Antes Que Ele Precise

Blake Pierce · Capítulo 15 de 33

Páginas do PDF

Antes Que Ele Precise

Capítulo Quatorze

 

 

Quanto mais se aproximavam de Biscayne Bay, mais Mackenzie era capaz de ver o horizonte de Miami. Melhor ainda, Ellington se ofereceu para dirigir, permitindo que não só comesse o cheeseburger e as batatas fritas do drive-thru sem problemas, mas se maravilhasse com o pôr do sol pairando sobre Miami.

—Meio estranho, não é? Disse Ellington. Você sempre ouve sobre coisas como clubes de troca de casal, mas supõe que são algo do submundo. Mas agora, após algumas horas investigando isso, percebe-se que é algo rotineiro.

—Você não está sendo afetado pelo submundo de uma cidade bonita, está?

—Bonita? Disse Ellington. Dificilmente. Esta é a casa dos Dolphins.

—Vai lembrar de esporte à essa hora? É sério?

Ele deu de ombros. Eu tenho que mantê-la pensando em como serei macho se te levar de volta para a cama.

Ela revirou os olhos para ele, mas a ideia de estar de volta na cama com ele aparecia em sua cabeça toda hora durante todo o dia, também. Foi uma versão, no final dos vinte anos, de uma paquera com alguém no ensino médio. Isso a deixava desconfortável, mas ao mesmo tempo, animada. Era uma pena eles terem finalmente cruzado essa linha enquanto estava no meio de um caso realmente horrível.

Eles chegaram a Biscayne Bay, assim que o sol começou a lançar tons dourados nos topos dos edifícios e das ondas pulsando no mar. A partir da borda da baía, que era incrivelmente bonita.

Eles chegaram na entrada de Tidal Hills vários minutos mais tarde. A placa na frente da entrada nem sequer têm o nome do lugar. Tudo o que a placa dizia era: Um resort privado.

—Parece apropriadamente sombrio, disse Mackenzie.

 

Ellington dirigiu para mais perto do prédio, uma pequena estrada que saía em um estacionamento escondido por um bosque de palmeiras e uma cerca pequena para manter a privacidade do local. Quando ele estacionou, Mackenzie notou que por trás das palmeiras e da cerca, a estrada principal ao longo da baía não podia ser vista.

Havia alguns outros carros no estacionamento, mas nenhuma pessoa à vista. Eles saíram do carro juntos e caminharam para o prédio atrás deles. O local foi construído para se assemelhar à uma casa de praia, em destaque ao longo do alpendre com vigas que pareciam troncos. Quando subiu as escadas até o alpendre ornamentado, Mackenzie observou a placa pendurada no painel de vidro no topo das portas duplas. Ele dizia: Este é um resort privado. Se você é membro deste lugar, sabe disso. E se não é, por favor, respeite nossa privacidade.

—Nenhuma informação de contato, Ellington apontou.

Quase exatamente como o DCM, pensou Mackenzie.

Ela bateu na porta e deu um passo atrás para que pudesse ver através de painel de vidro ao longo da parte superior da porta. Como ninguém tinha respondido vinte segundos depois, ela bateu novamente. Desta vez, alguém apareceu quase que imediatamente. Um homem com aparência de irritado olhou através do vidro para eles. Ele, então, apontou para a placa de vidro, como se não tivessem visto aquilo.

Em resposta, Mackenzie balançou a cabeça, e em seguida, mostrou seu distintivo. Ela apertou-o contra o vidro para mostrá-lo melhor. Quando retirou o distintivo, viu a expressão de confusão no rosto do homem. Ele deu um passo para trás, abriu a porta e saiu até a varanda para encontrá-los. Ele fechou a porta e ficou na frente dela, deixando claro que eles não seriam convidados para entrar.

Ele tinha seus quarenta e tantos anos, cabelos grisalhos e uma barba delineando o seu rosto. Ele parecia um pouco magro, quase magro demais.

—Posso ajudá-los? Ele perguntou com ceticismo olhando a identificação de Mackenzie, enquanto ela a colocava de volta no bolso interno do casaco.

