente em todos os lugares. A mesma surpresa se
estende às minhas aparições no YouTube e em podcasts — em meus canais,
nas entrevistas em outros e nos inúmeros vídeos que as pessoas extraem de
minhas longas palestras e conversas com jornalistas. Eles foram assistidos
ou ouvidos centenas de milhões de vezes. E, por fim, tenho o livro anterior,
que atingirá cerca de 4 milhões de exemplares vendidos só em inglês
quando o presente volume for publicado e que terá sido traduzido para
cinquenta outros idiomas, segundo estimativas. Não é nada fácil saber o que
pensar em relação a um público assim.
O que está acontecendo? Qualquer pessoa sensata ficaria perplexa — para
dizer o mínimo — com tudo isso. Parece que meu trabalho aborda algo que
está ausente na vida de muitas pessoas. Como mencionei anteriormente,
baseio grande parte do meu conteúdo nas ideias de grandes psicólogos e
outros pensadores, e isso deve valer de alguma coisa. Mas também tenho
ponderado continuamente sobre o que de mais específico (se houver) pode estar atraindo a atenção das pessoas e conto com duas fontes de informação
para tentar determinar isso com precisão. A primeira é a reação dos próprios
indivíduos, quando os encontro logo após uma de minhas palestras ou
quando me param na rua, em aeroportos, cafés ou outros locais públicos.
Em uma cidade do Meio-oeste norte-americano (acho que pode ter sido
Louisville), um jovem me encontrou após minha palestra e disse: “Uma
história rápida. Há dois anos, fui libertado da prisão. Sem casa. Sem grana.
Comecei a ouvir suas palestras. Agora tenho um emprego de tempo
integral, sou dono do meu apartamento e minha esposa e eu acabamos de ter
nossa primeira filha. Muito obrigado.” E o “obrigado” foi acompanhado de
contato visual direto e um aperto de mão firme, e a história foi contada com
uma voz de convicção. As pessoas me contam histórias muito semelhantes
na rua, muitas vezes às lágrimas, embora a que acabei de contar fosse talvez
um pouco mais drástica do que a média. Elas compartilham acontecimentos
de cunho muito pessoal (do tipo que você compartilha apenas com pessoas
com as quais se sente seguro). E me sinto muito privilegiado por ser uma
dessas pessoas, embora seja emocionalmente exigente ser o ouvinte de
constantes revelações pessoais, mesmo quando são tão positivas (ou talvez
até por isso mesmo). Acho comovente perceber que tantas pessoas
receberam tão pouco incentivo e orientação, e quanto bem pode surgir
quando recebem um pouco mais. “Eu sabia que você conseguiria” já é um
bom começo e ajuda muito a amenizar parte da dor desnecessária do
mundo.
Esse é um formato de história que ouço, constantemente, em muitas
variações. Quando nos encontramos em particular, as pessoas também me
dizem que gostam de minhas palestras e do que escrevo, pois o que digo e
escrevo lhes oferece as palavras de que precisam para expressar coisas que
já sabem, mas são incapazes de articular. É útil para todos ser capaz de
representar explicitamente o que já entendem de maneira implícita. Com
frequência, sou atormentado por dúvidas sobre o papel que estou
desempenhando, então o fato de as pessoas acharem que minhas palavras
corroboram suas crenças profundas — que até então permanecem sem
realização ou expressão — é reconfortante, me ajuda a manter a fé no que
aprendi e refleti e agora compartilho de forma tão pública. Ajudar as
pessoas a se conectar com o que intuem em seu íntimo, mas não conseguem
articular, parece ser uma função razoável e valiosa para um homem público
e intelectual. E ainda há mais uma informação relacionada ao que estou realizando. Eu a obtive como consequência direta das palestras ao vivo que
tantas vezes tive a oportunidade de proferir. É um privilégio e uma dádiva
poder falar repetidamente para grandes grupos. Proporciona uma
oportunidade em tempo real de julgar o zeitgeist, o espírito da época.
Também me permite formular e testar imediatamente a comunicabilidade e
a capacidade de prender a atenção das novas ideias e, assim, julgar sua
qualidade — pelo menos em parte. Isso tudo ocorre durante a palestra,
quando observo as reações do público.
Na Regra 9 de 12 Regras para a Vida — “Presuma que a pessoa com
quem está conversando possa saber algo que você não sabe” —, sugiro que,
ao falar para um grande grupo, você esteja sempre atento aos indivíduos —
a multidão é uma espécie de ilusão. No entanto, é possível ampliar sua
atenção visual focada no indivíduo ao ouvir, simultaneamente, todo o
grupo, de forma que você o ouça sussurrar, rir, tossir ou o que quer que
esteja fazendo, enquanto se concentra em observar indivíduos específicos.
O que você deseja da pessoa à sua frente é a atenção total. O que quer ouvir
da multidão é o silêncio mortal. Quer ouvir o nada. Conseguir isso significa
que seus ouvintes não estão distraídos com o que possam estar pensando no
momento. Se você está na plateia de uma apresentação e não está
totalmente entretido pelo conteúdo, acaba se preocupando com os pequenos
desconfortos físicos e muda de posição o tempo todo. Presta atenção aos
próprios pensamentos. Começa a pensar no que precisa fazer amanhã.
