Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida
Regra 1: Não denigra as instituições sociais ou as realizações criativas de forma negligente
REGRA 1
NÃO DENIGRA AS INSTITUIÇÕES
SOCIAIS OU AS REALIZAÇÕES
CRIATIVAS DE FORMA NEGLIGENTE
SOLIDÃO E CONFUSÃO
Durante anos, atendi um cliente que morava sozinho.I Ele era isolado de
muitas outras maneiras, além da própria situação de moradia. Tinha laços
familiares muito limitados. As duas filhas se mudaram para fora do país e
quase não mantinham contato, e ele não tinha outros parentes exceto o pai e
a irmã, dos quais havia se distanciado. A esposa, mãe de suas filhas,
morrera anos atrás, e o único relacionamento que conseguiu estabelecer
enquanto o atendi ao longo de mais de uma década e meia terminou
tragicamente quando sua nova parceira morreu em um acidente de carro.
Quando começamos a trabalhar juntos, nossas conversas eram bastante
desconfortáveis. Como ele não estava acostumado às sutilezas da interação
social, seus comportamentos, tanto os verbais quanto os não verbais,
careciam do ritmo coreografado e harmônico característico da fluência
social. Quando criança, fora completamente ignorado e ativamente
desestimulado pelos pais. A mãe era alcoolista crônica e o pai — ausente na
maior parte do tempo — era negligente e tinha inclinações sádicas. Ele
também fora constantemente atormentado e hostilizado na escola, e, ao
longo de todos os anos de educação formal, nunca encontrou um professor
que realmente prestasse atenção nele. Essas experiências deixaram meu
cliente com uma propensão à depressão, ou pelo menos exacerbaram o que
pode ter sido uma tendência biológica nessa direção. Em consequência
disso, ele era ríspido, irritável e um tanto explosivo caso se sentisse incompreendido ou fosse inesperadamente interrompido durante uma
conversa. Essas reações ajudaram a perpetuar sua condição de alvo de
bullying na vida adulta, principalmente no trabalho.
No entanto, logo percebi que nossas sessões funcionavam muito bem se eu
me mantivesse calado a maior parte do tempo. Ele me visitava, semanal ou
quinzenalmente, e falava sobre o que havia ocorrido ou o preocupado
durante os sete ou quatorze dias anteriores. Se eu fizesse silêncio pelos
primeiros cinquenta minutos de nossas sessões de uma hora, ouvindo com
atenção, conseguíamos conversar, de uma maneira relativamente normal e
recíproca, nos dez minutos restantes. Esse padrão continuou por mais de
uma década, à medida que aprendi, aos poucos, a segurar minha língua
(algo que não é muito fácil para mim). Entretanto, com o passar dos anos,
percebi que a proporção de tempo em que ele passava discutindo assuntos
negativos comigo diminuiu. Nossa conversa — seu monólogo, na verdade
— sempre começava com o que o incomodava e raramente progredia além
disso. Mas ele se esforçava fora de nossas sessões, cultivando amigos,
frequentando reuniões artísticas e festivais de músicas e ressuscitando um
talento há muito tempo adormecido para compor música e tocar violão. À
medida que se tornou mais sociável, ele começou a criar soluções para os
problemas que me comunicava e a discutir, na última parte das horas que
passávamos juntos, alguns dos aspectos mais positivos de sua existência.
Foi um processo lento, mas com progressos graduais e contínuos. Na
primeira vez que ele veio me ver, não conseguíamos sentar juntos em uma
cafeteria — ou, na verdade, em qualquer local público — e praticar algo
remotamente semelhante a uma conversa real sem que ele ficasse paralisado
em absoluto silêncio. Ao final do nosso trabalho, ele já conseguia ler as
próprias poesias diante de pequenos grupos e chegou a fazer uma
apresentação de comédia stand-up.
Ele foi meu melhor exemplo pessoal e prático de algo que vim a perceber
ao longo de mais de vinte anos de psicologia clínica: as pessoas dependem
de comunicação constante com outras para manter a mente organizada.
Precisamos pensar para compreender, mas esse processo é feito
principalmente ao falar. Precisamos conversar sobre o passado para que
possamos diferenciar as incessantes preocupações triviais — que, do
contrário, dominariam nossos pensamentos — das experiências
verdadeiramente importantes. Precisamos falar sobre a natureza do presente
e nossos planos para o futuro, para que saibamos onde estamos, para onde estamos indo e por quê. Precisamos submeter as estratégias e táticas que
formulamos ao julgamento alheio para nos certificarmos de sua eficiência e
resiliência. Também precisamos nos ouvir enquanto falamos — a fim de
organizar nossas reações físicas, motivações e emoções, normalmente
incipientes, em algo articulado e organizado — e nos livrar das
preocupações exageradas e irracionais. Precisamos falar — tanto para
lembrar quanto para esquecer.
Meu cliente precisava desesperadamente de alguém para ouvi-lo. Ele
também precisava integrar de forma plena outros grupos sociais maiores e
mais complexos — algo que ele planejava em nossas sessões e depois
executava por conta própria. Caso caísse na tentação de menosprezar o
valor das interações e dos relacionamentos interpessoais, por causa de seu
histórico de isolamento e tratamento hostil, ele teria pouquíssimas chances
de recuperar sua saúde e seu bem-estar. Mas, em vez disso, aprendeu a lidar
com esse aspecto e ingressou no mundo.
A SANIDADE COMO UMA INSTITUIÇÃO
SOCIAL
Para os Drs. Sigmund Freud e Carl Jung, grandes representantes da
psicologia profunda, a sanidade era uma característica da mente individual.
Na opinião deles, as pessoas eram bem ajustadas quando a expressão das
subpersonalidades existentes dentro de cada um era adequadamente
integrada e equilibrada. Para Freud, o primeiro a conceituá-los, o id, a parte
instintiva da psique (do alemão es, que significa “isso”, representando a
natureza, em todo seu poder e estranheza, dentro de nós); o superego (o por
vezes opressivo representante internalizado da ordem social); e o ego (o eu,
a personalidade em si, espremida entre as duas inevitáveis tiranas
mencionadas anteriormente) têm funções especializadas. O id, o ego e o
superego interagem entre si como se fossem os poderes executivo,
legislativo e judiciário de um governo moderno. Jung, embora
profundamente influenciado por Freud, destrinchava a complexidade da
psique humana de uma forma diferente. Para ele, o ego do indivíduo tinha
que encontrar seu lugar adequado em relação à sombra (o lado obscuro da
personalidade), à anima ou ao animus (o lado da personalidade
contrassexual e, portanto, reprimido) e ao eu (o ser interno da possibilidade ideal). Mas todas essas diferentes subentidades, tanto junguianas quanto
freudianas, compartilham um aspecto em comum: existem no interior da
pessoa, independentemente de seu ambiente. Entretanto, pessoas são seres
sociais — por excelência —, e não nos faltam conhecimento e orientação
fora de nós, incorporados ao mundo social. Por que contar com nossos
próprios recursos limitados para nos lembrar do caminho, ou para nos
orientar em um novo território, quando podemos utilizar placas e
sinalizações dispostas com tanto esforço por outros? Freud e Jung, com seu
intenso foco na psique do indivíduo autônomo, deram pouquíssima ênfase
ao papel da comunidade na manutenção da saúde mental pessoal.
É por essas razões que, assim que começo meu trabalho, avalio a situação
de todos os meus clientes dentro de algumas dimensões amplamente
dependentes no mundo social: eles receberam educação para suprir o nível
de suas habilidades intelectuais ou de sua ambição? Eles utilizam o tempo
livre de forma envolvente, significativa e produtiva? Formularam planos
sólidos e bem articulados para o futuro? Eles (e as pessoas próximas deles)
estão livres de condições físicas/de saúde graves ou problemas econômicos?
Têm amigos e vida social? Uma parceria íntima estável e satisfatória?
Relações familiares próximas e funcionais? Uma carreira — ou, pelo
menos, um emprego — que seja financeiramente suficiente, estável e, se
possível, fonte de satisfação e oportunidade? Se a resposta para três ou mais
dessas perguntas for “não”, considero que meu novo cliente não está
incorporado o suficiente ao mundo interpessoal e está em risco de
mergulhar em uma espiral psicológica descendente por causa disso. As
pessoas existem em um contexto social, e não como mentes puramente
individuais. Um indivíduo não precisa ser tão bem-composto se puder
manter um comportamento minimamente aceitável por outros. Em outras
palavras: nós terceirizamos o problema da sanidade. As pessoas
permanecem mentalmente saudáveis não apenas por causa da integridade de
suas próprias mentes, mas porque estão sempre sendo lembradas de como
pensar, agir e falar pelas outras pessoas ao seu redor.
Se você começar a se desviar do caminho virtuoso — se começar a agir de
maneira inadequada —, as pessoas reagirão aos seus erros antes que eles se
tornem grandes demais, e irão persuadir, rir, corrigir e criticar até que você
volte para o caminho. Elas irão desaprovar, sorrir (ou não) ou prestar
atenção (ou não). Em outras palavras, se outras pessoas conseguem tolerar
sua presença, elas constantemente o lembrarão de não se comportar mal e, com a mesma frequência, exigirão que demonstre o seu melhor. Tudo que
lhe resta fazer é observar, ouvir e responder de maneira adequada às pistas.
Assim, você consegue continuar motivado e capaz de se manter
suficientemente composto para não mergulhar na longa viagem ladeira
abaixo. Isso é razão suficiente para apreciar sua imersão no mundo das
outras pessoas — amigos, familiares e também inimigos —, apesar da
ansiedade e frustração que as interações sociais, com frequência, acarretam.
Mas como desenvolvemos o amplo consenso em relação ao
comportamento social que serve para sustentar nossa estabilidade
psicológica? Parece uma tarefa hercúlea — ou até impossível — diante de
toda a complexidade com a qual nos confrontamos. “Buscamos isso ou
aquilo?”; “Como o valor dessa obra se compara ao valor daquela outra?”;
“Quem é mais competente, ou mais criativo, ou mais assertivo, e para quem
deveria, portanto, ser concedida a autoridade?”. Respostas para essas
perguntas são principalmente formuladas em consequência de uma intensa
negociação — verbal e não verbal — que regula a ação, a cooperação e a
competição individuais. O que consideramos valioso e digno de atenção se
torna parte do contrato social; parte das recompensas e punições atribuídas,
respectivamente, por sua adequação ou inadequação; parte do que nos
indica e nos lembra a todo momento: “Eis o que é valioso. Olhe para isso
(perceba isso), e não para outra coisa. Busque isso (aja com esse objetivo), e
não outra coisa qualquer.” A adequação em relação a essas indicações e
lembretes é, em grande medida, a própria sanidade — e é algo exigido de
todos nós desde os primeiros estágios de nossas vidas. Sem a intermediação
do mundo social, seria impossível organizar nossas mentes, e ficaríamos
simplesmente sobrecarregados com o mundo.
A IMPORTÂNCIA DE APONTAR
Tenho a felicidade de ter uma neta, Elizabeth Scarlett Peterson Korikova,
nascida em agosto de 2017. Observo seu desenvolvimento atentamente, na
tentativa de acompanhar seus avanços e participar. Quando ela tinha cerca
de 1 ano e meio, começou a exibir uma gama de comportamentos
incrivelmente cativantes — ria e gargalhava quando a cutucávamos, batia a
palminha da mão na nossa, encostava a cabeça na nossa e esfregava o nariz
no nosso. No entanto, na minha opinião, sua ação mais notável nessa idade
era apontar.
Elizabeth acabara de descobrir seu dedo indicador, e o usava para
especificar todos os objetos que achava interessantes no mundo. Ela
adorava, especialmente quando o fato de apontar chamava a atenção dos
adultos à sua volta. A atenção das pessoas indicava, de maneira singular,
que sua ação e intenção tinham importância — que pode ser definida, ao
menos em parte, como a tendência de um comportamento ou uma atitude de
atrair a atenção de outras pessoas. Não é de surpreender que isso a
fascinasse. Competimos por atenção, pessoal, social e economicamente.
