Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida

Jordan B. Peterson · Capítulo 11 de 16

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Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida

Regra 8: Tente deixar um cômodo de sua casa o mais bonito possível

REGRA 8

 

TENTE DEIXAR UM CÔMODO DE SUA

 

CASA O MAIS BONITO POSSÍVEL

 

ARRUMAR SEU QUARTO NÃO É SUFICIENTE

 

Fiquei conhecido por encorajar as pessoas a arrumarem seus quartos. Talvez

seja porque eu fale sério sobre um conselho prosaico e porque sei que é uma

tarefa muito mais difícil do que parece. A propósito, há cerca de três anos,

tenho tentado, sem sucesso, manter meu “quarto” em ordem — meu

escritório em casa (que geralmente mantenho em condições relativamente

impecáveis). Durante esse período, minha vida foi lançada em tamanho

caos pela profusão de mudanças que experimentei — controvérsias

políticas, transformação de carreira, viagens intermináveis, montes de

correspondência, a sequência de doenças — que simplesmente fiquei

sobrecarregado. A desorganização foi agravada pelo fato de minha esposa e

eu termos acabado de fazer uma enorme reforma em nossa casa, e tudo que

não sabíamos bem onde colocar acabou no meu escritório.

Existe um meme que circula pela internet me acusando de hipocrisia por

conta de uma imagem extraída de um vídeo que gravei em meu escritório,

com um pouco de bagunça ao fundo (e não posso dizer que eu mesmo esteja

em minha melhor forma). Quem sou eu para dizer às pessoas para

arrumarem seus quartos antes de tentar consertar o resto do mundo quando,

aparentemente, eu mesmo não consigo? E há algo diretamente sincronístico

e significativo nessa objeção, pois eu mesmo não estava em devida ordem

naquele momento, e minha condição, sem dúvida, encontrou seu reflexo no

estado de meu escritório. Enquanto eu viajava, a bagunça se empilhava a

cada dia e tudo se acumulava ao meu redor. Justifiquei a situação pelas

circunstâncias excepcionais e coloquei muitas outras coisas em ordem durante o tempo em que meu escritório mergulhava no caos, mas ainda

assim tenho a obrigação moral de voltar lá e arrumar tudo. E o problema

não é apenas querer limpar a bagunça. Também quero deixar tudo mais

bonito: meu escritório, minha casa e, então, talvez, da forma que eu

conseguir, a comunidade. Deus sabe o quanto ela precisa disso.

Criar algo bonito é difícil, mas vale a pena. Se você aprender a tornar algo

realmente belo em sua vida — mesmo que seja um aspecto isolado —, terá

estabelecido uma relação com a beleza. A partir daí, pode começar a

expandir esse relacionamento para outros elementos de sua vida e do

mundo. É um convite ao divino. É uma reconexão com a imortalidade da

infância e com a verdadeira beleza e majestade do Ser que você já não é

mais capaz de enxergar. Isso requer ousadia.

Ao estudar arte (ou literatura, ciências humanas), você o faz para se

familiarizar com a sabedoria coletiva de nossa civilização. É uma ideia

muito boa — uma necessidade genuína —, pois as pessoas vêm tentando

descobrir como viver há muito tempo. O que elas produziram pode ser

estranho, mas também é incrivelmente rico, então por que não usá-lo como

guia? Assim, sua visão será mais grandiosa e seus planos, mais abrangentes.

Você considerará as outras pessoas de forma mais sensata e plena. Cuidará

de si mesmo com mais eficiência. Compreenderá o presente de forma mais

profunda, como algo enraizado no passado, e chegará a conclusões com

muito mais cuidado. Você também passará a tratar o futuro como uma

realidade mais concreta (porque terá desenvolvido uma noção de tempo

mais real) e será menos provável que o sacrifique pelo prazer impulsivo.

Desenvolverá profundidade, seriedade e verdadeira consideração. Falará em

termos mais precisos, e as outras pessoas ficarão mais propensas a ouvir e

cooperar produtivamente com você, e vice-versa. Você se tornará mais

quem é e menos uma ferramenta tediosa e infeliz sujeita à pressão de pares,

popularidade, moda passageira e ideologia.

Adquira uma obra de arte. Encontre uma que toque seu coração e compre-

a. Se for uma produção artística genuína, ela invadirá e transformará sua

vida. Uma verdadeira obra de arte é uma janela para o transcendente, e você

precisa disso em sua vida, pois é finito, limitado e restrito pela sua

ignorância. A menos que possa fazer uma conexão com o transcendente,

não terá forças para triunfar quando os desafios da vida se tornarem

assustadores. Precisa estabelecer um vínculo com o que está além de você, assim como um náufrago em alto-mar requer uma boia salva-vidas, e

convidar a beleza para sua vida é um meio de fazer isso.

É por isso que precisamos entender o papel da arte e parar de pensar nela

como uma opção, um luxo ou, pior, uma afetação. A arte é o alicerce da

própria cultura. É a base do processo pelo qual nos unimos

psicologicamente e conseguimos estabelecer uma paz produtiva com os

outros. É o que diz o provérbio: “Nem só de pão viverá o homem” (Mateus

4:4). Exatamente. Vivemos pela beleza. Vivemos pela literatura. Vivemos

pela arte. Não podemos viver sem alguma conexão com o divino — e a

beleza é divina — porque, em sua ausência, a vida é muito curta, sombria e

trágica. E devemos estar atentos, despertos e preparados para que possamos

sobreviver e orientar o mundo adequadamente, e não destruir tudo,

incluindo nós mesmos — e a beleza pode nos ajudar a apreciar a maravilha

do Ser e nos motivar a buscar gratidão quando poderíamos, de outra forma,

ser propensos a ressentimentos destrutivos.

 

MEMÓRIA E VISÃO

O orgulho do pavão é a glória de Deus.

A luxúria do bode é a bondade de Deus.

A fúria do leão é a sabedoria de Deus.

A nudez da mulher é a obra de Deus.

O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.