Sussurra algo para a pessoa ao seu lado. Isso tudo contribui para o
descontentamento do público e para os ruídos perceptíveis. Mas se você,
como orador, estiver posicionado corretamente no palco, física e
espiritualmente, terá a atenção absoluta da plateia a tudo o que estiver
dizendo, e ninguém fará o menor ruído. Dessa forma, você consegue saber
quais ideias têm poder.
Ao observar e ouvir da maneira que acabei de descrever em todas as
palestras que ministrei, tornei-me cada vez mais consciente de que a
menção de um tópico em particular levava a plateia (e quero dizer todas,
sem exceção) a um silêncio mortal: responsabilidade — o tópico central da
Regra 4 deste livro: “Perceba que a oportunidade se esconde onde a
responsabilidade foi abdicada.” Essa reação foi fascinante — e nada
previsível. A responsabilidade não é um produto fácil de vender. Os pais
sempre se esforçaram para tornar os filhos pessoas responsáveis. A
sociedade tenta a mesma coisa, com suas instituições de ensino, estágios, organizações de voluntários e clubes. Fomentar a responsabilidade pode ser
considerado o propósito fundamental da sociedade. Mas algo deu errado.
Cometemos um erro ou uma série de erros. Por exemplo, passamos muito
tempo (grande parte dos últimos cinquenta anos) clamando por direitos, e
não estamos mais exigindo o suficiente dos jovens com quem convivemos.
Há décadas dizemos aos jovens que devem exigir o que a sociedade lhes
deve. Sugerimos que, por causa dessas exigências, os importantes
significados de suas vidas serão proporcionados a eles, quando deveríamos
ter feito o contrário: mostrar que o significado que revigora a vida em todas
as suas tragédias e decepções está em carregar um fardo nobre. Como
deixamos de fazer isso, eles cresceram procurando significado nos lugares
errados. E isso os deixou vulneráveis a respostas fáceis e suscetíveis à força
amortecedora do ressentimento. O que, no desenrolar da história, nos levou
a esse ponto? Como surgiu essa vulnerabilidade, essa suscetibilidade?
TALVEZ ELE SÓ ESTEJA DORMINDO
No último quarto do século XIX, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche
disse a famosa frase: “Deus está morto.” Esse enunciado ficou tão famoso
que você pode até vê-lo rabiscado nas paredes de banheiros públicos, onde
muitas vezes assume a seguinte forma: “Deus está morto” — Nietzsche.
“Nietzsche está morto” — Deus. O grande pensador não fez essa afirmação
de maneira narcisista ou exultante. A opinião dele derivava de seu medo de
que todos os valores judaico-cristãos, que serviam de base para a civilização
ocidental, tivessem sido perigosamente submetidos a uma crítica racional
casual, e que seu mais importante axioma — a existência de uma divindade
transcendente e todo-poderosa — fora fatalmente contestado. Nietzsche
concluiu que tudo logo desmoronaria, de uma maneira psicológica e
socialmente catastrófica.
Não é preciso ser um leitor muito atento para notar que Nietzsche
descreveu Deus, em A Gaia Ciência, como o “que o mundo possuiu de mais
sagrado e de mais poderoso até hoje”, e os seres humanos modernos como
“os assassinos entre os assassinos”.1 Não são os tipos de descrições que
você poderia esperar de um racionalista exultante que celebra a morte de
uma superstição. Foi uma declaração de desespero absoluto. Em suas outras
obras, principalmente em A Vontade de Poder, Nietzsche descreveu o que ocorreria no século seguinte e além por causa desse ato assassino.2 Ele
profetizou (e essa é a palavra correta para isso) que duas consequências
principais surgiriam — aparentemente opostas, embora cada uma delas se
interligasse de forma inextricável e causal —, ambas associadas à morte do
ritual, da história e da crença tradicionais.
Nietzsche acreditava que, à medida que o propósito da vida humana se
tornava incerto fora da estrutura intencional do pensamento monoteísta e do
mundo significativo que ela propunha, experimentaríamos um aumento
existencialmente devastador do niilismo. Como alternativa, sugeriu ele, as
pessoas recorreriam à identificação com a ideologia totalitária e rígida:
como substituta das noções humanas para o Pai transcendente de toda a
criação. O prognóstico de Nietzsche para os dois cenários que surgiriam no
rescaldo da morte de Deus: a dúvida insidiosa e a certeza esmagadora.
O incomparável romancista russo Fiódor Dostoiévski abordou a mesma
questão que Nietzsche — mais ou menos na mesma época — em sua obra-
prima Os Possessos (também conhecida como Os Demônios).3 O
protagonista desse romance, Nikolai Stavróguin, desposa os mesmos ideais
que posteriormente deram origem ao comunismo revolucionário, embora
sua vida fictícia se desenrole décadas antes do início da grande turbulência
que se tornou a União Soviética. Na opinião de Dostoiévski, o surgimento
desses ideais não foi um desenvolvimento positivo. Ele achava que a
adoção de uma ideologia utópica rígida e abrangente, baseada em alguns
axiomas supostamente óbvios, representava um perigo político e espiritual
com o potencial de exceder em muito toda a brutalidade que ocorrera em
nosso passado religioso, monárquico ou até mesmo pagão. Dostoiévski,
assim como Nietzsche, previu esses acontecimentos quase cinquenta anos
(!) antes da Revolução Leninista na Rússia. Esse nível incompreensível de
capacidade profética continua a ser um exemplo emblemático de como o
artista e sua intuição trazem à luz o futuro muito antes que os outros o
vejam.
