Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida

Jordan B. Peterson · Capítulo 7 de 16

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Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida

Regra 4: Perceba que a oportunidade se esconde onde a responsabilidade foi abdicada

REGRA 4

 

PERCEBA QUE A OPORTUNIDADE SE

 

ESCONDE ONDE A

 

RESPONSABILIDADE FOI ABDICADA

 

TORNE-SE INESTIMÁVEL

 

Em meu duplo papel de psicólogo clínico e professor, orientei muitas

pessoas no desenvolvimento de suas carreiras. Às vezes, elas vêm me

consultar porque seus colegas de trabalho, subordinados ou chefes não

fazem o trabalho de maneira adequada. Elas gerenciam, trabalham lado a

lado ou até são supervisionadas por pessoas narcisistas, incompetentes,

malévolas ou tirânicas. Situações assim acontecem e devem ser enfrentadas

e interrompidas de uma forma sensata. Não encorajo as pessoas a se

martirizarem. O sacrifício estoico para que outro receba o crédito é uma

péssima ideia. No entanto, sob tais circunstâncias — se for sábio e atento

—, você conseguirá perceber que seus colegas de trabalho improdutivos

estão deixando uma infinidade de tarefas valiosas por fazer. Você pode

então se perguntar: “O que aconteceria se eu assumisse a responsabilidade

de fazê-las?” É uma questão intimidante. O que é deixado por fazer

costuma ser arriscado, difícil e necessário. Mas isso também significa que

vale a pena e é significativo — não é? E talvez você consiga enxergar um

problema, apesar de sua cegueira habitual. Como saber, então, que não é

problema seu? Por que você percebe este e não qualquer outro problema?

Essa é uma questão que vale a pena analisar a fundo.

Se deseja adquirir valor inestimável no local de trabalho — em qualquer

comunidade —, basta fazer as tarefas úteis que ninguém mais faz. Chegue

mais cedo e saia mais tarde do que seus colegas (mas não se negue a ter uma vida).1 Organize o que conseguir identificar como perigosamente

desorganizado. Quando estiver no trabalho, trabalhe, em vez de parecer que

está trabalhando. E, finalmente, aprenda mais sobre o negócio — ou sobre

seus concorrentes — do que já sabe. Isso o tornará inestimável — uma

pessoa imprescindível. Todos perceberão e começarão a apreciar seus

méritos conquistados com tanto esforço.

Você pode argumentar: “Bem, eu não conseguiria assumir algo tão

importante.” Mas e se começasse a se transformar em uma pessoa capaz

disso? Experimente resolver um problema pequeno — algo que está

incomodando-o, que acha possível solucionar. Comece enfrentando um

dragão do tamanho que provavelmente conseguirá derrotar. Uma serpente

pequena pode não ter tido tempo para acumular muito ouro, mas ainda pode

haver algum tesouro a ser conquistado, além de uma probabilidade razoável

de sucesso nessa empreitada (e sem muito risco de uma morte flamejante ou

sangrenta). Sob circunstâncias adequadas, assumir responsabilidade

excedente é uma oportunidade de se tornar verdadeiramente inestimável. E

então, se quiser negociar um aumento ou mais autonomia — ou até mesmo

mais tempo livre —, pode ir até seu chefe e dizer: “Eis dez tarefas que

precisavam ser feitas, todas vitais, e agora assumi todas elas. Se me ajudar

um pouco, vou continuar. Posso até melhorar. E tudo, inclusive sua vida,

melhorará também.” Caso seu chefe tenha bom senso — e às vezes os

chefes têm —, sua negociação será bem-sucedida. É assim que funciona. E

lembre-se de que não faltam pessoas genuinamente boas que ficarão

empolgadas se puderem ajudar alguém útil e confiável. É um dos prazeres

verdadeiramente altruístas da vida, e sua profundidade não deve ser

subestimada ou desconsiderada com o cinismo barato que se disfarça de

sabedoria decorrente da desilusão.

Parece que o significado que nutre a vida de maneira mais eficaz é fruto

do ato de assumir responsabilidades. Ao relembrar o que realizaram, as

pessoas pensam, se tiverem sorte: “Bem, eu fiz isso e foi valioso. Não foi

fácil. Mas valeu a pena!” É estranho e paradoxal que haja uma relação

recíproca entre o valor de algo e a dificuldade de realizá-lo. Imagine o

seguinte diálogo: “Você quer dificuldade?” “Não, eu quero facilidade.” “Na

sua experiência, valeu a pena fazer algo fácil?” “Bem, geralmente não.”

“Então, na verdade, talvez você queira algo difícil.” Acho que este é o

segredo da razão do próprio Ser: o difícil é necessário.

É por essa razão que nos dispomos, e até ficamos felizes, em nos impor

limitações. Cada vez que participamos de um jogo, por exemplo, aceitamos

um conjunto de restrições arbitrárias. Nós nos limitamos e nos restringimos,

e exploramos as possibilidades que se revelam. Esse é o jogo. E ele só

funciona com regras arbitrárias. Você as aceita voluntariamente, mesmo que

sejam absurdas, como no xadrez: “Eu só posso mover este cavalo em L.

Que ridículo. Mas que divertido!” Isso porque, por incrível que pareça, não

é divertido se pudermos mover qualquer peça para qualquer lugar. Se todos

os movimentos forem permitidos, não é mais um jogo. No entanto, quando

aceitamos algumas limitações, o jogo começa. Aceite-as, de um modo mais

amplo, como parte necessária do Ser e parte desejável da vida. Presuma que

pode transcendê-las ao aceitá-las. E então poderá participar

apropriadamente do jogo limitado.

E tudo isso não tem apenas importância psicológica e não é, de forma

alguma, só um jogo. As pessoas precisam de significado, mas os problemas

também precisam de resolução. É muito salutar, do ponto de vista

psicológico, encontrar algo significativo — algo pelo (ou para) qual vale a

pena se sacrificar, algo que merece ser confrontado e assumido. Porém, o

sofrimento e a maleficência que caracterizam a vida são reais, com as

terríveis consequências do real — e nossa capacidade de resolver

problemas, ao confrontá-los e assumi-los, também é real. Ao assumir a

responsabilidade, podemos encontrar um caminho significativo, melhorar

psicologicamente nossa sina pessoal e de fato reparar o que é

intoleravelmente errado. Assim, podemos ter o melhor de dois mundos.

 

RESPONSABILIDADE E SIGNIFICADO

 

A ideia de que a vida é sofrimento é um truísmo relativamente universal do

pensamento religioso. Essa é a primeira das Quatro Nobres Verdades do

Budismo, bem como um conceito hindu fundamental. Segundo a tradição, a

antiga palavra indiana para sofrimento — dukkha (do idioma pali) ou duhka

(do sânscrito) — é derivada de dus (ruim) e kha (buraco) — em especial o

orifício em uma roda de carroça, através do qual passa o eixo. O lugar

adequado para esse buraco é bem no centro — o ponto exato. Caso

contrário, a viagem não seria nada agradável — com os solavancos

diretamente proporcionais em magnitude ao grau de deslocamento. Isso me faz lembrar do termo grego hamartia, que costuma ser traduzido como

“pecado”, no contexto do pensamento cristão.

