Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida
Regra 11: Não permita que você se torne ressentido, dissimulado ou arrogante
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
REGRA 11
NÃO PERMITA QUE VOCÊ SE TORNE
RESSENTIDO, DISSIMULADO OU
ARROGANTE
O IMPORTANTE É A HISTÓRIA
Você tem motivos para ser ressentido, dissimulado e arrogante. Enfrenta, ou
enfrentará, forças terríveis e caóticas, e às vezes será derrotado. Ansiedade,
dúvida, vergonha, sofrimento e doença; a agonia da consciência; o abismo
de tristeza que destrói a alma; sonhos arruinados e decepção; a concretude
da traição; a sujeição à tirania do ser social; e a ignomínia de envelhecer até
morrer — como não degenerar, se enfurecer, pecar e passar a odiar até a
própria esperança? Quero que você saiba como resistir a esse declínio, essa
degeneração para o mal. Para tanto — para entender sua própria
personalidade e a tentação das trevas —, é preciso saber contra o que está
lutando. Você precisa entender suas motivações para o mal — e, pelo que
fui capaz de formular, a tríade de ressentimento, dissimulação e arrogância
é um bom resumo dos elementos que constituem o mal.
É possível entender o mundo de uma forma que viabilize proteção contra a
tentação de tomar o pior dos caminhos? É um axioma da sabedoria humana
que uma formulação mais clara e uma compreensão mais profunda de um
problema são salutares. Tentaremos fazer exatamente isso com uma
mudança conceitual — que é difícil e confusa para nós, que hoje somos
materialistas ferrenhos. Primeiro, uma pergunta: de que é feito o mundo?
Para respondê-la, precisaremos considerar a realidade — o mundo — como
se fosse totalmente experimentada por alguém vivo e desperto, com toda a
riqueza do subjetivo deixada intacta — sonhos, experiências sensoriais, sentimentos, impulsos e fantasias. Esse é o mundo que se manifesta para
sua consciência individual única — ou, melhor, com o qual ela se depara.
Considere o ato de acordar pela manhã. Se lhe perguntassem o que você
percebe, naquele exato momento, poderia muito bem mencionar os mesmos
objetos concretos que qualquer outra pessoa veria se acordasse na cama ao
seu lado. Pode descrever tudo o que está ao seu redor no quarto — a
escrivaninha, as cadeiras, as roupas (bagunçadas ou bem arrumadas,
dependendo de seu temperamento e preferência e, talvez, de sua condição
na noite anterior). É provável que você responda dessa maneira muito
objetiva e realista, declarando, essencialmente, que vê a mobília no cenário.
É claro que há alguma verdade em sua resposta, embora você possa prestar
menos atenção às coisas familiares ao seu redor do que pensa. Por que
perder tempo e energia percebendo o que pode simplesmente lembrar?
No entanto, os móveis e outros itens em seu quarto não são o que você
verdadeiramente percebe ao acordar. Você já está familiarizado com o lugar
onde dorme e o que ele contém. Não há razão para continuar a apreender
com esforço e consciência o que já entende. Em vez disso, você está fadado
a perceber seus arredores psicologicamente. Começa a considerar como se
comportará no cenário que inevitavelmente ocupará e o que acontecerá em
consequência. O que vê ao acordar é uma série de possibilidades, muitas
delas relativas ao dia que se inicia, outras associadas às semanas, aos meses
e aos anos que virão. O que realmente o preocupa ao acordar é a resposta
para a pergunta: “O que devo fazer com as possibilidades — que podem ser
complexas, preocupantes, emocionantes, maçantes, restritas, ilimitadas,
afortunadas ou catastróficas — que vejo diante de mim?”
Lá fora, no potencial, está tudo o que você poderia ter. É o reino das
possibilidades não realizadas e ninguém conhece a extensão total dele. Em
princípio, parece não haver limite para o que pode ser feito a partir do que
ainda não se manifestou. Tudo o que ainda pode ser habita esse reino. Você
poderia muito bem considerar o que ainda não foi descoberto como uma
eterna câmara do tesouro ou uma cornucópia (que são, na verdade, duas
dentre as representações). Mas isso é apenas metade da história (e aí está o
problema). Se o potencial diante de você se manifestar de maneira
inadequada (por exemplo, por causa de um erro de sua parte ou da absoluta
arbitrariedade do mundo), então você acabará em terríveis apuros. É lá fora,
no desconhecido — no futuro, aquilo que você de fato confronta quando sua consciência redesperta —, que o aguarda tudo de bom, mas também
tudo de terrível, doloroso, infernal e mortal. Portanto, seja o que for esse
potencial, ele não segue as regras simples da lógica material. Objetos que
respeitam as regras do jogo e que consideramos reais (quando supomos que
algo que é real também é lógico) só podem ser uma coisa de cada vez, e
certamente jamais poderão ser, ao mesmo tempo, o que são e o seu oposto.
No entanto, o potencial não é assim. Não é categorizável dessa maneira. É
tragédia, comédia, bem e mal, e tudo mais ao mesmo tempo. Também não é
tangível, no sentido de que algo que consideramos deve ser tangível. O
potencial nem sequer existe — exceto como o que poderia vir a ser. Talvez
seja mais bem explicado como a estrutura da realidade, antes que esta se
manifeste concretamente no presente, onde ela parece existir de forma mais
evidente. Mas criaturas como nós não confrontam o presente. Portanto,
existe a possibilidade de o presente não ser o mais real — pelo menos no
que diz respeito à nossa consciência. Temos que lutar para “estar aqui
agora”, esse é o conselho dos sábios. Deixados por conta própria,
direcionamos nossas mentes à investigação do futuro: o que poderia ser? A
vida é a tentativa de responder a essa pergunta. Esse é o verdadeiro
encontro com a realidade. O que é? consiste no passado morto, já realizado.
O que poderia ser? consiste na emergência de um novo ser, de uma nova
aventura, produzida pela conjunção da consciência viva com a grande
expansão da possibilidade paradoxal.
Então, se a possibilidade é o mais real, e não a realidade (como
evidenciado pelo fato de que é com a possibilidade que estamos destinados
a lutar), sua investigação é a mais importante de todas. Mas como
investigamos algo que não está aqui, ou lá, ou em lugar algum? Como
examinamos o que ainda não se manifestou; exploramos o que apenas
poderia ser, mas ainda não é? E como podemos nos comunicar uns com os
outros de maneira inteligível sobre essa tentativa, trocar informações sobre
as conceitualizações, abordagens e estratégias mais eficazes? A resposta,
pelo que posso dizer, é transmitir, por meio de histórias, o que é e também o
que poderia ser. E isso implica que, se a possibilidade é o último elemento
da realidade com o qual lutamos, então as histórias que contêm a sabedoria
são as que mais precisamos conhecer.
