Antes Que Ele Precise
Capítulo Dezessete
Mackenzie fez algumas prisões muito estranhas no passado. Mas quando se aproximaram de Tidal Hills pela segunda vez, ela tentou imaginar como poderia ser a prisão de um homem enquanto ele orquestra uma orgia esquisita com cara de ritual. O conceito daquilo não a convencia, o que a fez se sentir muito grata quando chegaram no local e antes de qualquer outra coisa acontecer.
Como antes, a porta da frente estava trancada. Não perdeu tempo, batendo nela com o punho. Ela podia ouvir múltiplas vozes murmurando do outro lado. Ela podia até mesmo ver algumas pessoas olhando em direção ao vidro ao longo da parte superior— umas poucas mulheres de meia-idade e um homem mais jovem. Eles pareciam confusos, talvez até um pouco preocupados.
Finalmente, depois de ter batido na porta por cerca de 15 segundo, alguém chegou. Era o mesmo homem magro de antes. Ele parecia irritado, mas ela também viu o medo em seus olhos. Esse medo não estava lá a primeira vez que ela o viu. Era o tipo de expressão muito reveladora. Apenas vê-lo quando ele abriu a porta mostrou para ela que alguém—talvez não ele, mas certamente alguém que ele conhecia, era culpado de alguma coisa.
Ele abriu a porta e fez o seu melhor para aparecer desafiador. Sinto muito, Agentes. Nós estamos no meio de uma reunião aqui e——
—Do que eu posso ver daqui, disse Mackenzie, todo mundo ainda está vestido. Então, eu farei o meu melhor para entrar e sair antes de qualquer coisa muito nojenta acontecer.
—Mas você não pode simplesmente——
Mackenzie avançou, deixando claro que se ela tivesse que passar por cima dele, ela passaria. Ele deu um passo para o lado, permitindo que ambos entrassem. Eles entraram na grande sala aberta em que tinham estado menos de uma hora e meia atrás. Mackenzie fez uma contagem rápida na sala enquanto ela caminhava em direção à frente, onde Samuel estava de pé sobre uma plataforma elevada. Ela contou vinte e duas pessoas ao todo. A maioria das mulheres claramente não usavam sutiãs sob suas blusas; ela supôs que a maioria também estava sem calcinha por baixo de seus shorts e saias.
Ela andou metade do caminho por entre as pessoas antes de Samuel começar a falar do palco.
—Desculpe, amigos, disse ele, desculpando-se com a multidão reunida. Parece que algumas pessoas simplesmente não têm nenhuma consideração pela privacidade alheia.
Mackenzie sorriu para ele quando chegou ao pequeno palco. Ela manteve a voz baixa para que só ele pudesse ouvi-la, fazendo o seu melhor para ser o mais profissional possível.
—E parece que algumas pessoas, disse ela, —não têm nenhuma consideração em ser verdadeiras com Agentes federais.
Samuel deu à sua plateia um sorriso de desculpas do tipo fazer o quê e, em seguida, inclinou-se para mais perto de Mackenzie. Agente White, eu não sei do que você está falando, mas posso garantir para você que este não é o momento nem o lugar.
—Ah, eu tenho certeza que esta sala cheia pessoas maiores de idade é plenamente capaz de transar uns com os outros sem que você os observe, disse ela. Além disso... se você tiver provas de que o Chino Castillo enviou e-mails para você ou ligou, eu irei embora. Mais do que isso, eu vou pedir desculpas aos seus amigos daqui e assumirei que foi um erro meu.
Ela leu seu rosto enquanto seus olhos corriam de um lado para o outro, procurando uma maneira de escapar. Quando ele finalmente respondeu, foi a gota d’água, a prova de culpa que ela precisava.
—E se eu não lhe mostrar isso? Perguntou.
—Então, você será levado para prestar contas ao FBI. Se você não fizer muito escândalo, eu talvez permitirei que você tenha a dignidade de não usar algemas na frente de seus seguidores excitados.
—Eu não tenho a prova aqui comigo.
