Belas adormecidas
Parte dois: Vou dormir quando morrer
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
— Venha dar uma volta comigo.
Elas caminharam pelas ruínas da calçada, pisando por cima de fissuras cheias de mato crescendo, contornando asfalto quebrado. O parque em frente aos
destroços do Prédio Municipal foi recuperado, podado e limpo. Ali, o único sinal da passagem do tempo era a estátua caída de um dignitário falecido. Um galho enorme de olmo, caído em uma tempestade, sem dúvida, o derrubou do pedestal. O galho foi arrastado para longe e cortado, mas o dignitário era tão pesado que ninguém tinha feito nada com ele ainda. Ele caiu em um ângulo agudo da base, a cartola entrando no chão e as botas viradas para o céu; Lila viu garotinhas correrem até ele para usar as costas como escorrega, rindo muito.
Janice disse:
— Você acha que o filho da puta do marido dela botou fogo nela com casulo e tudo.
Lila não respondeu diretamente.
— Alguém comentou que tinha se sentido tonta? Com náuseas? Uma sensação que vem de repente e some depois de umas horas? — Lila tinha sentido isso algumas vezes. Rita Coombs mencionou uma experiência parecida; a sra.
Ransom e Molly também.
— Sim — disse Janice. — Quase todo mundo que conheço mencionou isso.
Como se tivessem sido giradas sem terem sido giradas. Não sei se você conhece Nadine Hicks, esposa do meu colega da prisão…
— Já vi em alguns jantares da comunidade — disse Lila, e franziu o nariz.
— É, ela quase sempre ia. E ninguém sentia falta quando não ia, se você me entende. Ela alega ter essa vertigem o tempo todo.
— Certo, fique com isso em mente. Agora pense nos incêndios em massa.
Você sabe sobre isso?
— Não pessoalmente. Sou como você, vim relativamente cedo. Mas ouvi as recém-chegadas falarem de terem visto no noticiário: homens botando fogo em mulheres nos casulos.
— Isso mesmo — disse Lila.
— Ah — respondeu Janice, entendendo. — Ah, merda.
— “Ah, merda” é a melhor coisa a dizer mesmo. No começo eu pensei, torci para que talvez fosse uma interpretação errada por parte das recém-chegadas.
Elas foram privadas de sono, claro, e estavam perturbadas, e talvez tivessem visto alguma coisa na televisão que acharam que eram casulos sendo queimados, mas na verdade eram outra coisa. — Lila inspirou fundo o ar de fim de outono.
Estava tão frio e limpo que fazia você se sentir mais alto. Sem cheiro de escapamento. Sem caminhões de carvão. — Esse instinto, o de duvidar do que as mulheres dizem, ele sempre existe. O de procurar um motivo para não acreditar na palavra delas. Os homens fazem isso… mas nós também fazemos. Eu faço.
— Você é rígida demais consigo mesma.
— E eu vi que ia acontecer. Conversei sobre isso com Terry Coombs três ou quatro horas antes de adormecer, no mundo antigo. As mulheres reagiam quando os casulos eram violados. Eram perigosas. Lutavam. Matavam. Não me surpreende que um monte de homens possa ter visto a situação como oportunidade ou precaução, ou como o pretexto que sempre quiseram para botar fogo em algumas pessoas.
Janice deu um sorriso torto.
— E eu sou acusada de ter uma visão pessimista da raça humana.
— Alguém botou fogo em Essie, Janice. No nosso mundo. Sei lá quem. E
alguém botou fogo em Candy Meshaum. Foi o marido dela, chateado porque o saco de pancadas dormiu e o deixou na mão? Ele seria a primeira pessoa que eu interrogaria se estivesse lá.
Lila se sentou na estátua caída.
— E a tontura? Tenho quase certeza de que também tem a ver com o que está acontecendo lá. Alguém nos deslocando. Nos levando de um lado para outro como se fôssemos móveis. Pouco antes de Essie ser queimada, o humor dela estava ruim. Acho que talvez alguém tenha movido ela um pouco antes de botar fogo, e que foi a vertigem que deixou ela chateada.
— Tenho quase certeza de que sua bunda está apoiada no primeiro prefeito de Dooling.
— Ele aguenta. Alguém lavava a cueca dele. Este é nosso novo banco honorário. — Lila percebeu que estava furiosa. O que Essie ou Candy Meshaum tinham feito além de finalmente encontrar alguns meses de felicidade longe das vidas podres que tinham antes? Felicidade que tinha custado o preço de algumas bonecas novas e um depósito convertido em casa, sem janelas.
E homens as queimaram. Ela tinha certeza. Era assim que a história delas terminava. Quando se morria lá, se morria ali também. Os homens as arrancaram do mundo, de dois mundos. Homens. Parecia não haver como fugir
deles.
Janice devia ter ouvido os pensamentos dela… ou, mais provavelmente, a expressão no rosto.
— Meu marido Archie era um cara legal. Apoiava tudo que eu fazia.
— É, mas ele morreu jovem. Você talvez não achasse isso se ele estivesse vivo.
— Era uma coisa horrível de se dizer, mas Lila não se arrependeu. Por algum motivo, um dito amish antigo ocorreu a ela: BEIJOS NÃO DURAM, MAS SABER
COZINHAR, SIM. Dava para dizer isso sobre muitas das coisas que acompanhavam o estado civil casado. Honestidade. Respeito. Até uma simples gentileza.
Coates não deu sinal de ter se ofendido.
— Clint era um marido tão ruim assim?
— Era melhor do que o de Candy Meshaum.
— Padrão baixo — disse Janice. — Deixa pra lá. Vou ficar sentada aqui alimentando a lembrança dourada do meu marido, que teve a decência de pular fora antes de virar um merda.
Lila deixou a cabeça pender para trás.
— Ah, porra. Acho que mereci isso. — Era mais um dia de sol, mas havia nuvens cinzentas ao norte, quilômetros delas.
— E então? Ele era um marido tão ruim assim?
— Não. Clint era um bom marido. E bom pai. Fazia a parte dele. Me amava.
Eu nunca duvidei disso. Mas teve muita coisa que ele nunca me contou. Coisas que eu não devia precisar descobrir de formas que me fizeram me sentir péssima. Clint gostava de falar sobre sinceridade e apoio, falava até não poder mais, mas, abaixo da superfície, ele era um homem metido a macho, como qualquer outro. Acho que é pior do que ouvir mentiras. Uma mentira indica certo grau de respeito. Tenho quase certeza de que ele estava carregando um fardo danado e achava que eu era delicada demais para ajudar. Eu preferia ouvir uma mentira do que ser vítima de condescendência.
— O que você quer dizer com fardo…?
— Ele teve uma infância difícil. Acho que lutou para sair do buraco, e estou falando de forma literal. Já vi como ele esfrega os dedos quando está preocupado ou chateado. Mas ele não fala nunca. Já perguntei, e ele banca o homem macho.
— Lila olhou para Coates e notou certa inquietação na expressão dela.
