Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida
Regra 5: Não faça o que odeia
REGRA 5
NÃO FAÇA O QUE ODEIA
A ORDEM PATOLÓGICA EM SEU DISFARCE
COTIDIANO
Tive uma cliente que trabalhava em uma grande empresa. Parte de seu
trabalho envolvia se sujeitar a uma enxurrada constante de idiotices. Ela era
uma pessoa sensata e honesta, que enfrentou e superou uma vida difícil e
desejava genuinamente contribuir e trabalhar de acordo com seu bom senso
e honestidade. No ambiente corporativo, ela acabou envolvida em uma
longa discussão por e-mail e em pessoa sobre a possível ofensividade do
termo “flip chart” (uma expressão comum que se refere a várias folhas de
papel, normalmente apoiadas em um tripé). Para aqueles que ainda acham
difícil acreditar que conversas como essa ocupam horas de funcionários de
grandes empresas, basta uma rápida busca no Google pela expressão em
inglês “Flip chart derogatory” [flip chart depreciativo, em tradução livre].
Você constatará imediatamente que existe uma preocupação ampla e
genuína com esse problema. Muitas reuniões foram realizadas pelos
superiores de minha cliente para discutir esse assunto.
Ao que parece, “flip” já foi um termo depreciativo para filipino em países
anglófonos (encontrei poucas evidências de seu uso atual). Mesmo que a
antiga ofensa não tenha absolutamente nada a ver com “flip chart”, os
gestores da empresa de minha cliente consideraram que valia a pena gastar
tempo discutindo a natureza hipoteticamente preconceituosa da expressão e
formulando um termo substituto, cujo uso acabou se tornando obrigatório
entre os funcionários. Tudo isso apesar do fato de nenhum funcionário de
nacionalidade ou descendência filipina ter se queixado do uso do termo pela
empresa. De acordo com o Global Language Monitor (languagemonitor.com), que monitora, mas não aprova, o uso de palavras
politicamente corretas, o termo apropriado agora é “bloco de escrita”,
apesar do fato de um flip chart não ser um “bloco”.
De qualquer modo, a empresa em questão decidiu-se pelo termo “bloco de
cavalete”, o que parece uma descrição mais precisa — não que essa solução
comparativamente elegante diminua a tolice da questão. Afinal, ainda
existem outras palavras em inglês como “flip-flopped” [mudar de forma
repentina], “flippant” [impertinente], “flip-flops” [chinelo], “flippers”
[nadadeira] e assim por diante, e pelo menos as duas primeiras soam mais
depreciativas à primeira vista do que “flip chart”, se é que vamos nos
preocupar com esse tipo de coisa. Agora, você pode se perguntar: “Que
diferença essa pequena mudança na terminologia realmente faz? É um
problema banal. Por que alguém se importaria com o fato de essa mudança
sequer estar sendo discutida? Por que não ignorar, já que é melhor ignorar
tamanha insanidade, e se concentrar em algo mais importante?” Porque, é
claro, você pode alegar que dar atenção a alguém que está lidando com esse
tipo de questão é tão perda de tempo quanto se atentar para a discussão em
si. E eu diria que é exatamente esse o enigma que a Regra 5 está tentando
resolver. Quando deixar de participar de um processo preocupante que vê,
ou pensa ver, se desenrolando à sua frente?
Em sua primeira carta, minha cliente me contou que não só a discussão
questionando o uso de “flip chart” foi bem recebida por seus colegas de
trabalho, como também, imediatamente, surgiu uma espécie de concurso
para identificar e informar outras palavras que também pudessem ser
ofensivas.I “Blackboard” [quadro-negro] foi mencionada, assim como
“master key” [chave mestra] (a primeira porque se referir a qualquer coisa
como “negra/preta” — mesmo que essa seja sua cor — é de alguma forma
racista em nossos tempos de hipersensibilidade; a segunda por causa de sua
relação hipotética com a terminologia historicamente associada à
escravidão). Minha cliente tentou entender o que estava presenciando:
“Essas discussões dão às pessoas uma sensação superficial de serem boas,
nobres, compassivas, de coração aberto e sábias. Então, se para fins de
argumentação alguém discordar, como poderia entrar na discussão sem ser
considerado anticompassivo, tacanho, racista e malvado?”
