Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida
Regra 9: Escreva em detalhes todas as velhas lembranças que ainda o perturbam
REGRA 9
ESCREVA EM DETALHES TODAS AS
VELHAS LEMBRANÇAS QUE AINDA O
PERTURBAM
O PASSADO JÁ SE ESQUECEU DE VOCÊ?
Imagine que você praticou algumas ações terríveis no passado. Traiu ou
magoou pessoas de forma genuinamente nociva. Prejudicou a reputação
delas com fofocas e insinuações. Assumiu o crédito pelo trabalho delas.
Roubou-lhes material ou espiritualmente. Enganou-as. Ou imagine, em vez
disso, que você foi o alvo de algumas dessas situações — e também
suponha que aprendeu o suficiente para tentar evitar a repetição da
experiência. Em ambas as circunstâncias (como autor ou vítima), os eventos
reais e as memórias associadas evocam medo, culpa e vergonha. Por quê?
No primeiro caso, você se traiu. Não se atentou ao jogo de médio a longo
prazo de maneira adequada e está sofrendo as consequências. Você não é o
tipo de pessoa que os outros escolhem ter por perto. Pode nem mesmo ser o
tipo de pessoa que gostaria de ter por perto. No segundo caso, você foi
terrivelmente maltratado por alguém. Em certo sentido, porém, não importa
se estava sofrendo por causa de uma autotraição ou de outras pessoas. O
que importa é que não deseja repetir nenhuma das situações.
Entretanto, se recorda o fato ou a memória volta sem ser convidada,
acompanhada de todo o terror, vergonha e culpa, isso significa algo
específico. Significa que você caiu em um buraco — um fosso, mais
precisamente — ou foi empurrado para lá. E isso não é bom. O pior é que
você não sabe por quê. Talvez tenha confiado em outras pessoas com muita
facilidade. Talvez tenha sido muito ingênuo. Talvez fosse deliberadamente cego. Talvez tenha encontrado a maleficência genuína, da parte de outra
pessoa ou de você mesmo (e essa é a pior situação e a mais difícil de
superar). Mas, no âmbito da análise, se caiu ou foi empurrado, faz pouca
diferença — pelo menos para os sistemas emocionais que surgiram ao longo
da evolução e agora servem para protegê-lo. Eles se preocupam com uma
coisa e apenas uma coisa: que você não repita um erro.
Os alarmes que esses sistemas ativam são baseados no medo (esse é um
termo muito brando — baseado no terror é muito mais preciso, o tipo de
terror não limitado por tempo e espaço), e tudo o que importa é lembrá-lo
do perigo ainda existente. Uma parte da realidade, e uma parte perigosa,
permaneceu sem mapeamento, em baixa resolução, sem detalhes suficientes
— e o mesmo acontece com uma parte sua. Talvez você não seja perspicaz,
alerta, perigoso, cauteloso, sábio ou gentil o suficiente — quem vai saber?
— para que os sistemas de terror que o protegem confiem em sua
capacidade de abrir caminho pelo mesmo labirinto, caso esse terror se
manifeste novamente.
Aprenda com o passado. Ou está fadado a repetir seus horrores, em sua
imaginação, indefinidamente.
Com frequência, as pessoas não reprimem acontecimentos terríveis do
passado, mas se recusam a pensar sobre eles, afastando-os de sua mente ou
ocupando-se com outras atividades. Elas têm seus motivos. E às vezes
pessoas traumatizadas parecem literalmente incapazes de entender o que
aconteceu com elas. Pode ser insuportavelmente difícil para crianças
abusadas, por exemplo, gerar uma cosmovisão filosoficamente sofisticada o
suficiente para abranger todo o espectro da motivação humana. Elas
simplesmente não conseguem entender por que alguém seria capaz de
atormentá-las fisicamente ou abusá-las sexualmente. Se forem jovens o
bastante, é provável que nem mesmo compreendam com clareza o que está
acontecendo. Compreender esses assuntos é muito desafiador, mesmo para
adultos. Porém, em algum sentido infeliz e indiscutivelmente injusto, isso
não importa. A recusa ou a incapacidade deixa na memória uma área
geográfica inexplorada, ativa e repleta de perigos. É um truísmo psicológico
dizer que algo ameaçador ou prejudicial o bastante, uma vez experienciado,
não pode mais ser esquecido caso não seja compreendido.1
Para nos orientarmos no mundo, precisamos saber onde estamos e para
onde vamos. Onde estamos: este conceito deve incluir um relato completo de nossa experiência do mundo até o momento. Se você não sabe quais
estradas percorreu, é difícil avaliar onde está. Para onde estamos indo: esta
é a projeção de nosso ideal final — que não é, em absoluto, apenas uma
questão, digamos, de realização, amor, riqueza ou poder, mas o
desenvolvimento do caráter que torna todos os resultados felizes mais
prováveis e os infelizes menos prováveis. Mapeamos o mundo para que
possamos nos mover de onde estamos — o ponto A — para onde estamos
indo — o ponto B. Usamos esse mapa para guiar nosso movimento e
encontramos êxitos e contratempos ao longo do caminho.
Os sucessos geram confiança e são estimulantes. Não estamos apenas nos
movendo em direção ao nosso desejo final, mas parecemos estar fazendo
isso da maneira certa (e, portanto, não apenas avançando, mas validando
nosso mapa). Os obstáculos e as falhas são, em contraste, causadores de
ansiedade, depressão e dor. Eles indicam nossa profunda ignorância.
Indicam que não entendemos com profundidade suficiente onde estivemos,
onde estamos ou para onde vamos. Indicam que algo que construímos com
grande dificuldade e que desejamos, acima de tudo, proteger é defeituoso
— em um grau ao mesmo tempo sério e não totalmente compreendido.
Devemos recordar nossas experiências e derivar delas sua moral. Do
contrário, ficamos no passado, importunados por reminiscências,
atormentados pela consciência, cínicos pela perda do que poderia ter sido,
implacáveis conosco e incapazes de aceitar os desafios e as tragédias que
enfrentamos. Devemos nos recuperar ou sofrer em proporção direta à nossa
ignorância e evitação. Devemos reunir tudo que evitamos no passado.
Devemos reavivar todas as oportunidades perdidas. Devemos nos
arrepender dos erros, refletir sobre eles, adquirir agora o que deveríamos ter
adquirido antes e nos recompor. E não estou dizendo que isso seja sempre
possível. Já vi pessoas tão perdidas que não lhes restou força suficiente para
sobreviver. A pessoa havia se tornado insignificante demais para confrontar,
em sua condição atual, o que já era evitado até mesmo por sua versão de
“eu” mais saudável do passado. E o cinismo sobre o futuro racionaliza a
evitação e o engano. Isso é o inferno e não há limite para sua profundidade.
A humildade necessária para sair desse inferno é proporcional à magnitude
dos erros que permaneceram impunes no passado. E isso é o suficiente para
que um calafrio de terror percorra a espinha de qualquer pessoa, mesmo
parcialmente desperta. Não nos é permitido, ao que parece, evitar a
responsabilidade de realizar o potencial. E, se cometemos um erro no passado e deixamos imanifesto o que poderia ser — seja qual for o motivo
—, então pagamos o preço por isso na incapacidade de esquecer e na
emoção que constitui as dores de consciência pelo mau comportamento do
passado.
Imagine que, quando você é muito jovem, o mapa do mundo usado para
guiar seu “eu” imaturo é subdesenvolvido na mesma proporção, como o
desenho de uma casa feito por uma criança: sempre reto e centralizado,
retratando apenas a frente; sempre com uma porta e duas janelas (ou algo
muito parecido); sempre com um quadrado como parede externa e um
triângulo para o telhado; sempre com chaminé e fumaça (o que é uma
surpresa, porque chaminés de fumaça não são tão comuns). O sol está
sempre radiante — um círculo com raios emanando dele. Sempre há flores
— linhas simples esboçando uma flor no topo e duas folhas na metade do
“caule”. É uma representação de baixíssima resolução de uma casa. É mais
hieróglifo do que desenho; mais conceito do que esboço. É algo que
representa a ideia de casa, ou talvez lar, genericamente, como as próprias
palavras “casa” ou “lar”. No entanto, quase sempre é suficiente: a criança
que fez o desenho sabe que é uma casa, e as outras crianças e os adultos
sabem que é uma casa. O desenho é eficaz. Ele cumpre seu propósito. É um
mapa bom o suficiente.
Todavia, com muita frequência, eventos terríveis ocorrem dentro das
casas. Eles não são tão fáceis de representar. Talvez a casa tenha adultos —
pais, avós, tios ou tias — que dizem coisas como “Nunca — e quero dizer
nunca mesmo — fale com alguém sobre o que acontece aqui”. Alguns
quadrados, um triângulo, um punhado de flores e um orbe solar amigável
oferecem apenas uma representação inadequada dos horrores que
caracterizam tal moradia. Talvez o que está acontecendo dentro de casa
esteja além da tolerabilidade e da compreensão. Porém, como é possível o
aterrorizante estar além da compreensão? Como é possível existir um
trauma sem a compreensão? A compreensão não é, em certo sentido, um
pré-requisito para a própria experiência? Todos esses são grandes mistérios.