Pensamos, de modo espontâneo, em nossas vidas como histórias e
comunicamos nossa experiência da mesma forma. Dizemos às pessoas
automaticamente onde estamos (para definir o cenário) e para onde vamos, a fim de que possamos criar o presente a partir da possibilidade que surge à
medida que caminhamos em direção ao nosso destino. Ninguém acha um
relato como esse fora do comum. Porém, estamos fazendo mais do que
retratar nossas vidas e as de outras pessoas como uma sequência de eventos.
É algo mais profundo. Quando narra as ações de uma pessoa no mundo,
você descreve como ela percebe, avalia, pensa e age — e, ao fazer isso, uma
história se desenrola (e, quanto melhor você for nessas descrições, mais
seus relatos parecerão histórias). Além disso, experimentamos o mundo
como um lugar povoado por figuras que representam exatamente aquilo
com que devemos lutar. O desconhecido, inesperado e novo — o mundo das
possibilidades — é representado de forma dramática, assim como o mundo
que desejamos e nos esforçamos para criar, e nós mesmos, como atores
confrontados com o desconhecido e o previsível. Usamos a história para
representar tudo isso.
Será que nos comunicamos por meio de histórias (e todos as entendem)
porque o que estamos fazendo no mundo é fundamentalmente uma história?
Poderia significar que o mundo da experiência é, na verdade, algo
percebido inextricavelmente como uma história — e não poderia ser
representado em formato mais preciso? Estamos, em princípio, adaptados
ao mundo — adaptados às suas realidades. Assim, se construirmos
naturalmente o mundo como uma história, talvez ele seja interpretado de
modo mais preciso, ou pelo menos mais factível, na forma de história (e
preciso e factível não são aspectos tão fáceis de distinguir). Você pode
contra-argumentar que a visão científica do mundo é mais precisa, em certo
sentido, e que ela não é fundamentalmente uma história. Mas, até onde sei,
ela ainda está aninhada em uma história: algo como “a busca cuidadosa e
imparcial da verdade tornará o mundo um lugar melhor para todas as
pessoas, ao reduzir o sofrimento, prolongar a vida e produzir riqueza”. Caso
contrário, por que praticar a ciência? Por que alguém enfrentaria as
dificuldades e os rigores do treinamento científico sem essa motivação?
Existem maneiras mais eficazes de ganhar dinheiro, por exemplo, se você
tiver a inteligência e a disciplina para se tornar um pesquisador genuíno. E,
em termos de motivação intrínseca, o amor pela ciência não é exatamente
um aprendizado desinteressado. Os grandes pesquisadores e escritores
científicos que conheci são apaixonados por sua busca. Algo emocional os
move. Eles esperam que seu aprendizado (por mais desinteressado que
possa ser de início, visto que não há objetivo específico, exceto o de aprender) terá algum resultado genuinamente positivo: tornar o mundo um
lugar melhor. Isso confere a toda a busca um elemento narrativo, o motivo
que acompanha qualquer bom enredo e a transformação do personagem que
compõe o melhor das histórias.
Conceitualizamos o que experimentamos na forma de história. Essa
história é, em termos gerais, a descrição do lugar em que estamos agora,
bem como do lugar para onde estamos indo, das estratégias e aventuras que
implementamos e vivenciamos ao longo do caminho, e de nossas quedas e
reconstituições durante essa jornada. Você se percebe e age dentro de uma
estrutura assim o tempo todo, pois está sempre em um lugar, indo para
outro, e está sempre avaliando onde está e o que está acontecendo em
relação ao seu objetivo. Parte desse racional nas histórias reflete nossa
tendência de ver o mundo como uma seleção de personagens, cada um dos
quais representa onde estamos ou para onde estamos indo, as ocorrências
inesperadas que podemos encontrar ou nós mesmos nos papéis de atores.
Vemos intenções animadas em todos os lugares1 — e certamente
apresentamos o mundo dessa forma para nossos filhos. É por isso que
Thomas, o Trem, tem um rosto e um sorriso, e o sol tem um rosto e um
sorriso. É por isso que — mesmo entre os adultos — há um homem na lua e
divindades espalhadas pelas estrelas. Tudo é animado. Isso é um reflexo de
nossa tendência a tratar as coisas como se fossem personalidades com um
propósito, independentemente do que sejam, independentemente de serem
animadas ou inanimadas. É por isso que você não vê problemas em
imaginar um rosto no seu carro (na frente, no lugar apropriado), o que sem
dúvida imagina.
Agimos (percebemos, pensamos, reagimos) dessa forma porque cada
membro da espécie humana faz quase tudo, para o bem ou para o mal, na
presença de outras pessoas. E tem sido assim desde sempre. Praticamente
tudo com que nos deparamos na longa ascensão biológica à nossa forma
atual foi social. Se não estávamos interagindo com pessoas, era com
animais. Caçando, pastoreando ou brincando com eles, depois de
domesticados — ou talvez fossem eles que nos caçavam e precisávamos
entendê-los para escapar ou nos defender. Toda essa interação tribal,
intertribal e entre espécies moldou nossos cérebros, configurou nossas
categorias fundamentais, tornando-as sociais, e não objetivas — não como
as categorias da ciência. Não nascemos com um instinto para a tabela periódica dos elementos. Não. Só conseguimos criá-la há algumas centenas
de anos, e levou muito tempo e esforço consciente para formulá-la. Além
disso, embora tenham sido outras pessoas que fizeram o trabalho
terrivelmente árduo e necessário para estabelecer esse notável sistema de
categorias químicas, é difícil aprendê-lo. Não é tão interessante,
intrinsecamente (pelo menos para a maioria das pessoas), porque não há
uma história associada. Sem sombra de dúvida, consiste em uma
representação precisa e útil da realidade objetiva daquilo que é, mas
dominar a percepção desse tipo abstrato de realidade exige esforço.
