Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida

Jordan B. Peterson · Capítulo 15 de 16

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Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida

Regra 12: Seja grato apesar de seu sofrimento

REGRA 12

 

SEJA GRATO APESAR DE SEU

 

SOFRIMENTO

 

O QUE ESTÁ ABAIXO PODE DEFINIR O QUE

 

ESTÁ ACIMA

 

Há décadas procuro certezas. Não tem sido só uma questão de pensar, no

sentido criativo, mas de pensar e tentar minar e destruir esses pensamentos,

um processo seguido de cuidadosa consideração e conservação dos que

sobrevivem a ele. É a identificação de um caminho à frente através de uma

passagem pantanosa, em busca de pedras sob a superfície escura para se

apoiar em segurança. No entanto, embora eu considere a inevitabilidade do

sofrimento e a sua exacerbação pela maleficência como verdades

existenciais inabaláveis, acredito ainda mais profundamente que as pessoas

têm a capacidade de transcender o sofrimento, em termos psicológicos e

práticos, e de conter a própria maleficência, bem como os males que

caracterizam o mundo social e o natural.

Os seres humanos têm a capacidade de enfrentar corajosamente seu

sofrimento — de transcendê-lo psicologicamente e de amenizá-lo na

prática. Esse é o axioma mais fundamental da psicoterapia, seja qual for a

escola de pensamento, bem como a chave para o mistério do sucesso e do

progresso humanos ao longo da própria história. Ao enfrentar as limitações

da vida com coragem, você obtém um certo propósito psicológico que serve

como um antídoto para o sofrimento. Seu enfoque voluntário no abismo,

por assim dizer, indica a você mesmo, nos níveis mais profundos, que é

capaz de enfrentar as dificuldades da existência e a responsabilidade

decorrente dela sem se esquivar. Esse mero ato de coragem é profundamente reconfortante nos níveis mais fundamentais do ser

psicológico. Ele indica sua capacidade e competência para os sistemas de

alarme biológico e psicológico profundos, antigos e, de certa forma,

independentes que registram o perigo do mundo.

Porém, a utilidade desse confronto não é de forma alguma meramente

psicológica, por mais importante que isso seja. É também a abordagem

pragmática apropriada: se agir com nobreza — uma palavra raramente

usada hoje, infelizmente — em face do sofrimento, você pode trabalhar de

forma prática e eficaz para amenizar e corrigir seus próprios problemas e os

de outras pessoas. Você pode tornar o mundo material — o mundo real —

melhor (ou pelo menos impedir que piore). O mesmo vale para a

maleficência: você pode restringi-la dentro de você. Quando está prestes a

dizer algo, sua consciência pode informá-lo (e com frequência o faz),

dizendo: “Isso não é verdade.” Ela pode se apresentar como uma voz real

(interna, é claro) ou um sentimento de vergonha, culpa, fraqueza ou outra

desunião interna — a consequência fisiológica da dualidade da psique que

você está manifestando. Há, então, a oportunidade de parar de proferir essas

palavras. Se não pode dizer a verdade, pelo menos não minta

conscientemente.1 Isso é parte da contenção da maleficência. É algo ao

nosso alcance. Começar a parar de mentir conscientemente é um passo

importante na direção certa.

Podemos restringir nosso sofrimento e enfrentá-lo psicologicamente. Isso

nos torna corajosos. Então, podemos amenizá-lo na prática, pois é o que

fazemos quando cuidamos de nós mesmos e de outras pessoas. Parece não

haver quase nenhum limite para isso. Você pode vir a cuidar de si e de sua

família de maneira genuína e competente. Pode, então, estender essa atitude

para a comunidade mais ampla. Algumas pessoas se tornam incrivelmente

boas nisso. Pessoas que trabalham em cuidados paliativos são um excelente

exemplo. Elas trabalham continuamente, cuidando de doentes que estão

sofrendo e morrendo, e perdem alguns deles todos os dias. Mas conseguem

sair da cama todas as manhãs, trabalhar e enfrentar a dor, a tragédia e a

morte. Elas fazem a diferença em circunstâncias quase impossíveis. É por

essas razões e por causa de exemplos assim — observar as pessoas

confrontarem a catástrofe existencial da vida de forma direta e eficaz — que

sou mais otimista do que pessimista e que acredito que o otimismo é,

fundamentalmente, mais confiável do que o pessimismo. Chegar a essa conclusão e depois considerá-la inabalável é um bom exemplo de como e

por que pode ser necessário encontrar as trevas antes de conseguir ver a luz.

É fácil ser otimista e ingênuo. Entretanto, quando o otimismo é ingênuo,

também é fácil que seja minado e destruído, e que o cinismo surja em seu

lugar. Mas o ato de perscrutar as trevas o mais profundamente possível

revela uma luz que parece inextinguível, e isso é uma grande surpresa, bem

como um grande alívio.