Originalmente, hamartia era um termo próprio da prática do arco e flecha,

e significava errar o alvo. Há muitas maneiras de errar um alvo. Com

frequência, em minha prática clínica — e em minha vida pessoal —,

constatei que as pessoas não conseguiam o que precisavam (ou, talvez

igualmente importante, o que queriam) porque nunca deixavam claro para si

mesmas ou para os outros o que era. Afinal, é impossível acertar um alvo, a

menos que mire nele. Assim, as pessoas costumam ficar mais chateadas

com algo que nem sequer tentaram fazer do que com os erros que

cometeram ao enfrentar o mundo de forma ativa.2 Pelo menos, quando você

dá um passo em falso ao fazer algo, pode aprender com seu erro. Mas

permanecer passivo diante da vida, ainda que justifique sua inação como

uma forma de evitar o erro, é um grande equívoco. Como insiste o grande

músico de blues Tom Waits (em sua canção “A Little Rain”): “Você deve

arriscar algo que importe.”I

Esse é o erro colossal cometido pelo personagem Peter Pan. “Pan” — um

nome que remete ao deus grego das selvas — significa “englobar tudo”.

Peter Pan, o menino mágico, é capaz de tudo. Ele é puro potencial, tal como

toda criança, e isso o torna mágico, assim como toda criança é mágica. Mas

o tempo diminui essa magia, transformando a fascinante potencialidade da

infância na realidade, em geral, mais mundana, porém genuína, da idade

adulta. O segredo, por assim dizer, é trocar essa possibilidade inicial por

algo significativo, produtivo, duradouro e sustentável. Peter Pan se recusa a

fazê-lo. Isso ocorre, pelo menos em parte, porque seu principal modelo é o

Capitão Gancho, o arquétipo do Rei Tirânico, a patologia da ordem — um

parasita e um tirano que teme a morte. Gancho tem seus motivos. A morte o

espreita na forma de um crocodilo com um relógio no estômago. É o tempo:

tique-taque, tique-taque. É a vida desaparecendo com o passar dos

segundos. O crocodilo provou um pedaço do Capitão e gostou. Assim

também é a vida. Não só os covardes ficam aterrorizados com o que se

esconde nas profundezas do caos. É raro ver uma pessoa que, durante a

infância, não tenha sofrido com a decepção, as doenças e a morte de um

ente querido. Essas experiências podem deixá-la amarga, ressentida,

predatória e tirânica — assim como Gancho. Com um modelo como o

Capitão, não é de surpreender que Peter Pan não queira crescer. Melhor permanecer o rei dos Garotos Perdidos. Melhor continuar mergulhado na

fantasia com Sininho, que oferece tudo que uma parceira pode proporcionar

— exceto o fato de existir.

Wendy, o grande amor da vida de Pan, opta por crescer, apesar da

admiração pelo amigo. Ela se casa, enfrentando — e até acolhendo — o seu

amadurecimento e os sinais ocultos da mortalidade e da morte.

Conscientemente, ela escolhe sacrificar sua infância pelas tangibilidades da

vida adulta, mas, em troca, ganha a vida real. Peter continua sendo criança:

mágica, certamente, mas ainda uma criança — e a vida, limitada, finita e

única, passa por ele. Em Peter Pan or The Boy Who Would Not Grow Up

[“Peter Pan, ou o Menino que Não Queria Crescer”, em tradução livre],

peça de J. M. Barrie, Peter é retratado como alguém que não teme a morte,

a qual enfrenta em Marooners’ Rock [Ilha da Caveira, no filme da Disney].

Sua atitude pode ser mal interpretada como coragem por espectadores

desatentos. Afinal, Pan diz: “Morrer será uma incrível aventura.”II Porém, o

narrador invisível, dotado de perspicácia psicológica, objeta: “Viver seria

uma incrível aventura” (na verdade, uma declaração sobre o que poderia ter

acontecido se o Rei Menino tivesse escolhido Wendy), comentando,

imediatamente depois, “mas ele nunca conseguiu entender”.III Sua

hipotética ausência do medo da morte não é coragem, mas a manifestação

de sua natureza basicamente suicida, a doença da vida (que ele expressa a

todo momento na recusa em amadurecer).

Não é nada bom ser a pessoa mais velha em uma festa universitária. É

desespero disfarçado de rebeldia descolada — e vem acompanhado de

melancólico desânimo e arrogância. Isso cheira à Terra do Nunca. Da

mesma forma, o potencial de atração de um jovem de 25 anos sem rumo,

mas talentoso, começa a parecer desesperançado e patético aos 30, e

totalmente ultrapassado aos 40.

Você deve sacrificar parte de seu múltiplo potencial em troca de algo real

na vida. Mire em algo. Discipline-se. Ou sofrerá a consequência. E qual

será essa consequência? Todo o sofrimento inerente da vida, mas sem

nenhum significado. Existe descrição melhor do inferno?

A vida é duhka para os budistas — talvez o mesmo se aplique, embora de

forma menos explícita, aos hindus. As Escrituras Hebraicas, por sua vez,

narram a história do sofrimento do povo judeu, individualmente e como

nação, sem ignorar os triunfos. Nem aqueles que são chamados pelo próprio YHWH (Yahweh) para adentrar na aventura da vida conseguem escapar da

catástrofe. Talvez Abrão, o patriarca arquetípico, intuísse isso. Ele

claramente tinha um quê de Peter Pan. O relato bíblico afirma que Abrão

permaneceu na segurança da tenda de seu pai até os 75 anos de idade (um

começo tardio, mesmo para os padrões de hoje). Então, chamado por Deus

— inspirado pela voz interior, digamos, para deixar a família e o país —,

ele ingressa na jornada da vida. E o que ele encontra, após atender ao

chamado divino para a aventura? Primeiro, a fome. Depois, a tirania no

Egito; a possibilidade de perda de sua bela esposa para homens mais

poderosos; o exílio de seu país de adoção; os conflitos por território com

seus parentes; a guerra e o sequestro de seu sobrinho; a persistente ausência

de filhos (apesar da promessa de Deus de torná-lo o progenitor de uma

grande nação); e, por fim, as terríveis desavenças entre suas esposas.