O rugir dos leões, o uivar dos lobos, o furor do mar tempestuoso e a espada destrutiva são

fragmentos de eternidade grandes demais para os olhos humanos. I

— WILLIAM BLAKE, “PROVÉRBIOS DO INFERNO”, O Casamento do Céu e do Inferno

 

Quando eu era criança, conhecia cada contorno e cada detalhe de todas as

casas da minha vizinhança. Conhecia os becos, os esconderijos atrás das

cercas, a localização de cada fenda na calçada e os atalhos que podiam me

levar de um lugar a outro. Minha localidade geográfica não era vasta, mas

eu a havia explorado exaustivamente e meu conhecimento era muito

detalhado. Agora que sou adulto, não é mais assim. Morei em Fairview, a

cidade em que passei a maior parte da minha infância e adolescência, por

apenas nove anos, mas ainda consigo me recordar da rua em que morei com

muito detalhe, em alta resolução. Moro em Toronto, na mesma rua, há duas

vezes mais tempo, mas ainda tenho apenas uma vaga noção das casas ao

meu redor.

Não acho que seja algo positivo. Eu me sinto muito menos “em casa” por

causa disso. É como se, ao andar pela rua e olhar para uma casa na

vizinhança, pensasse em “casa” apenas como um ícone (porque, realmente,

que diferença prática faz para mim quais particularidades caracterizam cada

uma delas?) e minha atenção se desviasse para outra coisa. Não vejo a casa,

com suas telhas, cores, flores e detalhes arquitetônicos específicos, apesar

do interesse que poderia ter despertado em mim se eu tivesse prestado mais

atenção. A essa altura da minha vida, já vi tantas casas em tantos lugares

que sei o que esperar de uma ao passar por ela — o que é muito pouco.

Assim, ignoro as atraentes idiossincrasias e belezas de seus detalhes — seu

caráter único, seja positivo, seja negativo — e vejo apenas o suficiente para

me manter orientado enquanto passo pela rua e minha cabeça continua em

outro lugar. Há uma perda real nisso. E simplesmente não estou presente no

bairro onde moro hoje, que sou adulto, da mesma forma que estava quando

criança na minha cidade natal. Estou apartado da realidade do mundo. E,

por causa disso, um sentimento muito profundo de pertencimento está

ausente de alguma forma importante.

A minha percepção foi substituída pela memória funcional e pragmática.

Isso me tornou mais eficiente, em alguns aspectos, mas o custo é uma

experiência empobrecida da riqueza do mundo. Lembro-me da época em

que comecei a trabalhar como professor júnior em Boston, quando meus

filhos tinham cerca de 2 e 3 anos. Eu estava muito preocupado com meu

trabalho, tentando não ficar para trás, tentando progredir na minha carreira,

tentando ganhar dinheiro suficiente para sustentar minha família com uma

única renda. Voltava para casa e fazia um passeio com Tammy e nossos

filhos, Mikhaila e Julian. Achava muito difícil ser paciente com eles. Tinha

muito trabalho a fazer, sempre — ou acreditava que tinha —, e me

disciplinei ao longo de anos de empenho para dar prioridade a esse aspecto

de minha vida. Se saíssemos para caminhar, eu queria saber exatamente

para onde estávamos indo, quanto tempo levaria para chegar lá e a que

horas voltaríamos. Essa não é uma atitude a se adotar ao tentar passar um

tempo prazeroso e razoável com crianças pequenas. Não se você quiser

mergulhar na experiência. Não se quiser presenciar e participar do prazer

que desfrutam em suas descobertas intempestivas. A menos que esteja

disposto a correr o risco de perder algo de crucial importância.

Era muito difícil, para mim, relaxar, focar o presente e assistir a meus

filhos pequenos seguirem sua rota sinuosa pela vizinhança, sem destino, propósito ou cronograma em mente, concentrando-se plenamente no fato de

encontrarem um cachorro, inseto ou minhoca, ou em algum jogo que

inventavam no caminho. De vez em quando, eu conseguia assumir

brevemente esse mesmo referencial (que é uma das maravilhosas dádivas

obtidas do convívio com crianças pequenas) e ver o mundo imaculado que

habitavam, ainda livre de obstáculos impostos pela memória treinada e

eficiente e capaz de gerar pura alegria na novidade de tudo. Mas eu ainda

estava dominado por minhas preocupações com o futuro a ponto de ser

involuntariamente puxado de volta para a intensa inquietação com o

próximo compromisso.

Sabia perfeitamente que estava deixando de apreciar a beleza, o

significado e o envolvimento, independentemente das vantagens em

eficiência trazidas por minha impaciência. Eu era aplicado, perspicaz,

focado e não perdia tempo, mas o preço que paguei por isso foi a cegueira

exigida pela eficiência, realização e ordem. Eu não estava mais vendo o

mundo. Enxergava apenas o pouco que precisava para me mover com

velocidade máxima e menor custo. Nada disso era surpreendente. Tinha

responsabilidades de adulto. Tinha um trabalho exigente. Precisava cuidar

da minha família, e isso significava sacrificar o presente e me dedicar ao

futuro. Mas ter crianças pequenas por perto e perceber sua intensa

preocupação com o presente e seu fascínio pelo que está ao redor me deixou

muito consciente da perda que acompanha a maturidade. Os grandes poetas

estão cientes disso e fazem o possível para que o resto da humanidade

também se lembre:

Houve um tempo em que a relva, a fonte, o rio, a mata

E o horizonte se vestiam

De uma luz grata,

— Visto que assim me pareciam —,

E da opulência que nos sonhos é inata.

Hoje está sendo tal como foi outrora; —

Seja o que for, eu,

Na luz ou breu,

Eu não verei jamais o que se foi embora. […]

E vocês, Criaturas, eu escuto afinal

O que dizem entre vocês

E vejo o céu que frui também vossa altivez;

Meu ser em vosso festival,

Coroado, o total

De vossa dádiva — ah!, eu sinto… Ó mal!,

Fosse eu soturno enquanto

A Terra se adornasse,

Manhã de Maio face

A qual a infância nasce

No Mundo,

No vale remoto e fecundo;

Enquanto o sol nos acalora

E o Bebê sobe aos braços da Mãe: — ouço agora!

Com alegria eu ouço, eu ouço!

— Mas uma, uma Árvore existe,

Uma Planície que em minh’alma inda persiste,

Lembrando o que se foi e hoje e me deixa triste:

E o Amor-Perfeito

Diz: Que foi feito

Do vislumbre visionário?

