Belas adormecidas

Stephen King, Owen King · Capítulo 3 de 6 · parte 8/12

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Belas adormecidas

Parte dois: Vou dormir quando morrer

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

10

1

Lowell Griner pai dizia que não dava para saber onde uma fonte funda de carvão podia começar. “Às vezes uma batida de cinzel é a diferença que existe entre a merda e o paraíso”, era como ele falava. Essa pérola saiu dos lábios do velho por volta da época em que a maioria dos melhores mineradores dos Três Condados marchava pelo interior destruído do sudeste da Ásia, pegando pereba na pele e fumando baseados com heroína misturada. Esse foi um conflito que o Griner pai perdeu por causa da falta de dois dedos no pé direito e um na mão esquerda.

Poucos homens que andaram pelo planeta falaram mais besteira do que o falecido Lowell Griner pai. Ele também acreditava em OVNIs, espíritos vingativos da floresta, e acreditou cegamente nas promessas vazias das empresas de carvão.

Big Lowell Griner, ele era chamado, talvez em homenagem à velha música de Jimmy Dean sobre Big John. Big Low descansava no caixão havia vinte anos, junto com uma garrafa cheia de Rebel Yell e um par de pulmões tão pretos quanto o betume que ele minerava. Seu filho Lowell Jr. (naturalmente conhecido como Little Low) relembrou as palavras do pai achando uma graça deplorável depois que a xerife Lila Norcross o pegou junto com o irmão mais velho, Maynard, com dez quilos de cocaína, speed digno de uma farmácia e todas as armas deles. Parecia que a sorte tinha acabado abruptamente, a magia do paraíso transformada em merda assim que a equipe da xerife usou o aríete na porta da cozinha da antiga casa da família, uma fazenda à beira do riacho para a qual “ruínas” era uma palavra grandiosa demais.

Embora Little Low (que na verdade tinha um metro e oitenta e cinco e pesava

mais de cem quilos) não estivesse arrependido de nada que eles tinham feito, lamentava muito que não tivesse durado mais. Nas semanas em que ele e Maynard ficaram trancados na prisão do condado em Coughlin esperando a transferência, ele passou boa parte do tempo livre sonhando com a diversão que tiveram: os carros esportivos com os quais participaram de rachas, as lindas casas nas quais dormiram, as garotas com quem treparam e os numerosos vagabundos em quem deram porrada, estranhos que tentaram se meter nas coisas dos Griner e acabaram enterrados nas colinas. Durante quase cinco anos, eles foram jogadores sérios por todo o Blue Ridge. Foi uma aventura incrível, mas agora parecia ter chegado ao fim.

Na verdade, eles estavam fodidos por todos os orifícios. A polícia tinha as drogas, as armas, tinha Kitty McDavid para dizer que tinha testemunhado Lowell trocando pacotes de dinheiro por sacos de cocaína com o contato deles do cartel em várias ocasiões e que o tinha visto atirar naquele idiota do Alabama que tentou passar notas falsas para eles. A polícia tinha até os explosivos que eles haviam guardado para o Quatro de Julho. (O plano era colocar embaixo de um silo e ver se conseguiam fazer a porra voar como um daqueles foguetes de Cabo Canaveral.) Por melhor que a aventura tivesse sido, Lowell não tinha certeza de por quanto tempo reviver as lembranças o sustentaria. Pensar nessas lembranças enfraquecendo e desmoronando era desanimador.

Quando acabassem, Little Low achava que provavelmente teria que se matar.

Ele não tinha medo disso. O que tinha medo era de sufocar de tédio em uma cela da mesma forma que Big Low — confinado em uma cadeira de rodas, tomando Yell de canudinho e respirando oxigênio de um tanque nos últimos anos da vida

— sufocou até morrer no próprio catarro. Maynard, com a inteligência limitada que tinha, provavelmente ficaria bem durante algumas décadas na prisão.

Porém, não Little Lowell Griner Júnior. Ele não estava interessado em jogar com cartas ruins só para ficar no jogo.

Então, quando estavam esperando a reunião pré-julgamento, a merda voltou a ser o paraíso. Que Deus abençoasse a Aurora, seu veículo de libertação.

Tal libertação chegou no final da tarde de quinta-feira, o dia em que a doença do sono chegou aos Apalaches. Lowell e Maynard estavam algemados em um banco em frente a uma sala de reunião no tribunal de Coughlin. O promotor e o

advogado deles deveriam ter chegado uma hora antes.