Por outro lado, se alguém está lhe contando uma história, ela atrai sua
atenção de imediato. Pode ser uma história complicada e cognitivamente
difícil — algo que requeira horas de concentração. Pode até ser a história de
como a tabela periódica dos elementos foi descoberta e dos triunfos e das
dificuldades que acompanharam o processo. Não importa. Se for bem
contada, será emocionante e, provavelmente, lembrada. Se quiser ensinar
algo a uma criança e fazer com que ela participe, conte uma história. Ela
pedirá que você faça isso repetidamente. Ela não agarra a perna da sua calça
e implora: “Ah, papai, leia mais uma linha da tabela periódica para eu
dormir!” Mas está sempre muito motivada para ouvir uma história — às
vezes até a mesma todas as noites. Esta é uma indicação da profundidade e
da importância das histórias. Você pode pensar que a história é simples, mas
seu filho, ao ouvi-la com atenção, processa os vários níveis de significado
representados em qualquer narrativa decente — significados dos quais você
mesmo dificilmente está ciente —, se a história que está contando for
tradicional e profunda.
Somos todos humanos. Isso significa que, em nossa experiência, há algo
em comum. Do contrário, nem todos seríamos humanos. Nem mesmo
seríamos capazes de nos comunicar. Para nos comunicar, paradoxalmente,
deve haver coisas sobre você e outras pessoas que não precisam ser ditas.
Imagine que você fale para alguém: “Fiquei muito zangado esta manhã.” Se
houver qualquer indicação de que deseja que a conversa continue, e a
pessoa estiver de acordo, ela pode perguntar por quê; mas não é provável
que pergunte: “O que você quer dizer com ‘zangado’?” Ninguém faria essa
pergunta porque já sabe, por experiência própria, o significado de
“zangado”, que pode ser presumido, em vez de explicado. Na verdade, a
única razão pela qual conseguimos conversar é por existir alguns conceitos
que não necessitam de explicação. Você pode simplesmente presumir que são entendidos. Por exemplo, sabemos que existem conjuntos básicos de
emoções compartilhadas por todos os humanos — e por muitos animais2 —,
não importa o lugar do mundo. Todo ser humano entende uma mãe ursa
rosnando para defender seus filhotes, os dentes à mostra para que todos
possam ver. São as coisas que não precisamos explicar que nos tornam
humanos, que constituem a essência, por mais que ela permaneça mutável
pelas ações da sociedade e do meio ambiente.
Então, vamos à história — ou, melhor, à história da história.
Conheceremos os personagens cuja existência estrutura universalmente
nossa compreensão do potencial do mundo. E, com sorte, ao conhecê-los,
começaremos a entender bem o suficiente sua relação com o ressentimento,
a dissimulação e a arrogância, para que esse entendimento nos ofereça
alguma proteção.
OS ETERNOS PAPÉIS DO DRAMA HUMANO
O DRAGÃO DO CAOS
Quando meu filho, Julian, tinha cerca de 4 anos, assistia ao filme Pinóquio
obsessivamente — em especial à parte que a baleia, Monstro, se transforma
em um dragão cuspidor de fogo. Deve ter visto cinquenta vezes. E não
ficava claro se gostava. Ele nitidamente tinha medo da cena emblemática.
Dava para ver em seu rosto. E havia boas razões para tanto. Nessa parte, os
personagens com os quais ele passou a se identificar correm grande risco.
Há um forte tema de perigo e sacrifício. Mesmo assim, era a cena que mais
o fascinava.
O que diabos ele estava fazendo ao assistir ao filme várias vezes?
Principalmente quando a emoção gerada era medo? Por que uma criança se
sujeitaria voluntariamente a isso? Julian estava usando todas as faculdades
de sua mente recém-formada, tanto racionais quanto inconscientes, para
processar as relações em tal história. Pinóquio e contos similares são
densos, com muitas camadas, e complexos de maneiras que capturam a
imaginação das crianças e não a deixam escapar. Isso não é acidental. As
crianças são pequenas e jovens e, de certa forma, não sabem nada, pois têm
pouquíssima experiência pessoal. Mas, ao mesmo tempo, em certo sentido,
são criaturas ancestrais e de forma alguma estúpidas ou desatentas. O fato de ficarem fascinadas por contos de fadas e histórias como Pinóquio é uma
indicação de quanta profundidade elas percebem nessas narrativas, mesmo
que você, como um observador adulto, não tenha mais essa percepção.
A baleia Monstro é o Dragão do Caos. É a representação simbólica do
potencial, da possibilidade, para o bem e para o mal. As representações
dessa figura aparecem em todos os lugares e as crianças as percebem,
mesmo que não tenham ideia do que significam. Por exemplo, no clássico
da Disney A Bela Adormecida, a Rainha Má, Malévola, aprisiona o príncipe
Felipe. Ela o acorrenta na masmorra do castelo e narra para ele uma espécie
de conto de fadas fascinante. Ela se delicia ao descrever como ele será um
homem velho e arruinado seis ou sete décadas depois, quando ela se dignar
a libertá-lo de sua cela. Malévola o retrata como um reles arremedo de
herói, e se diverte fazendo isso. Depois tranca a porta da cela ao sair, sobe
as escadas de volta ao palácio e ri, maquiavélica, o tempo todo. É a clássica
mãe edipiana devoradora, que impede o filho de realizar seu destino ao se
recusar a permitir que ele saia de casa.
O príncipe escapa da masmorra, com a ajuda do feminino positivo: três
fadas prestativas, que são claramente as contrapartes míticas de Malévola.
A Rainha Má o vê montar em seu cavalo e abrir caminho perigosamente por
seu exército, atravessar passarelas que desmoronam e pontes levadiças que
se fecham e pegar a estrada que o leva para fora da pretensa armadilha que
é o castelo. Tomada pela ira, Malévola sobe até o topo da torre. Enfurecida,
ela invoca o próprio fogo do inferno e se transforma em um dragão gigante
cuspidor de fogo. Todos que assistem ao filme aceitam a transformação
como natural: “Claro que a Rainha Má vira um dragão. Não há problema
algum nisso.” Por que é algo universalmente aceitável? Por si só, a
transformação não faz sentido. Em um momento, ela está de pé, uma
Rainha Má perfeitamente compreensível, embora furiosa. Em seguida, ela
gira algumas vezes e — puf! — é um réptil gigante cuspidor de fogo.
Talvez você esteja pensando ao ler isto: “Por que bater nesta tecla? Até meu
filho de 4 anos entende!” Não tenho problema com uma Rainha Má que se
transforma em dragão. É algo tão evidente que pode acontecer até mesmo
no meio de um filme popular e ser aceito pelo valor aparente — é tão
evidente que chega a ser difícil chamar a atenção das pessoas para a ideia de
que algo muito estranho aconteceu.