— Você sabe o que eu quero dizer, não sabe? Você convivia com ele.
— Acho que sei. Clint tem… outro lado. Um lado mais duro. Mais raivoso. Só cheguei a ver claramente há pouco tempo.
— Me deixa puta da vida. Mas sabe o que é pior? Me deixou me sentindo meio… desanimada.
Janice estava usando um galho para cutucar lama dura na cara da estátua.
— Dá para entender.
Os carrinhos de golfe começaram a se afastar, seguidos pelos trailers pequenos e cobertos por lona, cheios de suprimentos. O grupo sumiu de vista e reapareceu alguns minutos depois, no ponto em que a estrada subia até uma altura maior antes de desaparecer de vez.
Lila e Janice mudaram de assunto: os consertos constantes nas casas na rua Smith; os dois lindos cavalos que tinham sido capturados e ensinados (ou talvez re-ensinados) a carregar gente; e a maravilha que Magda Dubcek e as duas antigas prisioneiras alegavam estar quase conseguindo realizar. Se elas conseguissem mais energia, mais painéis solares, água potável corrente parecia uma possibilidade real. Encanamento em casa, o sonho americano.
Elas só pararam de conversar perto do crepúsculo, e nem uma vez o assunto de Clint, de Jared, de Archie, do marido de Candy Meshaum, de Jesus Cristo e nem de nenhum outro homem voltou para incomodar a conversa.
3
Elas não conversaram sobre Evie, mas Lila não a tinha esquecido. Não tinha esquecido o momento sugestivo da aparição de Eva Black em Dooling, nem a conversa estranha e cheia de conhecimentos, nem das teias na floresta perto do trailer de Truman Mayweather. Ela não tinha esquecido aonde o rastro a tinha levado, até a incrível Árvore, subindo ao céu sobre raízes incontáveis e troncos entrelaçados. Quanto aos animais que apareceram em volta da árvore, o tigre branco, a cobra, o pavão e a raposa, Lila também se lembrava deles.
Sua imagem mental das raízes espiraladas da árvore, como os cadarços dos tênis de um gigante, o jeito como se retorciam em volta umas das outras, voltava com frequência. Era tão perfeito, tão majestoso, seu plano de existência tão
certo.
Evie tinha vindo da Árvore? Ou a Árvore tinha vindo de Evie? E as mulheres de Nosso Lugar: elas eram sonhadoras ou eram o sonho?
4
Uma chuva gelada caiu em Nosso Lugar durante quarenta e oito horas, quebrando galhos de árvores, fazendo água suja e gelada entrar por buracos em telhados, enchendo as ruas e calçadas com poças. Lila, deitada na barraca, botava o livro que estava lendo de lado de vez em quando para chutar as paredes e quebrar a camada gelada que se formava no vinil. O som era de vidro quebrando.
Antes, ela tinha trocado os livros de papel por um leitor eletrônico, sem nem desconfiar que o mundo se romperia e tornaria um aparelho daqueles obsoleto.
Porém, ainda havia livros na casa dela, e alguns não tinham mofado. Quando terminou o que estava lendo, ela se arriscou para fora da barraca no jardim dos destroços de sua casa. Era deprimente demais, com lembranças demais do filho e do marido, para Lila imaginar morar nela, mas não conseguiu se afastar muito. As linhas de chuva escorrendo pelas paredes internas brilhavam no raio da lanterna à manivela. A chuva soava como um oceano sendo agitado. De uma prateleira na parte de trás da sala, Lila pegou um livro de mistério úmido e começou a voltar pelo caminho que tinha feito. O raio bateu em uma folha estranha, da cor de pergaminho, caída no assento podre de um banco ao lado da bancada da cozinha. Lila a pegou. Era um bilhete de Anton: as informações sobre o “cara das árvores” que resolveria o problema no quintal.
Ela observou o bilhete por muito tempo, perplexa com a proximidade repentina daquela outra vida (Sua vida real? Sua vida anterior?), que apareceu como uma criança correndo por entre dois carros e entrando no meio do tráfego.
5
O grupo de exploração tinha partido havia uma semana quando Celia Frode voltou a pé, coberta de lama da cabeça aos pés. Ela estava sozinha.
6
Celia disse que, depois do Instituto Penal de Dooling, na direção da cidade vizinha de Maylock, as estradas estavam intransponíveis; cada árvore que elas tiravam do caminho só permitia que andassem alguns metros até chegarem à seguinte. Foi mais fácil deixar os carrinhos para trás e ir andando.
Não tinha ninguém em Maylock quando elas chegaram lá, nenhum sinal de vida recente. Os prédios e casas estavam como os de Dooling, tomados de vegetação, em estado melhor ou pior, alguns incendiados, e a estrada acima do riacho Dorr’s Hollow, que agora era um rio caudaloso com carros afundados no lugar de bancos de areia, tinha desmoronado. Elas deviam ter dado meia-volta nessa hora, Celia admitiu. Elas conseguiram suprimentos úteis no mercado e em outras lojas de Maylock. Porém, começaram a conversar sobre o cinema na cidadezinha de Eagle, que ficava a pouco mais de quinze quilômetros, e como seria ótimo para as crianças se elas voltassem com um projetor e rolos de filme.
Magda garantiu que o gerador grande aguentaria uma tarefa dessas.
— O filme novo de Star Wars ainda estava passando lá — disse Celia, e acrescentou com ironia: — Sabe qual é, xerife, o que tem a garota como heroína?
Lila não corrigiu quando ela disse “xerife”. Acabou sendo incrivelmente difícil deixar de ser policial.
— Continue, Celia.
O grupo explorador atravessou o riacho Dorr’s Hollow por uma ponte que ainda estava intacta e pegou uma estrada pela montanha chamada Lion Head Way, que parecia oferecer um atalho até Eagle. O mapa que elas estavam usando, obtido nos restos da Biblioteca Pública de Dooling, mostrava uma estrada velha e sem nome que passava perto do topo da montanha. A estrada podia levá-las até a interestadual, e de lá o progresso seria fácil. Porém, o mapa estava ultrapassado.
A Lion Head Way agora terminava em um platô, onde ficava aquele lugar temeroso de encarceramento masculino chamado Prisão Lion Head. A estrada que elas esperavam encontrar tinha sido destruída na construção da prisão.
Como era final do dia, em vez de tentar voltar pelo declive estreito e destruído da montanha no escuro, elas decidiram acampar na prisão e partir de manhã.
Lila estava familiarizada com a Prisão Lion Head; era uma instituição de segurança máxima onde ela previa que os irmãos Griner passariam os próximos
vinte e cinco anos, mais ou menos.
Janice Coates, também ouvindo o relato de Celia, deu um breve veredito da prisão.
— Aquele lugar. Horrível.