— Que merda — anunciou o babaca da Delegacia de Coughlin que estava cuidando deles. — Isso é idiotice. Não recebo o suficiente para ficar o dia todo de babá de dois branquelos pés-rapados e assassinos. Vou ver o que o juiz quer fazer.

Pelo vidro reforçado em frente ao banco, Lowell viu que a juíza Wainer, só uma dos três funcionários públicos que se dignou a aparecer na audiência, tinha baixado a cabeça entre os braços e tirado um cochilo. Os irmãos não tinham ideia sobre a Aurora naquele momento. Nem o policial escroto.

— Espero que ela arranque a cabeça dele por acordar ela — comentou Maynard.

Não foi exatamente isso que aconteceu quando o policial horrorizado arrancou a máscara de teia que tinha crescido em volta do rosto da Honorável Juíza Regina Alberta Wainer, mas foi bem próximo.

Lowell e Maynard, acorrentados ao banco, viram tudo pelo vidro reforçado.

Foi incrível. A juíza, com no máximo um metro e cinquenta e cinco, de saltos, se levantou com a coluna ereta e perfurou o policial, aleluia, com uma caneta-tinteiro de ponta dourada, bem no peito. Isso fez o filho da mãe cair no tapete, e ela usou a vantagem, pegando o martelo próximo e batendo no rosto dele antes que tivesse a chance de peidar ou de gritar “Excelência, eu protesto”. Em seguida, a juíza Wainer jogou o martelo sujo de lado, se sentou de novo, baixou a cabeça nos braços cruzados e voltou a dormir.

— Irmão, você viu aquilo? — perguntou Maynard.

— Vi.

Maynard balançou a cabeça, fazendo as mechas sujas de cabelo comprido voarem.

— Foi incrível. Cacete.

— O tribunal está suspenso, porra — concordou Lowell.

Maynard, o primogênito, mas batizado em homenagem a um tio quando os pais tiveram certeza de que o bebê morreria antes do pôr do sol do dia do nascimento, tinha uma barba de homem das cavernas e olhos grandes e sem vida. Mesmo quando estava dando porrada em algum pobre filho da puta, ele costumava ter cara de abobalhado.

— O que a gente faz agora?

O que eles fizeram foi bater até quebrarem os braços do banco no qual estavam algemados e entrar na sala de reunião, deixando uma trilha de madeira despedaçada. Com cuidado para não incomodar a juíza Wainer adormecida (a teia estava envolvendo a cabeça dela, ficando grossa novamente), eles pegaram as chaves do policial e se destrancaram. Os irmãos também confiscaram a arma do babaca morto, o taser e a chave da picape GMC.

— Olha essa merda de aranha — sussurrou Maynard, indicando a nova cobertura da juíza.

— Não temos tempo — disse Little Low.

Uma porta no final do corredor, aberta com o cartão magnético do babaca, levou a um segundo corredor. Quando eles passaram pela porta aberta de uma sala de funcionários, nenhum dos mais de dez homens e mulheres lá dentro (policiais, secretárias, advogados) prestou atenção. Estavam todos concentrados no NewsAmerica, onde imagens bizarras e horrendas mostravam uma mulher amish a uma mesa avançando e arrancando o nariz de um homem que estava cuidando dela.

No final do segundo corredor havia uma saída para o estacionamento. Lowell e Maynard saíram no sol forte e no ar fresco, felizes da vida, como cachorros em uma competição de latidos. A GMC do policial morto estava estacionado perto, e no console central havia um bom fornecimento de música country. Os irmãos Griner concordaram em ouvir Brooks and Dunn, seguidos de Alan Jackson, que era um bom rapaz, com certeza.

Eles seguiram ao som da música country até um acampamento próximo e estacionaram o Jimmy-Mac atrás de um posto da guarda florestal fechado por causa de uma série de cortes de orçamento, anos antes. A tranca da porta se abriu com um empurrão. Havia um uniforme de mulher pendurado no armário.

Por sorte, era uma mulher grande, e sob ordem de Lowell, Maynard o colocou.

Vestido assim, foi fácil convencer o motorista de uma Chevy Silverado do acampamento a acompanhá-lo um pouco para uma conversinha.

— Tem alguma coisa errada com minha licença para acampar? — perguntou o homem da Silverado para Maynard. — Essas notícias da doença me deixaram perdido, sabe. Quem já ouviu falar de uma coisa assim? — E, com um olhar para

a identificação no peito de Maynard: — Me diz uma coisa, como você ganhou o nome de Susan?