No entanto, se a rainha Elizabeth II de repente se transformasse em um
lagarto gigante cuspidor de fogo no meio de um de seus infindáveis bailes,
uma certa consternação seria apropriada e esperada. Pessoas — mesmo os
monarcas de um grande reino — não se transformam em répteis perigosos e
atacam seus convidados (bem, não na maioria das festas). Porém, se ocorrer
dentro do contexto de uma história, nós aceitamos. Ainda assim, não
explica o mistério. Nem toda transformação pode acontecer dentro de uma
história. Não teria feito sentido algum se Malévola tivesse surgido com um
vestido cor-de-rosa cintilante e começado a lançar rosas no caminho que o
príncipe Felipe percorreu para fugir da masmorra. Isso não é da natureza de
Malévola nem faz parte do conjunto de expectativas narrativas que todo
público traz implicitamente para cada filme (e é improvável que ele aprecie
ver essa expectativa desmoronar, a menos que feito com excepcional
sutileza e um propósito de ordem superior). Mas não é um problema que a
Rainha Má se torne um dragão. Por quê? Em parte, pois a natureza pode e
constantemente reverte seu disfarce perigoso, mas ainda compreensível, no
caos total. Isso acontece, por exemplo, quando a fogueira que acabamos de
acender a fim de nos reunir para cantar e assar salsichas pega uma rajada
repentina de ar quente e seco e a floresta que abriga nossas barracas, muito
seca pela falta de chuva, se transforma em um inferno furioso. Perigos com
os quais podemos lidar podem, de repente, se tornar perigos com os quais
não podemos lidar. É por isso que não é surpresa para ninguém quando a
Rainha Má se transforma no Dragão do Caos.
Imagine, por um instante, que você é um ser proto-humano pré-histórico.
Está acampado para pernoitar, e esse local é um território definido —
significa segurança e previsibilidade naquele momento. Seus amigos estão
lá, sua família tribal. Vocês têm lanças. Têm uma fogueira. É seguro — ou
pelo menos é considerado seguro nessas condições. Mas, se você
perambular sem cuidado a meros sessenta metros de distância da fogueira,
algo horrível com dentes e escamas o devorará. É isso o que existe no
terrível desconhecido. Essa ideia está profundamente enraizada dentro de
nós. Sabemos que os seres humanos têm medo inato, por exemplo, de
predadores reptilianos — e temos boas razões para isso. Não se trata apenas
do fato de que somos predispostos a aprender a ter medo deles (o que é
verdade), mas de que o medo em si é inato.3 Para todos os efeitos, dentro de
nós, existe uma imagem do terrível predador que está à espreita na noite. É
por isso que as crianças sentem medo do escuro quando têm idade suficiente para perambular sozinhas.4 “Há um monstro no escuro, papai!”,
insistem elas, quando chega a noite. E papai garante que monstros não
existem. Bem, o adulto está errado e a criança está certa. Saber que não há
um monstro naquela escuridão específica, naquele momento, não é um
grande alívio quando você tem um metro de altura e é saboroso. Pode haver
— e haverá — um monstro lá no futuro. Por isso é mais proveitoso dizer
para seu filho, de forma direta e por meio de ações, que sempre há algo
sinistro e perigoso na escuridão, e que a tarefa do indivíduo bem preparado
é confrontá-lo e tomar o tesouro que ele arquetipicamente guarda. Isso é
algo que um adulto e uma criança podem colocar em prática com ótimos
resultados.
Cerca de um ano e meio antes de seu encontro com Pinóquio, levei Julian
ao Museu de Ciências de Boston. Lá, havia um esqueleto de Tiranossauro
rex. Do meu ponto de vista, era imenso. Mas era ainda maior da perspectiva
de Julian. Ele não se aproximou mais do que 30 metros. A 45 metros, sua
curiosidade o instigou a chegar mais perto. Porém, quando nos
aproximamos, ele travou. Esse também foi um fenômeno neurológico. Sua
curiosidade o levou adiante, em direção ao monstro, para que ele pudesse
coletar algumas informações úteis — até que o medo o paralisou. O limite
era nítido. Talvez representasse até que ponto ele poderia se aproximar e
continuar seguro se aquela coisa repentinamente virasse a cabeça para
agarrá-lo.
Há uma ideia profundamente enraizada na psique humana de que o
potencial guarda o derradeiro horror, lar do predador infinito — ou de uma
variedade infinita de predadores. Em um sentido prático, é verdade, pois os
seres humanos são presas desde o início dos tempos, embora tenhamos
dificultado a vida dos predadores quando nos armamos e nos unimos.
(Pessoalmente, fico muito feliz com isso. Já acampei em áreas onde ursos
pardos são comuns. É bom que eles estejam no planeta e tudo mais, mas
prefiro ursos tímidos, com pouca fome e longe o suficiente para serem
pitorescos.) Todavia, existem forças espirituais e psicológicas que operam
de maneira predatória e também têm a capacidade de destruir você — e elas
podem representar um perigo ainda maior. A maleficência no coração das
pessoas, que as torna perversas, se enquadra nessa categoria, assim como o
mal que impulsiona a guerra totalitária de vingança, espoliação, ganância ou
puro amor ao sangue e à destruição. E essa maleficência também existe em seu coração, e esse é o maior dragão de todos — da mesma forma que
dominar essa maleficência constitui a maior e a mais improvável das
conquistas individuais.
Você foi construído, neurologicamente, para interpretar o mundo dessa
maneira dramatizada, em um nível muito profundo. Uma parte antiga do
seu cérebro conhecida como hipotálamo5 — uma pequena região situada no
topo da medula espinhal — regula muitas das reações fundamentais que
encontram sua expressão na conceituação de perigo e potencial. Um de seus
dois módulos é responsável pela autopreservação (fome, sede e, o mais
importante para nossos propósitos, agressão defensiva diante da ameaça),
bem como reprodução (excitação sexual e comportamento sexual básico). O
segundo é responsável pela exploração.I Metade do hipotálamo impulsiona
nosso uso do que foi explorado anteriormente para suprimir e satisfazer as
demandas básicas da vida, incluindo nossa capacidade de nos proteger em
caso de ataque. A outra metade está sempre perguntando: o que há lá fora?
Para que poderia ser usado? Quão perigoso pode ser? Quais são seus
hábitos? Então, qual é a história? Coma, beba e divirta-se até que as
provisões acabem — porém cuidado, sempre, com os monstros. Em
seguida, aventure-se no perigoso, mas promissor, mundo desconhecido e
descubra o que está lá. Por quê? Bem, você já sabe muitas coisas que
precisa saber, embora não saiba o suficiente. Entende isso porque a vida não
é tão boa quanto poderia ser e porque você morrerá um dia. Obviamente,
nessas condições, você deve aprender mais. Então, é levado a explorar. A
representação fundamental da realidade, como um tesouro eterno guardado
por um predador eterno, é, portanto, uma representação perfeita da maneira
como você está programado para reagir ao mundo nas profundezas mais
fundamentais do seu Ser.