O mesmo se aplica à questão da gratidão. Não acredito que você possa ser

apropriadamente grato ou agradecido pelo bem que desfruta e pelo mal que

não o acometeu até que tenha uma sensação profunda e até mesmo

aterrorizante do peso da existência. Você não consegue avaliar de forma

adequada o que tem, a menos que tenha alguma noção não só de quão

terríveis as coisas podem ser, mas de quão terríveis é provável que sejam,

dada sua propensão. É algo que vale muito a pena saber. Caso contrário,

você pode se sentir tentado a perguntar: “Por que eu olharia para as trevas?”

Mas parecemos atraídos a olhar. Somos fascinados pelo mal. Assistimos a

representações dramáticas de assassinos em série, psicopatas, reis do crime

organizado, membros de gangues, estupradores, assassinos contratados e

espiões. Nós nos expomos, deliberadamente, ao medo e à repulsa com

filmes de suspense e terror — e isso é mais do que curiosidade lasciva. É o

desenvolvimento de certa compreensão da estrutura essencialmente moral

da existência humana, de nosso estado de suspensão entre os polos do bem

e do mal. O desenvolvimento dessa compreensão é necessário; nos situa em

relação ao que está abaixo e acima de nós, e nos orienta em percepção,

motivação e ação. Também nos protege. Se você não é capaz de

compreender o mal, se expõe a ele. Acaba suscetível aos seus efeitos ou à

sua vontade. Se encontrar uma pessoa maligna, ela terá controle sobre você

na proporção exata em que não está disposto ou é incapaz de compreendê-

la. Assim, você olha para os lugares sombrios para se proteger, caso a

escuridão apareça, bem como para encontrar a luz. Há uma utilidade real

nisso.

 

O ESPÍRITO MEFISTOFÉLICO

 

O grande escritor alemão Goethe, que é para a cultura germânica o que

Shakespeare é para a inglesa, escreveu Fausto,uma famosa peça que conta

a história de um homem que vende sua alma ao diabo em troca de conhecimento.2 Na peça de Goethe, Mefistófeles é o diabo — o adversário.

O adversário é uma figura mítica; o espírito que trabalha eternamente contra

nossa intenção positiva (ou, talvez, contra a intenção positiva em geral).

Você pode entender esse aspecto em termos psicológicos, bem como

metafísicos ou religiosos. Dentro de nós, todos vemos surgir boas intenções

e instruções reiteradas para agirmos de acordo, mas, com frequência,

notamos que deixamos de fazer o que sabemos que devemos e, em vez

disso, fazemos o que sabemos que não devemos. Dentro de nós, existe algo

que funciona em contraposição aos nossos desejos expressos

voluntariamente. Na verdade, são muitas coisas — um coro de demônios,

por assim dizer — trabalhando com propósitos opostos até mesmo entre si;

muitas motivações obscuras e não articuladas e sistemas de crença, todos se

manifestando como personalidades parciais (mas com todas as

características essenciais da personalidade, apesar de sua natureza parcial).

Perceber isso é inquietante. Essa constatação é a grande contribuição dos

psicanalistas, que insistiram acima de tudo, talvez, que éramos habitados

por espíritos que estavam além não só de nosso controle, como também de

nosso conhecimento consciente. E essa percepção traz à tona questões

importantes e paralisantes: se você não está no controle de si mesmo, quem

ou o que está? E se de fato não é você no controle, a própria ideia da

centralidade, da unidade e até mesmo da realidade do seu “eu”, cuja

existência parece tão imediatamente certa, é contestada. E qual é a

pretensão desse quem ou o quê? E com que propósito? Todos esperamos ser

o tipo de criatura que é capaz de dizer a nós mesmos o que fazer e que age

exatamente de acordo com nossa vontade. Afinal, você é você e deve — por

definição — estar no controle de si mesmo. Mas, muitas vezes, as coisas

não funcionam assim, e o motivo ou os motivos são profundamente

misteriosos.

Às vezes, é claro, é muito mais fácil apenas deixar de fazer o que

deveríamos. Boas ações podem ser e geralmente são difíceis de realizar, e

há perigo — a exaustão é um deles — na dificuldade. A inércia também é

uma razão poderosa para a estagnação e pode fornecer uma certa segurança

imediata. Mas o problema é mais complicado. Não se trata apenas de ser

preguiçoso: você também é mau — e assim se declarou por seu próprio

julgamento. Essa é uma percepção muito desagradável, mas não há

esperança de se tornar bom sem ela. Você se repreenderá (ou sua consciência o fará) por suas deficiências. Tratará a si mesmo como se fosse,

ao menos em parte, um agente imoral. Tudo isso também é profundamente

desagradável, e você pode muito bem se sentir motivado a evitar o próprio

julgamento. Porém, nenhuma racionalização simples permitirá que você

fuja.