Nietzsche e Dostoiévski previram que o comunismo pareceria
terrivelmente atraente — uma alternativa aparentemente racional, coerente
e moral à religião ou ao niilismo — e que as consequências seriam letais. O
primeiro escreveu, em seu estilo inimitavelmente ríspido, irônico e
brilhante: “Na verdade, eu gostaria que fizessem alguns experimentos para
demonstrar que na sociedade socialista a vida nega a si mesma e se corta pelas raízes. A terra é grande o suficiente e há pessoas o suficiente para que
eu considere esse tipo de lição prática e demonstratio ad absurdum válida
— ainda que só possa ser realizada com um alto custo de vidas humanas.”4
O socialismo a que Nietzsche se referia não era a versão relativamente
branda que depois se popularizou na Grã-Bretanha, na Escandinávia e no
Canadá, com sua ênfase às vezes genuína na melhoria da vida da classe
trabalhadora, mas o coletivismo total da Rússia, da China e de uma série de
países menores. Se de fato aprendemos a “lição prática” — a demonstração
do absurdo da doutrina — como consequência do “alto custo de vidas”
previsto por Nietzsche, ainda não sabemos.
Nietzsche parece ter adotado incondicionalmente a ideia de que o mundo,
na maneira postulada pelas ciências físicas emergentes, era ao mesmo
tempo objetivo e sem valor. Isso o deixou com uma única escapatória ao
niilismo e ao totalitarismo: o surgimento do indivíduo forte o suficiente para
criar seus próprios valores, projetá-los na realidade sem valor e, então,
segui-los. Ele postulou que, no rescaldo da morte de Deus, seria necessário
um novo tipo de homem — o Übermensch (a pessoa superior ou super-
homem) — para que a sociedade não flutuasse à deriva em direção às
encostas rochosas do desespero e da teorização política excessivamente
sistematizada, uma em cada extremo. Os indivíduos que seguem esse
caminho, essa alternativa ao niilismo e ao totalitarismo, devem, portanto,
produzir sua própria cosmologia de valores.
No entanto, os psicanalistas Freud e Jung acabaram com essa noção,
demonstrando que não estamos suficientemente no controle de nós mesmos
para criar valores por meio de uma escolha consciente. Além disso, há
poucas evidências de que algum de nós tenha a capacidade para criar a si
mesmo ex nihilo — do nada —, especialmente devido às limitações
extremas de nossa experiência, aos vieses de nossas percepções e à curta
duração de nossas vidas. Temos uma natureza — ou, muitas vezes, é ela que
nos “tem” — e, agora, só um tolo ousaria alegar que temos domínio
suficiente sobre nós mesmos para criar, em vez de descobrir, o que
valorizamos. Temos capacidade para a experiência reveladora espontânea
— artística, inventiva e religiosa. Descobrimos coisas novas sobre nós
mesmos o tempo todo, para nosso deleite — e também para nosso
desalento, pois muitas vezes somos dominados por nossas emoções e
motivações. Lutamos com nossa natureza. Barganhamos com ela. Mas não é nada óbvio que o indivíduo algum dia será capaz de trazer à luz os novos
valores que Nietzsche tanto ansiava.
Há outros problemas com o argumento de Nietzsche. Se cada um de nós
vive de acordo com os próprios valores criados e projetados, o que resta
para nos unir? Esse é um problema filosófico de crucial importância. Como
uma sociedade de Übermenschen poderia evitar o constante conflito entre
si, a menos que houvesse alguma semelhança nos valores criados? Por fim,
não temos evidências de que algum desses super-homens tenha existido. Em
vez disso, ao longo do último século e meio, com a crise moderna de
significado e a ascensão de Estados totalitários como a Alemanha nazista, a
URSS e a China comunista, parece que chegamos exatamente ao estado
niilista ou ideologicamente dominado que Nietzsche e Dostoiévski temiam,
com as mesmas consequências catastróficas, tanto sociológicas quanto
psicológicas, que eles previam.
Também não é de forma alguma evidente que o valor, embora pareça
subjetivo, não seja parte integrante da realidade, apesar da inegável
utilidade do método científico. O axioma científico central que nos foi
legado pelo Iluminismo — de que a realidade é o domínio exclusivo do
objetivo — representa um desafio fatal para a realidade da experiência
religiosa, se esta última for fundamentalmente subjetiva (e parece ser
exatamente isso). Mas há algo que complica a situação e que parece estar
entre o subjetivo e o objetivo: e se houver experiências que em geral se
manifestam para uma pessoa de cada vez (como parece ser o caso com
muitas revelações), mas que parecem formar um padrão significativo
quando consideradas coletivamente? Isso indica que está ocorrendo algo
que não é meramente subjetivo, embora não possa ser identificado com
facilidade por meio dos métodos existentes da ciência. Em vez disso, pode
ser que o valor de algo seja suficientemente idiossincrático — e dependente
das particularidades de tempo, de lugar e do indivíduo que o experimenta
—; talvez esse valor não possa ser fixado e replicado da maneira necessária
para que exista como um objeto. No entanto, isso não significa que o valor
não seja real: significa apenas que ele é tão complexo que ainda não se
enquadra, e pode nunca se enquadrar, na cosmovisão científica. O mundo é
um lugar muito estranho, e há momentos em que a descrição metafórica ou
narrativa típica da cultura e a representação material tão inerente à ciência
parecem se encontrar, quando tudo se junta — quando a vida e a arte
refletem igualmente uma à outra.