Nada tem mais valor do que isso. Crianças, adultos e sociedades definham
ante a ausência da atenção. Chamar a atenção das pessoas para o que você
acha importante ou interessante, em primeiro lugar, valida a importância do
objeto em si, porém, o mais crucial, valida o indivíduo como centro
respeitável de experiência consciente e contribuidor para o mundo coletivo.
Apontar é, assim, um precursor vital do desenvolvimento da linguagem.
Nomear — usar uma palavra para identificar algo — é basicamente apontar;
especificar em meio a todo o resto; isolar para o uso individual e social.
Quando minha neta apontava, ela o fazia publicamente. Ao apontar para
algo, conseguia imediatamente observar como as pessoas ao seu redor
reagiam. Não tem sentido apontar para algo com que ninguém mais se
importa. Então, ela apontava com o indicador qualquer coisa que achava
interessante e, em seguida, olhava para as pessoas ao seu redor para
descobrir se mais alguém se importava. Era tão jovem e já estava
aprendendo uma importante lição: se você não se comunica sobre algo que
interessa a outras pessoas, o valor de sua comunicação — até mesmo o
valor de sua presença — tende a ser nulo. Dessa maneira, ela começou a
explorar com mais profundidade a complexa hierarquia de valor que
compõe a sua família e a sociedade mais abrangente ao seu redor.
Elizabeth Scarlett está aprendendo a falar — uma forma mais sofisticada
de apontar (e de explorar). Cada palavra é um ato de apontar, bem como
uma simplificação ou generalização. Nomear algo não é apenas destacá-lo
em meio a uma infinidade de elementos potencialmente nomeáveis, mas
agrupá-lo ou categorizá-lo, simultaneamente, com muitos outros fenômenos
de utilidade ou significado amplo. Usamos a palavra “piso”, por exemplo,
mas geralmente não utilizamos uma palavra separada para todos os tipos de
piso que podemos encontrar (concreto, madeira, terra, vidro), muito menos
para todas as infinitas variações de cor, tom e textura que compõem os
detalhes dos pisos existentes. Empregamos uma representação pouco nítida, de baixa resolução: se serve de sustentação, podemos andar sobre ele e é
situado dentro de uma edificação, então é um “piso” e o termo é preciso o
bastante. A palavra distingue os pisos, digamos, de paredes, mas também
restringe a variabilidade em todos os pisos existentes a um conceito único
— superfícies planas, estáveis e internas em que se pode caminhar.
As palavras que empregamos são ferramentas que estruturam a nossa
experiência de forma subjetiva e particular e são, da mesma forma,
socialmente determinadas. Não conheceríamos e usaríamos a palavra “piso”
a menos que todos tivéssemos concordado que era algo importante o
bastante para justificar a atribuição de uma palavra. Então, o simples fato de
nomear algo (e, claro, concordarmos em relação a um nome) é uma parte
importante do processo pelo qual o mundo infinitamente complexo dos
fenômenos e dos fatos é reduzido ao mundo funcional do valor. E é a
interação contínua com as instituições sociais que torna essa redução —
essa especificação — possível.
PARA O QUE DEVEMOS APONTAR?
O mundo social restringe e especifica o mundo para nós, destacando o que é
importante. Mas o que significa “importante”? Como isso é determinado? O
indivíduo é moldado pelo mundo social. As instituições sociais, por sua vez,
são moldadas pelas necessidades dos indivíduos que as compõem.
Precisamos fazer arranjos para que as necessidades básicas da vida sejam
atendidas. Não podemos viver sem comida, água, ar limpo e abrigo. De
forma menos evidente, necessitamos de companhia, diversão, contato
humano e intimidade. Essas são necessidades biológicas bem como
psicológicas (e esta não é uma lista exaustiva). Precisamos atribuir
significado e depois utilizar os elementos do mundo capazes de atender a
essas necessidades. E o fato de sermos profundamente sociais acrescenta
outro conjunto de restrições à situação: devemos perceber e agir de maneira
a atender às nossas necessidades psicológicas e biológicas — mas, já que
ninguém vive ou pode viver isolado, precisamos atendê-las de uma forma
aprovada pelos outros. Isso significa que as soluções que aplicamos aos
nossos problemas biológicos fundamentais devem ser também socialmente
aceitáveis e implementáveis.
Vale a pena considerar mais profundamente como a necessidade limita o
universo de soluções viáveis e planos implementáveis. Em primeiro lugar,
como já mencionamos, o plano deve, em tese, resolver um problema real.
Em segundo, deve ser atraente para outras pessoas — principalmente diante
da existência de planos concorrentes — ou essas outras pessoas não
cooperarão e podem até se opor. Portanto, se eu valorizo algo, devo
determinar como valorizá-lo para que outros possam se beneficiar. Não
pode ser bom apenas para mim: deve ser bom para mim e para as pessoas
ao meu redor. E, mesmo assim, talvez não seja o suficiente — o que
significa que há ainda mais restrições sobre como devemos perceber e agir
no mundo. A maneira como vejo e valorizo o mundo, integralmente
associada aos meus planos, deve funcionar para mim, para minha família e
para a comunidade em geral. Além disso, ela precisa funcionar hoje, de
modo a não acarretar consequências negativas amanhã, na próxima semana,
mês ou ano (ou ainda na próxima década ou século). Uma boa solução para
um problema que envolve sofrimento deve ser reproduzível sem perda de
eficácia — ou seja, iterável — entre as pessoas e ao longo do tempo.
Essas restrições universais, manifestadas pela biologia e impostas pela
sociedade, reduzem a complexidade do mundo a algo semelhante a um
domínio de valor universalmente compreensível. Isso é de excepcional
importância, pois existem inúmeros problemas e, hipoteticamente,
ilimitadas soluções potenciais, mas há apenas um número relativamente
limitado de soluções que funcionam de forma simultânea nas esferas
prática, psicológica e social. O fato de as soluções serem limitadas sugere a
existência de algo semelhante a uma ética natural — variável, talvez, assim
como as linguagens humanas, mas com uma base sólida e universalmente
reconhecível. É a realidade dessa ética natural que torna a crítica irrefletida
acerca das instituições sociais tanto errada quanto perigosa, pois elas
evoluíram com o objetivo de resolver problemas que precisam de solução
para que a vida possa ter continuidade. Essas instituições não são, de modo
algum, perfeitas — mas aperfeiçoá-las, ao invés de piorá-las, é de fato um
problema complexo.
Assim, é preciso reduzir a complexidade do mundo a um único aspecto
para que eu possa agir, levando em consideração todas as pessoas, quem são
hoje e quem serão amanhã. Como é possível? Ao comunicar e negociar. Ao
terceirizar o problema cognitivo incrivelmente complexo para os recursos
do mundo mais amplo. Os indivíduos que compõem todas as sociedades cooperam e competem linguisticamente (embora a interação linguística não
esgote, de forma alguma, os meios de cooperação e competição). As
palavras são formuladas de maneira coletiva, e todos precisam concordar
com a sua utilização. A estrutura de comunicação verbal que nos ajuda a
delimitar o mundo é uma consequência do panorama de valor construído
socialmente, mas também limitado pela necessidade crua da própria
realidade. Isso ajuda a dar forma ao panorama, e não apenas uma velha
forma qualquer. É nesse ponto que as hierarquias — funcionais, produtivas
— entram em cena de maneira mais clara.
O que é importante precisa ser feito, ou as pessoas morrerão de fome, de
sede ou de exposição às intempéries — ou de solidão e falta de contato
humano. O que precisa ser feito deve ser especificado e planejado. As
habilidades exigidas para tanto devem ser desenvolvidas. A especificação, o
planejamento e o desenvolvimento de habilidades, assim como a
implementação do plano informado, precisam ser conduzidos no espaço
social, com a cooperação (e competição) das outras pessoas. Em
consequência, algumas pessoas serão melhores, e outras, piores, na
resolução do problema em questão. Essa variação de capacidade (bem como
a multiplicidade de problemas existentes e a impossibilidade de treinar todo
mundo em todos os domínios especializados) necessariamente gera a
estrutura hierárquica — baseada, de modo ideal, na competência legítima
em relação ao objetivo. Tal hierarquia é, na sua essência, uma ferramenta
socialmente estruturada que precisa ser empregada para o atendimento
eficaz das tarefas necessárias e gratificantes. Ela é também a instituição
social que torna o progresso e a paz possíveis ao mesmo tempo.
DE BAIXO PARA CIMA
O consenso composto das presunções de valor explícitas e implícitas que
caracterizam nossas sociedades é antigo, desenvolvido ao longo de centenas
de milhões de anos. Afinal, “Como agir?” é apenas a versão imediata, de
curto prazo, da pergunta fundamental, de longo prazo, “Como sobreviver?”.
Portanto, é instrutivo olhar para nosso passado distante — nos primórdios
do processo evolutivo, direto na origem — e contemplar o estabelecimento
do que é importante. Os organismos multicelulares filogeneticamente mais
antigos (regressão suficiente para os nossos propósitos) tendem a ser compostos de células sensoriomotoras relativamente indiferenciadas.1 Essas
células mapeiam determinados fatos ou características do ambiente
diretamente para a saída motora dessas mesmas células, em uma relação
basicamente de um para um. O estímulo A significa a resposta A, e nada
mais, enquanto o estímulo B, a resposta B. Entre criaturas mais complexas e
com maior diferenciação — os habitantes maiores e mais reconhecíveis do
mundo natural —, as funções sensoriais e motoras se dividem e se
especializam, de modo que as células responsáveis pelas primeiras funções
detectam padrões no mundo e as responsáveis pelas segundas produzem os
padrões da saída motora. Essa diferenciação permite uma gama mais ampla
de padrões a ser reconhecida e mapeada, bem como um espectro mais
amplo de ação e reação a ser realizado. Um terceiro tipo de célula — o
neurônio — às vezes também entra em ação, servindo de intermediário
computacional entre as duas primeiras. Entre espécies que têm um nível de
operação neural estabelecido, o “mesmo” padrão de entrada pode produzir
um diferente padrão de saída (dependendo, por exemplo, de alterações
ambientais ou na condição psicofísica interna do animal).
À medida que a sofisticação do sistema nervoso aumenta, e mais e mais
camadas de intermediação neural emergem, a relação entre um
acontecimento simples e a saída motora torna-se cada vez mais complexa,
imprevisível e sofisticada. Um evento ou uma situação hipoteticamente
igual pode ser percebida de várias maneiras, e duas situações percebidas da
mesma maneira também podem originar comportamentos muito diferentes.
É muito difícil restringir de forma tão severa mesmo um animal isolado em
laboratório, por exemplo, a ponto de ele se comportar de forma previsível
em testes com o máximo de similaridade possível. À medida que as
camadas de tecido neural que intermedeiam a sensação e a ação se
multiplicam, elas também se diferenciam. Surgem sistemas motivacionais
básicos, conhecidos como impulsos (fome, sede, agressão etc.), adicionando
especificidade e variabilidade sensorial e comportamental. As motivações
de substituição, por sua vez — sem uma linha clara de demarcação —, são
sistemas de emoção. Os sistemas cognitivos surgem muito mais tarde,
primeiro tomando forma, possivelmente, como imaginação e, depois — e
apenas entre os seres humanos —, como linguagem plenamente
desenvolvida. Assim, na mais complexa das criaturas, existe uma hierarquia
estrutural interna, que vai do reflexo, passando pelo impulso, até a ação
mediada pela linguagem (no caso particular dos seres humanos), que deve ser organizada, antes que possa funcionar como uma unidade e ser
direcionada para um objetivo.2
Como essa hierarquia foi organizada — uma estrutura que surgiu
principalmente de baixo para cima — ao longo dos vastos períodos
evolutivos? Voltamos à mesma resposta aludida anteriormente: por meio de
cooperação e competição constantes — a contínua disputa por recursos e
posição — que definem a luta pela sobrevivência e reprodução. Isso
acontece ao longo de períodos inimaginavelmente prolongados, típicos da
evolução, bem como durante o período muito mais curto de cada vida. A
negociação por uma posição classifica os organismos nas hierarquias
onipresentes que governam o acesso a recursos vitais, como abrigo,
alimentação e parceiros. Todas as criaturas de razoável complexidade e até
uma natureza minimamente social têm seu lugar específico e sabem disso.
