Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida

Jordan B. Peterson · Capítulo 5 de 16

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Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida

Regra 2: Imagine quem você poderia ser e mire esse alvo com determinação

REGRA 2

 

IMAGINE QUEM VOCÊ PODERIA SER E

 

MIRE ESSE ALVO COM

 

DETERMINAÇÃO

 

QUEM VOCÊ É — E QUEM PODERIA SER?

 

Você sabe quem é? Afinal, você é dotado de uma complexidade que vai

além de sua própria compreensão; é mais complexo do que tudo mais que

existe, exceto outros seres humanos; uma complexidade inacreditável. E sua

ignorância é ainda mais intrincada pela mistura de quem você é com quem

poderia ser. Você não apenas é. Você está se tornando — e a potencial

extensão desse vir a ser também transcende a sua compreensão. Todos têm a

sensação, creio eu, de que há mais em si mesmo do que se permitiu realizar.

Esse potencial é frequentemente obscurecido por problemas de saúde,

infortúnios, tragédias e contratempos da vida, mas também pode estar

oculto em uma relutância em aproveitar ao máximo as oportunidades que a

vida oferece — estimulada por erros lamentáveis de todos os tipos,

incluindo falta de disciplina, de fé, de imaginação e de comprometimento.

Quem é você? E o mais importante, quem você poderia ser, se fosse tudo o

que pudesse conceber?

Essas perguntas são impossíveis de responder ou será que há fontes das

quais podemos obter alguma orientação? Afinal, temos observado como nos

comportamos — em nossos sucessos e fracassos — por dezenas (talvez

centenas) de milhares de anos. Durante esse tempo, nossos xamãs, profetas,

místicos, artistas, poetas e bardos extraíram algo vital dessas observações

— a essência do que nos torna humanos, no campo da realidade e da

possibilidade. Ao fazê-lo, nos forneceram representações dessa essência vital, que se apresenta para nós como algo que não pode ser ignorado nem

esquecido. Essas pessoas criativas escrevem e encenam os dramas e nos

contam as histórias que captam nossa imaginação, preenchendo nossos

sonhos com visões do que poderia ser. As mais intensas e profundas

representações são lembradas, discutidas e, de outras formas, aprimoradas

coletivamente, e se tornaram foco de rituais que nos unem ao longo dos

séculos, formando a própria base de nossas culturas. Essas são as histórias

sobre as quais são construídos os edifícios ritualísticos, religiosos e

filosóficos que caracterizam sociedades sofisticadas, populosas e bem-

sucedidas.

As histórias que não podemos ignorar nem esquecer são memoráveis pelo

seguinte motivo (entre outros): elas falam de algo que conhecemos, mas não

sabemos que conhecemos. O antigo filósofo grego Sócrates acreditava que

todo aprendizado era uma forma de lembrar. Ele postulou que a alma,

imortal em sua essência, sabe tudo antes de renascer como criança. No

entanto, no momento do nascimento, todo o conhecimento anterior é

esquecido e tem que ser lembrado por meio das experiências da vida. Há

muito a ser dito sobre essa hipótese, por mais estranha que possa parecer

agora. Muito do que podemos fazer — muito do que nossos corpos e mentes

são capazes de fazer — permanece adormecido, no nível genético. A

exposição a novas experiências ativa esse potencial adormecido, liberando

habilidades gravadas em nós ao longo do vasto período de nossa história

evolutiva.1 Essa talvez seja a maneira mais básica pela qual nosso corpo

guarda a sabedoria passada e a utiliza quando necessário. É dessa forma,

embora não seja a única, que existe a possibilidade humana. Portanto, há

algo profundo a se considerar sobre o conceito do aprendizado como

lembrança.

Obviamente, além de “lembrar” (no sentido de ativar possibilidades inatas,

mas ocultas), podemos aprender muitas coisas novas. Esse é um dos

principais fatores que nos diferenciam dos animais. Mesmo os mamíferos

complexos e inteligentes, como chimpanzés e golfinhos, tendem a repetir os

comportamentos típicos de suas espécies geração após geração, com

pouquíssima modificação. Os humanos, ao contrário, são capazes e de fato

buscam ativa e continuamente o novo, investigam e se adaptam a ele e o

tornam parte de si mesmos. Podemos, também, traduzir algo que já

conhecemos em um nível de representação para conhecimento em outro nível. Somos capazes de observar as ações de uma criatura viva, animal ou

humana, e depois imitá-las, traduzindo nossas percepções de seus

movimentos para novos movimentos próprios. Podemos até generalizar tais

atos imitativos, captando o “espírito” do que ou de quem estamos

observando e produzindo novas formas de ver e agir que são de algum

modo semelhantes a esse espírito.I Isso integra a base do conhecimento

implícito profundamente arraigado que alicerça o nosso verdadeiro

entendimento. Também podemos observar um acontecimento ou uma ação

e escrever o que vemos, traduzindo a ação em uma linguagem que perdure

além de seu enunciado — e então transmiti-la mais tarde, na ausência do

que ou de quem está sendo descrito. Por fim, e de maneira ainda mais

misteriosa, podemos imaginar e então representar algo que jamais foi visto,

algo verdadeiramente original. E conseguimos codificar e representar toda

essa capacidade — a ação adaptativa e sua transformação — nas histórias

que contamos tanto sobre as pessoas que admiramos quanto as que

odiamos. E é assim que determinamos quem somos e quem talvez possamos

nos tornar.

As histórias se tornam inesquecíveis quando transmitem modos

sofisticados de ser — problemas e soluções igualmente complexos — que

percebemos, de maneira consciente, em fragmentos, mas que não

conseguimos articular por inteiro. Por exemplo, foi por essa razão que a

história bíblica de Moisés e o êxodo dos israelitas do Egito se tornou um

parâmetro tão poderoso para os escravos negros que buscavam a

emancipação nos Estados Unidos:

Go down, Moses, way down in Egypt land

Tell old Pharaoh

 

To let my people go. II,2

 

A história bíblica do Êxodo é apropriadamente considerada arquetípica

(ou paradigmática ou fundacional) por pensadores psicanalíticos e

religiosos, pois apresenta um exemplo de transformação psicológica e social

que não pode ser aprimorada. Surgiu como um produto da imaginação e foi

transformada pelo constante relato e reelaboração em uma forma

essencialmente significativa que pode ser aplicada a contextos políticos,

econômicos, históricos, pessoais e espirituais, todos ao mesmo tempo. Esta

é a exata definição de profundidade literária — algo que atinge seu apogeu

em determinadas formas de histórias antigas e tradicionais. Essa profundidade significa que tais relatos podem ser usados de diversas

maneiras como uma estrutura de significado para qualquer processo de

mudança profunda experimentado por qualquer indivíduo ou sociedade

(estado estável, declínio no caos e restabelecimento da estabilidade), e

podem emprestar a esse processo realidade multidimensional, contexto,

significado poderoso e motivação.

 

A EMERGÊNCIA DO INESQUECÍVEL

 

Como surge uma história inesquecível? O que precede sua revelação? No

mínimo, ela é consequência de um longo período de observação. Imagine

um cientista monitorando o comportamento de uma alcateia ou de um

bando de chimpanzés — na verdade, qualquer grupo de animais sociais

complexos. Ele tenta identificar regularidades no comportamento dos

indivíduos e do grupo (em suma, padrões) e articulá-las — encapsulá-las —

em linguagem. O cientista pode, primeiro, relatar uma série de

particularidades emblemáticas do comportamento geral da espécie nas

ações dos animais. Ele, então, pode abstrair ainda mais, tentando

generalizar essas particularidades, descrevendo-as de maneira semelhante a

regras. Digo “semelhante a regras” porque os animais não seguem regras,

pois estas requerem linguagem. Os animais apenas expressam

regularidades. Eles não são capazes de formular, compreender ou seguir

regras.

Mas e os seres humanos? Somo capazes de observar nossas ações como

um cientista faria — mais precisamente, como um contador de histórias

faria. E, depois, podemos contar as histórias uns para os outros. Essas

histórias já são condensações do comportamento observado (caso contrário,

não serão interessantes; meros relatos de uma sequência de ações cotidianas

não constituem uma boa história). Uma vez estabelecida, podemos analisar

a história, procurando regularidades e padrões mais profundos. Se essa

análise for bem-sucedida, generalizamos as particularidades por meio da

formulação de regras e, então, podemos aprender, conscientemente, a segui-

las. Eis como isso pode acontecer. Todos nós reagimos de forma crítica

quando uma criança ou um adulto — ou, na verdade, uma sociedade — age

de maneira inadequada, injusta ou má. A falha nos afeta emocionalmente.

Intuímos que um padrão do qual depende a adaptação individual e social foi

rompido e violado. Ficamos irritados, frustrados, magoados ou tristes com essa traição. Isso não significa que cada um de nós, reagindo de maneira

emocional, tenha tido sucesso em articular uma filosofia abrangente do bem

e do mal. Podemos nunca identificar o que deu errado. No entanto, assim

como crianças não familiarizadas com um novo jogo, mas ainda capazes de

jogá-lo, sabemos que as regras estão sendo quebradas.