A Head, como era chamada pelos homens presos lá, tinha aparecido na imprensa muitas vezes antes da Aurora, uma história rara de ocupação de terra de sucesso no local de remoção de um topo de montanha. Depois que a Ulysses Energy Solutions terminou de desmatar e explodir o topo da montanha para minerar o carvão embaixo, a empresa “restaurou” o local, reinserindo os destroços e aplanando a superfície. A ideia promovida era que, em vez de ver os topos de montanhas como “destruídos”, o público deveria vê-los como tendo sido “abertos”. Terreno recém-aplainado era terra nova para construção. Apesar de a maioria da população do estado apoiar a indústria de carvão, poucos deixavam de perceber como aquilo tudo era baboseira política. Aqueles novos platôs maravilhosamente úteis costumavam ficar no meio do nada e muitas vezes vinham acompanhados de depósitos de lama residual ou lagos de contenção de resíduos químicos, que eram o tipo de vizinho que ninguém queria.
No entanto, uma prisão era particularmente adequada a uma reocupação de terra assim. E ninguém se preocupava particularmente com os possíveis perigos ambientais que os residentes de lá pudessem ter que enfrentar. Foi assim que a montanha Lion Head se tornou o local da Prisão de Segurança Máxima Lion Head.
O portão da prisão, disse Celia, estava aberto, e as portas de entrada também.
Ela, Millie, Nell Seeger e as outras entraram. Boa parte do grupo de exploração de Nosso Lugar consistia das detentas recém-libertadas e funcionárias da prisão, e elas estavam curiosas para saber como a outra metade vivia. Considerando tudo, era bem confortável. Por mais que fedesse por ter ficado fechada e apesar de haver fissuras no piso e nas paredes, o local estava seco; e os equipamentos nas celas pareciam novos.
— Que déjà-vu — admitiu Celia —, mas também é meio engraçado, sabe.
A última noite delas foi calma. De manhã, Celia desceu pela montanha para procurar uma trilha que pudesse diminuir a caminhada e poupá-las de ter que descer toda a rota mais longa e cansativa. Para a surpresa de Celia, ela recebeu
uma ligação no walkie-talkie.
— Celia! A gente acha que está vendo uma pessoa! — Era Nell.
— O quê? — respondeu Celia. — Como é?
— Nós estamos dentro! Dentro da prisão! As janelas na versão deles da Broadway estão embaçadas, mas tem uma mulher em uma das celas de confinamento solitário! Ela está deitada embaixo de um cobertor amarelo!
Parece que está se mexendo! Millie está tentando descobrir um jeito de fazer a porta abrir sem energia, pra… — Foi nessa hora que a transmissão terminou.
Um tremor forte na terra assustou Celia. Ela esticou as mãos para tentar se equilibrar. O walkie-talkie de brinquedo voou de sua mão e se espatifou no chão.
Ao voltar para o começo da estrada, com os pulmões ardendo e as pernas tremendo, Celia passou pelo portão da prisão. Tinha poeira no ar, como se fosse neve; ela precisou cobrir a boca para não engasgar. O que viu foi difícil de assimilar e ainda mais difícil de aceitar. O terreno estava destruído, com fendas parecidas com um pós-terremoto. Terra deslocada pairava no ar. Celia tropeçou e caiu de joelhos várias vezes, com os olhos estreitados, quase fechados, procurando qualquer coisa sólida. Gradualmente, a forma retangular da unidade de admissão da Lion Head, com dois andares de altura, surgiu, e mais nada. Não havia mais terra atrás da unidade de admissão, nem prisão. O platô tinha cedido e desmoronado. A nova instituição de segurança máxima tinha despencado pela montanha como uma criança de pedra enorme por um escorrega. A admissão agora parecia um cenário de filme, só fachada, sem parte de trás.
Celia não ousou ir até a beirada olhar para baixo, mas teve vislumbres dos detritos abaixo: blocos de cimento enormes virados no pé da montanha em meio a um pântano de partículas de poeira.
— Então, eu voltei sozinha — disse Celia —, o mais rápido que consegui.
Ela inspirou fundo e coçou uma área limpa em meio à lama na bochecha. As ouvintes, mais de dez mulheres que correram ao ponto de reunião do Shopwell quando o boato de que ela tinha voltado se espalhou, estavam em silêncio. As outras não iam voltar.
— Eu me lembro de ter lido que havia certa controvérsia sobre o preenchimento por baixo daquela prisão enorme — disse Janice. — Alguma coisa sobre o solo ser macio demais para o peso. Gente que dizia que a empresa
de carvão tinha economizado na hora de fechar o buraco. Havia engenheiros do estado avaliando…
Celia soltou o ar, um suspiro longo, e continuou, distraída: — Nell e eu sempre tivemos um relacionamento casual. Eu não esperava que durasse fora da prisão. — Ela fungou, só uma vez. — Eu não devia me sentir tão triste, mas a verdade é que estou triste pra caramba.
Houve silêncio. E Lila disse: — Eu preciso ir lá.
Tiffany Jones respondeu: — Quer companhia?
7
O que elas estavam fazendo era burrice, disse Coates.
— Burrice pra caralho, Lila. Ir brincar em uma avalanche. — Ela andou com Lila e Tiffany Jones até a Ball’s Hill Road. As duas expedicionárias estavam puxando dois cavalos.
— Nós não vamos brincar em uma avalanche — disse Lila. — Vamos brincar nos destroços da avalanche.
— E ver se ainda tem alguém com vida lá — acrescentou Tiffany.
— Vocês estão brincando? — O nariz de Janice estava vermelho-beterraba no frio. Ela parecia ainda mais profética, o cabelo branco esvoaçando, a cor nas bochechas ossudas intensa como sinalizadores de estrada. Só faltava um cajado retorcido e uma ave de rapina empoleirada em seu ombro. — Elas caíram pela encosta de uma montanha, e a prisão caiu em cima delas. Elas estão mortas. E, se viram uma mulher lá, essa mulher também está morta.
— Eu sei disso — disse Lila. — Mas, se elas viram uma mulher em Lion Head, isso quer dizer que tem outras mulheres fora de Dooling. Saber que não estamos sozinhas neste mundo, Janice… seria uma coisa e tanto.
— Não morram — gritou a diretora quando elas estavam seguindo pela Ball’s Hill. Lila respondeu: — O plano é esse.
Ao lado dela, Tiffany Jones falou de forma mais conclusiva: — Nós não vamos morrer.
8
Tiffany tinha cavalgado durante toda a infância. A família era dona de um pomar de maçãs com parquinho, bodes para alimentar, uma barraquinha de cachorro-quente e passeio de pônei.
— Eu montava o tempo todo, mas… a vida da família não era só isso. Tinha aspectos negativos, podemos dizer. Não eram pôneis o tempo todo. Eu comecei a me envolver com problemas e perdi o hábito.
Esses problemas não eram mistério para Lila, que tinha prendido Tiff mais de uma vez. Aquela Tiffany Jones se parecia muito pouco com essa. A mulher que estava montada no cavalo mouro enorme ao lado da égua branca menor de Lila tinha o rosto cheio e cabelo castanho e usava um chapéu de caubói que combinaria com um rancheiro de John Ford. Ela tinha uma postura confiante totalmente diferente da viciada em drogas que Truman Mayweather alimentava regularmente no trailer ao lado do laboratório tanto tempo atrás, tão longe.
