Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida

Jordan B. Peterson · Capítulo 10 de 16

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Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida

Regra 7: Dedique-se ao máximo a pelo menos uma tarefa e veja o que acontece

REGRA 7

 

DEDIQUE-SE AO MÁXIMO A PELO

 

MENOS UMA TAREFA E VEJA O QUE

 

ACONTECE

 

O VALOR DA PRESSÃO E DO CALOR

 

Quando o carvão é submetido à pressão e ao calor intensos, bem abaixo da

superfície da Terra, seus átomos se reorganizam em um alinhamento

cristalino de repetição perfeita, formando um diamante. É nessa forma que

o carbono que compõe o carvão também atinge o máximo de sua

durabilidade (já que o diamante é a mais dura de todas as substâncias). Por

fim, ele se torna capaz de refletir a luz. Essa combinação de durabilidade e

brilho confere ao diamante as qualidades que justificam seu uso como

símbolo de valor. O que é valioso é puro, adequadamente alinhado e reflete

a luz — e isso é verdade para uma pessoa tanto quanto para uma pedra

preciosa. A luz, é claro, significa o brilho luminoso da consciência elevada

e focada. Os seres humanos estão conscientes durante o dia, quando há luz.

Muito dessa consciência é visual e, portanto, depende da luz. Ser iluminado

é estar excepcionalmente desperto e consciente — é atingir um estado de

ser comumente associado à divindade. Usar um diamante é associar-se ao

esplendor solar, como o rei ou a rainha cujo perfil estampa as moedas de

ouro que lembram o Sol, um padrão de valor quase universal.

O calor e a pressão transformam a matéria básica do carvão comum na

perfeição cristalina de raro valor do diamante. O mesmo pode ser dito de

uma pessoa. Sabemos que as múltiplas forças que operam na alma humana

muitas vezes não estão alinhadas entre si. Fazemos as coisas que

gostaríamos de não fazer e não fazemos as coisas que sabemos que deveríamos fazer. Queremos ser magros, mas nos sentamos no sofá

comendo Cheetos e nos desesperamos. Estamos sem direção, confusos e

paralisados pela indecisão. Somos puxados em todas as direções pelas

tentações, apesar de nossa vontade declarada, e perdemos tempo,

procrastinamos e nos sentimos mal com isso, mas não mudamos.

É por essas razões que os povos antigos tinham facilidade em acreditar

que a alma humana era assombrada por fantasmas — possuída por espíritos

ancestrais, demônios e deuses —, e nenhum deles tinha necessariamente os

melhores interesses da pessoa em mente. Desde a época dos psicanalistas,

essas forças contrárias, esses espíritos obsessivos, e às vezes malignos,

foram conceituados, em termos psicológicos, como impulsos, emoções ou

estados motivacionais — ou como complexos, que agem como

personalidades parciais unidas dentro da pessoa por meio da memória, mas

não da intenção. Nossa estrutura neurológica é de fato hierárquica. Os

poderosos servos instintivos ao fundo, controlando a sede, a fome, a raiva, a

tristeza, a euforia e a luxúria, podem facilmente ascender e se tornar nossos

mestres e, com a mesma facilidade, travar uma guerra interna. A resiliência

e a força de um espírito unido não são fáceis de alcançar.

A casa dividida contra si mesma não subsistirá, diz o provérbio. Da

mesma forma, uma pessoa mal integrada não consegue se controlar quando

é desafiada. Ela perde a unidade no nível mais alto da organização

psicológica. Perde a mistura adequadamente equilibrada de propriedades,

que é outra característica da boa temperança da alma, e não consegue se

manter coesa. Reconhecemos isso quando dizemos: “Ele perdeu a cabeça”

ou “Ele está em frangalhos”. Antes de juntar as peças e reorganizá-las, é

provável que essa pessoa seja vítima do domínio de uma ou mais

personalidades parciais. Pode ser um espírito de raiva, ansiedade ou dor,

emergindo para tomar o controle quando uma pessoa perde sua coesão

mental. Você pode ver isso ocorrendo com mais clareza na birra de uma

criança de 2 anos. Ela perde a cabeça temporariamente e, naquele momento,

é pura emoção. Muitas vezes é uma ocorrência profundamente perturbadora

para a própria criança, e, caso manifestada por um adulto, teria uma

intensidade aterrorizante para quem a presenciasse. Os sistemas

motivacionais arcaicos que governam a raiva jogam a personalidade em

desenvolvimento da criança para escanteio e assumem o controle da mente

e das ações. Essa é uma derrota real e desastrosa para o ainda frágil ego centralizador, que luta contra as poderosas forças em direção à integração

psicológica e social.