A história bíblica do Êxodo, o antigo relato da fuga dos escravos hebreus

de seus senhores egípcios, retrata isso com exatidão. Moisés, líder do povo

em fuga, é constantemente requisitado por seus seguidores para oferecer

conselhos e traçar distinções morais tênues sempre que há um conflito. Em

razão disso, passa muito tempo observando e contemplando o

comportamento deles. É como se o profeta do deserto tivesse que descobrir

quais regras ele e seus seguidores israelitas já tinham dificuldades em

seguir, antes de receber os mandamentos explícitos de Deus. Lembre-se:

toda sociedade é caracterizada por um comportamento padronizado; caso

contrário, seria puro conflito, e não uma “sociedade”. Mas o mero fato de a

ordem social reinar em algum grau não significa que dada sociedade chegou

a compreender explicitamente seu próprio comportamento, seu próprio

código moral. Portanto, não é por acaso que, nessa história, Moisés serve

como juiz de seus seguidores — com uma intensidade e durante um tempo

que acabam por exauri-lo — antes de receber os Dez Mandamentos:

E aconteceu que ao amanhecer, Moisés sentou-se para julgar o povo. E o povo estava em pé diante de Moisés desde a manhã até a tarde.

E quando o sogro de Moisés viu tudo que ele fazia ao povo, disse: O que é isto que fazes ao

povo? Por que te assentas sozinho, e todo o povo fica em pé diante de ti desde a manhã até a tarde?

E disse Moisés a seu sogro: Porque o povo vem a mim para perguntar a Deus.

Quando eles têm uma questão, vêm a mim, e eu julgo entre um e outro, e os faço saber os

estatutos de Deus, e suas leis.

E o sogro de Moisés lhe disse: O que estás fazendo não é bom.

Certamente desfalecerás, tu e este povo que está contigo, porque isto é muito pesado para ti;

não és capaz de realizar isto sozinho. (Êxodo 18:13–18)

 

Esse difícil exercício de discernimento e julgamento, observação e

ponderação é parte integrante do que preparou o patriarca bíblico para

receber a revelação divina. Se não houvesse base comportamental para

essas regras — nem precedente histórico codificado na ética tradicional,

nem convenções, nem horas intermináveis de observação dos padrões

morais —, os mandamentos simplesmente não poderiam ser compreendidos

e transmitidos, muito menos obedecidos.

Uma história inesquecível capta a essência da humanidade e a condensa,

transmite e esclarece, enfocando o que somos e o que devemos ser. Ela nos

comove, instigando o interesse que nos inspira a imitar. Aprendemos a ver e

a agir à maneira dos heróis das histórias que nos cativam. Histórias que

invocam capacidades que repousam nas profundezas de nossa natureza, mas

que talvez nunca se desenvolvam sem esse chamado. Somos aventureiros,

amantes, líderes, artistas e rebeldes adormecidos, mas precisamos descobrir

que somos todas essas coisas ao contemplar o reflexo desses padrões na

dramaturgia e na literatura. É consequência de ser uma criatura que é parte

natureza e parte cultura. Uma história inesquecível estende nossa

capacidade de entender nosso comportamento, além do hábito e da

expectativa, em direção a uma compreensão imaginada e depois

verbalizada. Essa história nos apresenta, da maneira mais convincente, a

aventura definitiva, o romance divino e a eterna batalha entre o bem e o

mal. Tudo isso nos ajuda a esclarecer nossa compreensão da atitude e da

ação moral e imoral, pessoal e social. E pode ser visto sempre e em todos os

lugares.

Pergunta: quem você é — ou, pelo menos, quem poderia ser? Resposta:

parte da força eterna que confronta constante e voluntariamente o terrível

desconhecido; parte da força eterna que transcende a ingenuidade e torna

perigoso o suficiente, ainda que de maneira controlada, entender e enfrentar

o mal; e parte da força eterna que enfrenta o caos e o transforma em ordem

produtiva, ou que pega uma ordem que se tornou muito restritiva, a reduz

ao caos e a torna produtiva novamente.

E tudo isso — que é muito difícil de compreender de maneira consciente,

mas é vital para nossa sobrevivência — é transmitido na forma de histórias

que não conseguimos ignorar. E é assim que apreendemos o que tem valor,

o que devemos almejar e o que poderíamos ser.

 

MATERIA PRIMA : QUEM VOCÊ PODERIA SER

 

(I)

 

Gostaria de tentar explicar o significado da ilustração da abertura deste

capítulo, que é baseada em uma antiga xilogravura alquímica. A descrição

de seu significado revela quanta informação pode estar contida em uma

imagem sem que o observador tenha uma compreensão explícita de seu conteúdo (a imagem pode, na verdade, ser considerada um estágio inicial no

processo pelo qual tal compreensão explícita se desenvolve). O antigo

alquimistaIII estava sonhando, em um sentido muito real, ao criar a gravura

— devaneando sobre o que uma pessoa poderia ser e como isso aconteceria.

Na base da imagem há uma esfera alada. Sobre ela, vemos um dragão. Em

pé sobre o dragão, temos uma figura humana de duas cabeças — uma

masculina, outra feminina. A masculina está associada à imagem do Sol; a

feminina, à imagem da Lua. Acima e entre as duas cabeças, está o símbolo

de Mercúrio: o deus, o planeta e o metal, simultaneamente. Uma variedade

de outros símbolos completa a gravura. Tudo o que é retratado está envolto

em uma moldura oval. Esse arranjo indica que a imagem representa muitas

coisas dentro de uma — a multiplicidade na unidade —, assim como um

pintinho em formação está encapsulado em um único receptáculo, mas tem

muitas partes biológicas cada vez mais diferenciadas e complexas,

particularmente em seus estágios mais avançados de desenvolvimento. Em

sua totalidade, a imagem é rotulada materia prima — latim para “elemento

primordial”.

Os alquimistas consideravam a materia prima a substância fundamental da

qual tudo o mais — incluindo matéria e espírito, de modo equânime —

emerge ou é derivado. É vantajoso pensar nesse elemento primordial como

o potencial que enfrentamos ao confrontar o futuro, incluindo nosso “eu”

futuro — ou o potencial que não conseguimos deixar de repreender, a nós

mesmos e aos outros, por desperdiçar. Também é útil conceituá-lo como a

informação a partir da qual construímos nós mesmos e o mundo, em vez da

matéria que compõe a realidade, como costumamos considerar. Cada

interpretação — a de potencial e a de informação — tem suas vantagens.

O que significa afirmar que o mundo pode ser considerado potencial ou

informação? Pense no que acontece, por exemplo, quando você passa pela

caixa de correio e pega sua correspondência. Considere, também, do que

essa correspondência é “feita”. Do ponto de vista material, é apenas papel e

tinta. Mas esse substrato material é essencialmente irrelevante. Não importa

se a mensagem é entregue por e-mail ou voz — ou até em código Morse. O

relevante é o conteúdo. E isso significa que toda correspondência é um

recipiente de conteúdo — de potencial ou informação, positivo, neutro ou

negativo. Pode ser, por exemplo, uma notificação de investigação da receita

federal de seu país. Isso significa que, apesar da presença aparentemente inofensiva em suas mãos, a carta está firme e inextricavelmente conectada a

uma estrutura gigantesca, complexa e, com frequência, arbitrária que pode

muito bem não ter seus melhores interesses em mente. Por outro lado,

talvez seja algo alegre, como uma carta inesperada de um ente querido ou a

notícia de um dinheiro muito aguardado. De tal perspectiva, um envelope é

um recipiente — um recipiente misterioso, pelo menos em potencial — do

qual pode emergir todo um novo mundo.

Todos entendem essa ideia, mesmo que não se deem conta disso. Se você

está tendo problemas com as autoridades tributárias, por exemplo, e recebe

uma correspondência oficial do órgão competente, sua pressão arterial

aumentará (ou cairá vertiginosamente), seu coração baterá forte, as palmas

das mãos ficarão suadas e um sentimento de medo intenso, até mesmo de

ruína, pode inundá-lo. Essa é a resposta instintiva, associada à preparação

para a ação, que acompanha a exposição ao perigo. E agora você terá que

decidir: abrirá a carta e enfrentará o que está “dentro”? E, após fazer isso,

pensará em como resolver o problema, por mais terrível que seja, e

começará a resolvê-lo? Ou ignorará o que sabe agora, fingirá que está tudo

bem (mesmo que saiba, em um nível emocional — como consequência de

sua ansiedade —, que não está) e pagará o preço psicológico e físico

inevitável? A primeira opção exigirá que você enfrente voluntariamente

aquilo de que tem medo — o monstro terrível e abstrato — e, como

resultado, hipoteticamente, se torne mais forte e integrado. A segunda

opção permitirá que o problema assuma sua forma monstruosa e o forçará a

sofrer como um animal assustado, confrontado pelos olhos ferozes de um

predador no breu da noite.

Uma esfera alada, com um quadrado, um triângulo e os algarismos 3 e 4

gravados, ocupa o terço inferior da imagem em análise.IV Essa entidade, ou

objeto, singular era conhecida pelos alquimistas como a “esfera do caos”.3 É

um recipiente — o receptáculo inicial do elemento primordial — de tudo

que compõe o mundo e a psique antes de se diferenciarem. É o potencial ou

a informação. É o que atrai inconscientemente sua atenção e o obriga a se

interessar por algo antes de saber por que ele o atraiu. É quando e onde o

novo passa a ser previsível e certo (para o bem ou para o mal); é algo que

volita na sua direção, com pouco controle voluntário — como se fosse

alado —, enquanto sua imaginação e sua atenção se movem de forma

imprevisível, mas cheia de significado, de associação em associação; e é o que você enxerga quando não tem ideia do que está enfrentando. Por fim, é

algo de que não consegue desviar o olhar quando é tomado pelo horror,

ainda que esse potencial para o horror também acrescente um interesse vital

à vida.