A psique — a alma — que cria ou é o recipiente de tais experiências
parece indiscutivelmente real: a prova está, inclusive, em nossas ações.
Todos assumimos axiomaticamente a realidade de nossas existências
individuais e experiências conscientes, e estendemos a mesma cortesia aos
outros (ou sofremos as consequências). Não é irracional sugerir que tal
existência e tal experiência tenham uma profunda estrutura biológica e
física subjacente. Aqueles com inclinação psicanalítica sem dúvida
assumem que sim, bem como muitos que estudam psicobiologia,
especialmente os que se concentram na motivação e na emoção.5 Essa
estrutura, aceita pelos cientistas e pela população em geral em igual medida,
parece manifestar a experiência religiosa como parte de sua função básica
— e essa função religiosa tem semelhanças suficientes entre as pessoas
para, ao menos, nos fazer entender o que significa “experiência religiosa”
— principalmente se já a experimentamos em algum momento da vida.
O que isso implica? Talvez que o verdadeiro sentido da vida esteja
disponível para ser descoberto, se é que a descoberta em si é possível, pelo
indivíduo, sozinho — ainda que ele se comunique com outros indivíduos,
do passado e do presente. Portanto, é bem provável que o verdadeiro
sentido da vida não seja encontrado no que é objetivo, mas, sim, no
subjetivo (e, ainda assim, universal). A existência de consciência, por
exemplo, fornece algumas evidências disso, assim como o fato de que
experiências religiosas podem ser induzidas quimicamente, bem como por
meio de práticas como dançar, entoar, jejuar e meditar. Ademais, o fato de
as ideias religiosas serem capazes de unir um grande número de pessoas sob
um único guarda-chuva moral (embora tais ideias também possam se dividir
em seitas) indica um chamado interno universal. Considerada sua aparente
semelhança e necessidade, bem como a quase certeza de que a capacidade
para atribuir valor é uma antiga função evoluída, selecionada pela própria
realidade que estamos tentando definir e compreender, por que presumimos
com tanta facilidade que nada disso é real?
Vimos as consequências das alternativas totalitárias nas quais o coletivo
deve carregar os fardos da vida, traçar o caminho adequado e transformar o
mundo terrível na utopia prometida. Os comunistas produziram uma visão
de mundo atraente tanto para as pessoas justas quanto para os invejosos e
cruéis. Talvez o comunismo pudesse até ter sido uma solução viável para os
problemas da distribuição desigual da riqueza que caracterizou a era industrial, se todos os supostamente oprimidos fossem pessoas boas e todo
o mal fosse restrito, como teorizado, aos senhores burgueses. Infelizmente
para os comunistas, uma proporção substancial dos oprimidos eram
incapazes, inconscientes, tolos, libertinos, loucos por poder, violentos,
ressentidos e invejosos, enquanto uma proporção substancial dos opressores
eram educados, capazes, criativos, inteligentes, honestos e compassivos.
Quando o frenesi da deskulakização assolou a recém-criada União
Soviética, foram assassinos vingativos e invejosos que redistribuíram a
propriedade violentamente tirada de fazendeiros, em sua maioria,
competentes e confiáveis. Uma consequência não intencional dessa
“redistribuição” de riquezas foi a fome de 6 milhões de ucranianos na
década de 1930, em meio a uma das terras mais férteis do mundo.
Os outros grandes vilões do século XX, os nacional-socialistas alemães,
também eram, é claro, ideólogos poderosos e perigosos. Sugeriu-se que os
acólitos de Hitler foram inspirados pela filosofia de Nietzsche. A afirmação
pode, de maneira distorcida, conter alguma verdade, já que certamente
estavam tentando criar valores próprios — embora não da mesma forma
que os indivíduos cujo surgimento o filósofo propunha. É mais razoável
dizer que Nietzsche identificou as condições culturais e históricas que
tornaram extremamente provável o aumento da influência de ideias
semelhantes às promovidas pelos nazistas. Os nazistas estavam tentando
criar um homem perfeito — pós-cristão, pós-religioso, o ariano ideal — e,
definitivamente, formularam esse ideal em total desacordo com os ditames
do judaísmo ou do cristianismo. Assim, o ariano perfeito poderia ser — e
assim o foi — conceituado pelos nazistas como um “homem superior”. Isso
não significa que o ideal nazista postulado tivesse qualquer semelhança com
o ideal nietzschiano. Muito pelo contrário: Nietzsche era um fervoroso
admirador da individualidade e teria considerado a ideia de um homem
superior como criação do Estado ao mesmo tempo absurda e abominável.