Dos sonhos? Do esplendor vário? II

— WILLIAM WORDSWORTH, “ODE: PRENÚNCIOS DA IMORTALIDADE DA MAIS TENRA

INFÂNCIA”

 

Alguns, de fato, nunca perdem a visão gloriosa da infância. Isso se aplica

em especial aos artistas (e, na verdade, parece uma parte vital do que os

torna artistas). William Blake, o pintor, gravurista e poeta inglês, parece ter

sido uma dessas pessoas. Ele habitava um mundo totalmente visionário.

Blake compreendia o que o filósofo Immanuel Kant chamou de númeno —

“a coisa em si”1 — melhor do que a maioria dos mortais, relegados, como

somos, a perceber o pálido reflexo de nossos arredores, proporcionado por

nossas percepções cada vez mais maduras e restritas. Ele também era

incrivelmente sensível ao significado metafórico ou dramático de cada

acontecimento aparentemente isolado — a maneira pela qual cada evento

está repleto de infinitas conotações que ecoam de forma poética:

Cada Roceiro Entende mais

Cada Pranto de Cada Face

É um Bebê que no Eterno nasce

Isto é pego por Fêmeas rútilas

E torna de volta a seus júbilos

O Uivo o Balido & Rosnado

São Brisa no Celeste Prado

Bebê que teme o seu Castigo

Nutre Ódio e Massacre consigo

Andrajo adejando Ar afora

Age no Céu e o deteriora

Soldado armado com Baioneta

Assalta o Sol mesmo perneta

Trocados valem no total

Mais que todo Ouro oriental

Ácaro nas Mãos calejadas

Terras vendidas & compradas

Ou se acaso o alto o defenda

Faz que a Nação compre & revenda

Quem escarnece a Fé da Infância

A Morte trata co’ Arrogância

Quem ao Questionamento educa

Não sairá da Cova nunca

Quem respeita a Fé da Infância

Vence a Morte & sua Substância.III

— WILLIAM BLAKE, “AUGÚRIOS DA INOCÊNCIA” (LINHAS 67-90)

 

A visão de um verdadeiro artista, como Blake, é de fato exagerada, pois o

que está além de nossas percepções restritas à memória é exuberante. É a

insondável totalidade do mundo, passado, presente e futuro unidos: cada

nível conectado a todos os outros; nada existe isoladamente, tudo implica

algo vital, mas que está além de nossa compreensão, e tudo isso fala do

mistério irresistível do Ser. O visionário se concentra em algo que todos

vemos, hipoteticamente: um vaso de flores, talvez, em toda sua

complexidade e beleza, cada flor brotando do nada, antes de se desintegrar e

retornar à inexistência; uma pilha de feno na primavera, e sua aparência no

verão, outono e inverno, cumprindo e retratando o mistério absoluto de sua

existência, com suas diferentes nuances de luz e cor, bem como a

trivialidade subjacente de formas, que podemos facilmente confundir com a

realidade total e incompreensível do que de fato está lá.

Como sabeis que cada Pássaro que irrompe a ventania não abarca um imenso universo de

delícias, imerso em vossos cinco sentidos? IV

— WILLIAM BLAKE, DE “UMA VISÃO MEMORÁVEL”, O Casamento do Céu e do Inferno

 

Observar a pintura Lírios, de Van Gogh — da qual deriva a ilustração no

início deste capítulo —, é olhar através de uma janela para a eternidade

antes revelada por nossas percepções, a fim de que possamos lembrar como o mundo realmente é inspirador e miraculoso sob o disfarce da

familiaridade mundana a que o reduzimos. Compartilhar a percepção do

artista nos leva ao reencontro da fonte de inspiração que pode reacender

nosso encanto pelo mundo, mesmo que o trabalho enfadonho e a repetição

da vida diária tenham reduzido o que vemos à mais limitada e pragmática

das visões.

Por tais afetos prévios

E recordações breves, o

Que vierem a ser, sejam,

Pois são fontes de luz e nos clarejam,

Pois são pontos de luz de nosso olhar;

Guarde a estima por nós, guardando o seu poder

De que a turba dos anos se encurte no Ser

Da Calmaria imorredoura: o despertar

P’ra vida eterna:

O que a surdez e a insânia que às vezes governa,

O Pai, o Filho

E o que vê na alegria um odioso empecilho,

 

Não poderão matar nem retirar o brilho! V

— WILLIAM WORDSWORTH, “ODE: PRENÚNCIOS DA IMORTALIDADE DA MAIS TENRA IDADE”

 

Tudo isso é muito assustador. É assustador perceber que nos tornamos

meras carapaças de nós mesmos. É assustador vislumbrar, mesmo por um

instante, a realidade transcendente que existe além. Achamos que

emolduramos as grandes pinturas de forma luxuosa e ornamentada para

glorificá-las, mas fazemos isso também para deixar claro que o esplendor da

pintura em si está contido pela moldura. Essa limitação, esse confinamento,

deixa o mundo com o qual estamos familiarizados confortavelmente intacto

e inalterado. Não queremos que essa beleza ultrapasse as limitações que lhe

são impostas e perturbe tudo o que nos é familiar.

Fazemos o mesmo com os museus — são asilos para gênios: isolamos

tudo o que é grandioso, tudo o que poderia, em princípio, ser distribuído

para todo o mundo. Por que cada cidade pequena não pode ter um santuário

dedicado a uma grande obra de arte, em vez de todas as peças serem

reunidas de uma maneira impossível para qualquer pessoa sequer conseguir

absorvê-las de uma vez? Uma obra-prima não é suficiente para uma sala ou

mesmo para um edifício? Dez grandes obras de arte, ou cem, em uma única

sala é um absurdo, visto que cada uma é um mundo em si. Essa coleção em massa é uma degradação da particularidade única e singular e do valor

daquilo que não tem preço e é insubstituível. O medo é o que nos incita a

aprisionar a arte. E isso não é surpresa.

Consideras muito mil acres? Consideras muito toda essa terra?

Praticaste muito para aprender a ler?

Tens orgulho em saber interpretar os poemas?