A história de Abrão teve um grande impacto em mim quando comecei a

estudá-la e a entendê-la mais a fundo. Ela traz em seu cerne uma estranha

combinação de pessimismo e encorajamento realístico e genuíno. O

pessimismo? Mesmo que você seja chamado pelo próprio Deus para se

aventurar pelo mundo, tal como Abrão, a vida será excepcionalmente

difícil. Mesmo nas melhores circunstâncias concebíveis, obstáculos quase

insuperáveis surgirão e obstruirão seu caminho. O encorajamento? Você

terá a oportunidade de se revelar muito mais forte e capaz do que pode

imaginar. Há um potencial dentro de você (parte da magia tão evidente na

infância) que surgirá quando as circunstâncias exigirem e o transformará —

se Deus quiser — em alguém capaz de triunfar.

Existe uma ideia muito antiga, que só recentemente passei a compreender,

pelo menos em parte. É algo que vemos manifestado em muitas formas

literárias, imagéticas e dramáticas, antigas e modernas. Tem a ver com

responsabilidade e significado, mas seu verdadeiro sentido é oculto,

exatamente da mesma forma que a sabedoria que os sonhos podem nos

oferecer, em geral, é latente. Está associado ao mito labiríntico do herói:

aquele que fala palavras mágicas, vê o que os outros não conseguem (ou se

recusam a ver), vence o gigante, lidera seu povo, mata o dragão, encontra o

tesouro inalcançável e resgata a virgem. Todas essas são variantes do

mesmo padrão perceptivo e comportamental, que é um esboço do padrão

universalmente adaptativo de ser. O herói também é aquele que resgata o

pai do ventre da besta. O que essa ideia, tão comumente expressa em forma

de narrativa, poderia significar?

RESGATE SEU PAI: OSÍRIS E HÓRUS

 

Pense na antiga história egípcia de Osíris, Set, Ísis e Hórus.IV Os egípcios

consideravam Osíris a divindade fundadora do Estado, da civilização. Ele

pode ser visto como um amálgama das características de personalidade de

todas as pessoas que criaram a surpreendente civilização no rio Nilo. Osíris

era adorado como o herói que estabeleceu a cultura, cujas façanhas de

criação de mundos, quando ainda era um deus jovem e vibrante, produziram

uma das primeiras grandes e duradouras civilizações. Mas ele envelheceu,

como tudo que existe, e tornou-se voluntariamente cego. Os egípcios

insistiam que essa figura de crucial importância em sua mitologia possuía

ambos os atributos — e essa insistência constituiu uma grande verdade. O

magnífico deus-fundador tornou-se anacrônico, porém, o mais importante,

passou a fechar os olhos quando sabia muito bem que deveria tê-los

mantido abertos. Osíris parou de prestar atenção em como seu reino estava

sendo governado. Foi cegueira intencional, e não há como culpar a mera

idade. É uma tentação terrível, pois permite relegar para o futuro os

problemas que poderíamos enfrentar hoje. Isso seria ótimo se eles não se

agravassem como os juros — mas todos sabemos que se agravam.

A decisão de Osíris de fechar os olhos quando deveria tê-los mantido

abertos exigiu um preço alto demais: a subjugação ao seu irmão maligno,

Set. A ideia de o Estado ter um irmão maléfico era um axioma, podemos

dizer, da cosmovisão egípcia — sem dúvida, a consequência de uma

civilização complexa e antiga observando suas próprias falhas — e algo

cuja relevância perdurou até os dias atuais. Assim que uma hierarquia

adequadamente funcional é estabelecida, abre-se uma oportunidade para

que suas posições de autoridade sejam usurpadas, não por pessoas que

tenham a competência exigida para a tarefa em questão, mas por aqueles

dispostos a usar manipulação, ardil e coação para obter status e controle. Os

egípcios tentaram conceituar todas essas forças contraproducentes na figura

de Set, o inimigo da elucidação, do entendimento, da visão e da

consciência.3 A maior ambição de Set era governar o Egito, tomar o lugar

do legítimo Faraó. Ao fechar os olhos para as maquinações do irmão

maligno — ao se recusar a ver —, Osíris permitiu que ele ganhasse força.

Isso se provou fatal (ou tão fatal quanto um erro pode ser para um imortal).

Set esperou sua vez, até que conseguiu surpreender Osíris em um momento de fraqueza. Então o desmembrou e espalhou suas partes pelo território

egípcio. Não foi (não é) possível matar definitivamente Osíris, o eterno

impulso humano para a organização social. É uma força imortal. Mas é

possível dividi-lo em pedaços — para dificultar que se recomponha —, e

foi exatamente o que Set fez.

Osíris, deus da ordem, desmorona. Isso acontece o tempo todo, na vida

individual das pessoas e na história das famílias, cidades e Estados. As

coisas entram em colapso quando as relações de amor fracassam, as

carreiras se deterioram ou os sonhos acalentados morrem; quando o

desespero, a ansiedade, a incerteza e a desesperança se manifestam no lugar

da ordem habitável; e quando o niilismo e o abismo fazem sua terrível

aparição, destruindo os valores desejáveis e estáveis da vida atual. Sob tais

circunstâncias, surge o caos. E é por isso que a deusa Ísis, Rainha do

Submundo e consorte de Osíris, aparece quando seu companheiro é

destruído por Set. Ela percorre o campo em busca da essência vital de

Osíris, a encontra na forma de seu falo desmembrado — receptáculo da

ideia seminal, a palavra espermática, o princípio frutificante — e engravida.

O que isso significa? A rainha do submundo, a deusa do caos, é também a

força que se renova eternamente. Todo o potencial restringido pelo sistema

anterior, governado por receios, categorizações e suposições — toda a

limitação invisível imposta aos habitantes daquele Estado ordenado —, é

liberado, para o bem ou para o mal, quando esse sistema se quebra. Assim,

quando o centro não mais se sustentar — mesmo na hora mais sombria —,

uma nova possibilidade se manifestará. É por essa razão que o Herói

arquetípico nasce quando a situação atinge seu pior.

A agora grávida Ísis retorna à sua casa no submundo e, no devido tempo,

dá à luz Hórus, filho legítimo do rei há muito perdido, que cresce alienado

de seu reino agora corrompido (algo que todos nós experimentamos durante

nosso amadurecimento). Seu atributo principal é o olho — o famoso olho

único egípcio —, enquanto seu avatar é o falcão, um pássaro que mira com

precisão sua presa, atinge o alvo com destreza mortal e possui uma

acuidade visual sem paralelo no reino dos vivos. Mais importante, no

entanto, Hórus tem a disposição e a habilidade de ver. Isso é a própria

coragem: a recusa em se esquivar do que surgir, por mais terrível que

pareça. Ele é o grande deus da atenção, e os egípcios determinaram, em sua

estranha forma narrativa — um tipo de pensamento imaginativo que se

estendeu por milhares de anos —, que a faculdade da atenção deveria governar todas as outras. Hórus difere de Osíris, seu pai, em sua disposição

de ver. Ele vê seu tio Set, por exemplo, exatamente como é. Set é pura

maleficência; o próprio mal. Ainda assim, após sua maturidade, Hórus

retorna ao reino usurpado de seu pai e confronta o tio. Eles se envolvem em

uma batalha épica. O jovem deus e herdeiro legítimo do trono vê a

oportunidade escondida onde a responsabilidade foi abdicada e se recusa a

desviar o olhar. Isso não é para os covardes — não quando se chega à

conclusão lógica; não quando a corrupção e a cegueira deliberada são

expostas até as entranhas. Olhar para o mal com olhos desprotegidos é

incrivelmente perigoso, não importa o quanto seja necessário. Isso é

representado pela derrota parcial de Hórus: durante o confronto, Set arranca

um dos olhos do corajoso sobrinho.