A falta de união interna também se manifesta na intensificação do

sofrimento, no aumento da ansiedade, na ausência de motivação e na falta

de prazer que acompanham a indecisão e a incerteza. A incapacidade de

decidir entre dez coisas, mesmo quando desejáveis, equivale a ser

atormentado por todas elas. Sem objetivos claros, bem definidos e não

contraditórios, é muito difícil obter o senso de engajamento positivo que faz

a vida valer a pena. Objetivos claros também limitam e simplificam o

mundo, reduzindo a incerteza, a ansiedade, a vergonha e as forças

fisiológicas autodestrutivas desencadeadas pelo estresse. A pessoa mal

integrada é, portanto, volátil e sem direção — e isso é apenas o começo. A

dose certa de volatilidade aliada à falta de direção pode conspirar

rapidamente para gerar o desamparo e a depressão típicos da futilidade

prolongada. Esse não é apenas um estado psicológico. As consequências

físicas da depressão, muitas vezes precedidas pela secreção excessiva de

cortisol, o hormônio do estresse, são essencialmente indistinguíveis do

envelhecimento rápido (ganho de peso, problemas cardiovasculares,

diabetes, câncer e Alzheimer).1

As consequências sociais são tão graves quanto as biológicas. Uma pessoa

que não está bem estruturada reage de forma exagerada ao menor sinal de

frustração ou fracasso. Não é capaz de se engajar em negociações

produtivas, nem consigo mesma, porque não consegue tolerar a incerteza de

discutir potenciais futuros alternativos. Não consegue se satisfazer, porque

não é capaz de obter o que deseja, visto que isso implica ter de escolher

uma coisa em vez de outra. E também pode ser imobilizada pelo mais fraco

dos argumentos. Uma de suas múltiplas subpersonalidades beligerantes se

agarrará a tais argumentos, muitas vezes contrários a seus interesses, e os

usará, na forma de dúvidas, para sustentar sua posição contrária. Uma

pessoa em conflito profundo pode, portanto, ser detida, metaforicamente,

com a pressão de um único dedo sobre seu peito (mesmo que se insurja

contra esse obstáculo). Para avançar com determinação, é necessário ser

organizado — ser direcionado para algo singular e identificável.

Escolha um alvo. Mire. Tudo isso faz parte do amadurecimento e da

disciplina, e é algo a ser devidamente valorizado. Se você não tem objetivo,

fica atormentado por tudo. Se não estabelece uma direção, não tem para onde ir, nada para fazer e nada de valor elevado em sua vida, pois o valor

exige a classificação das opções e o sacrifício do inferior para o superior.

Você realmente quer ser tudo o que poderia ser? Não é muito? Não seria

melhor ser algo específico (e depois, talvez, acrescentar algo mais)? Apesar

do sacrifício da escolha, não seria também um alívio?

 

A PIOR DECISÃO DE TODAS

 

Quando eu cursava a pós-graduação na Universidade McGill, em Montreal,

estudando para meu doutorado em clínica, notei uma melhora acentuada no

caráter de todos que perseveraram no programa de cinco a seis anos, que

tinha um nível crescente de dificuldade. Suas habilidades sociais

melhoraram. Eles se tornaram mais articulados. Encontraram um profundo

senso de propósito pessoal. Desempenharam uma função útil em relação

aos outros. Tornaram-se mais disciplinados e organizados. Divertiram-se

mais. Tudo isso apesar do fato de os cursos de pós-graduação muitas vezes

serem de qualidade inferior à que poderiam ter, o trabalho clínico não ser

remunerado e ser difícil de conseguir, e os relacionamentos com os

supervisores de pós-graduação às vezes (mas nem sempre) serem abaixo da

média. Os que estavam começando a pós-graduação muitas vezes ainda

eram imaturos e confusos. Mas a disciplina que lhes era imposta pela

necessidade de pesquisa — e, mais especificamente, pela preparação da tese

— logo aprimorou seu caráter. Escrever um trabalho longo, sofisticado e

coerente significa, pelo menos em parte, tornar-se mais complexo,

articulado e profundo em sua personalidade.

