Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida

Jordan B. Peterson · Capítulo 13 de 16

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Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida

Regra 10: Planeje e se esforce para manter o romance em seu relacionamento

REGRA 10

 

PLANEJE E SE ESFORCE PARA

 

MANTER O ROMANCE EM SEU

 

RELACIONAMENTO

 

ENCONTRO INSUPORTÁVEL

 

Não sou terapeuta de casais. Mas às vezes, ao atender um cliente, é

necessário incluir seu parceiro íntimo em uma ou mais sessões. Faço isso

apenas quando me pedem diretamente. Também deixo claro que o casal

deve procurar um especialista em aconselhamento conjugal se esse for seu

objetivo central. No entanto, se um dos principais problemas que meu

cliente está tratando é a insatisfação no casamento, muitas vezes é

contraproducente falar com apenas um dos membros do casal. É comum (e

nada surpreendente, na verdade) que o cônjuge em questão não confie no

terapeuta de sua cara-metade — eu — e uma reunião com os três pode

ajudar muito a corrigir isso.

Antes de conversar com o casal, discuto com meu cliente algumas regras

básicas para melhorar o relacionamento. Digamos que ele tenha decidido

reservar um tempo para o romance: quatro horas por semana ou algo assim

(estou falando de adultos com sua carga plena de responsabilidades). Talvez

consiga esse tanto. Talvez seja possível até mais. Mas não há muito tempo

em sete dias, e a situação precisa ser configurada de forma correta e

cuidadosa. E, quando tudo isso for colocado em prática pela primeira vez —

toda essa negociação e encenação consciente —, será feito de maneira

errada e estúpida, com toda a dor, o ressentimento e o desejo de vingança

que o acompanha. E então essa emoção negativa pode ser alimentada e o

relacionamento, prejudicado — às vezes para sempre.

Talvez o cliente e seu cônjuge já tenham se afastado um do outro ao longo

de vários anos antes de começarmos a discutir sua situação. Eles não são

felizes e me odeiam — talvez até mais do que um ao outro. Sentam-se ali,

distantes, braços cruzados e caretas (espero que não, pois caretas são um

mau sinal).1 Eles não cedem nem um pouco. Pergunto quando fizeram algo

romântico pela última vez; quando saíram juntos pela última vez. Eles riem

com tristeza, se as coisas ainda não foram longe demais, ou zombam

abertamente. Não obstante, sugiro que tentem sair juntos; ou, mais que isso,

que transformem os encontros em uma prática regular. A primeira sugestão

é considerada ruim; a segunda, intolerável. A resposta é: “Não vamos sair

em um maldito encontro. Namoramos antes de nos casarmos, quando era

apropriado. Além disso, tudo o que vamos fazer é brigar.”

E minha opinião sobre essa resposta raivosa, amarga e superficial é a

seguinte: “A teoria apresentada é que, em toda a sua vida de casados, vocês

nunca sairão em encontros. (Quem dirá romance e intimidade.) Em vez

disso, apenas desistirão. Então, por que não arriscar? Convidem um ao

outro para ir a um lugar legal. Ouse colocar o braço no ombro ou a mão no

joelho do seu cônjuge (e não no seu). Sei que estão com raiva um do outro,

e provavelmente por um bom motivo. Conversei com ambos: entendo por

que se sentem assim :-). Mas apenas tentem. Não precisam gostar. Não

precisam esperar ser bons nisso, abandonar a raiva ou se divertir. Só

precisam tolerar.”

Os dois saem furiosos comigo por sugerir uma ideia tão irritante. Mas

concordam com relutância e, na sessão seguinte, me dizem: “Aconteceu

exatamente como falamos, passamos um tempo péssimo. Brigamos antes de

sair, enquanto estávamos fora e, novamente, quando voltamos para casa.

Com certeza não vamos arriscar um outro encontro.” Eles costumam

demonstrar um certo orgulho em chegar a tal conclusão, visto que ambos já

haviam decidido de antemão que a ideia toda era inútil. Então eu pergunto:

“Esse é o plano, não é? Vocês ficarão casados por sessenta anos. Fizeram

um pequeno esforço relutante para ter um encontro. Já não estavam se

dando bem, então havia uma probabilidade insignificante de que tivessem

algum prazer nisso. Além disso, como ficaram irritados comigo por causa

de minha sugestão ingênua, estavam motivados a garantir que fosse

horrível, e foi o que aconteceu. Então, desistiram. E agora decidiram que é assim que vão se comportar ao longo das décadas que se comprometeram a

ficar juntos: com despeito e amargura, em vez de consideração mútua?

“Em vez disso, vamos tentar pensar da seguinte forma: nenhum de vocês

tem habilidade para o romance. Portanto, uma tentativa será insuficiente.

Talvez sejam necessários quinze encontros — ou quarenta —, porque

perderam o jeito, precisam praticar e devem desenvolver o hábito e a boa

vontade. Talvez nenhum de vocês seja muito romântico; ou, se um dia foi,

isso ficou no passado. Essa é uma habilidade que devem aprender, não um

presente imerecido do Cupido.”

Suponha que você seja casado — ou equivalente. Suponha também que

tenha, ou poderia ter, um interlúdio romântico duas vezes por semana. Pode

ser menos, pode ser mais: porém, manteremos essa média. Significa cem

vezes por ano. Vamos imaginar que permanecerá casado por mais trinta

anos. Trinta vezes cem são três mil vezes. Não existe a possibilidade de

você dedicar uma fração de todo esse tempo a aperfeiçoar sua técnica,

sedução, comunicação e a forma como faz amor? Portanto, que diferença

faz se você tem quinze encontros infelizes antes de conseguir um que beire

o aceitável? São 15 vezes em um total de 3 mil. Representa 0,5% do tempo

romântico que poderiam passar juntos. Talvez seja possível ousar ainda

mais e determinar se as coisas podem se ajustar entre vocês. Por que você

presumiria que algo tão complexo como manter um casamento pode ser

administrado sem compromisso, prática e esforço?

“Então, talvez o primeiro encontro seja horrível e infeliz. Vocês nunca

mais querem repeti-lo, mas repetem, pois preferem salvar seu casamento a

desistir de uma vez. E talvez o próximo seja 5% melhor. E talvez, após

algumas tentativas, cada um de vocês se lembre, pelo menos por um breve

momento, do motivo que o levou a gostar da pessoa com quem se casou.

Talvez consiga algo um pouco mais empolgante do que colocar o braço em

torno do ombro dela e receba de volta uma reação de alguém que realmente

se importa com você em algum lugar do coração, agora frio e árido. E se

vocês pretendem que seja duradouro, como declararam em seus votos

matrimoniais, talvez se esforcem para acertar.”

E talvez o casal tenha bom senso suficiente para fazer os cálculos e

contemplar todo aquele tempo perdido, bem como a amargura, o

ressentimento e a apatia da vida sem romance, e concordem com outro

encontro, ou dois, ou três, ou dez — e, na décima tentativa, eles venham me ver, sorrindo, e me digam que se divertiram muito. E então teremos uma

discussão ainda mais séria sobre o que é preciso para manter o amor e o

respeito e invocar o desejo e a resposta. Como encontrar mistério na outra

pessoa no longo prazo? Você consegue reunir a disposição, a imaginação

romântica e a diversão para fazer isso toda vez que estiverem juntos

intimamente, pelas próximas 3 mil ocasiões? Isso exigirá algum esforço

cuidadoso.

Pois cada pessoa é, na verdade, um enigma insondável. Com cuidado,

você pode continuar redescobrindo, na pessoa que escolheu, mistério

residual suficiente para manter o espírito que primeiro os uniu. Com

cuidado, pode evitar guardar o outro em uma caixa de tamanho

conveniente, com a punição a postos caso ele ouse emergir, assim como o

desprezo pela decorrente previsibilidade que ambos enfrentam agora,

sempre à espreita bem perto da superfície. Se tiver sorte, poderá reacender a

centelha de quando se sentiram atraídos um pelo outro, de como seria sua

vida se fossem melhores do que são. É o que acontece quando duas pessoas

caem no feitiço do amor. Por um tempo, ambas se tornam melhores do que

eram e percebem isso, mas então a magia desaparece. Ambas recebem essa

experiência como um presente. Ambas têm os olhos abertos e conseguem

ver o que não é visível para mais ninguém. Esse amor é um vislumbre do

que poderia ser se o relacionamento continuasse verdadeiro. É entregue

inicialmente como um presente do destino, mas requer um enorme esforço

para ser realizado e mantido. E, assim que isso é entendido, o objetivo se

torna claro.

 

A PEDRA FUNDAMENTAL

 

Com frequência, o aspecto sexual de um relacionamento pode nos dizer

muito sobre o todo, mas nem sempre. Conheci casais que brigavam feito

cão e gato e que tinham uma vida sexual extremamente satisfatória (pelo

menos em curto prazo), e outros casais cujas pessoas eram bem adequadas

uma para a outra graças ao temperamento, mas uma delas não conseguia

encontrar a faísca. As pessoas e seus relacionamentos são complexos

demais para serem reduzidos a um único aspecto — mas ainda é razoável

notar que um bom casamento é acompanhado pelo desejo mútuo,

correspondido de forma recíproca. Infelizmente, não é possível lidar com o desejo de modo isolado: “Vamos consertar nossa vida sexual” é uma

resolução de ambição muito estreita para cumprir seu objetivo.