E ela estava grávida. Lila tinha ouvido Tiffany mencionar isso em uma Reunião. É disso, pensou Lila, que vem parte do brilho dela.
Era o fim do dia. Elas teriam que parar em breve. Maylock estava visível, um amontoado de prédios escuros em um vale a poucos quilômetros de distância. O
grupo explorador tinha passado lá sem encontrar ninguém, homem ou mulher.
Parecia que só Dooling abrigava vida humana. A não ser que tivesse havido mesmo uma mulher na prisão feminina, claro.
— Você parece estar indo bem — disse Lila com cuidado. — Agora.
A gargalhada de Tiffany foi simpática.
— A pós-vida limpa a mente. Eu não sinto vontade de usar drogas, se é isso que você quer dizer.
— É isso que você pensa deste lugar? Pós-vida?
— Na verdade, não — disse Tiffany, e só voltou ao assunto quando elas estavam deitadas nos sacos de dormir no esqueleto de um posto de gasolina que também era abandonado no outro mundo. Tiffany disse:
— Quer dizer, a pós-vida deveria ser o céu ou o inferno, não é? — Elas viam os cavalos pela vidraça, amarrados em bombas antigas. O luar os cobria de brilho.
— Eu não sou religiosa — disse Lila.
— Nem eu — respondeu Tiffany. — Não tem anjos e nem demônios, então não sei. Mas isso aqui não é uma espécie de milagre?
Lila pensou em Jessica e Roger Elway. O bebê deles, Platinum, estava crescendo rápido, engatinhando para todo lado. (A filha de Elaine Nutting, Nana, tinha se apaixonado por Plat — um apelido feio, mas que todo mundo usava; a garota provavelmente odiaria todos no futuro por isso — e a empurrava para todo lado em um carrinho enferrujado.) Lila pensou em Essie e Candy.
Pensou no marido e no filho e na vida que não era mais a vida dela.
— Mais ou menos — disse Lila. — Eu acho.
— Peço desculpas. Milagre é a palavra errada. Só estou dizendo que estamos bem, não estamos? Então aqui não é o inferno, certo? Eu estou limpa. Me sinto bem. Tenho esses cavalos maravilhosos, o que nem nos meus sonhos mais loucos achei que pudesse acontecer. Alguém como eu, cuidando de animais como esses? Nunca. — Tiffany franziu a testa. — Só estou pensando em mim, não é?
Eu sei que você perdeu muita coisa. Sei que a maioria das pessoas perdeu muito, e eu só sou alguém que não tinha nada a perder.
— Estou feliz por você. — E estava mesmo. Tiffany Jones merecia coisa melhor.
9
Elas contornaram Maylock e cavalgaram pelas margens do riacho Dorr’s Hollow.
Na floresta, um bando de cachorros se reuniu em uma elevação de terra para as observar passando. Eram seis ou sete, pastores e labradores, as línguas de fora, a respiração soltando vapor. Lila pegou a pistola. Embaixo dela, a égua branca virou a cabeça e mudou o caminhar.
— Não, não — disse Tiffany. Ela esticou a mão e fez carinho na orelha da égua. A voz soou suave, mas firme, não murmurada. — Lila não vai disparar com a arma.
— Não vai? — Lila estava de olho no cachorro do meio. O pelo do animal era de um cinza e preto eriçado. Tinha olhos diferentes, azul e amarelo, e a boca parecia particularmente grande. Ela não era uma pessoa que deixava a imaginação correr solta, mas achou que o cachorro parecia ter raiva.
— Não vai mesmo. Eles querem nos perseguir. Mas nós estamos cuidando da nossa vida. Nós não queremos brincar de pique-pega. Só estamos passando. — A voz de Tiffany soou afetuosa e segura. Lila achou que, se Tiffany não sabia o que estava fazendo, ela acreditava que sabia. Elas andaram pela vegetação baixa. Os cachorros não foram atrás.
— Você estava certa — disse Lila depois. — Obrigada.
Tiffany disse que não tinha sido nada.
— Mas não foi por você. Sem querer ofender, mas não vou deixar você botar medo nos meus cavalos, xerife.
10
Elas atravessaram o rio e contornaram a estrada que as outras usaram para subir, continuando em frente em terreno baixo. Os cavalos desceram em um desfiladeiro que formava o vão entre o que sobrara de Lion Head e outro penhasco à direita, que subia em uma inclinação grande e rochosa, com pedaços de terra ocre aparecendo entre emaranhados de pedra e vegetação. Havia um fedor metálico penetrante que irritava o fundo da garganta. Pedaços de terra solta caíram, e as pedras na encosta ecoavam alto demais na concavidade criada pelas elevações dos dois lados.
Elas amarraram os cavalos a alguns metros das ruínas da prisão e se aproximaram a pé.
— Uma mulher de outro lugar — disse Tiffany. — Não seria uma coisa e tanto?
— Seria — concordou Lila. — Encontrar uma das nossas ainda viva seria ainda melhor.
Fragmentos de alvenaria, alguns tão altos e largos quanto caminhões de mudança, estavam presos mais alto na encosta da Lion Head, enfiados na terra como monumentos enormes. Por mais firmes que parecessem, Lila os imaginava facilmente se soltando devido ao próprio peso e desmoronando para se juntar à pilha embaixo.
O corpo da prisão tinha batido no fundo, desmoronando, gerando uma forma vagamente piramidal. De certa maneira, era impressionante o quanto do corpo
da construção havia sobrevivido ao deslizamento pela montanha… e era horrível também em sua decifrabilidade, como uma casinha de bonecas esmagada por um valentão. Vigas de aço retorcido se projetavam do cimento, e amontoados enormes de terra cheia de raízes tinham se acomodado em outras partes dos destroços. Nas beiradas dessa nova estrutura não planejada, havia falhas no cimento que ofereciam vislumbres do interior. Tudo lá dentro eram árvores destruídas, árvores de seis a nove metros de altura cortadas em pedacinhos.
Lila colocou uma máscara cirúrgica que tinha levado.
— Fique aqui, Tiffany.
— Eu quero ir com você. Não tenho medo. Me dê uma dessas. — Ela esticou a mão pedindo uma máscara.
— Eu sei que você não tem medo. Só quero alguém que possa voltar se esse lugar cair na minha cabeça, e você é a garota dos cavalos. Eu sou só uma ex-policial. Além disso, sabemos que você está vivendo por dois.
Na abertura mais próxima, Lila parou para acenar. Tiffany não viu; tinha andado de volta até os cavalos.
11
A luz entrava na prisão por buracos feitos no concreto quebrado. Lila se viu andando em cima de uma parede, pisando no aço de portas de cela. Tudo estava virado noventa graus. O teto estava à direita dela. O que seria a parede esquerda agora estava no lugar do teto, e o piso estava à esquerda. Ela teve que baixar a cabeça para passar por baixo de uma porta de cela aberta que estava pendurada como uma armadilha. Ouvia estalos, pingos. As botas esmagavam pedra e vidro.