Mas nem tudo é experimentado no mesmo nível de concepção. Todos nós
ficamos apavorados diante do desconhecido, embora isso pareça uma
contradição de termos. Mas o corpo sabe o que a mente ainda não
compreende. E ele lembra. E exige que o entendimento seja estabelecido. E
simplesmente não há como escapar dessa demanda. Se algo nos acontecer
— ou, talvez pior, praticarmos alguma ação — que nos congele de terror e nos cause repulsa ao lembrar, somos obrigados pelo destino implacável a
transformar o horror puro em compreensão, ou sofreremos as
consequências.
NÃO CAIA DUAS VEZES NO MESMO FOSSO
Tive uma cliente que começou a me contar, pouco depois de nos
conhecermos, sobre o abuso sexual que sofrera na infância, de um primo
mais velho, com quem morava. Ela chorou e se emocionou muito ao contar
suas experiências. Perguntei a ela quantos anos tinha quando o abuso
ocorreu. Ela me disse que tinha 4 anos. Descreveu seu agressor como muito
maior, mais forte e mais velho. Deixei que minha imaginação vagasse
livremente enquanto ela falava, fazendo as suposições que eu acreditava (ou
minha fantasia presumia) serem justificadas pela natureza de sua descrição.
Imaginei as maquinações nefastas, sádicas e criminosas de um adolescente
mais velho ou jovem adulto. Então lhe perguntei a diferença de idade entre
ela e seu algoz. “Dois anos. Ele era dois anos mais velho que eu”,
respondeu. Isso foi uma surpresa genuína. Mudou a imagem em minha
mente quase completamente.
Contei a ela o que estava imaginando, pois queria que percebesse que tipo
de suposições eu estava formulando a partir de sua história. Então eu lhe
disse: “Sabe, você está crescida agora, e já faz muito tempo. Mas me contou
sua história da mesma forma que poderia ter contado aos 4 anos, quando o
abuso sexual ainda estava ocorrendo — ou pelo menos com muitas das
mesmas emoções. E não há dúvida de que você se lembra de seu primo
como muito maior, mais forte e mais velho do que você. Afinal de contas,
uma criança de 6 anos tem quase o dobro da idade de uma criança de 4 anos
e, da perspectiva da criança mais nova, talvez seja mais parecida com um
adulto. Mas seu primo tinha 6 anos — era quase tão criança quanto você.
Então, aqui está outra maneira de pensar sobre o que aconteceu. Primeiro,
lembre-se das crianças de 6 anos que conhece agora. Você sabe que elas
ainda são imaturas e não podem ser responsabilizadas como os adultos por
suas ações, embora também possam não ser totalmente inocentes. Não estou
tentando minimizar a gravidade do que aconteceu com você nem
questionando a intensidade de suas emoções. Mas estou pedindo que
considere a situação como se tivesse ocorrido entre duas crianças que você
conhece atualmente. Crianças são curiosas. Elas brincam de médico. E se os adultos ao seu redor não prestarem a devida atenção, essas brincadeiras
podem sair do controle. Seria possível considerar que você não foi
molestada por uma força avassaladora e maligna — do jeito que seria se
fosse estuprada hoje? Talvez, em vez disso, você e seu primo fossem
crianças muito mal supervisionadas.”
De alguma forma importante, as memórias que reteve de suas experiências
de infância não se alteraram à medida que minha cliente amadureceu. Ela
ainda experienciava o terror de uma criança de 4 anos, indefesa nas mãos de
alguém com idade suficiente para ser percebida como adulta. Mas seu “eu”
de 27 anos precisava atualizar essa memória. Ela não estava mais sob risco
de enfrentar a mesma situação de qualquer maneira óbvia. E foi um grande
alívio para ela reformular o que acontecera. Agora minha cliente podia
considerar o episódio uma consequência potencial da curiosidade não
impedida pela devida atenção adulta. Isso mudou sua visão de seu primo, da
situação e de si mesma. Ela agora podia ver o evento da perspectiva de um
adulto. Isso a libertou de grande parte do terror e da vergonha ainda
associados às memórias, e com notável rapidez. Ela enfrentou os horrores
do passado voluntariamente, encontrando uma explicação causal muito
menos traumática — e verdadeira — que não abarcava a visão de seu primo
como um transgressor maligno e poderoso e ela como a infeliz vítima dessa
força. Toda essa transformação ocorreu em uma única sessão. Esse é o
poder da história que cerca os acontecimentos terríveis de nosso passado.
Essa experiência me deixou com um profundo dilema filosófico. As
memórias que minha cliente trouxe para o meu consultório permaneceram
inalteradas por décadas. As memórias com que ela saiu eram notavelmente
diferentes. Quais, então, eram reais? Pode-se argumentar que sua história
original era mais precisa. Afinal, foi uma impressão o mais direta possível
gravada no livro aberto da mente de uma criança de 4 anos. Não havia sido
alterada (e, portanto, modificada) por qualquer intervenção terapêutica
anterior. Não era, então, a verdadeira? Mas também é fato que um evento
que significa uma coisa um dia pode passar a significar algo completamente
diferente em outro. Afinal, é assim tão incomum entendermos melhor o que
motivou o comportamento inexplicável de nossos pais, por exemplo, ao
ingressarmos na paternidade? E qual memória é mais precisa: a imagem
parcial da motivação adulta que temos quando crianças ou as lembranças
revisadas que a maturidade possibilita? Se for a última — e isso não parece
irracional (e certamente parecia verdadeiro no caso de minha cliente) —, como é que uma memória alterada pode se tornar mais precisa do que uma
que guarda sua configuração original?
POSSUÍDO POR FANTASMAS
Recordo-me de outro cliente que lembrou, de maneira surpreendente, e
mudou. Suas memórias estavam envoltas em um mistério muito mais
profundo, e sua lembrança era de um tipo mais inativo, surpreendente e
improvável. Ele era um jovem gay afro-americano que sofria de uma série
de sintomas mentais e físicos incompreensíveis. Fazia pouco tempo que um
psiquiatra o havia diagnosticado com esquizofrenia, mas sua tia, que o
levou ao hospital para avaliação, acreditava que o jovem não tinha sido
examinado por tempo suficiente. Ela me contatou para uma segunda
opinião e o trouxe ao meu consultório. Eu o atendi sozinho.
Ele era tímido e reservado, mas estava vestido com esmero e cuidado, e
parecia totalmente orientado quando comecei a reunir detalhes de sua
história. Além disso, ele usava óculos — bem cuidados, não havia
remendos com fitas adesivas e as lentes estavam perfeitamente limpas. Para
mim, essas observações eram todas pertinentes. Como os esquizofrênicos
perdem a capacidade de cuidar de si mesmos, roupas descuidadas e óculos
danificados — principalmente com lentes muito borradas — são
características reveladoras (não é um critério absoluto: portanto, se você é
uma dessas pessoas com óculos remendados ou sujos, não precisa se
considerar incluído). Ele também tinha um emprego de tempo integral de
razoável complexidade (outra raridade para alguém com esquizofrenia), e
era capaz de manter uma conversa sem outros problemas além da tendência
à timidez. Aceitei-o como cliente e começamos a nos encontrar
regularmente.
Tive de vê-lo algumas vezes antes de determinar por que o psiquiatra o
diagnosticou com um distúrbio tão sério. Meu cliente começou me
contando que, nos últimos quatro anos, estivera deprimido e ansioso. Não
havia nada de muito incomum nisso. Seus sintomas surgiram depois de uma
briga séria com o namorado e do término definitivo do relacionamento, que
durara vários anos. Nada nisso era incomum também. Os dois moravam
juntos. A parceria deles era importante para meu cliente, tanto em termos
emocionais quanto práticos — e o fim de um relacionamento íntimo provoca infelicidade e confusão em quase todas as pessoas, podendo
desencadear ansiedade e depressão mais graves e duradouras em pessoas
com essa predisposição. No entanto, a duração desses eventos era incomum.
As pessoas normalmente juntam os cacos e seguem em frente em menos de
um ano. Essa não é uma regra rígida, mas quatro anos é muito tempo. Isso
despertou minha curiosidade. Ele também revelou algo muito fora do
comum. Disse que experienciava movimentos corporais estranhos e
convulsivos — todas as noites — enquanto tentava dormir. Seu corpo se
contorcia em posição fetal e seus braços se cruzavam sobre o rosto. Então
ele relaxava, e os movimentos se repetiam. E era assim por horas. Além de
ser preocupante por ser incompreensível, estava interferindo muito em seu
sono. Isso vinha acontecendo há quase o mesmo tempo que a ansiedade e a
depressão; e a falta de sono, além dos próprios movimentos involuntários,
certamente era um fator contribuinte. Perguntei o que ele achava que estava
acontecendo. Meu cliente respondeu, rindo: “Minha família pensa que estou
possuído e não tenho certeza se eles estão errados.”