Estranhamente, a esfera do caos pode ser familiar para o público moderno

(de novo, mesmo que não se dê conta), por causa de livros e filmes da saga

Harry Potter. A autora, J. K. Rowling, se esforça para descrever o

Quadribol, um evento esportivo que ajuda a definir e unificar Hogwarts. O

objetivo do esporte é lançar uma bola (Goles) através de um dos três aros

defendidos pelo time adversário, enquanto se voa em vassouras encantadas.

O sucesso nesse ataque dá dez pontos à equipe do marcador.

Simultaneamente, dois outros jogadores (um de cada equipe) estão

envolvidos em outro jogo — dentro da partida principal. Escolhidos por sua

excepcional habilidade de atenção e de voo, esses dois competidores —

conhecidos como Apanhadores — tentam localizar, perseguir e capturar

uma bola alada, o Pomo, de aparência idêntica à esfera do caos na parte

inferior da figura do alquimista. O Pomo é dourado — sinal de seu valor e

sua purezaV excepcionais — e voa de forma caótica, em alta velocidade,

dardejando, costurando, flutuando e disparando diante dos Apanhadores

enquanto eles o perseguem montados em suas vassouras. Se um Apanhador

capturar o Pomo, seu time ganha 150 pontos (o que costuma ser suficiente

para garantir a vitória) e o jogo termina. Isso significa que perseguir e

capturar o que o Pomo — e, por alusão, a esfera do caos — representa é

uma meta cuja importância supera qualquer outra.VI Por que o jogo, criado

para nós na fértil imaginação de Rowling, é estruturado dessa maneira? O

que significa sua ideia narrativa? Existem duas maneiras de responder a

essas perguntas (embora ambas as respostas se relacionem de maneira

importante):

Primeiro: na Regra 1, discutimos a noção de que o verdadeiro vencedor de

qualquer jogo é a pessoa que joga limpo. Isso ocorre porque um jogo justo,

apesar das particularidades de qualquer jogo, é uma realização de ordem

superior à mera vitória. Esforçar-se para jogar limpo é, em último sentido

— atendendo ao espírito, bem como ao enunciado, das regras —, uma

indicação do verdadeiro desenvolvimento da personalidade, baseado na

preocupação com a verdadeira reciprocidade. Os Apanhadores devem

ignorar os pormenores do jogo de Quadribol, do qual ainda fazem parte, enquanto tentam encontrar e capturar o Pomo, assim como o jogador do

mundo real deve ignorar as particularidades do jogo enquanto se atenta para

o que constitui um jogo ético de verdade, independentemente do que está

acontecendo em campo. Assim, o jogador ético, tal como o Apanhador, é

indomável na persecução da mais valiosa dentre as obrigações complexas e

concorrentes.

Segundo: entre os alquimistas, a esfera do caos era associada ao deus

alado Mercúrio, que servia como mensageiro do reino do divino, o guia das

almas para o mundo inferior e o portador da boa sorte. É por essa razão que

o antigo símbolo de Mercúrio está localizado no pináculo (o local mais

importante) da imagem em questão. É uma tentativa de indicar o que

norteia o processo que a imagem representa. Séculos atrás, antes do

alvorecer da química moderna, o deus Mercúrio representava algo que

inspira ou atrai interesse involuntariamente. Ele era o espírito que toma

posse de alguém quando sua atenção era irresistivelmente atraída para uma

pessoa, situação ou evento. Imagine que existem processos muito

complexos ocorrendo em sua mente no nível inconsciente, que destacam os

eventos de potencial valor e os distinguem de tudo o mais que se desenrola

o tempo todo ao seu redor. Imagine que esses processos que distinguem

valor estão vivos, o que não deixa de ser verdade, e que são complexos e

integrados o suficiente para serem conceituados como uma personalidade.

Isso é Mercúrio. A atração que ele exerce sobre nosso interesse se revela no

sentido de significância — no sentido de que algo que acontece ao seu redor

merece atenção ou contém algum valor.

O Apanhador — na vida real, bem como na saga Harry Potter, de J. K.

Rowling, e seu jogo de Quadribol — é aquele que leva esse senso de

significado mais a sério do que qualquer outra coisa. O Apanhador é,

portanto, a pessoa que joga o que todos os outros estão jogando (e que é

disciplinada e especialista nisso), mas que também participa de um outro

jogo de ordem superior: a busca do que é de importância primária. Assim, o

Pomo (tal como a esfera do caos) pode ser considerado o “recipiente” dessa

importância primária — desse significado — e, por conseguinte, algo

revelador quando perseguido e capturado. Podemos, nesse contexto,

lembrar o que veio a ser conhecido como a Regra de Ouro: “E assim como

quereis que os homens vos façam, fazei-lhes igualmente.” (Lucas 6:31).

Não há nada mais importante do que aprender a se esforçar para jogar limpo

em circunstâncias difíceis e frustrantes. Esse deve ser o objetivo perseguido, por assim dizer, durante qualquer jogo (embora também seja importante

tentar vencer).VII

Cada um de nós, se tiver sorte, é compelido a seguir em frente por algo

que domina nossa atenção — amor por uma pessoa; um esporte; um

problema político, sociológico ou econômico, ou uma pergunta científica;

uma paixão pela arte, literatura ou drama — algo que nos atrai por motivos

que não conseguimos controlar nem compreender (tente se interessar por

algo com que não se importa e fracasse miseravelmente). Os fenômenos que

nos atraem (fenômenos: da palavra grega phainesthai, que significa

“aparecer, ou ser trazido à luz”) são como lamparinas ao longo de um

caminho escuro: fazem parte dos processos inconscientes dedicados a

integrar e promover o desenvolvimento de nossos espíritos, o progresso de

nosso desenvolvimento psicológico. Você não escolhe o que lhe interessa.

Ele escolhe você. Algo se manifesta na escuridão como atraente, algo pelo

qual vale a pena viver; depois surge algo mais, que nos move um pouco

além na estrada, até a próxima manifestação significativa — e assim por

diante, à medida que continuamos a buscar, desenvolver, crescer e

prosperar. É uma jornada perigosa, mas também é a aventura de nossas

vidas. Pense em como é tentar conquistar alguém que ama: conseguindo ou

não, você muda no processo. Pense, também, nas viagens que fez ou em um

trabalho que empreendeu, seja por prazer, seja por necessidade. Em todos

esses casos, você experimenta o que é novo. Às vezes, é doloroso; outras, o

melhor que já lhe aconteceu. De qualquer forma, é profundamente

informativo. Tudo é parte do potencial do mundo, convocando você para o

Ser, mudando-o para sempre — para melhor ou para pior — em

consequência de sua busca.

Um dragão se empoleira na esfera do caos, pois o que é interessante e

significativo (e novo e inesperado, já que andam juntos) se manifesta de

uma forma que é tanto perigosa quanto promissora, especialmente quando a

atração é intensa e irresistível. O perigo, é claro, é representado pela

presença do réptil predador e imortal; a promessa é sugerida pela concepção

arquetípica do dragão como guardião de um grande tesouro. Assim, o

desenho apresenta uma progressão psicológica. Primeiro, você se interessa

por algo. Esse algo (a esfera do caos) contém ou é composto de potencial ou

informação. Se for perseguido e capturado, libera essa informação. A partir

dela, construímos o mundo que percebemos e nós mesmos como perceptores. Portanto, a esfera do caos é o recipiente do qual emergem a

matéria (o mundo) e o espírito (nossa psique). Há certa indicação

numerológica disso em seu corpo esférico: o número 3, acompanhado por

um triângulo, que é tradicionalmente associado ao espírito (por causa da

Santíssima Trindade), e o número 4, associado ao mundo da matéria (por

causa dos quatro elementos tradicionais: terra, água, fogo e ar). O dragão,

por sua vez, empoleirado na esfera do caos, representa o perigo e a

possibilidade da informação dentro dela.

Em cima do dragão está uma figura conhecida como Rebis, um único

corpo com duas cabeças, uma masculina e uma feminina. O Rebis é um

símbolo da personalidade plenamente desenvolvida que pode emergir da

busca direta e corajosa do que é significativo (a esfera do caos), além de

perigoso e promissor (o dragão). Tem um aspecto simbolicamente

masculino (indicado pelo Sol, à esquerda do homem), que em geral

representa exploração, ordem e racionalidade, e um aspecto simbolicamente

feminino (indicado pela Lua, à direita da mulher), que significa caos,

promessa, cuidado, renovação e emoção. No curso da socialização normal,

é típico que um desses aspectos se torne mais desenvolvido do que o outro

(já que os homens são socializados à maneira masculina, à qual também

estão biologicamente inclinados, e as mulheres, à maneira feminina). No

entanto, é possível — com exploração e exposição suficientes à esfera do

caos e ao dragão — desenvolver ambos os elementos. Esse seria o ideal —

ou assim diz a intuição alquímica.

Do desconhecido — o potencial que constitui o mundo — surge a terrível,

mas promissora, forma do dragão, a união do perigo e da promessa. É uma

eterna dicotomia ecoada pela presença dos dois outros símbolos à direita e

acima da cauda do dragão: Júpiter, representando o positivo, e Saturno, o

negativo. Do confronto com o perigo e a promessa emergem os aspectos

masculino e feminino da psique, trabalhando em harmonia. O espírito

Mercúrio orienta o processo, manifestando-se como sentido no mundo,

atuando por meios inconscientes para atrair a exploração ao que unirá os

diversos elementos discordantes e beligerantes da personalidade. Tudo isso

pode ser interpretado, corretamente, como uma história do desenvolvimento

da personalidade ideal — uma tentativa de descrever em uma imagem o que

cada um de nós poderia ser.