Um obstáculo composto de pedra, canos quebrados e pedaços de forro impedia o progresso. Ela moveu a lanterna. Na parede acima de sua cabeça, estava pintado com tinta vermelha Nível A. Lila voltou para o ponto onde havia a porta aberta e pendurada. Pulou e se segurou na moldura da porta para subir na cela. Um buraco tinha sido aberto na parede em frente. Lila seguiu cuidadosamente até a abertura. Agachou-se e passou. Pedaços de concreto quebrado se prenderam nas costas da camisa e o tecido rasgou.
A voz de Clint surgiu para ela, questionadora: Talvez, e só talvez , e não
interprete como acusação, por favor, haja um equilíbrio entre risco e recompensa que precisa ser reconsiderado aqui?
Vamos falar abertamente, certo, Lila? O risco é que você está subindo em destroços instáveis no pé de uma montanha instável. Além do mais, tem cachorros ferozes com aparência perturbada por aí, e uma viciada grávida esperando (ou não) com os cavalos. E você tem (mais uma vez, sem críticas, só estou mostrando os fatos, querida) quarenta e cinco anos. Todo mundo sabe que a idade ideal para uma mulher andar por ruínas instáveis e voláteis é do final da adolescência até vinte e tantos anos. Você está fora do público-alvo. Tudo isso reunido leva a um risco significativo de morte, de uma morte horrível, ou de uma morte inimaginavelmente horrível.
Na cela ao lado, Lila teve que passar por cima de uma privada de aço amassada e escorregar por outro buraco no chão, que antes era a parede direita. O
tornozelo se virou de um jeito estranho quando ela caiu, e ela se segurou para se apoiar. Uma coisa de metal cortou sua mão.
O ferimento na palma da mão era um corte vermelho e fundo. Devia precisar de um ou dois pontos. Ela devia dar meia-volta e pegar pomada e atadura no kit de primeiros socorros que tinham levado.
Porém, Lila só arrancou um pedaço da camisa e enrolou na mão. Usou a lanterna para encontrar outra pintura na parede: Ala de Alta Segurança. Isso era bom. Parecia o lugar onde elas tinham visto a mulher na cela. O ruim era que o corredor estava situado acima, uma abertura para o alto. O pior era a perna no canto inclinado, cortada irregularmente cinco centímetros acima do joelho.
Estava vestida de veludo verde. Nell Seeger estava usando uma calça de veludo verde quando a expedição partiu para Eagle.
— Eu não vou contar isso para Tiff — disse Lila. Ouvir-se falar em voz alta a assustou e a reconfortou ao mesmo tempo. — Não adiantaria de nada.
Lila apontou a lanterna para cima. A Ala de Alta Segurança de Lion Head tinha se tornado uma chaminé ampla. Ela virou a luz de um lado para outro, procurando um caminho, e achou que talvez estivesse vendo um. O teto da ala era rebaixado com painéis; os painéis tinham se soltado com a queda, mas a grade de aço havia permanecido no lugar. Parecia uma treliça. Ou uma escada.
Quanto à recompensa, disse Clint , você talvez encontre alguém. Talvez. Mas seja sincera consigo mesma. Você sabe que essas ruínas estão vazias, assim como o resto do
mundo. Não tem nada a ser encontrado além dos corpos das mulheres que estavam com Nell. Que aquela perna cortada sirva por todas. Se houvesse outras mulheres no mundo que vocês chamam de Nosso Lugar, elas já teriam aparecido. Teriam ao menos deixado algum rastro. O que você acha que tem que provar? Que as mulheres também podem ser machos?
Parecia que, mesmo na imaginação, ele não conseguia simplesmente dizer que temia por ela. Ele não conseguia parar de tratá-la como uma de suas pacientes encarceradas, jogando perguntas de reflexão como bolas em um jogo de queimado.
— Vá embora, Clint — disse ela, e, incrivelmente, ele foi.
No chão, a seus pés, havia alguns papéis e algumas fotos da parede da cela de um detento. Lila observou uma foto de um prisioneiro sorridente com a esposa e uma filha pequena com a Disneylândia atrás. Colocou isso de lado com cuidado e usou os pedaços cortados de papel para fazer um curativo de papel machê no corte, o sangue criando uma cola.
Ela esticou a mão para cima e segurou a treliça mais baixa da grade do teto. A peça se curvou, mas não quebrou. A mão doeu, e ela sentiu o sangue escorrendo pelas beiradas da compressa de papel, mas continuou pendurada e se ergueu.
Apoiou a bota onde tinha apoiado a mão antes e deu impulso. A peça se curvou de novo, mas aguentou. Lila levantou a mão, puxou, pisou. Começou a subir a escada de moldura de painéis. Cada vez que chegava à altura de uma porta de cela, Lila usava a mão boa para ficar pendurada no ar, apontando a lanterna com a machucada. Não havia mulher nenhuma visível através do vidro com grade no alto da porta da primeira cela, nenhuma na segunda, nenhuma na terceira; ela só via molduras de camas grudadas no que antes era o piso. Sua mão latejava. O
sangue escorria por dentro da manga. Não havia nada na quarta cela, e ela teve que parar e descansar, mas não por muito tempo, e definitivamente sem olhar para baixo, para a escuridão. Havia algum truque para aquele tipo de esforço?
Uma coisa que Jared tinha mencionado sobre corrida cross-country, alguma coisa para dizer para si mesma? Ah, sim, ela lembrou. “Quando meus pulmões começam a apertar”, dissera Jared, “eu finjo que tem umas garotas me olhando e que não posso decepcionar elas.”
Não era muito útil. Ela teria que seguir em frente.
Lila subiu. A quinta cela continha uma cama, uma pia e uma privada pendurada. Mais nada.
Ela chegou em um T para a esquerda, do outro lado do tubo, mais um corredor se projetava. Ao longe, no final dele, o raio da lanterna de Lila encontrou o que parecia ser uma pilha de roupa suja; era um corpo ou corpos, pensou ela, os restos de outras exploradoras. Era a jaqueta vermelha de Nell Seeger? Lila não tinha certeza, mas mesmo frio como estava, ela já sentia o cheiro do começo da decomposição. Elas tinham sido jogadas de um lado para outro até se partirem e provavelmente ainda mais um pouco. Agora, eram só bonecas quebradas, e não havia nada a fazer além de deixá-las lá.
Uma coisa se moveu, e ela ouviu guinchos. Os ratos da prisão tinham sobrevivido ao acidente, ao que parecia.
Lila subiu mais. Cada grade de metal parecia ceder sob seu peso, rangendo por mais tempo e mais alto a cada impulso. A sexta cela estava vazia, assim como a sétima, a oitava e a nona. Está sempre no último lugar onde você olha, não é? Está sempre na prateleira do alto do armário, bem no fundo. Está sempre no arquivo debaixo da pilha. Está sempre no menor bolso, o menos usado da bolsa.