—Sim, nós gostaríamos de falar com o indivíduo que opera e mantém um clube conhecido como Tidal Hills, disse Mackenzie.

—Bem, seria o Samuel, o homem disse. E Tidal Hills não é nenhum clube.

—O Samuel está aqui? Perguntou Mackenzie, ignorando a última alfinetada do homem.

—Ele está, mas ele está muito ocupado. Ele está meditando e se preparando para um evento hoje à noite.

—Nós precisamos falar com ele, disse Mackenzie.

—Eu receio não poder permitir que vocês entrem, enquanto ele estiver fazendo seus preparativos.

—Tudo bem, disse Mackenzie. Traga-o aqui para nós, então. Vou te dar três minutos. E se ele não vier, vamos entrar para falar com ele.

O homem acenou com a cabeça rapidamente, alcançando a maçaneta da porta. Ele ainda parecia irritado, mas ele também parecia muito preocupado. Ele abriu a porta e voltou para dentro muito rapidamente. Mackenzie observou que por estar com pressa, ele não tinha trancado a porta. Ela optou por ficar lá fora, não querendo contrariar sem justa causa.

—Esse cara parece doente, disse Ellington.

—Magro como um corrimão, Mackenzie concordou.

—Isolado, tranquilo, e sem ser visto da estrada, disse Ellington. Parece mais um culto do que um clube, você não acha?

—Sim, tem essa vibe.

Eles esperaram por mais um minuto até que o homem muito magro retornou. Ele abriu a porta e olhou para eles. Samuel os convidou para entrar. Por favor, entrem.

Ele abriu a porta para eles e eles entraram. Eles entraram em uma sala escura que parecia um santuário de igreja, mas sem os bancos e símbolos religiosos. O homem magro levou-os por esta sala em direção à uma porta na parte de trás. Ele virou-se para eles com um sorriso incerto e disse: —É um privilégio, acreditem. Não é sempre que Samuel convida não-membros para entrar em seu espaço privado.

Uau, isso está começando a parecer mais e mais com um culto, pensou Mackenzie. Ela e Ellington trocaram um olhar do tipo isso é sério? Ellington sacudiu a cabeça, escondendo um sorriso desconfortável.

O homem magro abriu a porta e levou-os em um pequeno corredor. O corredor continha seis portas, todas estavam abertas, exceto uma. Esta estava na outra extremidade do corredor—exatamente a porta para onde o homem magro estava conduzindo eles.

Quando chegaram à porta, o homem bateu e novamente deu-lhes um tipo animado de sorriso. Ele, então, abriu e revelou uma sala vazia com apenas um tapete de decoração. Três velas queimadas no fundo da sala, iluminando a figura de um homem que estava sentado no centro do tapete.

—Por favor, disse o homem. Entrem, visitantes—

Mackenzie entrou na sala, dominada por completo por duas coisas: uma sensação assustadora que caiu sobre ela como uma onda, e o fato de que o homem no tapete estava nu, com apenas uma cueca boxer de seda muito apertada. O homem era o Samuel, se ela estiver adivinhando corretamente —parecia estar na casa dos cinquenta. Como o homem magro, ele também parecia quase desnutrido... o que era estranho, já que ele tinha um abdominal definido e músculos tonificados nos braços e pernas. Ele estava sentado no tapete com as pernas cruzadas e as costas ligeiramente arqueadas.

Quando o homem magro fechou a porta e despediu-se, o outro homem pôs-se de joelhos e depois em uma posição ereta. Ele não parecia estar incomodado pela falta de roupas.

—Prazer em conhecê-los, disse ele. Eu sou Samuel, o guru da Tidal Hills.

—Nós somos os Agentes White e Ellington do FBI, disse Mackenzie. E admito que estou confusa... o que você quer dizer com guru?

—Eu faço o meu melhor para levar meus amigos e membros até um estado de paz através da iluminação e da maneira adequada de abraçar o prazer.

—Prazer, disse Ellington. Você quer dizer relações sexuais?

—Sim. E quaisquer outros prazeres da carne. Enquanto a maioria das religiões ensinam seus seguidores que o sexo é para ser uma coisa vergonhosa e cheia de culpa, nós aqui no Tidal Hills nos juntamos ao prazer. Acreditamos que o ato sexual e a intimidade derivada dela podem levar os seres humanos a um estado iluminado.