Deve ser adotada uma estratégia mais ampla e abrangente para manter o

romance com seu cônjuge ao longo do tempo. Seja qual for essa estratégia,

o sucesso dependerá de sua capacidade de negociação. Para negociar, você

e a pessoa com quem está negociando devem, primeiro, saber o que cada

um precisa (e deseja) — e, em segundo lugar, estar dispostos a discutir

esses aspectos com franqueza. Existem muitos obstáculos sérios tanto para

saber o que você precisa e deseja quanto para discutir o assunto. Se você se

permitir saber o que deseja, também saberá exatamente quando não estiver

sendo atendido. Você se beneficiará, é claro, pois também conseguirá

identificar quando for bem-sucedido. Mas talvez você falhe, e pode muito

bem ficar assustado o suficiente com a possibilidade de não conseguir o que

precisa (e quer) a ponto de manter seus desejos vagos e não especificados. E

a chance de obter o que deseja, caso não se esforce para identificá-lo, é

muito pequena.

A falta de especificidade é provavelmente um problema para você. Se tem

um cônjuge, o problema pode se agravar. É improvável que a pessoa que

escolheu conheça mais a seu respeito do que você, exceto em casos

menores (e, na verdade, é provável que fique ainda mais às escuras em

relação aos seus desejos mais íntimos). Se você não especificar seus

desejos, seu infeliz amante terá de adivinhar o que o agrada ou desagrada, e

provavelmente será punido de alguma forma por errar. Além disso,

considerando todas as coisas que você poderia querer — e o que não deseja

—, é praticamente certo que seu amante se equivocará. Como

consequência, você será motivado a culpá-lo, pelo menos de modo

implícito, não verbal ou inconsciente, por não se importar o bastante para

perceber o que você mesmo não está disposto a notar. “Se realmente me

amasse”, pensará — ou sentirá, sem pensar —, “eu não teria que lhe dizer o

que me deixaria satisfeito”. Essa não é uma abordagem prática para um

casamento feliz.

Isso já é ruim o suficiente, mas há um segundo problema igualmente grave

à espreita no caminho. Se resolveu o impasse de saber o que quer, admitiu

para si mesmo de uma forma verbalizável e permitiu que outra pessoa

conhecesse seus desejos, você lhe concedeu uma perigosa fonte de poder. A

pessoa que se tornou seu confidente está agora em posição de realizar seus desejos, mas poderia igualmente privá-lo do que deseja, envergonhá-lo por

querer o que deseja ou feri-lo de alguma outra maneira, pois agora você se

tornou vulnerável. Pessoas ingênuas têm a ilusão de que todos são bons e

que ninguém — em especial alguém amado — seria motivado a causar dor

e sofrimento, seja por vingança, como consequência da cegueira, seja

simplesmente pelo prazer de fazê-lo. Mas as pessoas que amadureceram o

suficiente para transcender sua ingenuidade aprenderam que podem ser

magoadas e traídas por si mesmas e por outras pessoas. Então, por que

aumentar as chances de ser ferido ao permitir que alguém quebre essa

barreira? É para se defender contra essa traição que a ingenuidade é

frequentemente substituída pelo cinismo, e devemos dizer, com toda a

verdade, que o cinismo é uma melhoria em relação à ingenuidade. Porém,

essa substituição não é a última fase da sabedoria, e graças a Deus por isso.

A confiança, por sua vez, supera o cinismo, e a verdadeira confiança não é

ingenuidade. A confiança entre pessoas que deixaram de ser ingênuas é uma

forma de coragem, porque a traição é sempre uma possibilidade e porque

essa questão é compreendida de modo consciente. Isso se aplica com mais

força dentro dos limites de um relacionamento íntimo. Confiar é convidar o

que há de melhor em seu cônjuge a se manifestar, com você e sua confiança

livremente concedida como o atrativo. É um negócio arriscado, mas a

alternativa é a impossibilidade da verdadeira intimidade, e o sacrifício do

que poderiam ter sido duas mentes em diálogo, colaborando para resolver

os difíceis problemas da vida em nome de uma única mente que luta na

solidão.

O romance requer confiança — e, quanto mais profunda a confiança, mais

profunda é a possibilidade de romance. Entretanto, a confiança também tem

seus requisitos, além da coragem exigida dos indivíduos sábios o suficiente

para desconfiar, mas corajosos o bastante para arriscar colocar sua fé em um

cônjuge. O primeiro desses requisitos é a verdade. Você não pode manter a

confiança em si mesmo se mentir. Da mesma forma, não pode manter a

confiança em si mesmo se agir de um modo que exigiria uma mentira caso

fosse descoberto. Analogamente, não pode manter a confiança em seu

cônjuge se ele mentir ou traí-lo em ação ou em silêncio. Portanto, o voto

que torna um casamento capaz de preservar seu componente romântico é,

antes de mais nada, a decisão de não mentir para o cônjuge.

Também há imensas vantagens práticas nisso, desde que feito

corretamente. Chegará um momento em sua vida em que você fará algo que não deveria, ou deixará de fazer algo que deveria ter feito. Pode precisar de

conselhos. Pode precisar de apoio. Pode precisar exatamente do que seu

cônjuge poderia fornecer, se ao menos você ousasse permitir que o

ajudasse. E em algum momento ele acabará na mesma posição. A vida é

muito difícil de encarar sozinho. Se contar a verdade ao seu cônjuge e se

esforçar para agir de forma que possa contar a verdade sobre como você

age, então terá alguém em quem confiar quando o mar ficar turbulento e seu

navio ameaçar naufragar. Isso pode ser literalmente uma questão de vida ou

morte. Em um relacionamento no qual o romance permanece intacto, a

verdade deve reinar.

 

CRISTO NA VELA

 

Tenho um amigo de ascendência escandinava, embora seja canadense. Ele

se casou com uma canadense, também de ascendência escandinava.

Decidiram se casar na Suécia, em homenagem à sua ancestralidade comum.

Como ambos eram, ou pelo menos se declaravam, cristãos, fizeram uma

cerimônia que refletia essa crença. Durante a troca de votos, a noiva e o

noivo seguraram uma vela acesa entre eles. Passei muito tempo pensando

sobre o significado desse ritual.

Há um conceito antigo no livro de Gênesis (2:21–22) de que Eva foi

criada a partir de uma costela de Adão. A mulher a partir do homem: isso

apresenta uma espécie de mistério, revertendo, como acontece, a sequência

biológica normativa, em que os machos emergem das fêmeas no

nascimento. Também deu origem a uma linha de especulação mitológica

que tenta explicar a estranheza desse ato criativo, baseada na suposição de

que Adão, o homem original produzido por Deus, era hermafrodita —

metade masculino e metade feminino — e só mais tarde separado em dois

sexos. Isso implica não apenas a divisão de uma unidade divinamente

criada, mas a incompletude do homem e da mulher até que cada um seja

unido ao outro.2 O fato de a vela ser segurada em conjunto indica a ligação

dos dois celebrantes. O fato de a vela ser mantida no alto, acesa, implica

que algo mais elevado — algo superior — está representando ou realizando

a união. Luz, luz nos céus, luz nas trevas, iluminação. Antes da invenção

das modernas lâmpadas elétricas, as velas eram utilizadas para esse fim. As

plantas de folhas perenes, a escolha-padrão para árvores de Natal, representam a vida interminável, já que não “morrem” anualmente da

mesma forma que as de folhas decíduas. Essas árvores, portanto,

simbolizam a Árvore da Vida, que serve como a base do cosmos.3 Então,

iluminamos a Árvore da Vida, por volta do dia 21 de dezembro, a época

mais escura do ano, pelo menos no Hemisfério Norte.4 É por isso que o

Natal acontece nessa época específica; o reaparecimento da luz está

associado ao nascimento do Salvador Universal — significando o eterno

ressurgimento da luz na escuridão estigial.

Cristo tem sido considerado o segundo (e aperfeiçoado) Adão e, assim

como houve especulação sobre a natureza hermafrodita do primeiro Adão

antes da criação dos sexos separados por Deus, há uma linha de especulação

sobre a perfeição espiritual de Cristo como uma consequência do equilíbrio

ideal dos elementos masculinos e femininos. ,5 I É muito difícil que as

pessoas unidas em um casamento se tornem desesperadas o suficiente para

deixar de lado a fuga e a evitação — vivam a verdade —, e se curem na luz

irradiada por sua existência conjunta. É por essa razão que os cônjuges

fazem o temível voto de permanência (“Portanto, o que Deus ajuntou,

nenhum homem o separe” [Mateus 19:6]). “Eu me uno a você”, afirma uma

das partes do acordo. “E eu a você”, diz a outra, e ambas pensam, se

tiverem algum bom senso, que cada uma deve transformar a si mesma e a

outra, para evitar qualquer sofrimento desnecessário. Então, qual é o

princípio supremo ao qual ambos os cônjuges devem se curvar? Não é a

iluminação como mera abstração verbal. Não é que eles devam apenas

pensar e falar a verdade. Eles devem agir. E essa é a ideia ancestral de que a

Palavra se tornará carne.