Quando me tornei professor e comecei a orientar alunos de graduação e

pós-graduação, observei a mesma coisa. Os alunos de graduação em

psicologia que se associaram a um laboratório (e, portanto, assumiram

tarefas adicionais) obtiveram notas melhores do que aqueles que se

sobrecarregaram menos. Assumir as funções de pesquisadores juniores os

ajudou a estabelecer um lugar e uma comunidade, ao mesmo tempo em que

exigia que se disciplinassem, principalmente por demandar o uso mais

eficiente do tempo. Observo um processo semelhante no meu trabalho

como psicólogo clínico. Costumo incentivar meus clientes a escolher o

melhor caminho disponível para eles, mesmo que esteja longe de seus

ideais. Isso às vezes significa tolerar pelo menos uma diminuição

temporária da ambição ou do orgulho, mas tem a vantagem de substituir algo disponível apenas na fantasia por algo real. Quase sempre são

observadas melhorias na saúde mental.

Existe algo com o qual vale a pena se comprometer? Já tenho idade

suficiente para ter visto o que acontece quando as várias maneiras de

responder a essa pergunta se manifestam. Em minha carreira como

estudante de graduação e pós-graduação, professor, psicólogo clínico,

pesquisador e em minhas várias incursões adicionais, tenho visto caminhos

idênticos de desenvolvimento se manifestarem repetidamente. Em

princípio, ambos os caminhos estão disponíveis para todos — para cada um

dos tolos semidesenvolvidos, errantes, prematuramente cínicos,

questionadores, hesitantes e esperançosos que todos somos em graus

variados quando jovens e no limiar da idade adulta. Tornou-se evidente para

mim que muitos compromissos têm valor duradouro: entre eles destacam-se

os que envolvem caráter, amor, família, amizade e carreira (e talvez nessa

ordem). As pessoas que permanecem incapazes ou não querem cuidar de

seu jardim, por assim dizer, em um ou todos esses domínios,

inevitavelmente sofrem por causa disso. No entanto, o compromisso exige

sua dose de sacrifício. Buscar um diploma de graduação significa

abnegação e estudo, e a escolha de uma determinada disciplina significa

abrir mão da possibilidade de outros caminhos de estudo. O mesmo vale

para a seleção de um parceiro ou grupo de amigos. O cinismo sobre essas

coisas, ou a mera indecisão ou dúvida, encontra um aliado fácil, mas

bastante antagônico, na racionalidade negligente e niilista que mina tudo:

por que se preocupar? Que diferença isso fará em mil anos? O que torna um

caminho preferível a outro — ou a nenhum — de qualquer maneira?

É possível estar satisfeito, ou até mesmo feliz, com um parceiro ou outro,

com um grupo de amigos ou outro, com uma carreira ou outra. Em certo

sentido, a satisfação que esses cenários trazem pode ser gerada por

diferentes escolhas. Cada um desses cenários é também profundamente

imperfeito: os parceiros românticos podem ser inconstantes e complexos,

assim como os amigos, e toda carreira ou trabalho é caracterizado por

frustração, decepção, corrupção, hierarquia arbitrária, política interna e pura

idiotice na tomada de decisões. A partir dessa falta de valor específico ou

ideal, podemos concluir que não existe uma hierarquia de importância — ou

chegar à conclusão afim, ainda mais desesperada, de que nada importa. Mas

aqueles que fazem essas inferências, não importa o quanto estejam bem

armados de argumentos racionalmente coerentes, pagam um alto preço. As pessoas sofrem quando desistem antes de concluir um curso de graduação

ou curso técnico. E quero dizer “desistir”, não fracassar, embora os dois

possam ser difíceis de distinguir. Às vezes, as pessoas fracassam apenas

porque não conseguem gerenciar o trabalho, apesar das boas intenções e da

disciplina necessária. É preciso ter uma certa eloquência para trabalhar

como advogado de maneira eficaz e um certo grau de destreza no manuseio

de objetos mecânicos, por exemplo, para se tornar um carpinteiro. Às vezes,

a combinação entre a pessoa e a escolha é tão ruim que nem todo o

comprometimento será suficiente para produzir o fim desejado. Mas, muitas

vezes, o fracasso é consequência de uma obstinação insuficiente, de uma

racionalização elaborada, mas sem sentido, e da rejeição de

responsabilidades. E quase nada de bom resulta disso.

