Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida

Jordan B. Peterson · Capítulo 3 de 16

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Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida

Introdução

 

Em 5 de fevereiro de 2020, acordei em uma unidade de tratamento

intensivo em nada mais nada menos que Moscou. Correias de quinze

centímetros de largura me prendiam às laterais da cama, porque, em meu

estado de inconsciência, fiquei agitado a ponto de tentar arrancar os

cateteres do meu braço e sair da UTI. Eu estava confuso e frustrado por não

saber onde estava, cercado de pessoas falando um idioma estrangeiro e sem

a companhia de minha filha, Mikhaila, e do marido dela, Andrey, que não

tiveram autorização para estar ao meu lado quando eu acordasse e cuja

presença era limitada a breves horários de visitação. Eu também estava

furioso por estar lá e descontei em minha filha no horário da visita, horas

antes. Eu me sentia traído, embora isso não pudesse estar mais longe da

verdade. As pessoas faziam de tudo para atender às minhas muitas

necessidades com grande diligência, sobretudo depois do tremendo desafio

logístico de procurar atendimento médico em um país tão diferente. Não me

lembro de nada que aconteceu comigo nas semanas anteriores, e bem pouco

entre aquele momento e minha internação em Toronto, cidade canadense

onde moro, em meados de dezembro. Uma das poucas coisas de que

consigo me lembrar, dos primeiros dias do ano, é o tempo que passei

escrevendo este livro.

Escrevi e revisei grande parte deste livro durante o período em que minha

família foi assolada por episódios sequenciais e coincidentes de sérios

problemas de saúde, muitos dos quais acabaram sendo objeto de discussão

pública e, por essa razão, requerem uma explicação detalhada. Primeiro, em

janeiro de 2019, minha filha, Mikhaila, precisou fazer uma cirurgia para

substituir parte de seu tornozelo artificial, implantado cerca de uma década

antes, já que a primeira implantação não havia ficado perfeita e, como

consequência, causava fortes dores e problemas de mobilidade que se

agravaram a ponto de debilitá-la. Passei um mês com ela em um hospital

em Zurique, na Suíça, durante o período do procedimento e de sua

recuperação inicial.

No início de março, menos de quatro semanas depois, minha esposa,

Tammy, passou por uma cirurgia simples em Toronto para retirada de um

tumor no rim, um tipo de câncer comum e de alta tratabilidade. Um mês e

meio após a cirurgia, que envolveu a remoção de um terço de um dos rins,

descobrimos que na verdade ela sofria de um tipo raro e extremamente

agressivo de câncer, com uma taxa de mortalidade de quase 100% no prazo

de um ano.

Duas semanas depois, os médicos encarregados de seu tratamento

removeram os dois terços remanescentes do rim afetado, além de uma

porção substancial do sistema linfático abdominal associado. A cirurgia

pareceu interromper a progressão do câncer, mas resultou em um

vazamento de fluidos (até quatro litros por dia) de seu agora debilitado

sistema linfático — uma condição conhecida como ascite quilosa, que pode

ser equiparada à sua doença subjacente em termos de risco. Viajamos para

consultar uma equipe médica na Filadélfia, que, depois de 96 horas da

primeira injeção de contraste de óleo de semente de papoula — usado para

realçar as imagens da tomografia computadorizada e da ressonância

magnética —, conseguiu fazer cessar completamente a perda de fluidos de

Tammy. Esse progresso ocorreu no dia em que comemorávamos nosso

trigésimo aniversário de casamento. Ela se recuperou de forma rápida e, ao

que parecia, plena — uma boa demostração da sorte de que todos

necessitamos para viver, e da admirável força e resistência de Tammy.