DO POLITEÍSMO AO MONOTEÍSMO, E O

 

SURGIMENTO DO HERÓI VIRTUOSO: QUEM

 

VOCÊ PODERIA SER (II)

 

Agora vamos tentar descrever “quem você poderia ser” de outra

perspectiva, tirada de uma das primeiras histórias que tivemos a sorte de

redescobrir. A narrativa mesopotâmica Enuma Elish (que significa “quando

do alto”) é o mais antigo e completo mito do herói já conhecido, estimado

em 4 mil anos de idade em sua forma escrita e, sem dúvida, muito mais

antigo pela tradição oral. A história começa quando a deusa primordial

Tiamat, personificação da água salgada (bem como de um monstruoso

dragão marinho), copula com seu consorte igualmente primordial, Apsu, a

personificação da água doce. Essa união dá origem ao primeiro reino da

existência, habitado pelos deuses mais antigos, os primeiros filhos de

Tiamat e Apsu.

Para entender o início dessa história, precisamos saber algumas coisas que

os antigos consideravam verdades fundamentais. Elas são marcadamente

diferentes das verdades da ciência moderna. Antes do nascimento da

cosmovisão científica, apenas seiscentos anos atrás, realidade era tudo o

que os seres humanos experienciavam. O que vivenciamos pode ser

distinguido, conceitualmente, da realidade como mundo objetivo — o puro

ser físico — por seus conteúdos mais abrangentes, que incluem

experiências subjetivas como emoções, sonhos, visões e estados

motivacionais como fome, sede e dor. O que experienciamos é mais

parecido com um romance ou filme — que se concentra em comunicar e

compartilhar estados subjetivos e objetivos — do que com a realidade do

mundo objetivo — que pode ser comparada a uma descrição científica da

realidade física. É a morte real, específica e única de alguém que você ama,

por exemplo, em comparação com a listagem dessa morte nos registros do

hospital. É o drama da experiência vivida. Somos tão atraídos pelas

representações ficcionais porque nossas experiências são, de fato, literárias,

narrativas, personificadas e em forma de história. Filmes, peças de teatro,

óperas, dramas de TV — até mesmo letras de canções — nos ajudam a lidar

com as experiências vividas, que são diferentes e mais amplas do que o

mero material do qual hipoteticamente se originam.

A assimilação da primeira parte do Enuma Elish requer compreender uma

segunda percepção fundamental de nossos ancestrais: a natureza

essencialmente social de nossas categorias cognitivas. É por isso que nos

livros infantis tudo é personificado: o Sol, a Lua, os brinquedos, os animais

— até mesmo as máquinas. Não vemos nada de estranho nisso, pois esse

aspecto reflete nossas tendências perceptivas de maneira profunda.

Esperamos que as crianças vejam e entendam o mundo dessa maneira, e

nós, adultos, podemos facilmente retomar essa perspectiva. Mas devo

esclarecer que não é adequado afirmar que a realidade retratada na ficção

infantil é personificada. Na verdade, nós percebemos a realidade de maneira

direta e natural como personificada (e isso é uma autêntica inversão da

presunção em questão), e então devemos trabalhar de maneira bastante

diligente para despir essa personificação, de modo a detectar a “realidade

objetiva”.VIII Portanto, entendemos a realidade como se fosse construída de

personalidades. Isso porque muito do que encontramos em nossa realidade

hipersocial, nossas sociedades complexas, é de fato personalidade — e uma

personalidade de gênero, que reflete os bilhões de anos ou mais desde o

surgimento da reprodução sexual (tempo suficiente para sua existência ter

estruturado profundamente nossas percepções). Entendemos o masculino e

dele derivamos o masculino. Compreendemos o feminino e dele derivamos

o feminino. Por fim, entendemos a criança e dela derivamos, mais

comumente, o filho. Essas divisões básicas são claramente refletidas no

mito da criação do Enuma Elish, da mesma forma que refletem — ou, mais

precisamente, sustentam — nossa compreensão das histórias que todos

conhecemos.

Tiamat, a deusa primordial, é o caos, um monstro feminino, um dragão.

Ela é o terror da natureza, criativa e destrutiva, a mãe e a assassina de todos

nós. Apsu, seu marido, é o pai eterno. Ele é a ordem da qual dependemos

para nossa segurança e pela qual somos simultaneamente tiranizados.IX

Essas duas divindades mais primitivas se unem em comunhão sexual

fecunda, “misturando suas águas”, nas palavras ancestrais. Dessa forma,

geram sua primeira progênie, os deuses mais antigos da Mesopotâmia.

Esses deuses representam elementos do mundo mais diferenciados do que a

mãe e o pai primordiais — como o céu e a terra, a lama e o lodo, a guerra e

o fogo.X No entanto, eles também são descuidados, barulhentos e

impulsivos, como crianças de 2 anos (que são, afinal de contas, forças primordiais por si mesmas). Suas ações persistentes, incansáveis e

irrefletidas, aliadas à falta de consciência geral, culminam em uma

catástrofe: a decisão mútua de travar uma guerra e matar Apsu, e a

consequente tentativa de construir uma morada estável em seu cadáver.

Tiamat — o próprio caos —, já irritada com a confusão estúpida de seus

filhos, fica enfurecida com a matança imprudente de seu marido. A Deusa

Terrível cria um exército de onze monstros para lidar com sua prole rebelde,

colocando como líder uma figura demoníaca chamada Kingu, a quem

escolhe como segundo marido, e lhe entregando a Tábua dos Destinos (que

sinaliza sua autoridade como governante supremo do universo). A relação

entre essa brilhante representação dramática e o modo como usamos, ou

abusamos, as dádivas de nossa cultura é óbvia: a negligente destruição da

tradição é o convite ao (res)surgimento do caos. Quando a ignorância

destruir a cultura, surgirão monstros.

Enquanto Tiamat organiza ativamente seu exército, os deuses mais antigos

continuam em ação, formando casais, gerando filhos e netos por conta

própria. Um dos netos de Tiamat, Marduk, parece especialmente talentoso,

poderoso e promissor. Ele nasce com olhos circundando sua cabeça. Pode

ver em todas as direções. É capaz de falar palavras mágicas. Ele é algo

inteiramente novo — e isso é percebido desde cedo por seus progenitores.

Enquanto Marduk amadurece, os deuses mais velhos são compelidos a

enfrentar Tiamat, com quem agora estão em guerra. Um a um, eles tentam

derrotá-la. Todos retornam em fracasso abjeto. Por fim, alguém sugere que

Marduk, embora ainda jovem, seja enviado para enfrentar sua terrível avó.

Ao tomar conhecimento do plano, ele concorda, mas apenas com a

condição de que doravante receba o direito — caso vença — de deter a

Tábua dos Destinos e ocupar o topo da hierarquia de domínio dos deuses.

É assim que essa história antiga descreve a emergência do monoteísmo a

partir do politeísmo. O Enuma Elish parece ser um relato dramatizado dos

processos psicológicos ou espirituais que envolvem essa transformação. A

antiga civilização mesopotâmica enfrentou a necessidade de incorporar e

unificar muitas tribos e povos diversos, cada um com seus próprios deuses.

O deus proveniente do conflito de todos aqueles deuses (“Qual deus é

supremo?”) era, portanto, um metadeus, composto dos aspectos mais

importantes de todos os outros. Foi por esse motivo, por exemplo, que

Marduk foi representado por cinquenta nomes diferentes.

Esse surgimento de um entre muitos é um processo bastante comum,

descrito por Mircea Eliade, estudioso do mito, como a guerra dos deuses no

céu, uma motivação mitológica típica, tal como aludido anteriormente.XI É a

contrapartida psicológica, no mundo da imaginação, da luta genuína de

conceitos de divindade e valor na terra. Tribos se unem. Cada uma com seus

deuses. As pessoas que compõem esses grupos numerosos vão para a

guerra, concreta e conceitualmente, pelo que acreditam — às vezes por

gerações. É como se os deuses que idolatram lutassem pelo domínio durante

períodos que excedem a vida de um único humano, e usassem seus

seguidores como representantes. Isso se reflete nas histórias antigas. Se e

quando os deuses chegarem a um acordo sobre suas posições relativas —

em especial, se eles se organizarem em uma hierarquia —, significará que a

paz foi genuinamente estabelecida, pois a paz é o estabelecimento de uma

hierarquia compartilhada de divindade, de valor. Assim, surge o eterno

questionamento sempre que pessoas de origens diferentes são solicitadas a

lidar umas com as outras de forma relativamente permanente: qual a

característica comum compartilhada por todos os deuses e que os torna

deuses? O que é Deus, em essência?

Essa é uma questão muito complexa. Por um lado, é uma questão de valor:

o que é mais importante? Por outro, de soberania: que princípio deve

prevalecer? Essas são as perguntas feitas por aqueles que refletem sobre a

fonte suprema do significado divino em si. Sua dificuldade sugeria que

essas perguntas, e por extensão a pergunta sobre Deus, tinham que ser

respondidas ao longo dos séculos, ao longo dos milênios. A resposta surgiu

primeiro em forma de história. Os mesopotâmicos intuíram, de forma

brilhante, que o deus supremo — o bem supremo — envolvia atenção

cuidadosa (os múltiplos olhos circulando a cabeça de Marduk) e linguagem

eficaz (as palavras mágicas de Marduk, capazes de gerar um cosmos), além

de coragem e força para enfrentar e superar voluntariamente o caos, o

desconhecido. Pode-se argumentar que essas são as características

definidoras do grande espírito central da humanidade, pelo menos na

medida em que esse espírito é nobre e admirável.

