Antes Que Ele Precise

Blake Pierce · Capítulo 21 de 33

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Antes Que Ele Precise

Capítulo Vinte

 

 

Devin O'Leary vivia em uma casa bastante interessante de dois andares na parte menos badalada de Golden Beach. O bairro estava escuro e silencioso quando Mackenzie levou seu carro alugado para o endereço que Rodriguez tinha lhe enviado logo após deixar o navio de cruzeiro. Quando e Ellington foram para a calçada de O'Leary, ela leu outra informação que Rodriguez havia enviado—informação que o DP de Miami tinha rápida e eficientemente encontrado para ela.

O'Leary não tinha muita coisa em seu histórico. Alguns bilhetes de estacionamento que não foram pagos e uma confusão causada por embriaguez em seus tempos de faculdade. Fora isso, ele parecia estar com a ficha limpa.

Além do envolvimento em um clube de swing, Mackenzie pensou quando e Ellington subiram os degraus da varanda dele.

Ela bateu na porta com força e, em seguida, tocou a campainha algumas vezes. Ela podia ouvi o soar da campainha sendo silenciado através das paredes da casa. Ela esperou por dez segundos e depois começou novamente.

Lá de dentro, ela ouviu uma resposta compreensivelmente irritada. Quem está fazendo essa merda? Janelle, é você?

Isso lembra os rumores sobre o abandono de sua esposa, pensou Mackenzie.

Quando Devin O'Leary abriu a porta, ele passou por uma ampla gama de emoções em poucos segundos. Primeiro sentiu raiva, então, confusão, depois ficou em estado de alerta. Ele observou-os com os olhos claramente sonolentos, era incapaz de formar qualquer palavra.

—Você é Devin O'Leary? Perguntou Mackenzie.

—Sim. Quem são vocês?

—Agentes White e Ellington do FBI, ela disse. Eu peço desculpas pela hora, mas há uma questão extremamente urgente em que você pode ser capaz de nos ajudar.

Ou ele estava ainda parcialmente adormecido ou estava confuso, porque tudo o que conseguiu sair foram algumas gaguejadas incompreensíveis. Finalmente, ele pareceu ter acordado e perguntou: —Do que você está falando?

 

—Precisamos saber onde você estava mais cedo esta noite, especialmente entre oito e onze horas, disse Ellington.

—Eu estava aqui.

—Fazendo o quê? Mackenzie perguntou.

 —Enchendo a cara, já que você quer saber, disse O'Leary.

—Você conhece alguém que possa provar isso?

—Não, mas eu tenho uma porrada de garrafas vazias em aqui. Olha... que porra é essa? A Janelle tem a ver com isso?

—Ela é a sua esposa, certo? Mackenzie perguntou. Ela o deixou?

Um olhar infeliz passou pelo rosto de O'Leary. Parecia que ele daria um soco em Mackenzie a qualquer momento.

—Sim, disse ele. E por que mandaram dois caras do FBI bater na minha porta às duas da manhã?

—Nós estamos aqui por algo muito diferente disso, disse Mackenzie. Sr. O'Leary, você conhece um casal de nome Jack e Vanessa Springs?

Os olhos de O'Leary vagaram um pouco e ele balançou a cabeça lentamente. Swing. É sério? É disso que se trata? Não poderia ter esperado até de manhã? Eu não sou idiota. Swing não é ilegal.

—Não, mas assassinato é, disse Mackenzie. O casal Springs foi encontrado morto em uma cama de um cruzeiro esta noite. Um navio de cruzeiro em que eu sei que você iria embarcar.

—Sim, disse ele, distraído, ainda aparentemente processando a notícia de que o casal Springs estava morto.

—Mas não deu muito certo.

—Há rumores por aí, disse Mackenzie.

—Sobre minha saúde.

 

Mackenzie apenas balançou a cabeça para confirmar. Ela poderia dizer que ele estava processando um monte de coisas naquele momento. Ele estava cansado, em estado de choque, e segundo ele, bêbado.

—Você conhecia bem os Springs? Mackenzie perguntou.

Ele balançou a cabeça. Eu não falarei sobre isso. Não agora. Eu não consigo. Eu bebi muito, eu tenho lidado com umas notícias de merda recentemente, e eu... droga. Eu não consigo——

E então algo inesperado aconteceu. Devin O'Leary começou a soluçar. Ele cobriu o rosto com as mãos e caiu de joelhos. Ele se encostou no batente da porta aberta e lamentou.

—Pode me levar, disse ele chorando. Leve-me. Eu não me importo. Eu só... Eu não aguento mais. Eu não consigo. Estou fudido. Mal…—

 Mackenzie e Ellington trocaram um olhar por cima dele. Mackenzie deu a Ellington um aceno, um olhar que dizia: Você algema ele.