—Com todo respeito, Mackenzie disse, —ouvimos dizer que há pessoas que frequentam o Tidal Hills como um clube improvisado de swingers.

—Samuel franziu a testa para a insinuação, mas assentiu. Sim, eu consigo ver o porquê de alguns pensarem uma coisa dessas. Nos primeiros dias, foi assim que começou. Este era um lugar para as pessoas explorarem sua sexualidade, para expandir seus apetites. E de alguma forma se transformou em um lugar para casais se envolverem com outros casais. Tornou-se a tendência do lugar e nós acolhemos isso.

—E as coisas ainda funcionam assim aqui?

—Sim. Mas não é apenas para casais casados. Nós temos solteiros de vez em quando, querendo encontrar respostas sobre a sua própria sexualidade.

—Seu amigo disse que você raramente tem visitantes, perguntou Mackenzie. Por quê?

—A maioria do mundo não entende a nossa intenção. Alguns a veem como pecaminosa e repugnante. Outros conseguem compreender, mas rotulam como uma forma de pornografia. E o que fazemos aqui não é nenhum dos dois.

 

—Ele também disse que estava se preparando para um evento, disse Ellington. O que ele quer dizer?

—Nós temos um encontro hoje à noite. Gosto de meditar e preparar o meu

corpo.

—Você participa nestes eventos? Perguntou Mackenzie.

Samuel parou antes de responder. Quando me chamam e eu sinto que é apropriado, sim.

Mackenzie sentiu a conversa dar várias voltas estranhas e se esforçou para colocá-la de volta nos trilhos.

—Samuel, estamos aqui como parte de uma investigação sobre uma série de assassinatos que envolvem casais, disse ela. Nós soubemos recentemente que um dos casais em questão foi membro daqui.

—Ah, meu Deus. Posso perguntar quem eram eles?

—Josh e Julie Kurtz. Você se lembra deles?

—Sim, disse ele, com o rosto se afrouxando. Eles não ficaram conosco por muito tempo. Eu acredito que a esposa, em particular, não era totalmente receptiva às nossas práticas.

—E quando eles saíram, foi de forma amigável? Ela perguntou.

—Ah, sim. Toda vez que alguém quer sair, é respeitado. Tudo o que pedimos é que não compartilhe detalhes específicos sobre o que acontece aqui.

—Será que os Kurtzes brigaram com alguém daqui?

—Não, muito pelo contrário. Eles eram um casal adorável. Muito legais, muito doces.

—Quantos casais são membros da Tidal Hills?

—Agora, eu acredito que nós temos quinze casais ativos e sete solteiros.

—Existe uma taxa para participar? Perguntou Ellington.

—Sim. No entanto, tenho certeza que você entende que, devido à privacidade, eu prefiro não dar detalhes.

 

—Claro, Ellington respondeu secamente.

—Dos casais que são atualmente membros, você conhece todos eles? Perguntou Mackenzie.

—Sim, eu conheço todos eles muito bem.

—Alguma vez você já teve problemas com algum deles? Qualquer coisa alarmante sobre

eles?

—Não, não atualmente.

—Você tem como saber se qualquer um dos seus membros atuais se interessou por outros clubes ou eventos para swingers?

—Isso eu não sei, disse Samuel. E eu faço questão de não saber. Quaisquer membros passam por um processo de entrevista rigoroso comigo. Mas, nesse processo, eu pergunto sobre suas histórias e suas vidas sexuais, mas eu não pergunto qualquer coisa assim. É uma questão deles onde gastam o tempo e o dinheiro que possuem. Eu não cruzo essa linha.

 

—Então, você não conhece uma única pessoa que saiu, talvez resistente, aos seus pensamentos? Ou talvez, alguém que você teve que dispensar como membro?

 

Samuel pensou sobre isso, olhando pensativamente para uma das chamas das velas dançando. Sabe, houve um jovem por volta de um ano e meio atrás. Ele passou pelo processo de entrevista com bastante facilidade. Parecia um bom rapaz. Mas quando ele foi ao seu primeiro evento, acho que ele se confundiu.