Apesar dos ferimentos, Hórus sai vitorioso. É de vital importância reiterar,

à luz dessa vitória, o fato de que ele entra na batalha voluntariamente. É

uma máxima da intervenção clínica — uma consequência da observação da

melhora na saúde mental em muitas escolas de pensamento psicológico

prático — que o confronto voluntário com um obstáculo temido, odiado ou

desprezado é curativo. Tornamo-nos mais fortes ao enfrentar

voluntariamente o que impede nosso necessário progresso. Isso não

significa “dar um passo maior do que a perna” (assim como “entrar na

batalha voluntariamente” não significa “buscar o conflito sem cuidado”). É

aconselhável enfrentar os desafios na proporção exata em que eles atraem e

obrigam a vigilância, e forçam o desenvolvimento de coragem, habilidade e

talento, bem como evitar o confronto temerário com o que está além de

nossa compreensão atual.

Como é possível mensurar a proporção em que os desafios devem ser

enfrentados? O instinto para o significado — algo muito mais profundo e

mais antigo do que o mero pensamento — contém a resposta. O que você

está tentando fazer o impele a seguir em frente, sem ser muito assustador?

Capta o seu interesse, sem o sobrecarregar? Elimina o fardo da passagem do

tempo? Serve àqueles que ama e, talvez, traz algum benefício para seus

inimigos? Isso é responsabilidade. Contenha o mal. Reduza o sofrimento.

Enfrente, com o desejo de melhorar as coisas, a possibilidade que se

manifesta diante de você a cada segundo, independentemente do fardo que

carrega, da injustiça e da crueldade da vida, que muitas vezes parecem

arbitrárias. Todas as outras abordagens apenas aprofundam o abismo,

aumentam a agonia e condenam aqueles que o habitam ao agravamento contínuo de seus problemas já graves. Todo mundo sabe disso. A

consciência de todos proclama isso. Todo amigo leal ou ente querido se

desespera ao presenciar alguém estimado deixando de fazer o que é preciso.

Hórus retoma o olho e expulsa Set, derrotado, para além das fronteiras do

reino. Não há como matá-lo. Ele é eterno como Osíris, eterno como Ísis e

Hórus. O mal que ameaça em todos os níveis de experiência é algo — ou

alguém — contra o qual todos têm de lutar sempre, psicológica e

socialmente. Mas por um tempo o mal pode ser vencido, banido e

derrotado. Então a paz e a harmonia podem prevalecer enquanto as pessoas

não esquecerem o que as levou a ambas.

Hórus recupera seu olho. Uma pessoa sensata, em tal situação, agradeceria

aos céus por sua sorte, colocaria o olho de volta na órbita vazia e

continuaria com sua vida. Mas não é isso que Hórus faz. Ele retorna ao

submundo, ao ventre da besta, ao reino dos mortos, onde sabe que

encontrará o espírito de Osíris. Por mais que esteja desmembrado,

semimorto — até mesmo morto, em certo sentido —, Osíris habita o

submundo, domínio do próprio caos. Ele é o pai no ventre da besta. Hórus

encontra o outrora grandioso rei e lhe concede o olho arrancado por Set.

Devido ao sacrifício e à visão de seu filho, o ancião dos dias pode ver

novamente. Hórus então leva seu pai, com a visão restaurada, de volta ao

reino, para que possam governar juntos. Os egípcios afirmavam que era

essa combinação de visão, coragem e tradição regenerada que constituía o

verdadeiro soberano do reino. Era essa justaposição de sabedoria e

juventude que compreendia a essência do poder do Faraó, sua alma imortal,

a fonte de sua autoridade.

Ao enfrentar um desafio, você luta com o mundo e se educa. Isso o torna

mais do que é. Faz de você cada vez mais quem poderia ser. Quem você

poderia ser? Tudo que um homem ou mulher pode ser. Poderia ser o mais

novo avatar, à sua maneira única, dos grandes heróis ancestrais. Qual é o

limite? Não sabemos. Nossas estruturas religiosas nos dão uma pista. Como

seria um ser humano em todo seu esplendor, por assim dizer? Como alguém

que decidiu assumir total responsabilidade pela tragédia e maleficência do

mundo se revelaria? A questão fundamental do homem não é quem somos,

mas quem poderíamos ser.

Quando perscrutamos um abismo, vemos um monstro. Se for um abismo

pequeno, assim será o monstro. Mas se for o abismo supremo, então, é o monstro supremo. Certamente é um dragão — talvez até o dragão do

próprio mal. A conceituação do monstro no abismo é o eterno predador à

espreita na noite, pronto e capaz de devorar sua presa desavisada. Essa é

uma imagem que tem dezenas de milhões de anos, algo codificado tão

profundamente nos recônditos de nossa estrutura biológica quanto qualquer

coisa conceitual pode ser codificada. E não são apenas os monstros da

natureza, mas os tiranos da cultura e a maleficência dos indivíduos. É tudo

isso, sendo este último aspecto o dominante, por mais terrível que seja

admitir. E é da natureza da humanidade não se encolher e paralisar como

presas indefesas nem se tornar um traidor e servir ao próprio mal, mas

confrontar a besta em seu covil. Essa é a natureza de nossos ancestrais:

caçadores, guardiões, pastores, viajantes, inventores, guerreiros e

fundadores de cidades e Estados incrivelmente corajosos. Esse é o pai que

você poderia resgatar; o ancestral que poderia se tornar. E ele deve ser

descoberto no lugar mais profundo possível, pois é para lá que você deve ir

se deseja assumir total responsabilidade e se tornar quem poderia ser.

 

E QUEM SERIA ESSA PESSOA?