Infelizmente, durante o desenrolar desses acontecimentos, minha saúde

entrou em colapso. No início de 2017, eu havia começado a tomar um

ansiolítico, após sofrer o que parecia ser uma reação autoimune a algo que

consumi no período de festas de 2016.I A reação alimentar me deixou em

um estado de ansiedade constante e aguda; eu sentia um frio congelante,

não importava o quanto me agasalhasse ou com quantos cobertores me

cobrisse. Além disso, minha pressão sanguínea baixou tão drasticamente

que sempre que eu tentava me levantar tinha uma sensação de desmaio e era

forçado a me agachar algumas vezes antes de tentar de novo. Também sofri

de uma insônia que parecia quase absoluta. Meu médico de família me

receitou um benzodiazepínico e um medicamento para dormir. Tomei este

último apenas algumas vezes e depois interrompi o uso por completo; os

terríveis sintomas que eu estava experienciando, incluindo a insônia,

cessaram quase que de imediato em decorrência do tratamento com o benzodiazepínico, o que tornou o sonífero desnecessário. Continuei com o

benzodiazepínico por quase três anos exatos, pois minha vida parecia

extraordinariamente estressante naquela época (um período em que minha

existência tranquila como professor universitário e psicólogo se

transformou na tumultuosa realidade de uma figura pública), e porque eu

acreditava que o medicamento era — como é comum ouvirmos a respeito

dos benzodiazepínicos — uma substância relativamente inofensiva.

Porém, em março de 2019, no início da batalha médica de minha esposa,

as coisas mudaram. Notei minha ansiedade nitidamente aumentar após a

hospitalização, a cirurgia e a recuperação de minha filha. Em razão disso,

pedi ao médico de família para aumentar a dose do benzodiazepínico, para

que eu não precisasse me preocupar nem afligir os outros com minha

ansiedade. Infelizmente, experimentei um significativo aumento nas

emoções negativas após o ajuste da dose. De novo, pedi um aumento na

dosagem (nessa época, estávamos tentando lidar com a segunda cirurgia de

Tammy e suas complicações, e atribui minha ansiedade ainda mais severa a

esses problemas), mas minha condição se agravou ainda mais. Não imaginei

que isso pudesse ser um efeito paradoxal do medicamento (o que foi

diagnosticado mais tarde), mas, sim, uma recaída de uma tendência à

depressão que me assombra há anos.II De qualquer modo, em maio daquele

ano, interrompi por completo o uso do benzodiazepínico e passei para um

teste de duas doses de cetamina no prazo de uma semana, como sugerido

por um psiquiatra com quem me consultei. A cetamina é um

anestésico/psicodélico atípico que, muitas vezes, tem efeitos positivos

rápidos e significativos contra a depressão. Para mim, os efeitos não

passaram de duas viagens de noventa minutos para o inferno. No âmago do

meu ser, era como se eu só tivesse motivos para sentir culpa e vergonha,

como se não tivesse extraído nada de bom das minhas experiências

positivas.

Poucos dias após a segunda experiência com cetamina, comecei a sofrer

os efeitos da abstinência aguda dos benzodiazepínicos, que eram realmente

intoleráveis — ansiedade muito além do que eu já tinha experimentado,

uma inquietação incontrolável e uma necessidade de me mover

(formalmente conhecida como acatisia), pensamentos angustiantes de

autodestruição e a completa ausência de felicidade. Um amigo da família —

médico — me esclareceu sobre os perigos da abstinência súbita de benzodiazepínicos. Portanto, voltei a tomá-los, mas em uma dose menor

que a anterior. Muitos dos meus sintomas, mas não todos, diminuíram. Para

lidar com os que persistiam, também comecei a tomar um antidepressivo

que havia sido de grande ajuda para mim no passado. No entanto, tudo que

consegui foi ficar exausto a ponto de necessitar de quatro ou mais horas

adicionais de sono por dia — o que não ajudou em nada em meio aos sérios

problemas de saúde de Tammy —, além de aumentar meu apetite em duas

ou três vezes.

Depois de quase três meses de uma ansiedade terrível, hipersonia

incontrolável, acatisia torturante e apetite excessivo, fui para uma clínica

nos Estados Unidos especializada em retirada rápida de benzodiazepínicos.