Os indivíduos que formam um casal podem muito bem se engajar em uma

disputa constante quanto a uma única questão inadequadamente

conceituada: “Quem é subordinado a quem no casamento?” Afinal, cada um

pode pensar, como é natural das pessoas, que tal acordo é um jogo de soma

zero, com um vencedor e um perdedor. Mas um relacionamento não tem

que ser e não deve ser uma questão de apenas um vencedor, ou mesmo de

cada um alternando nesse status, em uma versão mais assemelhada à

equidade. Em vez disso, o casal pode decidir que cada um e ambos estão

subordinados a um princípio, um princípio de ordem superior, que constitui

sua união no espírito de iluminação e verdade. Essa figura fantasmagórica,

a união ideal do que há de melhor em ambas as personalidades, deve ser constantemente considerada como a governante do casamento — e, de fato,

como algo tão próximo do divino quanto poderia no que se refere a

indivíduos falíveis. É isto o que a cerimônia da vela representa: nenhuma

das partes governa a outra. Em vez disso, ambas se curvam ao princípio da

iluminação. Nessa circunstância, não é que uma deva obedecer ao que a

outra deseja (ou vice-versa), e sim que ambas devem ser orientadas para o

futuro mais positivo possível e concordar que falar a verdade é o melhor

caminho a seguir. Essa orientação e veracidade produzirão um diálogo

transformador, verbal e não verbal, se os parceiros nesse acordo se

comprometerem a respeitar as consequências do diálogo. A subordinação

voluntária a esse princípio de iluminação de ordem superior tanto unifica

quanto revitaliza.

Imagine que você acabou de participar de tal cerimônia. O que isso

significa? Você acredita nas ideias que acabou de colocar em prática?

Acredita que o homem e a mulher já estiveram unidos, como um único ser,

foram separados e devem ser restaurados como unidade? Você pode

acreditar nisso de forma dramática, poética e metafórica, em vez de

meramente racional e mecânica, e isso pode levá-lo a verdades profundas.

Quer encontrar sua alma gêmea? Obviamente esse é um tropo romântico,

mas existem razões profundas para a existência de ficções românticas.

Talvez você leve alguém para assistir a um filme romântico. E ambos

assistam ao herói e à heroína encontrarem suas almas gêmeas na tela. Se

tiver sorte, enquanto observa, pensará: “Bem, talvez esta pessoa ao meu

lado seja a única para mim também.” Na melhor das situações, é isso que

seu par está esperando. Talvez seja esperar demais na vida real. Mas,

mesmo assim, o romântico dentro de você anseia por isso.

Em nossa natureza, há um anseio inevitável pela completude que outra

pessoa é capaz de nos fornecer. Caso contrário, haverá uma sensação de que

você está perdendo alguma coisa, e que somente a união romântica

adequada fornecerá o que falta. Isso também é verdade — você realmente

está perdendo alguma coisa. Se não estivesse, o sexo nunca teria evoluído.

Todo o curso biológico de nosso destino, desde que a reprodução progrediu

além da mera divisão das células, parece impulsionado pelo fato de que era

melhor que duas criaturas diferentes se unissem para produzir uma versão

comparativamente nova de si mesmas do que simplesmente clonar sua atual

incorporação. Você tem suas idiossincrasias, seus pontos cegos, seus vieses.

Alguns deles implícitos. Muitas vezes eles estão ligados de forma inextricável aos seus talentos únicos: você raramente ganha uma vantagem

sem uma desvantagem análoga; você é uma pessoa singular, com atributos

singulares. Se está sozinho, é inevitavelmente assimétrico, unilateral. Isso

geralmente não é o melhor.

Na instituição conjugal, há uma utilidade irrealizada sobre a qual nos

tornamos cínicos — como consequência de nossa imaturidade e

ingenuidade. O casamento é um voto e há uma razão para isso. Vocês

anunciam conjunta e publicamente: “Não vou deixá-lo, na saúde ou na

doença, na pobreza ou na riqueza — e você não vai me deixar.” Na verdade,

é uma ameaça: “Não vamos nos livrar um do outro, aconteça o que

acontecer.” Estão acorrentados um ao outro, como dois gatos furiosos

dentro de um barril fechado. Em princípio, não há como escapar. Se você

tem algum senso (além do otimismo de um novo amor), também pensa:

“Ah, Deus. Esta é uma possibilidade horrível.” A sua parte que afirma

desejar a liberdade (mas, na verdade, deseja evitar qualquer

responsabilidade permanente e, portanto, aterrorizante) quer um alçapão

pelo qual fugir, se e quando for necessário. Isso parece conveniente — e é

verdade que existem casamentos insuportáveis —, mas é uma opção com

perigos extremos. Você quer mesmo continuar se perguntando pelo resto da

sua vida — já que sempre há a opção de ir embora — se fez a escolha

certa? O mais provável é que não tenha feito. Existem 7 bilhões de pessoas

no mundo. Pelo menos 100 milhões (digamos) poderiam ser bons parceiros

para você. Certamente você não teve tempo para analisar todas, e a

probabilidade de encontrar a pessoa teoricamente ideal é próxima de zero.

Porém, não se trata só de encontrar, mas, sim, de fazer, e se não sabe disso

está mesmo enrascado. Além disso, se tiver uma rota de fuga, não haverá

pressão suficiente na câmara em que está preso para catalisar a mudança

necessária em você e no seu cônjuge — o amadurecimento, o

desenvolvimento da sabedoria —, pois esses aspectos requerem um certo

grau de sofrimento, e sempre podemos escapar do sofrimento enquanto

houver uma saída.

Você não se dará bem com seu cônjuge — não sem esforço, a menos que

concorde em ser tiranizado e permanecer calado (e mesmo assim você se

vingará) —, pois ambos são pessoas diferentes. Ninguém consegue se dar

bem logo de cara, exatamente por causa disso. E não só você é diferente de

seu cônjuge, mas está repleto de inadequações, assim como ele. E, como se

não bastasse, há também o fato de que mesmo pessoas de boa vontade e caráter unidas no matrimônio enfrentarão o mundano, o cotidiano, o

monótono, o trágico e o terrível juntas, pois a vida pode ser — e certamente

será em algum momento — difícil a ponto de se tornar impossível. Será

árduo. Mesmo que vocês se esforcem para se recompor, e consigam de

forma admirável, haverá momentos brutais e não necessariamente breves.

Talvez a vida seja melhor se ficarem juntos — essa é a esperança e a

probabilidade, pelo que posso dizer —, mas os momentos brutais ainda hão

de existir. O que os fará lidar voluntariamente com suas diferenças e

estabelecer um acordo genuíno, um consenso verdadeiro? Vocês terão que

negociar de boa-fé, continuamente, para chegar a algum tipo de conciliação

pacífica e produtiva. E se não quiserem? Viverão em uma luta mortal por

sessenta anos.

Na prática clínica, tenho visto famílias inteiras nessa situação. Imagine

cinco pessoas em um círculo. Imagine ainda que cada uma está com as

mãos em torno do pescoço da pessoa à sua frente. Todas estão apertando

com força suficiente para matar a outra daqui a algumas décadas. Esta é a

decisão, formulada ao longo de anos de discussão tácita e recusa em

negociar: “Eu vou matá-lo. Só que levará a vida inteira.” É muito possível

que você tenha alguém em sua família que gostaria de estrangular

lentamente, ou que está fazendo isso com você. Talvez não, espero que não

(talvez você não admita mesmo que saiba que é verdade), mas é bastante

comum. Se você não negociar a paz com seu cônjuge, acabará nessa

situação. Existem três estados fundamentais do ser social: tirania (você faz

o que eu quero), escravidão (eu faço o que você quer) ou negociação. A

tirania obviamente não é boa para a pessoa escravizada, mas também não é

boa para o tirano — porque ele se torna um tirano, e não há nada

enobrecedor nisso. Não há nada além de cinismo, de crueldade e do inferno

da raiva e da impulsividade descontroladas. A escravidão também não é

boa, tanto para o escravo quanto para o tirano. Os escravos são infelizes,

miseráveis, irritados e ressentidos. Eles aproveitarão toda e qualquer

oportunidade disponível para se vingar de seus tiranos, que, em

consequência, serão amaldiçoados e prejudicados por seus escravos. Não é

fácil extrair o melhor que alguém tem a oferecer com ameaças de punições

arbitrárias, principalmente se o objetivo da pessoa é fazer algo de bom (e

esse enfraquecimento do espírito é o truque mais cruel do tirano). Mas os

aspirantes a tiranos podem ter certeza de que seus escravos se vingarão sempre que possível, mesmo que isso signifique ser muito menos do que

poderiam ser.