Os antigos egípcios formularam uma ideia semelhante em muitos aspectos

pertinentes — que discutiremos mais adiante em detalhes — ao associar seu

deus-salvador Hórus, filho de Osíris, com o falcão de olhos perspicazes,

identificado com a visão disposta a buscar, detectar, compreender e derrotar o mal (simbolizado pela famosa imagem egípcia do único olho).

Representar essa realidade — preste atenção, acima de tudo, até ao que é

monstruoso e maléfico, e fale com sabedoria e verdade — pode ser a proeza

mais importante de nossa espécie.4 Ela nos possibilita aprender na forma

dramatizada a necessidade fundamental de lidar com o que os nossos

sentidos nos mostram, por mais aterradora que seja a realidade revelada.

Possibilita alinhar nosso entendimento explícito com nosso ser mais

profundo, permitindo uma união mais verdadeira do corpo e do espírito por

meio da compreensão parcial e da imitação da história. E, talvez, o mais

importante, é que nos permite perceber a imensa relevância das palavras na

transformação do potencial em realidade e nos ajuda a compreender que o

papel que cada um de nós desempenha nessa transformação é, em algum

sentido vital, semelhante ao divino.

Após sua eleição para o posto supremo, Marduk desafia Tiamat

diretamente; ele a envolve, derrotada, em uma rede gigante e a corta em

pedaços, formando os céus e a terra a partir de seus restos mortais. Um dos

muitos nomes de Marduk é, na verdade, “aquele que faz coisas engenhosas

como consequência do conflito com Tiamat”.5 É importante notar que, há

dezenas de milhares de anos, os homens literalmente criaram o mundo

habitável a partir de fragmentos de monstros, construindo suas primeiras

moradas com os ossos gigantes dos animais que caçaram com tanta

coragem.6 Marduk também derrota o exército de monstros da avó, incluindo

o líder, Kingu, de quem toma a Tábua dos Destinos, confirmando seu lugar

como líder supremo do cosmos. Então ele volta para casa, com os inimigos

a reboque. Seus compatriotas comemoram a sua vitória, e a adesão à sua

liderança é ainda mais forte, antes que ele determine seus deveres. Então,

após consultar Ea, o deus da sabedoria, Marduk ordena a criação do

homem, para ajudar os deuses na tarefa eterna de manter o equilíbrio

adequado entre ordem e caos — livrando, assim, os próprios deuses da

tarefa e transferindo o fardo para os ombros humanos.XII

A história subjacente é a seguinte: quando a ordem (Apsu) é ameaçada ou

negligentemente destruída, as terríveis forças do caos, das quais o mundo se

originou, reemergem em sua forma mais destrutiva, monstruosa e

predatória. Então, um herói, que representa o mais elevado dos valores,

precisa surgir ou ser escolhido para enfrentar essa força caótica. Ao

alcançar o triunfo, ele adquire ou produz algo de grande valor. O herói representa a mais importante das poderosas forças que compõem a psique

humana. Em outras palavras: o herói é a encarnação do princípio da ação e

da percepção que deve governar todos os elementos psicológicos

primordiais de luxúria, raiva, fome, sede, terror e alegria. Para que o caos

seja efetivamente rechaçado (ou, melhor ainda, domesticado e, portanto,

controlado), esse princípio heroico deve ser considerado o mais importante

dentre aqueles que podem organizar e motivar a humanidade. Isso indica,

para dizer o mínimo, que ele deve ser continuamente encenado, pois é esse

o verdadeiro significado de “ser considerado importante”. É assim que o

espírito de Marduk ainda se apodera de todo indivíduo que se empenha com

coragem nos processos de confronto e comparação que criam e renovam

eternamente a sociedade. É isso que acontece quando cada criança aprende

a regular e unificar suas emoções e motivações em uma personalidade

coerente, e, em seguida, sai para desbravar o mundo desconhecido.

De uma forma ligeiramente diferente, esta é a história de São Jorge: os

habitantes de uma cidade antiga devem obter água de um poço que fica ao

lado do ninho de um dragão. Para fazer isso, porém, eles têm que oferecer

algo em sacrifício ao dragão — uma ovelha na maioria das vezes, mas, caso

não haja mais ovelhas, uma donzela. Quando o suprimento de ovinos se

esgota, as moças da cidade participam de um sorteio. Um dia, a filha do rei

é sorteada. Mas São Jorge aparece, confronta o dragão com o sinal da cruz

— símbolo do eterno Redentor, o herói arquetípico — e liberta a princesa

de seu terrível destino. Os habitantes da cidade, então, se convertem ao

cristianismo. A vitória sobre o dragão — o predador e, como tal, o

governante de um território inexplorado — é o triunfo sobre todas as forças

que ameaçam o indivíduo e a sociedade, ao longo de períodos evolutivos e

históricos, bem como sobre o mal mais abstrato que todos nós ainda

enfrentamos, interna e externamente. A cruz, por sua vez, é o fardo da vida.

Um lugar de traição, tortura e morte. Portanto, é um símbolo fundamental

de vulnerabilidade mortal. No drama cristão, é também onde a

vulnerabilidade é transcendida, como consequência de sua aceitação. Essa

aceitação voluntária também equivale à vitória sobre o dragão, que

representa o caos, a morte e o desconhecido. Assim, ao aceitarmos o

sofrimento da vida, o mal pode ser vencido. A alternativa é o inferno, pelo

menos em sua forma psicológica: raiva, ressentimento e desejo de vingança

e destruição.

A mesma história ecoa nos contos de São Patrício, que expulsa as cobras

da Irlanda, e de São Miguel, que derrota o equivalente cristão de Kingu —

“aquela antiga serpente, chamada de Diabo” (Apocalipse 12:9). É a mesma

história contada por J. R. R. Tolkien em O Hobbit, que, por sua vez, foi

derivado do antigo poema Beowulf, a história de um herói derrotando dois

monstros perspicazes — o filho e, o mais terrível, a mãe.7 Em O Hobbit, o

herói desenvolve caráter e sabedoria (como ladrão, por mais estranho que

seja) durante sua jornada para ajudar a encontrar o antigo tesouro

acumulado pelo dragão. A história de Perseu e Medusa, cujo rosto era tão

terrível que transformava em pedra quem ousava encará-lo, é outra variante,

assim como Pinóquio, que resgata o pai das entranhas de um monstro

subaquático e morre e renasce no processo. Algo semelhante é retratado no

primeiro dos recentes filmes da saga Vingadores, em que o Homem de

Ferro — o homem que se transformou em um super-herói de armadura

parcialmente dourada — derrota os dragões serpentes dos Chitauris, seres

alienígenas (aliados do diabólico Loki). Ele então morre, renasce e fica com

a donzela (em sua versão nada frágil da Srta. Pepper Potts). É preciso

entender que essas histórias não seriam nem mesmo compreensíveis (em

especial para crianças, mas também para adultos) se a nossa história

evolutiva tivesse divergido de maneira significativa, e se toda a nossa

cultura não tivesse sido moldada, implícita e explicitamente, por esses

padrões arcaicos.

Todos esses heróis representam o que talvez tenha sido a maior descoberta

já feita pelos ancestrais primordiais da humanidade: se você tiver visão e

coragem (e uma boa lança, quando necessário), poderá afugentar a pior das

serpentes. Sem dúvida, quando ainda vivíamos em árvores, os mais

destemidos dentre nossos ancestrais já enfrentavam serpentes munidos

apenas com pedaços de pau. Certamente, foram esses caçadores de

serpentes voluntários que colheram os benefícios de sua bravura na forma

de donzelas agradecidas (ou seus equivalentes arborícolas ancestrais) — e

talvez seja por esse mesmo motivo que os dragões colecionem virgens,

além de ouro. Entretanto, o que constitui a serpente mais terrível e a lança

mais poderosa são as questões religiosas centrais da humanidade. É

interessante notar que, em O Hobbit, a pior serpente é “apenas” um dragão,

mas, em O Senhor dos Anéis, ela é, por assim dizer, o mal muito mais

abstrato, representado pelo mago Sauron. À medida que a humanidade se

tornou mais sofisticada em sua capacidade de abstração, passamos a perceber cada vez mais o fato de os monstros predadores se apresentarem

sob muitos disfarces, sendo que apenas alguns assumem a forma de um

animal. De maneira muito mais sofisticada, a literatura ecoa essa percepção

pela eternidade.

 

HERÓI, DRAGÃO, MORTE E

 

RENASCIMENTO: QUEM VOCÊ PODERIA

 

SER (III)

 

No segundo volume da saga de fantasia de J. K. Rowling, Harry Potter e a

Câmara Secreta, o castelo de Hogwarts é ameaçado por forças estranhas e

caóticas, em decorrência do mau comportamento prévio e atual de vários

poderosos feiticeiros adultos (conforme estabelecido no primeiro volume).