Apesar das boas intenções de muitos de seus psiquiatras, a clínica só

conseguiu uma retirada lenta ou a diminuição progressiva da minha

dosagem de benzodiazepínicos, e os efeitos negativos que eu já vinha

experimentando não foram nem puderam ser controlados a um nível

significativo pelo tratamento de internação oferecido.

Apesar de tudo, permaneci nessa clínica de meados de agosto, apenas

alguns dias após a recuperação de Tammy das complicações pós-cirúrgicas,

até o fim de novembro, quando voltei para casa, em Toronto, totalmente

exaurido. A essa altura, a acatisia (a condição descrita anteriormente, que

provoca movimentos incontroláveis) atingira um nível em que me sentar ou

repousar em qualquer posição, pelo tempo que fosse, significava um imenso

sofrimento. Em dezembro, dei entrada em um hospital local, e foi nesse

ponto que minha consciência sobre os eventos antes do meu despertar em

Moscou se apagou. Conforme descobri mais tarde, minha filha, Mikhaila, e

o marido, Andrey, me tiraram do hospital em Toronto no início de janeiro,

por acharem que o tratamento que vinha recebendo lá me fazia mais mal do

que bem (opinião com a qual concordei depois que soube o que acontecera).

A situação em que me encontrava ao recobrar a consciência na Rússia era

complicada por eu também ter desenvolvido pneumonia dupla no Canadá,

embora essa condição não tenha sido descoberta nem tratada até que eu

chegasse à unidade de tratamento intensivo em Moscou. Entretanto, o

motivo principal de minha estada era que a clínica conseguisse ajudar na

retirada dos benzodiazepínicos, usando um procedimento desconhecido ou

considerado perigoso demais na América do Norte. Como eu não

conseguira tolerar qualquer diminuição na dosagem — além da redução inicial, meses antes —, a clínica me colocou em coma induzido para que

permanecesse inconsciente durante os piores sintomas de abstinência. Esse

tratamento teve início no dia 5 de janeiro e durou nove dias, ao longo dos

quais fui ligado a um aparelho para que minha respiração fosse

mecanicamente controlada. Em 14 de janeiro, a anestesia e a intubação

foram retiradas. Acordei por algumas horas e disse para minha filha que a

acatisia havia desaparecido, embora não me recorde de nada desse período.

Em 23 de janeiro, fui transferido para outra unidade de tratamento

intensivo especializada em reabilitação neurológica. Como mencionei

anteriormente, lembro-me de acordar no dia 26, por breves períodos, até

enfim recobrar completamente a consciência no dia 5 de fevereiro — dez

dias durante os quais passei por um período de delírios intensos e vívidos.

Superada essa fase, fui para um centro de reabilitação, mais parecido com

uma casa, nos subúrbios mais afastados de Moscou. Lá, tive que reaprender

a andar, subir e descer escadas, abotoar minhas roupas, me deitar na cama

sozinho, posicionar minhas mãos corretamente no teclado e digitar. Parecia

que eu não conseguia enxergar direito — ou, para ser mais exato, usar meus

membros para interagir com os objetos que via. Algumas semanas depois

que os problemas na percepção e na coordenação praticamente

desapareceram, minha filha, o marido, seus filhos e eu nos mudamos para a

Flórida para o que esperávamos ser um período de recuperação tranquilo

sob o sol (muito bem-vindo após o inverno cinzento e congelante de

Moscou). Isso foi pouco antes do surgimento da preocupação mundial com

a pandemia da Covid-19.