 

Para início de conversa, concordemos que você tem um mínimo de

obrigação moral de cuidar de si mesmo. Talvez seja até egoisticamente

interessado em cuidar de si mesmo. Mas então surgem as perguntas: o que

você quer dizer com “cuidar”? De que “si mesmo” está falando? Em

primeiro lugar, consideraremos apenas o puro egoísmo, o interesse próprio

não contaminado. Isso simplifica a questão. Significa, antes de tudo, que

você é livre para fazer o que quiser — porque não precisa se preocupar com

mais ninguém. Mas algo em você pode muito bem retrucar: “Espere um

pouco. Isso não vai funcionar.” Por que não? Bem, de qual “eu” você está

cuidando? Do “eu” que existe especificamente neste minuto? O que

acontecerá, então, com o “eu” do instante seguinte? O futuro está chegando,

e isso é tão certo, para todos os efeitos, quanto o nascer do sol todas as

manhãs. E é melhor você estar preparado.

Você conhece os riscos de escolher maximizar o agora em detrimento do

futuro. Imagine que está prestes a falar algo impensado e carregado de

raiva. Você pensa: “Doa a quem doer” e diz o que vier à mente, não importa

o quão injusto e cruel seja. Com isso, experimenta uma liberação de emoção

positiva e entusiasmo, bem como a satisfatória vazão dos ressentimentos. Entretanto, logo depois, estará encrencado, e esses problemas podem durar

muito tempo. É nítido que você não agiu em prol de seus melhores

interesses, embora tenha feito o que egoisticamente desejava. E ninguém de

bom senso diz ao amado filho: “Olha, garoto, faça exatamente o que for

bom no momento e que se dane todo o resto. Não importa.” Você não diz

isso, pois sabe muito bem que o futuro chegará para ele com a mesma

certeza que chegará para você. O simples fato de algo deixá-lo feliz no

momento não significa que seja do seu interesse, considerando o cenário

geral. A vida seria simples se fosse assim. Mas há o “eu” de agora, o de

amanhã, o da próxima semana, o do próximo ano, o de daqui a cinco anos e

o de daqui a uma década — e é obrigatório, por pura necessidade, levar

todos esses “eus” em consideração. Essa é a maldição associada à

descoberta humana do futuro e, com ela, à necessidade de trabalhar —,

porque trabalhar significa sacrificar os hipotéticos deleites do presente pelo

potencial aprimoramento do que está por vir.

No entanto, há uma certa utilidade em descartar a importância dos “eus”

que existem no futuro distante, pois o futuro é incerto. Isso significa que

você não deve se preocupar com os efeitos que suas ações atuais terão em

vinte anos com a mesma intensidade que se preocupa com os efeitos no

presente, pois existe uma probabilidade muito alta de você estar aqui hoje

(já que está lendo isto) e outra um tanto menor de ainda estar aqui no futuro.

E há, ainda, erros decorrentes da previsão de uma situação que está muito

distante. Mas a crescente incerteza acarretada pela distância no tempo não

impede que as pessoas sensatas se preparem para o que está por vir. O

futuro significa que, se pretende cuidar de si mesmo, você já está

encarregado (ou tem o privilégio) de uma responsabilidade social. O “eu”

objeto de seus cuidados é uma comunidade que existe ao longo do tempo. A

necessidade de considerar a sociedade do indivíduo, por assim dizer, é tanto

um fardo quanto uma oportunidade que parecem característicos dos seres

humanos.

Os animais não parecem considerar o futuro da mesma maneira que nós.

Se visitar a savana africana e observar um rebanho de zebras, verá, com

certa frequência, leões perambulando entre elas. E, enquanto os leões

estiverem relaxados, as zebras realmente não se importam. Do ponto de

vista humano, essa atitude parece um tanto imprudente. Uma melhor

alternativa seria as zebras esperarem os leões dormirem, correrem para um

canto remoto do campo e elaborar um plano. Deveriam, então, reunir algumas dezenas de zebras para atacar os leões adormecidos e pisoteá-los

até a morte. Assim, os leões deixariam de ser um problema. Mas não é isso

que as zebras fazem. Elas pensam: “Ah, olhe para esses leões relaxados!

Leões relaxados nunca são um problema!” Elas não parecem ter uma noção

real de tempo. Não conseguem se conceituar ao longo da expansão

temporal. Os seres humanos, por sua vez, não apenas são capazes de fazer

essa conceituação, mas incapazes de se livrar dela. Nós descobrimos o

futuro há muito tempo — e agora o futuro é onde cada um de nós vive, o

mundo potencial. Tratamos isso como realidade. É uma realidade que

poderá existir — mas com alta probabilidade de, em algum momento, se

tornar o agora, e somos levados a considerá-la.

Você não consegue escapar de si mesmo. Está sobrecarregado com quem é

agora e com quem será no futuro. Isso significa que, se está cuidando de si

mesmo de maneira adequada, deve considerar que haverá a repetição desse

“eu” ao longo do tempo. Você está destinado a participar de um jogo com o

seu “eu” de hoje que não deve interferir no jogo que enfrentará amanhã, no

próximo mês, no próximo ano e assim por diante. Dessa forma, o egoísmo

mesquinho está fadado a ser improdutivo. É por essa razão, entre outras,

que uma ética estritamente individualista é uma contradição de termos. Na

verdade, há pouca diferença entre como você deve se tratar — assim que

perceber que é uma comunidade que se estende ao longo do tempo — e

como deve tratar as outras pessoas.

Por exemplo, em um casamento, você enfrenta o mesmo problema com

seu parceiro e consigo mesmo: está preso às consequências de um jogo

repetitivo. Pode tratá-lo com desprezo no momento presente, no agora, não

importa o quão cruel e insensível possa ser, mas acordará com ele amanhã,

no próximo mês e daqui a uma década (se não ao lado desse cônjuge, de

outro igualmente infeliz). Se você trata a pessoa com quem está

comprometido de um jeito que não funciona quando repetido ao longo do

tempo, está em um jogo degenerativo, e ambos sofrerão de forma terrível

por isso. Esse problema não é materialmente diferente de deixar de fazer as

pazes com o seu “eu” do futuro. As consequências são idênticas.

 

FELICIDADE E RESPONSABILIDADE

As pessoas querem ser felizes, o que não é de admirar. Muitas vezes ansiei

profundamente pelo retorno da felicidade — desejando que estivesse

presente — e certamente não estou sozinho nisso. No entanto, não acredito

que você deva perseguir a felicidade. Se o fizer, terá um problema de

iteração, pois “feliz” é uma coisa do agora. Em situações de intensa emoção

positiva, as pessoas tendem a se concentrar no presente e ser impulsivas.4

Isso significa “bata o ferro enquanto ainda está quente” — aproveite as

oportunidades enquanto as coisas estão bem e aja agora. Mas não temos só

o agora e, infelizmente, é preciso considerar o todo, pelo menos na medida

do possível. Assim, é improvável que o elemento otimizador de sua vida ao

longo do tempo seja a felicidade. No entanto, não estou negando que ela

seja desejável. Se a felicidade vier até você, receba-a com gratidão e de

braços abertos (mas tome cuidado, pois ela o torna impetuoso).