Ela também ficou perturbada porque ninguém em seu local de trabalho
pareceu se incomodar com o fato de que um determinado grupo pudesse conferir a si mesmo a autoridade para banir palavras (e desdenhar ou
mesmo punir aqueles que continuaram a usá-las), sem se dar conta de
qualquer falha ética de sua parte e sem perceber o perigo de tal censura, que
poderia facilmente se estender, digamos, a opiniões pessoais, tópicos de
conversação — ou até mesmo livros. Por fim, minha cliente acreditava que
toda a discussão constituía um excelente exemplo de “diversidade”,
“inclusão” e “equidade” — termos que se tornaram verdadeiros mantras
para os departamentos de recursos humanos ou aprendizagem e
desenvolvimento (ela trabalhava neste último). Considerava-os
“mecanismos de doutrinação corporativa e propaganda ideológica” e parte
da maneira pela qual o politicamente correto — típico, sobretudo, de muitos
programas universitários — estende seu alcance para a cultura mais ampla.
No entanto, o mais importante foram as perguntas que ela me fez em uma
de suas cartas: “Seria o caso de dar um basta? Quando e onde paramos? Se
uma pequena minoria, mesmo hipoteticamente, acha algumas palavras
ofensivas, o que acontecerá? Continuamos a proibir palavras
indefinidamente?”
O que minha cliente estava percebendo — pelo menos de seu ponto de
vista — não era um único evento, hipoteticamente capaz de conduzir os
envolvidos por um caminho perigoso, mas uma variedade ou sequência de
eventos unidirecionais identificável e com relação de causalidade. Esses
eventos pareciam formar um padrão coerente, associado a uma ideologia
com propósito, explícita e implicitamente, direcional. Além disso, o efeito
dessa direcionalidade vinha se manifestando, ao que tudo indicava, por um
período de tempo razoável, não apenas no mundo corporativo de minha
cliente, mas no mundo mais amplo de instituições sociais e políticas em
torno da empresa para a qual ela trabalhava. Embora bastante isolada no
departamento que, por acaso, integrava (o epicentro da blitz ideológica da
empresa em questão), ela percebia à sua volta evidências de que os
processos que a perturbavam tinham um efeito prejudicial sobre outras
pessoas, além do efeito em sua consciência. É importante entender que, para
minha cliente, essas questões não eram conceitos filosóficos insignificantes.
Elas a incomodavam profundamente e perturbavam sua vida.
É claro que ser obrigado a fazer coisas estúpidas e odiosas é
desmoralizante. Alguém designado para uma tarefa inútil ou mesmo
contraproducente acabará esmorecendo, se tiver algum bom senso, e
encontrará dentro de si pouquíssima motivação para realizá-la. Por quê? Porque cada fibra de seu ser genuíno luta contra essa necessidade. Fazemos
as coisas que fazemos porque as consideramos importantes, em comparação
com todo o resto. Julgamos o que valorizamos como algo digno de
sacrifício e busca. Essa dignidade nos motiva a agir, apesar do fato de a
ação ser difícil e perigosa. Quando somos solicitados a fazer coisas que
consideramos odiosas e estúpidas, ao mesmo tempo, somos forçados a agir
de forma contrária à estrutura de valores que nos motiva a seguir em frente
com coragem e nos protege contra a degeneração em confusão e terror. “Sê
fiel a ti mesmo”,1 como disse Polônio em Hamlet, de Shakespeare. Esse “ti
mesmo” — o “eu”, a psique integrada — é, na verdade, a arca que nos
protege quando as tempestades desabam e o nível da água sobe. Agir
violando seus preceitos — suas crenças fundamentais — é conduzir o
próprio navio para os baixios da destruição. Agir violando os preceitos
desse “eu” fundamental é trapacear no próprio jogo, sofrer o vazio da
traição, perceber, na esfera abstrata, e experimentar, de forma encarnada, a
perda que inevitavelmente está por vir.