Se ela caísse naquele momento, pelo menos morreria instantaneamente.
Você sempre (sempre, sempre, sempre) cai do apoio mais alto da grade de teto que está usando como escada no corredor da prisão de segurança máxima que desmoronou nos escombros instáveis de uma antiga montanha de mineração de carvão.
Porém, ela decidiu que não ia desistir agora. Tinha matado Jessica Elway para se defender. Tinha sido a primeira xerife mulher na história do condado de Dooling. Tinha colocado algemas nos irmãos Griner, e quando Low Griner mandou que ela fosse se foder, ela tinha rido na cara dele. Mais alguns metros não a impediriam.
E não impediram mesmo.
Ela se inclinou na escuridão, pendurando-se como se segura por um parceiro de dança, e apontou o raio da lanterna pela janela da porta da décima cela.
A boneca inflável tinha caído com a cara no vidro. Os lábios vermelho-cereja eram um arco de surpresa, feitos para felação; os olhos eram de um azul distraído e sedutor de Betty Boop. Uma brisa vinda de algum lugar fazia com que
ela assentisse com a cabeça vazia e movesse os ombros rosados. Um adesivo na testa dela tinha os dizeres: “Feliz 40º aniversário, Larry!”.
12
— Vamos, Lila — disse Tiffany. A voz veio do fundo do poço. — Dê um passo e só depois se preocupe com o próximo.
— Tudo bem — Lila conseguiu dizer. Estava feliz por Tiffany não ter seguido suas instruções. Na verdade, poucas coisas já a tinham deixado mais feliz. Sua garganta estava seca; o corpo parecia apertado demais na pele; a mão estava ardendo. Porém, a voz abaixo dela era outra vida. Aquela escada escura não precisava ser o fim.
— Está ótimo. Agora: um passo — disse Tiffany. — Você só precisa dar um passo. É assim que se começa.
13
— Uma porra de boneca inflável — disse Tiffany, com espanto, mais tarde. — O
presente de aniversário de algum babaca. Deixavam os caras terem merdas assim?
Lila deu de ombros.
— Só sei o que eu vi. Deve ter uma história, mas nunca vamos saber.
Elas cavalgaram o dia todo até a escuridão. Tiffany queria que uma das mulheres de Nosso Lugar com experiência de enfermagem desinfetasse a mão de Lila imediatamente. Lila disse que ficaria bem, mas Tiff foi insistente.
— Eu falei para aquela velha que era diretora da prisão que nós não morreríamos. Nós. Isso quer dizer nós duas.
Ela contou para Lila sobre o apartamento que teve em Charlottesville antes do vício em metanfetamina explodir, uma década antes, mais ou menos. Ela tinha uma porrada de samambaias. Flores tinham nascido também.
— Isso que é viver direito, quando se tem plantas grandes em casa — disse Tiffany.
Meio caída na cela, o passo do cavalo com um balanço agradável, Lila teve que lutar para não adormecer e acabar escorregando.
— O quê?
— As minhas samambaias — disse Tiffany. — Estou contando pra você sobre minhas samambaias pra você não apagar.
Isso fez Lila sentir vontade de rir, mas só saiu um gemido. Tiffany disse para ela não ficar triste.
— Podemos arrumar umas pra você. Botar samambaias na casa toda. Não é uma planta rara.
Mais tarde, Lila perguntou a Tiffany se ela queria menino ou menina.
— Só um bebê saudável — disse Tiffany. — Qualquer um dos dois, desde que seja saudável.
— Se for uma menina, você podia dar o nome de “Samambaia”.
Tiffany gargalhou.
— Isso aí!
Dooling apareceu no amanhecer, as construções flutuando em uma névoa azul. Fumaça subia do estacionamento atrás dos restos do Squeaky Wheel. Lá, uma fogueira comunitária tinha sido montada. A eletricidade ainda era coisa rara, então elas cozinhavam lá fora o máximo possível. (O Squeaky se mostrou uma fonte excelente de combustível. O teto e as paredes estavam sendo removidos aos poucos.) Tiffany foi na direção da fogueira. Tinha mais de dez mulheres lá, indefinidas com os casacos pesados, gorros, luvas. Dois bules grandes de café ferviam sobre o fogo amplo.
— Bem-vindas de volta. Temos café — disse Coates, separando-se do grupo.
— Diferentemente de nós, que não temos nada — respondeu Lila. — Peço desculpas. Era uma porra de boneca inflável o que havia na Ala de Alta Segurança. Se ainda tiver alguém neste mundo, não tem sinal nenhum. E as outras… — Ela balançou a cabeça.
— Sra. Norcross?
Todas se viraram para olhar a novata, que tinha chegado no dia anterior. Lila deu um passo na direção dela, mas parou.
— Mary Pak? É você?
Mary foi até Lila e a abraçou.
— Eu estava com Jared, sra. Norcross. Achei que você ia querer saber que ele está bem. Ou estava, na última vez que vi. Foi no sótão da casa de demonstração
no seu bairro, antes de eu adormecer.
5
1
Tig Murphy foi o guarda para quem Clint contou primeiro — a verdade sobre Evie e o que ela tinha dito: que tudo parecia depender de se Clint conseguiria ou não mantê-la viva, mas que ela não defenderia sua história tanto quanto Jesus quando foi levado para a frente de Pôncio Pilatos. Clint concluiu dizendo: — Eu menti porque não consegui dizer a verdade. A verdade é tão grande que ficou entalada na minha garganta.
— Aham. Você sabia que eu dava aula de história no ensino médio, doutor?
Tig estava olhando para ele de um jeito que lembrava a Clint intensamente o ensino médio. Era um olhar que duvidava da sua autorização para circular pelo corredor. Era um olhar que queria ver se suas pupilas estavam dilatadas.
— Sim, eu sei disso — disse Clint. Ele tinha levado o guarda para a lavanderia para eles poderem conversar em particular.
— Eu fui a primeira pessoa da minha família a se formar em uma faculdade.
Me matar de trabalhar em uma prisão feminina não foi exatamente uma melhoria de vida. Mas, sabe, eu já vi como você gosta dessas garotas. E sei que, apesar de muitas delas terem feito coisas ruins, a maioria não é totalmente ruim.
Por isso, eu quero ajudar… — O guarda fez uma careta e passou a mão pelas entradas que tinha no cabelo.
Dava para ver o professor que ele tinha sido, dava para imaginá-lo andando de um lado para outro, falando sobre a grande diferença entre a lenda dos Hatfields e dos McCoys e os fatos históricos da briga, passando os dedos cada vez com mais força no cabelo quanto mais empolgado e entusiasmado ficava sobre o
assunto.
— Então ajude — pediu Clint.
Se nenhum dos guardas aceitasse ficar, ele tentaria manter a prisão trancada sem eles, mas fracassaria. Terry Coombs e o cara novo tinham o restante da força policial. Poderiam convocar outros homens, se necessário. Clint tinha visto o jeito como Frank Geary havia olhado para as cercas e os portões, procurando pontos fracos.