A ATRAÇÃO FATAL DO FALSO ÍDOLO
Considere aqueles que não foram tão longe a ponto de adotar as
desacreditadas ideologias dos marxistas-leninistas e dos nazistas, mas que
ainda acreditam nos lugares-comuns que caracterizam o mundo moderno:
conservadorismo, socialismo, feminismo (e todos os tipos de -ismos de
estudos étnicos e de gênero), pós-modernismo e ambientalismo, entre outros. São todos monoteístas, do ponto de vista prático — ou adoradores
politeístas de um número muito pequeno de deuses. Esses deuses são os
axiomas e as crenças fundamentais que devem ser aceitos, a priori, em vez
de comprovados, antes que o sistema de crenças possa ser adotado; e que,
quando aceitos e aplicados ao mundo, possibilitam a prevalência da ilusão
de que o conhecimento foi criado.
O processo pelo qual um sistema -ismo pode ser gerado é simples em seus
estágios iniciais, mas bastante sinuoso em sua aplicação para imitar (e
substituir) uma teorização produtiva real. O ideólogo começa selecionando
algumas abstrações e, em suas representações de baixa resolução, esconde
partes grandes e indiferenciadas do mundo. Entre elas “a economia”, “a
nação”, “o meio ambiente”, “o patriarcado”, “o povo”, “os ricos”, “os
pobres”, “os oprimidos” e “os opressores”. O uso de termos únicos sugere
uma supersimplificação de fenômenos que, na verdade, são incrivelmente
diversos e complexos (essa complexidade mascarada é parte do motivo pelo
qual os termos passaram a ter tanto peso emocional). Por exemplo, existem
muitas razões para as pessoas serem pobres. Falta de dinheiro é a causa
óbvia — mas essa hipotética obviedade é parte do problema com a
ideologia. Falta de educação; famílias desestruturadas; bairros dominados
pelo crime, alcoolismo, abuso de drogas, criminalidade e corrupção (e a
exploração política e econômica que os acompanha); doença mental; falta
de um plano de vida (ou mesmo a incapacidade de perceber que formular
tal plano é possível ou necessário); baixa conscienciosidade; localização
geográfica desfavorável; mudança no cenário econômico e o consequente
desaparecimento de setores inteiros de empreendimentos; tendência
acentuada de os ricos ficarem ainda mais ricos e de os pobres, cada vez
mais pobres; baixa criatividade/interesse empresarial; falta de incentivo —
esses são apenas alguns dos múltiplos problemas que geram a pobreza, e a
solução para cada um (supondo que exista uma solução) obviamente não é a
mesma. Nem os vilões que se escondem atrás de cada suposta causa
diferenciável são os mesmos (pressupondo que realmente haja vilões).
Todos esses problemas requerem uma análise cuidadosa e particularizada,
seguida pela geração de múltiplas soluções potenciais e pela avaliação
criteriosa dessas soluções para garantir o efeito desejado. É incomum ver
qualquer problema social sério abordado de forma tão metódica. Também é
raro que as soluções geradas, mesmo por um processo metódico, produzam
o resultado pretendido. A grande dificuldade de avaliar os problemas em detalhes suficientes para entender o que os causa, aliada à dificuldade
igualmente grande de gerar e testar soluções particularizadas, é o bastante
para deter até os mais intrépidos, digamos, de ousar o enfrentamento de
uma verdadeira praga da humanidade. Uma vez que o ideólogo pode se
colocar no lado moralmente correto da equação — sem o esforço genuíno
necessário para fazê-lo de forma válida —, é muito mais fácil e
instantaneamente gratificante reduzir o problema a algo simples e nomear
um malfeitor, que pode então ser moralmente antagonizado.
Após dividir o mundo em grandes partes indiferenciadas, descrever o(s)
problema(s) característico(s) de cada uma delas e identificar os vilões
adequados, o teórico do -ismo cria um pequeno número de forças ou
princípios explicativos (que podem até contribuir de fato para a
compreensão ou a existência dessas entidades abstratas). Então, ele concede
a esses princípios o poder de causa primária, enquanto ignora outros de
igual ou maior importância. Para tais fins, é mais eficaz utilizar um sistema
motivacional importante, um fato sociológico ou conjectura em grande
escala. Também é bom escolher esses princípios explicativos por meio de
um negativo, ressentido e destrutivo argumento não declarado e, em
seguida, transformar a discussão desse argumento e a razão de sua
existência em tabu para o ideólogo e seus seguidores (sem mencionar os
críticos). Em seguida, o falso teórico apresenta uma teoria post hoc sobre
como todo fenômeno, não importa quão complexo, pode ser considerado
uma consequência secundária do novo sistema totalizante. Por fim, uma
escola de pensamento emerge para propagar os métodos dessa redução
algorítmica (particularmente quando o pensador espera alcançar o domínio
nos mundos conceitual e real), e aqueles que se recusam a adotar o
algoritmo ou que criticam seu uso são tácita ou explicitamente
demonizados.