Permanece comigo este dia e esta noite e terás a origem de todos os poemas,

Terás, então, tudo o que há de bom na Terra e no Sol (há milhões de sóis mais além),

E não mais aceitarás as coisas que sejam de segunda ou terceira mão, nem olharás através dos

olhos dos mortos, nem te nutrirás com os espectros dos livros,

Tampouco olharás através dos meus olhos, nem aprenderás as coisas comigo,

Ouvirá em todas as direções e as filtrarás por todo o teu ser.VI

— WALT WHITMAN, “CANTO DE MIM MESMO”

 

Pode ser avassalador nos abrirmos para a beleza do mundo que nós, como

adultos, recobrimos com a simplicidade. Entretanto, ao não fazer isso — ao

deixar de passear da maneira como deveríamos com uma criança pequena,

por exemplo —, perdemos a noção da grandeza e do deslumbramento que o

mundo sem barreiras é constantemente capaz de produzir, e reduzimos

nossas vidas a uma lúgubre necessidade.

 

A TERRA DO QUE VOCÊ SABE, A TERRA DO

 

QUE NÃO SABE E A TERRA DO QUE NÃO

 

CONSEGUE SEQUER IMAGINAR

 

Você habita a terra do que sabe, em termos pragmáticos e conceituais. Mas

imagine o que está além disso. Existe um imenso espaço de coisas que você

não sabe, mas que outras pessoas podem compreender, pelo menos em

parte. E, além desse reino das coisas que alguém sabe, existe o espaço das

coisas que ninguém sabe. Seu mundo é um território conhecido, rodeado

pelo relativamente desconhecido, cercado pelo absolutamente desconhecido

— circundado, na esfera ainda mais distante, pelo absolutamente

incognoscível. Juntos, eles formam a paisagem canônica e arquetípica. O

desconhecido se manifesta a você em meio ao conhecido. Essa revelação —

às vezes emocionante, mas muitas vezes bastante dolorosa — é a fonte de

novos conhecimentos. Porém, uma questão fundamental permanece: como esse conhecimento é gerado? O que é compreendido e compreensível não

emerge do absolutamente desconhecido para o total e nitidamente articulado

de uma só vez. O conhecimento deve passar por muitos estágios de análise

— uma infinidade de transformações — antes de se tornar, digamos, lugar-

comum.

O primeiro estágio é o da ação pura — a ação reflexa, no mais básico dos

níveis.2 Se algo o surpreende, você reage primeiro com o corpo. Encolhe-se

de forma defensiva, paralisa ou foge em pânico — tipos de representação e

categorização, em sua forma incipiente. Encolher-se significa um ataque

predatório. Paralisar significa ameaça predatória. Pânico significa terror que

exige a fuga. O mundo das possibilidades começa a se atualizar com essa

ação instintiva e corporificada, inconsciente e incontrolável. A primeira

realização da possibilidade, do potencial, não é conceitual. Está

corporificada, mas ainda é representativa. (Não é mais a coisa em si a que

nos referimos anteriormente, mas a transmutação dessa coisa em uma

resposta física proporcional. Isso é uma representação.)

Talvez você esteja em casa, à noite. Suponha que está sozinho. Está escuro

e já é tarde. Um ruído inesperado o assusta e você paralisa. Esta é a

primeira transmutação: ruído desconhecido (um padrão) acarreta a

paralisação. Em seguida, sua frequência cardíaca aumenta, preparando-se

para uma ação (não especificada).3 Essa é a segunda transmutação. Você

está se preparando para se mover. Em seguida, sua imaginação povoa a

escuridão com o que pode ser a origem do barulho.4 Esta é a terceira

transmutação, parte de uma sequência completa e prática: respostas

corporificadas (paralisação e aumento da frequência cardíaca) e, então,

representação imagética e imaginativa. Esta última é parte da exploração,

que pode ser ampliada ao superar o terror e a paralisia associada

(presumindo que nada mais inesperado aconteça) e investigar o provável

local de origem do barulho — antes, apenas um cômodo da sua casa

acolhedora. Você agora está engajado na exploração ativa — um precursor

da percepção direta (espero que nada muito dramático); depois, do

conhecimento explícito da fonte; e então, novamente, da paz rotineira e

complacente, se o barulho não se revelar nada significativo. É assim que a

informação passa do desconhecido para o conhecido. (Exceto que, às vezes,

o ruído não se mostra insignificante. Nesse caso, há problemas.)

Artistas são pessoas que estão na fronteira da transformação do

desconhecido em conhecimento. Eles fazem sua incursão voluntária no

desconhecido, pegam uma parte dele e o transformam em uma imagem.

Talvez o façam por meio de coreografia e dança — representando a

manifestação do mundo em uma exibição física, comunicável, ainda que de

forma não verbal, a outros. Talvez o façam atuando, que é uma forma

sofisticada de personificação e imitação; pintando ou esculpindo. Talvez

escrevam um roteiro ou um romance. Depois de tudo isso vêm os

intelectuais, com filosofia e crítica, abstraindo e articulando as

representações e regras da obra.

Considere o papel que as pessoas criativas desempenham nas cidades. Elas

costumam passar necessidade, pois é quase impossível ter sucesso

comercial como artista, e essa ânsia pelo que falta é, em parte, o que as

motiva (não subestime a utilidade da necessidade). Em sua pobreza, elas

exploram a cidade e descobrem uma área degradada, reduto de

criminalidade, que já teve dias melhores. Visitam, olham, sondam e

pensam: “Sabe, com um pouco de trabalho, essa área pode ser legal.” Então,

se mudam, montam algumas galerias e colocam algumas obras de arte. Não

ganham dinheiro, mas revestem o espaço de civilidade. Ao fazer isso, essas

pessoas elevam e transformam algo que antes era muito perigoso em

vanguarda. Então, surge uma cafeteria e talvez uma loja de roupas não

convencional. E, quando você se dá conta, lá estão os gentrificadores. Eles

também são tipos criativos, porém mais conservadores (menos

desesperados, talvez; mais avessos ao risco, pelo menos — portanto, não

são os primeiros desbravadores). Em seguida, vêm os empreendedores

imobiliários. E então surgem as cadeias de lojas, e a classe média ou alta se

estabelece. Aí os artistas precisam se mudar, pois não conseguem mais

pagar o aluguel. É uma perda para a vanguarda, mas tudo bem, mesmo que

seja cruel, porque, com toda essa estabilidade e previsibilidade, os artistas

não deveriam estar mais lá. Eles precisam rejuvenescer alguma outra área.

Precisam de outra paisagem para conquistar. Esse é o seu ambiente natural.