As pessoas que não escolhem um emprego ou uma carreira geralmente

ficam desarvoradas e à deriva. Podem tentar justificar isso com uma

fachada de rebeldia romântica ou cinismo prematuro decorrente da

desilusão. Podem recorrer à identificação casual com a exploração artística

de vanguarda ou lidar com o desespero e a falta de objetivos apelando ao

consumo excessivo de álcool e drogas e suas gratificações instantâneas.

Mas nada disso contribui para o sucesso de um homem de 30 anos (muito

menos para alguém uma década mais velho). O mesmo se aplica às pessoas

que não conseguem escolher e se comprometer com um único parceiro

romântico, ou que não sabem ou não querem ser leais aos amigos. Elas se

tornam solitárias, isoladas e infelizes, e tudo isso apenas acrescenta a

escuridão da amargura ao cinismo que desencadeou o isolamento em

primeiro lugar. Esse não é o tipo de círculo vicioso que você deseja que

caracterize sua vida.

As pessoas que conheci que concluíram seus cursos de graduação ou

cursos técnicos e profissionalizantes eram melhores por isso. Não eram

necessariamente “boas”. Não estavam operando em seu ideal. Não estavam

obrigatoriamente entusiasmadas com suas escolhas ou desprovidas de

dúvidas e receios, tampouco tinham a certeza de que seguiriam o caminho

de estudo escolhido. Mas estavam muito melhores do que aqueles que

recuaram e se deixaram levar pela maré. Os compromissos e os sacrifícios

decorrentes amadureceram aqueles que os suportaram e os tornaram

pessoas melhores. Sendo assim, o que concluímos? Há muitas coisas com

as quais podemos nos comprometer. Pode-se argumentar sobre a natureza

arbitrária e até sem sentido de qualquer compromisso, dada a abundância de alternativas e a corrupção dos sistemas que o exigem. Porém, não se pode

alegar o mesmo sobre o fato de não nos comprometermos: quem não

escolhe uma direção está perdido. É muito melhor se tornar algo do que

permanecer algo e acabar virando nada. Isso é válido apesar de todas as

limitações e decepções genuínas acarretadas por essa transformação. Para

desespero dos cínicos, as decisões ruins estão por toda parte. Mas alguém

que transcendeu esse cinismo (ou, mais precisamente, substituiu-o por uma

dúvida ainda mais profunda — isto é, a de que a dúvida em si é, em última

análise, um guia confiável) argumenta: a pior decisão de todas é nenhuma.

 

DISCIPLINA E UNIDADE

 

A disciplina que possibilita a dedicação a uma tarefa começa desde cedo.

Em tenra idade, as crianças começam a ordenar a multiplicidade de

emoções e motivações, que constituem seus instintos básicos de

sobrevivência, em estratégias de cooperação e competição que

voluntariamente envolvem outras pessoas — e crianças afortunadas e bem

estruturadas lidam com isso de maneira, ao mesmo tempo, socialmente

desejável e psicologicamente saudável. Quando a experiência autodirigida

de uma criança é interrompida pelo surgimento de um sistema instintivo

(quando ela está com fome, raiva, frio ou cansada), o bom genitor intervém,

resolvendo o problema que perturba a frágil unidade da criança ou, melhor

ainda, ensinando-a a resolver o problema sozinha. Quando o último

processo foi concluído com certa precisão, a criança está pronta para

ingressar no mundo social. Isso deve ocorrer aos 4 anos de idade ou pode

nunca acontecer.2 Uma criança deve ser suficientemente auto-organizada

para ser querida por seus pares aos 4 anos de idade ou corre o risco de um

permanente ostracismo social. Uma criança que ainda está tendo acessos de

raiva nessa idade corre exatamente esse risco.