Intelectuais incompetentes e corruptos prosperam nessa atividade, nesses
jogos. Os primeiros jogadores de um determinado jogo desse tipo são
geralmente os mais brilhantes dos participantes. Eles elaboram uma história
em torno de seu princípio causal de escolha, demonstrando como aquela
força motivacional hipoteticamente primária contribuiu profundamente para
qualquer domínio da atividade humana. Às vezes, isso é até útil, pois tal
atividade é capaz de esclarecer como uma motivação outrora tabu de ser
discutida, ou considerada, pode desempenhar um papel mais relevante na
influência do comportamento humano e da percepção do que era anteriormente visto como aceitável (isso é o que aconteceu, por exemplo,
com Freud e sua ênfase em sexo). Os seguidores desses primeiros
jogadores, desesperados para se juntar a uma nova hierarquia de dominação
potencialmente acessível (já que a antiga está assoberbada por seus atuais
ocupantes), ficam fascinados por essa história. Ao fazer isso, sendo menos
inteligentes do que aqueles a quem seguem, substituem sutilmente as
expressões “contribuíram” ou “influenciaram” para “causaram”. O(s)
criador(es) da história, satisfeito(s) com a adesão de seguidores, também
começa(m) a mudá-la nesse sentido. Ou se opõe(m), o que não importa. O
culto já está criado.
Esse tipo de teorização é particularmente atraente para pessoas
inteligentes, mas preguiçosas. O cinismo e a arrogância também ajudam. Os
novos adeptos serão ensinados que dominar esse jogo é sinônimo de se
educar e aprenderão a criticar teorias alternativas, métodos diferentes, e
assim sucessivamente, até chegarem à essência do fato em si. Se a teoria
vem acompanhada de um vocabulário impenetrável, tanto melhor. Então, os
potenciais críticos levarão um valioso tempo até para aprender a decodificar
os argumentos. E há um aspecto conspiratório que rapidamente passa a se
espalhar pela escola, onde ocorre tal “educação” e onde gradualmente tal
atividade passa a ser a única permitida: não critique a teoria — e não seja
discriminado. Não se torne impopular. E até: não receba uma nota ruim ou
uma crítica ruim, expressando uma opinião tabu (e mesmo quando isso não
ocorre na prática, o medo de que possa acontecer mantém muitos alunos e
professores, ou funcionários e empregadores, sob controle).
Freud, como observamos, tentou reduzir a motivação à sexualidade, à
libido. O mesmo pode ser feito de forma bastante eficaz por qualquer
pessoa suficientemente alfabetizada, inteligente e verbalmente fluente. Isso
ocorre porque a “sexualidade” (assim como qualquer termo único
multifacetado) pode ser definida de maneira tão estrita ou tão vaga quanto
necessário por aqueles que a usam para oferecer explicações abrangentes.
Não importa como é definido, o sexo é um fenômeno biológico de crucial
importância — fundamental para a própria vida complexa — e sua
influência pode, portanto, ser genuinamente detectada ou plausivelmente
inventada em qualquer campo importante de empreendimento e, então,
exagerada (enquanto outros fatores de importância significativa têm sua
relevância diminuída). Desse modo, o princípio explicativo único pode ser
expandido de forma indefinida, de acordo com as pretensões.
Marx fez a mesma coisa quando descreveu o homem de uma maneira
fundamentalmente econômica e baseada em classe, e a história como o
eterno campo de batalha da burguesia e do proletariado. Tudo pode ser
explicado por meio de um algoritmo marxista. Os ricos são ricos porque
exploram os pobres. Os pobres são pobres porque são explorados pelos
ricos. Toda desigualdade econômica é indesejável, improdutiva e uma
consequência de injustiça e corrupção fundamentais. É claro que há —
como no caso de Freud — algum valor nas observações de Marx. A classe é
um elemento importante das hierarquias sociais e tende a se manter com
certa estabilidade ao longo do tempo. O bem-estar econômico, ou a falta
dele, é de crucial importância. E o fato condenável da distribuição de
Pareto6 — a tendência de quem tem mais a obter mais (o que parece se
aplicar a qualquer sistema econômico) — significa que a riqueza se
acumula nas mãos de uma minoria. As pessoas que compõem essa minoria
mudam de maneira substancial, independentemente da mencionada
estabilidade de classe,7 e esse é um ponto crucial, mas o fato de os
relativamente ricos sempre serem uma minoria — e uma pequena minoria,
aliás — parece terrivelmente imutável.
No entanto, sejam quais forem suas virtudes hipotéticas, a implementação
do marxismo foi um desastre em todos os lugares onde foi experimentada
— e isso motivou as tentativas de seus impenitentes aspirantes a adeptos
atuais de revestir suas ideias com uma nova roupagem e continuar em
frente, como se nada de significativo tivesse mudado. Pensadores
fortemente influenciados por Marx e com esmagadora influência em grande
parte da academia hoje (como Michel Foucault e Jacques Derrida)
modificaram a simplificação marxista, essencialmente, ao substituírem
“economia” por “poder” — como se o poder fosse a única força motivadora
por trás de todo comportamento humano (em oposição, digamos, à
autoridade competente, ou à reciprocidade de atitude e ação).