NATUREZA: CRIAÇÃO E DESTRUIÇÃO
Todos nós temos uma imagem da natureza. Pode ser algo semelhante a uma
bela paisagem — a natureza tão benevolente e renovadora. É uma imagem
desse tipo que fundamenta a visão ambientalista sentimental do mundo.
Sendo do Norte de Alberta, no Canadá, não compartilho exatamente a
mesma visão da natureza, pois em minha cidade natal, Fairview, ela
conspira constantemente para congelar seus habitantes até a morte por seis
meses do ano e devorá-los por meio de insetos durante pelo menos mais
dois. Então essa é a parte menos romântica da natureza, que é violenta e
selvagem. Essa é a parte associada a ferimentos, doenças, morte, insanidade
e tudo o mais que pode e vai acontecer a você, como uma criatura biológica,
na extremidade negativa do continuum.
Existe o potencial do futuro que ainda não foi transformado em realidade
(representado, como vimos, pelo Dragão do Caos). Mas há a natureza que
você encontra diretamente em sua vida e que não pode ser considerada
absolutamente desconhecida. Existe o lado benevolente da natureza: o fato
de você estar aqui, vivo — e às vezes feliz; o fato de haver alimentos
deliciosos para comer e pessoas atraentes e interessantes para interagir, e
não faltarem coisas fascinantes para ver e fazer. Existem paisagens
incríveis. Há a beleza, a imortalidade e a imensidão do oceano. Existe todo
o elemento abundante e maravilhoso do Ser natural. Mas também há o
horror absoluto que o acompanha: destruição, doença, sofrimento e morte.
Esses dois elementos de experiência coexistem. Na verdade, o primeiro não
poderia existir sem o segundo: até mesmo dentro de seu próprio corpo, por
mais saudável que seja, um equilíbrio muito delicado entre a morte de cada
célula que deixou de ter utilidade e a nova vida que surge para substituí-la é
um pré-requisito para sua contínua existência.
Ambos os elementos da existência se manifestam em nossa imaginação de
forma personificada. Um é a Rainha Má, a Deusa da Destruição e da Morte;
o outro é sua contraparte positiva, a Fada Madrinha, a monarca benevolente,
a jovem e amorosa mãe que observa com infinito cuidado seu protegido
indefeso. Para viver adequadamente, você precisa estar familiarizado com
essas duas figuras. Uma criança, maltratada pela mãe, familiarizada apenas
com a Rainha Má, é prejudicada pela ausência de amor, abatida pela falta de
atenção e arbitrariamente sujeita ao medo, à dor e à agressão. Isso não é
jeito de viver, e é muito difícil crescer de modo funcional, capaz e sem desconfiança, ódio e desejo, digamos, de vingança. Então ela precisa
encontrar alguém para fazer o papel da Rainha Benevolente: um amigo, um
familiar, um personagem fictício — ou uma parte de sua própria psique,
motivada pela compreensão de que esse tratamento cruel é errado, pelo
juramento de aproveitar qualquer oportunidade que surja em seu caminho
para escapar dessas circunstâncias infelizes, deixá-las para trás e equilibrar
sua vida de maneira adequada. Talvez o primeiro passo nessa direção seja
postular, apesar da forma cruel com que foi tratada, que é de fato digna de
cuidado; e o segundo seja continuar a se doar, onde puder, apesar de ela
mesma receber tão pouco.
Se você compreender a polaridade da natureza, seu terror e sua
benevolência, reconhecerá dois elementos fundamentais da experiência
permanente, eterna e inevitável, e poderá, por exemplo, começar a
compreender a profunda atração pelo sacrifício. É um tropo religioso que os
sacrifícios mantêm os deuses felizes, e entender exatamente quem são os
deuses infelizes, por assim dizer, e quão terríveis podem ser nessa situação
é um passo genuíno em direção à sabedoria — um passo genuíno que nos
torna mais humildes. O homem moderno tem dificuldade em entender o que
significa sacrifício, porque logo imagina, por exemplo, uma oferta
queimada em um altar, que é uma forma arcaica de representar a ideia. Mas
não temos problema algum quando conceitualizamos o sacrifício em termos
psicológicos, pois todos sabemos que devemos abrir mão da gratificação no
presente para sobreviver no futuro. Então, você oferece algo para a deusa
negativa com o objetivo de que a positiva apareça. Dedica longas e árduas
horas para ser enfermeiro, médico ou assistente social. Essa atitude de
sacrifício é, de fato, a grande descoberta do futuro, conjugada com a
capacidade de negociar, barganhar e enfrentar esse futuro — abandonar a
gratificação impulsiva; abrir mão de algo de que precisa e deseja; obter algo
valioso em longo prazo (e manter o horror sob controle). Você renuncia às
festas e às horas agradáveis para enfrentar as dificuldades da vida. Faz isso
para que menos dessas dificuldades se manifestem — para você mesmo,
que terá um emprego bem-remunerado e estável, e para todos os outros que
ajudará à medida que a força desenvolvida por meio do sacrifício adequado
se manifestar. Estamos sempre negociando dessa maneira. Agimos
acreditando que podemos negociar com a estrutura da realidade.
Estranhamente, muitas vezes é possível. Se você for sensato, faz isso o
tempo todo. Prepara-se para o pior. Prepara-se para a chegada da Rainha Má. Faz o que tem de fazer, reconhece a existência dela e a mantém sob
controle — na proporção de sua sabedoria e de acordo com sua sorte. E, se
tiver sucesso, a Natureza Benevolente sorri para você — até que ela deixe
de sorrir. Mas pelo menos você tem algum controle sobre a situação. Não é
um alvo indefeso, um bebê na floresta, um caipira no parque de diversões
— ou pelo menos não mais do que precisa ser.
A natureza é também caos, pois está sempre causando estragos na cultura,
seu oposto existencial — e próximo assunto de nossa investigação. Afinal,
como diz Robert Burns: “Os melhores planos de ratos e homens/Por vezes
se arruínam!”II E com frequência é a natureza, em aspectos positivos e
negativos, que faz exatamente isso. Não é fácil equilibrar a fragilidade da
vida e a necessidade de procriação (e todas as incertezas da gravidez, do
nascimento e da criação dos filhos) com o desejo de certeza, previsibilidade
e ordem. E isso para não falar da morte (e até mesmo do câncer, que é,
afinal, apenas outra forma de vida). Mas tudo isso não quer dizer, jamais,
que o caos tenha menos valor do que a ordem. Sem a imprevisibilidade, não
há nada além de esterilidade, embora um pouco menos de
imprevisibilidade, muitas vezes, pareça bastante desejável.