A origem familiar do meu cliente era um tanto incomum. Seus pais — que
imigraram do Sul dos Estados Unidos para o Canadá — eram muito
ignorantes, supersticiosos e religiosos, e aparentemente falavam sério
quanto à crença de que espíritos haviam possuído o filho. Perguntei a ele:
“Você por acaso contou ao psiquiatra sobre estar possuído?” Ele respondeu
que sim. Pensei comigo: “Bem, isso explica o diagnóstico de
esquizofrenia.” Essa explicação, combinada com os estranhos sintomas
físicos, teria sido suficiente, em minha experiência.I No entanto, após
atender a esse homem por várias sessões, ficou claro para mim que a causa
de seu tormento, independentemente do que fosse, não era esquizofrenia.
Ele estava perfeitamente racional e lúcido. Mas o que raios poderia estar
causando esses estranhos espasmos noturnos, semelhantes a convulsões?
Nunca tinha visto nada parecido. Minha primeira hipótese era que ele sofria
de uma forma muito grave de paralisia do sono, uma condição
razoavelmente comum. Em geral ocorre quando as pessoas estão dormindo
de costas (o que ele costumava fazer). Uma pessoa com paralisia do sono
desperta parcialmente, mas não o suficiente para interromper o sonho nem
se livrar da incapacidade de se mover característica da fase de movimento
rápido dos olhos (REM). Quando você está sonhando, as mesmas áreas do
cérebro que governam o movimento ativo quando está acordado são
estimuladas (o que resulta na sensação de se mover durante o sonho). Você não se move em sincronia com a ativação do cérebro, pois sua musculatura
voluntária é desligada, fisiologicamente, por um mecanismo neuroquímico
especializado que tem exatamente essa função.2 Do contrário, você sairia da
cama, encenaria seu sonho e sem dúvida se meteria em encrenca.
Durante um episódio de paralisia do sono, o paciente acorda em um estado
de semiconsciência do mundo real, mas ainda está em paralisia REM e
sonhando. Todos os tipos de experiências estranhas podem ocorrer em tal
estado. Muitas pessoas, por exemplo, alegaram ter sido abduzidas e
examinadas clinicamente por alienígenas.3 Esse fenômeno noturno
inexplicável (exceto a existência de extraterrestres curiosos e fãs de
cirurgia) é o responsável pela condição de imobilidade e pelas fantasias
bizarras e assustadoras que a acompanham.4 Ele era muito inteligente,
letrado e curioso, então lhe dei um livro chamado The Terror That Comes in
the Night5 [“O Terror que Surge no Meio da Noite”, em tradução livre], que
explica os fenômenos estranhos que podem acompanhar a paralisia do sono.
O autor, David Hufford, descreve o terror noturno a que o título se refere
como uma variante da experiência da “Old Hag” [bruxa velha] — um termo
do folclore. Aqueles que tiveram tal experiência (até 15% da população)
descrevem medo e paralisia, sensações de sufocamento e encontros com
entidades malignas. Meu cliente leu o livro, mas me disse que não
acreditava que a descrição de Hufford caracterizava com precisão sua
experiência. Ele pensava o mesmo em relação à hipótese da paralisia do
sono de maneira mais geral. Primeiro porque os espasmos ocorriam antes de
ele adormecer; segundo porque não experimentava a incapacidade de se
mover.
Aprendi muito mais sobre meu cliente à medida que continuamos a nos
encontrar. Fiquei sabendo, por exemplo, que ele havia se graduado em
história. Descobri que seus pais foram excepcionalmente rígidos com ele
durante sua infância e adolescência. Nunca permitiram que passasse a noite
na casa de seus amigos e monitoraram seu comportamento de perto até o
momento em que foi para a universidade. Ele também contou um pouco
mais sobre a briga ocorrida imediatamente antes do término de seu último
relacionamento. Meu cliente e o namorado haviam retornado ao
apartamento em que moravam após tomarem alguns drinques e discutirem
em público. Em casa, a briga se transformou em conflito físico. Eles
começaram a se empurrar, com violência crescente. Depois de um empurrão especialmente agressivo, meu cliente caiu no chão da sala. Enquanto estava
caído, deu uma rasteira no namorado. Depois se levantou e se dirigiu para a
porta. Voltou vários dias depois, quando sabia que o parceiro não estaria em
casa, para empacotar seus pertences e se mudar. Esse foi o fim de sua
existência como casal.
Porém, havia um elemento nada óbvio de sua personalidade em jogo nesse
conflito. Em consequência, meu cliente foi profundamente atingido pela
agressão de seu namorado. Enquanto narrava essa sequência de eventos, ele
me falou que não acreditava que as pessoas fossem capazes de violência. Eu
disse: “O que você quer dizer com isso? Você se formou em história.
Obviamente leu sobre os horrores e as atrocidades do passado da
humanidade. Você assiste ao noticiário…” Ele disse que, na verdade, não
assistia ao noticiário. “É justo”, afirmei, “mas e tudo o que você aprendeu
na universidade? Não o ensinou que a agressão humana é real e
extraordinariamente comum?”. Ele respondeu: “Eu li os livros, mas
simplesmente coloquei tudo o que aprendi em um compartimento e não
pensei mais a respeito.” Achei essa resposta surpreendente, principalmente
aliada à outra informação. “Quando eu era criança”, relatou, “assimilei a
ideia de que as pessoas eram boas. Meus pais me ensinaram que os adultos
são anjos”. Perguntei: “O que você quer dizer com isso? Que os adultos
nunca fizeram nada de ruim ou errado?” Sua resposta foi: “Não, você não
entende. Meus pais ensinaram a mim e a meus irmãos que os adultos eram
literalmente anjos de Deus e que só eram capazes de ser bons.” Indaguei:
“Você acreditou nisso?” Ele respondeu que acreditava profundamente —
em parte porque fora muito protegido; em parte porque seus pais foram
muito insistentes nisso; e em parte, é claro, porque era reconfortante.
Sugeri que algo precisava ser feito a respeito de sua ingenuidade. Não lhe
estava fazendo bem. Ele era maduro e inteligente demais para manter a
crença em um sonho tão infantil. Discutimos isso em detalhes, falando
sobre os eventos horríveis do século XX e os fuzilamentos em massa e
outros terrores do passado mais recente. Pedi-lhe que explicasse tais
ocorrências e prestasse mais atenção a quaisquer amostras de sua própria
raiva e hostilidade. No entanto, ele negou sentir qualquer hostilidade e não
conseguiu formular uma explicação convincente para a raiva.
Então, indiquei a leitura de Ordinary Men [“Homens Comuns”, em
tradução livre].6 Esse livro detalha de maneira excruciante como um grupo de policiais comuns da Alemanha se transformaram em algozes de sangue
frio na Polônia durante a ocupação nazista. Chamar o relato de arrepiante
não chega nem perto da verdade. Eu disse a ele, com toda a seriedade, que
deveria ler o livro como se realmente tivesse acontecido e, mais ainda,
como se ele e as pessoas que conhecia fossem capazes dos mesmos atos
hediondos. Era hora de crescer. Já havíamos estabelecido um
relacionamento profissional muito sólido a essa altura, e quando eu lhe
disse que sua visão cor-de-rosa do mundo era um perigo capaz de destruir
sua vida, ele me levou a sério. Uma semana depois, em nossa sessão
seguinte, ele havia terminado o livro. Seu rosto havia endurecido. Parecia
mais velho e mais sábio. Eu via isso acontecer com frequência em minha
prática clínica, quando as pessoas incorporavam seus lados mais sombrios,
em vez de — digamos — compartimentalizá-los. Elas deixavam de ter a
aparência habitual de um animal assustado. Pareciam pessoas com poder de
decisão, em vez de pessoas para quem as coisas simplesmente aconteciam.
Então lhe pedi para ler The Rape of Nanking7 [“O Massacre de Nanquim”,
em tradução livre], que aborda as atrocidades cometidas pelo Japão na
China em 1937, episódio conhecido como o Massacre de Nanquim. É um
livro horrível. A autora cometeu suicídio. Mesmo assim, ele leu e nós
conversamos sobre o assunto. Meu cliente saiu mais triste, porém mais
sábio. No entanto, seus sintomas noturnos não diminuíram.