Little Low deu a resposta que essa pergunta merecia ao sair de trás de uma árvore usando um pedaço de lenha para bater no crânio do homem da Silverado.

Eles deviam ter a mesma altura e peso. Depois que Lowell colocou as roupas do homem da Silverado, os irmãos enrolaram o corpo em uma lona e colocaram na traseira do novo veículo. Transferiram as músicas do policial morto e dirigiram até um chalé de caça que tinham reservado havia tempos para um momento de necessidade. No caminho, eles ouviram o resto dos CDs, concordando que o tal James McMurtry devia ser comunista, mas Hank III era foda.

Quando chegaram ao chalé, eles revezaram entre o rádio e o rádio de escuta da polícia que tinham lá, torcendo para descobrir alguma coisa sobre a reação da polícia à fuga deles.

Inicialmente, Lowell achou a completa desatenção à tal fuga irritante. Porém, no segundo dia, os eventos crescentes do fenômeno Aurora (que explicava o tratamento da juíza ao policial de Coughlin e a porra na cara dela) eram tão abrangentes e cataclísmicos que a apreensão de Lowell desapareceu. Quem tinha tempo para dois caipiras foras da lei em meio a rebeliões em massa, acidentes de avião, derretimentos nucleares e gente botando fogo em mulheres dormindo?

2

Na segunda-feira, quando Frank Geary estava planejando o ataque à prisão feminina, Lowell estava reclinado no sofá mofado do chalé de caça, mastigando carne seca de cervo e visualizando suas próximas ações. Embora as autoridades estivessem agora desordenadas, alguma forma de organização seria restabelecida de uma maneira ou de outra em pouco tempo. Mais ainda, se as coisas fossem como pareciam que seriam, essas autoridades seriam todos galos, o que queria dizer que seria o Velho Oeste: enforcar primeiro e perguntar depois. Os irmãos Griner não ficariam esquecidos para sempre, e quando fossem lembrados, as botas de cano longo estariam engraxadas e prontas para dar uns chutes.

A notícia no rádio primeiro fez Maynard ficar para baixo.

— Esse é o fim das trepadas no mundo, Lowell? — perguntou ele.

Um pouco triste com o pensamento, Lowell respondeu que eles pensariam em alguma coisa… como se pudesse haver alternativa. Ele estava pensando em uma música antiga que dizia que os pássaros faziam, as abelhas faziam, até pulgas amestradas faziam.

Porém, o humor do irmão melhorou com a descoberta de um quebra-cabeça em um armário. Agora, Maynard, de cueca camuflada, de joelhos junto à mesinha de centro, bebia uma Schlitz e trabalhava nele. O quebra-cabeça mostrava o Gato Maluco com o dedo na tomada, sendo eletrocutado. (Esse era outro motivo para Lowell ver o possível futuro do irmão na prisão com otimismo. Tinha um monte de quebra-cabeças na prisão.) A imagem do Gato Maluco no centro estava praticamente pronta, mas a parede verde-clara em volta do personagem estava deixando May histérico. Ele reclamava que tudo era igual e isso era trapaça.

— Nós precisamos dar um jeito em tudo — anunciou Lowell.

— Eu já falei — disse Maynard. — Eu coloquei a cabeça do cara dentro de um tronco vazio e joguei o resto em um buraco.

(O irmão mais velho de Low partia corpos da mesma forma como outras pessoas partiam perus. Era excêntrico, mas parecia dar satisfação a May.) — É

um começo, May, mas não é o bastante. Nós precisamos dar um jeito ainda melhor enquanto tudo ainda está uma confusão. Fazer uma limpeza geral, por assim dizer.

Maynard terminou a cerveja e jogou a lata longe.

— Como a gente faz isso?

— Nós botamos fogo na delegacia de Dooling, para começar. Isso vai cuidar das provas — explicou Lowell. — É a primeira coisa.

A expressão flácida de confusão no rosto dele sugeria que era necessário explicar melhor.

— Nossas drogas, May. Eles pegaram tudo na batida. Se a gente botar fogo nisso, eles não vão ter nada de concreto. — Lowell conseguia imaginar: maravilhoso. Ele nunca soube o quanto queria destruir uma delegacia. —

Depois, só para garantir que a gente cobriu tudo, vamos fazer uma visita à prisão de lá e dar um jeito em Kitty McDavid. — Low passou um dedo pelo pescoço não barbeado para mostrar ao irmão exatamente como seria esse jeito.

— Ah, ela deve estar dormindo.

Low tinha pensado nisso.