Essa combinação natureza/caos é frequentemente vista em representações
da cultura pop. Como mencionamos, no filme da Disney A Bela
Adormecida, por exemplo, existe uma Rainha Má — assim como em A
Pequena Sereia (Úrsula), Branca de Neve (Rainha Má), 101 Dálmatas
(Cruela Cruel), Cinderela (Madrasta Má), Enrolados (Mãe Gothel) e Alice
no País das Maravilhas (Rainha de Copas). Ela representa o elemento cruel
do mundo natural. O exemplo de A Bela Adormecida é, mais uma vez,
especialmente pertinente. Lembre-se do que acontece na abertura do filme.
O rei e a rainha esperaram muito e agora estão desesperados para ter um
filho. A bênção lhes é concedida; a bebê nasce e eles a chamam de Aurora,
o amanhecer. O casal está extasiado, bem como todo o reino — e com
razão, porque uma nova vida chegou. Eles planejam uma grande festa de
batismo. É uma boa ideia, mas deixam de convidar Malévola, a Rainha Má,
para a celebração. E não é a ignorância que os impede. Eles sabem de sua
existência e estão familiarizados com seu poder. É cegueira intencional e
uma péssima ideia. Desejam proteger sua nova e preciosa filha do elemento
negativo do mundo, em vez de determinar como lhe fornecer a sabedoria e a
força para prevalecer, apesar da realidade do negativo. Tudo isso mantém Aurora ingênua e vulnerável. Malévola aparece mesmo assim, como é
inevitável, e há uma mensagem nisso: convide a Rainha Má para a vida de
seu filho. Se não o fizer, ele crescerá fraco e precisará de proteção, e a
Rainha Má se apresentará, não importa quais medidas você tome para
impedi-la. No batismo, ela não apenas comparece, bem-comportada, apesar
de não ter sido convidada, mas oferece um presente (em forma de
maldição): a morte de Aurora aos 16 anos, após espetar o dedo no fuso de
uma roca. E tudo isso porque ela não foi convidada para comemorar o
batismo da jovem princesa. Uma convidada compassiva e poderosa
intercede — uma das três fadas já mencionadas, representativa do feminino
positivo — e transmuta a maldição da morte para a inconsciência profunda,
um estado quase letal.
É o que acontece com as beldades, por assim dizer, que permanecem
adormecidas demais aos 16 anos: elas não querem ser conscientes, pois não
desenvolveram a coragem e a capacidade de enfrentar o elemento negativo
do mundo natural. Em vez de serem encorajadas, foram protegidas. Ao
resguardar os jovens, você os destrói. Deixa de convidar a Rainha Má para
suas vidas, ainda que para visitas breves. O que seus filhos farão quando ela
aparecer com força total, se estiverem completamente despreparados? Eles
não desejarão viver. Ansiarão pela inconsciência. E fica ainda pior. Ao
superproteger seus filhos, você se torna exatamente aquilo de que está
tentando protegê-los. Ao privá-los das aventuras necessárias de suas vidas
jovens, enfraquece o caráter deles. Você se torna o próprio Agente da
Destruição — a própria bruxa que devora a consciência autônoma de seus
filhos.
Há muitos anos, tive uma cliente que era uma versão real da Bela
Adormecida. Ela era alta, loira, magra como um palito (como diz a
expressão) e profundamente infeliz. Estava matriculada em um curso
profissionalizante, na esperança de ter mais chances de entrar em uma
universidade. Procurou-me porque não queria viver, mas também não
queria, de fato, morrer — pelo menos não de forma ativa. Em vez disso,
tentava se manter inconsciente com o uso de diazepam e suas variantes,
incluindo soníferos, que adquiriu em quantidades suficientes de seus
(vários) médicos, que sem dúvida estavam sobrecarregados o bastante para
não perceber exatamente o que ela estava fazendo. Minha cliente dormia
quinze ou dezesseis horas por dia. Era inteligente e culta, e me mostrou um
ensaio de filosofia que havia escrito sobre a inutilidade não só de sua vida, mas da vida em geral. Ao que parecia, ela era incapaz de tolerar a
responsabilidade, mas também não conseguia lidar com a crueldade que via
à sua volta. Era vegana e isso estava diretamente associado ao seu agudo
terror físico da vida. Não conseguia sequer passar pelo setor de carnes de
um supermercado. Onde outros viam cortes de alimentos a serem
preparados para sua família, ela via fileiras de pedaços de cadáveres. Essa
visão só servia para confirmar sua crença de que a vida era, em essência,
insuportável.
A mãe biológica de minha cliente morreu no parto, e ela foi criada pelo
pai e pela madrasta, que era uma verdadeira peste. Eu a vi apenas uma vez,
em meu consultório, durante o que normalmente teria sido uma sessão
clínica com sua enteada. Ela passou uma hora inteira me criticando
severamente: primeiro por ser de pouca utilidade como clínico e, segundo,
por “sem dúvida” culpá-la por tudo que havia de errado com minha cliente.
Tive a oportunidade de dizer, no máximo, uma dúzia de palavras. Foi uma
performance notável, provocada, creio eu, pela minha insistência de que os
telefonemas que ela fazia duas ou três vezes por dia para minha cliente
durante o horário de aula — dos quais tinha ouvido algumas gravações —
tinham de ser dez vezes menos frequentes e certamente precisavam ser mais
agradáveis. Não estou dizendo nem acreditava, à época, que tudo isso fosse
culpa da madrasta. Tenho certeza de que ela tinha seus motivos para estar
frustrada. A enteada não estava totalmente engajada na vida, para dizer o
mínimo; passara quatro dispendiosos anos com baixo desempenho em um
curso que deveria ter durado dois anos. Mas estava claro que telefonemas
três vezes ao dia, contendo principalmente raiva e insultos, não
aumentavam seu desejo de estar viva. Sugeri que telefonemas semanais se
tornassem a norma e incentivei-a a desligar o telefone se a conversa saísse
dos trilhos. Minha cliente colocou a sugestão em prática, e presumi que isso
contribuiu para a exigência de sua madrasta de vir me ver e me confrontar.