Que preço minha cliente pagou por sua subjugação inicial aos ditames
arbitrários de seus gerentes? Ela era uma imigrante de um país do antigo
bloco soviético e já experimentara mais do que o suficiente da ideologia
autoritária. Em consequência, sua incapacidade de determinar como poderia
objetar ao que estava acontecendo a deixou se sentindo fraca e conivente.
Além disso, nenhuma pessoa sensata poderia permanecer motivada a se
esforçar em um lugar, como seu local de trabalho acabou se tornando, onde
absurdos de tipo conceitual não apenas ocorriam continuamente, mas eram
encorajados ou, pior ainda, exigidos. Tal “ação” ridiculariza o próprio
trabalho produtivo — até mesmo a própria ideia de trabalho produtivo (e
isso é, de fato, parte da verdadeira motivação para esse comportamento:
pessoas que se ressentem com a competência e a produtividade genuínas
têm todos os motivos para minar e denegrir até os conceitos de ambos).
Então, o que ela fez sobre o estado desmoralizante em que se encontrava?
Minha cliente não se sentia confiante o suficiente no seu cargo ou em
relação à capacidade dos seus gerentes para que pudesse discutir
abertamente as suas objeções, embora as nossas conversas evidenciassem o
seu desejo intenso de escapar da situação. Em consequência, ela começou a
desenvolver o que poderia ser considerado uma ação de retaguarda. Ela já
estava envolvida no desenvolvimento de projetos de treinamento interno para a empresa, como mencionamos. Foi possível, portanto, começar a se
diversificar, oferecendo seus serviços como palestrante em uma variedade
de conferências corporativas. Embora nunca tenha confrontado diretamente
a questão do flip chart (e pode ter sido sábio evitar fazê-lo), ela começou a
falar contra o tipo de pseudociência que caracteriza muitas das ideias que os
gerentes corporativos, em especial nos departamentos de recursos humanos,
consideram válidas. Por exemplo, realizou uma série de palestras criticando
a moda generalizada de “estilos de aprendizagem” — uma teoria baseada na
ideia de que existem entre quatro e oito diferentes modalidades preferidas e
mais favoráveis para cada indivíduo, quando usadas para dominar novas
ideias. Entre eles estão o visual, o auditivo, o verbal, o físico e o lógico.
O problema com a teoria dos estilos de aprendizagem? De forma bem
básica: simplesmente não há qualquer evidência de sua validade. Em
primeiro lugar, embora os alunos possam manifestar preferência por uma
forma de transmissão de informações em detrimento da outra, do ponto de
vista prático, transmiti-las de determinada forma não melhora seu
desempenho acadêmico.2 Em segundo lugar (e isso faz sentido, dado o
primeiro problema), não há evidências de que os professores possam avaliar
com precisão o “estilo de aprendizagem” de seus alunos.3 Portanto, embora
não tenha sido possível confrontar diretamente a tolice específica que a
perturbava, após uma longa estratégia e bastante trabalho, minha cliente
conseguiu se opor, de maneira muito eficaz, à ignorância que se passava por
conhecimento psicológico entre um subconjunto substancial de seus colegas
de trabalho (e funcionários de outras empresas, onde aconteciam as mesmas
coisas). Ela também havia trabalhado como jornalista para um dos
principais jornais da Albânia, seu país de origem, e começou a dar
prioridade a isso. Embora não fosse bem remunerado, o trabalho
possibilitou que ela desenvolvesse uma excelente reputação profissional e
que batalhasse na mídia impressa pelo que acreditava, alertando os cidadãos
de seu Estado, outrora dominado por comunistas, acerca do movimento em
direção à opinião totalitária, que começava a se tornar atraente para as
pessoas no Ocidente.