Ele não causou uma grande confusão, mas ele saiu naquela noite nos xingando de todos os nomes possíveis.

Nos chamou de pervertidos e disse que iríamos para o inferno. Ele contatou-me mais tarde, desculpando-se e pedindo para voltar, mas eu recusei.

—Mais alguma coisa?

—Bem, ele me telefonou várias vezes e continua enviando e-mails. Ele veio aqui uma vez nos últimos meses, bateu na porta. A cada vez que ele entrava em contato comigo, parecia um pouco mais hostil.

 

—Você acha que ele é perigoso? Mackenzie.

—Eu não sei. Ele foi rejeitado. Expulso. Mas em um de seus e-mails, ele prometeu vingar-se de mim.

—Nós poderíamos saber o nome dele?

Samuel parecia em desacordo com a ideia, mas quando ele soltou um suspiro derrotado, Mackenzie soube que ele daria a informação.

—Seu nome era Chino Castillo. Posso dar-lhe o seu número, endereço de e-mail e endereço físicos—supondo que ele ainda esteja vivendo no mesmo lugar, é claro. Mas esta é uma violação de privacidade. Eu prefiro que você não deixe que ele saiba onde conseguiu essa informação. Embora, dada a natureza do caso, presumo que será óbvia a fonte.

Engraçado, pensou Mackenzie. Tanta ênfase na privacidade com esse cara e Gloria Benitez... não é algo que você esperaria de pessoas que promovem casamentos abertos.

—Obrigada por sua ajuda, disse Mackenzie.

—Claro, disse Samuel, embora fosse evidente que ele ficou chateado com tudo aquilo. Ele conduziu-os até a porta. Ele os seguiu de volta pelo corredor em direção à grande sala da frente.

—Sabe, ele disse, —Eu estou bem ciente do estigma associado com o que fazemos aqui. E eu até entendo. Mas há muito mais bem do que mal no que fazemos. Eu convido vocês para retornar sem distintivos ou armas e participar.

Mackenzie não tinha certeza, mas ela pensou ter ouvido Ellington sufocar uma risada.

—Eu agradeço a oferta, Mackenzie disse, —mas eu não acho que seria a melhor ideia. Nós estamos no meio de um caso e, francamente, não ficaria bem para os nossos supervisores.

—Eu entendo. E eu certamente espero que você encerre o seu caso

rapidamente.

—Você realmente acredita que Chino Castillo seria capaz de assassinar

pessoas?

—Eu honestamente não tenho ideia, disse Samuel. Eu não acho que ele seria capaz de expressar a mesma raiva que ele expressou quando foi expulso, mas ela está lá mesmo assim. Tudo bem se eu te enviar uma mensagem com a informação?

—Claro, disse Mackenzie. Ela deu a Samuel o seu número e acrescentou: —Quanto mais cedo, melhor.

—Ah, eu enviarei para você dentro de dez minutos.

Samuel levou-os de volta para a porta da frente, ainda vestido com apenas uma cueca de seda. O homem magro estava na sala grande, colocando uma variedade de tapetes no chão. Deu-lhes um aceno e um tchauzinho enquanto passavam.

Lá fora, Ellington parecia estar com pressa para chegar ao carro. Quando Mackenzie chegou ao carro, ela o encontrou rindo e balançando a cabeça.

—Algo engraçado? Ela perguntou.

Ele olhou para ela, um pouco envergonhado. Eu sinto muito. Eu sei que é pouco profissional. Mas entre Samuel e o casal Springs, acho que já alcancei a cota de estranhos quase nus por hoje.

—Tem sido demais, disse ela. Mas se ver um homem careca envelhecido com sua cueca extremamente apertada é o que é preciso fazer para obter uma pista...

—Então, o tempo foi bem gasto, Ellington concluiu para ela.

Eles saíram de Tidal Hills, o horizonte de Miami agora lançava-se em sombras, já que o sol tinha desistido da luta, abrindo caminho para a lua. Para Mackenzie, tudo isso significava que outro dia tinha passado sem que pudessem encontrar o assassino. E o assassino parecia mais longe do que nunca, apesar das novas pistas.