Você verá, se estiver disposto a observar, o adversário atuando no seu

interior, empenhando-se para minar suas melhores intenções. A natureza

exata dessa força é motivo para intermináveis especulações — filosóficas,

literárias, psicológicas e, acima de tudo, religiosas ou teológicas. A

concepção cristã da grande figura do mal — Mefistófeles, Satanás, Lúcifer,

o diabo — é, por exemplo, uma profunda personificação imaginária desse

espírito. Mas o adversário não é apenas algo que existe na imaginação —

certamente não só na imaginação individual. Por meio de algo que ainda

pode ser descrito como “possessão”, ele também se manifesta na motivação

para ações malignas, bem como nos atos em si. Todo mundo que, após agir

de maneira particularmente inadequada, pensou ou disse algo semelhante a

“não sei o que deu em mim” nota a existência dessa possessão, mesmo que

não consiga expressar ou não articule essa observação. Em consequência,

podemos nos perguntar, totalmente consternados: “Por que esse espírito

existe? Por que integraria cada um de nós?”

A resposta parece estar associada, em parte, à poderosa sensação de que

cada um de nós compartilha de nossas próprias limitações mortais

intrínsecas, de nossa submissão ao sofrimento infligido a nós por nós

mesmos, pela sociedade e pela natureza. Isso provoca amargura e produz

certo desprezo ou desgosto por si mesmo, inspirado por nossas próprias

fraquezas e inadequações (e ainda não estou falando de imoralidade, apenas

de nossa fragilidade intrínseca e terrível), e também pela aparente injustiça,

imprevisibilidade e arbitrariedade de nossas falhas. Dadas todas essas

percepções decepcionantes, não há razão para supor que você ficará

satisfeito ou feliz consigo mesmo ou com o próprio Ser. Essa insatisfação

— essa infelicidade — pode, facilmente, ganhar força e extrapolar até se

tornar um círculo vicioso. A cada passo que você dá contra si mesmo ou

contra os outros como consequência de sua infelicidade e ressentimento, há

mais do que se envergonhar e mais razões para o antagonismo autodirigido.

Não é à toa que cerca de uma pessoa em cinco se envolve em alguma forma

de automutilação física séria durante a vida.3 E isso não inclui o ato mais grave — o suicídio em si (ou a tendência mais comum para a ideação

suicida). Se você está insatisfeito consigo mesmo, por que trabalharia em

seu melhor interesse? Talvez, em vez disso, algo vingativo emerja de você;

talvez algo justificável, porque impõe o sofrimento hipoteticamente

merecido, projetado para interferir em seu progresso. Se, em uma

personalidade única, você agregar e unir conceitualmente tudo que, no seu

interior, se opõe a você, às suas amizades e ao seu cônjuge, surge o

adversário. É precisamente Mefistófeles na peça de Goethe — o diabo. Esse

é o espírito que trabalha contra — e é exatamente assim que ele se

descreve: “Sou o espírito que tudo nega.”4 Por quê? Porque tudo no mundo

é tão limitado e imperfeito — e, com isso, causa tantos problemas e terror

— que sua aniquilação não é apenas justificada, mas uma exigência ética.

Pelo menos essa é a racionalização.

Essa não é uma mera abstração sem vida. As pessoas travam uma batalha

mortal com essas ideias. As mulheres se debatem com essas ideias quando

pensam em ter um bebê, perguntando-se: “Devo realmente trazer um bebê a

um mundo como este? Isso é uma decisão ética?” Os seguidores da escola

filosófica do antinatalismo, da qual o filósofo sul-africano David Benatar

 

talvez seja o principal defensor,5 com certeza responderiam “não” a ambas

as perguntas. Alguns anos atrás, ele e eu debatemos suas opiniões.6 Não que

eu não tivesse entendido sua posição. Não há dúvida de que o mundo está

mergulhado em sofrimento. Alguns anos depois, debati com outro filósofo,

Slavoj Žižek — muito mais conhecido por suas predileções marxistas do

que por suas convicções religiosas. Durante nosso debate, ele disse algo que

pode ser teologicamente discutível, mas que achei de grande interesse. Na

tradição cristã, até o próprio Deus, na forma de Cristo, se desespera a

respeito do sentido da vida e da bondade de Seu Pai durante a agonia de Sua

crucificação. No auge do sofrimento, pouco antes da morte, Ele pronuncia

as palavras: “Eli, Eli, lamá sabactâni (isto é, meu Deus, meu Deus, por que

tu me abandonaste?)”7 — Mateus 27:46. Isso parece implicar fortemente,

em sua forma narrativa, que o fardo da vida pode se tornar tão pesado que

até o próprio Deus é capaz de perder a fé quando confrontado com a

realidade insuportável da injustiça, da traição, do sofrimento e da morte.

É difícil imaginar uma história mais empática para meros mortais. Se o

próprio Deus experiencia momentos de dúvidas em meio à Sua agonia

autoimposta, como nós, meros humanos, não recairíamos nas mesmas falhas? E é possível que a compaixão tenha sido o que motivou a posição do

antinatalista David Benatar. Não vi sinais óbvios de que ele fosse maligno.