— Você realmente acredita nisso? Acha que ela é… mágica? — Tig disse a palavra mágica da mesma forma como Jared dizia é sério, como em “É sério que você quer ver meu dever de casa?”.
— Eu acredito que ela tenha algum envolvimento com essa coisa que está acontecendo e, o mais importante, acredito que os homens fora dessa prisão acreditam nisso.
— Você acredita que ela é mágica. — Tig lançou para ele de novo o olhar de professor: Garoto, o quanto você fumou?
— Na verdade, acredito — disse Clint, e levantou a mão para impedir Tig de falar, pelo menos por um momento. — Mas, mesmo que eu esteja errado, nós temos que manter a segurança da prisão. É nossa obrigação. Nós temos que proteger cada uma das nossas prisioneiras. Eu não confio em Terry Coombs bêbado, nem em Frank Geary, e em ninguém nem para conversar com Eva Black.
Você já ouviu ela. Louca ou não, ela é um gênio quando se trata de deixar alguém puto da vida. Vai continuar fazendo isso até alguém perder a cabeça e matar ela.
Alguém ou todos eles. Queimar na fogueira não está totalmente fora de questão.
— Você não acredita nisso.
— Na verdade, acredito. As Brigadas do Maçarico não te dizem nada?
Tig se encostou em uma das lavadoras industriais.
— Tudo bem.
Clint sentiu vontade de abraçá-lo.
— Obrigado.
— Bom, é minha merda de trabalho, sabe, mas tudo bem, de nada. Quanto tempo você acha que a gente vai precisar manter a segurança?
— Não muito. Alguns dias no máximo. Pelo menos é o que ela diz. — Ele percebeu que estava falando sobre Eva Black como um grego antigo falando sobre uma deidade furiosa. Era absurdo, mas pareceu tão realístico quanto qualquer outra ideia.
2
— Espera, espera, espera — disse Rand Quigley depois que Clint tinha repassado tudo uma segunda vez. — Ela vai acabar com o mundo se deixarmos a polícia pegar ela?
Era quase exatamente nisso que Clint acreditava, mas preferia refinar um pouco.
— Nós não podemos deixar que a polícia da cidade leve ela, Rand. É isso que importa.
Os olhos pálidos de Rand piscaram por trás das lentes grossas dos óculos quadrados, e a monocelha preta parecia uma lagarta peluda por cima da armação.
— E o CDC? Eu achei que você estivesse falando com o CDC.
Tig cuidou dessa parte de maneira direta.
— O CDC era baboseira. O doutor inventou aquilo pra fazer a gente ficar.
É agora que Rand vai embora, pensou Clint, e tudo acaba.
— Nunca conseguiu falar com eles?
— Não — respondeu Clint.
— Nunquinha?
— Bom, conseguimos a secretária eletrônica duas vezes.
— Porra — disse Rand. — Que merda.
— Isso aí, cara — disse Tig. — Podemos continuar contando com você? Se alguém quiser começar alguma coisa?
— Podem — respondeu Rand, parecendo ofendido. — Claro. Eles cuidam da cidade, nós cuidamos da prisão. É assim que tem que ser.
Wettermore foi o seguinte. A ideia toda o divertiu de um jeito amargo, mas genuíno.
— Eu não ficaria nem um pouco surpreso se a Garota Guerreira Matadora de Traficantes fosse mágica. Não ficaria surpreso se coelhos usando relógios aparecessem pulando por aqui. O que você está me dizendo não é mais
maluquice do que a Aurora. Não muda nada pra mim. Vou ficar aqui pelo tempo que for preciso.
Foi Scott Hughes, o mais novo do grupo, com dezenove anos, que entregou as chaves, a arma, o taser e o resto do equipamento. Se o CDC não ia buscar Eva Black, ele não queria ficar. Não era o cavaleiro branco de ninguém; era só um cristão comum que tinha sido batizado na igreja luterana de Dooling e não perdia uma missa de domingo.
— Eu gosto de vocês. Não são como Peters e nem como alguns outros babacas deste lugar. E nem ligo se Billy é gay e Rand é meio retardado. Eles são caras legais.
Clint e Tig o seguiram pela admissão até a porta da frente da prisão e até o pátio, para tentar convencê-lo a mudar de ideia.
— E, Tig, você sempre foi legal. Você também parece ser boa pessoa, dr.
Norcross. Mas eu não vou morrer aqui.
— Quem falou em morrer?
O adolescente chegou à picape, que tinha pneus Bigfoot enormes.
— Cai na real. Quem você conhece nesta cidade que não tem uma arma?
Quem você conhece nesta cidade que não tem duas ou três?
Era verdade. Até nos confins dos Apalaches (e confins podia ser exagero; havia uma loja Foot Locker e um supermercado Shopwell em Dooling, mas o cinema mais próximo ficava em Eagle), praticamente todo mundo tinha arma.
— E eu já fui à delegacia, dr. Norcross. Lá tem uma estante cheia de M4. E
outras coisas também. Se os justiceiros aparecerem depois de esvaziar o arsenal, sem querer ofender, mas você e Tig podem pegar esses Mossberg que temos no armário de armas e enfiar no cu.
Tig estava atrás de Clint.
— Então você vai pular fora?
— Vou — respondeu Hughes. — Vou pular fora. Alguém precisa abrir o portão pra mim.
— Porra, Tig — disse Clint, o que era o sinal.
Tig suspirou, pediu desculpas a Scott Hughes — “Sinto muito fazer isso, cara”
— e acertou o colega com o taser.
Era uma questão que eles tinham discutido. Havia problemas sérios em deixar
Scott Hughes sair. Não podiam permitir que alguém contasse para o pessoal da cidade como eles tinham pouca gente, nem que revelasse as limitações dos armamentos da prisão. Porque Scott estava certo, o arsenal da prisão não era impressionante: doze espingardas Mossberg 590, chumbo de caça como munição, e a arma de cada guarda, uma pistola calibre .45.
Os dois homens assomaram sobre o colega, que se contorcia no chão. Clint se lembrou com náuseas do quintal dos Burtell, das brigas de sexta à noite, do irmão adotivo Jason caindo sem camisa na terra junto aos tênis imundos de Clint. Debaixo do olho de Jason havia uma marca em formato de moeda feita pelo punho de Clint. Tinha catarro escorrendo do nariz de Jason e, do chão, ele murmurou: “Tudo bem, Clint”. Os adultos todos comemoraram e riram das cadeiras dobráveis, brindando com as latas de Falstaff. Naquela vez, Clint ganhou o milk-shake. O que tinha ganhado dessa vez?
— Ah, droga, agora já foi — disse Tig.
Três dias antes, quando precisaram lidar com Peters, Tig parecia um homem no meio de uma reação alérgica, pronto para vomitar uma barriga cheia de peixe podre. Agora, ele só parecia estar com um pouco de acidez no estômago. Ele se ajoelhou, rolou Scott para o lado e amarrou os pulsos dele nas costas.
— Que tal a gente colocar ele na Ala B, doutor?