A redução ideológica desse tipo é a marca registrada do mais perigoso dos
pseudointelectuais. Os ideólogos são o equivalente intelectual dos
fundamentalistas — inflexíveis e rígidos. Seu senso de superioridade moral
e sua reivindicação moral à engenharia social são igualmente profundos e
perigosos. Pior ainda: os ideólogos reivindicam a própria racionalidade.
Então, tentam justificar suas afirmações como lógicas e ponderadas. Pelo
menos os fundamentalistas admitem devoção a algo em que acreditam de maneira arbitrária. São muito mais honestos. Além disso, os
fundamentalistas são limitados por uma relação com o transcendente. O que
significa que Deus, o centro de seu universo moral, permanece fora e acima
do entendimento completo, de acordo com o próprio credo fundamentalista.
Judeus de direita, islamitas rigorosos e cristãos ultraconservadores acabam
por admitir, quando pressionados, que Deus é essencialmente um mistério.
Essa concessão fornece pelo menos algum limite para suas reivindicações,
como indivíduos, de retidão e poder (já que o fundamentalista genuíno
permanece subordinado a Algo que ele não pode alegar compreender
totalmente, muito menos dominar). Para o ideólogo, porém, nada está fora
da compreensão ou do domínio. Uma teoria ideológica explica tudo: todo o
passado, todo o presente e todo o futuro. Isso significa que um ideólogo
pode se considerar detentor da verdade absoluta (algo proibido ao
fundamentalista fiel a si mesmo). Não há pretensão mais totalitária ou
situação em que os piores excessos de orgulho tenham maior probabilidade
de se manifestar (e não só o orgulho, mas também o ardil, uma vez que a
ideologia é incapaz de explicar o mundo ou prever o futuro).
Moral da história? Cuidado com os intelectuais que transformam em
monoteísmo suas teorias de motivação. Cuidado, em termos mais técnicos,
com as causas univariadas (de variável única) para problemas diversos e
complexos. Claro, o poder desempenha um papel na história, assim como a
economia. Mas o mesmo pode ser dito sobre ciúme, amor, fome, sexo,
cooperação, revelação, raiva, repulsa, tristeza, ansiedade, religião,
compaixão, doença, tecnologia, ódio e acaso — nenhum dos quais pode ser
definitivamente reduzido a outro. No entanto, a tentação de se fazer isso é
óbvia: simplicidade, facilidade e a ilusão de domínio (que pode ter
consequências psicológicas e sociais muito úteis, especialmente em curto
prazo) — e, não esqueçamos, a frequente descoberta de um vilão, ou
conjunto de vilões, sobre os quais descarregar as motivações ocultas da
ideologia.
RESSENTIMENTO
O ressentimento8 — ressentimento hostil — ocorre quando o fracasso
individual ou o status insuficiente é atribuído ao sistema no qual essa falha
ou status inferior ocorre e, mais particularmente, às pessoas que alcançaram sucesso e status elevado dentro desse sistema. O sistema é arbitrariamente
taxado como injusto. Os bem-sucedidos são considerados exploradores e
corruptos, pois podem ser julgados, de maneira lógica, como beneficiários
indignos, bem como apoiadores voluntários, conscientes, egoístas e imorais,
de um sistema injusto. Uma vez que essa cadeia causal de pensamento
tenha sido aceita, todos os ataques aos bem-sucedidos podem ser
interpretados como tentativas moralmente justificadas de fazer justiça —
em vez de, digamos, manifestações de inveja e cobiça que poderiam ter sido
tradicionalmente definidas como vergonhosas.
Há outra característica típica da busca ideológica: as vítimas apoiadas por
ideólogos são sempre inocentes (e às vezes elas são de fato inocentes), e os
acusados são sempre maus (outro tipo que não falta em nosso mundo). Mas
o fato de que existam vítimas e acusados genuínos não é desculpa para fazer
declarações generalizadas de baixa resolução sobre o palco global de
vítimas sem culpa e acusados malignos — especialmente quando não se
leva em consideração a presunção de inocência do acusado. Não se pode
presumir a culpa de um grupo — e certamente não uma que se estenda por
várias gerações.9 Esse é um sinal claro das más intenções do acusador e um
prenúncio de uma catástrofe social. Mas a vantagem é que o ideólogo, com
poucos custos práticos, pode se conceber tanto como nêmesis do opressor
quanto como defensor do oprimido. Quem precisa das distinções sutis
exigidas pela determinação de culpa ou inocência individual quando um
prêmio tão grandioso é convidativo?
Seguir o caminho do ressentimento é arriscar uma amargura tremenda.
Isso é, em grande parte, uma consequência da identificação do inimigo
externo, e não interno. Por exemplo, se a riqueza é o problema e os ricos
são percebidos como a razão da pobreza e de todos os outros problemas do
mundo, então os ricos se tornam o inimigo — indistinguíveis, em algum
sentido profundo, de um nível demoníaco do mal no que tange à sua
importância psicológica e social. Se o problema é o poder, então aqueles
que estabeleceram qualquer autoridade são a causa singular do sofrimento
do mundo. Se a masculinidade é o problema, então todos os homens (ou
mesmo o conceito de masculino) devem ser atacados e vilipendiados.I Tal
divisão do mundo em um diabo externo e um santo interno justifica o ódio
proveniente do senso de superioridade moral — exigido pela moralidade do
próprio sistema ideológico. Esta é uma armadilha terrível: uma vez identificada a fonte do mal, torna-se dever dos justos erradicá-la. É um
convite à paranoia e à perseguição. Um mundo onde só você e as pessoas
com pensamento semelhante ao seu são bons é também um lugar onde você
está cercado por inimigos empenhados em sua destruição, que precisam ser
combatidos.