Contudo, seus comentários sobre considerar “adultos como anjos”, suas
alegações sobre compartimentalizar seu conhecimento do mal e a existência
de espasmos inexplicáveis acionaram alguns mecanismos nos recessos
distantes do meu cérebro. Muitos anos antes, tive outra cliente (uma jovem,
como costuma ser o caso) que tinha histeroepilepsia — um caso clássico de
histeria freudiana, em que os sintomas corporais expressavam problemas
psicológicos. Ela havia sido criada no Meio-oeste rural, em uma atmosfera
fundamentalista cristã muito repressiva e vitoriana. Uma de suas
“convulsões” ocorreu em meu consultório — do tipo tônico-clônica ou
grande mal. Presenciei a tudo friamente. Observei impassível enquanto ela
se debatia e convulsionava violentamente por vários minutos, os olhos
revirados. Não me preocupei. Não senti pena dela. Não senti nada. Pensei:
“Por que isso não está me afetando? Minha cliente está tendo, de acordo
com todas as evidências, um grave episódio convulsivo.” Não chamei uma
ambulância. Quando acordou e se sentou, atordoada, eu disse a ela que,
apesar de sua convulsão ser totalmente crível, não reagi, nem física nem emocionalmente, como se fosse real. Em outro episódio, após fazer
acrobacias semelhantes (eram conscientes? Inconscientes? Alguma mistura
dos dois?), ela quase acabou internada em uma ala psiquiátrica, além de
correr o risco de receber um diagnóstico de psicose e a prescrição de um
medicamento para a condição. Tivemos algumas conversas muito sérias
sobre o que ela estava fazendo. Deixei muito claro que não acreditava em
sua epilepsia — que eu a havia experienciado como falsa, embora parecesse
bastante real para ela. (A propósito, minha cliente tinha feito exames para
detectar a epilepsia, e os resultados foram inconclusivos.)
Portanto, era plausível que se tratasse de um caso de “somatização” ou
representação física de sintomas psicológicos. Freud observou que tal
somatização era frequentemente simbólica — que a maneira pela qual a
deficiência física ou a estranheza se manifestava tinha alguma relação
significativa com o trauma que a provocou. Sua histeroepilepsia parecia
originar-se de sua ambivalência e ignorância sobre sexo, um grau
substancial de imaturidade infantil e alguns jogos perigosos de sua parte.
Avançamos muito em nossas discussões. Ela estava longe de ser pouco
inteligente, e a parte mais sensata preponderou. Suas convulsões cessaram,
e, junto com elas, o drama igualmente perigoso. Melhor ainda, ela
conseguiu evitar a ala psiquiátrica e continuou sua carreira universitária. A
experiência serviu para me mostrar que a histeria freudiana existia, pois eu
acabara de testemunhá-la.
Comecei a supor que meu cliente estava sofrendo, de maneira semelhante,
de um transtorno de somatização. Eu sabia sobre a briga que pôs fim ao seu
último relacionamento, pouco antes do início dos sintomas. Talvez os seus
estranhos movimentos estivessem de alguma forma associados a esse
evento. Por meio de seus relatos, eu sabia que ele costumava
compartimentalizar — que colocava as coisas em um canto de sua mente e
não pensava nelas novamente. Eu não tinha muita experiência com hipnose,
mas sabia que as pessoas capazes de compartimentalização tendiam a ser
altamente suscetíveis a ela, que havia sido usada com algum sucesso
(embora muitos anos atrás) em transtornos de somatização. Freud utilizava
a hipnose para tratar clientes histéricos, aparentemente numerosos durante o
período vitoriano, pelo menos na classe alta, que apresentavam fixação
sexual, teatral e dramática.8 Então, pensei em tentar a hipnose para tratar
meu cliente.
Eu costumava usar técnicas de relaxamento guiado com os meus clientes:
eles se sentavam confortavelmente nas poltronas em meu escritório e eu
pedia que se concentrassem em diferentes partes do corpo, começando pela
sola dos pés e, então, passo a passo, subindo pelas pernas e pelo torso —
com um breve desvio para os braços — até o topo da cabeça, concentrando-
se na respiração e no relaxamento. Depois de sete ou oito minutos das
instruções de relaxamento, eu contava de dez a um, pedindo, a cada
contagem ou duas, que relaxassem mais profundamente. Era um tratamento
bastante razoável e rápido para agitação, ansiedade e insônia. Como a
hipnose emprega essencialmente a mesma técnica, decidi começar dessa
forma, acrescentando perguntas sobre traumas anteriores ou outras questões
relevantes assim que atingisse o estado de relaxamento. A eficácia varia
substancialmente de pessoa para pessoa.9 (É por isso que os artistas de palco
que usam hipnose em pessoas da plateia chamam vinte delas, repassam as
sugestões hipnóticas iniciais e, então, seguem adiante com apenas as poucas
que são obviamente responsivas.) Em todo caso, eu disse ao meu cliente
que poderia ser útil hipnotizá-lo e falarmos sobre a noite em que ele brigou
com o namorado. E lhe expliquei o motivo (sugerindo que seus movimentos
noturnos pudessem estar associados a esse evento). Então descrevi
exatamente como faríamos e afirmei que ele era livre para recusar ou
concordar. Eu pararia sempre que me pedisse, se pedisse; e ele se lembraria
de tudo quando terminássemos.
Ele concordou em tentar, então comecei: “Sente-se confortavelmente.
Apoie as mãos nos braços da poltrona ou no colo — onde se sentir mais
confortável. Feche os olhos. Ouça atentamente os ruídos ao seu redor e, em
seguida, volte a sua atenção para a sua respiração. Inspire e prenda a
respiração. Segure o ar. Expire. Desloque a sua atenção para a extremidade
inferior do seu corpo, gradualmente, da respiração para as coxas, a parte
inferior das pernas e os pés. Deixe os seus pés repousarem pesadamente no
chão. Preste atenção nos dedos dos pés, nas solas dos pés e nos tornozelos e
lembre-se de respirar lenta, regular e profundamente. Deixe toda a tensão
fluir para fora dos seus pés. Não se esqueça de respirar lenta, regular e
profundamente. Preste atenção às suas panturrilhas e canelas” e assim por
diante, em todo o corpo. De modo geral.
Antes de irmos além dos pés, meu cliente entrou espontaneamente em um
transe hipnótico profundo. Sua cabeça pendeu pesadamente. Perguntei se ele podia me ouvir. “Sim”, respondeu, quase inaudível. Tive de aproximar
minha cadeira e colocar meu ouvido a centímetros de sua boca para
entender o que ele dizia. Perguntei se sabia onde estava. “No seu
consultório”, afirmou. Isso era bom. Eu disse: “Estamos retornando ao
momento em que você brigou com o seu namorado, antes de se mudar.
Conte-me o que aconteceu.” Ele respondeu: “Havíamos acabado de voltar
ao nosso apartamento. Tínhamos bebido. No bar, brigamos por questões
financeiras e do nosso futuro. Nós dois ficamos com raiva. Entramos pela
porta da nossa casa — ali.” Ele fez um quase gesto com o braço, que ainda
estava praticamente inerte, assim como o resto de seu corpo. Eu via seus
olhos dispararem para frente e para trás, tal como os de alguém em sono
REM, sob as pálpebras semicerradas. “Eu estava andando para trás. Nós nos
dirigíamos à sala de estar. Eu o empurrei para longe. Então ele me
empurrou de volta. Eu o empurrei novamente. Ele me empurrou para trás,
sobre nossa mesa de centro, e caí no chão. Ele pegou o nosso abajur e o
segurou sobre a cabeça. Olhei diretamente nos olhos dele. Nunca tinha visto
uma expressão tão hostil. Eu me encolhi em posição fetal e cruzei os braços
sobre o rosto para me proteger.” Ele falava muito devagar, gesticulando de
maneira desajeitada e quase imperceptível o tempo todo, apontando na
direção da área do apartamento que imaginava. Parecia que estava
revivendo a experiência em tempo real. Olhei para o relógio na parede. A
explicação, a preparação, o relaxamento e a lenta recontagem nos levaram
até a marca de uma hora — a duração normal de nossa sessão. Falei: “Não
quero forçá-lo demais. Estamos ficando sem tempo. Quando estiver pronto
e confortável, abra os olhos e desperte totalmente. Podemos continuar na
próxima semana.” Ele não respondeu. Sua cabeça continuou a pender para a
frente e seus olhos continuaram a se mover. Chamei seu nome. Nada.
Para ser sincero, fiquei preocupado. Eu nunca tinha ouvido falar de
alguém que não conseguisse sair de um transe quando solicitado. Não sabia
bem o que fazer. Felizmente, porém, ele era o último cliente do dia, então
eu tinha algum tempo. Pensei: “Bem, ele está em um transe profundo e
realmente imerso nesta história. Talvez ele precise terminá-la. Vamos
continuar e ver o que acontece. Quando ele concluir o relato, tento trazê-lo
de volta.” Fui até o corredor para falar com a tia, que o esperava, e informei
que precisávamos de um pouco mais de tempo.
Voltei ao meu consultório e me sentei perto dele, como antes. Perguntei:
“E então o que aconteceu?” Ele respondeu: “A expressão em seu rosto — eu nunca tinha visto alguém assim antes. Fui forçado a perceber que meu
namorado poderia querer me machucar; que uma pessoa — mesmo sendo
adulta — poderia de fato desejar ferir outra. Foi a primeira vez que
realmente descobri que isso era possível.” Ele começou a chorar, mas
continuou seu relato: “Eu dei uma rasteira nele, me levantei e comecei a
correr. Ele me perseguiu para fora da sala de estar, pelo corredor da nossa
casa e pela porta da frente. Corri mais rápido do que ele e me distanciei.