Essa fronteira, na qual os artistas estão sempre transformando o caos em

ordem, pode ser um lugar muito difícil e perigoso. Vivendo ali, eles correm

o risco constante de afundar no caos, em vez de transformá-lo. Mas os

artistas sempre viveram nessa fronteira da compreensão humana. A arte tem

com a sociedade a mesma relação que o sonho tem com a vida mental. Você

é muito criativo quando está sonhando. É por isso que, quando se lembra de um sonho, pensa: “De onde diabos veio isso?” É muito estranho e

incompreensível que algo possa acontecer em sua cabeça e você não tenha

ideia de como surgiu ou do que significa. É um milagre: a voz da natureza

se manifestando em sua psique. E isso acontece todas as noites. Assim

como a arte, o sonho é o mediador entre ordem e caos. Portanto, é meio

caos. É por isso que não é compreensível. É uma visão, não uma produção

articulada totalmente desenvolvida. Aqueles que concretizam essas visões

nascentes em produções artísticas são os que começam a transformar o que

não entendemos em algo que podemos ao menos começar a ver. Este é o

papel dos artistas, ocupar a vanguarda. Esse é o seu nicho biológico. Eles

são os primeiros agentes civilizadores.

Os artistas não entendem muito bem o que estão fazendo. E nem

poderiam, se estiverem fazendo algo genuinamente novo. Caso contrário,

bastaria dizer o que pretendem criar e pronto. Não precisariam se expressar

na dança, na música e na imagem. Entretanto, eles são guiados pelo tato,

pela intuição — por sua facilidade na detecção de padrões — e tudo isso é

corporificado, em vez de articulado, pelo menos em seus estágios iniciais.

Ao criar, os artistas enfrentam, questionam e lutam com um problema —

que talvez nem entendam completamente — e se esforçam para conseguir

dar forma a algo novo. Do contrário, são meros propagandistas, revertendo

o processo artístico, tentando transformar algo que já são capazes de

articular em imagem e arte com o propósito de uma vitória retórica e

ideológica. Utilizar elementos de grandeza superior para propósitos

inferiores é um grande pecado. A subordinação da arte e da literatura à

política (ou o obscurecimento proposital da distinção entre elas) é uma

tática totalitária.

Os artistas precisam lutar contra algo que não entendem, ou não são

artistas. Em vez disso, são meros impostores ou românticos

(frequentemente, fracassos românticos), narcisistas, atores (não no sentido

criativo). É provável que, quando genuínos, sejam idiossincrática e

peculiarmente obcecados por sua intuição — possuídos por ela, dispostos a

persegui-la mesmo diante da oposição e da probabilidade esmagadora de

rejeição, crítica e fracasso prático e financeiro. Quando são bem-sucedidos,

tornam o mundo mais compreensível (às vezes substituindo algo mais

“compreendido”, mas agora anacrônico, por algo novo e melhor). Eles

aproximam o desconhecido do mundo consciente, social e articulado. E

então as pessoas olham para suas obras, assistem aos dramas e ouvem as histórias, e começam a se informar por elas, mas não sabem como nem por

quê. E as pessoas descobrem um grande valor nisso — mais valor, talvez,

do que em qualquer outra coisa. Há uma boa razão para que os artefatos

mais caros do mundo — aqueles que são literalmente, ou quase,

inestimáveis — sejam grandes obras de arte.

Certa vez, visitei o Metropolitan Museum of Art de Nova York. Continha

uma coleção de pinturas grandiosas e famosas da Renascença — cada uma

valendo centenas de milhões de dólares, caso estivessem disponíveis para

compra. A área que as abrigava era um santuário, um reduto do divino —

para crentes e ateus. Ficava no mais caro e prestigioso dos museus,

localizado em um imóvel da mais alta qualidade e desejabilidade, naquela

que pode muito bem ser a cidade mais ativa e excitante do mundo. A

coleção havia sido montada durante um longo período e com muita

dificuldade. A galeria estava lotada de pessoas, muitas das quais haviam

viajado para lá como parte do que deveria ser considerado, de maneira mais

apropriada, uma peregrinação.

Eu me perguntei: “O que essas pessoas estão fazendo, ao vir a este lugar,

com uma curadoria tão cuidadosa, depois de viajar grandes distâncias, para

admirar essas pinturas? E o que elas acreditam que estão fazendo?” Uma

pintura apresentava a Imaculada Conceição de Maria, em uma composição

magnífica. A Mãe de Deus subia ao céu, em estado de graça, emoldurada

em uma mandorla de nuvens, incrustada com rostos de putti. Muitas

pessoas se aglomeravam em torno da obra, admirando-a, extasiadas. Pensei:

“Elas não sabem o que esta pintura significa. Não entendem o significado

simbólico da mandorla, ou o significado dos putti, ou a ideia da glorificação

da Mãe de Deus. Afinal, Deus está morto — ou é o que dizem. Então, por

que a pintura ainda preserva seu valor? Por que está nesta sala, neste

edifício, com essas outras pinturas, nesta cidade — cuidadosamente

protegida para não ser tocada? Por que esta pintura — e todas as outras — é

inestimável e tão desejada por quem já tem tudo? Por que essas criações são

armazenadas com tanto cuidado em um santuário moderno e visitadas por

pessoas de todo o mundo, como se isso fosse um dever — quase como se

fosse desejável ou necessário?”

Tratamos esses objetos como se fossem sagrados. Pelo menos é isso que

nossas ações diante deles sugerem. Olhamos para eles em ignorância e

deslumbramento, e lembramos o que esquecemos; percebendo, em um vislumbre muito tênue, o que não podemos mais ver (o que talvez não

estejamos mais dispostos a ver). O desconhecido resplandece nas produções

de grandes artistas de forma parcialmente articulada. O inefável que inspira

a reverência começa a ser concretizado, mas retém uma abundância

aterrorizante de seu poder transcendente. Esse é o papel da arte, e esse é o

papel dos artistas. Não é à toa que mantemos suas produções mágicas e

perigosas trancadas, emolduradas e separadas de tudo. E, se uma grande

peça for danificada em qualquer lugar, a notícia se espalha pelo mundo.

Sentimos um tremor percorrer os alicerces de nossa cultura. O sonho do

qual depende nossa realidade estremece. Nós nos sentimos debilitados.