Para a criança bem treinada ou com sorte o bastante para ser aceita, o

processo de integração é promovido pelos pares — amigos. Quando uma

criança brinca com outras, ela está se disciplinando. Aprende a subordinar

todos os seus impulsos concorrentes aos ditames daquele jogo — uma

unidade de regras, apesar da potencial multiplicidade de regras —; aprende

a se submeter voluntariamente às suas regras e aos seus objetivos bem

definidos. Para jogar dessa maneira, ela deve se transformar em uma subunidade funcional de uma máquina social maior. Isso pode ser

interpretado como um sacrifício da individualidade, se considerarmos a

individualidade como a escolha ilimitada de gratificação impulsiva. Mas é

muito mais bem descrito como o desenvolvimento da individualidade,

considerado em um nível superior: o indivíduo que opera de modo

adequado e integrado coaduna os desejos do presente com as necessidades

do futuro (incluindo a necessidade de jogar bem com os outros). É dessa

forma que os variados jogos infantis mitigam a cacofonia gritante do final

da infância. A recompensa por esse desenvolvimento é, obviamente, a

segurança da inclusão social e o prazer do jogo.

Importante ressaltar que isso não é repressão. Esse ponto deve ficar muito

claro, pois as pessoas acreditam que aquilo que a disciplina imposta pela

escolha nos impede de fazer, de alguma forma, se perderá para sempre. É

essa crença — com frequência expressa em relação à criatividade —, que,

em grande parte, faz com que tantos pais tenham medo de prejudicar seus

filhos ao discipliná-los. Mas a disciplina adequada organiza em vez de

destruir. Uma criança aterrorizada para que seja obediente ou protegida de

todas as chances possíveis de mau comportamento não é disciplinada, mas

abusada. Por outro lado, uma criança que foi disciplinada de maneira

adequada — pelos pais, outros adultos e, ainda mais significativo, por

outras crianças — não precisa combater, dominar e, então,

permanentemente inibir sua agressividade. Tampouco sublimar essa

agressividade nem transformá-la em algo diferente. Em vez disso, ela a

integra em suas habilidades de jogo cada vez mais sofisticadas,

possibilitando que fomente sua competitividade e aprimore sua atenção,

fazendo com que sirva aos propósitos mais elevados de sua psique em

desenvolvimento.

Uma criança bem socializada não é desprovida de agressividade. Ela

simplesmente se torna extremamente boa em ser agressiva, transmutando o

que, de outra forma, poderia ser um impulso perturbador na perseverança

focada e na competitividade controlada que constituem um jogador de

sucesso. No início da adolescência, essa criança é capaz de se organizar em

jogos cada vez mais complexos — atividades conjuntas e orientadas por

objetivos em que todos participam de maneira voluntária, de que todos

gostam e se beneficiam, mesmo que apenas uma pessoa ou um time possa

vencer de cada vez. Essa habilidade é a própria civilização em sua forma

nascente, no nível do jogador individual e do grupo. É aqui que a cooperação e a oportunidade de competir e vencer se manifestam

simultaneamente. Tudo isso é uma preparação necessária para as escolhas

mais permanentes que devem ser feitas para uma vida adulta bem-sucedida.

É certamente possível — e razoável — ter algumas dúvidas e discutir qual

jogo seria melhor jogado aqui e agora; mas não é razoável afirmar que

todos os jogos são, portanto, desnecessários. Da mesma forma, embora seja

possível discutir qual moralidade é a necessária, não é possível argumentar

que a moralidade em si é desnecessária. A dúvida sobre qual jogo é

apropriado agora não é relativismo. É a ponderação inteligente do contexto.