Parecia realmente acreditar — de um modo que me lembrou do

Mefistófeles de Goethe — que a combinação de consciência,

vulnerabilidade e mortalidade é tão terrível que simplesmente não há

desculpa moral para sua continuidade. Porém, é possível que a opinião de

Mefistófeles não seja confiável. Visto que ele é o próprio Satanás, não há

razão para supor que o argumento que apresenta para justificar sua postura

adversária em relação ao Ser seja válido, ou mesmo supor que ele de fato

acredite nisso. E talvez fosse o caso de Benatar, que foi e é, sem dúvidas,

vítima das fragilidades que caracterizam cada um de nós (e isso certamente

me inclui, apesar de minha posição oposta). Mas eu acreditava, e ainda

acredito firmemente, que as consequências de sua posição de autonegação

são simplesmente terríveis. Ela leva diretamente a uma antivida ou mesmo a

um niilismo anti-Ser tão profundo, que sua manifestação não consegue

evitar exagerar e amplificar as consequências destrutivas da existência que

já são foco dos hipoteticamente compassivos antinatalistas. (E não estou

sendo sarcástico ou cínico sobre a existência dessa compaixão, embora

entenda que ela esteja mal direcionada.)

A hipótese de Benatar era que a vida é tão cheia de sofrimento que, na

verdade, é um pecado — em todos os sentidos — trazer quaisquer novos

seres conscientes à existência, e que a ação ética mais apropriada dos seres

humanos seria simplesmente parar de fazer isso: nos levar de forma

deliberada à extinção. Em minha opinião, esse ponto de vista é mais

difundido do que se imagina, embora raramente se sustente por muito

tempo. Sempre que você é derrubado por uma das muitas catástrofes da

vida, que um sonho desmorona ou alguém próximo é ferido de alguma

forma fundamental — em especial um filho ou um ente querido —, você

pode acabar pensando: “Talvez fosse melhor se toda essa desordem

chegasse ao fim.”

Certamente é isso que as pessoas pensam quando consideram o suicídio.

Esses pensamentos são gerados, em sua variante mais extrema, pelos

assassinos em série, pelos atiradores em colégios, por todos os agentes

homicidas e genocidas em geral. Eles estão expressando a atitude

antagônica da forma mais plena que podem. Estão possuídos, de uma forma

que ultrapassa o meramente metafórico. Decidiram não apenas que a vida é

insuportável e a maleficência da existência, indesculpável, mas que tudo deve ser punido pelo simples pecado do Ser. Se quisermos ter alguma

esperança de lidar com a existência do mal e trabalhar para minimizá-lo,

devemos entender esses tipos de impulsos. É, em grande parte, a

consciência do sofrimento e da maldade que torna as pessoas amargas. E é

em direção a essa amargura que acredito que a posição antinatalista, se

adotada em larga escala, inevitavelmente descambará. Primeiro, pode ser a

mera recusa em reproduzir. Mas não acredito que demoraria muito até que

esse impulso de cessar a reprodução de uma nova vida se transformasse em

motivação semelhante para destruir a vida que já existe, em consequência

do julgamento “compassivo” de que algumas vidas são tão terríveis que sua

extinção é misericordiosa. Essa filosofia surgiu relativamente cedo na era

nazista, por exemplo, quando indivíduos considerados intoleravelmente

danificados pela vida foram sacrificados para fins “moralmente

misericordiosos”. Essa linha de pensamento leva à questão: onde vai parar

essa “misericórdia”? Quão doente, velho, intelectualmente debilitado,

aleijado, infeliz, improdutivo ou politicamente inadequado você tem que ser

para que dispensá-lo seja um imperativo moral? E, após a erradicação ou

mesmo apenas a limitação da vida se tornar sua estrela-guia, por que você

acreditaria que não continuaria nessa estrada até o seu fim infernal?

Achei os escritos dos assassinos do colégio de Columbine particularmente

instrutivos a esse respeito. São rabiscos descuidados, incoerentes e

narcisistas, mas há definitivamente uma filosofia subjacente: as coisas

merecem sofrer pelo crime de sua existência. A consequência dessa crença

é a elaboração e a extensão criativas desse sofrimento. Um dos assassinos

escreveu que se considerava o juiz de tudo o que existe — um juiz que

decidiu que o Ser, em especial na forma humana, era falho — e que seria

melhor se toda a raça humana fosse erradicada. Isso definiu o escopo de sua

visão horrível. Ele e seu parceiro atiraram em seus colegas de classe na

escola local, mas esta foi apenas uma pequena fração do que estavam

planejando. Espalharam dispositivos incendiários pela comunidade e,

juntos, fantasiaram a destruição da cidade inteira. Esses planos são apenas

um passo no caminho para a visão genocida definitiva.

Você não tem esse tipo de visão, a menos que esteja profundamente

possuído por algo muito semelhante ao espírito adversário. É Mefistófeles,

cujo ponto de vista essencial pode ser parafraseado da seguinte forma: “A

vida é tão terrível, por causa de suas limitações e maleficência, que seria

melhor se não existisse.” Essa é a doutrina central do espírito que atua em oposição a você. É um argumento discutível e não surpreende que surja — e

parece tragicamente crível em momentos de crise —, embora eu acredite

que esteja profundamente errado. Em parte porque, quando se concretiza,

tudo o que faz é exacerbar uma situação já reconhecidamente ruim. Se você

começar a piorar as coisas, é provável que elas, de fato, piorem. Não

consigo ver como isso constitui uma melhoria, se sua primeira objeção foi

motivada pelo terror essencial de nossa própria situação existencial. Não

parece ser um caminho que uma criatura consciente, com um pouco de

gratidão, possa percorrer. Há uma incoerência nesse argumento que é

insustentável do ponto de vista lógico e que, portanto, parece torná-lo

fundamentalmente ilusório e leva o ouvinte a pensar: “Há coisas

acontecendo aqui nos bastidores que são, ao mesmo tempo, tácitas e

indizíveis, apesar da lógica superficial.”