 

UM CÔMODO

 

Eu moro com minha esposa em uma pequena casa geminada, com uma sala

de estar que deve ter no máximo 3,5m x 3,5m. Mas nos esforçamos para

deixar esse cômodo o mais bonito possível, e tentamos fazer o mesmo com

o resto da casa. Na sala de estar estavam pendurados alguns quadros

grandes (que não são do agrado de todos, certamente: eram peças

realistas/impressionistas soviéticas, algumas ilustrando a Segunda Guerra

Mundial, outras representando o triunfo do comunismo), bem como uma

variedade de miniaturas cubistas e peças sul-americanas com forte

influência da tradição indígena. Antes de nossas recentes reformas, a sala

tinha pelo menos 25 quadros, incluindo cerca de 15 peças menores (30cm x

30cm). Havia até um — que lembrava uma gravura medieval, embora

pintado em tela — no teto, preso com ímãs. Era de uma igreja romena. O

maior tinha 1,80m de altura e cerca de 2,40m de largura. (Sei perfeitamente

que reunir todas essas pinturas em um espaço tão pequeno contradiz meu

ponto anterior sobre dedicar uma sala ou mesmo um edifício a uma única

obra de arte, mas tenho apenas uma casa, então alego questão de

necessidade: se quero colecionar pinturas, elas devem ser colocadas onde é

possível.) No restante da casa, usamos 36 cores diferentes e uma variedade

de texturas de brilho nas paredes e nos acabamentos da construção — todas

de uma paleta que combinava com uma grande pintura realista de um pátio

ferroviário em Chicago na década de 1950, criado pelo mesmo artista que

nos ajudou a planejar e reformar nossa casa.

Comprei as peças soviéticas no eBay, vendidas por negociantes de objetos

de segunda mão, todos eles especializados em artefatos da era soviética. A certa altura, eu tinha uma rede de cerca de vinte pessoas na Ucrânia me

enviando fotos de todas as pinturas resgatadas das ruínas da burocracia

soviética. A maioria era horrível. Mas algumas eram incríveis. Por exemplo,

tenho um quadro excelente de Yuri Gagarin, o primeiro homem no espaço,

diante de um foguete e uma instalação de radar, e outro dos anos 1970 que

mostra um soldado solitário escrevendo para sua mãe diante de um grande

rádio. É realmente especial ver eventos relativamente modernos

memorizados em óleo por artistas talentosos. (Os soviéticos mantiveram

suas academias funcionando continuamente desde o século XIX e, embora

grandes restrições tenham sido impostas ao que podia ser produzido,

aqueles que passaram por elas se tornaram pintores altamente qualificados.)

As pinturas soviéticas acabaram tomando conta de nossa casa. A maioria

era pequena e ridiculamente barata, e comprei dezenas delas. A era

soviética produziu seu próprio impressionismo, muitas vezes retratando

paisagens, mais severas e duras do que as versões clássicas francesas, mas

que me agradam muito e me lembram do lugar onde cresci, no Oeste do

Canadá. Gosto de pensar que, enquanto procurava por obras, tive contato

com um número maior de pinturas do que qualquer outra pessoa na história.

Durante pelo menos quatro anos, a partir de 2001, pesquisei no eBay, vendo

cerca de mil pinturas por dia,VII em busca de uma ou duas dentre elas que

tinham qualidade genuína. Na maioria das vezes, era uma paisagem russa

ou soviética vendida a preço de banana — pinturas melhores do que

algumas que eu já vira em galerias ou coleções de museus em Toronto. Eu

as colocava em uma lista de itens de interesse — um recurso do eBay —, as

imprimia, espalhava pelo chão e, em seguida, pedia à minha esposa,

Tammy, para me ajudar a restringir minhas escolhas. Ela tem um bom olho

e um bom treinamento como artista. Descartávamos as que considerávamos

imperfeitas e comprávamos o restante. Por causa disso, meus filhos

cresceram cercados de arte, e isso certamente os marcou. Muitas das minhas

pinturas agora estão em suas respectivas residências. (Eles tendiam a evitar

a propaganda soviética mais política, pela qual eu me interessava por causa

de seu significado histórico e por causa da eterna batalha nas telas entre a

arte — uma consequência do talento inegável do pintor — e a propaganda a

que a arte estava fadada a servir. Posso dizer que, com o passar dos anos, a

arte consegue transcender a propaganda. Isso é algo muito interessante de

observar.)

Nessa época, também tentei embelezar minha sala na universidade. Depois

que fui transferido de um escritório no qual já havia mexido, o mesmo

artista que ajudou a redecorar o interior de nossa casa (e de quem também

comprei muitos quadros grandes, que também estão nas paredes de casa)

tentou me ajudar a transformar meu catastrófico novo escritório — uma sala

com iluminação fluorescente e janelas lacradas, que mais parecia um galpão

de fábrica dos anos 1970 — em algo que alguém com algum bom senso

pudesse ocupar por trinta anos sem querer morrer. Os docentes eram

proibidos de realizar qualquer modificação importante nesses espaços,

devido a exigências sindicais (ou interpretações da reitoria acerca desses

requisitos). Então, meu amigo artista e eu criamos um plano alternativo.

Decidimos prender alguns ganchos niquelados no bloco de concreto — em

pares com cerca de um metro de distância e dois metros acima do solo — e

pendurar painéis de madeira lixados e envernizados em tom de cerejeira.

Voilà: escritório com painéis de madeira, pelo custo de cerca de oito peças

de madeira compensada de US$75 mais mão de obra. Pretendíamos instalar

tudo em um fim de semana, quando não houvesse mais ninguém por perto.

Em seguida, planejávamos pintar o teto rebaixado (com cuidado, pois havia

amianto acima das telhas). O inferno é um lugar de tetos falsos, grades de

ventilação enferrujadas e luzes fluorescentes; a feiura sombria, a monotonia

e a depressão geral de espírito decorrentes desse cenário de aspecto barato,

sem dúvida, são muito mais eficientes em inibir a produtividade do que o

mais barato dos truques arquitetônicos e a mais funesta das iluminações são

capazes de economizar dinheiro. Todo mundo parece um cadáver sob

lâmpadas fluorescentes. Isso é economizar justamente nas coisas que de

fato importam.