O fato de a felicidade não ser apropriada, por exemplo, em um funeral não

significa que a felicidade em si não tenha valor. Da mesma forma, a

afirmação de que a moralidade é necessária e inevitável não é totalitária. É

apenas a observação de que os valores unidimensionais básicos e primitivos

devem ser incluídos em estruturas socialmente organizadas para que a paz e

a harmonia existam e sejam mantidas. Foi a junção de uma multiplicidade

antagônica subordinada às doutrinas unificadoras do cristianismo que

civilizou a Europa. Talvez pudesse ter sido o budismo, o confucionismo ou

o hinduísmo, na medida em que o Oriente também é amplamente civilizado

e unificado. Mas não poderia ter sido a ausência de uma doutrina. Sem um

jogo, não há paz, apenas caos. Além disso, o jogo existente deve ser jogável

(como discutimos na Regra 4: “Perceba que a oportunidade se esconde onde

a responsabilidade foi abdicada”). Isso significa que ele deve ser

estruturado por um conjunto de regras aceitas pela comunidade — apenas

por restrições que um grande número de pessoas está disposto a respeitar

por um longo tempo. Em teoria, é possível que existam muitos jogos assim,

mas é pelo menos igualmente possível que sejam poucos. Em ambos os

casos, as regras do cristianismo e as do budismo não são de forma alguma

arbitrárias, tampouco são superstições sem sentido, assim como as regras de

um jogo jogável não são meramente arbitrárias ou superstições absurdas.

Pensar que a paz pode existir sem o jogo abrangente e aceito de forma

voluntária é deixar de entender o perigo onipresente do tribalismo

fragmentado ao qual podemos regredir com tanta facilidade e com

consequências tão devastadoras.

Uma vez que o mundo social forçou a criança a integrar suas múltiplas

subpersonalidades, ela se torna capaz de jogar com outras. Depois disso,

deve estar pronta para se envolver nos jogos mais sérios que constituem os

empregos ou as profissões, com suas expectativas, habilidades e regras altamente estruturadas. Além de aprendê-los, quando mais velha, deve

aprender a dança dos sexos. Deve integrar sua personalidade socializada

com a do outro, para que o casal formado possa coexistir de forma pacífica,

produtiva, duradoura e inserida na sociedade — mantendo, ao mesmo

tempo, a disposição voluntária de fazê-lo. Esse é o duplo processo de

integração psicológica e social que acompanha a aprendizagem, tudo

associado à terceirização da sanidade. A adesão a esse processo tornará a

criança um adulto socialmente sofisticado, produtivo e psicologicamente

saudável, capaz de verdadeira reciprocidade (e, talvez, da suspensão

temporária e necessária da exigência de reciprocidade para criar os filhos).

No entanto, a história de integração e socialização não termina aqui. Isso

se deve ao fato de que, durante um aprendizado digno deste nome, duas

coisas acontecem ao mesmo tempo (tal como aprender a jogar e aprender a

ter espírito esportivo acontecem ao mesmo tempo, enquanto se joga).

Inicialmente, o aprendiz deve se tornar um servo da tradição, da estrutura e

dos dogmas, assim como a criança que deseja jogar deve seguir as regras do

jogo. Na melhor das hipóteses, essa servidão significa uma gratificante

aliança, de uma forma ou de outra, com as instituições tipicamente

consideradas patriarcais. Aprendizado significa calor e pressão (da mesma

forma que novos funcionários são testados por seus colegas, que estudantes

de direito articulados são testados por seus empregadores, que médicos

residentes são testados por médicos, enfermeiras e pacientes). O objetivo

desse calor e pressão é a subordinação de uma personalidade

subdesenvolvida (de modo algum “individual” neste ponto) a um único

caminho, com o propósito de transformar o iniciante indisciplinado em

mestre realizado.

O mestre, o produto legítimo do aprendizado, não é mais o servo do

dogma. Em vez disso, agora ele próprio é servido por dogmas, que tem a

responsabilidade de preservar, bem como o direito de mudar, quando a

mudança for necessária. Isso torna o mestre, que antes se permitiu ser

escravizado, um seguidor emergente do espírito — o vento (espírito) que

sopra onde quer (João 3:8). O mestre pode se permitir seguir suas intuições,

pois o conhecimento obtido pela disciplina adquirida o habilitará a criticar

suas próprias ideias e avaliar seu verdadeiro valor. Ele pode, portanto,

perceber de maneira mais clara os padrões ou princípios essenciais que

fundamentam os dogmas de sua disciplina e se inspirar neles, em vez de

aderir cegamente às regras como atualmente são articuladas ou representadas. Ele pode, inclusive, contar com a união integrada de sua

personalidade e seu treinamento para modificar ou transformar até mesmo

os princípios mais fundamentais e profundamente intuídos, a serviço de

uma união ainda mais elevada.