Minha esposa me contou uma história terrível sobre um casal que ela

observou quando trabalhava como voluntária em uma enfermaria de

cuidados paliativos. O marido estava morrendo e a esposa aparava as unhas

dele — curtas demais. A cada corte saía sangue, pois ela cortava rente o

suficiente para feri-lo. Você vê algo assim, e seu bom senso conclui a

terrível verdade: “Eu sei exatamente o que está acontecendo ali.” Esse é o

estágio final de um relacionamento incrivelmente dissimulado e brutal. É

sutil. Não se autodenuncia a plenos pulmões como mortal. Ninguém sabe,

exceto o casal (embora talvez lute com todas as suas forças, dadas as

circunstâncias, para não saber) e o observador atento, que vê um homem

moribundo e uma esposa que decidiu, por quaisquer motivos, tornar sua

morte um pouco pior. Esse não é um resultado desejável. Você não quer

acabar nessa situação, ou algo parecido. Você quer negociar. A questão é:

“O que vai deixá-lo desesperado o suficiente para querer negociar?” E esse

é um dos mistérios que devem ser resolvidos se você deseja manter o

romance vivo em seu relacionamento.

 

NEGOCIAÇÃO, TIRANIA OU ESCRAVIDÃO

 

A negociação é incrivelmente difícil. Já discutimos os problemas associados

a determinar o que você quer e, depois, reunir coragem para contar para

alguém. E há os truques que as pessoas usam para evitar negociações.

Talvez você pergunte a seu cônjuge o que ele deseja — quem sabe durante

uma situação difícil. A resposta comum é “eu não sei” (frequente entre

crianças e, mais ainda, entre adolescentes). Entretanto, ela não é aceitável

em uma discussão que não pode ser evitada, ao menos não de boa-fé. Às

vezes, “eu não sei” tem exatamente o significado que deveria — a pessoa

está genuinamente perdida —, porém, com frequência, significa: “Não

quero falar sobre isso, então vá embora e me deixe em paz.” Muitas vezes

essa resposta vem acompanhada de irritação ou raiva direta, suficiente para

deter o questionador. Isso interrompe a discussão, que pode, então, acabar

adiada para sempre. Talvez isso tenha se repetido uma, duas ou dezenas de

vezes, então você — o questionador, neste caso — já se cansou da recusa de

seu cônjuge, ou decidiu que não quer mais ser um covarde ou a vítima de

sua própria compaixão equivocada e não aceitará mais “eu não sei” como resposta. Em consequência disso, você persiste em perseguir seu alvo. Pode

dizer: “Bem, dê um palpite, dê uma pista, pelo amor de Deus. Qualquer

coisa, mesmo que esteja errada, é pelo menos um começo.” “Não sei”

significa não só “Vá embora e me deixe em paz”, mas com frequência

também quer dizer: “Por que você não vai embora, faz todo o trabalho

necessário para descobrir o que está errado, volta aqui e me diz — já que é

tão inteligente” ou “É rude e intolerável de sua parte se recusar a permitir

que eu permaneça em minha ignorância deliberada ou perigosa, visto que

obviamente me incomoda muito pensar sobre meus problemas”. Mas não é

rude — e, mesmo que seja, você precisa saber o que seu cônjuge quer, e ele

também. E como é possível que um ou ambos descubram, se você não é

capaz nem de iniciar a conversa? Não é rude. É um ato cruel de amor.

A persistência é crucial nessas condições, é uma necessidade terrível,

semelhante à cirurgia. É difícil e dolorosa, porque é preciso coragem e até

alguma imprudência para continuar uma discussão depois que seu cônjuge

lhe diz, em termos inequívocos, para ir embora (ou coisa pior). No entanto,

é uma coisa boa — um ato admirável —, pois é provável que uma pessoa

incomodada com algo sobre o qual não deseja falar fique internamente

dividida devido ao assunto em questão. A parte que deseja evitar é a que

fica com raiva. Enquanto outra quer falar e resolver a questão. Mas fazer

isso exige muito do ponto de vista cognitivo, é eticamente desafiador e

emocionalmente estressante. Ademais, requer confiança, e as pessoas

testam essa confiança, sobretudo manifestando raiva quando abordadas

sobre algo delicado, apenas para determinar se aquele que ousa abordar a

questão se preocupa o suficiente para superar um, dois, três ou dez

obstáculos sérios para chegar à terrível verdade. E a evitação seguida de

raiva não é o único truque usado.

Outro obstáculo importante são as lágrimas. Elas são facilmente

confundidas com a angústia gerada pela tristeza, e são muito eficazes em

fazer com que pessoas de coração terno desistam, movidas por uma

compaixão equivocada. (Por que equivocada? Porque, se você deixar a

pessoa em paz por causa das lágrimas, ela parará de sofrer na hora, mas

continuará com o problema não resolvido até que decida resolvê-lo, o que

pode ser nunca.) Todavia, as lágrimas são tanto de raiva (talvez com mais

frequência) quanto de tristeza ou angústia. Se, além de chorar, a pessoa sob

interrogatório está com o rosto vermelho, por exemplo, então é provável

que esteja com raiva, e não magoada (este não é um sinal infalível, mas é bastante comum). As lágrimas são um mecanismo de defesa eficaz, pois é

preciso ter um coração de pedra para resistir a elas, mas tendem a ser o

último recurso da evitação. Se conseguir superar as lágrimas, pode ter uma

conversa de verdade, mas é preciso um interlocutor muito determinado para

evitar os insultos e a mágoa gerados pela raiva (primeira defesa) e a pena e

a compaixão evocadas pelas lágrimas (segunda defesa). Requer alguém que

integrou sua sombra — seu lado sombrio (a teimosia, a crueldade e a

necessária capacidade para ser implacável e desapegado de emoção) — e

que consiga usá-la para um benefício de longo prazo. Não confunda,

ingenuamente, “gentil” com “bom”.

Lembre-se das opções discutidas anteriormente: negociação, tirania ou

escravidão. Dessas, a negociação é a menos terrível, mas não pense que é

fácil; no curto prazo, talvez ela seja a mais difícil das três, pois exige que

você lute agora, e só Deus sabe o quão fundo terá que cavar, quanto tecido

doente terá que remover. Ao que parece, você está lutando contra o espírito

da avó de sua esposa, que foi terrivelmente maltratada pelo marido

alcoólatra, e as consequências desse abuso não resolvido e da desconfiança

gerada em relação ao sexo oposto ecoam há gerações. As crianças são

imitadoras incríveis. Aprendem muito do que sabem de maneira implícita,

muito antes de poderem usar a linguagem, e imitam tanto o bom quanto o

mal. É por essa razão que a Bíblia diz que os pecados dos pais incidirão

sobre os filhos até a terceira e a quarta geração (Números 14:18).

A esperança, é claro, pode nos guiar pela dor da negociação, mas ela não é

suficiente. É preciso desespero também, e isso é parte da utilidade da

declaração “até que a morte nos separe”. Se o compromisso for verdadeiro,

vocês estão presos um ao outro — do contrário, ainda são imaturos demais.

Este é o objetivo dos votos: a possibilidade de salvação mútua, ou o mais

próximo que se pode conseguir aqui na Terra. Um casamento maduro de

verdade, se sua saúde permitir, chegará aos sessenta anos já mencionados,

tal como Moisés no deserto em busca da Terra Prometida, e há muitos

problemas a serem resolvidos — todos — antes de a paz ser estabelecida.

Assim, você amadurece quando se casa e busca a paz como se sua alma

dependesse dela (e talvez seja mais sério do que se fosse sua vida), e dá um

jeito de fazer funcionar ou sofrerá miseravelmente. Você será tentado pela

evitação, pela raiva e pelas lágrimas, ou atraído a fugir pelo alçapão do

divórcio para não ter que enfrentar o que deve ser enfrentado. Mas seu

fracasso irá persegui-lo enquanto você estiver furioso, chorando ou em processo de separação, bem como em seu próximo relacionamento, já que

todos os seus problemas permanecerão intactos e as suas habilidades de

negociação, desaprimoradas.

Você pode guardar a possibilidade de fuga no fundo de sua mente. Pode

evitar o compromisso de permanência. Mas, assim, não conseguirá alcançar

a transformação, que pode exigir tudo que conseguir arregimentar. Todavia,

a dificuldade, que está implícita na negociação, traz consigo uma promessa

tremenda, que é parte fundamental de uma vida radicalmente bem-sucedida:

você pode ter um casamento feliz. Você pode fazê-lo funcionar. Isso é uma

conquista — uma conquista tangível, desafiadora, excepcional e

improvável. Não existem muitas conquistas genuínas dessa magnitude na

vida; se conseguirmos quatro, já será bastante razoável. Talvez, caso se

esforce, você tenha um casamento sólido. Essa é a primeira conquista. Por

causa disso, edificou um lar estável, confiável, honesto e divertido ao qual

pode ousar incluir filhos. Assim, pode ter filhos e um casamento sólido que

funcione para você. Essa é a segunda conquista. Em seguida, você assume

mais responsabilidades que exigirão o seu melhor. Terá novos

relacionamentos da mais alta qualidade, se for afortunado e cuidadoso. Terá

netos e estará cercado por novas vidas quando a sua começar a desaparecer.

Em nossa cultura, vivemos como se fossemos morrer aos 30 anos. Mas não

é assim. Vivemos muito tempo. Apesar disso, tudo acaba em um piscar de

olhos, e você deveria concretizar o que os seres humanos realizam quando

vivem uma vida plena. Casamento, filhos, netos e todos os problemas e os

desgostos que os acompanham representam muito mais do que metade da

vida. Ignore tudo isso por sua conta e risco.