Todas as criaturas sociais também aprendem o que é considerado valioso
por outros membros do grupo e derivam disso, bem como do entendimento
de sua própria posição, uma sofisticada compreensão implícita e explícita
do valor em si. Em uma frase: a hierarquia interna que converte fatos em
ações espelha a hierarquia externa da organização social. É evidente, por
exemplo, que os chimpanzés em um bando entendem seu mundo social e
seus estratos hierárquicos em um nível preciso de detalhes. Eles sabem o
que é importante e quem tem acesso privilegiado a isso. Entendem esses
aspectos como se sua sobrevivência e reprodução dependessem disso, pois
de fato dependem.3
Um recém-nascido é equipado com reflexos relativamente determinísticos:
sucção, choro, susto. Contudo, eles fornecem um ponto de partida para a
imensa gama de habilidades que se desenvolvem com a maturidade
humana. Aos 2 anos de idade (com frequência até muito antes disso, para
muitas habilidades), as crianças são capazes de se orientar por meio de
todos seus sentidos, andar eretas, usar as mãos dotadas de polegares
oponíveis para todos os tipos de finalidades e comunicar seus desejos e suas
necessidades de maneira verbal e não verbal — e esta, é claro, não é uma
lista exaustiva. Esse imenso conjunto de habilidades comportamentais é
integrado em uma complexa variedade de comportamentos e impulsos
motivacionais (raiva, tristeza, medo, alegria, surpresa, entre outros) e, então,
organizado para atender a qualquer que seja o propósito específico e limitado que inspire a criança naquele momento e, gradualmente, por
períodos cada vez maiores.
A criança em desenvolvimento também deve ajustar e aprimorar seu
estado motivacional, atualmente dominante, em harmonia com todos os
seus outros estados motivacionais internos (por exemplo, os desejos
diferenciados de comer, dormir e brincar devem aprender a coexistir para
que cada um se manifeste de forma otimizada) e de acordo com as
demandas, rotinas e oportunidades do meio social. Esse ajuste começa no
relacionamento materno da criança e no comportamento espontâneo de
brincar dentro desse contexto social, ainda que circunscrito. Então, quando
a criança amadurece a ponto de a hierarquia interna das funções emocionais
e motivacionais poder ser incorporada, mesmo que temporariamente, em
uma estrutura fornecida por um objetivo abstrato consciente e comunicável
(“vamos brincar de casinha”), ela está pronta para brincar com as outras —
e fazê-lo, ao longo do tempo, de um modo cada vez mais complexo e
sofisticado.4
Brincar com outras crianças depende (como observou o grande psicólogo
do desenvolvimento Jean Piaget)5 do estabelecimento coletivo de um
objetivo compartilhado com seus parceiros de brincadeira. Esse
estabelecimento coletivo de um objetivo compartilhado — o propósito do
jogo —, aliado a regras que governam a cooperação e a competição no
relacionamento para esse objetivo ou propósito, constitui um verdadeiro
microcosmo social. Todas as sociedades podem ser consideradas variações
sobre esse tema brincar/jogar — E pluribus unumII —, e em todas as
sociedades decentes e funcionais as normas básicas do jogo limpo, baseado
na reciprocidade entre situação e tempo, inevitavelmente se aplicam. Para
perdurar, os jogos, assim como as soluções dos problemas, precisam ser
iteráveis, e há princípios que se aplicam e reforçam o que constitui essa
iterabilidade. Piaget suspeitava, por exemplo, que jogos nos quais nos
engajamos de maneira voluntária superarão os jogos impostos e jogados sob
ameaça de força, dado que parte da energia que poderia ser despendida no
próprio jogo, seja qual for sua natureza, tem que ser gasta na sua imposição.
Há evidências indicando a emergência de acordos voluntários similares aos
dos jogos até entre nossos parentes não humanos.6
As regras universais do jogo limpo incluem a capacidade de controlar a
emoção e a motivação enquanto se coopera e compete em busca do objetivo durante o jogo (isso é parte essencial de ser capaz de jogar), bem como a
capacidade e o desejo de estabelecer interações reciprocamente benéficas ao
longo do tempo e das situações, como já discutido. E a vida não é só um
jogo, mas uma série deles, cada um com algo em comum (a definição de
jogo) e algo único (ou não haveria motivos para existir mais de um). No
mínimo, há um ponto de partida (o jardim de infância, um placar 0-0, o
primeiro encontro, o primeiro emprego), que necessita ser aperfeiçoado; um
procedimento para essa melhoria; e um objetivo desejável (formatura do
ensino médio, um placar vencedor, um relacionamento romântico
duradouro, uma carreira de sucesso). Por causa desse ponto em comum,
existe uma ética — ou, para sermos mais exatos, uma metaética — que
emerge, de baixo para cima, em todas as categorias de jogos. O melhor
jogador, portanto, não é o vencedor de um determinado jogo, mas, entre
outras coisas, aquele que é convidado pelo maior número de pessoas para
jogar a série mais extensa de jogos. É por essa razão — que você pode não
entender explicitamente no momento — que dizemos para nossos filhos: “O
importante não é ganhar ou perder. É como se joga!”III Como devemos jogar
para sermos o jogador mais desejável? Que estrutura precisa tomar forma
dentro de você para que tal jogo seja possível? E essas duas perguntas estão
inter-relacionadas, pois a estrutura que permitirá que você jogue de maneira
apropriada (e com precisão crescente e automatizada ou habitual) somente
emergirá no processo de praticar continuamente a arte de jogar de forma
adequada. Onde podemos aprender a jogar? Em todos os lugares… se tiver
sorte e estiver atento.
A UTILIDADE DO TOLO
É útil assumir seu lugar na base da hierarquia. Pode ajudar no
desenvolvimento da gratidão e da humildade. Gratidão: existem pessoas
com mais expertise que você, e o mais sábio é agradecer que seja assim. Há
muitos nichos valiosos para se preencher, considerados os muitos
problemas complexos e sérios que precisamos resolver. O fato de haver
pessoas que preenchem esses nichos com experiência e habilidade
confiáveis é algo pelo que devemos ser verdadeiramente gratos. Humildade:
é melhor presumir a ignorância e instigar o aprendizado do que presumir
um conhecimento suficiente e arriscar a cegueira decorrente. É muito
melhor fazer as pazes com o que você não sabe do que com o que sabe, pois há um suprimento infinito do primeiro, mas um estoque finito demais do
segundo. Quando você está imobilizado ou encurralado — frequentemente
por sua própria teimosia e adesão imutável a algumas presunções que
idolatra de maneira inconsciente —, só conseguirá obter ajuda do que ainda
não aprendeu.
É necessário e útil ser, e de algumas maneiras permanecer, um iniciante.
Por esse motivo, as cartas de tarô adoradas pelos intuitivos, românticos,
videntes e outros charlatões trazem o Tolo [também chamado de Louco]
como uma carta positiva, uma versão ilustrada semelhante à que abre este
capítulo. O Tolo é um homem jovem e bonito, que olha para cima,
caminhando pelas montanhas, banhado pela reluzente luz do sol — prestes
a despencar desatentamente em um abismo (será?). Sua força, porém, é
exatamente sua disposição para se arriscar à queda; para correr o risco de
voltar à base. Somente uma pessoa disposta a ser um tolo iniciante é capaz
de aprender. É por esse motivo, entre outros, que Carl Jung considerava o
Tolo o precursor arquetípico da figura igualmente arquetípica do Redentor,
o indivíduo aperfeiçoado.
O iniciante, o tolo, precisa ser continuamente paciente e tolerante — com
ele mesmo e, na mesma medida, com os outros. Suas demonstrações de
ignorância, inexperiência e falta de habilidades ainda podem, às vezes, ser
corretamente atribuídas à irresponsabilidade e justamente condenadas pelos
outros. Mas a insuficiência do tolo é, muitas vezes, mais bem considerada
como uma consequência inevitável da vulnerabilidade essencial de cada
indivíduo, em vez de uma verdadeira falha moral. Muito do que é ótimo
começa pequeno, ignorante e inútil. Essa lição permeia tanto a cultura
popular quanto a clássica ou tradicional. Considere, por exemplo, os heróis
da Disney Pinóquio e Simba, bem como o fascinante Harry Potter, de J. K.
Rowling. Pinóquio começa como uma marionete de madeira, um fantoche
das decisões de todos, exceto as suas. O Rei Leão começa como um filhote
ingênuo, o peão inconsciente no jogo de um tio traiçoeiro e malévolo. O
estudante de magia é um órfão desprezado, instalado em um quarto
improvisado dentro do armário debaixo da escada e que tem Voldemort —
que pode muito bem ser o próprio Satanás — como arqui-inimigo. Da
mesma forma, grandes heróis mitificados costumam vir ao mundo nas
circunstâncias mais escassas (como o filho de um escravo israelita, por
exemplo, ou recém-nascido em uma manjedoura humilde) e em grande
perigo (considere a decisão do Faraó de matar todos os bebês primogênitos do sexo masculino — filhos de israelitas — e a ordem semelhante de
Herodes, muito depois). Mas o iniciante de hoje é o mestre de amanhã.
Assim, é necessário até mesmo para o mais realizado (que, todavia, deseja
realizar ainda mais) manter a identificação com os que ainda não tiveram
sucesso, valorizar a luta pela competência, subordinar-se ao jogo atual de
forma cuidadosa e com humildade autêntica e desenvolver o conhecimento,
o autocontrole e a disciplina necessários para dar o próximo passo.
Na mesma época em que escrevia este texto, visitei um restaurante em
Toronto com minha esposa, meu filho e minha filha. Enquanto eu
caminhava para a minha mesa, um jovem garçom perguntou se poderia
conversar um pouco comigo. Disse que estava assistindo aos meus vídeos,
ouvindo meus podcasts e lendo meu livro e que, em consequência, mudou
de atitude em relação ao seu emprego de status comparativamente inferior
(mas ainda útil e necessário). Ele havia parado de criticar o que estava
fazendo ou a si mesmo por fazê-lo, decidindo, em vez disso, ser grato e
buscar todas as oportunidades que se apresentassem diante dele. Decidiu se
tornar mais diligente e confiável e ver o que aconteceria se trabalhasse com
o máximo de afinco possível. Ele me disse, com um sorriso incontrolável,
que havia sido promovido três vezes em seis meses.
O jovem percebeu que todo lugar tem mais potencial do que é possível
enxergar a princípio (sobretudo quando sua visão estava prejudicada pelo
ressentimento e cinismo que sentia por estar perto da base). Afinal, não é
que um restaurante seja um lugar simples — e esse era de uma grande
empresa nacional; uma grande rede de alta qualidade. Para fazer um bom
trabalho em um lugar assim, os garçons devem se dar bem com os
cozinheiros, que são por reconhecimento universal um grupo incrivelmente
problemático e complicado. Eles também devem ser educados e
carismáticos com os clientes. Têm que estar atentos o tempo todo. Precisam
se ajustar a cargas de trabalho altamente variáveis: momentos de agitação e
de marasmo que inevitavelmente acompanham a vida de um garçom. Eles
têm que chegar na hora certa, sóbrios e despertos. Devem tratar seus
superiores com o devido respeito e fazer o mesmo com os colegas — como
os lavadores de pratos — abaixo deles na estrutura de autoridade. E, se
fizerem todas essas coisas e por acaso estiverem trabalhando em uma
instituição funcional, logo se tornarão difíceis de substituir. Clientes,
colegas e superiores começarão a reagir a eles de maneira cada vez mais
positiva. Portas que de outra forma permaneceriam fechadas — mesmo que invisíveis — serão abertas. Além disso, as habilidades adquiridas serão
eminentemente portáteis, quer continuem a subir na hierarquia de
restaurateurs, quer decidam, em vez disso, continuar sua educação ou
mudar sua trajetória de carreira por completo (neste caso, levarão consigo
recomendações elogiosas de seus empregadores anteriores e chances
elevadas de descobrir a próxima oportunidade).