Eram mais ou menos quatro da manhã. Ainda estava escuro. Eu estava
apavorado. Me afastei o suficiente para me esconder atrás de alguns carros
próximos. Ele não conseguiu me achar. Eu o observei me procurar por um
longo tempo. Então ele desistiu e voltou para casa.” Nesse momento, meu
cliente estava soluçando. “Quando tive certeza de que ele tinha ido embora,
fui até a casa da minha mãe e fiquei lá. Não conseguia acreditar no que
tinha acontecido. Ele podia ter me matado, e faria de propósito. Não
aguentei. Afastei isso da minha mente e tentei nunca mais pensar sobre o
ocorrido.”
Ele ficou em silêncio. Chamei seu nome. Ele respondeu. Perguntei: “Você
sabe que está no meu consultório, sentado na poltrona de sempre?” Ele
assentiu. “Terminou de me contar sua história?” Sua resposta foi afirmativa.
Falei: “Você foi bem. Foi muito corajoso da sua parte passar por tudo isso.
Está pronto para abrir os olhos?” Ele assentiu. Eu disse: “Não tenha pressa.
Quando estiver pronto, volte, totalmente desperto, devagar. Você vai se
sentir relaxado e bem. Vai se lembrar de tudo que acabou de me contar e de
tudo o que aconteceu aqui.” Ele assentiu. Alguns momentos depois, abriu os
olhos. Perguntei o que havia acontecido — do que se lembrava. Ele relatou
brevemente os eventos da noite, incluindo nossa discussão inicial sobre a
hipnose. Então, chamei sua tia e expliquei que ele precisava descansar em
casa, com alguém presente, pois a sessão tinha sido intensa. Os adultos não
eram anjos, e as pessoas não só são capazes de ferir umas às outras, como
também de desejar essa dor de todo o coração. Mas meu cliente não sabia o
que fazer com esse conhecimento, protegido como estava, iludido como
estava por seus pais — cego como se permitia permanecer com sua
“compartimentalização”. Isso não impediu os elementos inarticulados de
seu ser de se esforçarem para encenar, de modo dramático, e de lhe
trazerem à consciência tanto o fato do dano intencional quanto tudo mais
remotamente maligno que tal intenção implicava. Ele se viu compelido a reproduzir com precisão os movimentos corporais defensivos que fizera
durante a briga com o namorado.
Na semana seguinte, meu cliente não apareceu. Pensei: “Ah, Deus. Talvez
eu tenha lhe causado algum dano sério.” No entanto, na outra semana, ele
chegou no horário. Desculpou-se por ter faltado à última sessão, mas disse
que havia ficado extremamente chateado e confuso demais para comparecer
ou mesmo entrar em contato comigo. Perguntei o motivo e ele me disse:
“No dia seguinte ao nosso último encontro, eu estava sentado em um
restaurante no centro da cidade e vi meu antigo namorado!” Foi uma
coincidência inquietante. “Me abalou muito, sabe”, continuou, “mas foi só
isso, e me acalmei em um ou dois dias. E adivinha? Eu só tive espasmos
uma noite esta semana! E duraram apenas alguns minutos!”. Eu disse: “Isso
é ótimo! É realmente ótimo. Que alívio! O que você acha que mudou?” Sua
resposta foi: “O que de fato me afetou naquela briga não foi nossa
discordância sobre o que desejávamos para o futuro. Não foi o contato
físico — os empurrões e as agressões. Foi o fato de ele ter realmente me
desejado o mal. Eu podia ver em seu rosto. O olhar dele me apavorou de
verdade. Não consegui lidar com isso. Mas posso entender melhor agora.”
Perguntei se eu poderia hipnotizá-lo de novo. “Obviamente você está
melhor”, expliquei, “mas quero ter certeza de que terminamos”. Meu cliente
concordou e começamos. Ele entrou em transe com a mesma facilidade,
mas, dessa vez, a história era mais condensada. Ele concluiu o relato em
quinze minutos, ao contrário dos noventa exigidos anteriormente. Ele havia
extraído o que era importante: o fato de estar em perigo; o fato de que
alguém queria machucá-lo; o fato de que se defendeu com sucesso — o fato
de que o mundo era um lugar habitado tanto por demônios quanto por anjos.
Quando pedi para que saísse do transe, da mesma forma que eu fizera antes,
ele abriu os olhos quase de imediato e permaneceu calmo e totalmente
consciente.
A mudança em sua condição foi notável. Na semana seguinte, ele disse
que seus sintomas haviam desaparecido completamente. Sem espasmos — e
sem a crença na bondade imaculada da humanidade. Ele cresceu e enfrentou
a realidade de sua própria experiência, bem como a natureza do mundo. E
foi algo incrível de testemunhar. A aceitação consciente da presença da
maleficência curou-o de anos de sofrimento. Ele agora entendia e
reconhecia o suficiente os perigos potenciais que o cercavam para desbravar seu caminho pelo mundo com razoável segurança. Não era mais necessário
que aquilo que havia aprendido, mas se recusava a reconhecer, se impusesse
sobre ele de maneira dramática e corporificada. Ele integrou esse
conhecimento à sua personalidade — ao mapa que, de agora em diante, o
guiaria em suas ações — e se libertou dos fantasmas que o possuíam.
MALEFICÊNCIA INCOMPREENDIDA
Tive outro cliente, um jovem que sofreu um terrível bullying em seu
primeiro ano de curso técnico profissionalizante. Quando veio me ver pela
primeira vez, ele mal conseguia falar e estava tomando uma alta dose de
medicamento antipsicótico. Ao se sentar na cadeira em frente à mesa em
meu consultório, girava a cabeça e os ombros para frente e para trás de uma
forma muito anormal e mecânica. Quando eu perguntava o que estava
fazendo, ele respondia que estava tentando fazer as formas desaparecerem.
Ao que parece, via imagens geométricas de algum tipo à sua frente e se
sentia compelido a manipulá-las. Nunca entendi exatamente o que isso
significava, exceto que ele vivia em um mundo próprio.
Passei vários meses trabalhando com esse cliente e o fiz de maneira mais
estruturada do que antes — tendo, nesse ínterim, desenvolvido as
ferramentas para fazer isso. No início do nosso trabalho em conjunto, ele
mal conseguia se comunicar, mas era o suficiente para começar. Uma garota
do curso revelou ter uma queda por ele, que foi sincero e lhe disse que esse
interesse romântico não era correspondido. Ela se tornou extremamente
vingativa e decidiu tornar a vida dele um inferno. Espalhou boatos sobre
seus hábitos sexuais. Incitou alguns de seus amigos a ameaçá-lo fisicamente
na escola. Mobilizou pessoas para humilhá-lo constante e impiedosamente
no percurso de ida e volta. Diante da aflição do rapaz, os pais alertaram a
instituição, mas nada foi feito para impedir o tormento contínuo. Incapazes
ou não dispostos a tolerar a crescente pressão dos colegas, os amigos que
fizera há pouco tempo começaram a evitá-lo e depois o abandonaram por
completo. O jovem começou a sucumbir e, à medida que seu
comportamento se tornou mais estranho, seu status de pária foi consolidado.
E ele entrou em colapso.
Pedi a ele que me contasse exatamente o que acontecera — e que voltasse
bastante no tempo antes de formular sua resposta. Eu queria entender o que o tornava vulnerável à situação em que se encontrava, se é que havia
alguma coisa, e o que exatamente aconteceu quando ele estava sendo
atormentado por sua admiradora rejeitada. Estruturei o processo de modo
que ele pudesse escrever e falar (para ser mais exato, para que pudesse falar
sobre o que estava escrevendo). Meus colegas e eu desenvolvemos um
exercício de redação onlineII a fim de fornecer uma estrutura útil para
aqueles que pretendem investigar e compreender seu passado. Sugeri ao
meu jovem cliente que experimentasse. Como ele estava com a motivação e
os pensamentos muito prejudicados para concluir o processo em casa, pedi
que escrevesse em meu consultório. Eu o coloquei no meu computador e
solicitei que lesse cada pergunta do exercício em voz alta para mim antes de
escrever sua resposta e lê-la em voz alta também. Se eu não conseguisse
entender algo que ele havia escrito ou achasse que eram necessários mais
detalhes, sugeria que esclarecesse os pontos escrevendo mais e lesse suas
revisões para mim.
Primeiro, o exercício pedia que ele dividisse sua vida em épocas-chave —
seções de seu passado autobiográfico que se prestavam naturalmente à
categorização como uma unidade ou um tema. Pode ser, digamos, dos 2
anos de idade até o jardim de infância, a escola fundamental, o ensino
médio, a faculdade etc. —, embora algumas pessoas sejam mais propensas,
sobretudo à medida que envelhecem, a agrupar suas experiências de acordo
com as várias relações das quais fizeram parte. Após subdividir seu passado
da maneira que escolheu, o exercício pedia que ele identificasse
experiências-chave durante cada uma dessas épocas: eventos que
acreditava, em retrospecto, que o moldaram como pessoa, para melhor ou
para pior. Obviamente, os eventos do último tipo tendem a ser marcados na
memória por emoções negativas, como ansiedade, raiva ou desejo de
vingança — e, talvez, por uma forte tendência de evitar lembrar e sequer
pensar sobre isso.