Conhecemos pessoas, em geral jovens, insensatas, mas cheias do cinismo

indevido que substitui a sabedoria na juventude, e elas dizem,

categoricamente — até com certo orgulho: “Eu não quero filhos.” Muitos

jovens de 19 anos afirmam isso, e é aceitável, em certo sentido, porque eles

têm apenas 19 anos, e muito tempo, e o que sabem com essa idade, afinal?

E algumas pessoas de 27 anos dizem isso, embora em menor número,

sobretudo se forem mulheres e minimamente honestas consigo mesmas. E

certos adultos de 45 anos afirmam o mesmo, no pretérito, e alguns talvez

estejam dizendo a verdade; mas a maioria está comemorando ter fechado a

porta do celeiro depois que o gado fugiu. Ninguém falará a verdade sobre

essa questão. Perceber abertamente que mentimos para as jovens, em

especial, sobre o que elas tendem a desejar na vida é tabu em nossa cultura, com sua estranha e incompreensível insistência de que a satisfação primária

na vida de uma pessoa típica é encontrada na carreira (uma raridade em si,

já que a maioria das pessoas tem empregos, não carreiras). Em minha

experiência clínica e profissional, independentemente de inteligência,

talento, educação, disciplina, desejo de maternidade, ilusão juvenil ou

lavagem cerebral cultural, é raro ver uma mulher que não faria qualquer

sacrifício necessário para trazer uma criança ao mundo aos 29, 35 ou, pior,

aos 40 anos.

Eis um caminho para a infelicidade que recomendo fortemente evitar, em

especial às mulheres que leem este livro (embora namorados e maridos

sábios devam prestar igual atenção). Decidir somente aos 29 ou 30 anos que

deseja filhos e não conseguir: eu não recomendaria isso a ninguém. Você

não vai se recuperar. Somos muito frágeis para brincar com o que a vida

pode nos oferecer. Todos pensam, quando são jovens e inexperientes: “A

gravidez é uma coisa garantida.” Isso só é verdade quando você não quer

filhos de jeito nenhum nem deveria engravidar e faz sexo no banco de trás

de um carro aos 15 anos. Então, com certeza, acabará em apuros. Porém,

uma gravidez bem-sucedida não é, nem de longe, um resultado óbvio. Você

pode adiar a tentativa de ter filhos para quando for mais velho — e muitas

pessoas são encorajadas ou se encorajam a fazer exatamente isso —, mas

até 30% dos casais têm problemas para engravidar.6

Vemos o mesmo tipo de problema — isto é, a imprudência com o que a

vida oferecerá ou não — quando as pessoas cujos casamentos estagnaram

começam a desenvolver a ilusão de que um caso amoroso atenderá às suas

necessidades não satisfeitas. Quando tive clientes considerando essa opção

— ou talvez de fato envolvidos em um caso —, tentei trazê-los de volta à

terra. “Vamos pensar nas consequências, em todas elas. Não apenas nesta

semana ou neste mês. Você tem 50 anos. Está com uma garota de 24 anos e

ela está disposta a acabar com seu casamento. O que ela pensa? Quem deve

ser? O que sabe?” “Bem, estou realmente atraído por ela.” “Sim, mas ela

tem um transtorno de personalidade. Sério, por que diabos ela está com

você e por que está disposta a destruir seu casamento?” “Bem, ela não se

importa se eu continuar casado.” “Ah, entendo. Então, essa garota não quer

ter um relacionamento real, com um grau de permanência de longo prazo. E

isso vai funcionar bem para você, não é? Apenas reflita. Será um pouco

desagradável para sua esposa. Haverá muitas mentiras. Você tem filhos — como eles reagirão quando tudo isso vier à tona? O que certamente

acontecerá. E o que você acha dos dez anos de batalhas judiciais que o

aguardam, que lhe custarão um terço de 1 milhão de dólares e o lançarão

em uma disputa de custódia que ocupará todo o seu tempo e a sua atenção?”

Vi pessoas enfrentarem batalhas por custódia tão sangrentas que teriam

seriamente preferido o câncer. Não é fácil se envolver com a perigosa

máquina do judiciário. Você passa a maior parte do tempo desejando estar

morto. Então esse é o seu “caso amoroso”, pelo amor de Deus. É ainda mais

delirante do que isso, pois, é claro, se você é casado, muitas vezes convive

com o pior lado do seu cônjuge, já que compartilha as verdadeiras

dificuldades da vida com ele. E guarda as partes mais amenas para o seu

parceiro de adultério: nenhuma responsabilidade, apenas restaurantes caros,

noites emocionantes e sem regras, preparação cuidadosa para o romance e a

ausência geral de realidade que acompanha o privilégio de fazer uma pessoa

pagar pelos problemas reais da existência enquanto a outra se beneficia da

ilusória ausência de problemas. Você não divide a vida com alguém com

quem tem um caso. Desfruta apenas das sobremesas (pelo menos no

começo), e tudo o que precisa fazer é tirar o chantilly e devorá-las. É isso.

Vocês se veem nas melhores condições possíveis, com nada além de sexo

em suas mentes e nada mais interferindo em suas vidas. Assim que isso se

torna um relacionamento que tem alguma permanência, uma grande parte

do caso imediatamente se transforma no que o incomoda em seu casamento.

Um caso não ajuda e as pessoas acabam terrivelmente feridas. Em especial

os filhos — e é a eles que você deve lealdade primordial.

Não estou tentando ser irracionalmente categórico sobre casamento e

família. Não se pode esperar que todas as instituições sociais funcionem

para todos. Às vezes, seu cônjuge pode ser um psicopata cruel, um

mentiroso congênito e incorrigível, um criminoso, um alcoolista, um sádico

(e talvez os cinco ao mesmo tempo). E você deve escapar. Mas isso não é

usar um alçapão. É fugir de uma catástrofe, de um furacão, e você deve sair

do caminho. Você pode ficar tentado a concluir: “Bem, que tal vivermos

juntos, em vez de nos casarmos? Vamos fazer um teste. É o mais sensato a

se fazer.” Mas o que exatamente significa convidar alguém para morar com

você, em vez de firmarem um compromisso? E sejamos severos e realistas

sobre nossa avaliação, em vez de fingir que estamos levando um carro

usado para um test drive. Eis o que isso significa: “Você servirá, por

enquanto, e presumo que sinta o mesmo por mim. Caso contrário, nos casaríamos. Porém, em nome do bom senso que falta a ambos, vamos nos

reservar o direito de trocar um ao outro por uma opção melhor a qualquer

momento.” E, se discorda que viver junto signifique isso — em uma

declaração ética totalmente articulada —, tente formular algo mais

plausível.

Você pode pensar: “Olha, doutor, isso é muito cínico.” Então, por que não

contemplamos as estatísticas, em vez de minha opinião, já que posso ser

injustamente considerado antiquado? A taxa de separação entre pessoas que

não são casadas, mas vivem juntas — ou seja, casadas em todos os

aspectos, menos no sentido formal —, é substancialmente mais alta do que

a taxa de divórcio entre casados no papel.7 E mesmo que você se case e faça

de seu cônjuge uma pessoa decente, como se diz, ainda assim terá muito

mais probabilidade de se divorciar do que se nunca tivesse morado junto.8

Então, sabe a ideia de fazer um teste? Parece atraente, mas não funciona.

Claro, como substituição ou adição ao fato de que morar junto não

funciona, é possível que as pessoas com maior probabilidade de se

divorciar, por motivos de temperamento, também sejam aquelas com maior

chance de preferir morar juntas, antes ou sem intenção de se casar. Não é

simples separar os dois fatores causais. Mas, na prática, não importa. A

coabitação sem promessa de compromisso permanente — anunciado no

convívio social, efetivado em cerimônia, seriamente considerado — não

produz casamentos mais robustos. E não há nada de bom nisso — em

especial para as crianças, que se saem muito pior em famílias com apenas

um dos genitores (em geral, sem a presença do pai).9 Ponto-final. Então, eu

simplesmente não vejo a coabitação como uma alternativa social

justificável. E digo isso como alguém que morou com a esposa antes de se

casar. Não sou inocente nessa questão. Mas isso não significa que eu estava

certo. E há outra coisa que está longe de ser trivial. Você simplesmente não

tem tantas chances na vida para fazer um relacionamento íntimo dar certo.

Talvez demore dois ou três anos para encontrar a pessoa ideal, e mais dois

ou três para avaliar se ela é de fato quem você pensa que é. São cinco anos.

Você envelhecerá muito mais rápido do que imagina, não importa quantos

anos tenha agora, e a maior parte do que é capaz de construir em termos de

família — casamento, filhos e assim por diante — vai dos 20 aos 35 anos.

Portanto, quantas oportunidades — com cinco anos de duração — você tem

de fato? Três? Quatro, se tiver sorte?

Isso significa que quanto mais você espera, mais suas opções diminuem,

ao invés de aumentar. Se é viúvo ou viúva, e precisa voltar ao cenário do

namoro aos 40 ou 50, que seja. Isso é fruto de uma tragédia, e assim é a

vida. Mas tenho visto amigos passarem por essa experiência, e não é um

destino que eu desejaria a alguém que amo. Continuemos a ser razoáveis

sobre isso: todos os jovens de 16 a 18 anos têm muito em comum. Eles

ainda não estão formados. São maleáveis. E isso não é uma ofensa. É um

fato. É também por isso que conseguem ir para a faculdade e, em um único

semestre, se tornar amigo de um colega de quarto para o resto da vida (sem

qualquer tipo de cinismo). Entretanto, aos 40 anos — se de fato viveu —,

você se torna uma pessoa singular e única. Conheci pessoas nessa época da

minha vida que, mesmo uma década ou mais depois, ainda considero novas

amigas. Essa é a função pura da complexidade do aumento da idade. E é

mera amizade, não amor — não é uma vida conjunta nem a união de duas

famílias diferentes.