Na Flórida, tentei diminuir a medicação prescrita pela clínica de Moscou,

embora ainda sentisse dormência na mão e no pé esquerdos, tremores

nessas duas extremidades, bem como nos músculos da testa, convulsões e

uma ansiedade debilitante. Todos esses sintomas aumentavam

acentuadamente à medida que a dosagem dos medicamentos era diminuída,

chegando ao ponto de, cerca de dois meses depois, eu voltar às doses

inicialmente prescritas na Rússia. Foi uma derrota concreta, pois o processo

de diminuição do uso foi alimentado por um otimismo que acabou

despedaçado, além de me fazer voltar ao nível inicial de medicação pelo

qual paguei um alto preço para tentar eliminar. Felizmente, meus familiares

e amigos permaneceram comigo durante esse período, e a companhia deles

me ajudou a manter a motivação para seguir em frente apesar de os

sintomas serem insuportáveis, principalmente pela manhã.

No final de maio, três meses após deixar a Rússia, estava bastante óbvio

que meu estado piorava ao invés de melhorar, e depender das pessoas que

eu amava e que retribuíam esse sentimento era insustentável e injusto.

Mikhaila e Andrey contataram uma clínica sérvia que praticava uma

abordagem nova ao problema da retirada de benzodiazepínicos e tomaram

as providências para me transferir para lá, apenas dois dias depois da

reabertura do lockdown em razão da pandemia.

Não pretendo sugerir que os eventos ocorridos com minha esposa, comigo

e com aqueles que estiveram intimamente envolvidos no tratamento dela

contribuíram, em última análise, para um bem maior. O que aconteceu com

Tammy foi terrível. Ao longo de mais de seis meses, ela enfrentou, a cada

dois ou três dias, uma crise de saúde potencialmente fatal e então teve que

lidar com minha doença e ausência. De minha parte, fui atormentado pela

possibilidade da perda de alguém de quem era amigo havia cinquenta anos e

com quem era casado há trinta, pelo vislumbre das terríveis consequências

disso para os outros membros da família, incluindo nossos filhos, e pelas

terríveis e apavorantes consequências de uma dependência química na qual

fui involuntariamente lançado. Não menosprezarei nada disso afirmando

que nos tornamos pessoas melhores por causa dessa experiência. No

entanto, posso dizer que passar tão perto da morte motivou minha esposa a

cuidar de algumas questões relativas ao seu próprio desenvolvimento

espiritual e criativo de uma maneira mais imediata e assídua do que

provavelmente faria em circunstâncias normais, e a mim, a escrever ou a

manter neste livro, durante a revisão, apenas as palavras que mantiveram

seu significado mesmo em condições marcadas por sofrimento extremo.

Com certeza, é graças à família e aos amigos (que são nomeados

especificamente no Encerramento deste livro) que ainda estamos vivos, mas

também é verdade que a significativa imersão no que eu estava escrevendo,

que perdurou durante todo o tempo que relatei — exceto meu mês

inconsciente na Rússia —, me deu uma razão para viver e um meio de testar

a viabilidade dos pensamentos com os quais eu lutava.

Acredito que jamais aleguei — em meu livro anterior ou mesmo neste —

que necessariamente seria suficiente viver de acordo com as regras que

apresentei. Acredito que o que afirmei — ou o que espero ter afirmado —

foi o seguinte: quando você se depara com o caos e é engolido por ele;

quando a natureza amaldiçoa você ou alguém que ama com uma doença; ou

quando a tirania destroça algo de valor que construímos, é salutar conhecer o restante da história. Todo esse infortúnio é apenas a metade amarga da

existência, que ignora o fato de que o elemento heroico da redenção ou a

nobreza do espírito humano requer assumir certa responsabilidade sobre os

ombros. Ignoramos essa parte da história por nossa conta e risco, pois a

vida é tão difícil que perder de vista essa parte heroica da existência pode

ter um preço alto demais. Não queremos que isso aconteça. Precisamos, em

vez disso, criar coragem e força, enxergar as coisas de maneira adequada e

cuidadosa, e viver do modo que podemos viver.