É moralmente muito mais seguro olhar para si mesmo em busca dos
pecados do mundo, pelo menos para alguém honesto e livre de cegueira
intencional. É provável que você se torne muito mais lúcido sobre o que é o
que, quem é quem e onde está a culpa depois de contemplar a viga em seu
próprio olho, em vez do cisco no olho de seu irmão. É provável que suas
próprias imperfeições sejam evidentes e abundantes e possam ser encaradas
para seu benefício como o primeiro passo na sua jornada de Redentor para
melhorar o mundo. Carregar sobre os ombros os pecados do mundo —
assumir a responsabilidade pelo que não está certo na sua própria vida e ao
seu redor — faz parte do caminho messiânico: parte da imitação do herói,
no mais profundo dos sentidos. Essa é uma questão psicológica ou
espiritual, e não sociológica ou política. Considere os personagens
inventados por criadores de ficção de segunda categoria: eles são divididos
em bons e maus. Em contraste, escritores sofisticados mostram essa divisão
dentro dos personagens que criam, de modo que cada pessoa se torna o
locus da luta eterna entre a luz e as trevas. É muito mais apropriado
psicologicamente (e muito menos perigoso socialmente) presumir que você
é o inimigo — que são suas fraquezas e insuficiências que estão
prejudicando o mundo — do que presumir a sua bondade sagrada e a do seu
grupo, e perseguir o inimigo, que, a partir desse ponto, você estará inclinado
a enxergar em todos os lugares.
É impossível lutar contra o patriarcado, minimizar a opressão, promover a
igualdade, transformar o capitalismo, salvar o meio ambiente, eliminar a
competitividade, reduzir o governo ou administrar todas as organizações
como um negócio. Esses conceitos têm uma resolução muito baixa. Certa
vez assisti ao grupo de comédia Monty Python apresentando aulas de flauta
em um tom satírico: sopre uma das pontas e mova os dedos para cima e
para baixo nos buracos.10 Verdadeiro. Mas inútil. Não tem o detalhamento
necessário. Da mesma forma, processos e sistemas sofisticados de grande
escala não têm uma existência real o suficiente para possibilitar sua
transformação unitária abrangente. Mas os cultos do século XX vendem a ideia de que isso é possível. As crenças desses cultos são ao mesmo tempo
ingênuas e narcisistas, e o ativismo que eles promovem é usado por pessoas
ressentidas e preguiçosas como substituto para realizações efetivas. Os
únicos axiomas de indivíduos possuídos pela ideologia são encarados como
deuses, que devem ser servidos cegamente por seus proselitistas.
No entanto, assim como Deus, a ideologia está morta. Foi assassinada
pelos excessos sangrentos do século XX. Devemos deixá-la em paz, e
começar a abordar e considerar os problemas menores, que são definidos de
maneira mais precisa. Devemos conceituá-los na escala em que podemos
começar a resolvê-los, não culpando os outros, mas tentando lidar com eles
a partir de um ponto de vista pessoal e, ao mesmo tempo, assumindo a
responsabilidade pelo resultado.
Tenha um pouco de humildade. Limpe seu quarto. Cuide de sua família.
Siga sua consciência. Endireite sua vida. Encontre algo produtivo e
interessante para fazer e comprometa-se. Quando você puder fazer tudo
isso, procure um problema maior e tente resolvê-lo se tiver coragem. Se isso
também funcionar, passe para projetos ainda mais ambiciosos. E, como
início imperioso desse processo… abandone a ideologia.
I E não pense que o jogo não pode ser (e não seja) jogado de maneira reversa. O mesmo se aplica à feminilidade em muitos lugares do mundo: em árabe, por exemplo, a palavra awrah denota as partes íntimas do corpo, que devem ser vestidas. A raiz do termo awr significa algo que se aproxima de “fraqueza”, “imperfeição” ou “defeito”. “Nudez” seria a tradução mais comum em português. Outros significados incluem “falsidade”, “artificialidade” ou “cegueira”. De acordo com o dicionário compilado por Mohammad Moin, um conhecido estudioso iraniano de literatura persa e estudos iranianos, awrah significa “nudez” ou “vergonha” e “mulher jovem”. Em consonância com essa rede de ideias, a palavra awrat, derivada de awrah, foi amplamente usada em várias culturas de influência árabe com o significado de “mulher”. É por essas razões que as mulheres são vistas, por exemplo, por aqueles que seguem a vertente wahhabi do Islã — ultraconservadora, austera e puritana — como responsáveis pelo mal e pela tentação do mundo, a ponto de que seus movimentos devam ser drástica e severamente restringidos, mesmo que elas não tenham permissão de se apresentar de maneira relevante na esfera pública.