Como era de se esperar, o jovem que tinha algo a me dizer ficou
emocionado com o que lhe aconteceu. Suas preocupações com o status
foram satisfeitas de maneira sólida e realista pelo seu rápido avanço na
carreira, e o dinheiro adicional que ganhava também não foi nada mal. Ele
aceitou e, portanto, transcendeu seu papel de iniciante. Abandonou seu
cinismo casual quanto ao lugar que ocupava no mundo e às pessoas que o
cercavam, e aceitou a estrutura e a posição que lhe foram oferecidas. Assim,
começou a ver possibilidades e oportunidades antes ofuscadas,
essencialmente, por seu orgulho. Parou de criticar a instituição social da
qual fazia parte e começou a desempenhar seu papel de maneira apropriada.
E esse incremento na humildade foi muito recompensador.
A NECESSIDADE DE IGUAIS
É bom ser um iniciante, mas é bom de um jeito diferente ser um igual entre
iguais. Dizem, com muita verdade, que a autêntica comunicação só pode
ocorrer entre pares. Isso se deve ao fato de ser muito difícil transmitir
informação para cima na hierarquia. Os bem posicionados (e este é um dos
grandes perigos de subir na hierarquia) usam sua competência atual — suas
adoradas opiniões, seu conhecimento presente, suas habilidades atuais —
para fazer uma reivindicação moral em relação ao seu status. Em
consequência, eles têm pouca motivação para admitir um erro, para
aprender ou mudar — e muitos motivos para não fazê-lo. Se um
subordinado expõe a ignorância de uma pessoa com status superior, corre o
risco de humilhá-la, questionando a validade da sua alegação de influência e
status e revelando-a como incompetente, obsoleta ou falsa. Por esse motivo,
é muito sábio levar um problema ao conhecimento de seu chefe, por
exemplo, com cuidado e em particular (e talvez seja melhor já ter uma
solução — que não seja oferecida sem a devida ponderação).
Também existem barreiras ao fluxo de informações genuínas para baixo na
hierarquia. Por exemplo, o ressentimento que as pessoas mais abaixo na
cadeia de comando podem sentir sobre sua posição hipoteticamente inferior
pode fazê-las relutar em agir de forma produtiva com base nas informações
de cima — ou, na pior das hipóteses, pode motivá-las a trabalhar contra
tudo que aprenderam, por puro rancor. Além disso, os inexperientes ou
menos instruídos, ou que ocupam há pouco tempo uma posição subordinada
e, portanto, não têm conhecimento do seu entorno, podem ser influenciados
com mais facilidade pela posição relativa e pelo exercício do poder, e não
pela qualidade da argumentação e pela constatação da competência. Os
pares, em contraste, precisam ser, em geral, convencidos. Sua atenção deve
ser cuidadosamente retribuída. Estar rodeado por pares é existir em um
estado de igualdade e manifestar o dar e o receber necessários para manter
essa igualdade. Portanto, é bom estar no meio de uma hierarquia.
Em parte, é por isso que as amizades são tão importantes e se formam tão
cedo na vida. Normalmente, uma criança de 2 anos preocupa-se consigo
mesma, embora também seja capaz de ações recíprocas simples. A mesma
Scarlett de quem falei antes — minha neta — ficava feliz em me entregar
um de seus brinquedos de pelúcia favoritos, preso a uma chupeta, quando
eu pedia. Então eu o entregava ou jogava de volta (às vezes ela jogava para
mim também — ou pelo menos relativamente perto de mim). Ela amava
esse jogo. Também brincávamos com uma colher — um instrumento que
ela estava começando a dominar. Ela jogava da mesma forma com a mãe e
a avó — com qualquer um que estivesse ao alcance, se conhecesse a pessoa
o suficiente para não ficar tímida. Esse é o início dos comportamentos que,
mais tarde, se transformam em compartilhamento pleno entre crianças mais
velhas.
Alguns dias antes de eu escrever este capítulo, minha filha, Mikhaila, mãe
de Scarlett, levou a filha para a área recreativa na cobertura de seu
condomínio no centro da cidade. Várias outras crianças brincavam ali, a
maioria delas mais velhas, e havia muitos brinquedos. Scarlett passava o
tempo acumulando o máximo possível de brinquedos perto de onde sua mãe
se sentou e não se abalava se outras crianças aparecessem para roubar um
deles. Ela até pegou uma bola diretamente das mãos de outra criança para
adicionar à sua coleção. Esse é o comportamento típico de crianças de 2
anos ou menos. Sua capacidade de retribuir, embora não esteja ausente (e possa se manifestar de maneiras verdadeiramente cativantes), é limitada
nessa fase de desenvolvimento.
No entanto, aos 3 anos de idade, a maioria das crianças é capaz de
compartilhar. Elas são capazes de adiar a gratificação por tempo suficiente
para terem sua vez ao brincar em um jogo em que não é possível todos
participarem ao mesmo tempo. Começam a entender o objetivo de um jogo
de múltiplos jogadores e a seguir as regras, embora possam não ser capazes
de fornecer uma descrição verbal coerente de quais são essas regras.
Começam a fazer amizades após uma exposição reiterada a crianças com
quem negociaram com sucesso relações lúdicas recíprocas. Algumas dessas
amizades se transformam nos primeiros relacionamentos intensos que as
crianças têm fora da família. É no contexto de tais relacionamentos, que
tendem a se formar entre iguais em idade (ou pelo menos iguais em estágio
de desenvolvimento), que uma criança aprende a criar fortes vínculos com
um colega e começa a aprender como tratar outra pessoa adequadamente,
exigindo o mesmo em troca.
Esse vínculo mútuo é de vital importância. Uma criança sem pelo menos
um amigo próximo e especial tem muito mais probabilidade de sofrer
problemas psicológicos posteriores, do tipo depressivo/ansioso ou
antissocial,7 e crianças com menos amigos também têm maior probabilidade
de ficar desempregadas e solteiras quando adultas.8 Não há evidências de
que a importância da amizade diminui de alguma forma com a idade.IV
Todas as causas de mortalidade parecem ser reduzidas entre adultos com
redes sociais de alta qualidade, mesmo quando o estado geral de saúde é
levado em consideração. Isso permanece verdadeiro entre os idosos, no caso
de doenças como hipertensão, diabetes, enfisema e artrite, e para adultos
mais jovens e mais velhos, no caso de ataques cardíacos. Curiosamente, há
algumas evidências de que é o ato de fornecer o apoio social, tanto ou mais
do que seu recebimento, que gera esses benefícios de proteção (e não é de
surpreender que aqueles que doam mais tendem a receber mais).9 Assim,
realmente parece que é melhor dar do que receber.
Os pares dividem os fardos e as alegrias da vida. Recentemente, minha
esposa, Tammy, e eu sofremos de graves problemas de saúde — primeiro
ela e depois eu —, mas tivemos a sorte de ter parentes (meus sogros, meu
cunhado, minha cunhada, minha mãe e irmã, nossos filhos) e amigos
próximos que ficaram conosco e nos ajudaram por períodos substanciais. Eles estavam dispostos a colocar suas próprias vidas de lado para nos ajudar
enquanto estávamos em crise. Antes disso, quando meu livro 12 Regras
para a Vida se tornou um sucesso e durante a extensa turnê de palestras que
se seguiu, Tammy e eu convivemos intimamente com quem podíamos
compartilhar nossa boa sorte. Eram amigos e parentes genuinamente
satisfeitos com o que estava acontecendo, que acompanhavam avidamente
os acontecimentos de nossas vidas e estavam dispostos a conversar sobre a
reação do público, que podia ser avassaladora. Isso aumentou muito a
importância e o significado de tudo o que estávamos fazendo e reduziu o
isolamento que uma mudança tão drástica nas circunstâncias da vida, para
melhor ou para pior, provavelmente acarretaria.
Além da amizade, as relações estabelecidas com colegas de status
semelhante no trabalho constituem outra fonte importante de regulação
pelos pares. Manter um bom relacionamento com seus colegas significa,
entre outras coisas, dar crédito a quem o merece; aceitar sua parte justa dos
trabalhos que ninguém quer, mas ainda assim precisam ser feitos; entregar
no prazo e com alta qualidade ao trabalhar em equipe; estar presente quando
é esperado; e, em geral, ser confiável para fazer um pouco mais do que seu
trabalho exige formalmente. A aprovação ou desaprovação de seus colegas
recompensa e reforça essa reciprocidade contínua, e isso — assim como a
reciprocidade, que é necessariamente parte da amizade — ajuda a manter a
função psicológica estável. É muito melhor ser alguém em quem se pode
confiar, até mesmo para que, em tempos de problemas pessoais, aqueles
com quem trabalhou estejam dispostos e sejam capazes de intervir e ajudar.
Por meio da amizade e dos relacionamentos de colégio, modificamos
nossas tendências egoístas, aprendendo a nem sempre nos colocar em
primeiro lugar. De forma menos óbvia, mas tão importante quanto, também
podemos aprender a superar nossas inclinações ingênuas e muito empáticas
(nossa tendência a nos sacrificar de maneira inadequada e injusta por
pessoas predatórias) quando nossos colegas nos aconselham e nos
encorajam a nos defender. Em consequência, se tivermos sorte, começamos
a praticar a verdadeira reciprocidade e obtemos pelo menos algumas das
vantagens de que fala o poeta Robert Burns:10
Oh, se algum Poder nos concedesse
Vermo-nos a nós como nos veem!
Nos livraríamos de tantos vexames,
E tão falsas impressões:
Sem mais nos exibir com gestos e roupagens,
Até nas devoções!V
O TOPO DA HIERARQUIA
É bom ser uma autoridade. Pessoas são frágeis. Por isso, a vida é difícil e o
sofrimento, comum. Para amenizar esse sofrimento — garantindo, para
começar, que todos tenham comida, água potável, instalações sanitárias e
um lugar para se abrigar —, é preciso iniciativa, esforço e habilidade. Se há
um problema a ser resolvido, e muitas pessoas se envolvem na solução,
então uma hierarquia deve e vai surgir, pois os que podem agem e os que
não podem seguem os primeiros da melhor forma possível e muitas vezes,
no processo, aprendem uma nova competência. Se o problema for real, as
pessoas que melhor o resolvem sobem ao topo. Isso não é poder. É a
autoridade que adequadamente acompanha a habilidade.
No entanto, é evidente que é apropriado outorgar poderes às autoridades
competentes, se elas estiverem resolvendo os problemas necessários; e é
igualmente apropriado ser uma dessas autoridades competentes, se possível,
quando há um problema complicado em questão. Isso pode ser considerado
uma filosofia de responsabilidade. Uma pessoa responsável assume o
problema e, depois, trabalha de forma diligente — eu diria até ambiciosa —
para sua solução, junto com outras pessoas, da maneira mais eficiente
possível (eficiente porque há outros problemas para resolver, e a eficiência
permite a conservação de recursos que poderão ser dedicados em outro
lugar importante).