Agora, o fato de Harry ser órfão ganha significado: faz parte do padrão

heroico. Seus pais terrenos, os obtusos e tradicionais Dursleys, são pessoas

tacanhas, deliberadamente cegas e superprotetoras com o filho natural (o

que as torna um trágico perigo). Assim, não é surpresa que o desajustado

Duda seja tão egocêntrico e agressivo. Mas Harry também tem pais

celestiais, os pais biológicos — simbolicamente, a Natureza e a Cultura

(variantes do caos e da ordem). Eles existem como parte de seu potencial

intrinsecamente mágico — na verdade, do potencial mágico de todos nós,

pois somos filhos da Natureza e da Cultura, com o incrível potencial que

isso implica, bem como a progênie mais mundana de nossos pais

individuais.8

Quando retorna a Hogwarts após as férias de verão, Harry percebe ruídos

estranhos e sinistros que se originam em algum lugar do castelo. Ao mesmo

tempo, vários alunos e residentes de Hogwarts são encontrados paralisados

— transformados em pedra — em diversos corredores. Petrificados: o que

isso poderia significar? Certamente significa ser incapaz de se mover —

mas também quer dizer algo mais profundo: ser caçado; tornar-se um

coelho diante de um lobo; tornar-se o objeto horrorizado e pasmo visto pelo

predador. Ao enfrentar a morte iminente e brutal, muitos herbívoros,

indefesos, congelam no lugar, paralisados pelo medo, confiando na

camuflagem e na imobilidade para torná-los invisíveis às terríveis intenções

dos carnívoros que os cercam com seus dentes afiados e garras de navalha. As formas reptilianas predatórias ainda produzem esse efeito, especialmente

nos seres humanos (daí nossa mescla de temor e fascínio, por exemplo,

pelos dinossauros). Mas ser tão corajoso quanto um coelho definitivamente

não é tudo o que você poderia ser.

Harry, enfim, descobre que a força que transformou seus amigos em pedra

é uma gigantesca serpente, um basilisco, cujo olhar exerce um poder

paralisante. Então, ele descobre que a serpente se esgueira nos subterrâneos

de Hogwarts, no imenso reservatório de água que abastece o grande castelo.

Esse basilisco é um análogo do enorme dragão enfrentado por Beowulf,

herói da história milenar que serviu de base para as aventuras de Tolkien,

talvez os primos mais próximos da exuberante fantasia de J. K. Rowling no

século XX. É também o grande animal sanguinário do filme Tubarão, à

espreita na escuridão do mar, pronto para arrastar os indefesos e incautos

para as profundezas; é a fragilidade de nossas casas e instituições, que

podem desabar e nos despojar de suas paredes protetoras em um único e

terrível instante; e é, de forma mais abrangente, o submundo dos povos

antigos, cujas portas se abrem quando tudo o que é previsível desmorona.

No mais profundo dos níveis, é o caos e o potencial que continuamente se

escondem sob a ordem de nossos mundos familiares, psicológicos e sociais.

Depois de muito procurar, Harry consegue entrar no labirinto subterrâneo

de canos e túneis e encontra a câmara central. O acesso é por meio do

esgoto, o que guarda um significado — representa o antigo ditado

alquímico in sterquilinis invenitur: na sujeira será encontrado.XIII O que isso

quer dizer? Aquilo que você mais precisa encontrar será encontrado onde

menos deseja procurar.XIV Lá no subsolo, Gina, a irmã de seu melhor amigo

e futuro interesse romântico sério de Harry, está inconsciente. Ela é a

donzela — ou a anima, a alma — encarcerada para sempre pelo dragão,

assim como na fábula de São Jorge. Cabe a Harry, o herói órfão, acordá-la e

resgatá-la (tal como o Bilbo, de Tolkien, ajuda a recuperar o ouro do terrível

Smaug; assim como o príncipe Felipe, da Disney, resgata a Bela

Adormecida — ambos recuperam o que há de mais valioso das garras de

um terrível dragão).XV

E, é claro, o desconhecido é um terrível predador — o basilisco enfrentado

por Harry — e, obviamente, esse predador guarda um grande tesouro,

quantidades inimagináveis de ouro ou a virgem adormecida, porque o

indivíduo corajoso o suficiente para enfrentar voluntariamente a serpente em seu covil tem mais probabilidade de acessar as incalculáveis riquezas

que habitam o potencial, que nos aguardam na aventura da nossa vida,

longe da segurança e do que é atualmente conhecido. Quem ousa venceXVI

— se não perecer. E quem vence também se torna desejável e atraente de

forma irresistível, até mesmo em decorrência do desenvolvimento de caráter

que a aventura inevitavelmente acarreta. E é isso que nos faz ser sempre

mais do que coelhos.

E Harry, tal como Bilbo, só é capaz disso — de perceber a serpente, que é

invisível para todos os outros — porque ele tem um lado sombrio. O Bilbo,

de Tolkien, precisa se tornar um ladrão antes de virar um herói. Ele precisa

se imbuir de sua monstruosidade para poder vencer sua inofensividade

ingênua, antes de ser forte o suficiente para enfrentar os terrores que o

confrontam. Harry é tocado pelo mal de outra maneira, já que parte da

inigualável obscuridade da alma do bruxo Voldemort está incorporada nele

(embora nenhum dos dois saiba disso no início). É por essa razão que o

jovem bruxo consegue falar e ouvir (ou seja, entender) as serpentes. É por

isso que ele é disciplinado e corajoso, mas também disposto e pronto para

quebrar as regras quando necessário.

Nas entranhas de Hogwarts, Harry é atacado pelo basilisco, que está sob o

controle de Voldemort. A relação entre Voldemort e o basilisco é, de

maneira estranha e incompreensível, igual à que se dá entre Satanás e a

serpente do Gênesis, que oferece o despertar no Jardim do Éden. Por que é

assim? Podemos considerar — com acerto — que o caos e o perigo na

forma de serpente constituem a ameaça do próprio predador reptiliano. Mas

de outra forma, mais abstrata — mais psicológica, mais espiritual —, é o

mal humano: o perigo que representamos um para o outro. Em algum ponto

de nossa história evolutiva e cultural, começamos a entender que o mal

humano pode ser considerado, com razão, a maior de todas as serpentes.

Assim, a progressão simbólica pode ser (1) serpente como predador

maligno; (2) a serpente/o mal/o predador como um inimigo humano

externo; (3) a serpente/o mal/o predador como a vingança/o ardil/a

escuridão subjetiva, pessoal ou psicológica. Cada uma dessas

representações, que levaram incontáveis séculos, talvez milênios, para

serem conceituadas, constitui um aumento tangível na sofisticação da

imagem do mal.9

Aparentemente, todas essas manifestações do caos e do perigo em forma

de serpente ainda são detectadas, processadas e simbolicamente

interassociadas primeiro pelos sistemas cerebrais ancestrais que evoluíram

para nos proteger de répteis predadores.10 E a paralisia — estimulada por

esses sistemas — talvez resolva o problema imediato, ocultando a presa

acuada, mas deixa o predador vivo para atacar amanhã. O ideal é que o

perigo seja caçado e destruído — e mesmo isso é específico demais para

constituir uma solução permanente para o problema do mal em si (em vez

de uma solução para um determinado exemplar do mal). De modo mais

profundo e abstrato (em analogia com a ideia de que o maior predador, a

maior serpente, é o mal que se esconde internamente), a destruição do mal

se manifesta como a vida virtuosa que reprime a maleficência em sua forma

mais abstrata e abrangente. É por esse motivo, por exemplo, que o príncipe

Felipe, de A Bela Adormecida da Disney, recebe a Espada da Verdade e o

Escudo da Virtude da benevolente Natureza (personificada pelas fadas que

o acompanham e ajudam a escapar de Malévola, a Rainha Má) antes de seu

confronto com o grande Dragão do Caos.

Harry enfrenta o basilisco na Câmara Secreta, entranhada nos subterrâneos

do castelo bruxo, mas é dominado e corre grande perigo. Naquele momento

propício, a fênix do diretor de Hogwarts surge, atacando e cegando a

serpente gigante. O grande pássaro também lança um chapéu mágico do

qual surge uma poderosa espada. Harry pega a arma e mata o basilisco, mas

é fatalmente mordido no processo. Este é outro forte eco mitológico: na

história do Gênesis, por exemplo, o encontro com a serpente se mostra fatal

tanto para o homem quanto para a mulher, que se dão conta de sua

fragilidade e morte inevitável logo após acordar e ter consciência de sua

condição humana. Também é uma verdade cruel: predadores devoram,

dragões devastam, caos destrói. A ameaça é real. Nem mesmo a verdade, a

virtude e a coragem são necessariamente suficientes, mas são nossa melhor

aposta. E, às vezes, morrer um pouco é o remédio necessário para evitar a

morte propriamente dita. Felizmente, a fênix derrama suas lágrimas

mágicas e revivificantes sobre as feridas de Harry. Assim, o jovem bruxo

revive, derrota Voldemort (uma tarefa muito mais desafiadora do que

simplesmente vencer a voraz serpente), resgata Gina e salva a escola.

Com a introdução da fênix na história de São Jorge, Rowling revela outro

elemento de seu gênio intuitivo. A fênix é uma ave capaz de morrer e renascer para sempre. Tem sido, portanto, ao longo dos tempos, um símbolo

de Cristo, com quem o pássaro mágico compartilha muitas características.

Da mesma forma, é também o elemento da personalidade humana

individual que deve morrer e se regenerar, à medida que aprende,

dolorosamente, por meio da quase sempre trágica experiência que destrói a

certeza anterior, substituindo-a primeiro pela dúvida e depois — quando

confrontada de maneira adequada — por um conhecimento novo e mais

completo. Uma transformação voluntária de morte e renascimento — a

mudança necessária para se adaptar quando surge algo terrível — é,

portanto, uma solução para a rigidez potencialmente fatal da certeza

errônea, do excesso de ordem e da estultificação.