As falhas na lógica do adversário não significam que construir um ponto

de vista inabalável para combatê-lo seja uma questão simples. No sentido

mais direto, identificar essa visão de objeção e vingança é útil, da mesma

forma que o espaço negativo em uma pintura é útil: ele define o positivo,

por contraste. O bem pode ser conceituado — embora vagamente em sua

formulação inicial — como o oposto de tudo o que constitui o mal, que em

geral é identificável com mais facilidade no mundo do que o bem. Tenho

tentado encontrar critérios nesse caminho de oposição ao mal, para que as

pessoas possam identificar o que pode ser esse bem. Alguns deles são muito

práticos, embora difíceis. Tenho sugerido aos meus espectadores e

ouvintes,8 por exemplo — em especial os que estão sobrecarregados por

uma doença fatal de um genitor —, que é útil assumir conscientemente a

tarefa de ser a pessoa que mais se pode confiar após a morte, durante os

dolorosos preparativos e para o funeral em si, bem como para o cuidado de

familiares durante e após a tragédia. Nessa atitude, há um apelo ao seu

potencial. Há um chamado para a força do próprio Ser — o Ser que pode se

manifestar em você. A raça humana tem lidado com perdas e mortes desde

sempre. Somos descendentes dos que souberam lidar com isso. Essa

capacidade está dentro de nós, por mais sombria que a tarefa possa parecer.

Se você realmente ama alguém, pode parecer uma grave traição

permanecer integrado e saudável, em essência, diante da ausência, ou da

presença que tristemente se apaga. O que essa capacidade de se manter

integrado indica, afinal, sobre a verdadeira profundidade do seu amor? Se você é capaz de testemunhar a morte de alguém querido e sobreviver à

perda, isso não significa que o vínculo era superficial e temporário, e até

mesmo substituível? Caso essa ligação fosse verdadeira, a perda não

deveria destruí-lo (como às vezes acontece de fato)? Mas não podemos

desejar que toda perda inevitável leve à destruição de todos os afetados,

porque, assim, estaríamos todos condenados, de maneira muito mais

imediata do que estamos hoje. E certamente não é o caso que o último

desejo dos moribundos seja ou deva ser o sofrimento interminável daqueles

que amam. Minha impressão, em vez disso, é que as pessoas tendem a se

sentir culpadas em seu leito de morte (devido à sua inutilidade imediata e ao

fardo que isso causa, mas ainda mais devido à sua apreensão sobre a dor e

os problemas que causarão aos que ficarem para trás). Assim, seu desejo

mais fervoroso, acredito, é que as pessoas que amam possam seguir em

frente e viver felizes, após um tempo razoável de luto.

Desabar após uma perda trágica é, portanto, em termos mais precisos, uma

traição à pessoa que morreu, em vez de um tributo, pois multiplica o efeito

da catástrofe fatal. É preciso uma pessoa moribunda munida de egoísmo

narcisista para desejar tristeza sem fim para seus entes queridos. A força

diante da morte é melhor para a pessoa que está morrendo e para aqueles

que continuam vivendo da mesma forma. Há familiares que estão sofrendo

por causa de sua perda e que precisam de cuidados, e que podem estar

muito velhos, enfermos e com problemas para lidar com a situação de

maneira adequada. E, então, alguém forte tem que intervir e exercer a

terrível autoridade que faz até da morte algo a ser enfrentado e vencido.

Entender com clareza que você é moralmente obrigado, sob tais

circunstâncias, a manifestar força diante da adversidade é indicar a si

mesmo — e, talvez, a outras pessoas — que há algo em você de grandeza e

poder suficientes para enfrentar o pior e ainda prevalecer. Isso é o que as

pessoas precisam encontrar em um funeral. Há pouco a dizer, de forma

explícita, diante da morte. Todos ficam sem palavras quando encontram a

extensão infinita de vazio que cerca nossa breve existência. Mas retidão e

coragem em tal situação animam e amparam.

Sugeri que a força no funeral de alguém querido e próximo é um objetivo

digno mais de uma vez durante uma palestra (disponível no YouTube ou no

podcast). Em consequência, um número significativo de pessoas me disse

que conseguiu encontrar coragem em momentos de desespero por causa

disso. Elas definiram a confiabilidade e a força em uma crise como uma meta consciente e foram capazes de administrar exatamente isso, de modo

que as pessoas devastadas ao seu redor tivessem alguém em quem se apoiar

e ver como exemplo em face de problemas genuínos. Isso, no mínimo,

tornava a situação ruim muito menos terrível do que poderia ter sido. É algo

notável. Se você vê alguém se erguendo em face da catástrofe, da perda, da

amargura e do desespero, então terá evidências de que tal reação é possível.