Você tem a seu dispor fontes das quais extrair força, e, ainda que possam

não funcionar direito, elas podem ser o bastante. Tem as lições que é capaz

de extrair se conseguir aceitar seus erros. Tem remédios e hospitais, bem

como médicos e enfermeiras que se preocupam genuinamente em levantá-lo

e ajudá-lo a superar cada dia. E ainda tem seu caráter e sua coragem, e, se

estes tiverem sido reiteradamente abatidos e você estiver pronto para jogar a

toalha, ainda tem o caráter e a coragem daqueles com quem se importa e

que se importam com você. E talvez, só talvez, com tudo isso, você consiga

superar. Posso lhe dizer o que me salvou até agora — o amor que tenho pela

minha família; o amor que eles têm por mim; todo o incentivo que eles e

meus amigos me deram; o fato de eu ainda ter um trabalho significativo ao

qual me dedicar enquanto enfrento o abismo. Precisei me obrigar a me

sentar em frente ao computador. Precisei me forçar a me concentrar, e

respirar fundo, e me controlar para não dizer “para o diabo com isso”

durante os intermináveis meses em que fui tomado por sofrimento e terror.

E quase não consegui. Na maior parte do tempo, achei que morreria em um

dos hospitais pelos quais passei. E acredito que, se tivesse me deixado levar

pelo ressentimento, por exemplo, teria sucumbido de uma vez por todas —

e sei que tenho muita sorte por ter conseguido evitar esse destino.

Seria possível sermos mais capazes de lidar com a incerteza, os horrores

da natureza, a tirania da cultura e a nossa própria maleficência e a dos

outros se fôssemos pessoas melhores e mais corajosas (mesmo que nem

sempre isso nos livre da terrível situação em que nos encontramos)? Se nos

esforçássemos para alcançar valores mais elevados? Se fôssemos mais

verdadeiros? Os elementos benéficos da experiência não teriam maior

probabilidade de se manifestar ao nosso redor? Se seus objetivos fossem

nobres o suficiente; sua coragem, adequada; e seu foco na verdade,

infalível, seria possível que o Bem assim produzido, digamos, aplacasse o

horror? Não é exatamente assim, mas é quase. Essas atitudes e ações podem, pelo menos, nos fornecer significado suficiente para impedir que o

encontro com aquele sofrimento e horror nos corrompa e transforme o

mundo ao redor em algo muito parecido com o inferno.

Por que Além da Ordem? De certa maneira, é simples. A ordem é o

território explorado. Estamos na ordem quando as ações que consideramos

adequadas produzem os resultados que desejamos. Avaliamos

positivamente esses resultados, pois, em primeiro lugar, eles indicam que

nos aproximamos do que desejamos e, em segundo, que nossa teoria sobre

como o mundo funciona permanece aceitavelmente correta. Ainda assim,

todos os estados de ordem, não importa quão seguros e confortáveis, têm

suas falhas. Nosso conhecimento de como agir no mundo permanece

eternamente incompleto — em parte por causa de nossa profunda

ignorância do vasto desconhecido; em parte por causa de nossa cegueira

deliberada; e em parte porque o mundo continua, em sua maneira entrópica,

a se transformar de forma inesperada. Além do mais, a ordem que nos

empenhamos para impor ao mundo pode enrijecer, como consequência de

tentativas irrefletidas de desconsiderar tudo que é desconhecido. Quando

essas tentativas vão longe demais, o totalitarismo é uma ameaça, movido

pelo desejo de exercer pleno controle onde ele é impossível, mesmo em

teoria. Isso significa arriscar uma perigosa restrição a todas as mudanças

psicológicas e sociais necessárias para nos mantermos adaptados a um

mundo em constante mudança. E, assim, acabamos inescapavelmente

confrontados pela necessidade de nos mover além da ordem, na direção

oposta: o caos.