Que preço minha cliente pagou por sua decisão de se posicionar e lutar?
Para começar, ela teve que enfrentar seu medo de represálias, bem como o
fato de que tal medo — aliado à profunda aversão que sentia pelas
manobras ideológicas que caracterizavam seu local de trabalho — estava minando seu interesse pelo cargo, bem como fazendo-a se sentir inadequada
e covarde. Então, teve que ampliar suas atividades profissionais: primeiro,
correr o risco de se oferecer como palestrante em convenções corporativas
(e as pessoas geralmente são muito relutantes em falar em público — é um
medo comum, muitas vezes severo o suficiente para interferir no progresso
da carreira);4 segundo, dominar a literatura, capacitando-se a falar de
maneira confiável e informada; e terceiro, apresentar material que, dada a
sua natureza crítica, estava fadado a ofender uma proporção razoável dos
presentes (precisamente aqueles que aceitavam e propagavam as teorias que
ela agora desacreditava). Tudo isso significava enfrentar seu medo — de
inação tanto quanto de ação. Essas mudanças foram um intenso desafio,
mas a consequência foi a expansão de sua personalidade e competência,
bem como a consciência de que estava fazendo uma contribuição social
genuína.
Acredito que o bem que as pessoas fazem, por menor que pareça, tem uma
influência mais ampla no mundo do que se imagina, e acredito o mesmo
sobre o mal. Cada um de nós é mais responsável pelo estado do mundo do
que acreditamos ou nos sentiríamos confortáveis em aceitar. Sem atenção
cuidadosa, a própria cultura se inclina para a corrupção. A tirania cresce
devagar e exige que recuemos a passos relativamente pequenos. Mas cada
passo para trás aumenta a possibilidade do próximo recuo. Cada traição de
consciência, cada ato de silêncio (apesar do ressentimento que
experimentamos quando silenciados) e cada racionalização enfraquece a
resistência e aumenta a probabilidade do próximo movimento restritivo. É
isso que acontece quando aqueles que progridem se deleitam com o poder
recém-adquirido — e essas pessoas sempre existirão. É melhor se
posicionar, vigilante, quando os custos são relativamente baixos — e,
talvez, quando as potenciais recompensas ainda não tenham desaparecido.
Melhor se posicionar antes que a capacidade de fazê-lo seja comprometida
de forma irremediável. Infelizmente, muitas vezes as pessoas agem contra
sua consciência — mesmo sabendo disso —, e o inferno tende a chegar,
passo a passo, uma traição após a outra. Lembre-se de que é raro que as
pessoas se posicionem contra o que sabem ser errado, mesmo quando as
consequências são relativamente pequenas. E isso é algo a considerar
profundamente, se você está preocupado em levar uma vida moral e
cuidadosa: se não objetar quando as transgressões contra sua consciência são menores, por que presumir que não participará voluntariamente quando
elas de fato saírem do controle?
Parte de se mover para Além da Ordem é saber quando há motivos para
isso. Parte de se mover para Além da Ordem é entender que sua consciência
tem primazia sobre sua ação, de forma a se sobrepor ao dever social
convencional. Se você decidir se posicionar e recusar uma ordem, se fizer
algo que os outros desaprovam, mas que acredita firmemente ser o correto,
deve estar em uma posição de confiar em si mesmo. E isso requer tentar
viver uma vida honesta, significativa e produtiva (exatamente o tipo de vida
de uma pessoa que despertaria sua confiança). Se você agiu com honra — e,
portanto, se mostrou uma pessoa confiável —, será a sua decisão de se
recusar a obedecer ou agir de maneira contrária às expectativas do público
que ajudará a sociedade a se manter de pé. Ao fazer isso, você pode se
juntar à força da verdade que põe fim à corrupção e à tirania. O indivíduo
soberano, desperto e atento à sua consciência, é a força que impede o grupo
— como estrutura necessária que norteia as relações sociais normativas —
de se tornar cego e mortal.