E pode imitá-la, mesmo em circunstâncias terríveis. Coragem e nobreza

diante da tragédia é o reverso do cinismo destrutivo e niilista aparentemente

justificado nessas circunstâncias.

Repito, eu entendo a atitude negativa. Tenho inúmeras horas de

experiência clínica. Estive profundamente envolvido em algumas situações

muito difíceis, junto com aqueles a quem eu estava ouvindo e com quem

traçava estratégias, bem como em minha vida privada. As pessoas têm vidas

árduas. Você acha que sua vida é difícil (e provavelmente é, pelo menos às

vezes), mas então conhece uma pessoa e sua vida é tão melhor do que a dela

que, não importa quais sejam suas dificuldades, você nem consegue

imaginar como ela pode continuar a existir em sua miséria atual. E não raro

descobre que essa mesma pessoa infeliz conhece alguém cuja vida é tão

difícil que ela também sente o mesmo. E, muitas vezes, até ela se sente

culpada por acreditar que o que enfrenta é muito difícil, porque sabe o

quanto poderia ser pior.

Não é que o sofrimento e a traição — as catástrofes — não sejam graves o

suficiente para transformar a amargura em uma opção real. Não há nada de

bom nessa opção, apenas muitos danos evidentes. Então, qual é a

alternativa? Comecei a contemplar seriamente o tópico dessa regra pouco

antes do Dia de Ação de Graças, em 2018, quando estava em turnê pelos

Estados Unidos. Esse feriado talvez tenha se tornado a maior celebração

compartilhada dos Estados Unidos (e também é um grande evento no

Canadá, cerca de um mês antes). Depois que a Páscoa perdeu a força, o

único concorrente é o Natal, que também é, em certo sentido, um feriado de

ação de graças que se concentra na chegada do eterno Redentor em meio à

escuridão e ao frio do inverno [no hemisfério Norte] — motivo pelo qual

reflete o eterno ciclo de renascimento da própria esperança. A ação de

graças é uma alternativa à amargura, talvez a alternativa. Minha observação

dos feriados norte-americanos — morei nos Estados Unidos por sete anos e

passei algum tempo lá em inúmeras outras ocasiões — é que a

proeminência do Dia de Ação de Graças entre os feriados parece ser uma coisa boa, em termos práticos e simbólicos. O fato de que a principal festa

de celebração de um país seja a de explicitamente “agradecer” aparece, em

princípio, como um comentário positivo sobre a ética fundamental do

Estado. Isso significa que o indivíduo está se esforçando para manter o

coração no caminho certo e que o grupo está apoiando e incentivando esse

esforço. Por que é assim, quando a vida é tão difícil? Porque você pode ser

corajoso. Estar alerta, desperto, atento. Ver a vida como ela é e ser exigente,

e enxergar isso com clareza. Mesmo assim, você pode permanecer grato,

pois essa é a atitude intrépida em relação à vida e às suas dificuldades. É

grato não porque seja ingênuo, mas porque decidiu tomar a iniciativa de

encorajar o que há de melhor em você, no país e no mundo. Da mesma

forma, você não é grato por causa da ausência do sofrimento, mas porque é

corajoso lembrar o que tem e o que ainda pode receber — e porque a atitude

de agradecimento adequada quanto a essa existência e possibilidade o deixa

em melhor posição do que qualquer outra atitude em relação às vicissitudes

da existência.

Ser grato por sua família é se lembrar de tratá-la melhor. Seus familiares

podem deixar de existir a qualquer momento. Ser grato por seus amigos é

despertar para a necessidade de tratá-los de maneira adequada, dada a

relativa improbabilidade da amizade em si. Ser grato à sua sociedade é se

lembrar de que você é o beneficiário de um tremendo esforço por parte

daqueles que nos precederam e deixaram esse incrível arcabouço de ritual,

cultura, arte, tecnologia, energia, água, saneamento e estrutura social para

que nossas vidas fossem melhores que as deles.

A tentação de ficar amargurado é grande e real. É necessário um esforço

moral genuíno para não seguir esse caminho, presumindo que você não é —

ou que deixou de ser — ingênuo. A gratidão associada a esse estado de Ser

é baseada na ignorância e na inexperiência. Isso não é virtude. Assim, se

você estiver atento e desperto, e puder ver a estrutura do mundo, a amargura

e o ressentimento o atraem como uma resposta viável. Então, você pode se

perguntar: “Bem, por que não tomar esse caminho sombrio?” Parece-me

que a resposta para isso, reitero, é a coragem: a coragem de decidir “não,

isso não é para mim, apesar das razões que eu possa ter para ser tentado

nessa direção” e, então, “apesar do peso de minha mortalidade agora

desperta, vou trabalhar para o bem do mundo”.