Meu cliente dividiu sua vida em épocas que pareciam relevantes para ele
e, em seguida, identificou os principais eventos, positivos e negativos, que
caracterizavam cada período. Em seguida, fez uma análise causal e
conseguiu entender por que algumas coisas haviam corrido bem, enquanto
outras degringolaram tanto. Ele se concentrou mais no que deu origem aos
eventos mais perturbadores do passado — avaliou detalhes de seu próprio
comportamento, motivações de outras pessoas e características de tempo e lugar. Considerou os efeitos produzidos, para o bem e para o mal (porque
podemos aprender coisas com experiências difíceis), e refletiu sobre o que
poderia ter acontecido ou sido feito de forma diferente. A consequência de
tudo isso, pelo menos em princípio, foi a exploração de experiências
passadas em busca de seu verdadeiro significado perceptivo e
comportamental, e uma atualização de seu mapa autobiográfico.
À medida que seu relato progredia da creche ao ensino médio — meu
cliente dividiu sua vida em seções definidas pelo ano escolar —, ele se
tornava cada vez mais articulado. Lembrar-se de sua vida estava ajudando-o
em sua recuperação. À medida que ele escrevia, lia o que escrevera e
respondia às perguntas que eu lhe fazia durante o processo, seu relato do
passado tornava-se mais detalhado e sua compreensão, mais profunda.
Discutimos atos indesejáveis que as crianças praticam umas com as outras,
e isso nos levou ao tópico da maleficência e do mal — também no mundo
adulto. Ele era muito ingênuo sobre isso. Expressou a convicção de que as
pessoas eram universalmente boas (mesmo tendo experiências que lhe
mostravam o contrário). Ele não tinha uma teoria da motivação para
destruição, crueldade e desejo de ferir.
Percorremos sua vida, desenvolvendo um relato bastante detalhado sobre
tudo que meu cliente havia sofrido nas mãos de sua algoz. Ele se tornou
sofisticado o suficiente para articular uma compreensão inicial das
motivações da jovem. Ela havia sido rejeitada e, consequentemente, ficou
magoada, envergonhada e irritada. Ele não havia percebido quanto impacto
sua rejeição poderia causar ou mesmo quanto impacto a rejeição pode ter
nas pessoas em geral. Além disso, ele não parecia compreender que tinha o
direito de se defender. Conversamos sobre o que ele poderia ter feito, ou o
que poderia fazer de diferente no futuro, para se proteger. Ele percebeu que
havia tolerado insultos demais na escola sem pedir ajuda. Poderia ter
informado à administração o que estava acontecendo. Poderia ter
confrontado sua algoz de forma direta e pública, no início dos ataques, e
exigido que ela parasse. Poderia ter contado aos colegas que o único motivo
de estar sendo atormentado era porque havia recusado um encontro, e que
ela era tão frágil e sensível que não conseguia lidar com a rejeição e estava
inventando mentiras por vingança. No extremo, ele poderia tê-la acusado de
assédio criminoso e calúnia difamatória. Pode ser que nenhuma dessas
estratégias funcionasse, mas valeria a pena tentar e certamente eram
justificadas e necessárias nas circunstâncias.
Enquanto meu cliente trabalhava nas memórias de seu último mês na
escola, seus sintomas psicóticos diminuíram drasticamente. Em cada sessão,
ele estava mais lúcido. Parou de manifestar seus comportamentos estranhos.
Matriculou-se no curso de verão e se formou. Foi uma recuperação quase
milagrosa.
POTENCIAL EM REALIDADE
Não é nada incomum que as pessoas se preocupem, às vezes em um nível
que beira o insuportável, com o que está por vir. Essa preocupação é tanto
uma consequência quanto uma investigação dos múltiplos caminhos que se
abrem do presente até o futuro. As preocupações se alinham, muitas vezes
de maneira involuntária, para ser analisadas: complicações no trabalho,
problemas com amigos e entes queridos, questões práticas de sobrevivência
econômica e material. Cada preocupação requer várias decisões: quais
problemas devem ser resolvidos? Em que ordem a ação deve prosseguir?
Qual estratégia deve ser empregada? Tudo isso demanda algum tipo de
escolha — livre escolha, livre arbítrio. E a escolha de agir parece
voluntária; é fácil (embora muito insatisfatório do ponto de vista
psicológico) sucumbir à paralisia da vontade.
Em contrapartida, decidir voluntária e livremente é difícil e exige muito.
Não se parece em nada com os processos automáticos de vias reflexivas ou
habituais que nos fazem agir sem grandes ponderações. Não somos
movidos pelo passado, de alguma maneira fundamentalmente
determinística, como um relógio mecânico no qual a mola aciona as
engrenagens que giram os ponteiros e indicam as horas. Em vez disso,
quando decidimos, enfrentamos ativamente o futuro. Parece que estamos
destinados a enfrentar algo semelhante a um potencial não formado e a
determinar o que surgirá como o presente — e se tornará o passado.
Nós literalmente transformamos o mundo no que ele é, a partir das muitas
coisas que percebemos que poderia ser. Isso talvez seja o ato primordial do
nosso ser, e talvez do próprio Ser. Enfrentamos uma infinidade de
perspectivas — de realidades múltiplas, cada uma quase tangível — e, ao
escolher um caminho em vez de outro, reduzimos essa infinidade à
existência singular da realidade. Ao fazer isso, transformamos o mundo da
possibilidade no do Ser. Este é o mais profundo dos mistérios. O que é esse potencial que nos confronta? E o que constitui nossa estranha habilidade de
moldar essa possibilidade e de criar o que é real e concreto a partir do que
começa, em certo sentido, como meramente imaginário?
Há outro aspecto de igual importância aliado a isso, por mais impossível
que pareça, dada a impropriedade do papel que parecemos desempenhar na
formação da realidade. Não só nossas escolhas desempenham um papel
determinante na transformação da multiplicidade do futuro na realidade do
presente, mas a ética de nossas escolhas, mais especificamente, também
desempenha esse papel. As ações baseadas no desejo de assumir
responsabilidades; de melhorar as coisas; de escapar da tentação e enfrentar
o que preferiríamos evitar; de agir de forma voluntária, corajosa e
verdadeira tornam o que surge no mundo do Ser muito melhor — de todas
as formas, para nós e para os outros — do que aquilo que nasce como
consequência da evitação, do ressentimento, da busca por vingança ou do
desejo de ferir. Isso significa que, se agirmos com ética, no mais profundo e
universal dos sentidos, a realidade tangível que emerge do potencial
enfrentado será boa, ao invés de terrível — ou pelo menos tão boa quanto
pudermos torná-la.
Todo mundo parece saber disso. Somos universalmente atormentados por
nossa consciência devido ao que sabemos que deveríamos ter feito, mas não
fizemos. Somos igualmente atormentados pelo que fizemos, mas sabemos
que não deveríamos ter feito. Essa não é uma experiência universal? Será
que alguém consegue escapar das crises de consciência que chegam às
quatro horas da manhã após agir de maneira imoral ou destrutiva, ou deixar
de agir quando a ação era necessária? E qual é a fonte dessa consciência
inescapável? Se fôssemos a fonte de nossos próprios valores e senhores de
nossos reinos, poderíamos agir ou deixar de agir como quiséssemos e não
sofrer as dores do arrependimento, da tristeza e da vergonha. Mas nunca
conheci alguém capaz dessa proeza. Mesmo as pessoas mais psicopatas
pareciam motivadas pelo menos a mascarar sua má-fé com uma camada de
mentiras (com a profundidade dessa camada proporcional à gravidade da
impropriedade em questão). Mesmo o mais malévolo dos seres, ao que
parece, deve encontrar justificativa para sua maldade.
Se fracassarmos em atender ao padrão de responsabilidade, outras pessoas
nos considerarão carentes de ética e integridade. E não termina aí. Assim
como responsabilizamos as pessoas (incluindo nós) pelos erros que cometeram ou pelo bem que não praticaram, também acreditamos (ou pelo
menos agimos de acordo com essa suposição) que alguém que tomou uma
boa decisão livremente merece todo o benefício que resulte dela. Por isso
acreditamos que cada pessoa deve receber com justiça o fruto do seu
trabalho honesto e voluntário. Parece existir algo natural e inevitável nesses
julgamentos; algo que age internamente e que é universal e inescapável,
tanto psicológica quanto socialmente. O que tudo isso significa é que todos
— a criança, o adulto, o “eu”, os outros — se rebelarão contra serem
tratados como uma engrenagem de uma roda, incapazes de escolha e
desprovidos de liberdade; significa também que (da mesma forma) é
praticamente impossível estabelecer um relacionamento positivo com
qualquer outra pessoa (ou mesmo com nosso “eu” privado) sem essa
atribuição de agência pessoal, livre arbítrio e responsabilidade.