—Nem Chino Castillo, ela respondeu. A única diferença é que eu olhei o telefone dele e ele estava mais do que disposto a me mostrar seus registros telefônicos para provar o que me disse. Ele me encorajou a examinar o celular, na verdade. Então... Eu preciso de uma prova.
—Eu. Não. Tenho.
Mackenzie teve que engolir um sorriso. Quase se sentiu mal com a facilidade com que ela o deixou irritado. Olhou para Ellington e viu que ele estava de pé no fundo da sala com o porteiro magro.
—Então, eu tenho que pedir para você vir com a gente, disse ela.
—Isso não vai acontecer, disse ele. Ele ainda estava sussurrando, mas estava ficando cada vez mais agitado.
—Se você não descer deste palco agora, eu terei que acompanhá-lo, eu mesma. E então, o que todas essas mulheres ávidas pensarão? Vendo você ser maltratado por uma mulher baixinha qualquer?
—Você não se atrev——
Ele não foi capaz de terminar a palavra atreveria. Mackenzie rapidamente agarrou seu braço esquerdo e o balançou de leve. Quando ele perdeu o equilíbrio, ela então, o puxou e torceu o braço dele para cima. Todo o movimento levou menos de dois segundos. Quando acabou, Samuel estava no chão com Mackenzie ajoelhada em cima dele, com um dos joelhos em suas costas.
Algumas pessoas vieram correndo até a frente para ajudar o guru.
De costas, Ellington rugiu: —FBI! Qualquer pessoa que der mais um passo em direção à minha parceira passará algum tempo com o seu destemido líder ali na parte de trás do nosso carro a caminho da sala de interrogatório.
Todo mundo parou imediatamente, olhando curiosos e interessados.
Mackenzie colocou Samuel de pé e imediatamente começou a empurrá-lo para a frente. Mackenzie viu olhares de choque e tristeza em alguns dos rostos e realmente se sentiu mal por eles. Que tipo de mentira o Samuel tinha dito a eles? Como, exatamente, ele os manipulou?
Talvez eles gostem disso, ela pensou quando o empurrou através da multidão, em direção ao fundo da sala. E, talvez, Samuel sabia disso... E explorava isso.
Seja qual for a razão, ela o levou para fora do edifício em silêncio absoluto enquanto as pessoas atordoadas presentes observavam.
***
Quando o dia chegava mais perto da meia-noite, Samuel foi colocado em uma sala de interrogatório. Enquanto Mackenzie e Ellington trabalhavam nos detalhes de sua visita a Tidal Hills com Rodriguez e outros membros do departamento, uma pequena equipe tinha a tarefa de investigar o passado de Samuel.
Quando o histórico ficou pronto, havia muita coisa para se relatar. Várias páginas de informações foram entregues a Mackenzie, enquanto ela e Ellington tomavam um copo de café tarde da noite. Eles verificavam juntos o relatório quando começou a sentir os primeiros sinais de cansaço pairando sobre ela. Estava mais do que acostumada a trabalhar durante longos dias e tinha aprendido a combater o cansaço por um tempo. Sabia que se necessário fosse ela poderia continuar por mais seis a oito horas, sem parar.
O breve relatório que tinha sido entregue contava uma história rápida, mas ainda assim lasciva. O homem que se auto rotula um —guru— era Samuel Netti. Ele tinha cinquenta e três anos de idade e era um residente de Miami ou áreas próximas há vinte anos ou mais. Antes, ele tinha vivido em Houston, Texas, onde tinha começou a acumular passagens complicadas. Ele foi preso duas vezes por ser pego com prostitutas. Ele também tinha uma única denúncia doméstica contra ele, movida por uma mulher com quem ele se envolveu por um período de quatro meses.
Ele, então, veio para Miami, quando foi auditado pelo IRS (Imposto de Renda). Ele não teve problemas com o IRS. Samuel tinha sido objeto de especulação em um caso envolvendo uma pequena rede de prostituição. Todas as mulheres questionadas, no entanto, deram provas suficientes para livrá-lo. Comentários sobre o seu envolvimento em um tipo de spa exclusivo ou clube rodaram a cidade, mas não foram levados a sério.