Pretendíamos pintar o teto com uma tinta chamada Hammerite, que parece

metal batido quando seca. Isso teria transformado a inevitável estética

industrial — que pode ser atraente se tratada com sabedoria — em algo

primoroso e único. Também poderia ter sido feito por um custo mínimo.

Um bom tapete, talvez persa (também muito barato no eBay), algumas

cortinas de qualidade razoável e uma mesa industrial decente: um fim de

semana de trabalho secreto e teríamos um escritório que uma pessoa

civilizada poderia ocupar sem nutrir ressentimentos e autodesprezo.

Entretanto, cometi um erro fatal. Falei com uma das administradoras

seniores do departamento de psicologia sobre meus planos. Nós havíamos conversado anteriormente sobre a tenebrosa aparência do andar ocupado

pelo nosso departamento e o estado sombrio de todos os escritórios, e

pensei que havíamos estabelecido um consenso de que era necessário

aprimorá-lo. Presumi que ela estava de acordo. Tínhamos até conversado

sobre a transformação de seu escritório. Comecei a compartilhar minhas

intenções com entusiasmo. Ela parecia descontente ao invés de feliz e

inesperadamente me disse: “Você não pode fazer isso.” Balancei minha

cabeça em descrença e pensei: “O quê? Estou planejando transformar algo

extremamente feio em belo, com rapidez, sem problemas e pouquíssimo

dinheiro — e sua resposta é: ‘Você não pode fazer isso’?!” Eu questionei:

“O que você quer dizer?” Ela respondeu: “Bem, se você fizer isso, todos

vão querer fazer.” Quatro respostas passaram pela minha mente: 1) “Não,

não vão.” 2) “Todos poderiam fazer, porque seria muito barato.” 3) “Achei

que éramos adultos sensatos tendo uma conversa produtiva sobre como

melhorar algo importante em uma universidade, mas na verdade somos

crianças brigando no parquinho do jardim de infância.” 4) “Achei que

estava falando com alguém sensato e razoável, mas é evidente que não.” Ela

encerrou a conversa com uma ameaça direta: “Não me pressione.” Como

fui burro. Pedi permissão. (Na verdade não: eu estava tentando transmitir

algo motivador, bonito e empolgante. Mas tudo se resumiu a um jogo de

poder.) No entanto, eu não disse nada — embora tenha ficado tentado a lhe

dizer tudo que passou pela minha cabeça — e imediatamente recalibrei

minha estratégia.

Meu amigo artista e eu já estávamos mais do que familiarizados com a

insanidade e a intransigência inerentes às burocracias de nível

intermediário, então já tínhamos concebido um plano B mais barato.

Envolvia a escolha cuidadosa da tinta para as paredes (em vez da preferível

madeira), com algum quadro de destaque onde fosse possível, e tapetes e

cortinas combinando. Eu ainda tinha que lutar contra o governo para obter

as cores precisas que havia escolhido (que combinavam com o ambiente

industrial do escritório), mas venci a batalha. O plano B não era tão bom

quanto o plano A, mas ainda era muito melhor do que o status quo. Mais

tarde, adicionei um teto rebaixado de cobre, usando placas de plástico

adesivas leves que imitam o metal decorativo com bastante exatidão,

pendurei alguns quadros e acrescentei algumas estátuas apropriadas.

Alunos, colegas e visitantes entram e ficam admirados. Meu escritório é um

lugar de criatividade e beleza, e não um medonho galpão de fábrica com luz fluorescente. Os visitantes ficam surpresos — surpresos, aliviados e

satisfeitos.

Não muito depois, descobri que o departamento agora levava potenciais

novos contratados ao meu escritório para lhes mostrar quanta liberdade

criativa era possível na Universidade de Toronto. Achei isso incrivelmente

cômico. Pensei muito nisso tudo. A resistência que encontrei foi um tanto

incompreensível em sua força. Eu refleti: “Deus, as pessoas parecem estar

com medo do que estou fazendo neste escritório. Talvez haja uma razão —

uma razão importante — que eu não entendo.” Então me deparei com uma

história do biólogo Robert Sapolsky. Era sobre gnus.5 Os gnus são animais

de rebanho e muito difíceis de distinguir uns dos outros (talvez não para

outros gnus, mas certamente para aqueles que desejam estudá-los). Eles são

todos iguais. Em um ponto no passado, isso representou um problema sério

para os biólogos que precisavam observar animais individuais por tempo

suficiente para tirar algumas conclusões sobre seu comportamento. Eles

observavam um gnu, desviavam o olhar por um momento para fazer

anotações e eram incapazes de localizar o mesmo animal quando olhavam

de volta.

Até que conseguiram encontrar uma potencial solução. Os biólogos se

aproximaram do rebanho em um jipe, armados com um balde de tinta

vermelha e um pedaço de pau com um pano. Eles pintaram uma mancha

vermelha nas ancas de um dos gnus. Agora poderiam rastrear as atividades

daquele animal em particular e, com sorte, aprender algo novo sobre o

comportamento dos gnus. Mas adivinhe o que aconteceu com o gnu, agora

diferenciado dos demais? Os predadores, sempre à espreita ao redor do

rebanho, o abateram. Leões — a grande ameaça a esses animais — não

conseguem derrubar um único gnu com facilidade, a menos que possam

identificá-lo. Eles não conseguem caçar a massa de animais indistinguíveis.

Não são capazes de rastrear quatro gnus de cada vez. Precisam organizar

sua caça em torno de um indivíduo identificável. Assim, quando os leões

vão atrás dos menores ou dos feridos, não estão abatendo os fracos, em

alguma demonstração natural de altruísmo benéfico. Eles prefeririam comer

um gnu saudável, delicioso e suculento do que um exemplar mirrado, velho

ou doente. Mas devem ser capazes de identificar suas presas. Moral da

história? Destaque-se, torne-se colorido e os leões o abaterão. E eles sempre

estão por perto.

“O prego que se destaca é o primeiro a ser martelado.” Esse ditado é

válido em muitas culturas, como no Brasil e no Japão. A versão da língua

inglesa é: “A papoula que cresce mais alto é a primeira a ser arrancada.”