E qual seria uma alternativa mais sofisticada para a felicidade? Imagine

que seja viver de acordo com o senso de responsabilidade, porque isso

ordena o futuro. Imagine, também, que você deva agir com confiança,

honestidade, nobreza e comprometimento com um bem maior, a fim de

manifestar esse senso de responsabilidade de forma adequada. O bem maior

seria a otimização simultânea de sua função e da função das pessoas ao seu

redor, ao longo do tempo, como discutimos anteriormente. Esse é o bem

maior. Imagine que você torna esse alvo consciente, que articula essa meta

como um objetivo explícito. Então surge uma pergunta: “Qual é a

consequência disso do ponto de vista psicológico?”

Primeiro, considere que a maioria das emoções positivas que as pessoas

experimentam não vem da conquista. Existe o prazer simples (para ser mais

exato, a satisfação) decorrente de uma boa refeição quando se tem fome e

existe a satisfação mais complexa, porém similar, que está associada à

realização de algo difícil e que vale a pena. Imagine, por exemplo, que você

se formou no ensino médio. O dia da formatura marca o evento. É uma

celebração. Mas no dia seguinte isso acaba, e você imediatamente enfrenta

um novo conjunto de problemas (da mesma forma que sente fome de novo

apenas algumas horas após uma refeição satisfatória). Você não é mais o rei

do ensino médio: está no último escalão da força de trabalho ou é um

calouro em uma instituição de ensino superior. É a situação de Sísifo. Você

se esforçou com afinco para empurrar sua pedra até o topo e, novamente, se

viu ao pé da montanha.

A realização tem como consequência uma transformação quase

instantânea. Assim como o prazer impulsivo, ela gera emoção positiva, mas

também não é confiável. Então, surge outra questão: “O que pode ser

considerado uma fonte realmente confiável de emoção positiva?” A

resposta é que as pessoas experimentam emoções positivas durante a busca

deuma meta valiosa. Imagine que você tem um objetivo. Estabelece uma

meta. Desenvolve uma estratégia em relação a esse objetivo e, em seguida,

a implementa. E, então, à medida que a executa, percebe que está

funcionando. É isso que produz a emoção positiva mais confiável.5 Imagine

que, com o tempo, as atitudes e ações mais eficazes (em uma competição

bem darwiniana) acabam por dominar todas as outras.6 E isso é verdadeiro

tanto no contexto psicológico quanto no social. E ocorre em sua vida, mas

também ao longo dos séculos, à medida que as pessoas interagem e

conversam, e elevam um determinado modo de ser ao status principal.

Isso implica algo crucial: não há felicidade na ausência de

responsabilidade. Sem um objetivo valioso e valorizado, não há emoção

positiva. Você pode argumentar: “Bem, o que exatamente constitui uma

meta válida?” Imagine que esteja buscando algo prazeroso, mas trivial e de

curto prazo. O sábio dentro de você comparará essa busca a um objetivo

alternativo de agir no melhor interesse de sua comunidade, tanto a de seus

futuros “eus” quanto a que abrange outras pessoas. Talvez você esteja

relutante em aceitar que não deseja arcar com a responsabilidade — não

como substituta ao foco imediato e impulsivo no prazer. No entanto, você

está se enganando, nos níveis mais profundos de seu ser, se acredita que

essa estratégia de evasão terá sucesso. Os componentes sábios e ancestrais

de seu ser, seriamente preocupados com sua sobrevivência, não são fáceis

de enganar nem de ignorar. Mas, no fim das contas, seu objetivo é trivial e

você desenvolve uma estratégia um tanto superficial para alcançá-lo, e

acaba descobrindo que ele não é satisfatório porque você não se importa o

suficiente. Esse objetivo não é relevante para você — não de maneira

profunda. Além disso, o fato de não estar perseguindo o objetivo que

deveria faz com que, ao mesmo tempo, você se sinta culpado,

envergonhado e inferior.

Essa não é uma estratégia útil. Ela simplesmente não funciona. Nunca

conheci ninguém que ficasse satisfeito ao saber que não estava fazendo tudo

o que deveria. Somos criaturas com consciência temporal: sabemos que estamos contínua e inevitavelmente em um jogo reiterado do qual não

podemos nos esconder com facilidade. Não importa o quanto desejemos

ignorar por completo o futuro, ele é parte do preço que pagamos por sermos

intensamente autoconscientes e capazes de nos conceituar ao longo de toda

a extensão de nossas vidas. Estamos presos a ele. Não há como escapar do

futuro — e quando se está preso a algo e não há como escapar, a atitude

certa é enfrentá-lo de maneira voluntária. Funciona. E assim, em vez de sua

meta impulsiva de curto prazo, você estabelece uma meta de escala muito

maior: agir adequadamente em relação a todos no longo prazo.

 

CARREGUE O PESO EXTRA

 

Existe uma forma adequada de se comportar — uma ética — e você está

fadado a lidar com ela. Você não consegue evitar a avaliação de si mesmo, e

a de todos à sua volta, ao longo do tempo, e nem a prestação de contas de

seu comportamento, tanto o bom quanto o mau. O objetivo é identificar o

que funciona para muitas pessoas (incluindo você) em diversos lugares e

intervalos de tempo. É uma ética emergente, difícil de formular

explicitamente, mas de existência e consequências inescapáveis, que integra

de forma inexorável e profunda o jogo do ser. Grandes jogadores são

fascinantes. Pessoas fascinantes atraem companheiros. Quanto mais nos

aproximamos do padrão — o padrão emergente —, mais chances temos de

sobreviver e proteger nossas famílias. A competição seleciona os jogadores

com base em seu comportamento ético. E estamos, portanto,

biologicamente preparados para reagir de forma positiva e imitar o Grande

Jogador — e desaprovar, até mesmo com violência, o enganador, o

trapaceiro e o fraudador. E é sua consciência — seu instinto de virtude

moral — que indica o desvio do caminho. Durante um jogo de futebol,

quando seu filho derruba propositalmente um adversário ou deixa de fazer o

passe para um colega de time que tem uma grande oportunidade de marcar

um gol, você demonstra desaprovação. Sente vergonha, o que é esperado,

pois está testemunhando a traição de alguém que você ama por alguém que

você ama — a autotraição de seu filho. Algo semelhante ocorre quando

você viola seu próprio senso de decência. É o mesmo instinto, e é melhor

percebido nessa situação. Se não seguir o caminho certo, despencará do

precipício e sofrerá miseravelmente — e não há como o âmago de seu ser

permitir isso sem protestar.

Você pode racionalizar: “Não há precipício agora. Não há penhasco à

vista. E um precipício no qual só cairei daqui a dez anos está longe demais.”