A ambição é, com frequência, identificada erroneamente — e muitas vezes
de forma proposital — como o desejo de poder e enaltecida com falsos
elogios, denegrida e punida. E, às vezes, a ambição é exatamente esse
desejo de influência indevida sobre os outros. Mas há uma diferença crucial
entre às vezes e sempre. Autoridade não é mero poder, e é extremamente
inútil, até mesmo perigoso, confundir os dois. Quando as pessoas exercem
poder sobre outras, elas as constrangem, de modo convincente. Usam da ameaça de privação ou punição para que seus subordinados não tenham
outra escolha a não ser agir contrariando as próprias necessidades, desejos e
valores pessoais. Em contrapartida, quando as pessoas exercem autoridade,
o fazem por causa de sua competência — que é espontaneamente
reconhecida e apreciada por outros e costuma ser respeitada com boa
vontade, um certo alívio e a sensação de que a justiça está sendo feita.
Aqueles que têm gana de poder — tirânica, cruel e até mesmo psicopática
— desejam controlar os outros para que todos os caprichos egoístas do
hedonismo possam ser imediatamente satisfeitos; para que a inveja possa
destruir seu alvo; para que o ressentimento possa ser expressado. Mas as
pessoas boas são ambiciosas (e também diligentes, honestas e
concentradas), pois são tomadas pelo desejo de resolver problemas sérios e
genuínos. Essa variante da ambição precisa ser encorajada de todas as
maneiras possíveis. É por essa razão, entre muitas outras, que a
identificação cada vez mais reflexiva do empenho de meninos e homens em
vencer como a “tirania patriarcal” — que hipoteticamente caracteriza
nossas sociedades modernas, produtivas e relativamente livres — é tão
contraproducente (e, deve ser dito, cruel: não há quase nada pior do que
tratar alguém que luta pela competência como um tirano em treinamento).
A “vitória”, em um de seus aspectos primários e socialmente importantes, é
a superação de obstáculos para o bem público mais amplo. Um vencedor
sofisticado vence de um modo que melhora o jogo em si para todos os
jogadores. Adotar uma atitude de cinismo ingênuo ou intencionalmente
cego sobre isso, ou negar abertamente que seja verdade, é se posicionar —
talvez de propósito, já que as pessoas têm muitos motivos sombrios —
como um inimigo da melhoria prática do próprio sofrimento. Poucas
atitudes são mais sádicas.
O poder pode acompanhar a autoridade, e talvez deva ser assim. No
entanto, e mais importante, a autoridade genuína restringe o exercício
arbitrário de poder. Essa restrição se manifesta quando quem exerce a
autoridade se preocupa e assume a responsabilidade por aqueles sobre os
quais é possível exercer seu poder. O filho mais velho pode assumir a
responsabilidade pelos irmãos mais novos, em vez de dominá-los, provocá-
los e torturá-los, e dessa maneira pode aprender a exercer autoridade e
limitar o uso indevido do poder. Até o caçula pode exercer autoridade
apropriada sobre o cão da família. Adotar autoridade é aprender que o poder
requer preocupação e competência — e que tem um custo genuíno. Alguém recém-promovido a um cargo de gerência logo aprende que os gerentes são
frequentemente mais estressados por seus vários subordinados do que os
subordinados por seu único gerente. Essa experiência modera o que, de
outra forma, poderia se tornar fantasias românticas, mas perigosas, sobre a
atratividade do poder, e ajuda a suprimir o desejo de sua extensão infinita.
E, no mundo real, aqueles que ocupam posições de autoridade nas
hierarquias funcionais em geral ficam profundamente impressionados com a
responsabilidade que têm pelas pessoas que supervisionam, empregam e
orientam.
Nem todo mundo sente esse fardo, é claro. Uma pessoa que se estabeleceu
como autoridade pode esquecer suas origens e vir a desenvolver um
desprezo contraproducente pela pessoa que está começando. Isso é um erro,
até porque significa que a pessoa estabelecida não pode se arriscar a fazer
algo novo (pois isso significaria assumir o papel de tolo desprezado). Além
do mais, a arrogância impede o caminho do aprendizado. Certamente
existem tiranos tacanhos, obstinados e egoístas, mas de forma alguma são a
maioria, pelo menos em sociedades funcionais. Caso contrário, nada
funcionaria.
Em contrapartida, a autoridade que recorda sua fase de iniciante voluntário
consegue se identificar com o recém-chegado e a promessa de potencial, e
usar essa memória como a fonte de informações pessoais necessárias para
conter a gana de poder. Algo que sempre me surpreendeu é o prazer que
pessoas decentes sentem na capacidade de oferecer oportunidades para
aqueles sobre os quais exercem autoridade. Já vivenciei isso várias vezes:
pessoalmente, como professor universitário e pesquisador (e observei
muitas outras pessoas na minha situação fazendo o mesmo), e nos negócios
e outros ambientes profissionais com os quais me familiarizei. Há um
grande prazer intrínseco em ajudar jovens já competentes e admiráveis a se
tornarem profissionais altamente qualificados, socialmente valiosos,
autônomos e responsáveis. Não é diferente do prazer de criar os filhos e é
um dos principais motivadores de uma ambição válida. Assim, o topo da
hierarquia, quando ocupado de maneira adequada, tem como um de seus
atrativos fundamentais a oportunidade de identificar indivíduos
merecedores, no início ou perto do início da vida profissional, e
proporcionar-lhes meios de ascensão produtiva.
AS INSTITUIÇÕES SOCIAIS SÃO
NECESSÁRIAS — MAS INSUFICIENTES
Sanidade é conhecer as regras do jogo social, internalizá-las e segui-las. As
diferenças de status são, portanto, inevitáveis, já que todos os
empreendimentos que valem a pena têm um objetivo, e aqueles que os
buscam têm habilidades diferentes em relação a esse objetivo. Aceitar o fato
de que existe esse desequilíbrio e, mesmo assim, seguir em frente —
quando se está na base, no meio ou no topo — é um elemento importante da
saúde mental. Mas um paradoxo permanece. As soluções de ontem e de
hoje, das quais dependem nossas hierarquias atuais, não servirão
necessariamente de solução amanhã. A repetição irrefletida do que bastava
no passado — ou, pior, a insistência autoritária de que todos os problemas
foram resolvidos em definitivo — significa, portanto, a introdução de
grande perigo quando as mudanças no mundo mais amplo tornam a
mudança local necessária. O respeito pela transformação criativa deve,
assim, acompanhar a consideração apropriada pelas estruturas hierárquicas
de resolução de problemas que nos foram legadas pelo passado. Essa não é
uma opinião moral arbitrária nem uma afirmação moralmente relativa. É
algo mais parecido com o reconhecimento de leis naturais análogas,
embutidas na estrutura de nossa realidade. Criaturas altamente sociais,
como nós, devem obedecer às regras para permanecer sãs e minimizar
incertezas, sofrimentos e conflitos desnecessários. No entanto, devemos
também transformar essas regras com cuidado, conforme as circunstâncias
ao nosso redor mudam.
Isso implica, também, que a personalidade ideal não pode permanecer um
reflexo incondicional do estado social presente. Todavia, em condições
normais, pode-se dizer que a capacidade de se adaptar de maneira
incondicional supera a incapacidade de se adaptar. No entanto, a recusa em
se adaptar quando o ambiente social se tornou patológico — incompleto,
arcaico, propositalmente cego ou corrupto — é algo de valor ainda maior,
assim como a capacidade de oferecer alternativas criativas e válidas. Isso
nos deixa com um eterno dilema moral: quando devemos seguir a
convenção, fazendo o que os outros solicitam ou exigem; e quando
devemos confiar em nosso próprio julgamento individual, com todas as suas
limitações e seus vieses, e rejeitar as exigências do coletivo? Em outras palavras: como podemos estabelecer um equilíbrio entre conservadorismo
razoável e criatividade revitalizante?
Em primeiro lugar, na seara psicológica, está a questão do temperamento.
Algumas pessoas são, por temperamento, predispostas ao conservadorismo,
e outras, a ações e percepções criativas mais liberais.11 Isso não significa
que a socialização não tenha capacidade de alterar essa predisposição; os
seres humanos são organismos muito plásticos, com um longo período de
desenvolvimento antes da fase adulta, e as circunstâncias podem nos mudar
drasticamente. Contudo, isso não altera o fato de que existem nichos
relativamente permanentes no ambiente humano aos quais diferentes modos
de temperamento se adaptaram para preencher.
Aqueles que tendem para a direita no espectro político são defensores
ferrenhos de tudo o que funcionou no passado. E, na maioria das vezes, têm
razão em ser assim, por causa do número limitado de caminhos que
acarretam sucesso pessoal, harmonia social e estabilidade em longo prazo.
Mas, às vezes, eles estão errados: primeiro, porque o presente e o futuro
diferem do passado; segundo, porque mesmo as hierarquias outrora
funcionais geralmente (inevitavelmente?) são vítimas de maquinações
internas de um modo que provoca sua queda. Aqueles que chegam ao topo
podem fazê-lo por meio da manipulação e do exercício de um poder injusto,
agindo de uma forma que só funciona para eles, pelo menos no curto prazo;
porém, esse tipo de supremacia mina a função apropriada da hierarquia da
qual nominalmente fazem parte. Essas pessoas costumam não compreender
ou não se importar com a função para a qual a organização a que se filiaram
foi projetada. Elas extraem o que podem das riquezas que estão diante delas
e deixam um rastro de destruição.
É essa corrupção do poder que é fortemente contestada pelos adeptos do
espectro político liberal/de esquerda, e com razão. Mas é extremamente
importante distinguir uma hierarquia funcional e produtiva (e as pessoas
que a tornam assim) da mera fachada degenerada de uma instituição outrora
grandiosa. Fazer essa distinção requer a capacidade e a vontade de observar
e diferenciar, em vez de uma confiança estúpida na tendência ideológica.
Requer saber que há um lado bom nas hierarquias sociais que
necessariamente habitamos, bem como um lado sombrio (e a compreensão
de que se concentrar em um e excluir o outro é perigosamente tendencioso).
Também requer o conhecimento de que, no lado mais radical e criativo — a fonte necessária de revitalização para o que se tornou imoral e obsoleto —,
também existe um grande perigo. Parte desse perigo está na tendência,
daqueles que pensam no espectro mais liberal, de ver apenas o lado
negativo das instituições bem estabelecidas. O perigo adicional deriva da
contraparte dos processos corruptos, mas conservadores, que desestabilizam
e destroem as hierarquias funcionais: existem radicais antiéticos, assim
como existem administradores, gerentes e executivos corruptos. Esses
indivíduos tendem a ser profundamente ignorantes das complexas
realidades do status quo, inconscientes de sua própria ignorância e ingratos
pelo que o passado lhes legou. Tal ignorância e ingratidão são, com
frequência, associadas a uma predisposição para usar clichês batidos de
cinismo a fim de justificar a recusa de se envolver nos rigores monótonos,
mas necessários, da convenção social ou nos riscos e nas dificuldades de
um esforço verdadeiramente generativo. É essa corrupção da transformação
criativa que torna o conservador — e não apenas ele — apropriadamente
cauteloso em relação à mudança.
Alguns anos antes de escrever este texto, conversei com uma jovem de 20
e poucos anos — a sobrinha de uma pessoa que me enviou um e-mail após
assistir a uma de minhas palestras online. Ela parecia profundamente infeliz
e disse que passara grande parte dos seis meses anteriores deitada na cama.
Ela me procurou porque estava ficando desesperada. A única coisa que a
impedia de se matar, em sua avaliação, era a responsabilidade que ainda
mantinha por um animal de estimação exótico, um serval. Essa foi a última
manifestação remanescente de um interesse pela biologia que um dia a
dominou, mas o qual abandonou, para seu arrependimento, quando largou
os estudos no ensino médio. Ela não recebeu atenção adequada dos pais,
que permitiram que a filha simplesmente fosse levada pela corrente de uma
forma que se tornou desastrosa ao longo de vários anos.