Se a ordem acontece quando o que queremos se torna conhecido —

quando agimos de acordo com nossa sabedoria arduamente conquistada —,

o caos se dá quando algo inesperado ou para o qual permanecemos cegos

emerge do potencial que nos rodeia. O fato de algo ter ocorrido muitas

vezes no passado não é garantia de que continuará a ocorrer da mesma

maneira.1 Por toda a eternidade, haverá um domínio que está além do que

sabemos e podemos prever. O caos é a anomalia, a novidade, a

imprevisibilidade, a transformação, a ruptura e, com muita frequência, a

queda, à medida que o que passamos a considerar certo se revela pouco

confiável. Às vezes ele se manifesta de maneira branda, revelando seus

mistérios em uma experiência que nos deixa curiosos, compelidos e

interessados. Esse é o cenário mais provável, embora não seja inevitável, de ocorrer quando abordamos voluntariamente algo que não entendemos, com

preparação cuidadosa e disciplina. Outras vezes, o inesperado se torna

conhecido de forma repentina, acidental e terrível, então ficamos

devastados, e nos desintegramos, e só nos recompomos com grande

dificuldade — se conseguirmos.

Nem o estado de ordem nem o de caos é preferível, intrinsecamente, em

relação ao outro. Esse é o jeito errado de encarar a questão. Contudo, em

meu livro anterior, 12 Regras para a Vida: Um antídoto para o caos, me

concentrei mais em como remediar as consequências do excesso de caos.2

Reagimos a uma mudança súbita e imprevisível nos preparando, fisiológica

e psicologicamente, para o pior. E, porque somente Deus sabe o que esse

pior pode ser, precisamos, em nossa ignorância, nos preparar para todas as

eventualidades. E o problema com essa preparação contínua é que, em

excesso, ela nos exaure. Mas isso não sugere de maneira alguma que o caos

deva ser eliminado (o que é, de qualquer forma, uma impossibilidade),

embora, como meu livro anterior enfatiza reiteradamente, o desconhecido

precise ser abordado com cuidado. Tudo o que não é tocado pelo novo fica

estagnado, e certamente uma vida sem curiosidade — o instinto que nos

empurra para o desconhecido — seria uma forma de existência muito

exígua. O novo é também excitante, instigante e provocante, desde que a

proporção em que é introduzido não mine ou desestabilize

insuportavelmente nosso estado de espírito.

Assim como 12 Regras para a Vida, este livro oferece uma explicação de

regras extraídas de uma lista mais extensa que contém 42, originalmente

publicada e popularizada no site de perguntas e respostas Quora. Ao

contrário do livro anterior, Além da Ordem explora, como tema abrangente,

de que maneira os perigos do excesso de segurança e controle podem ser

beneficamente evitados. Tendo em vista que o que entendemos é

insuficiente (algo que descobrimos quando as coisas que nos esforçamos

para controlar dão errado assim mesmo), precisamos manter um pé na

ordem ao mesmo tempo que estendemos o outro, hesitantemente, além. E,

assim, somos impelidos a explorar e encontrar os significados mais

profundos quando estamos na fronteira, seguros o suficiente para controlar

o medo, mas aprendendo, constantemente, ao enfrentar algo com que ainda

não nos conciliamos ou nos adaptamos. É esse instinto de significado —

algo muito mais profundo do que o mero pensamento — que nos orienta de forma adequada na vida, para que não fiquemos sobrecarregados pelo que

está além de nós ou, igualmente perigoso, embrutecidos e paralisados por

sistemas de valor e de crenças antiquados, medíocres ou defendidos com

tanta soberba.

Sobre o que escrevi, especificamente? A Regra 1 descreve as relações

entre as estruturas sociais estáveis e previsíveis e a saúde psicológica

individual, além de argumentar que essas estruturas precisam ser

atualizadas por pessoas criativas de modo a preservar a vitalidade. A Regra

2 analisa a imagem da alquimia secular, valendo-se de várias histórias —

modernas e ancestrais — para elucidar a natureza e o desenvolvimento da

personalidade humana integrada. A Regra 3 alerta sobre os perigos de evitar

a informação (vital para o contínuo rejuvenescimento da psique) sinalizada

pelo surgimento de emoções negativas como dor, ansiedade e medo.