Mas a parte mais profunda de sua psique invariavelmente refuta: “Esse

modo de pensar não é apropriado. Não funciona. O que acontecerá daqui a

dez anos ainda é real, apesar de distante (o que possibilita inevitáveis erros

de previsão). Se houver uma catástrofe à nossa espera, não devemos nos

mover em sua direção. Não sem contestar.” Se o seu comportamento sugerir

que está se inclinando nessa direção, se sentirá culpado e terrível por causa

disso, caso tenha sorte e esteja minimamente alerta. E agradeça a Deus por

isso. Se o custo de se trair, no sentido mais profundo, é a culpa, a vergonha

e a ansiedade, o benefício é o significado — um significado que revigora.

Essa é a oportunidade mais valiosa que se esconde onde a responsabilidade

foi abdicada.

Se prestar atenção à sua consciência, começará a perceber que alguns de

seus comportamentos estão errados. Para ser mais exato: se você for

alertado por sua consciência da possibilidade de estar agindo mal e procurar

dialogar com ela, começará a criar uma imagem clara do que é errado — e,

por ilação, do que é certo. O certo não é necessariamente o oposto do errado

— e o errado, em certo sentido claro, é mais evidente e óbvio. Um senso do

que é certo pode, portanto, ser desenvolvido e aprimorado por meio de uma

atenção cuidadosa ao que é errado. Você age e se trai, e se sente mal por

isso. Não sabe exatamente por quê. Tenta evitar pensar, pois é menos

doloroso e mais fácil, no curto prazo, não pensar nisso. Tenta, com todas as

suas forças, ignorar, mas tudo o que consegue é aumentar seu senso de

autotraição e se voltar ainda mais contra si mesmo.

Então, talvez, você reconsidera e enfrenta seu desconforto. Percebe a

desunião interna e o caos que a acompanha. Pode se perguntar — rogar para

descobrir — o que fez de errado. E a resposta chega. E não é a que deseja. E

uma parte sua deve, portanto, morrer para que você possa mudar. Mas ela

luta para sobreviver, apresenta suas justificativas e defende sua causa. E

fará isso com todos os truques disponíveis — valendo-se das mentiras mais

odiosas, das lembranças mais amargas e mais ressentidas do passado e das

atitudes mais desesperadamente cínicas sobre o futuro (na verdade, sobre o

valor da vida em si). Mas você persevera e distingue, julga e decide

exatamente por que seu comportamento foi errado, e começa a entender, por

comparação, o que seria o certo. E, então, decide começar a agir de acordo

com sua consciência. Decide que ela está do seu lado, apesar do seu aparente antagonismo. Coloca em ação tudo o que descobriu que está certo

e começa a sua ascensão. Passa a se monitorar, com cada vez mais cuidado,

para garantir que está fazendo a coisa certa — escutando o que diz,

observando as próprias ações, tentando não se desviar do caminho reto e

estreito. Esse se torna seu objetivo.

Uma ideia começa a tomar forma: “Viverei minha vida de maneira

adequada. Terei como objetivo o bem. Terei como objetivo o bem mais

elevado que conseguir.” Agora, todas as suas partes que cuidam do seu

futuro “eu” estão de acordo. Todas estão na mesma direção. Você não é

mais uma casa dividida. Está apoiado sobre uma base sólida. Não é mais tão

fácil de dissuadir ou desencorajar. Sua determinação supera seu niilismo e

desespero. A luta que tem travado com sua própria tendência de duvidar e

dissimular o protege contra as críticas injustificadas e cínicas dos outros. Há

um objetivo elevado — o pico da montanha, a estrela brilhante na escuridão

— acenando além do horizonte. A mera existência desse objetivo lhe dá

esperança — e esse é o significado sem o qual não se pode viver.

Lembra-se do Pinóquio? Quando quer transformar o boneco de madeira

que construiu em um menino de verdade, Geppetto primeiro olha para o céu

e faz um pedido a uma estrela. É a mesma estrela que anuncia o nascimento

de Pinóquio no início do filme e cuja luz se reflete no distintivo dourado

concedido ao Grilo Falante no final. É a mesma estrela, simbolicamente

falando, que anuncia o nascimento de Jesus no meio da escuridão. Geppetto

se concentra na estrela e faz um pedido. O desejo é que sua marionete deixe

de ser controlada e se torne real. A história do boneco e de suas tentações e

provações é um drama psicológico. Todos entendemos isso, embora não

possamos necessariamente articular essa compreensão. É preciso erguer os

olhos acima do horizonte para estabelecer uma meta transcendente, se o seu

desejo é deixar de ser uma marionete controlada por coisas que não entende

e talvez não queira entender. Então, todos os subsistemas ou

subpersonalidades que, do contrário, poderiam estar em busca da própria

realização limitada se unirão sob a égide do verdadeiro ideal, e a

consequência disso será um engajamento que se aproxima do definitivo ou

total. Sob essas condições, todas as suas partes estarão em consonância.

Esse é o equivalente psicológico do monoteísmo. É o surgimento do “eu”

superior que pode ser o verdadeiro servo de Deus, em qualquer realidade

metafísica potencialmente subjacente ao que é óbvio para nossos “eus”

mortais cegos e limitados.

Qual é o antídoto para o sofrimento e a maleficência da vida? O objetivo

mais elevado possível. Qual é o pré-requisito para alcançá-lo? Disposição

para assumir o grau máximo de responsabilidade — e isso inclui as

responsabilidades menosprezadas ou negligenciadas pelos outros. Você

pode contestar: “Por que devo carregar todo esse fardo? Não é nada além de

sacrifícios, dificuldades e problemas.” Mas o que lhe dá tanta certeza de que

não quer um fardo pesado para carregar? Você certamente precisa se ocupar

de algo pesado, profundo, intenso e difícil. Então, quando acordar no meio

da noite soterrado pelas dúvidas, você tem como se defender: “Apesar de

todas as minhas falhas, que são muitas, pelo menos estou fazendo isto. Pelo

menos estou cuidando de mim mesmo. Pelo menos sou útil para minha

família e para as outras pessoas ao meu redor. Pelo menos estou me

movendo, avançando hesitante, sob o peso da carga que decidi carregar.”

Assim conseguirá atingir um nível de respeito próprio genuíno — não um

mero constructo psicológico superficial que se relaciona à avaliação

momentânea do seu “eu”. É muito mais profundo do que isso — e não é

apenas psicológico. É real, tanto quanto psicológico.