A Bela Adormecida descreveu sua infância como idílica. Disse que vivia
como uma princesa de conto de fadas; filha única, mimada por ambos os
pais. Mas tudo isso mudou quando atingiu a adolescência. A atitude de sua
madrasta passou de confiança para profunda desconfiança, e elas
começaram as brigas que continuamente caracterizaram seu relacionamento
a partir de então (minha cliente tinha 30 e poucos anos quando a conheci).
A questão sexual tinha mostrado sua cara feia. A reação da madrasta foi
agir como se sua inocente enteada tivesse sido substituída por uma impostora pervertida; a reação da menina foi namorar uma série de
vagabundos que, em certo nível, era o que achava que merecia (tendo
perdido a perfeita inocência da princesinha da casa) e, em outro aspecto,
constituía o castigo perfeito para a madrasta.
Juntos, elaboramos um programa de treinamento de exposição para ajudá-
la a superar o medo da vida. Em primeiro lugar, decidimos visitar um
açougue. O dono da loja e eu tínhamos nos tornado conhecidos ao longo
dos anos. Depois de explicar a situação de minha cliente para ele (com a
permissão dela), perguntei se poderia levá-la até sua loja, mostrar-lhe o
balcão de carnes e, então, quando estivesse pronta, acompanhá-la até os
fundos para que assistisse à equipe cortar as carcaças que chegavam pela
entrada de serviço. O homem concordou de imediato. O objetivo era apenas
entrar na loja com minha cliente. Garanti a ela que poderíamos fazer uma
pausa a qualquer momento ou encerrar a visita, e que sob nenhuma hipótese
eu iria enganá-la, induzi-la ou mesmo persuadi-la a ir além do que poderia
tolerar. Durante a primeira sessão, ela conseguiu entrar na loja e colocar a
mão no balcão. Estava tremendo e com lágrimas visíveis (algo que não é
fácil de fazer em público), mas conseguiu. Na quarta sessão, foi capaz de
observar os açougueiros usarem suas facas e serras nas enormes carcaças,
que ainda se assemelhavam aos animais que eram antes, desmembrando-as
nos cortes-padrão de venda. Não houve dúvida de que foi bom para ela.
Estava menos propensa, por exemplo, a se medicar até ficar inconsciente e
mais disposta a assistir às aulas. Tornou-se cada vez mais dura, resistente,
severa — adjetivos que nem sempre pretendem ser elogios, mas às vezes
são o antídoto necessário para o sentimentalismo exagerado, que é
perigosamente infantilizante. Também combinamos que ela passaria um fim
de semana em uma fazenda, rodeada por alguns animais comuns (porcos,
cavalos, galinhas, cabras). Pedi ao fazendeiro, que também tinha sido meu
cliente, que permitisse que ela o acompanhasse enquanto ele cuidava do
gado. Uma garota da cidade até a alma, minha cliente não sabia nada sobre
animais e tendia, em consequência, a romantizá-los exatamente à maneira
dos contos de fadas que permearam sua infância. A estada de dois dias no
campo e sua decisão de observar os animais cuidadosamente a ajudaram a
desenvolver uma percepção muito menos romantizada da verdadeira
natureza dos animais que criamos e comemos. Eles são seres sencientes, em
parte, e temos a responsabilidade de não lhes infligir mais sofrimento do
que o necessário, mas não são seres humanos e certamente não são crianças. Isso precisa ser entendido de modo personificado. O excesso de
sentimentalismo é uma doença, um fracasso no desenvolvimento e uma
maldição para as crianças e outras pessoas que precisam de nosso cuidado
(desde que não seja excessivo).
A Bela Adormecida era uma sonhadora extraordinária. Tive clientes que
normalmente se lembravam de dois ou três sonhos por noite, embora nem
sempre com muitos detalhes. Ela não apenas se lembrava de vários sonhos,
mas recordava todos os detalhes e, com frequência, também ficava lúcida
— consciente de estar sonhando — enquanto dormia. Foi a única pessoa
que conheci que era capaz de perguntar aos personagens dos seus sonhos o
que eles significavam — em termos simbólicos — ou que mensagem
tinham para ela, e eles lhe diziam abertamente. Um dia, ela me contou um
de seus muitos sonhos: caminhava sozinha no âmago de uma floresta muito
antiga e encontrou um anão vestido como um arlequim em meio à escuridão
e à penumbra. O anão se ofereceu para responder a uma pergunta, se minha
cliente quisesse. Ela perguntou à estranha figura o que teria que fazer para
concluir o curso profissionalizante, uma tarefa que lhe custara os quatro
anos mencionados e muitas negociações com as autoridades educacionais
para conseguir continuar. A resposta que ela recebeu? “Você terá que
aprender a trabalhar em um matadouro.”
Bem, na minha opinião, os sonhos são declarações da natureza. Não são
uma criação nossa. Eles se manifestam para nós. Nunca vi um sonho
apresentar algo que eu acreditasse ser falso. Também não acredito —
contrariando Freud — que os sonhos têm significados ocultos. São, em vez
disso, uma parte inicial do processo pelo qual os pensamentos totalmente
desenvolvidos nascem, já que com certeza não aparecem do nada por
magia. Devemos confrontar o desconhecido, como tal — o grande Dragão
do Caos ou a Rainha Terrível —, e não sabemos como fazer isso, para início
de conversa. O sonho serve como o primeiro passo cognitivo — na esteira
de reações emocionais, motivacionais e corporais básicas, como medo,
curiosidade ou paralisia — para transformar o desconhecido em
conhecimento acionável e até mesmo articulável. O sonho é o local de
nascimento do pensamento e, muitas vezes, do pensamento que não chega
com facilidade à mente consciente. Ele não esconde nada; apenas não é
muito hábil em ser claro (embora isso não signifique que não possa ser
profundo).
Em todo caso, esse sonho não era difícil de interpretar, até porque seu
personagem principal, o anão, simplesmente dizia tudo que pensava. Então,
ouvi com atenção o relato de minha cliente (lembre-se, isso foi depois do
açougue e da fazenda) e perguntei a ela o que poderíamos fazer a respeito.
Eu não tinha ideia de como poderia organizar uma visita a um matadouro de
verdade. Eu nem sabia se havia um na cidade em que morávamos, e, se
existisse, imaginei que os responsáveis não ficariam muito satisfeitos com a
presença de visitantes, seja qual fosse o motivo. No entanto, minha cliente
estava convencida de que a resposta do anão era verdade e que algo
semelhante precisava ser feito. Então, discutimos as consequências de ela
ter se tornado mais dura e o fato de conseguir deixar a madrasta em segundo
plano, e encerramos o assunto pelo resto da sessão, embora ela tenha sido
incumbida (como eu) de determinar algo que pudesse servir como um
substituto razoável para um matadouro.