— E se os cientistas descobrirem como acordar todas as mulheres? — Talvez a memória dela seja apagada se isso acontecer. Você sabe, com amnésia, como em Days of Our Lives.

— E se não estiver, May? Quando é que as coisas acontecem de forma conveniente assim? A vagabunda da McDavid vai poder fazer a gente ser preso pelo resto da vida. E isso nem é o que importa. Ela dedurou, isso é o que importa.

Ela precisa morrer por isso, acordada ou dormindo.

— Você acha mesmo que a gente consegue chegar nela? — perguntou Maynard.

Na verdade, Lowell não sabia, mas achava que tinham chance. A sorte favorecia os corajosos; ele tinha visto isso em um filme, ou talvez em um programa de TV. E que chance melhor eles teriam? Com praticamente metade do mundo dormindo, o resto estava correndo de um lado para outro como galinhas sem cabeça.

— Vamos. O tempo está passando, May. Não tem hora melhor do que agora.

Além do mais, vai escurecer logo. É sempre a melhor hora para andar por aí.

— Aonde a gente vai primeiro? — perguntou Maynard.

Lowell nem hesitou.

— Falar com Fritz.

Fritz Meshaum havia feito alguns trabalhos no motor e de restauração no carro de Lowell Griner, e também tinha transportado pó. Em troca, Lowell fez contato entre o alemão e alguns vendedores de armas. Fritz, além de ser um mecânico brilhante e um excelente restaurador, tinha uma pulga atrás da orelha com o governo federal, e por isso estava sempre ansioso por oportunidades de incrementar seu arsenal pessoal de armas pesadas. Quando chegasse o dia inevitável em que o FBI decidisse capturar todos os mecânicos babacas que moravam em barracos e os enviasse para Guantanamo, Fritz teria que se defender, e até a morte se necessário. Cada vez que Lowell o via, Fritz tinha que exibir um ou outro canhão e se gabar de como podia vaporizar uma pessoa. (A parte hilária: corria um boato de que Fritz havia levado uma surra que quase o matou de um apanhador de cachorros. Ele era durão, o pequeno Fritz.) Na

última vez que Lowell o viu, o gnomo barbado exibiu com alegria seu mais novo brinquedo: uma bazuca de verdade. Excedente russo.

Low precisava entrar na prisão feminina para assassinar uma dedo-duro. Esse era o tipo de missão em que uma bazuca poderia ser útil.

3

Jared e Gerda Holden não se conheciam muito bem (Gerda estava no sexto ano e Jared estava no ensino médio), mas ele a recordava dos jantares em que as duas famílias se reuniram. Às vezes, eles jogavam videogames no porão, e Jared sempre deixava que ela vencesse algumas vezes. Muita coisa ruim tinha acontecido desde o início da Aurora, mas era a primeira vez que Jared via uma pessoa levar um tiro.

— Ela deve estar morta, né, pai? — Ele e Clint estavam no banheiro da ala administrativa. Um pouco do sangue de Gerda tinha respingado no rosto e na camisa de Jared. — Da queda depois do tiro?

— Não sei — disse Clint. Ele estava encostado na parede de azulejos.

O filho dele, secando água do rosto com uma toalha de papel, encontrou os olhos de Clint pelo espelho acima da pia.

— Provavelmente — disse Clint. — Sim. Com base no que você me contou que aconteceu, é quase certo que ela esteja morta.

— E o homem também? O médico? Flickinger?

— É. Ele também, provavelmente.

— Tudo por causa dessa mulher? Essa tal de Evie?

— É — disse Clint. — Por causa dela. Nós temos que proteger ela. Da polícia e de todo mundo. Sei que parece loucura. Ela pode ser a chave para entendermos o que aconteceu, a chave para reverter tudo, e… só confie em mim, tá, Jared?

— Tudo bem, pai. Mas um dos guardas, aquele Rand, disse que ela é, tipo…

mágica?

— Não tenho como explicar o que ela é, Jared.

Apesar de estar tentando parecer calmo, Clint estava furioso; consigo mesmo, com Geary, com Evie. Aquela bala podia ter acertado Jared. Podia tê-lo deixado cego. Em coma. Morto. Clint não tinha dado uma surra no seu antigo amigo

Jason, no quintal dos Burtell, para que seu filho morresse na sua frente; não havia dormido ao lado de garotos que faziam xixi na cama para isso; não tinha deixado Marcus e Shannon e todos os outros para trás por isso; não tinha se esforçado para fazer a faculdade e se formar em medicina para isso.