Apesar de seu declínio, ela formulou um plano. Considerou que poderia se
matricular em um curso supletivo que a possibilitaria concluir o ensino
médio, pré-requisito para cursar a faculdade de veterinária. Mas ela não fez
as investigações necessárias sobre o que seria necessário para realizar essa
ambição. Não tinha um mentor. Não tinha bons amigos. Era muito fácil para
ela permanecer inerte e afundar no próprio isolamento. Tivemos uma
conversa agradável, por cerca de 45 minutos. Ela era uma boa garota. Eu
me ofereci para discutirmos seu futuro com mais detalhes se ela concluísse um programa de planejamento online elaborado por mim em conjunto com
colegas professores.VI
Tudo estava indo bem até que a conversa se desviou para a política. Após
discutir sua situação pessoal, ela começou a expressar seu
descontentamento com o estado do mundo em geral — com a catástrofe
iminente, em sua opinião, dos efeitos da atividade humana no meio
ambiente. Em princípio, não há nada de errado em expressar preocupação
por questões que envolvem todo o planeta. Meu ponto não é esse. O
problema é superestimar seu conhecimento desses assuntos — ou talvez até
mesmo considerá-los — quando você tem 20 e poucos anos, sem nada de
positivo acontecendo em sua vida, e está tendo grande dificuldade até
mesmo em sair da cama. Nessas condições, você precisa definir bem suas
prioridades, e estabelecer a humildade necessária para lidar e resolver seus
próprios problemas é parte crucial de fazer exatamente isso.
À medida que a discussão continuou, me vi não mais em uma conversa
genuína com uma jovem perdida que veio me procurar. Em vez disso,
tornei-me um parceiro hipoteticamente igual em um debate com uma
ideóloga que sabia o que estava errado, globalmente falando; que sabia
quem era o culpado por esses problemas globais; que sabia que participar da
destruição contínua, manifestando qualquer desejo pessoal, era imoral; e
que, por fim, acreditava sermos todos culpados e fadados à ruína. Continuar
a conversa naquele ponto significava que eu estava (a) falando não com
aquela jovem, mas com o que ou quem tomou posse dela quando ela se
embrenhou em ideias genéricas, impessoais e cínicas, e (b) indicando que a
discussão de tais tópicos sob as atuais circunstâncias era aceitável e
produtivo.
Não havia sentido em nenhum desses resultados. Então, parei (isso não
significa que toda a conversa fora um desperdício). Era impossível para
mim não concluir que parte do que a havia reduzido a seu estado de
paralisia moral, que já durava meses, não era tanto a culpa por contribuir
potencialmente para os efeitos negativos da ação humana no mundo mais
amplo, mas, sim, a sensação de superioridade moral que a preocupação com
essas coisas lhe trouxe (apesar do perigo psicológico excepcional de abraçar
essa visão sombria da possibilidade humana). Desculpe-me pelo clichê —
mas é necessário andar antes de correr. Você pode até ter que engatinhar
antes de andar. Isso faz parte de aceitar sua posição de iniciante, na base da hierarquia, condição que você despreza de forma tão negligente, arrogante e
egoísta. Além disso, a atitude profundamente anti-humana que muitas vezes
acompanha as lágrimas derramadas pela degradação ambiental e pela
desumanidade do Homem para com o Homem não pode deixar de ter um
efeito marcante na atitude psicológica que define o relacionamento de uma
pessoa consigo mesma.
Demoramos desde tempos imemoriais para nos organizar, biológica e
socialmente, nas hierarquias funcionais que especificam nossas percepções
e ações e que definem nossas interações com o mundo natural e social. A
profunda gratidão por esse presente é a única reação adequada. A estrutura
que nos envolve tem seu lado sombrio — assim como a natureza, assim
como cada indivíduo —, mas isso não significa que uma crítica descuidada,
genérica e egoísta do status quo seja apropriada (não mais do que uma
objeção automática ao que pode ser uma mudança necessária).
A NECESSIDADE DE EQUILÍBRIO
Atitudes e ações conservadoras e criativas tendem a se propagar
constantemente, pois fazer o que os outros fazem e sempre fizeram costuma
funcionar, e, às vezes, a ação radical pode acarretar um sucesso estrondoso.
Uma instituição social funcional — uma hierarquia dedicada a produzir
algo de valor, além da mera garantia da própria sobrevivência — pode se
aproveitar dos tipos conservadores para implementar cuidadosamente
processos de valor testado e comprovado; e dos tipos criativos e liberais
para determinar como o que é antigo e obsoleto pode ser substituído por
algo novo e mais valioso. O equilíbrio entre conservadorismo e
originalidade pode, portanto, ser atingido de maneira socialmente adequada
ao aproximar os dois tipos de pessoas. Mas alguém deve determinar a
melhor forma de fazer isso, o que requer uma sabedoria que transcende a
mera predisposição temperamental. Tendo em vista que os traços associados
à criatividade, de um lado, e o conforto com o status quo, de outro, tendem
a ser mutuamente exclusivos, é difícil encontrar uma única pessoa que tenha
equilibrado ambos de forma adequada, que se sinta confortável trabalhando
com os dois tipos de pessoas e que possa atender, com imparcialidade, à
necessidade de aproveitar as respectivas formas de talento e inclinações.
No entanto, o desenvolvimento dessa capacidade pode pelo menos
começar com uma expansão da sabedoria consciente: a compreensão
articulada de que o conservadorismo é bom (com um conjunto de perigos
associados) e de que a transformação criativa — mesmo a radical —
também é boa (com um conjunto de perigos associados). Descobrir isso, em
termos profundos — apreciar a necessidade de ambos os pontos de vista —,
significa pelo menos a possibilidade de valorizar o que pessoas
verdadeiramente diversas têm a oferecer e de ser capaz de reconhecer
quando o equilíbrio pendeu demais para um lado. O mesmo se aplica ao
conhecimento do lado sombrio de ambos os pontos de vista. Para lidar com
assuntos complexos de maneira apropriada, é necessário analisar com muita
frieza e, assim, separar os pseudodefensores do status quo, que são egoístas
e sedentos de poder, dos conservadores genuínos; e os rebeldes sem causa,
enganosos e irresponsáveis, dos verdadeiramente criativos. E administrar
isso significa separar esses fatores dentro dos limites da própria alma, bem
como entre outras pessoas.
E como fazer isso? Em primeiro lugar, podemos compreender, de maneira
consciente, que esses dois modos de ser são totalmente interdependentes.
Um não pode existir verdadeiramente sem o outro, embora coexistam em
tensão genuína. Isso significa, primeiro, por exemplo, que a disciplina — a
subordinação ao status quo, de uma forma ou de outra — precisa ser
entendida como uma precursora necessária para a transformação criativa, e
não como sua inimiga. Assim, tal como a hierarquia das presunções que
compõem a estrutura organizadora da sociedade e das percepções
individuais é moldada por restrições, e totalmente dependente delas, o
mesmo ocorre com a transformação criativa. Ela precisa pressionar os
limites, visto que não será útil e não poderá ser invocada a menos que esteja
lutando contra algo. É por essa razão que o grande gênio, o concessor de
desejos — Deus, em um microcosmo —, está arquetipicamente preso nos
confins diminutos de uma lâmpada, e sujeito também à vontade do atual
portador da lâmpada. O gênio — o talento — é a combinação de
possibilidade, potencial e restrição extrema.
Portanto, as limitações, as restrições, os limites arbitrários — as regras, as
tão odiadas regras — não apenas garantem a harmonia social e a
estabilidade psicológica, mas tornam a criatividade que renova a ordem
possível. Assim, o que se esconde sob o desejo explicitamente declarado de
liberdade plena — conforme expresso, digamos, pelo anarquista ou niilista — não é um desejo positivo, que busca uma expressão criativa aprimorada,
como a caricatura romantizada do artista. Em vez disso, é um desejo
negativo — um desejo pela completa ausência de responsabilidade, que
simplesmente não é compatível com a liberdade genuína. Essa é a mentira
por trás das objeções às regras. Mas “Abaixo a Responsabilidade” não é um
slogan atraente — pois requer um narcisismo suficiente para refutar a si
mesmo de forma ostensiva —, e seu correspondente, “Abaixo as Regras”, é
a ilusão do heroísmo.
Ao lado da sabedoria do autêntico conservadorismo está o perigo de que o
status quo se corrompa e sua corrupção seja explorada em benefício
próprio. Ao lado da genialidade do esforço criativo está o falso heroísmo do
ideólogo ressentido, que se veste de rebelde original ao mesmo tempo em
que proclama indevidamente uma supremacia moral e rejeita toda
responsabilidade genuína. O conservadorismo inteligente e cauteloso e as
mudanças cuidadosas e incisivas são o que mantêm o mundo em ordem.
Mas cada um tem seu aspecto sombrio, e é crucial, uma vez que isso tenha
sido percebido, perguntar-se: será que sou autêntico ou o oposto? E a
resposta, inevitavelmente, é que você é um pouco de ambos — e talvez
tenha muito mais da parte sombria do que gostaria. Tudo isso integra a
compreensão da complexidade que cada um carrega dentro de si.
A PERSONALIDADE COMO HIERARQUIA —
E A CAPACIDADE PARA A
TRANSFORMAÇÃO
Assim, como devem ser entendidas a personalidade que equilibra o respeito
pelas instituições sociais e, na mesma medida, a transformação criativa?
Dada a complexidade do problema, isso não é tão fácil de determinar. Por
isso, recorremos a histórias. Elas nos fornecem um modelo amplo.
Delineiam um padrão específico o suficiente para ser incrivelmente valioso,
se conseguirmos imitá-lo, mas geral o suficiente (ao contrário de uma regra
particular ou um conjunto de regras) para ser aplicado até mesmo em
situações novas. Nas narrativas, captamos observações da personalidade
ideal. Contamos histórias sobre sucesso e fracasso em aventuras e
romances. Em nossos universos narrativos, o sucesso nos move em direção
ao que é melhor, à terra prometida; o fracasso nos condena, e também aqueles que se enredam conosco, ao abismo. O bem nos move para frente e
para cima, e o mal nos arrasta para trás e para baixo. Grandes histórias
envolvem personagens em ação e, portanto, elas refletem as estruturas e os
processos inconscientes que nos ajudam a traduzir o mundo intransigente
dos fatos em um mundo social sustentável, funcional e recíproco dos
valores.VII
A hierarquia de valores incorporada de maneira adequada — incluindo o
valor do conservadorismo e de sua análoga, a transformação criativa —
encontra na narrativa sua expressão como uma personalidade — uma
personalidade ideal. Toda hierarquia tem algo em seu ápice. É por isso que
uma história, que é uma descrição da ação de uma personalidade, tem um
herói (e, mesmo que seja um anti-herói, não importa: a função do anti-herói
é distinguir o herói por comparação, visto que este é tudo que o outro
decididamente não é). O herói é o indivíduo no ápice, o vencedor, o
campeão, o perspicaz, o oprimido que, no devido tempo, se torna bem-
sucedido e merecedor, aquele que diz a verdade em circunstâncias perigosas
e muito mais. As histórias que criamos, assistimos, ouvimos e lembramos
são centradas em ações e atitudes que consideramos interessantes, atraentes
e dignas de serem transmitidas como consequência de nossa experiência
com pessoas admiráveis e detestáveis (ou fragmentos de suas atitudes e
ações específicas) ou por causa de nossa propensão para compartilhar o que
nos chama a atenção com aqueles que nos cercam. Às vezes, extraímos
narrativas atraentes diretamente de nossa experiência pessoal com
indivíduos; outras, criamos amálgamas de múltiplas personalidades, muitas
vezes em conformidade com as pessoas que compõem nossos grupos
sociais.
Anteriormente, contei parte da história de um cliente, empregando, assim,
sua vida como um exemplo útil da necessidade de engajamento social. Essa
história, entretanto, não esgota o significado de suas atitudes e ações
transformadas. Enquanto reconstruía sua vida social, tornando-se um
participante ativo em uma série de atividades coletivas, ele desenvolveu
uma certa habilidade criativa igualmente inesperada. Ele não obteve
qualquer educação formal além do ensino médio e não tinha uma
personalidade que impressionasse de imediato um observador externo como
marcadamente criativa. No entanto, as atividades sociais, pessoalmente novas, que o atraíram eram em grande parte orientadas para a aplicação
estética.