Não quero terminar esta parte em um tom de falso otimismo. Em
correspondência posterior com minha cliente, soube que ela mudou de
emprego — de uma grande organização para outra — várias vezes nos anos
que se seguiram. Em um dos empregos, ela conseguiu um bom cargo, que
possibilitou que se envolvesse em um trabalho produtivo, sensato e
significativo. No entanto, embora bem-sucedida nessa empresa, ela foi
demitida durante uma reorganização corporativa e, desde então, descobriu
que as outras empresas para as quais trabalhou estão totalmente dominadas
pelos modismos das políticas linguísticas e de identidade, assim como seu
local de trabalho original. Alguns dragões estão por toda parte e não são
fáceis de derrotar. Mas suas tentativas de contra-atacar — seu trabalho para
desmascarar teorias pseudocientíficas; seu trabalho como jornalista —
ajudaram a fortalecê-la contra a depressão e a reforçar sua autoestima.
FORTIFIQUE SUA POSIÇÃO
Quando a cultura se desintegra — porque se recusa a se conscientizar de
sua própria patologia; porque o herói visionário está ausente —, ela desaba
no caos subjacente a tudo. Sob tais condições, o indivíduo pode mergulhar de maneira voluntária e tão profunda quanto ousar, e redescobrir os
princípios eternos que renovam a visão e a vida. A alternativa é desespero,
corrupção e niilismo — subjugação impensada às falsas promessas do
utopismo totalitário e da vida como um escravo infeliz, mentiroso e
ressentido.
Se você deseja se envolver em um grande empreendimento — mesmo que
se considere uma mera peça da engrenagem —, precisa deixar de fazer
coisas que odeia. Deve fortificar sua posição, independentemente de sua
mesquinhez e pequenez, enfrentar a falsidade organizacional que mina seu
espírito, enfrentar o caos que emerge, resgatar seu pai quase morto das
profundezas e viver uma vida genuína e verdadeira. Do contrário, a
natureza se envergonha, a sociedade se torna estúpida e você continua uma
marionete, com seus cordões manipulados por forças demoníacas que
operam nos bastidores — e tem mais uma coisa: a culpa é sua. Ninguém
está destinado, no sentido determinístico, a permanecer uma marionete.
Não estamos desamparados. Mesmo sob os escombros das vidas mais
destruídas, ainda podemos encontrar armas úteis. Da mesma forma, até o
gigante de aparência mais terrível pode não ser tão onipotente quanto
proclama ou aparenta. Admita a possibilidade de ser capaz de revidar; a
possibilidade de resistir e preservar sua alma — e talvez até mesmo seu
trabalho. (Mas também há a possibilidade de surgir um emprego melhor se
conseguir tolerar a ideia da transformação.) Se você está disposto a se
conceituar como alguém que poderia — e, talvez mais importante, deveria
— defender sua posição, pode começar a perceber as armas à sua
disposição. Se o que está fazendo o leva a atacar os outros impulsivamente;
se o que está fazendo destrói sua motivação para seguir em frente; se suas
ações e omissões fazem com que sinta desprezo por si mesmo e, pior, pelo
mundo; se a maneira como conduz sua vida impossibilita que acorde feliz
pela manhã; se está atormentado por um profundo sentimento de autotraição
— talvez esteja optando por ignorar aquela voz calma e baixa, por mais
inclinado que possa estar a considerá-la algo a que só os fracos e ingênuos
atendem.