CORAGEM, SIM — MAS O AMOR É

 

SUPERIOR

 

Essa decisão me parece ser a coragem subordinada ao amor. Se o

ressentimento, a amargura e o consequente ódio são o que nos atrai na

direção do tormento e da destruição de tudo o que vive e sofre, então talvez

o amor ativo seja o seu antídoto. E me parece ser a decisão fundamental da

vida, e que é correto identificá-la, pelo menos em uma parte vital, como um

ato deliberado de vontade. As razões para a amargura, a raiva, o

ressentimento e a maleficência são fortes e abundantes. Portanto, deve ser

um ato de fé — uma decisão sobre um modo de ser não tão claramente

justificada pelas evidências, em especial em tempos difíceis — que o Ser

poderia ser fortalecido e apoiado por seus objetivos e atos. Isso é algo feito

em um sentido profundo, a despeito de “Eli, Eli, lamá sabactâni” — algo

que diga “apesar disso tudo, não importa o que isso seja, levante e dê a

volta por cima” —, e esse é o exato empreendimento moral impossível

exigido de cada um de nós para que o mundo funcione de forma adequada

(ainda que para evitar a degeneração no inferno).

É no âmbito dessa tarefa impossível — a decisão de amar — que a

coragem se manifesta, permitindo que, mesmo nos piores momentos, cada

pessoa que adota o caminho corajoso tome as difíceis atitudes necessárias

para agir na busca do bem. Ao resolver manifestar as duas virtudes do amor

e da coragem — ao mesmo tempo e de forma consciente —, você decide

que trabalhará para tornar as coisas melhores, e não piores, até para si

mesmo, ainda que saiba que, por causa de todos os seus erros e suas

omissões, já está praticamente perdido.

Você trabalhará para melhorar sua situação, como se fosse alguém sob sua

responsabilidade. Fará a mesma coisa por sua família e pela comunidade em

geral. Você se esforçará para alcançar a harmonia que pode se manifestar

em todos esses níveis, apesar do fato de conseguir ver a subestrutura

defeituosa e danificada das coisas, e por isso ter sua visão prejudicada. Esse

é o caminho correto e corajoso a seguir. Talvez seja essa a definição de

gratidão, de reconhecimento, e não consigo ver isso como algo distinto da

coragem e do amor.

Você pode muito bem perguntar: “As pessoas realmente percebem e agem

dessa maneira?” ou até “Será que conseguem perceber e agir?”. Uma das evidências mais convincentes que encontrei é o luto pela perda de alguém

próximo. Mesmo que você seja ambivalente sobre a própria vida — e

mesmo se for hesitante, até certo ponto, em relação à pessoa que perdeu,

pois este pode certamente ser o caso —, sua reação provável à morte é o

luto. E essa reação não é exatamente consciente. O luto é uma experiência

estranha. Ele se apodera de você de forma inesperada. Você sente choque e

confusão. Não tem certeza de como reagir. O que deveria fazer? Porém, se o

luto for consciente — a expressão voluntária de uma reação supostamente

apropriada —, ele não é real; não da maneira que o luto genuíno se apodera

de você. E se não se sentir arrebatado, de forma involuntária, por algo que

toma conta de você como se tivesse vida própria, pode pensar: “Não estou

me sentindo como deveria. Não estou chorando. Não estou arrebatado pela

tristeza. Estou seguindo meus afazeres diários com muita normalidade”

(algo muito provável de ocorrer se você receber a notícia de uma morte em

um local distante). Mas então, conforme se engaja em uma atividade trivial,

como se tudo estivesse normal, o luto o atingirá como uma onda traiçoeira.

Isso acontece repetidamente, só Deus sabe por quanto tempo. É algo que

surge das profundezas e, inevitavelmente, o aprisiona em suas garras.

O luto deve ser um reflexo do amor. É talvez a prova definitiva do amor. É

uma manifestação incontrolável da crença de que a existência da pessoa

perdida, por mais limitada e falha que possa ter sido, valeu a pena, apesar

das limitações e falhas até da própria vida. Caso contrário, por que você

sentiria a perda? Caso contrário, por que se sentiria, involuntariamente,

triste e desamparado (e isso vindo de uma fonte que não pode caracterizar

autoengano)? Você sofre porque algo que valorizou não existe mais. Assim,

no âmago do seu Ser, decidiu que a vida da pessoa era valiosa, apesar dos

problemas que ela causou a você — e a si mesma. Na minha experiência,

isso acontece mesmo quando morrem pessoas monstruosas. É raro haver

uma pessoa cuja vida tenha se tornado tão catastroficamente errada que sua

morte não traga tristeza.

Quando estamos de luto por alguém, há uma parte profunda de nós que

decide que sua existência valeu a pena, apesar de tudo. Talvez seja o reflexo

de uma decisão ainda mais fundamental: a existência em si vale a pena,

apesar de tudo. Gratidão é, portanto, o processo de tentativa consciente e

corajosa de agradecimento diante da catástrofe da vida. Talvez seja isso que

estejamos tentando fazer quando nos reunimos com nossa família em um

feriado, casamento ou funeral. Esses são assuntos frequentemente controversos e difíceis. Enfrentamos uma tensão paradoxal e extenuante.