Ele primeiro desenvolveu um olhar para a forma, simetria, originalidade e
beleza como fotógrafo. As vantagens sociais dessa atividade eram
múltiplas: ele se juntou a um clube cujos membros participavam de passeios
fotográficos quinzenais, nos quais se deslocavam em grupos de cerca de
vinte pessoas para partes da cidade visualmente interessantes, pela beleza
natural ou singularidade ou pela atração que despertavam como paisagens
industriais. Muito de seu aprendizado técnico sobre equipamento
fotográfico foi adquirido nessas excursões. Os membros do grupo também
criticavam os trabalhos uns dos outros — de forma construtiva, o que
significava que todos apontavam os eventuais erros cometidos, mas
exaltavam o que tinham de valor.
Tudo isso ajudou meu cliente a aprender a se comunicar de maneira
produtiva sobre tópicos potencialmente difíceis do ponto de vista
psicológico (por se tratarem de críticas que, devido à sua associação com a
visão criativa, poderiam gerar, de maneira contraprodutiva, reações
sensíveis e exageradas) e também a distinguir cada vez mais as imagens
visuais banais, tediosas ou conformistas das de qualidade genuína. Após
alguns meses, sua percepção se desenvolveu tanto que ele passou a vencer
concursos locais e a fazer pequenos trabalhos profissionais. Desde o início,
acreditei que sua participação no clube de fotografia seria uma ótima ideia,
do ponto de vista do desenvolvimento da personalidade, mas fiquei
genuinamente impressionado com o rápido desenvolvimento de sua
capacidade visual e técnica, e gostei muito dos momentos que passamos
analisando seu trabalho durante as sessões.
Depois de alguns meses envolvido com a fotografia, meu cliente começou
a produzir e a me mostrar outras criações visuais — desenhos de linha
abstratos feitos a caneta, sem dúvida ainda amadorísticos e incipientes.
Consistiam basicamente em espirais de vários tamanhos, em um contínuo,
na mesma página: rabiscos, na verdade, embora mais controlados e
nitidamente mais objetivos do que meros rabiscos. Assim como as
fotografias (e o clube de fotografia), considerei-os úteis do ponto de vista
psicológico — como uma extensão da capacidade criativa, mas não como
empreendimento artístico valioso por si só. No entanto, ele continuou
produzindo vários desenhos por semana, levando-os às nossas sessões. Suas criações ganhavam sofisticação e beleza com uma rapidez impressionante.
Logo ele estava produzindo desenhos em preto e branco complexos,
simétricos e bastante expressivos com caneta e nanquim, de beleza
intrínseca suficiente para servirem como designs de camisetas
comercialmente viáveis.
Eu presenciara esse tipo de desenvolvimento com muita clareza no caso de
dois outros clientes, ambos caracterizados por um temperamento
intrinsecamente criativo (muito bem escondido em um dos casos; mais
desenvolvido, cultivado e óbvio no outro). Além disso, eu lera relatos de
casos clínicos e de desenvolvimento pessoal do Dr. Carl Jung, que notou
que a produção de figuras geométricas cada vez mais ordenadas e
complexas — muitas vezes círculos dentro de quadrados ou o inverso —
regularmente acompanhava um aumento na organização da personalidade.
Isso certamente parecia verdadeiro não só para meu cliente, como
evidenciado por sua crescente expertise na fotografia e pelo
desenvolvimento de sua habilidade como artista gráfico, mas também para
os outros dois que tive o prazer de atender como terapeuta clínico. Assim, o
que observei, repetidas vezes, foi não só a reconstrução da psique como
consequência de mais socialização (e da valorização das instituições
sociais), mas a transformação paralela de processos principalmente
interiores, demonstrada por um aumento acentuado na capacidade de
perceber e criar algo elegante, bonito e socialmente valorizado. Meus
clientes aprenderam não só a se submeter de maneira adequada às
exigências por vezes arbitrárias (mas ainda assim necessárias) do mundo
social, como também a oferecer a esse mundo algo a que não teria acesso se
não fosse por seu trabalho criativo.
Além da socialização como agente do socialmente valorizado ato de
apontar, minha neta, Elizabeth Scarlett, também passou a exibir
comportamentos indicativos, se não da própria capacidade criativa, ao
menos de um apreço pela capacidade criativa. Quando as pessoas discutem
uma narrativa — apresentada como um filme, uma peça ou um livro —,
elas costumam tentar chegar a um consenso sofisticado sobre o propósito da
história (sofisticado porque um grupo de pessoas geralmente pode oferecer
mais pontos de vista do que um único indivíduo; consenso porque a
discussão geralmente continua até que um amplo acordo seja alcançado
quanto ao tópico em questão). A ideia de que uma história é uma forma de
comunicação — e entretenimento — é um daqueles fatos que parecem evidentes à primeira vista, mas que se tornam mais enigmáticos quanto mais
refletimos. Se é verdade que uma história tem um propósito, então é claro
que ela aponta para algo. Mas para o quê? E como? O apontar é óbvio
quando é uma ação que especifica uma coisa em particular, ou alguém que
aponta para uma determinada pessoa, mas é menos óbvio quando é algo que
tipifica o comportamento cumulativo, digamos, de um personagem em uma
história.
Mais uma vez, as ações e atitudes dos heróis e heroínas de J. K. Rowling
fornecem exemplos populares desse processo. Harry Potter, Ron Weasley e
Hermione Granger representam, em grande parte, a disposição e a
capacidade de seguir regras (o que indica sua expertise como aprendizes) e,
simultaneamente, de quebrá-las. De forma semelhante, aqueles que os
supervisionam são propensos a recompensar ambas as formas de
comportamento, aparentemente paradoxais. Até as tecnologias usadas pelos
jovens bruxos durante seu aprendizado são caracterizadas por essa
dualidade. Por exemplo, o Mapa do Maroto (que fornece a seu portador
uma representação precisa do território explorado de Hogwarts, a escola de
bruxaria, e a localização de todos os seus habitantes vivos) só pode ser
ativado como ferramenta funcional quando pronunciado um conjunto de
palavras que parecem indicar exatamente o oposto do comportamento
moral: “Eu juro solenemente não fazer nada de bom.” E desativado, de
modo que sua função permaneça secreta, com a frase: “Malfeito feito.”
Não é fácil entender como um artefato que requer esse tipo de declaração
para torná-lo utilizável poderia ser algo além de “nada bom” —
aparentemente é uma ferramenta de propósito maligno. Porém, assim como
o fato de Harry e seus amigos regularmente, mas com todo cuidado,
quebrarem as regras e serem recompensados por isso em igual medida, o
Mapa do Maroto varia em sua desejabilidade ética de acordo com a
intenção de seus usuários. Ao longo da saga, há uma forte sugestão de que o
que é bom não pode ser simplesmente encapsulado pelo cumprimento
rígido ou impensado das regras, não importa o quanto esse cumprimento
seja disciplinado nem o quanto as regras sejam vitais. Tudo isso significa
que a saga Harry Potter não aponta a subserviência cega à ordem social
como a maior das virtudes morais. O que afasta essa obediência não é tão
óbvio que possa ser prontamente articulado, mas é algo como: “Siga as
regras, exceto quando isso compromete o propósito dessas mesmas regras
— neste caso, corra o risco de agir de maneira contrária ao que foi acordado como moral.” Essa é uma lição que parece aprendida com mais facilidade
por meio de representações de comportamentos que a incorporam do que
transmitida por, digamos, aprendizado mecânico ou por uma regra variável.
Metarregras (mais bem definidas como regras sobre regras) não são
necessariamente transmitidas da mesma forma que as regras simples.
Elizabeth Scarlett, com sua ênfase em apontar, logo depois de dominar o
ato físico relativamente simples, aprendeu a captar o propósito mais
complexo das narrativas. Aos 18 meses de idade, era capaz de atribuir
significado a algo com seu dedo indicador. No entanto, com 2 anos e meio,
conseguia entender e imitar o sentido muito mais intrincado de uma
história. Nessa idade, por um período de aproximadamente seis meses, ela
insistia, quando questionada, que era Pocahontas, em vez de Ellie (o nome
preferido por seu pai) ou Scarlett (preferido por sua mãe). Esse foi um ato
surpreendente de pensamento sofisticado, na minha opinião. Ela ganhara
uma boneca Pocahontas, que se tornou um de seus brinquedos favoritos, e
uma boneca bebê (também muito querida), à qual ela deu o nome da avó,
minha esposa, Tammy. Quando brincava com a boneca bebê, Tammy, Ellie
era a mãe. Mas com a Pocahontas a situação era diferente. Essa boneca não
era um bebê e Ellie não era sua mãe. Em vez disso, minha neta se
considerava uma versão da Pocahontas — e imitava a boneca, que era
representada como uma jovem, assim como a protagonista no filme da
Disney de mesmo nome, ao qual ela assistiu extasiada em duas ocasiões
distintas.
A Pocahontas da Disney tem semelhanças marcantes com os protagonistas
da saga Harry Potter. Ela foi prometida por seu pai a Kocoum, um bravo
guerreiro que incorpora, de verdade, as virtudes de sua tribo, mas cujo
comportamento e atitudes são condicionados demais às regras para a
personalidade mais expansiva de sua noiva. Pocahontas, então, se apaixona
por John Smith, capitão de um navio europeu, que representa o que está
além do território conhecido, mas é (potencialmente) de grande valor.
Paradoxalmente, Pocahontas busca uma ordem moral superior ao trocar
Kocoum por Smith — quebrando uma regra de profunda importância
(valorize o que é mais valorizado na hierarquia de regras da cultura em que
vive) —, quase da mesma forma que os personagens principais de Harry
Potter. Esta é a moral de ambas as narrativas: siga as regras até que seja
capaz de ser um exemplo notável do que elas representam, mas quebre-as
quando essas mesmas regras constituírem o mais terrível impedimento para a personificação de suas virtudes centrais. E Elizabeth Scarlett, ainda com
menos de 3 anos de idade, teve a sabedoria intrínseca de ver isso como o
propósito da história a que estava assistindo (o filme da Disney) e usá-lo
como auxiliar de interpretação (a boneca Pocahontas). Sua perspicácia a
esse respeito beirava o inimaginável.
O mesmo conjunto de ideias — respeito pelas regras, exceto quando
segui-las signifique desconsiderar, ignorar ou permanecer cego a um
princípio moral ainda mais elevado — é representado com impressionante
poder em duas narrativas evangélicas diferentes (que servem,
independentemente de sua opinião sobre elas, como histórias tradicionais ou
clássicas centrais que retratam uma personalidade com o propósito de
evocar a imitação). Na primeira, Cristo é apresentado, mesmo ainda criança,
como um mestre da tradição judaica. Isso o torna totalmente consciente do
valor do passado e o retrata como detentor do respeito típico, digamos, do
conservador genuíno. De acordo com o relato em Lucas 2:42-52,VIII todos os
anos, a família de Jesus viajava para Jerusalém no feriado da Páscoa
judaica, o Pessach:
E quando ele tinha doze anos, eles subiram para Jerusalém segundo o costume da festa.
E quando haviam cumprido os dias, enquanto eles retornavam, o menino Jesus ficou para trás
em Jerusalém, e José e sua mãe não souberam.
Mas, supondo que ele estivesse na companhia, andaram uma jornada de um dia, e
procuravam-no entre os seus parentes e conhecidos.
E não tendo-o encontrado, eles retornaram para Jerusalém em busca dele.
E aconteceu que, após três dias, eles o acharam no templo, assentado no meio dos doutores,
ouvindo-os, e dirigindo-lhes perguntas.
E todos os que o ouviam admiravam-se com o seu entendimento e com as suas respostas.
E quando eles o viram, ficaram perplexos; e disse-lhe sua mãe: Filho, por que tu fizeste
assim para conosco? Eis que teu pai e eu te procuramos angustiados.