 

COMO AGIR

 

De várias maneiras, as pessoas trocam informações sobre como agir. Elas

observam umas às outras e imitam o que veem. Quando imitam, usam seus

corpos para representar os corpos de outras pessoas. Mas essa imitação não

é um mimetismo automático e irracional. É a capacidade de identificar

regularidades ou padrões no comportamento alheio e, em seguida, imitá-los.

Quando uma menina brinca de ser mãe, por exemplo, ela não replica, gesto

por gesto, o que observou anteriormente nas ações de sua mãe. Em vez

disso, ela age “como se” fosse mãe. Se você perguntar à criança o que está

fazendo, ela dirá que está fingindo ser mãe, mas, se você pedir para que

descreva o que isso significa, especialmente se for muito jovem, sua

descrição será bem menos completa do que suas ações indicariam. Isso quer

dizer que sua capacidade de representar supera a de se expressar — assim

como a de todos nós. Se você observar várias meninas “brincando de mãe”,

poderá ter uma ideia muito boa do que significa ser “mãe”, em sua forma

mais pura, mesmo que nunca tenha visto uma mãe de verdade. Se for hábil

com as palavras, talvez consiga descrever os elementos essenciais do

comportamento materno e transmiti-los. E terá mais sucesso se o fizer em

forma de uma história.

É mais fácil e direto representar um padrão de comportamento com ações

do que com palavras. O mimetismo absoluto faz isso de modo direto, ação

por ação. A imitação, que pode produzir novos comportamentos

semelhantes aos que motivaram o mimetismo, vai um passo além. O drama

— a imitação formalizada, encenada em um palco — é, em sentido estrito, um comportamento que retrata um comportamento, porém refinado à sua

essência. A literatura acrescenta um passo mais complexo nessa

transmissão, encenando a ação na imaginação do escritor e do leitor, na

completa ausência de atores reais e de um palco material. Somente

contadores de histórias extraordinários conseguem realizar essa

transformação, representar os atos mais vitais e necessários por meio das

palavras mais interessantes, profundas e memoráveis. Gerações de

magníficos contadores de histórias, ao recontar, modificar e editar grandes

histórias, acabam criando, em conjunto, a mais fascinante das histórias.

Depois que as culturas se alfabetizaram (algo que só aconteceu

recentemente, da perspectiva histórica), essas histórias puderam ser escritas.

É aproximadamente nesse ponto que se pode dizer que o mito e o ritual se

transformaram em religião.

A imitação e a comunicação dos atos mais importantes e memoráveis

requerem a extração e a comunicação dos padrões da sabedoria mais

profunda da humanidade. Se uma ação extraordinária e memorável é aquela

realizada por um indivíduo especialmente admirável, um herói local, então

as ações mais extraordinárias e memoráveis possíveis são as realizadas pelo

espírito (corporificado, em parte, por indivíduos específicos) que

exemplifica o que todos os heróis locais, de todos os lugares, têm em

comum. Pela lógica, esse herói dos heróis — o meta-herói — teria que

existir, por sua vez, no lugar comum a todos os lugares que requerem

heroísmo. Esse lugar pode ser considerado um metamundo — mesmo que

seja real, até hiper-real (isto é, mais real em sua abstração entre lugares do

que nossas percepções diretas de um determinado tempo ou lugar singular).

É precisamente esse metamundo hiper-real que consiste nas interações

contínuas entre o caos e a ordem, que se presta eternamente como campo de

batalha entre o bem e o mal, característicos do herói. Por sua vez, o padrão

imortal encarnado pelos heróis — de cujas ações o indivíduo e a sociedade

dependem — é o mais elevado de todos os Deuses. Ele é filho e mediador

entre essas forças equivalentes, transformando o caos em ordem habitável

(bem como remodelando a ordem em caos, para que possa ser renovada,

quando se tornar anacrônica e corrupta) e lutando com unhas e dentes para

que o bem possa prevalecer.

Todo mundo precisa de uma história para estruturar suas percepções e

ações no que, de outra forma, seria o caos opressor do ser. Cada história

requer um ponto de partida que não seja bom o suficiente e um ponto de chegada que seja melhor. Nada pode ser mensurado na ausência desse ponto

de chegada, desse valor mais elevado. Sem ele, tudo afunda em falta de

sentido e tédio ou degenera e mergulha em terror, ansiedade e dor. Mas,

tendo em vista que o tempo transforma tudo de modo inexorável, toda

história específica e baseada em valores pode falhar, em sua personificação

e palco específicos, e precisará ser substituída por algo mais novo, mais

completo, porém diferente. Em consequência, o ator de uma dada história

(e, portanto, alguém profundamente infundido à trama e à caracterização)

ainda deve se curvar ao espírito de transformação criativa que originalmente

criou essa história e, talvez, destruí-la e recriá-la. É por essa razão que o

espírito transcende eternamente o dogma; a verdade transcende a

pressuposição; Marduk transcende os deuses mais antigos; a criatividade

atualiza a sociedade; e Cristo transcende a lei (assim como Harry Potter, ao

lado de seus amigos corajosos, mas que constantemente violam as regras).

No entanto, é importante lembrar, como discutimos na Regra 1: as pessoas

que quebram as regras eticamente são aquelas que, primeiro, as dominaram

e, depois, se disciplinaram para entender sua necessidade, violando-as com

respeito ao espírito, e não à letra da lei.

O segundo volume da saga de J. K. Rowling propõe que o mal predatório

pode ser vencido pela alma que deseja morrer e renascer. A saga termina

com a repetição da mesma mensagem modificada de forma criativa. A

analogia com o cristianismo é óbvia, e a mensagem, em essência, a mesma:

a alma disposta a se transformar tão profundamente quanto necessário é o

inimigo mais eficaz das serpentes demoníacas da ideologia e do

totalitarismo, em suas formas pessoais e sociais. A personalidade saudável,

dinâmica e, sobretudo, verdadeira admite o erro. Ela voluntariamente

despreza — deixa morrer — percepções, pensamentos e hábitos obsoletos,

por considerá-los obstáculos para seu sucesso e crescimento futuros. É a

alma que deixa suas velhas crenças se destruírem, muitas vezes de maneira

dolorosa, para que ela possa reviver e seguir em frente renovada. É também

a alma que transmite o que aprendeu durante o processo de morte e

renascimento, para que outras pessoas possam renascer junto com ela.

Mire em algo. Escolha o melhor alvo que puder imaginar hoje. Caminhe,

ainda que hesitante, em direção a ele. Observe seus erros e equívocos ao

longo do caminho, enfrente-os e corrija-os. Conserte sua história. Passado,

presente, futuro — tudo é importante. Você precisa mapear seu caminho.

Precisa saber onde estava, para não repetir os erros do passado. Precisa saber onde está, ou não será capaz de traçar uma linha do ponto de partida

ao destino. Precisa saber para onde está indo, ou se afogará na incerteza, na

imprevisibilidade e no caos, e definhará por falta de esperança e inspiração.

Para o bem ou para o mal, você está em uma jornada. Está em uma aventura

— e é melhor que seu mapa seja preciso. Enfrente voluntariamente o que

surgir em seu caminho. O caminho — quero dizer a estrada da vida, a que

fornece significado — é o caminho reto que representa a própria fronteira

entre a ordem e o caos, cuja travessia é o que os mantém em equilíbrio.

Mire em algo profundo, nobre e elevado. E, se encontrar um caminho

melhor ao longo da jornada, mude o curso. Porém, tenha cuidado; não é

fácil distinguir a mudança de trajeto da mera desistência. (Uma dica: se o

novo caminho que se abrir, depois que você aprendeu o que precisava ao

longo do atual, parecer mais desafiador, então pode estar razoavelmente

certo de que não está se iludindo ou se traindo ao mudar de ideia.) Você

estará ziguezagueando para frente. Não é a maneira mais eficiente de viajar,

mas não há alternativa real, visto que seus objetivos inevitavelmente

mudam durante o trajeto, à medida que você aprende o que precisa

enquanto se disciplina.

Ao longo do tempo, você acabará mudando de direção, de forma gradativa

e graciosa, para mirar com cada vez mais precisão naquele minúsculo

ponto, o X no mapa, o meio do alvo, o centro da cruz; para visar o valor

mais elevado que puder conceber. Perseguirá um alvo que se move e se

afasta; se move, pois você não tem a sabedoria para mirar na direção correta

quando o faz pela primeira vez; e se afasta, pois não importa o quão perto

você chegue de aperfeiçoar o que está praticando atualmente, novas

perspectivas da perfeição possível se abrirão diante de você. Disciplina e

transformação o levarão inexoravelmente para a frente. Com vontade e

sorte, você encontrará uma história significativa e produtiva, que se

aprimora com o tempo e talvez até lhe proporcione mais do que alguns

momentos de satisfação e alegria. Com vontade e sorte, você será o herói

dessa história, o peregrino disciplinado, o transformador criativo e o

benfeitor de sua família e da sociedade em geral.

Imagine quem você poderia ser e mire esse alvo com determinação.

I Pense em um imitador profissional. Ele não imita necessariamente comportamentos exatos, movimento por movimento, das pessoas que está personificando, mas, sim, o espírito — o que é comum a todos os comportamentos da celebridade-alvo. O mesmo acontece quando as crianças brincam de ser adultos. É o espírito que buscam, não os comportamentos individuais.

II Trecho de um spiritual que descreve eventos do Velho Testamento. Em tradução livre: “Vá, Moisés, aos confins das terras do Egito/Diga ao velho faraó/Para libertar meu povo.” (N. da T.)