A Regra 4 argumenta que o significado que ajuda as pessoas a superarem

momentos de dificuldade não é encontrado na felicidade, que é transitória,

mas, sim, na aceitação voluntária da responsabilidade madura por si mesmo

e pelos outros. A Regra 5 usa um único exemplo, extraído de minha

experiência como psicólogo clínico, para ilustrar a necessidade pessoal e

social de prestar atenção aos ditames da consciência. A Regra 6 descreve o

perigo de atribuir a causa de problemas individuais e sociais complexos a

uma única variável, como sexo, classe ou poder.

A Regra 7 descreve a relação crucial entre o esforço disciplinado em uma

única direção e a formação de um caráter individual capaz de ser resiliente

diante da adversidade. A Regra 8 foca a vital importância da experiência

estética como uma diretriz do que é verdadeiro, bom e sustentável no

mundo da experiência humana. A Regra 9 declara que as experiências

passadas, cujas recordações atuais permanecem carregadas de dor e medo,

podem ter todo seu horror expurgado por meio de exploração verbal

voluntária e reconsideração.

A Regra 10 observa a importância da negociação explícita para a

manutenção da boa vontade, da consideração mútua e da cooperação

sincera, sem as quais nenhum romance verdadeiro consegue se manter. A

Regra 11 começa pela descrição do mundo da experiência humana de uma

forma que explica o que motiva três padrões de resposta psicológica

comuns, mas terrivelmente perigosos; delineia as consequências

catastróficas de desenvolver qualquer um ou todos eles; e mostra uma rota alternativa. A Regra 12 demonstra que a gratidão diante das tragédias

inevitáveis da vida deve ser considerada a principal manifestação da

admirável coragem moral necessária para continuar nossa difícil marcha

ascendente.III

Espero que, em minha explanação deste segundo conjunto de 12 Regras,

eu esteja de alguma forma mais sábio do que era quatro anos atrás, quando

escrevi o primeiro — especialmente por causa do feedback informativo que

recebi ao longo de meus esforços para formular minhas ideias para públicos

do mundo todo, pessoalmente, no YouTube, no meu podcast e no meu

blog.IV Assim, além de esperar ser bastante claro ao apresentar o conteúdo

original, espero que consiga esclarecer alguns dos pontos que talvez não

tenham sido desenvolvidos da melhor maneira possível em meu trabalho

anterior. Por fim, espero que as pessoas achem este livro tão pessoalmente

útil quanto parecem ter achado o primeiro conjunto de 12 Regras. Tem sido

muito gratificante o fato de que tantas pessoas relatem extrair forças dos

pensamentos e das histórias que tive o privilégio de escrever e compartilhar.

“O TOLO (O LOUCO)”

 

I A doença que destruiu o tornozelo de Mikhaila, que precisou ser substituído, assim como seu quadril, também era de origem autoimune, e minha esposa tinha alguns sintomas artríticos semelhantes. Menciono isso para esclarecer por que a ideia de uma reação autoimune me veio à mente e fez certo sentido.

II Eu havia tomado inibidores da recaptação de serotonina, como o Celexa, por quase duas décadas, e tive bons resultados, mas parei de tomá-los no início de 2016, pois uma mudança drástica na dieta pareceu torná-los desnecessários.

III É interessante observar que este livro e o anterior — embora sejam independentes — foram idealizados de forma conjunta para representar o equilíbrio que ambos se esforçam em descrever. Por essa razão (ao menos nas versões em inglês), o primeiro tem capa branca e o segundo, preta. Eles formam um par que se complementa, como o símbolo taoista de yin e yang.

IV Meu canal no YouTube pode ser acessado em https://www.youtube.com/user/JordanPetersonVideos. Meu podcast e blog podem ser acessados em jordanbpeterson.com [todos com conteúdo em inglês].