—Soa como um indivíduo de classe, disse Ellington, levantando-se da mesa. Ele tomou seu café e girou a cabeça em torno de seu pescoço, soltando os músculos.
—Sim, disse Mackenzie. Um real vencedor.
Eles deixaram a sala de descanso e informaram Rodriguez que eles estavam prontos para questionar Samuel Netti. Rodriguez, que também parecia muito cansado, caminhou com eles até a sala e deu-lhes o controle total da situação.
—Eu estarei assistindo com alguns dos meus homens, disse ele. Deixe-nos saber o que podemos fazer para ajudar.
Quando ele estava fora do alcance da voz e indo para a sala de observação, Ellington disse:
—Você quer um policial bonzinho ou um policial mau?
—Ambos, disse ela, e entraram.
Samuel olhou para eles com desdém. O medo e a incerteza não estavam mais em seus olhos. Ele, aparentemente, tinha aceito a sua posição e tentava ao máximo manter a calma.
Bom, ela pensou. Eu gostaria de estar longe desse cara o mais rápido possível.
Ela normalmente não gostava de mentir para os suspeitos; ela sentia que isso enfraquecia seu argumento, especialmente se o suspeito fosse capaz de fazê-la tropeçar. Ainda assim, neste caso, ela tinha certeza de que Samuel havia mentido para eles e, consequentemente, Chino Castillo havia dito a verdade.
—O negócio é o seguinte, disse ela. Os registros do telefone estão aí. Não há ligações feitas do telefone de Chino Castillo para o seu telefone celular. Com os e-mails é a mesma coisa. Então me diga o motivo de ter mentido para nós sobre isso.
A preocupação que atravessou seu rosto disse para Mackenzie que suas suspeitas estavam mortas. Samuel suspirou e olhou para os dois com uma expressão resignada.
—Porque eu queria que vocês fossem embora, disse ele. Achei que vocês fossem apenas mais um par de policiais que havia descoberto o que fazemos no Tidal Hills e que queria nos investigar.
—Isso se chama sentir-se culpado, disse Mackenzie. Isso e o seu passado sórdido em Houston mantêm você paranoico, eu suponho. Mas você poderia ser inteligente o suficiente para não mentir para Agentes federais. Além disso, mesmo quando você soube por que estávamos lá, você decidiu mentir. Por quê? Será que você tem algo contra o Chino Castillo?
—Claro. Ele foi duas vezes, ficou de olho em tudo, e depois foi embora. Eu tenho uma política muito forte de proibição de voyeurs. E é isso que ele estava fazendo. Felizmente, essa foi a única vez que tal coisa ocorreu no Tidal Hills. Ele sair assim, depois de ter visto o que se passa lá dentro... Isso me deixa muito desconfortável.
—E o que rola lá dentro? Perguntou Ellington. Pelo que Castillo nos disse, há pouca espiritualidade e muita merda.
Samuel, na verdade, parecia ter tomado um tapa forte no rosto. A obscenidade, aparentemente, pegou Samuel de surpresa, quase deixando ele com nojo da situação.
—Isso não é verdade. É——
—Não, eu acho que é, disse Mackenzie. Esse negócio me faz mal, mas não há tecnicamente nada de ilegal nisso. Claro, não tenho ideia de como você gasta o dinheiro que as pessoas pagam. Embora, eu tenha certeza de que pode valer a pena investigar isso.
—Olha, o que você quer de mim? Perguntou Samuel.
—Eu preciso saber sobre os Kurtzes, disse Mackenzie.
—A este respeito, eu não estava mentindo. Eles não estiveram comigo por muito tempo e quando eles saíram, foi de forma amigável. Nenhuma hostilidade. Pelo que me lembro, eles foram muito legais. Muito gentis e divertidos, do que me lembro.
—E há más vibrações com qualquer outra pessoa? Perguntou Mackenzie.
—Não. Se eles fizeram isso, aconteceu nos bastidores e eu nunca soube a respeito.
Mackenzie estava andando até então. Ela, finalmente, sentou-se em frente à mesma em que Samuel estava sentado.