III Por milhares de anos, a alquimia — a busca pela pedra filosofal, um artefato que transformaria metais básicos em ouro, além de recompensar seu portador com saúde e imortalidade — foi praticada por excêntricos, místicos, mágicos e praticantes pré-científicos que adotaram os primeiros passos extraordinários para estabelecer o que acabou se tornando ciência genuína. Conforme a alquimia se desenvolveu, no entanto, a “pedra” acabou sendo conceituada como algo mais parecido com uma personalidade do que um objeto material, à medida que os alquimistas percebiam, cada vez mais, que o desenvolvimento da psique era uma busca mais importante do que o mero ouro em si. Escrevi sobre isso em Mapas do Significado: A Arquitetura da Crença, que contém as referências relevantes ao trabalho sobre alquimia conduzido por Jung e seus alunos.

IV Vamos abordar a imagem de baixo para cima, como se cada elemento emergisse da parte inferior. Geralmente, imagens desse tipo (e são um tipo) representam um processo de desenvolvimento ou crescimento psicológico ou espiritual e parecem empregar o simbolismo básico de uma planta ou árvore que cresce à medida que amadurece. Algo semelhante pode ser observado nas imagens orientais do Buda, emergindo de uma flor de lótus que flutua na superfície da água plácida, com seu caule estendendo-se para o fundo escuro e suas raízes bem enterradas na lama que compõe o nível mais baixo das profundidades.

V Pois o ouro é raro e reluta, por assim dizer, em se combinar promiscuamente com outros elementos ou compostos.

VI É interessante notar — particularmente em relação à discussão dos perigos da criatividade apresentada na Regra 1 — que os Apanhadores perseguem o Pomo dentro e fora do campo de jogo que funciona como um limite para todos os outros jogadores. Enquanto estão do lado de fora, eles podem atravessar a fundação de madeira do estádio de Quadribol. Isso não seria um problema se não estivessem sendo perseguidos por um Balaço, uma bola voadora maciça e sólida capaz não só de derrubá-los de suas vassouras, mas também de atravessar e danificar seriamente a estrutura do estádio. Se conseguirem pegar o Pomo, como mencionado, geralmente obtêm a vitória. Mas eles correm o risco de danificar os próprios alicerces do jogo ao fazer isso — assim como as pessoas criativas fazem quando buscam suas visões inovadoras, mas disruptivas.

VII Também é de grande interesse observar, a esse respeito, que o metal mercúrio pode ser utilizado na mineração e purificação do ouro. O ouro se dissolve no mercúrio, que, assim, pode ser usado para extrair as pequenas quantidades do metal precioso tipicamente encontrado nos minérios. O mercúrio é, então, removido por fervura (pois tem um ponto de ebulição baixo) para que apenas o ouro permaneça. A atração do mercúrio pelo ouro deu origem à ideia simbólica de que o metal líquido tem uma “afinidade” com o que é mais precioso: que o mercúrio busca o que é nobre, puro e incorruptível — como o próprio ouro, falando simbolicamente mais uma vez — e o concentra até que forme quantidades utilizáveis. Assim, a ideia fundamental é que a busca do significado, guiada por Mercúrio, mensageiro dos deuses (o inconsciente, na concepção moderna), permitirá ao Apanhador coletar o que é, como ouro, de maior valor. Para os alquimistas que criaram desenhos como o que estamos analisando, esse valor mais alto passou a ser o desenvolvimento final da psique, ou espírito, ou personalidade.

VIII Esta é parte da razão com base na qual a ciência se desenvolveu tanto depois da religião e do ritual — de maneira tão incrível recentemente, e de modo algum em todos os lugares ao mesmo tempo.

IX Além disso, no mundo mitológico, ao contrário do mundo objetivo e lógico, as coisas podem ser algo e seu oposto ao mesmo tempo. E essa representação no mundo mitológico é mais precisa do que no objetivo, da maneira experiencial descrita anteriormente: a Natureza, por exemplo, é Criadora e Destruidora, assim como a Cultura é Protetora e Tirana. Pode-se objetar: Natureza e Cultura não são aspectos distintos. Elas podem ser diferenciadas, para que possamos separar, compreender e lidar com seus componentes paradoxais. Tudo isso é verdade, mas os componentes paradoxais costumam ser experienciados ao mesmo tempo e, assim, unificados. Isso ocorre, por exemplo, quando alguém é traído em um caso de amor. A besta e o homem, a Medusa e a mulher amada estão, com frequência, unidos experiencialmente na mesma figura hipoteticamente unitária. Esta pode ser uma terrível descoberta quando feita na vida real.

X A mesma ideia é expressa na cosmogonia taoista, quando o yin e o yang se diferenciam nos cinco elementos: madeira, fogo, terra, metal e água. Os antigos gregos acreditavam, da mesma forma, que a Terra e o Céu (Gaia e Urano) deram à luz os Titãs, divindades elementais de grande força e poder.

XI E pluribus unum.

XII Ea faz o homem com o sangue de Kingu, o mais terrível dos monstros de Tiamat. Certa vez, um brilhante estudante de pós-graduação e, mais tarde, colega meu sugeriu que isso aconteceu porque, de todas as criaturas de Deus, apenas o homem poderia enganar; somente o homem poderia trazer voluntariamente o mal e a discórdia ao mundo.

XIII Há décadas, é sabido, explicitamente (e desde sempre, implicitamente), que o confronto autoiniciado com o que é assustador ou desconhecido costuma ser curativo. O tratamento-padrão para fobias e ansiedade é, portanto, a exposição ao que é temido. Esse tratamento é eficaz, mas a exposição deve ser voluntária. É como se os sistemas de ansiedade do cérebro presumissem que nem sempre o que se enfrenta deve ser um predador (ou, se for um predador, é do tipo que pode ser facilmente ignorado e derrotado). Agora sabemos que até a resposta emocional e corporal ao estresse difere completamente quando esse estresse é enfrentado voluntariamente, e não por acaso. No segundo caso, o indivíduo ameaçado fica tenso e se prepara defensivamente (veja M. D. Seery, “Challenge or Threat? Cardiovascular Indexes of Resilience and Vulnerability to Potential Stress in Humans”, Neuroscience & Biobehavioral Reviews 35 [2011]: 1603–4). Essa pode se tornar a postura cronicamente nociva de alguém transformado em pedra. No primeiro caso, o indivíduo assume o papel de provável vencedor e enfrenta a ameaça de forma franca. Essas ações são, de fato, o que sempre salvou a humanidade dos terrores da noite (e do mal que está à espreita no coração humano). Nossa observação contínua desse fato, ao longo de milênios, é o que nos permitiu representá-lo, abstratamente, em nossas grandes histórias religiosas, e então imitá-lo, dentro dos limites de nossa vida particular e única.

XIV Isso ocorre, pelo menos em parte, porque é muito improvável que você já tenha procurado onde menos deseja, embora fosse útil fazê-lo.

XV Preciso esclarecer algo em mais detalhes. Na Introdução e na Regra 1 de 12 Regras para a Vida, assim como em Mapas do Significado, defendi que o caos tende a encontrar sua representação simbólica no feminino — mas aqui estou falando sobre caos em forma de serpente. Posso explicar isso elaborando minha explicação sobre a imagem alquímica que discutimos anteriormente —, porém, desta vez, lendo-a de cima para baixo. Quanto mais profunda a ameaça — quanto mais profundo o caos —, maior a probabilidade de ela se apresentar como o mais antigo inimigo da humanidade, a serpente. Talvez possamos pensar da seguinte forma: os desconhecidos desconhecidos — aqueles elementos do ser que são incrivelmente estranhos e perigosos, e cuja manifestação pode matar ou destruir psicologicamente — são os mais prováveis de serem representados na forma de serpente. Desse domínio, que, em certo sentido relevante, é ainda mais fundamental do que o próprio sexo, emergem o feminino e o masculino primordiais, embora pareça que o feminino, não obstante, retenha uma conexão mais primária com o próprio incognoscível fundamental. Acho que isso tem a ver principalmente com o mistério absoluto do nascimento: com a relação entre a emergência de novas formas a partir do feminino e a emergência de novas formas a partir do absolutamente desconhecido. Talvez seja algo desse tipo que explica a primazia do relacionamento entre Eva e a serpente no Jardim do Éden, em vez de entre Adão e a serpente. Talvez (e estou especulando aqui, tentando ir além da minha ignorância, tentando explicar a relação simbólica clara e onipresente) seja o caso de que as fêmeas atraiam as serpentes (assim como outros predadores perigosos), em especial quando estão cuidando de seus filhotes, e que a alta periculosidade que elas enfrentam, portanto, grave o perigo do feminino relacionado à serpente para sempre em nossa imaginação. Isso implicaria que a decisão de se relacionar com uma mulher — assim como o fato de ser mulher — traz consigo maior exposição ao terrível desconhecido (algo que parece claramente verdadeiro no caso de todas as ameaças enfrentadas pelas crianças). Agora, a fêmea também é uma força de rejeição (particularmente entre os humanos, um ambiente no qual as fêmeas são matrizes muito exigentes [veja, por exemplo, Y. Bokek-Cohen, Y. Peres e S. Kanazawa, “Rational Choice and Evolutionary Psychology as Explanations for Mate Selectivity”, Journal of Social, Evolutionary, and Cultural Psychology 2 (2008): 42–55]). Essa detenção do poder da rejeição final constitui a Natureza em toda sua crueldade (e, deve-se dizer, sabedoria). Talvez isso também seja um fator não trivial para a relação mulher-serpente.

XVI O lema do Serviço Aéreo Especial Britânico.