E assim você tem seu casamento e seus filhos, e tudo está bem, porque

você é teimoso e apavorado o suficiente com o inferno que aguarda

qualquer um que falhe em negociar pela paz e em fazer os sacrifícios

necessários para estabelecê-la. Você está, sem dúvida, mais preparado agora

para sua carreira — ou, o mais provável, seu trabalho. Essa é a terceira das

quatro conquistas que poderá realizar, com boa sorte e um espírito

destemido, no breve lampejo de sua existência. Você aprendeu como

estabelecer uma harmonia produtiva nos confins de seus relacionamentos

mais íntimos e privados, e parte dessa sabedoria transborda em seu local de

trabalho. Você é um mentor para os jovens, um colega prestativo e um

subordinado de confiança e, em vez da confusão que poderia facilmente

fazer com o local em que mora, você o aperfeiçoa. Se todos fizessem isso, o

mundo seria um lugar muito menos trágico e infeliz. Talvez até fosse um

lugar manifestamente bom. E talvez você aprenda a fazer bom uso de seu

tempo longe da família e do trabalho — seu momento de lazer —,

tornando-o significativo e produtivo. Essa é a quarta conquista — que,

assim como as outras, pode ser desenvolvida. Talvez você fique cada vez

melhor em trabalhar na solução de problemas cada vez mais difíceis e se

torne motivo de orgulho, à sua maneira, para o próprio espírito da

humanidade. E essa é a vida.

Retomemos o assunto casamento. Como planejar e manter diligentemente

o romance em seu relacionamento? Bem, você tem que decidir: “Quer um pouco de romance em sua vida ou não?” Se realmente refletir, sem

ressentimentos — sem a alegria de privar seu cônjuge, agora alienado, do

prazer que pode advir de tal tentativa —, a resposta geralmente é sim.

Romance sexual: a aventura, o prazer, a intimidade e a excitação que as

pessoas fantasiam vivenciar quando sentem necessidade de um toque

divinal. Você quer isso. As alegrias da vida são raras e preciosas, e você não

deseja abandoná-las sem um motivo adequado. Como conseguir o romance?

Com sorte, ele acontecerá entre você e alguém de quem gosta; com mais

sorte e comprometimento suficiente, ele acontecerá entre você e alguém que

ama. Quase nada disso é fácil. Se criar um lar com alguém, terá que fazer

muitas negociações para manter o “gostar” e o “amar” bem vivos.

 

ADMINISTRAÇÃO DOMÉSTICA

 

Eis algumas considerações práticas. Elas podem parecer muito alheias ao

assunto do romance. No entanto, a discussão é necessária, pois

transcendemos — ou perdemos — nossos papéis tradicionais e não

formulamos substitutos para eles. Antes disso — talvez antes da invenção

da pílula anticoncepcional, que foi uma revolução biológica —, os homens

faziam tarefas masculinas, e as mulheres, tarefas femininas, sejam lá quais

fossem. Os papéis tradicionais são muito mais úteis do que tendem a

perceber as pessoas modernas, que superestimam a tolerância de sua

liberdade e escolha. Em uma sociedade que muda mais devagar, todos têm

algum senso de seus respectivos deveres. Isso não elimina a tensão (nada

elimina), mas pelo menos existe um gabarito. Se não houver um modelo

para o que cada um deve fazer quando mora com alguém, então será preciso

conversar — ou negociar —, caso você seja bom nisso, o que

provavelmente não é. Poucas pessoas são.

Se você vai constituir uma família em paz com alguém que ama e, com

sorte, gosta — e deseja continuar amando e gostando —, terá de determinar

de alguma forma quem fará o quê. Isso é a substituição de papéis. Quem faz

a cama? Quando deve ser arrumada? Em que nível de perfeição deve estar

para ser mutuamente aceitável? E se isso não for bem conduzido, a

conversa torna-se rapidamente contraproducente: “Eu fiz a cama.” “Bem,

você não fez um trabalho muito bom.” “Nada é bom o suficiente para você.

Se acha que não fiz um bom trabalho, talvez eu deva parar, e você mesmo

pode arrumar a cama!” “Bem, talvez você devesse elevar um pouco seus padrões, e não apenas sobre a cama!” Levará dias para resolver isso — se

for resolvido; e essa situação envolve apenas a cama. Apenas os primeiros

dez minutos da manhã. Portanto, talvez a cama permaneça desarrumada ou

feita de qualquer jeito ou com amargura ao longo dos próximos sessenta

anos (lá vem o mesmo período de novo), e há muito mais questões

domésticas para resolver do que apenas a cama. Porém, se isso não for

resolvido, se tornará um problema todas as manhãs de todos os dias de

todas as semanas, meses e anos e todos viverão com raiva, pelo menos

debaixo da fina superfície, assim que acordarem ou cada vez que entrarem

no quarto e outros aspectos começarem a ficar fora de ordem. Isso não é

nada bom.

Qual carreira terá prioridade? Quando e por quê? Como as crianças serão

educadas e disciplinadas, e por quem? Quem faz a limpeza? Quem põe a

mesa? Leva o lixo para fora? Limpa o banheiro? Como as contas bancárias

são configuradas e gerenciadas? Quem compra mantimentos? Roupas?

Móveis? Quem paga o quê? Quem assume a responsabilidade pelos

impostos? Et cetera, et cetera, et cetera. A administração adequada de uma

casa abarca infinitos detalhes — um problema tão complexo quanto

administrar uma empresa, com a dificuldade adicional de tentar fazê-lo

junto com um membro da família —, e grande parte das tarefas precisa ser

repetida todos os dias. Afinal, sua vida é composta sobretudo de ações que

se repetem rotineiramente. Ou você negocia a responsabilidade sobre cada

um desses deveres ou entra no jogo de empurrar com a barriga para sempre,

enquanto enfrenta uma batalha não verbal, com teimosia, silêncio e

tentativas indiferentes de “cooperação”. Isso não ajudará em nada a sua

situação romântica. Dessa forma, é de crucial importância fundamentar a

parte da administração doméstica em terreno firme.

É um conjunto de problemas incrivelmente difícil de resolver, pois

significa que você deve ordenar de forma consciente a hierarquia de

responsabilidades entre os parceiros da casa. É obrigado a negociar cada

maldito detalhe aparentemente trivial (mas a aparente trivialidade é uma

ilusão): quem prepara as refeições? Quando devem ser preparadas? Quanto

isso vale em termos de compensação com outras tarefas? Como você

agradece a alguém por ser eficiente na condução da cozinha? Quem enche a

máquina de lavar louça? Quem lava a louça? Com que rapidez os pratos

devem ser tirados da mesa após a refeição? Quais pratos serão usados? O

que vamos comer? Que papel as crianças devem desempenhar? Nós nos sentamos juntos? Teremos refeições regulares? Cada uma dessas questões

pode se tornar uma guerra sangrenta. As pessoas têm pensamentos

divergentes, e sabe-se lá quem tem razão. Então, é preciso lutar contra isso

e chegar a um consenso. É difícil. Talvez signifique centenas de batalhas.

Certamente significa dezenas. Mas são batalhas com um propósito, e esse

propósito é lutar até que surja uma solução, para que os conflitos em torno

dessa questão não sejam mais necessários. É transformar a paz em objetivo,

e ela não pode ser estabelecida exceto por meio de negociação, que, por sua

vez, requer um compromisso forte o suficiente para resistir a conflitos

sérios e profundos.

A próxima coisa que você precisa fazer — sei disso por experiência

clínica e conjugal (trinta anos de cada) — é realmente conversar com seu

cônjuge por cerca de noventa minutos por semana, apenas sobre assuntos

práticos e pessoais. “O que está acontecendo com você no trabalho?” “O

que está acontecendo, sob seu ponto de vista, com as crianças?” “O que

precisa ser feito em casa?” “Há algo que o incomoda e que possamos

resolver?” “O que temos que fazer para cobrir os gastos da próxima

semana?” Comunicação pura e prática: em parte porque você tem uma

história, seu cônjuge tem uma história e vocês têm uma história conjunta.

Para conhecer sua história, é preciso contá-la e, para que seu cônjuge a

conheça, ele deve ouvi-la. É necessário que essa comunicação aconteça de

forma contínua. Não precisa ser noventa minutos de uma vez. Talvez quinze

minutos por dia. Mas mantenha essas linhas de comunicação pragmática

abertas para saber onde a outra pessoa está e vice-versa. Se não mantiver ao

menos noventa minutos por semana, criará um acúmulo e sua história

mútua começará a desalinhar. Em algum ponto, esse acúmulo será tão

grande que você não saberá quem é, e certamente não saberá quem é seu

cônjuge, e ambos se tornarão mutuamente alienados. Seu relacionamento

perderá a coerência. Essa é uma situação terrível.