Ellington começou a fazer exatamente isso quando Mackenzie passou por O'Leary e entrou na casa dele. Ela ouviu Ellington atrás dela, tentando se aproximar do cenário com o máximo de profissionalismo e cuidado possível.

—Vamos, Sr. O'Leary, ele estava dizendo. Vamos levá-lo até a delegacia. Nós vamos lhe dar um pouco de café e resolver isso tudo.

Mackenzie, enquanto isso, entrou ainda mais na casa de O'Leary para ver se sua história era real. Na cozinha, ela descobriu que oito garrafas de cerveja vazias foram empilhadas em cima de uma lata de lixo que quase transbordava. Um copo estava na borda da pia. Ela sentiu o cheiro de uísque.

Ela se aventurou no quarto e encontrou um jeans e uma T-shirt enrolados ao pé da cama. Olhou nos bolsos da calça jeans e encontrou um punhado de moedas, juntamente com um recibo amassado. Isso provava que O'Leary estava dizendo a verdade.

Ele havia comprado uma caixa de cerveja em uma loja de conveniência local às 19:56 daquele dia. Para ele ter feito isso, ido para o navio, assassinado duas pessoas e, em seguida, voltado para casa e ficar tão bêbado... impossível.

Mas há definitivamente algo acontecendo com ele, ela pensou quando voltou de sua casa. Ela fechou a porta, pensando que o fato de que ele tinha conhecido o casal Springs era algo que valia a pena investigar.

Ela se juntou a Ellington no carro enquanto ele estava fechando a porta do passageiro. Tudo bem aí? Perguntou ele.

—Sim, disse ela. Ele não é o nosso cara, mas——

—Mas sim, disse Ellington. Alguma coisa está acontecendo com ele.

Eles se afastaram da calçada com O'Leary ainda chorando em silêncio no banco de trás. Quando eles voltaram para a delegacia, Mackenzie começou a olhar para fora na direção do mar. Ele estava em algum lugar, mas escondido pelos edifícios e pela noite. Mesmo as palmeiras pareciam ameaçadoras, como iminentes gigantes tentando bater nela enquanto levavam Devin O'Leary para a delegacia.

***

Talvez foi por causa do O'Leary chorando por todo o caminho de casa até a delegacia... ou talvez fosse o relógio biológico. Fosse o que fosse, Mackenzie descobriu que não podia mais lutar contra o cansaço. Ela sentiu a fadiga acelerando quando se sentou em frente a O'Leary na sala de interrogatório. Embora tivesse estado nesta sala há menos de sete horas depois de interrogar Samuel Netti, parecia um novo lugar.

—Na sua varanda, você disse que tinha feito algo ruim, disse Mackenzie. E então, você desmoronou. Eu sei que isto não é uma igreja e estou muito longe de ser uma pastora ou um padre, mas há algo que você quer nos dizer? Se você esconder isso, vamos achar de qualquer maneira. Você nos deu muitas razões para ficarmos desconfiados em sua varanda.

—Está bem, disse ele. Ele parecia muito triste, mas já não estava chorando. Sua explosão antes o esgotou. Ele parecia vazio e exaurido.

Ela poderia dizer que O'Leary era um homem derrotado. Ela supôs que ele já estava farto de tudo. Não podia imaginar como era receber a notícia de que você tem uma doença que pode ser fatal.

—Minha esposa e eu estávamos praticando o swing há anos. Eu nunca gostei de pornografia, então quando as coisas começaram a ficar frias no quarto, optamos pelo swing. Eu sei que isso parece estranho e estúpido, mas ajudou. Sei lá. Nunca me importei com a psicologia da coisa. Mas no ano passado, nós fizemos swing com este casal e... Eu não sei. A esposa do cara e eu, tipo, rolou um clima. Começamos a nos ver regularmente. Tivemos um caso... não era como no swing, sabe.

—E quem era esse outro casal? Perguntou Mackenzie, pensando se poderia ser um dos quatro casais mortos que ela tinha visto recentemente.

 

—Os Bryants, disse ele. Eu queria que... cara, eu só queria que as coisas pudessem ter sido diferentes. É tudo uma bagunça. Eu descobri há três meses que eu não era o único cara com quem ela saía.

E nisso, eu comecei a ficar doente. Eu peguei o diagnóstico há três semanas. Eu contei tudo para a minha esposa. Sobre o HIV. Sobre o caso. Tudo. Estou com tanto medo de ter passado isso para Janelle, sabe? Mas... merda. Eu com medo pra caralho, sabe? Assustado. Louco. Então, eu——

Ele começou a se perder e embora Mackenzie já soubesse onde ele queria chegar, sua tendência para tentar encontrar o melhor das pessoas não veio à tona. Mas as palavras que ele falou em seguida confirmaram tudo.

Entre soluços, ele continuou. Mackenzie estava sozinha na sala com ele, mas ela poderia muito bem sentir a tensão dentro da sala de observação com o Ellington e o Rodriguez ouvindo tudo.