 

DOGMA E ESPÍRITO

 

A disciplina limitante que serve tanto como pré-condição para um jogo

quanto para o desenvolvimento de uma unidade de ser consiste, utilmente,

em mandamentos — regras que destacam o que definitivamente não deve

ser feito, enquanto fazemos o que deve ser feito. O cumprimento dessas

regras acarreta o desenvolvimento do caráter — com uma natureza ou

essência particular (já discutimos isso na forma de desenvolver a

desejabilidade pessoal jogando múltiplos jogos ou sequências de jogos).

Assim como em muitas outras situações, parece que essa ideia já está

implícita nas histórias que constituem o alicerce de nossa cultura. Isso é

especialmente evidente no Evangelho de Marcos, que é um comentário

sobre as mais influentes Regras do Jogo já formuladas — os Dez

Mandamentos (e, ainda mais amplamente, um comentário sobre as próprias

regras). São eles:

 

1. Não terás outros deuses diante de mim.

2. Não farás para ti nenhuma imagem esculpida.

3. Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão.

4. Lembra-te do dia do shabat, para mantê-lo santo.

5. Honra a teu pai e a tua mãe.

6. Não assassinarás.

7. Não cometerás adultério.

8. Não furtarás.

9. Não darás falso testemunho contra teu próximo.

10. Não cobiçarás.

 

O primeiro fala da necessidade de almejar a unidade mais elevada

possível; o segundo, do perigo de adorar falsos ídolos (confundindo a

representação, ou a imagem, com o inefável que ela supostamente representa); o terceiro significa que é errado reivindicar inspiração moral de

Deus ao mesmo tempo que comete atos pecaminosos; o quarto, que é

necessário reservar um tempo, com certa regularidade, para considerar o

que é verdadeiramente valioso ou sagrado; o quinto mantém as famílias

unidas, exigindo honra, respeito e gratidão dos filhos como recompensa

justa pelos sacrifícios feitos pelos pais; o sexto evita o assassinato

(obviamente), mas, ao fazê-lo, também protege a comunidade de mergulhar

em uma batalha constante e potencialmente multigeracional; o sétimo

determina a sacralidade do voto matrimonial, baseado na suposição (assim

como o quinto) de que a estabilidade e o valor da família são de suma

importância; o oitavo permite que pessoas honestas e trabalhadoras colham

os benefícios de seus esforços sem medo de que o que produziram lhes seja

tirado de forma arbitrária (e, assim, torna a sociedade civilizada uma

possibilidade); o nono mantém a integridade da lei, reduzindo ou

eliminando sua utilização como arma; e o décimo é um lembrete de que a

inveja e o ressentimento que ela gera são uma força destrutiva das mais

poderosas.

Vale pensar nesses Mandamentos como um conjunto mínimo de regras

para uma sociedade estável — um jogo social iterável. Eles são regras

estabelecidas no livro do Êxodo e fazem parte dessa história inesquecível.

Mas também são indicadores de outra questão — algo que ao mesmo tempo

emerge e transcende as regras e compõe sua essência. A ideia central é:

submeta-se voluntariamente a um conjunto de regras socialmente

determinadas — aquelas com alguma tradição em sua formulação — e,

como consequência, surgirá uma unidade que transcende as regras. Essa

unidade constitui o que você poderia ser, caso se concentrasse em um

objetivo específico até alcançá-lo.