Se em seu trabalho você for requisitado a fazer algo que desperte o
desprezo por si mesmo — que o leve a se sentir fraco e envergonhado,
propenso a atacar aqueles que ama, sem vontade de ter um desempenho
produtivo e cansado de sua vida —, é possível que seja hora de refletir, avaliar, criar estratégias e se colocar em uma posição em que seja capaz de
dizer não.II Talvez você conquiste mais respeito das pessoas às quais se
opõe por motivos morais, mesmo que ainda pague um preço alto por suas
ações. Talvez elas até venham a repensar a própria postura — se não agora,
com o tempo (já que suas consciências podem atormentá-las com a mesma
voz calma e baixa).
PRATICABILIDADES
Talvez você também deva se preparar para uma mudança lateral — para
outro emprego, por exemplo, constatando algo como: “Esta profissão está
anestesiando minha alma, e definitivamente não é para mim. É hora de dar
os passos necessários, e meticulosos, para organizar meu currículo e me
engajar na difícil, exigente e muitas vezes ingrata busca de um novo
emprego” (mas na qual você só precisa ter sucesso uma vez). Talvez possa
encontrar um cargo que pague melhor e seja mais interessante, e no qual
trabalhe com pessoas que não apenas se recusem a aniquilar seu espírito,
mas também o rejuvenesçam. Talvez seguir os ditames da consciência seja,
de fato, o melhor plano possível à sua disposição — o mínimo a fazer, caso
contrário, você terá que viver com o seu senso de autotraição e o
reconhecimento de que suportou o que, na verdade, era intolerável. Nada
disso é bom.
Posso ser demitido. Bem, prepare-se agora para procurar e conseguir outro
emprego, que com sorte será melhor (ou para discutir com seu gerente com
um argumento bem preparado e articulado). E não parta do pressuposto de
que deixar o emprego, mesmo que de maneira involuntária, seja
necessariamente algo ruim.
Tenho medo de mudar. Bem, claro que tem, mas medo comparado a quê?
Esse medo se equipara ao de continuar em um trabalho no qual o que está
em jogo é a essência de ser; no qual se torna mais fraco, mais desprezível,
mais amargo e mais sujeito à pressão e à tirania ao longo dos anos? Existem
poucas opções na vida em que não há risco de ambos os lados, e muitas
vezes é necessário contemplar com a mesma minúcia os riscos de mudar e
de permanecer inerte. Tenho visto muitas pessoas mudarem, às vezes após
vários anos de estratégias, e acabarem em uma situação melhor, psicológica
e pragmaticamente, depois de sua provação.
Talvez ninguém mais me queira. Bem, a taxa de rejeição de candidaturas
para novos empregos é extraordinariamente alta. Digo aos meus clientes
para presumir uma taxa de 50:1, assim, suas expectativas são definidas de
forma realista. Em muitos casos, você será preterido para vários cargos para
os quais está qualificado. Mas isso raramente é pessoal. Em vez disso, é
uma condição de existência, uma consequência inevitável de uma sujeição
um tanto arbitrária às condições ambivalentes de dignidade que
caracterizam a sociedade. É consequência do fato de que currículos são
fáceis de divulgar e difíceis de serem analisados; de que muitos empregos
têm candidatos internos não divulgados (e que, portanto, estão apenas
seguindo a maré); e de que algumas empresas mantêm um estoque
circulante de candidatos, caso precisem contratar rapidamente. Esse é um
problema atuarial, estatístico, de parâmetros — e não necessariamente uma
indicação de que há algo errado com você. O ideal é incorporar todo o
realismo pessimista em suas expectativas, para não ficar desanimado
demais. Estime 150 candidaturas, escolhidas a dedo, que acarretarão de 3 a
5 entrevistas. Essa pode ser uma missão de um ano ou mais. É muito menos
do que uma vida inteira de infelicidade e trajetória descendente. Mas não é
algo insignificante. É preciso se fortalecer para isso, planejar e obter o apoio
de pessoas que entendem o que você está fazendo e que avaliem
realisticamente a dificuldade e as opções.