—Você tem certeza disso? —Mackenzie perguntou, embora ela tivesse certeza de que ele estava dizendo a verdade. Parece-me que um homem tão popular quanto você, dentro de um grupo tão pequeno, saberia sobre quase tudo.
—Sim, eu juro, disse Samuel. Ela podia ouvir a súplica em sua voz. Ele estava aparentemente sentindo que ela e Ellington já estavam sem argumentos para o seu interrogatório.
—E sobre as audições? Perguntou Mackenzie. Você já permitiu que uma mulher fizesse um teste para entrar no seu clubinho?
—Audição?
Mackenzie ficou de pé. Sabia que o caminho escolhido não tinha nada a ver com o caso. Mas Deus, ela odiava aquele homem.
Você conscientemente mentiu quando um Agente do FBI lhe fez uma pergunta, disse ela. Há acusações criminais ligadas a isso. Normalmente, você pode levar uma multa ou ser algemado.
Mas com os seus antecedentes——
—Olhe. Eu não sei nada sobre esses Kurtzes, disse ele. Eu juro. Se você quiser, eu posso perguntar a alguns dos outros membros, mas eu sinceramente não sei.
Olhou para ele, tentando entender se ele estava sendo honesto. Ela tinha certeza de que ele estava, mas ela também sentiu o ressentimento e a raiva em relação a ele começando a queimar seu coração. Ela virou de costas para ele e andou até a porta.
—Você está bem? Ellington perguntou quando passou por ele.
—Só preciso de um segundo, disse ela.
Sem outra palavra ou qualquer explicação, ela deixou a sala de interrogatório. Estava entre as portas da sala de interrogatório e da sala de observação, recostando-se contra a parede de concreto.
Era raro que um suspeito chegasse até ela por tais razões obscuras. Samuel Netti não tinha machucado ela ou atingido alguém que ela conhecia. Era simplesmente um personagem—um homem que era hábil em manipular as mulheres e utilizar a natureza da sexualidade humana a seu favor.
Tudo isso é verdade, pensou. Mas há outra coisa aí, Mac. Você sabe. Você sente... Então, que diabos é isso?
Na visão da sua mente, viu as camas dos casais assassinados. Ela pensou sobre alguém que os casais conheciam entrando na casa e matando-os.
Assim como com o pai, ela pensou.
E foi assim. Em meio a tudo isso, Samuel Netti normalmente não iria incomodá-la mais do que qualquer outro depravado. Mas o fato de que este caso estava ecoando o caso de seu pai lhe animou até mais do que ela queria admitir.
Segure a onda, ela disse a si mesma. Este é apenas um caso como qualquer outro e, a partir de agora, você está às cegas.
Ela respirou profundamente uma série de vezes e voltou para a porta. Ao fazer isso, a porta para a sala de observação se abriu. Rodriguez veio correndo com seu celular colado ao ouvido. Ele parecia muito alarmado, quase animado.
—Agente White, disse ele, sua voz beirando a preocupação. Houve outro assassinato.
—Um casal?
—Sim.
—Onde?
—Onde desta vez? Rodriguez perguntou a quem estava do outro lado da linha. Depois de alguns segundos, e um olhar muito confuso, Rodriguez disse: —Obrigado, em seguida, terminou a chamada.
—Onde? Perguntou Mackenzie.
—Bem, é estranho pra caramba..., mas esses corpos estãoem um navio de cruzeiro.
—Ele está na água ou atracado?’
—Na água. Mas está voltando para a porto enquanto falamos.
—Então, os assassinatos ocorreram enquanto ele estava no mar?
—Não há como saber, disse Rodriguez. Mas sabemos que esses corpos estão frescos. Eles provavelmente foram mortos nas últimas horas.
De repente, Mackenzie não sentiu os dedos rastejantes do esgotamento rastejando sobre ela. Com um recente assassinato e uma área restrita, neste caso, ficou muito mais acessível.
Abriu a porta da sala de interrogatório, ignorando completamente Samuel Netti. Os olhos dela encontraram os de Ellington e viu que ele estava percebendo a sua excitação.
—Vamos lá, disse ela. Parece que temos que embarcar em um navio.