Há uma história relevante para essa ideia no Evangelho de Marcos. O

trecho pertinente começa com a viagem de Cristo ao templo de Jerusalém,

onde expulsa os cambistas e mercadores e se dirige à multidão com um

carisma irresistível. E, segundo a história, “os escribas e principais

sacerdotes ouviram isso, e buscavam de que modo o destruiriam, pois o

temiam, porque todo o povo estava admirado da sua doutrina” (Marcos

11:18). Em consequência, eles começam a conspirar, questionando esse

estranho profeta, na esperança de induzi-lo a uma declaração herética e,

portanto, potencialmente fatal, enviando “alguns dos fariseus e dos

herodianos, para surpreendê-lo em suas palavras” (Marcos 12:13). Cristo lida com maestria, para dizer o mínimo, com os questionadores, reduzindo-

os a um silêncio ofendido e ressentido. O trecho termina com o que é

indiscutivelmente a mais difícil e traiçoeira das perguntas, feita por um

interlocutor muito astuto, mas talvez também um admirador relutante

(Marcos 12:28-34):

E vindo um dos escribas, ouvindo-os discutirem, e percebendo que lhes havia respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos?

E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, ó Israel, o Senhor

nosso Deus é o único Senhor;

e tu amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, e com toda tua alma, e com toda a tua

mente, e com toda a tua força; este é o primeiro mandamento.

E o segundo é semelhante, a este: Tu amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro

mandamento maior do que estes.

E o escriba lhe disse: Bem, Mestre, tu disseste a verdade; pois há um único Deus, e não há

outro além dele;

e amá-lo com todo o coração, com toda a compreensão, e com toda a alma, e com toda a

força, e de amar ao seu próximo como a si mesmo, é mais do que todas as ofertas queimadas e sacrifícios.

E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Tu não estás longe do reino de

Deus. E nenhum homem depois disso ousou fazer-lhe pergunta alguma.

 

O que isso significa? A personalidade integrada pela adesão disciplinada a

um conjunto de regras apropriadas, simultaneamente (embora de modo não

intencional), imita e é orientada pelo ideal mais elevado possível —

precisamente aquele que constitui um elemento comum da “moral” que

torna todas as regras boas, justas e necessárias. Esse ideal, de acordo com a

resposta de Cristo, é algo singular (o “único Senhor”), encarnado por inteiro

(amado com “todo o teu coração”, “alma”, “compreensão” e “força”), e

então manifestado como um amor idêntico por si mesmo e por toda a

humanidade.

A cultura ocidental é “inconscientemente” sustentada por um drama muito

profundo, que reflete tudo isso por causa de sua origem na conceitualização

judaico-cristã. Do ponto de vista psicológico, Cristo é uma representação,

ou uma personificação, do domínio do dogma e do (consequente)

surgimento do espírito. O espírito é a força criativa que dá origem ao que,

com o tempo, se torna dogma. Ele também é aquilo que, sempre que

possível, transcende essa tradição consagrada pelo tempo. É por essa razão

que um aprendizado termina com uma obra-prima, cuja criação significa não apenas a aquisição da habilidade necessária, mas da capacidade de criar

novas habilidades.

Embora Cristo cometa muitos atos que podem ser considerados

revolucionários, como discutimos na Regra 1, Ele é, no entanto,

explicitamente retratado nos Evangelhos como o mestre da tradição, e diz

sobre Si mesmo: “Não penseis que eu vim destruir a lei ou os profetas; eu

não vim para destruir, mas para cumprir.” (Mateus 5:17, na versão King

James). A Nova Versão Internacional da Bíblia talvez seja mais

compreensível: “Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim

abolir, mas cumprir.” Cristo, portanto, se apresenta como produto da

tradição e como aquilo que a cria e transforma. O mesmo padrão de conflito

criativo permeia o Velho Testamento, que é, em grande parte, uma série de

histórias sobre o espírito em oposição profética à corrupção inevitável do

dogma atrelado ao poder. A personalidade que imita esse modelo pode ser

considerada verdadeiramente ocidental, no mais profundo dos sentidos

psicológicos.

Se trabalhar o máximo que puder em uma coisa, você mudará. Também

começará a se tornar algo único, em vez da multiplicidade vociferante que

era antes. Esse algo único, se desenvolvido de forma adequada, não é

apenas a entidade disciplinada formada por meio de sacrifício,

compromisso e concentração, mas aquilo que cria, destrói e transforma a

própria disciplina — a própria civilização — ao expressar sua unidade de

personalidade e sociedade. É a própria Palavra da verdade, de cuja função

toda ordem habitável, arrancada do caos, depende eternamente.

Dedique-se ao máximo a pelo menos uma tarefa e veja o que acontece.