Quando estou ajudando alguém a consertar o casamento, digamos, foco

assuntos muito mundanos. Não estou interessado em férias, ocasiões

especiais ou qualquer acontecimento incomum. Não é que esses eventos

não sejam importantes, mas não são vitais no mesmo sentido que as rotinas

diárias. São elas que devem ser corrigidas. Quero saber quais são as

interações que constituem a maior parte de um dia típico. Talvez vocês

acordem juntos; comam juntos. Coisas que fazem diariamente. Talvez

acordar, se preparar e comer representem cinco horas do dia. É um terço do seu tempo de vigília e, portanto, um terço da sua vida. São 35 horas a cada

7 dias — uma semana inteira de trabalho; uma carreira inteira. Faça direito.

Pergunte a si mesmo e ao outro: como queremos que esses horários sejam

estruturados? Como podemos tornar o despertar matinal agradável?

Podemos tratar um ao outro educadamente e com interesse, e talvez sem

distrações eletrônicas, enquanto comemos? Podemos tornar as refeições

deliciosas e o ambiente acolhedor? Pense no momento em que volta para

casa à noite. Digamos que essa rotina leve dez minutos. Representa mais

uma hora por semana; cinquenta horas por ano — uma semana e meia de

trabalho. Você passa uma semana e meia de trabalho por ano sendo saudado

assim que entra pela porta. É uma fração considerável de sua existência.

Alguém o recebe e manifesta certo grau de felicidade em vê-lo; você é

ignorado porque todos estão usando seus smartphones; ou é soterrado por

uma ladainha de reclamações? Como gostaria de organizar isso, para não

temer o momento de chegar em casa? Há coisas que vocês fazem juntos que

são mundanas; que se repetem todos os dias. Mas elas representam sua vida

inteira. Organize essas situações e você se estabelecerá com muito mais

eficácia do que imagina. Se conseguir ter êxito na guerra para instaurar

harmonia na administração doméstica, ambos conquistarão uma grande

vitória. E só então será possível se concentrar no que pode acontecer

durante umas férias românticas em um hotel boutique, na casa de seus pais,

em um resort ou em uma viagem de aventura — ou durante aqueles dois

encontros semanais já mencionados e que ambos estão bastante relutantes

em tentar.

Comece organizando essas situações e veja o que acontece. Assim, você

terá refeições tranquilas, por exemplo, e não morrerá de frustração ou

pressão alta. Mas terá que lutar por essa conquista. O que importa não é

lutar (porque essa parte é obrigatória), mas conseguir alcançar a paz como

consequência. Alcançar a paz é chegar a uma solução negociada. E você

deseja e precisa chegar a uma solução negociada para todas as

responsabilidades e oportunidades que compartilham como casal — e para

todos os obstáculos que encontrarem. Pelo menos assim você terá alguém

com quem conversar quando sua vida ficar complexa, o que

inevitavelmente acontecerá. E terá a vantagem de ter duas cabeças

pensando, mesmo que elas discordem. O que tudo isso significa é que os

problemas relacionados a saber o que você quer e discutir o assunto com seu cônjuge devem ser resolvidos, para que o romance em seu

relacionamento possa ser mantido.

As outras pessoas nos mantêm sãos. Em parte, é por esse motivo que casar

é uma boa ideia. Por quê? Bem, você é meio insano, e seu cônjuge também

(quer dizer, talvez não meio — mas bastante). Felizmente, não costuma ser

a mesma metade. De vez em quando, você encontra casais em que ambos

têm a mesma fraqueza, e acabam agravando essa falha um no outro. Talvez

os dois gostem muito de vinho, por exemplo, e juntos caiam no alcoolismo.

Para evitar esse destino, pode ser bom que só uma pessoa do casal goste de

álcool, e não as duas. Isso causará uma certa quantidade de conflito de curto

prazo, em situações em que há ou haverá bebida, mas as consequências de

longo prazo (evitar que qualquer uma das duas se torne alcoolista)

provavelmente serão benéficas. A pessoa que não bebe tomará uma ou duas

doses em uma ocasião social, apenas para evitar ser muito rígida e

desagradável, e a que gosta de beber receberá, espera-se, uma repreensão

salutar caso não exerça o controle adequado.

Em geral, é um feliz acaso que, provavelmente, suas idiossincrasias sejam

distribuídas de forma um tanto aleatória e que, ao se unir a outra pessoa,

você encontre um ponto forte para equilibrar um ponto fraco e vice-versa.

Ao se unir com outra pessoa para recriar aquele ser original — essa é a

ideia simbólica —, vocês têm uma chance de criar um ser sensato e são.

Isso é bom para ambos, melhor ainda para seus filhos (que agora têm uma

chance de lutar para se adaptar ao que constitui um comportamento

geralmente são), e também é bom para a amizade e para o mundo em geral.

Muito desse movimento em direção à unidade funcional é consequência

do diálogo e da comunicação. Se você já não é tão jovem, sabe que as

pessoas são terrivelmente machucadas. Quando somos jovens e

inexperientes, é provável que façamos duas suposições, de uma maneira

bastante inquestionável e implícita, que não são verdadeiras. A primeira é

que existe alguém perfeito. É provável que você até encontre essa pessoa

hipoteticamente perfeita, a qual enxerga assim como fruto da ilusão, e se

apaixone de forma desesperada e tola (tola porque você está apaixonado por

sua projeção de perfeição, e não pela pessoa — algo que é muito confuso

para o alvo do seu afeto). A segunda é que existe alguém que é perfeito

para você. A partir dessas suposições, você está cometendo ao menos três

erros, o que é uma bela proeza, visto que fez apenas duas suposições.

Para começar, não existe ninguém perfeito. Só pessoas avariadas — com

feridas profundas, embora nem sempre irreparáveis, e uma bela dose de

idiossincrasia individual. Além disso, se houvesse alguém perfeito, olharia

para você e sairia correndo gritando. A menos que consiga enganar alguém,

como acabaria com uma pessoa melhor do que você? Na verdade, deveria

ficar apavorado com o fato de ela aceitar sair em um encontro. Alguém

sensato pensaria de seu potencial parceiro romântico: “Ah, meu Deus! Ele é

cego, desesperado ou tão avariado quanto eu!” A ideia de se envolver com

alguém ao menos tão problemático quanto você é apavorante. Não é tão

ruim quanto ficar sozinho consigo mesmo, mas ainda assim é trocar a

espada pelo fogo — a diferença é que, pelo menos, a exposição ao fogo é

capaz de transformá-lo. Assim, você se casa, se tiver coragem — se tiver

visão de longo prazo e capacidade de fazer os votos e de assumir

responsabilidades; se tiver alguma maturidade — e ambos começam a se

tornar uma só pessoa razoável. E participar de um processo tão duvidoso

transforma o casal em uma pessoa razoável com possibilidade de algum

crescimento. Então, vocês conversam. Sobre tudo. Não importa o quão

doloroso. E estabelecem a paz. E, se conseguirem, agradecem à

providência, porque o conflito é condição-padrão.

 

FINALMENTE: O ROMANCE

 

Não fazia muito sentido falar sobre romance logo no início do capítulo —

pelo menos não sobre como preservá-lo. Romance é um jogo, e não é fácil

jogá-lo quando surgem problemas de qualquer tipo. Esse jogo requer paz,

que, por sua vez, exige negociação. E, mesmo assim, você terá sorte se

conseguir jogá-lo.

A questão do romance conjugal — intimidade e sexo — é complexa, com

um dragão à espreita em cada pergunta. Por exemplo: qual o dever sexual

entre o casal envolvido em um casamento? A resposta não pode ser “nada

de sexo”. Essa não é a resposta, porque parte do arranjo contratual é

organizar sua vida romântica de maneira mutuamente satisfatória. É uma

pré-condição implícita para a estabilidade do casamento. Provavelmente

não é sexo quinze vezes por dia, assim como também não deve ser sexo

relutante uma vez por ano. É algo entre os dois extremos, e é nesse ponto

que você deve começar a negociar.

De acordo com minha observação, o casal adulto típico — quando as

pessoas têm um emprego, filhos e a administração doméstica que acabamos

de discutir, além de todas as preocupações e responsabilidades — pode

conseguir um interlúdio romântico razoável uma ou duas vezes por semana,

ou até três (menos provável). Essa frequência, se bem negociada, parece

funcionar de forma aceitável para ambos os parceiros. Tenho observado que

duas vezes é melhor do que uma, mas uma vez é muito melhor que zero.

Zero é ruim. Se o casal chegar a zero, então um dos dois está agindo como

tirano e o outro está se submetendo. Se chegar a zero, um dos dois terá um

caso — físico, emocional, imaginário ou alguma combinação dos três. Não

digo isso de forma leviana. Alguém tem que ceder; quando o romance

desaparece e a frequência da intimidade sexual atinge o fundo do poço, em

algum ponto, deve ter havido um não, deve ter existido um forte indício de

que “isso não é bom o bastante”. Não estou recomendando um caso, mas é

para isso que está se preparando se sua vida sexual desaparecer. Talvez você

queira seguir esse caminho e facilitar o caso, pois quer bancar o mártir:

“Minha esposa me deixou para ter um caso e coitado de mim.” E por que

ela fez isso? “Bem, talvez nossa vida sexual não fosse tudo o que poderia

ter sido” (e esta é uma resposta que pode exigir um pouco de investigação).