Sua vida ganha significado na exata proporção do nível de

responsabilidade que está disposto a assumir. Pois agora você está

genuinamente engajado em melhorar as coisas. Está minimizando o

sofrimento desnecessário. Está encorajando as pessoas ao seu redor por

meio de exemplo e palavras. Está reprimindo a maleficência em seu coração

e no dos outros. Um pedreiro pode questionar a utilidade de assentar tijolos,

monotonamente, um após o outro. Mas talvez ele não esteja fazendo apenas

isso. Talvez esteja construindo uma parede. E a parede faça parte de um

edifício. E o edifício seja uma catedral. E o propósito da catedral seja a

glorificação do Bem Supremo. E, sob tais circunstâncias, cada tijolo

assentado é um ato que compartilha do divino. Se o que você está fazendo

em suas atividades cotidianas não for suficiente, não está se propondo a

construir a catedral adequada. E o motivo é não estar mirando alto o

bastante. Porque, se estivesse, experimentaria o senso de significado que

acompanha um objetivo suficientemente elevado, e ele justificaria o

sofrimento e as limitações de sua vida. Quando se tem algo significativo

para buscar, a vida é fascinante; seu caminho é significativo. O instinto

mais profundo e confiável para o significado — desde que não seja

pervertido pelo autoengano e pelo pecado (não há outra maneira de expressar isso) — se manifesta quando você está no caminho da virtude

suprema.

O senso de significado é um indicador de que está nesse caminho. É um

sinal de que toda a complexidade que o compõe está alinhada dentro de

você e voltada para algo que vale a pena perseguir — algo que equilibra o

mundo, que produz harmonia. É algo que você ouve manifestado na música

e no profundo sentido de significado que a música produz de forma

intrínseca. Talvez você seja fã de punk niilista com influência death metal.

Profundamente cético e pessimista. Não enxerga significado em lugar

algum. Você odeia tudo, só por princípio. Mas então o guitarrista de sua

banda favorita e companheiros dele começam a tocar harmonias arranjadas

— todos em sincronia — e você é arrebatado! “Ah, não acredito em nada,

mas, meu Deus, que música!” As letras são destrutivas, niilistas, cínicas,

repletas de amargura e desesperança, mas não importa, pois a música atrai e

convoca seu espírito, que se enche com a perspectiva do significado, e você

se move, em sintonia com os padrões musicais, e então balança a cabeça e

bate os pés no mesmo ritmo, participando sem querer. Esses padrões

sonoros, sobrepostos de forma harmoniosa, movendo-se na mesma direção,

com previsibilidade e imprevisibilidade, em perfeito equilíbrio, são a ordem

e o caos, em sua dança eterna. E você entra no ritmo, por mais que sua

natureza seja desprezá-lo. E se alinha com essa harmonia direcional e

padronizada, encontrando, assim, o significado que revigora.

Você tem um instinto — um espírito — que o orienta para o bem maior.

Ele atrai sua alma para longe do inferno e em direção ao céu. E é por causa

desse instinto que você frequentemente se desilude. As pessoas o

desapontam. Você se trai; perde uma conexão significativa com seu local de

trabalho, chefe ou parceiro. Pensa: “O mundo não está certo. Isso é

profundamente perturbador.” No entanto, esse mesmo desencanto pode

servir como um sinal do destino. Ele remete à responsabilidade abdicada —

ao que deixou de ser feito, ao que ainda precisa ser feito. Você fica irritado

com essa necessidade. Acaba aborrecido com o governo, amargurado e

ressentido com seu trabalho, insatisfeito com seus pais e frustrado com

todas essas pessoas ao seu redor que não assumem responsabilidades.

Afinal, existem coisas que clamam por ser realizadas. Fica indignado, pois

o que precisa ser feito não está sendo feito. Todavia, essa raiva — essa

afronta — é uma porta. Essa percepção da responsabilidade abdicada é um

sinal de destino e significado. A sua parte orientada pelo bem maior está indicando a disjunção entre o ideal imaginado — o ideal que toma posse de

você — e a realidade experimentada. Há uma lacuna aí, e ela está

expressando a necessidade de ser preenchida. Você pode ceder à fúria e

culpar outras pessoas — pois claramente elas contribuem para o problema.

Ou pode compreender que sua decepção é um sinal, enviado pelo que há de

mais essencial em seu ser, de que há algo errado que precisa ser corrigido

— e, talvez, por você. O que é isso, essa preocupação, esse cuidado, essa

irritação, essa distração? Não é o chamado para a felicidade. É o apelo à

ação e à aventura que constituem a vida real. Considere, mais uma vez, a

história bíblica de Abrão.

Ora, o Senhor havia dito a Abrão: Sai-te do teu país, e da tua parentela, e da casa de teu pai, para uma terra que eu te mostrarei.

E eu farei de ti uma grande nação, e eu te abençoarei, e farei teu nome grande; e tu serás uma

bênção.

E eu abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem, e em ti todas

as famílias da terra serão abençoadas. (Gênesis 12:1–3)

 

Abrão, que descobriu tardiamente sua vocação, passou tempo demais sob

as asas do pai, para dizer o mínimo. Porém, ao receber o chamado de Deus,

é melhor atendê-lo, não importa o quão tarde (e aí está a esperança real para

aqueles que acreditam que protelaram demais). Abrão deixa seu país, seu

povo e a casa de seu pai e se aventura pelo mundo, seguindo a voz calma e

baixa; atendendo ao chamado de Deus. E não é um chamado para a

felicidade. É a catástrofe sangrenta que descrevemos anteriormente: fome,

guerra e conflitos domésticos. Tudo isso pode fazer um indivíduo razoável

(e mesmo o próprio Abrão) duvidar da sabedoria de atender a Deus e à

consciência, e de assumir a responsabilidade da autonomia e o fardo da

aventura. Melhor estar deitado em uma rede, desfrutando de uvas

descascadas na segurança da tenda paterna. Entretanto, o que o chama para

o mundo — para o seu destino — não é a facilidade. É o conflito e a

discórdia. É a amarga contenda e a disputa mortal entre opostos. É provável

— inevitável — que a aventura de sua vida irá frustrá-lo, desapontá-lo e

perturbá-lo, à medida que você atende ao chamado da consciência, assume

sua responsabilidade e se esforça para corrigir a si mesmo e o mundo. Mas

é nesse ponto que o significado profundo que fornece orientação e proteção

deve ser encontrado. É quando tudo entra nos eixos, quando o que foi

espalhado e quebrado se junta; quando o propósito se manifesta; quando o

que é adequado e bom é revigorado, e o que é fraco, ressentido, arrogante e destrutivo é derrotado. É onde a vida que vale a pena ser vivida será

eternamente encontrada — e onde você pode encontrá-la pessoalmente,

basta estar disposto.

Perceba que a oportunidade se esconde onde a responsabilidade foi

abdicada.

I No original: “You must risk something that matters.” (N. da T.)

II Peter Pan, Ato III, gutenberg.net.au/ebooks03/0300081h.html.

III Peter Pan, Ato V, Cena 2 (parágrafo final), gutenberg.net.au/ebooks03/0300081h.html.

IV Meu primeiro livro, Mapas do Significado, traz uma ampla análise deste tema, que também é mencionado na Regra 7 de 12 Regras para a Vida (Busque o que é significativo, não o que é conveniente).