Uma semana depois, minha cliente voltou para a sessão marcada. E me
disse, talvez, a última coisa que eu poderia ter imaginado dela — ou de
qualquer outra pessoa, aliás: “Acho que preciso assistir a um
embalsamamento.” Fiquei sem palavras. Pessoalmente, eu não gostaria de
presenciar um embalsamamento — de jeito nenhum. As secções corporais
que testemunhei em museus de ciências por algum motivo nunca saíram da
minha memória. As exibições de corpos dissecados e plastificados, tão
populares cerca de uma década atrás, me deixaram horrorizado. Tornei-me
psicólogo, não cirurgião — nem legista — por um motivo. No entanto, isso
não era sobre mim. Era sobre minha cliente Bela Adormecida e seu desejo
de despertar, e eu não deixaria meus desejos ou a falta deles interferirem em
qualquer sabedoria que o anão que habitava a floresta profunda de sua
mente inconsciente desejava compartilhar. Eu disse a ela que veria o que
poderia fazer. Tudo acabou sendo muito mais simples de organizar do que
eu esperava. Só precisei ligar para um agente funerário local. Para minha
grande surpresa, ele concordou na hora. Suponho que já tenha
testemunhado sua parcela de pessoas sofredoras e assustadas, e estava
acostumado a lidar com elas com calma e sabedoria. Pronto. Eu não tinha
como fugir do compromisso e minha cliente queria ir em frente.
Duas semanas depois, fomos à funerária. Minha cliente me perguntou se
uma amiga poderia acompanhá-la, e concordei. Primeiro, o agente funerário
nos ofereceu um tour. Ele nos mostrou a capela e a sala dos caixões.
Perguntamos como ele lidava com o trabalho, dada sua concentração eterna na morte, no sofrimento e na dor. Ele disse que era sua responsabilidade
sincera fazer com que os momentos mais terríveis de seus clientes fossem
os menos dolorosos possíveis, e isso o animava. Fez sentido para nós e a
resposta nos ajudou a entender como ele conseguia fazer seu trabalho, dia
após dia. Após o tour, fomos para a sala de embalsamamento. Era um
espaço pequeno, talvez de uns dez metros quadrados. O corpo nu de um
homem idoso jazia imóvel, acinzentado e cheio de manchas sobre uma
mesa de aço inoxidável. Como não havia espaço na pequena sala, e para nos
permitir alguma distância, minha cliente, sua amiga e eu tomamos nossos
lugares no corredor em frente à porta e observamos os procedimentos,
totalmente visíveis de nossa posição privilegiada. Ele drenou o sangue e
outros líquidos do corpo. Escoavam sem muita dramaticidade, mas, em
certo sentido, o ato parecia ainda mais terrível por causa do método tão
mundano de eliminação, suponho. Parecia que algo tão precioso e vital
merecia um tratamento melhor. O homem fez as intervenções cirúrgicas,
costurou as pálpebras, maquiou o rosto e injetou o fluido de
embalsamamento. Eu assisti. E observei minha cliente. De início, ela virou
o rosto, evitando a cena que se desenrolava à sua frente. Mas, à medida que
os minutos passavam, começou a observar os procedimentos e, depois de
quinze minutos, passava muito mais tempo observando do que desviando o
olhar. Entretanto, pude notar que ela segurava a mão da amiga, apertando
com força.
Minha cliente percebia, em primeira mão, que algo presumido como
apavorante (e com razão) não estava surtindo o efeito esperado. Ela era
capaz de lidar com a experiência. Não entrou em pânico nem passou mal,
fugiu ou mesmo chorou. Perguntou ao agente funerário se poderia tocar o
corpo. Ele lhe ofereceu uma luva de borracha, ela vestiu. Caminhou até a
estação de trabalho, em um estado quieto e meditativo, e colocou a mão
enluvada sobre as costelas do corpo, e a manteve ali, como se fosse um
conforto para ela e para a pobre alma que partira. O procedimento foi
encerrado logo em seguida, e saímos juntos, em silêncio, após oferecer ao
agente funerário nossos sinceros e profundos agradecimentos.
Nós três expressamos o espanto comum por termos conseguido superar a
visita. Minha cliente aprendeu algo de vital importância sobre sua tolerância
aos terrores da vida. Tão importante quanto, ela tinha um ponto de
referência para seus medos: daquele momento em diante (e não estou de
forma alguma afirmando sucesso total em seu tratamento), ela tinha algo verdadeiramente inspirador — algo sério, horripilante, explícito e real —
para comparar com os outros horrores da vida, quase inevitavelmente
menores. As misérias mundanas da existência eram tão desafiadoras quanto
a experiência à qual se submetera de forma voluntária? O açougue poderia
ser mais assustador do que a morte humana, em toda a sua realidade, vista
tão de perto? Ela não havia conseguido demonstrar a si mesma que era
capaz de se deparar com o pior que a Terrível Natureza teria a lhe oferecer e
enfrentá-lo com coragem? E, para minha cliente, isso era uma fonte de
conforto paradoxal e inextirpável.
Assim como acontece com a Bela Adormecida dos contos de fadas, a
família de minha cliente não convidou a Rainha Má, o aspecto terrível da
natureza, para a vida de sua filha. Isso a deixou completamente
despreparada para as dificuldades essenciais da vida — as complicações da
sexualidade e a necessidade de todos os seres vivos de devorar outras vidas
(e estar, em algum momento, sujeitos ao mesmo destino). Para minha
cliente, a Rainha Má reapareceu na puberdade — na forma da madrasta,
cuja personalidade parecia ter dado uma guinada de 180 graus —, bem
como em sua própria incapacidade pessoal de lidar com as
responsabilidades da maturidade e as rígidas obrigações da sobrevivência
biológica. Tal como a Bela Adormecida — já que esse conto tem várias
histórias e se assemelha aos contos de fadas antigos, que podem ter
milhares de anos —, ela precisava ser despertada pelas forças da
exploração, da coragem e da bravura (muitas vezes representadas pelo
príncipe redentor, mas que ela encontrou dentro de si).
CULTURA: SEGURANÇA E TIRANIA
Se o Dragão do Caos e a dupla Rainha Má e Deusa Benevolente são
representantes do potencial e do desconhecido, o Rei Sábio e o Tirano
Autoritário são representantes das estruturas, sociais e psicológicas, que nos
permitem sobrepor estruturas a esse potencial. Interpretamos o presente
pelas lentes da cultura. Planejamos o futuro tentando concretizar o que nos