“O que exatamente você quer dizer com ‘não foi tudo o que poderia ter

sido’?” “Bem, não fazíamos amor há dois anos, e então ela teve um caso.”

Isso não é um choque. Você deve começar assumindo que seu parceiro é

um ser humano relativamente normal, e que existe um certo nível de

satisfação sexual que é um requisito razoável — digamos, duas vezes por

semana, ou uma vez por semana, sob condições de intensa atividade. Nos

primeiros dias do casamento, pode não ser problema expressar interesse

romântico por seu parceiro, mas a vida exige tanto de nós. Encontros

amorosos são aflitivos, mesmo quando se é solteiro. Estou ciente de que

também guardam muita aventura, mas a maior parte só existe nos filmes, e

não em sites de namoro, em trocas de mensagens de texto, cafés,

restaurantes e bares, onde ocorrem os primeiros encontros desajeitados.

Encontros são trabalhosos, e você fará esse esforço se for solteiro, pois está

sozinho, faminto por atenção e desesperado por intimidade física. (Pessoas

solteiras fazem, em média, muito menos sexo do que pessoas casadas,

embora eu suponha que uma pequena porcentagem tenha uma vida sexual

muito movimentada. Mas não consigo enxergar vantagem nem mesmo para

os bem-sucedidos.)

Uma pessoa solteira se esforçará em encontros porque está solitária e

carente, mas não é uma questão simples. É preciso abrir espaço em sua vida

para isso. É preciso planejar. Usar a imaginação, gastar dinheiro, encontrar

um parceiro aceitável e, como dizem, beijar muitos sapos para encontrar um

príncipe (ou uma princesa). As pessoas muitas vezes ficam aliviadas

quando se casam, pois não precisarão mais fazer todo esse esforço que

costuma ser tão contraproducente. Mas isso não significa de forma alguma

que agora se está isento; que se pode simplesmente relaxar vestindo suas

roupas íntimas e meias brancas desgastadas e presumir que todos os

prazeres hipotéticos vividos por Hugh Hefner se manifestarão

automaticamente em sua casa. Ainda é necessário muito esforço, a menos

que deseje que o romance desapareça. É preciso conversar sobre isso. Você

tem que ter aquela conversa difícil e constrangedora: “Como vai ser, amor?

Terças e quintas? Quartas e sextas? Segundas e sábados?” Você pode

pensar: “Ah, Deus. Isso é tão meticuloso. Tão monótono e planejado. É tão

programado, previsível, burguês, antirromântico e robótico. É humilhante e

constrangedor e só transforma o sexo em dever. Cadê a diversão? Onde está

a espontaneidade, o jazz suave, os drinques e a excitação da atração

repentina e inesperada? Onde está o smoking e o vestidinho preto?” É isso

que você esperava, ainda que de forma inconsciente, em suas fantasias

tolas? Com que frequência aconteceu assim quando estava namorando?

Nunca? E (lembre-se, estamos entre adultos) você quer dois empregos (duas

carreiras, duas rendas), dois filhos, um padrão de vida razoável — e

espontaneidade? E não vai “se contentar” com nada menos?

Boa sorte! Isso não vai acontecer — não de acordo com minha experiência

clínica (e pessoal) —, não sem muito esforço. O que acontecerá é que as

necessidades absolutas da vida, inexoravelmente, começarão a ter

prioridade sobre as necessidades desejáveis. Talvez haja uma lista de dez

coisas que você fará em um dia e o sexo seja a décima primeira. Não é que

você não ache o sexo importante, mas nunca passa do quinto item da lista. É

preciso criar o espaço e o tempo e, pelo que posso dizer, deve fazê-lo de

modo consciente. Pode pensar: “Como seria passar algum tempo com essa

pessoa por quem fui romanticamente atraído?” É preciso pensar nisso.

Talvez você só tenha tempo para assistir a meia hora de um programa de

TV antes de se deitar. Talvez tenha uma hora e meia, ou uma hora, porque a

vida é muito agitada. Não seria uma ideia tão ruim tomar um banho. Passar

um pouco de batom — pode ser útil. Perfume. Vestir roupas atraentes e eróticas. Se for homem, compre lingerie para sua esposa; se for mulher,

vista-a, com ousadia. Talvez você, homem, possa encontrar algo

razoavelmente sexy para vestir em uma loja masculina ou um lugar que

venda roupas eróticas que não sejam muito extremas, que não demonstrem

mau gosto e que não acabem gerando uma intensa e inoportuna timidez. E

um ou dois elogios quando toda essa coragem é manifestada não é uma

ideia tão ruim. Elogie toda vez que isso acontecer durante o ano. A intenção

é construir uma relação de confiança. Experimente uma iluminação suave

— talvez algumas velas (alguém tem que comprar as velas, e deve ser

encorajado a fazê-lo; e o cinismo deve ser mantido ao mínimo, se não

quiser destruir de uma vez algo que já é frágil). Eis a regra: nunca castigue

seu parceiro por fazer algo que você deseja que ele continue fazendo. Em

especial se exigiu um pouco de coragem real — ir além do mero senso de

dever.

Que tal tentar criar um cenário da maneira romântica que imaginaria se

estivesse tendo um caso? Porque esse é o tipo de coisa que as pessoas

pensam quando fantasiam um caso (se não lhes faltar criatividade).

Experimente ter um caso com sua esposa ou seu marido. O homem pode

preparar o quarto enquanto a mulher está se arrumando no banheiro. Já falei

das velas. Que tal uma musiquinha? Que tal se certificar de que o quarto

está limpo e — se Deus quiser — esteticamente atraente? Pode ser um

começo. E talvez vocês dois não se tornem velhos e gordos, doentes e

hipocondríacos o mais rápido possível só para ofender um ao outro, o que

muitos casais certamente fazem. E então, talvez, ambos possam ter o que

precisam e talvez até o que desejam. Mas você teria que admitir seus

desejos e negociar com seu cônjuge. Do que você gosta? Do que ele gosta?

Vocês compartilharão suas preferências um com o outro? Correrão o risco

de não se sair bem? Aprenderão alguns truques novos, mesmo que se

sintam bobos ao tentar pela primeira vez?

Nada disso é fácil. As pessoas fazem coisas umas com as outras das quais

preferem não falar, o que não ajuda muito quando se é casado. Pode ser que,

se estiver disposto a negociar e abordar o assunto com boa vontade, você

consiga decidir do que precisa e o que deseja e chegar ao acordo ideal. Pode

se perguntar: “Como fazer isso de modo que eu aumente a probabilidade de

continuar romanticamente interessado em meu cônjuge pelos próximos

vinte anos, e de modo que eu não me perca e não faça algo estúpido como

muitos fazem? Qual é o meu pré-requisito mínimo para a satisfação erótica?” Você pode tentar se convencer de que isso não é necessário; de

que é capaz de suportar o que tem, mesmo que seja nada. Mas não é

verdade. Não se tiver respeito próprio ou bom senso. Sempre há algo que se

deseja e precisa. Se você comunicar abertamente o que é esse algo, e ao

mesmo tempo se abrir para a mesma comunicação vinda de seu cônjuge, é

possível que ambos obtenham não só o que querem um do outro, mas até

mais do que esperam.

Combine alguns encontros e depois crie o hábito de cumpri-los até se

tornar um especialista. Negocie e pratique isso também. Permita-se tomar

consciência do que você quer e precisa e tenha a decência de contar esse

segredo ao seu cônjuge. Afinal, para quem mais contaria? Dedique-se ao

ideal mais elevado do qual obrigatoriamente depende um relacionamento

honesto e corajoso, e faça isso com a seriedade que manterá sua alma

intacta. Respeite seus votos matrimoniais, de modo que esteja desesperado

o suficiente para negociar com honestidade. Não deixe seu cônjuge

desprezá-lo com alegações de ignorância ou recusa em se comunicar. Não

seja ingênuo e não espere que a beleza do amor se mantenha sem todo o

esforço de sua parte. Distribua as necessidades de sua casa de uma forma

que ambos considerem aceitável e não tiranize ou se sujeite à escravidão.

Decida o que precisa para se manter satisfeito, tanto na cama quanto fora

dela. E talvez — apenas talvez — você continuará a ter o amor da sua vida,

um amigo e confidente, e esta rocha fria em que vivemos em um dos

extremos do cosmos será um pouco mais quente e reconfortante do que

seria de outra forma. E você vai precisar disso, porque sempre surgirão

tempos difíceis, e é melhor ter algo para combatê-los ou o desespero virá

para ficar.

Planeje e se esforce para manter o romance em seu relacionamento.

I A mesma ideia emergiu de forma constante nos séculos da literatura alquímica, que tendia predominantemente a representar a pessoa perfeita (o possuidor, em um sentido espiritual ou psicológico, da pedra filosofal) como consequência do casamento místico entre os elementos feminino e masculino da psique. Discutimos isso com alguns detalhes na Regra 2: “Imagine quem você poderia ser e mire esse alvo com determinação”, no que diz respeito à figura do Rebis.