Trazemos pessoas que conhecemos e amamos para perto de nós; estamos

satisfeitos com sua existência e proximidade, mas também desejamos que

elas pudessem ser mais. Estamos inevitavelmente decepcionados uns com

os outros e com nós mesmos também.

Em qualquer reunião familiar, há tensão entre o afeto que você sente e o

vínculo proveniente de todas as memórias e experiências compartilhadas,

além da tristeza que inevitavelmente os acompanha. Você vê alguns

parentes em uma paralisia contraproducente ou vagando por um caminho

que não é bom para eles. Vê outros envelhecendo, perdendo sua vitalidade e

saúde (e essa visão interfere e perturba suas memórias dos “eus” mais

poderosos e jovens deles: uma perda dupla, então, do presente e do

passado). É algo doloroso de perceber. Mas a conclusão fundamental,

apesar de tudo isso, é: “Que bom estarmos todos juntos e podermos

compartilhar uma refeição, nos ver e conversar uns com os outros, e notar

que estamos todos aqui, participando da celebração ou enfrentando a

dificuldade juntos.” E todos esperam que “talvez, se nos unirmos, possamos

lidar com isso de maneira adequada”. E então, quando se junta em

comunhão com os seus, você toma a mesma decisão fundamental que

resulta de uma situação de luto: “Apesar de tudo, é bom que estejamos

juntos e que tenhamos um ao outro.” Isso é algo verdadeiramente positivo.

O mesmo se aplica ao seu relacionamento com seus filhos. Nas últimas

décadas, meu sofrimento na vida foi exacerbado pelo caso de minha filha,

pois ela esteve muito doente por vários anos quando criança, adolescente e

jovem adulta. A criança é um ser de enorme potencial, capaz de

desenvolver uma autonomia e uma habilidade admiráveis, produtivas e

sempre crescentes. Mas também há algo muito frágil sobre seus corpos de

3, 4 ou 5 anos (ou mesmo de 15 ou 25, pois essa fragilidade nunca

desaparece de fato da percepção dos pais, após ser profundamente gravada

pela experiência de cuidar de crianças pequenas). Tudo isso faz parte da

alegria de ter filhos, mas também faz parte da dor. A dor é a certeza

absoluta de que a fragilidade será explorada. Mesmo assim, pensei que

quaisquer medidas que eu pudesse tomar para erradicar essa fragilidade em

meus filhos também destruiriam aquilo pelo que sou grato. Lembro-me de

pensar isso de forma bem clara quando meu filho tinha 3 anos, porque ele

era superfofo e divertido. Mas tinha só 3 anos, então era pequeno. Ele caía,

trombava a cabeça nas mesas, escorregava escada abaixo e se metia em pequenas brigas com outras crianças. Poderia muito bem estar brincando no

estacionamento do supermercado e, distraído, sair correndo. Não é uma

atitude sábia em um lugar dominado por carros. Em torno da criança, há

uma vulnerabilidade inegável que nos desperta e nos deixa muito

conscientes do desejo de protegê-la, mas também do desejo de favorecer

sua autonomia e impulsioná-la para o mundo, porque assim a fortalecemos.

É também uma vulnerabilidade que pode nos deixar com raiva da vida, por

causa de sua fragilidade, e nos levar a amaldiçoar o destino que une as duas

circunstâncias.

Quando penso em meus pais, a mesma coisa vem à mente. Eles estão

envelhecendo. À medida que as pessoas envelhecem, em certo sentido, você

as vê se condensando na essência do que são. Meu pai e minha mãe têm um

caráter assertivo. Eram fiéis a si mesmos na casa dos 50 anos, e talvez

sejam ainda mais agora. Eles têm suas limitações e suas vantagens (e,

muitas vezes, as segundas são necessárias para as primeiras). Estão na casa

dos 80 agora e são muito idiossincráticos. Às vezes é frustrante lidar com as

pessoas e suas particularidades. Você pensa: “Não seria melhor se elas

pudessem ser de outra forma?” Não estou dizendo que penso isso de meus

pais em maior grau do que as pessoas geralmente pensam umas das outras.

Não é, de nenhuma forma, uma crítica a eles. Além disso, não há dúvida de

que eles (e outros — muitos outros) sentem o mesmo por mim. Mas é

preciso entender que, assim como no caso das crianças, todas essas

particularidades, fragilidades e limitações são parte integrante daquilo que

você passa a amar.

Então, você pode amar as pessoas apesar de suas limitações, mas também

as ama por causa dessas limitações. É algo que vale muito a pena

compreender. Fazer isso pode ajudá-lo a perceber como a gratidão continua

sendo possível. Apesar do fato de o mundo ser um lugar muito obscuro, e

de cada um de nós ter seus elementos sombrios de alma, vemos uns nos

outros uma mistura única de realidade e possibilidade que é uma espécie de

milagre: um milagre que se manifesta, verdadeiramente, no mundo e nas

relações baseadas na confiança e no amor. Isso é algo pelo qual você pode

ser corajosamente grato. Isso é algo no qual você pode descobrir parte do

antídoto para o abismo e as trevas.

Seja grato apesar de seu sofrimento.