A PALAVRA COMO SALVADORA
Enquanto indivíduos soberanos, todos somos, primeiro, participantes
voluntários do próprio ato da criação e, segundo, fatores determinantes da
qualidade dessa criação, por meio da ética de nossas escolhas — essas
ideias encontram reflexo em uma miríade de maneiras dentro de nossos
relacionamentos privados e públicos. Elas também estão encapsuladas e
representadas nas narrativas, as narrativas fundamentais, que integram a
base de nossa cultura. Essas histórias — qualquer que seja seu significado
metafísico final — são, pelo menos em parte, uma consequência do nosso
ato de nos observarmos agir ao longo de eras da história humana, e de como
destilamos dessa observação os padrões essenciais de nossas ações. Somos
cartógrafos, criadores de mapas; geógrafos, preocupados com a
configuração do terreno. Mas também somos, com mais precisão e acurácia,
os mapeadores de percursos, marinheiros e exploradores. Lembramos os
lugares de onde partimos, as posições que ocupávamos quando nossas
histórias começaram. Lembramos as armadilhas passadas, para evitá-las, e
os sucessos que já tivemos, para repeti-los. Para fazer isso, precisamos
saber onde estivemos, onde estamos atualmente e em que direção estamos
indo. Reduzimos esse relato à sua estrutura causal: precisamos saber o que
aconteceu e por quê, e precisamos saber da maneira mais simples e prática
possível.
É por essas razões que somos tão cativados por contadores de história
habilidosos — que conseguem compartilhar suas experiências de forma
concisa e precisa e que vão direto ao ponto. Esse ponto — a moral da
história — é o que eles aprenderam sobre quem eram e são, onde estavam
ou estão, e para onde estão indo e por quê. Essas informações são
irresistíveis para todos nós. É como (e por que) extraímos sabedoria dos
riscos assumidos por aqueles que nos antecederam e que viveram para
contar a história: “A vida era assim naquela época. Isso é o que queríamos e
por quê. Isso é o que imaginamos e como criamos estratégias, planejamos e
agimos. Às vezes, conseguimos e realizamos nossos objetivos. Mas, muitas
vezes (e isso é o crucial para uma grande história), relatamos como
aconteceu o inesperado; como nos desviamos do caminho; as tragédias que
encontramos e os erros que cometemos — e eis como consertamos o mundo
(ou deixamos de fazê-lo).” Valorizamos tais histórias particularmente se
elas alcançaram o auge da generalização, representando, como tal, batalhas
heroicas com o desconhecido ou a dissolução da ordem tirânica em
revivificação do caos e o (re)estabelecimento de uma sociedade
benevolente.10 Isso pode ser visto em todos os lugares onde as pessoas
contam e ouvem avidamente histórias: ou seja, literalmente em todos os
lugares.11
As histórias mais fundamentais do Ocidente podem ser encontradas, para
o bem ou para o mal, no corpus bíblico. Essa coleção de livros antigos e
eminentemente influentes se inicia com o próprio Deus, em Seu aspecto
paternal, retratado como a entidade ordenada que enfrenta o caos e, em
consequência, cria uma ordem habitável:
E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo. E o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. (Gênesis 1:2)
A ausência de forma, o vazio, as trevas e a água (uma coleção confusa de
atributos) são consequência da tradução de uma frase bíblica em hebraico,
tohu wa-Bohu ( ת ֹהוּ· ב ֹהוּ), composta de duas palavras, tohu e bohu. A
palavra tohu é ainda mais complicada do que a mera falta de forma etc.;
também significa “aquilo que é destruído”, “vaidade” (que pode ser
considerada algo suscetível a ser destruído, em termos psicológicos) e
“deserto” (que é inabitável e vazio).12 Também está associada a outra
palavra hebraica, tehom ( תהֹום), que significa “o abismo”, “as
profundezas”, e a um termo sumério anterior, Tiamat,13 que é a grande deusa mãe/dragão (habitante da água salgada) que cria o mundo com seu
consorte, Apsu, no mito mesopotâmico da criação Enuma Elish.
De acordo com o relato de Gênesis, existe algo — um potencial, digamos
— associado simbolicamente ao abismo, às profundezas do oceano, mas
também ao deserto, aos dragões, à maternidade/ao matriarcado, ao vazio, à
ausência de forma e à escuridão.14 Tudo isso é uma tentativa por parte da
poesia e da metáfora de dar forma conceitual, inicial e ordenada ao amorfo.
O abismo é o que apavora, o que há nos confins da terra, o que
contemplamos ao vislumbrar nossa mortalidade e fragilidade e o que devora
a esperança. A água é a profundidade e a fonte da própria vida. O deserto é
um lugar de abandono, isolamento e solidão, assim como o interregno entre
a tirania e a terra prometida. O dragão é a antiga imagem do predador como
tal — árvore-felino-cobra-pássaro que cospe fogo15,III —, eternamente à
espreita na floresta, além dos limites familiares da tribo e da aldeia. É
também o Leviatã escondido na água salgada, nas profundezas — o terrível
monstro que Jeová diz vencer em Jó 41:25–34 e em muitas outras partes do
Velho Testamento.16
Deus usa um atributo — uma Pessoa, uma faculdade ou uma ferramenta
alternativa — que O auxilia ou de que Ele se vale para confrontar a
possibilidade e o vazio. Da perspectiva cristã, é a Palavra; seja qual for a
estrutura religiosa — judaica ou cristã —, é a capacidade de falar. Em
Gênesis, há uma insistência contínua na importância da palavra. O ato de
criação, a cada dia, começa com a frase “e disse Deus” (com ênfase
adicional no ato de nomear: “e chamou Deus”). Os sete dias da criação
começam assim:
E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
E viu Deus a luz, que isto era bom; e Deus separou a luz das trevas.
E chamou Deus à luz Dia, e às trevas ele chamou Noite. E houve a tarde e a manhã, o primeiro
dia. (Gênesis 1:3-5)
Quase imediatamente após revelar a Si mesmo, Suas ações criativas e a
criação inicial (quase instantaneamente após sermos apresentados a Ele),
Deus cria os seres humanos. Três características dessa criação se destacam,
além de sua imediatez: a insistência de que o homem deve ter domínioIV
sobre o resto da criação; a chocante e incompreensível insistência moderna
e de perspectiva igualitária de que Deus criou o homem e a mulher,
indistintamente, à sua própria imagem (afirmado duas vezes; Gênesis 1:27); e a igualmente improvável e miraculosa insistência de que a criação da
humanidade foi, tal como o resto da Criação, boa. Se Deus está acima de
tudo, como Ele é inicialmente descrito, isso implica que os homens e as
mulheres criados à Sua imagem compartilham com Ele algo importante —
ou, mais precisamente, compartilham um destino, uma necessidade ou uma
responsabilidade análoga.
A Palavra — a ferramenta que Deus usa para transformar as profundezas
do potencial — é verdadeira. No entanto, para que a própria realidade possa
surgir, a palavra parece necessariamente aliada à coragem de confrontar a
possibilidade não realizada em todo o seu terrível potencial. Talvez essa
Verdade e essa Coragem devam, por sua vez, ser agrupadas sob o princípio
mais amplo do Amor — amor pelo próprio Ser, apesar de sua fragilidade,
sua tirania e sua traição; amor que tem por objetivo o que há de melhor em
tudo. O Ideal é composto da combinação de Verdade, Coragem e Amor, e
sua encarnação — que age dentro de cada indivíduo — se depara com o
potencial do futuro e faz o melhor possível. E quem se negaria a isso?
Ninguém ensina um filho amado a se encolher de terror e covardia diante de
algo que o confronta. Ninguém ensina a uma filha amada que a falsidade
consertará o mundo e que qualquer ação que atinja o resultado deva ser
praticada, honrada e imitada. E ninguém diz a alguém estimado que a
resposta adequada ao Ser é o ódio e o desejo de causar dor, sofrimento,
destruição e catástrofe. Assim, a partir da análise de nosso próprio
comportamento, podemos presumir que sabemos a diferença entre o
caminho do bem e o do mal, e que acreditamos acima de tudo (apesar de
nossa resistência consciente e contestação motivada pelo orgulho) na
existência de ambos. Mas não é só isso: a insistência de Deus na bondade
da criação refletia o fato de que Verdade, Coragem e Amor foram reunidos
em Sua ação criadora. Assim, há uma reivindicação ética profundamente
enraizada no relato da criação em Gênesis: tudo o que emerge do reino da
possibilidade no ato da criação (seja divino, seja humano) é bom na medida
em que a motivação de sua criação é boa. Não creio que haja argumento
mais ousado em toda a filosofia ou teologia do que este: acreditar nessa
reivindicação, colocá-la em prática, é o ato fundamental de fé.
Há um argumento apresentado muito mais tarde na narrativa bíblica, no
Novo Testamento. Cristo diz as seguintes palavras aos Seus seguidores. É
uma explicação de como preencher o que falta em sua vida, recuperar o que
perdeu — ou até descobrir o que não sabia que estava lá:
E eu vos digo: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á.
Porque todo aquele que pede, recebe; e o que busca, encontra; e ao que bate, se abrirá.