Essa não é uma observação trivial: daí sua semelhança. O esforço artístico e

criativo é de alto risco, enquanto a probabilidade de retorno é baixa. Mas a

probabilidade de um retorno excepcionalmente alto existe, e o esforço

criativo, embora perigoso e improvável de prosperar, também é

absolutamente vital para a transformação que nos permite manter o

equilíbrio. Tudo muda. O tradicionalismo puro está condenado exatamente

por isso. Precisamos do novo apenas para manter nossa posição. E

precisamos ver aquilo para o que nos tornamos cegos, por nossa própria

destreza e especialização, para que não percamos o contato com o Reino de

Deus e não morramos em meio ao tédio, ao enfado, à arrogância, à cegueira

para a beleza e ao cinismo que aniquila a alma. Além disso, somos presas

indefesas, que se encolhem e se protegem, se escondem e se camuflam, ou

somos seres humanos?

 

NÃO É DECORAÇÃO

 

As pessoas costumam se irritar com a arte abstrata, ou com a arte que

parece se dedicar a provocar reações negativas, como nojo ou horror,

apenas para chocar. Tenho um enorme respeito pelos ideais de beleza

tradicional e, portanto, alguma simpatia por esse tipo de reação, e não

duvido que muitos que apenas desdenham a tradição mascaram esse

sentimento com uma pretensão artística. No entanto, a passagem do tempo

diferencia o trabalho verdadeiramente inspirado da dissimulação, mesmo de

maneira imperfeita, e o que não é crucial geralmente é deixado para trás.

Também é fácil cometer o erro oposto: alegar que a arte deve ser bela e de

fácil apreciação, sem trabalho ou desafio — deve ser decorativa; deve

combinar com a mobília da sala. Mas arte não é decoração. Essa é a atitude

de um iniciante ingênuo ou de quem não permite que seu medo da arte lhe

possibilite progredir e aprender.

Arte é exploração. Artistas treinam pessoas para ver. Agora, a maioria das

pessoas com qualquer exposição à arte considera o trabalho dos

impressionistas, por exemplo, como evidentemente belo e relativamente

tradicional. Isso ocorre, em grande parte, porque todos nós percebemos o

mundo agora, pelo menos parcialmente, da maneira que só os impressionistas poderiam fazer na segunda metade do século XIX. Não

podemos deixar de fazê-lo, pois a estética impressionista inundou tudo:

anúncios, filmes, cartazes populares, gibis, fotografias — todas as formas

de arte visual. Agora todos nós vemos a beleza da luz que apenas os

impressionistas poderiam perceber. Eles nos ensinaram isso. Porém, quando

os impressionistas expuseram suas pinturas pela primeira vez — no Salon

des Refusés de 1863, já que o tradicional Salão de Paris as rejeitara —, as

peças foram recebidas com riso e desprezo. Esse modo de percepção

(prestar especial atenção à luz, essencialmente, e não à forma) era tão

radical que fazia com que as pessoas tivessem acessos emocionais.

Muitas vezes, fico impressionado com o quanto até mesmo os tropos do

cubismo, bem mais extremos e estranhos em alguns aspectos do que o

impressionismo, tornaram-se parte de nosso vernáculo visual. Já vi os rostos

multidimensionais, mas achatados, típicos do gênero, até mesmo em

histórias em quadrinhos. O mesmo é válido para o surrealismo, que de tão

popular já é quase um clichê. Vale a pena ratificar: os artistas ensinam as

pessoas a ver. É muito difícil perceber o mundo, e somos sortudos por ter

gênios para nos ensinar como fazê-lo, para nos reconectar com o que

perdemos e para nos iluminar para o mundo. É por essas razões

psicológicas que palavras como as de Cristo podem ser proveitosas:

Naquela mesma hora chegaram-se a Jesus os seus discípulos e perguntaram: Quem é o maior

no reino do céu?

E Jesus, chamando uma criancinha, colocou-a no meio deles,

e disse: Na verdade eu vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como

criancinhas, de modo algum entrareis no reino do céu. (Mateus 18:1-3)

 

A beleza o leva de volta ao que você perdeu. A beleza o faz lembrar o que

permanece para sempre imune ao cinismo. A beleza o atrai de uma forma

que fortalece seu objetivo. A beleza o faz recordar que existe um valor cada

vez maior. Muitas coisas fazem a vida valer a pena: amor, diversão,

coragem, gratidão, trabalho, amizade, verdade, graça, esperança, virtude e

responsabilidade. Mas a beleza está entre as maiores delas.

Pois muito embora a glória, que antes cintilara,

Tenha tornado-se distante e coisa rara,

E embora nada traga novamente a hora

Do esplendor no relvado, ou da flor que vigora;

Nós não vamos chorar; iremos

Achar forças no que tivemos

Um dia; no afeto primeiro

Que ainda se mantém inteiro;

No pensamento que consola

E medra quando a dor desola;

Na fé que enxerga além da morteVIII

— WILLIAM WORDSWORTH, “ODE: PRENÚNCIOS DA IMORTALIDADE DA MAIS TENRA IDADE”

 

Tente deixar um cômodo de sua casa o mais bonito possível.

I William Blake, Poesia e Prosa Selecionadas. Edição bilíngue. Tradução de Paulo Vizioli. Ed. Nova Alexandria. (N. da T.)

II Tradução de Matheus Mavericco para a revista Escamandro. Disponível em https://edisciplinas.usp.br/mod/url/view.php?id=2544199 (N. da T.)

III Tradução de Matheus Mavericco. Revista Escamandro. Disponível em https://escamandro.com/2015/04/08/dois-poemas-de-william-blake-por-matheus-mavericco/ (N. da T.)

IV O Casamento do Céu e do Inferno & Outros Escritos. Tradução de Alberto Marsicano. Editora L&PM Pocket. (N. da T.)

VTradução de Matheus Mavericco para a revista Escamandro. Disponível em https://edisciplinas.usp.br/mod/url/view.php?id=2544199 (N. da T.)

VI Tradução de Alita Sodré. (N. da T.)

VII São 1.000 fotos de pinturas x 300 dias por ano x 4 = 1.200.000 pinturas. Deve ter sido um recorde (não que isso importe, mas é cômico de considerar), principalmente porque não acho que teria sido possível ver tantas pinturas antes que a tecnologia da internet viabilizasse esses gigantescos bancos de dados.

VIII Tradução de Matheus Mavericco para a revista Escamandro. Disponível em https://edisciplinas.usp.br/mod/url/view.php?id=2544199 (N. da T.)