No entanto, também pode ser que você esteja atrasado no
desenvolvimento de suas habilidades e possa melhorar seu desempenho no
trabalho, de modo a aumentar suas chances de ser contratado em outro
lugar. Mas não há perda nesse processo. Quando não existem opções de
mudança, não se pode dizer “não” com propriedade diante de um poder
corrupto. Em consequência, você tem a obrigação moral de se colocar em
uma posição de relativa força e fazer o que for necessário para aproveitá-la.
Talvez também seja necessário ponderar o pior cenário possível e discuti-lo
com aqueles que serão afetados por suas decisões. Entretanto, mais uma
vez, vale a pena perceber que ficar onde não deveria estar pode ser o
verdadeiro pior cenário: que o arrasta e o mata lentamente ao longo de
décadas. Essa não é uma boa morte, embora lenta, e pouquíssimo nela não
remete à desesperança que faz as pessoas envelhecerem rapidamente e
ansiarem pelo fim da carreira e, pior, da vida. Isso não é aprimoramento.
Como diz o velho clichê: se precisa arrancar o Band-Aid, é melhor que seja
de uma vez. Você pode até esperar enfrentar alguns dolorosos anos de reconhecimento tardio de sua insuficiência e ser obrigado a enviar quatro,
cinco ou dez solicitações de entrevista de emprego por semana, sabendo
muito bem que a maioria será rejeitada sem ao menos uma segunda análise.
Mas só é preciso ganhar na loteria uma vez, e alguns anos de dificuldade e
esperança superam toda uma vida infeliz com uma carreira degenerada e
oprimida.
E sejamos claros: não é uma simples questão de odiar o seu trabalho
porque ele exige que você acorde muito cedo pela manhã, ou que se arraste
até lá quando está muito calor — ou frio, com muito vento ou ainda seco
demais — ou quando está deprimido e com vontade de ficar na cama. Não é
uma questão da frustração provocada quando é exigido que faça coisas
servis ou necessárias, como esvaziar latas de lixo, varrer o chão, limpar
banheiros ou, de qualquer outra forma, ocupar um lugar humilde, mas
merecido, na base da hierarquia de competência — ou mesmo de tempo de
serviço. O ressentimento decorrente desse trabalho necessário é, na maioria
das vezes, apenas ingratidão, incapacidade de aceitar um lugar humilde e
incipiente, relutância em adotar a posição do tolo ou arrogância e falta de
disciplina. A recusa do chamado da consciência não é, de forma alguma, a
mesma coisa que a irritação acerca de um baixo status indesejável.
Essa rejeição — a traição da alma — é, na verdade, o requisito para
realizar um trabalho comprovadamente contraproducente, absurdo ou inútil;
para tratar os outros injustamente e mentir sobre isso; para se enredar em
uma ilusão, trair seu “eu” futuro; para tolerar tortura e abusos
desnecessários (e observar silenciosamente os outros sofrerem o mesmo
tratamento). Essa rejeição é fechar os olhos e concordar em dizer e fazer
coisas que traem seus valores mais profundos e que o tornam um trapaceiro
em seu próprio jogo. E não há dúvida de que o caminho para o inferno,
pessoal e socialmente, não está pavimentado com boas intenções, mas, sim,
com a adoção de atitudes e atos que perturbam inevitavelmente a sua
consciência.
Não faça o que odeia.
“EM NOSSO KOLKHOZ NÃO HÁ LUGAR PARA SACERDOTES E KULAKS”
I Obtive permissão expressa de minha cliente para fornecer todas essas informações.
II Talvez não só uma vez, porque isso significa uma reação muito impulsiva; talvez não só duas vezes, pois isso ainda pode não constituir evidência suficiente para arriscar empreender o que pode ser uma guerra genuína; mas definitivamente três vezes, quando um padrão foi claramente estabelecido.