E ele lhes disse: Por que procurastes por mim? Não sabeis que eu devo estar sobre os
negócios de meu Pai?
E eles não entenderam as palavras que lhes dissera.
E desceu com eles, e foi para Nazaré, e era-lhes sujeito; mas sua mãe guardava todos esses
dizeres no seu coração.
E Jesus crescia em sabedoria e estatura, e no favor para com Deus e os homens.
Entretanto, quando todos os relatos do Evangelho são considerados em
conjunto, surge um paradoxo; algo intimamente associado à tensão entre o
respeito pela tradição e a necessidade da transformação criativa. Apesar das
evidências de sua compreensão e apreciação total, e até precoce, das regras, Cristo adulto viola de forma reiterada e chocante as tradições do shabat —
pelo menos do ponto de vista dos tradicionalistas em sua comunidade — e o
faz por sua própria conta e risco. Ele conduz seus discípulos por um campo
de milho, por exemplo, colhendo e debulhando as espigas e comendo os
grãos (Lucas 6:1). Ele justifica sua atitude aos fariseus que o contestam
referindo-se a um relato do Rei Davi agindo de maneira semelhante,
alimentando seu povo, quando a necessidade o exigia, com pão que estava
reservado para os sacerdotes (Lucas 6:4). Notavelmente, Cristo diz a seus
interlocutores que “o Filho do homem é o Senhor também do shabat”
(Lucas 6:5).
Um documento antigo conhecido como Codex Bezae,IX ou Códice de
Beza, uma variante não canônica de parte do Novo Testamento, traz uma
interpolação logo após a seção do Evangelho de Lucas apresentada
anteriormente, ajudando a esclarecer esse mesmo assunto. Ele oferece uma
visão mais profunda da relação complexa e paradoxal entre o respeito pelas
regras e a ação moral criativa necessária e desejável, apesar de se
manifestar em aparente oposição a essas regras. O documento contém um
relato de Cristo se dirigindo a alguém que, assim como Ele, quebrou uma
regra sagrada: “Naquele mesmo dia, observando alguém que trabalhava no
shabat, [Jesus] disse-lhe: Ó Homem, se de fato sabes o que fazes, és
abençoado; mas, se não sabes, és maldito e transgressor da Lei.”12
O que significa essa afirmação? Ela resume com perfeição o significado
da Regra 1. Se você entende as regras — sua necessidade, sua sacralidade, o
caos que elas evitam, como unem as comunidades que as seguem, o preço
pago por seu estabelecimento e o perigo de quebrá-las —, mas está disposto
a arcar com toda a responsabilidade de fazer uma exceção, pois considera
que isso sirva a um bem maior (e se é uma pessoa com caráter suficiente
para fazer essa distinção), então você serviu ao espírito, e não à mera lei, e
isso é um ato moral elevado. Mas, se você se recusar a perceber a
importância das regras que está violando e agir por conveniência
egocêntrica, então estará, de maneira adequada e inevitável, condenado. A
indiferença que demonstra em relação à sua própria tradição irá destruí-lo, e
talvez aqueles ao seu redor, de forma completa e dolorosa ao longo do
tempo.
Isso está de acordo com outros sentimentos e atos de Cristo descritos nos
Evangelhos. Mateus 12:11 afirma: “E ele lhes disse: Qual homem haverá dentre vós que, tendo uma ovelha, e ela caindo em uma cova no dia do
shabat, não lançará mão dela, e a levantará?” Lucas descreve como Ele
curou um homem com a mão atrofiada em outro shabat, dizendo: “É lícito
no dia do shabat fazer bem, ou fazer mal? De salvar a vida ou de destruí-
la?” (Lucas 6:9). Essa justaposição psicológica e conceitualmente dolorosa
de duas posturas morais (a guarda do shabat versus o comando de fazer o
bem) é algo que constantemente enfurece os fariseus e faz parte da série de
eventos que acabam levando à prisão e à crucificação de Cristo. Essas
histórias retratam o dilema existencial que eternamente caracteriza a vida
humana: é preciso se conformar, ser disciplinado e seguir as regras — fazer,
com humildade, o que os outros fazem; mas também é preciso usar o
julgamento, a visão e a verdade que orienta a consciência para perceber o
que é certo quando as regras sugerem o contrário. É a capacidade de
gerenciar essa combinação que caracteriza de fato a personalidade
totalmente desenvolvida: o verdadeiro herói.
Uma certa dose de desobediência arbitrária às regras deve ser tolerada —
ou bem-vinda, dependendo do seu ponto de vista — para manter o mundo e
seus habitantes unidos. Uma certa dose de criatividade e rebelião deve ser
tolerada — ou bem-vinda, dependendo do seu ponto de vista — para manter
o processo de regeneração. Toda regra já foi um ato criativo, que quebrou
outras regras. Todo ato criativo, genuíno em sua criatividade, tende a se
transformar, com o tempo, em uma regra útil. É a interação viva entre as
instituições sociais e as realizações criativas que mantém o mundo
equilibrado na linha tênue entre o excesso de ordem e o excesso de caos.
Esse é um dilema terrível; um verdadeiro fardo existencial. Devemos apoiar
e valorizar o passado, e precisamos fazer isso com uma atitude de gratidão e
respeito. Ao mesmo tempo, porém, devemos manter nossos olhos abertos
— nós, os seres visionários — e reparar os antigos mecanismos que nos
estabilizam e nos sustentam quando eles vacilam. Assim, para que nossas
instituições permaneçam vivas e saudáveis, precisamos tolerar o paradoxo
que envolve, simultaneamente, o respeito às paredes que nos mantêm
seguros e a permissão de doses suficientes do novo e mutável. O próprio
mundo depende, para sua estabilidade e seu dinamismo, da submissão de
todos os nossos esforços à perfeição — à sacralidade — da capacidade de
manter essa dualidade.
Não denigra as instituições sociais ou as realizações criativas de forma
negligente.
I Modifiquei os relatos extraídos de minha prática clínica apenas o suficiente para garantir a privacidade de meus clientes e, ao mesmo tempo, manter a essência da verdade narrativa.
II “De muitos, um.”
III Até os ratos entendem isso. Jaak Panksepp, um dos fundadores do subcampo psicológico chamado neurociência afetiva e um pesquisador extremamente criativo, corajoso e talentoso, passou muitos anos analisando o papel da brincadeira no desenvolvimento e na socialização de ratos (veja Panksepp, J. “Affective neuroscience: The foundations of human and animal emotions” [Nova York: Oxford University Press, 1998], especialmente o capítulo sobre brincadeiras, pp. 280-299). Os ratos gostam de jogar. E gostam particularmente de jogos de luta, ainda mais se forem ratos machos e jovens. Eles gostam tanto que trabalharão voluntariamente — puxando uma alavanca repetidas vezes, digamos — para ter a oportunidade de entrar em uma arena onde outro jovem o aguarda para jogar. Quando dois jovens estranhos se encontram pela primeira vez nesta situação, eles se avaliam e, então, estabelecem o domínio. Se um rato for apenas 10% maior do que o outro, já é capaz de vencer praticamente todas as disputas físicas, todas as brincadeiras de luta; ainda assim, eles lutam para descobrir quem vence, mas o rato maior quase sempre imobiliza o menor. Se encararmos o estabelecimento da hierarquia como equivalente à dominância pelo poder, seria o fim do jogo. O rato maior e mais poderoso venceu. Fim da história. Mas este não é, de forma alguma, o fim da história, a menos que os ratos se encontrem apenas uma vez. Esses animais vivem em ambientes sociais e interagem com os mesmos indivíduos continuamente. Assim, o jogo, uma vez iniciado, continua — e as regras devem governar não apenas o jogo único, mas também os que se repetem. Uma vez que a dominância é estabelecida, os ratos podem brincar de lutar — o que é muito diferente de uma luta genuína (assim como brincar de lutar com um cachorro de estimação é muito diferente de ser atacado por um cachorro). O rato maior continua sendo capaz de imobilizar o menor todas as vezes. No entanto, isso quebra as regras (na verdade, as metarregras: aquelas que só são observáveis no decorrer de jogos repetidos). O objetivo do jogo reiterado não é o domínio, mas, sim, a continuidade. Isso não quer dizer que o domínio inicial não tenha significado. Ele é importante, sobretudo no seguinte sentido: quando os dois ratos se encontrarem pela segunda vez, ambos assumirão um papel único. O rato menor agora tem o dever de convidar seu amigo maior para jogar, e o rato maior tem o dever de aceitar o convite. O primeiro começará a pular para convidar à brincadeira, indicando sua intenção. O rato maior pode recuar e agir com calma e um pouco de desdém (como agora é sua prerrogativa); mas, se for decente, entrará na diversão, pois no fundo do seu coração o que ele realmente deseja é jogar. No entanto — e esta é a questão crítica —, se o rato maior não deixar o rato menor vencer as lutas repetidas em alguma proporção substancial do tempo (Panksepp estimou 30–40% das vezes), o rato menor não o convidará mais para jogar. Simplesmente não é divertido para o pequenino. Assim, se o rato maior dominar pelo poder (tal qual um valentão), como poderia fazer, perderá no nível mais alto (o nível em que a diversão continua pelo maior tempo possível), mesmo quando “ganha” com mais frequência no nível inferior. O que isso significa? O mais importante, esse poder simplesmente não é uma base estável sobre a qual construir uma hierarquia projetada para governar de forma otimizada as interações repetidas. E isso não é verdade apenas para os ratos. Os machos alfa, pelo menos entre certos grupos de primatas, são muito mais pró-sociais do que seus camaradas menores. O poder também não funciona para eles (veja de Waal, F. B. M. e Suchak, M. “Prosocial primates: selfish and unselfish motivations”. Philosophical Transactions of the Royal Society of London: Biological Science, 365, [2010], 2711-2722. Veja também de Waal, F., The surprising science of alpha males, TEDMED 2017, bit.ly/primate_ethic).
IV Se for verdade, isso torna especialmente nefastos os dados da enquete de 30 de julho de 2019 do YouGov, “Millennials are the Loneliest Generation” (http://bit.ly/2TVVMLn), que indica que 25% dos millennials não têm colegas e 22% não têm amigos.
V Burns, R. 1994. 50 poemas. RJ, Relume Dumará. Poema: A um piolho, tradução de Luiza Lobo de “To a Louse: On Seeing One on a Lady’s Bonnet at Church” — originalmente publicado em 1786. (N. da T.)
VI Esse planejamento é parte do Self Authoring Suite, um conjunto de programas individuais elaborados para ajudar as pessoas a escrever sobre os problemas de seu passado (Past Authoring), as falhas e virtudes de sua atual personalidade (Present Authoring, em duas partes) e seus desejos e anseios para o futuro (Future Authoring). Eu lhe recomendei especificamente este último.
VII Podemos perceber esse aspecto, por exemplo, na tendência dos protestantes evangélicos norte-americanos de se perguntar, quando confrontados com um novo problema existencial: “O que Jesus faria?” Isso é um terreno fértil para a paródia, mas indica os valores das histórias com precisão: uma vez que uma narrativa foi internalizada, ela pode ser usada como um modelo para gerar novas percepções e comportamentos. Pode parecer ingênuo ou presunçoso imaginar quais ações o próprio Salvador arquetípico poderia realizar caso estivesse encerrado nos limites de uma vida normal, mas o propósito fundamental das narrativas religiosas é, na verdade, motivar a imitação.
VIII Todas as citações bíblicas são da versão King James, a menos que indicado de outra forma.
IX Um códice é um livro composto de folhas de pergaminho, papiro ou, mais comumente, papel. O termo agora é, em geral, reservado para manuscritos originalmente escritos à mão, como no caso do Códice de Beza. Ele contém versões gregas e latinas dos Atos e da maioria dos quatro Evangelhos. Essas versões são únicas naquilo que acrescentam, no que omitem e, com frequência, no estilo em que foram escritas.