Se um filho pedir pão a qualquer um de vós que é pai, acaso lhe dará uma pedra? Ou se ele
pedir um peixe, lhe dará por peixe uma serpente?
Ou se ele pedir um ovo, lhe dará um escorpião?
Então, se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos; quanto mais o vosso
Pai celeste dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem? (Lucas 11:9-13)
Essa não é uma declaração casual. Não é ingênua. Não se trata de pedir
um presente não merecido. Deus não concede desejos casuais.V É uma
questão, em primeiro lugar, de Pedir com verdade. Significa estar disposto a
abrir mão de tudo que não esteja de acordo com o desejo. Caso contrário,
não é Pedir. É apenas um capricho e um desejo imaturo e, muitas vezes,
ressentido: “Ah, se eu pudesse ter o que quero, sem fazer o que é
necessário.” Isso não será suficiente. Então, pedir, buscar e bater é fazer
tudo o que é preciso para retomar o que ficou inacabado e concluí-lo, agora.
E pedir, buscar e bater é, também, determinar o que deve ser solicitado. E o
pedido tem que ser algo digno de Deus. Por qual outro motivo seria
concedido? De que outra forma poderia ser concedido?
Imagine por um momento que recebeu tudo de que precisa. Existe dentro
de você uma possibilidade à espera do pedido adequado para se libertar. Há
também tudo o mais que está ao seu redor, esperando para instruí-lo e
ensiná-lo. Mas tudo isso é necessário — o bom, o ruim e o insuportável.
Você sabe que, quando algo não vai bem, é preciso analisar o problema,
resolvê-lo, pedir desculpas, arrepender-se e transformar. Um problema não
resolvido raramente fica parado, estagnado. Ele cria novas cabeças, como
uma hidra. Uma mentira — um ato de evitação — gera a necessidade de
mais. Um ato de autoengano gera a necessidade de reforçar essa crença
autoenganosa com novos delírios. Um relacionamento devastado, sem
solução, prejudica sua reputação — prejudica, igualmente, sua fé em si
mesmo — e diminui a probabilidade de um relacionamento novo e melhor.
Assim, sua recusa ou mesmo sua incapacidade de aceitar os erros do
passado alimenta a fonte de tais erros — expande o desconhecido que o
cerca, transforma esse desconhecido em algo cada vez mais predatório.
E, durante esse processo, você fica mais fraco. Você é menos do que
poderia ser, porque não mudou. Não se tornou quem poderia ter se tornado
como consequência dessa mudança — e pior: agora aprendeu, por seu
próprio exemplo, que esse afastamento é aceitável e, portanto, é mais provável que cometa o mesmo erro no futuro. E o que deixou de encarar
fica maior. Esse não é o tipo de processo causal, o tipo de ciclo de feedback
positivo, no qual é desejável se envolver. Então, você deve confessar, pelo
menos para si mesmo; arrepender-se, pelo menos internamente; e precisa
mudar, porque estava errado. E deve pedir, buscar e bater com humildade. E
essa é a grande barreira para a iluminação, a elucidação, que está, em
princípio, ao alcance de todos. Isso não significa que a coragem necessária
para enfrentar todos os horrores da vida seja fácil de reunir. Mas a
alternativa é pior.
É nosso destino transformar o caos em ordem. Se o passado não foi
ordenado, o caos que ele ainda constitui nos assombra. Há informações —
vitais — que repousam nas memórias que nos afetam negativamente. É
como se parte da personalidade ainda estivesse latente, no mundo,
manifestando-se apenas quando há uma perturbação emocional. Um evento
traumático que não pode ser explicado indica que o mapa-múndi que
orienta nossa navegação é insuficiente de alguma maneira crucial. É
necessário compreender o negativo bem o suficiente para que possa ser
contornado à medida que avançamos para o futuro, se não quisermos
permanecer atormentados pelo passado. E não é a expressão da emoção
associada a eventos desagradáveis que tem poder curativo. É o
desenvolvimento de uma sofisticada teoria causal: por que eu estava em
risco? O que havia no mundo que o tornava perigoso? O que eu estava
fazendo ou não para contribuir para minha vulnerabilidade? Como posso
mudar a hierarquia de valores que habito para levar em conta o negativo e,
assim, ser capaz de vê-lo e entendê-lo? Quanto do meu mapa antigo tenho
que deixar morrer — com toda a dor que o tecido necrótico causa — antes
de poder mudar o suficiente para levar em consideração toda a minha
experiência? Tenho fé para deixar para trás aquilo que precisa morrer e
permitir que minha nova personalidade, mais sábia, emerja?
Em certo grau, somos nossas suposições. São elas que estruturam o mundo
para nós. Quando os axiomas básicos da fé são desafiados (“As pessoas são
essencialmente boas”), a base estremece e as paredes desmoronam. Temos
todos os motivos para evitar enfrentar a verdade amarga. Mas torná-la — a
de hoje e a do passado — clara e totalmente compreendida só pode nos
proteger. Se você está sofrendo por lembranças que não param de
atormentá-lo, existe a possibilidade — possibilidade esta que pode ser a sua
salvação — à espera para ser descoberta.
Escreva em detalhes todas as velhas lembranças que ainda o perturbam.
I Um conselho para quem procura ajuda de saúde mental em uma clínica de cidade grande, onde o psiquiatra que consultá-lo pode levar apenas quinze minutos para avaliar sua vida e determinar a natureza de sua doença: não mencione casualmente quaisquer experiências ou crenças estranhas. Você pode se arrepender. É preciso muito pouco para obter um diagnóstico de esquizofrenia nas condições que prevalecem em um sistema de saúde mental sobrecarregado — e, uma vez que o diagnóstico tenha sido estabelecido, é muito difícil negá-lo. É difícil, do ponto de vista pessoal, não levar a sério uma descrição médica. É mais difícil do que você imagina não acreditar em um psiquiatra qualificado (que deveria, afinal, saber do que está falando), principalmente se você estiver experienciando sintomas estranhos. É difícil do ponto de vista prático também, pois, uma vez que tal diagnóstico passa a fazer parte de seu prontuário médico permanente, não é nada fácil modificá-lo. Qualquer coisa fora do comum em você, a partir de então, atrairá atenção indevida (até de você mesmo), e qualquer demonstração de normalidade será minimizada. Bem, digo tudo isso sabendo muito bem que algumas pessoas com crenças estranhas são de fato esquizofrênicas — mas, em geral, um pouco de investigação é feita para estabelecer esse diagnóstico, e psiquiatras ocupados em hospitais públicos raramente têm tempo para investigações cuidadosas.
II O Past Authoring Program, www.selfauthoring.com [conteúdo em inglês]. O Dr. James W. Pennebaker, da Universidade do Texas em Austin, e um grupo de colaboradores que trabalham com ele tanto de forma direta quanto independente demonstraram que escrever reduz a incerteza existencial (não há maneira mais simples de explicar isso), diminui a ansiedade e melhora a saúde mental, além de aumentar a função imunológica. Todos esses efeitos parecem associados a uma diminuição geral no estresse induzido pela complexidade e nos hormônios produzidos em decorrência desse estresse — prejudiciais quando em excesso. Pennebaker demonstrou, por exemplo, que os alunos que escreveram por três dias consecutivos sobre os piores eventos de suas vidas experimentaram, primeiro, um declínio no humor (sem dúvida provocado pela evocação de tais memórias), mas uma melhora significativa em sua condição ao longo dos meses seguintes. Outros pesquisadores mostraram efeitos semelhantes quando os alunos escreveram sobre o futuro. Inicialmente, Pennebaker presumiu que era algo semelhante à expressão emocional, ou catarse (de acordo com Freud), que produzia esses efeitos positivos — a oportunidade de expressar raiva, arrependimento ou tristeza —, mas descobriu, como resultado de uma análise semântica cuidadosa, que o fator curativo era o desenvolvimento de uma compreensão cognitiva e causal da motivação dos eventos e de seu significado. Os efeitos de escrever sobre o futuro pareciam semelhantes, na medida em que os planos geravam incertezas reduzidas e apresentavam uma estrutura mais simples e bem definida em torno do que, semanas e meses mais tarde, poderia vir a ser algo intoleravelmente inespecífico. Veja J. W. Pennebaker e J. F. Evans, Expressive Writing: Words that heal (Enumclaw, Wash.: Idyll Arbor Inc., 2014).
III Segundo a teoria de que a figura onipresente do dragão como predador resulta da junção das noções, arraigadas ao longo da evolução, dos perigos que nos cercam, geralmente representados por elementos que devemos evitar. (N. da T.)
IV Responsabilidade, administração, serviço; não da força física (Cambridge Bible for Schools and Colleges); o poder de governar e controlar; porém, o mais importante, o mesmo domínio que Deus tem sobre ou para o homem.
V Talvez seja por essa razão que Cristo insiste: “Também está escrito: ‘Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus’.” (Neste caso, prefiro Mateus 4:7 da Nova Versão Internacional ao mesmo versículo da Versão King James.)