—Eu dormi com duas outras mulheres depois do diagnóstico. Eu era... como um monstro. Eu queria espalhar essa doença. Parecia que eu estava fazendo justiça... parecia... com o mundo inteiro.

Meu Deus, pensou Mackenzie.

Ela sentiu-se tremendo de raiva e com algo que parecia tristeza.

Ela se levantou de sua cadeira e de repente era quase impossível olhar para Devin O'Leary. Ela fechou os punhos de suas mãos, apertando-os para suprimir o tremor. Ela engoliu respostas incisivas e acusações que seriam totalmente antiéticas. Estava cansada, estava chateada, e tudo parecia que estava se esvaindo.

Você vai ter um ataque de pânico se você não sair desta sala agora.

Sem dizer uma palavra para ele, Mackenzie saiu da sala de interrogatório tão rapidamente quanto pôde, sem deixar transparecer que estava incomodada. Ela pulou a sala de observação completamente e foi para o pequeno escritório em que estava trabalhando. Ela ficou ali na escuridão e respirou fundo várias vezes.

O que há de errado com as pessoas?

Não era a primeira vez que ela se perguntava isso. Ficou centrada sobre esse questionamento. Ela pensou no homem sentado na sala de interrogatório e se perguntou em que ponto de sua vida as coisas começaram a dar errado. Infância? Colegial? Faculdade?

 

Ela ouviu passos atrás dela. Ela se virou para ver o Ellington cautelosamente se aproximando dela. Ele olhou para ela com mais interesse do que ele já tinha mostrado antes. Isso a fez querer abraçá-lo, ficar nos braços dele em silêncio até que seu corpo caísse no sono.

—Mackenzie, disse ele, com sua voz suave. O que está acontecendo?

Ela apertou as mãos, não querendo que ele a visse tremer. É muito, disse ela. A mãe de Harrison morrendo, essa porra de caso... com o crápula no andar de cima. E nesse caso. Foi demais——

—Muito pra mim.

—Ela balançou a cabeça. Apenas me dê um segundo. Eu estarei de volta daqui a pouco. Eu precisava me afastar do O'Leary por alguns minutos ou perderia o controle.

—Você precisa de mais do que alguns minutos, disse Ellington. Eu sei que uma noite juntos não me faz um especialista em Mackenzie White, mas você precisa dormir. Ou, pelo menos, descansar.

—Você também não descansou, ela ressaltou.

—Eu tive uma boa noite de sono na noite anterior a viagem, disse ele. E você está assim há três dias. Volte para o hotel. Deite e feche os olhos. Você tem a minha palavra de que vou lhe acordar às oito.

Olhou para o relógio e viu que já eram 03:05.

—Nem pense nisso, disse ele. O'Leary é um monstro com certeza, mas ele não é o assassino. E ele não consegue nos levar ao assassino. Se queremos um dia produtivo amanhã, você precisa descansar.

Ela balançou a cabeça e disse, —Tudo bem. Mas me chama às sete, e não às oito.

—Durona, disse ele.

Ela caminhou em direção a porta e passou por ele. Ela queria beijá-lo, mas também não queria parecer uma donzela vulnerável em perigo que precisava de um homem, sempre que estava se sentindo tristinha.

—Precisamos dos nomes das mulheres com quem ele dormiu desde então, disse ela ao sair. Elas precisam saber.

—Rodriguez está fazendo isso agora, disse ele. Ele parou por um momento e, em seguida, escolhendo cada palavra cuidadosamente, acrescentou: —Você quer que eu vá com você? Você precisa de alguém com você lá?

A ideia era muito agradável, mas ela balançou a cabeça. Não, obrigada.

Ele concordou e observou-a saindo.

Não há nenhum problema em precisar de alguém, ela pensou quando passou pelos corredores e pelo lobby principal. Porque você faz isso? Por que você se recusa a procurar a ajuda de outras pessoas?

Por um momento, ela pensou na cama ensanguentada de seu pai, o seu lugar final de descanso antes de ser enterrado. Ela também pensou na sua mãe ausente que não tinha estado ao lado dela quando precisava.

E lá se vai a minha resposta fácil, ela pensou.

Ela saiu na quietude das primeiras horas da manhã. Não sabia se já havia se sentido tão perdida em sua vida—e isso tinha muito pouco a ver com o caso.

Ela entrou em seu carro e quando deu vida ao motor, olhou para a noite. O assassino estava lá fora, em algum lugar, ocupando essa mesma escuridão.

Em sua mente, viu cada cena do crime e como as mãos de um parceiro sempre estaria ligeiramente tocando o outro em poses arranjadas. Havia algo ali, mas não conseguia entender o que era. Isso permaneceu em sua mente enquanto ela se dirigia para o hotel, mas desapareceu quando o magnetismo do sono ficou mais forte com o passar de cada quarteirão.