— Acho que está bom.
Clint nem tinha pensado em onde colocar Scott, o que não aumentava sua confiança na capacidade de lidar com a situação em desenvolvimento. Ele se agachou para segurar as axilas de Hughes e ajudar Tig a levantá-lo.
— Cavalheiros — soou uma voz logo depois do portão. Era uma voz de mulher, cheia de determinação, exaustão… e satisfação. — Vocês podem manter a pose? Eu quero uma boa foto.
3
Os dois homens olharam para a frente, suas expressões eram a essência da culpa; eles podiam ser capangas da máfia indo enterrar um corpo. Michaela ficou ainda mais satisfeita quando verificou a primeira foto. A câmera que ela carregava na bolsa era uma Nikon simples, mas a imagem tinha ficado precisa. Perfeita.
— Ahoy, piratas imundos! — gritou Garth Flickinger. — O que vocês estão fazendo, pelo amor de Deus? — Ele e Michaela tinham parado no mirante próximo para experimentar o Relâmpago Roxo, e ele estava mais animado.
Mickey também parecia ter ganhado novo fôlego. Um novo fôlego que estava acontecendo pela quarta ou quinta vez.
— Ah, merda, doutor — disse Tig. — Estamos fodidos.
Clint não respondeu. Ficou parado segurando Scott Hughes e olhando os recém-chegados parados na frente de um Mercedes batido. Era como se uma avalanche reversa esquisita em que as coisas se juntavam em vez de desmoronar estivesse acontecendo na cabeça dele. Talvez fosse assim que a verdadeira inspiração ocorria a grandes cientistas ou filósofos. Ele esperava que sim. Clint largou Scott, e o guarda desorientado deu um gemido de insatisfação.
— Mais uma! — gritou Michaela. Ela bateu uma foto. — E mais uma! Que bom! Ótimo! Agora, o que exatamente vocês estão fazendo?
— Pelo sangue de deus, é um motim! — gritou Garth, fazendo o que podia ser uma imitação do capitão Jack Sparrow de Piratas do Caribe. — Deixaram o imediato inconsciente, e logo ele vai ter que andar na prancha! Arrr!
— Cala a boca — disse Michaela. Ela segurou o portão, que não era eletrificado, para sua sorte, e o balançou. — Isso tem alguma coisa a ver com a mulher?
— Nós estamos muito fodidos — falou Tig, como se estivesse impressionado.
— Abra o portão — disse Clint.
— O quê…?
— Abra.
Tig andou na direção da guarita de entrada e parou uma vez para olhar, hesitante, para Clint, que assentiu e fez sinal para ele seguir em frente. Clint foi até o portão, ignorando o clique regular da câmera da mulher. Os olhos dela estavam vermelhos, o que era esperado depois de quatro dias e três noites acordada, mas os do companheiro dela também estavam. Clint desconfiava que eles podiam ter compartilhado estimulantes ilegais. No ímpeto da inspiração repentina que teve, essa era a menor de suas preocupações.
— Você é a filha de Janice — disse ele. — A repórter.
— Isso mesmo, Michaela Coates. Michaela Morgan para o grande público. E
acredito que você seja o dr. Clinton Norcross.
— Nós já nos conhecemos? — Clint não lembrava.
— Eu entrevistei você para o jornal da escola. Deve ter sido oito ou nove anos atrás.
— Você gostou de mim? — perguntou ele. Nossa, como estava velho, e ficando mais velho a cada minuto.
Michaela balançou a mão.
— Achei um pouco estranho você gostar tanto de trabalhar em uma prisão.
Em uma prisão com a minha mãe. Mas isso não importa. E a mulher? O nome dela é Eva Black? É verdade mesmo que ela dorme e acorda? Porque foi isso que eu ouvi.
— Eva Black é o nome que ela usa — disse Clint — e, sim, ela de fato dorme e acorda normalmente. Se bem que não tem muito mais nela que pareça normal.
— Ele se sentiu eufórico, como um homem andando na corda bamba com os olhos vendados. — Você quer entrevistar ela?
— Está de brincadeira? — Naquele momento, Michaela não pareceu nem um pouco sonolenta. Parecia febril de empolgação.
Os portões externo e interno começaram a se abrir. Garth passou o braço pelo de Michaela e parou no espaço morto entre os dois, mas Clint levantou a mão.
— Há condições.
— Pode dizer — disse Michaela bruscamente. — Se bem que, considerando as fotos que tenho na minha câmera, você talvez não queira ser muito ganancioso.
Clint perguntou: — Vocês viram alguma viatura de xerife aqui por perto?
Garth e Michaela fizeram que não.
Ainda não havia viaturas. Ninguém observando a estrada de acesso que vinha de West Lavin. Era um truque que Geary tinha deixado passar, pelo menos até o momento, e Clint não estava muito surpreso. Com Terry Coombs procurando refúgio em uma garrafa, seu Número Dois, o sr. Agente de Controle Animal, devia estar correndo atrás para compensar. Porém, Clint achava que ele não deixaria passar por muito tempo. Talvez já houvesse alguém a caminho. Na verdade, ele teria que supor que esse era o caso, o que queria dizer que sair para comprar pizza e comer com Jared estava fora de questão. Geary talvez não ligasse
se alguém entrasse na prisão, mas não ia querer que ninguém saísse. O
problemático médico de cabeça, por exemplo. Evie Black, possivelmente transportada escondida na parte de trás de uma van da prisão também.
— Suas condições? — perguntou Michaela.
— Tem que ser rápido — disse Clint. — E se vocês ouvirem o que acho que vão ouvir e virem o que acho que vão ver, têm que me ajudar.
— Ajudar com o quê? — perguntou Tig, se juntando a eles.
— Reforços — respondeu Clint. — Armas. — Ele fez uma pausa. — E o meu filho. Eu quero o meu filho.
4
Não tinha torta no Olympia. A mulher que fazia as tortas estava dormindo em um casulo na sala de descanso. Gus Vereen, anotando os pedidos dos policiais, disse que estava sem ajuda de um modo geral.
— Encontrei uma torta de sorvete no fundo do freezer, mas não posso garantir nada. Está lá desde que Matusalém era jovem.
— Eu experimento — disse Don, apesar de ser uma substituta ruim (uma lanchonete sem torta era uma desgraça), mas com Frank Geary do outro lado da mesa, ele estava se comportando da melhor forma possível.
Presentes na mesa dos fundos da lanchonete também estavam os policiais Barrows, Rangle, Eric Blass e um figurão do direito chamado Silver. Eles tinham acabado de comer um almoço horrível. Don tinha escolhido o Especial Haluski, que chegou nadando em uma piscina de gordura. Ele comeu mesmo assim, em parte por birra, e a Magic 8-ball disse que haveria um caso de diarreia no futuro dele. Os outros comeram sanduíches e hambúrgueres; nenhum deles comeu mais do que a metade. Eles também dispensaram a sobremesa, o que provavelmente foi inteligente. Frank passou meia hora explicando o que sabia sobre a situação da prisão.