Shannon havia dito para ele, tantos anos antes, que se aguentasse firme e não matasse ninguém, sairia daquela situação. Porém, para sair da situação em que estavam, eles talvez tivessem que matar gente. Ele talvez tivesse que matar gente.

A ideia não incomodava Clint tanto quanto esperava. A situação tinha mudado, e os prêmios também, mas talvez, no fundo, fosse a mesma coisa: se queria o milk-shake, era melhor que estivesse pronto para lutar.

— O que foi? — perguntou Jared. Clint inclinou a cabeça. — Está com uma cara meio tensa.

— Só estou cansado. — Ele tocou no ombro do filho e pediu licença.

Precisava ter certeza de que todo mundo estava em posição.

4

Não havia necessidade de dizer eu avisei.

Terry olhou para Frank quando eles se afastaram do grupo de corpos.

— Você estava certo — disse Terry. Ele pegou a garrafinha. Frank pensou em interferir, mas não fez nada. O xerife em exercício deu um gole grande. — Você estava certo o tempo todo. A gente tem que pegar ela.

— Tem certeza? — Frank falou como se ele mesmo não tivesse certeza.

— Você está de brincadeira? Olha essa confusão! Vern está morto, e foi aquela garota ali, que está cheia de buracos e morta também. O crânio do advogado está afundado. Acho que ele deve ter ficado um tempo vivo, mas está morto agora, com certeza. O outro cara, a habilitação diz que é médico e se chama Flickinger…

— Ele também? É mesmo? — Se era, que pena. Flickinger estava em más condições, mas teve alma suficiente para tentar ajudar Nana.

— E essa não é a pior parte. Norcross e a tal Black e o resto têm armamentos pesados agora, quase tudo que poderíamos usar para fazer com que eles se rendessem.

— Nós sabemos quem estava com eles? — perguntou Frank. — Quem estava atrás do volante daquele trailer quando eles saíram daqui?

Terry inclinou a garrafinha na boca de novo, mas não havia nada dentro. Ele falou um palavrão e chutou um pedaço de asfalto quebrado.

Frank esperou.

— Um velho maluco chamado Willy Burke. — Terry Coombs expirou por entre os dentes. — Está andando na linha há quinze ou vinte anos, faz vários trabalhos comunitários, mas ainda caça ilegalmente. Também vendia bebida ilegal quando era mais novo. Talvez ainda venda. É veterano de guerra. Sabe se virar. Lila sempre fez vista grossa pra ele, achava que não valia a pena arrumar confusão e tentar pegar ele por alguma coisa. E acho que ela gostava dele. — Ele inspirou fundo. — Eu concordava.

— Certo. — Frank tinha decidido guardar segredo sobre a ligação de Black.

Aquilo o tinha enfurecido tanto que ele teria dificuldades de recontar os detalhes da conversa. Porém, uma parte ficou em sua cabeça e continuava incomodando: como a mulher o havia elogiado por proteger a filha no hospital. Como ela podia saber aquilo? Eva Black estava na cadeia naquela manhã. Isso ficava voltando à mente, e Frank afastava a lembrança. Assim como as mariposas que haviam saído do fragmento em chamas do casulo de Nana, Frank não conseguia imaginar uma explicação. Só conseguia ver que Eva Black queria irritá-lo… e conseguiu. Porém, ele não acreditava que ela entendesse o que significava irritá-lo.

De qualquer modo, Terry estava de volta e não precisava de nenhuma motivação a mais.

— Quer que eu comece a montar um grupo? Estou disposto, se for do seu agrado.

Apesar de agrado não ter nada a ver com a situação, Terry autorizou a atitude.

5

Os defensores da prisão tiraram correndo os pneus dos vários carros e picapes no estacionamento. Havia uns quarenta veículos no total, contando as vans da prisão. Billy Wettermore e Rand Quigley rolaram os pneus e os arrumaram em

pirâmides de três no espaço morto entre as cercas interna e externa, depois encharcaram de gasolina. O fedor de petróleo superou rapidamente o odor de madeira queimada e molhada do incêndio que ainda fumegava na floresta. Eles deixaram os pneus da picape de Scott Hughes, mas a estacionaram atravessada depois do portão interno, como uma barreira adicional.

— Scott ama aquela picape — disse Rand para Tig.

— Quer botar a sua no lugar da dele? — perguntou Tig.

— Porra nenhuma — disse Rand. — Está maluco?

O único veículo que ficou intocado foi o trailer de Barry Holden, posicionado na vaga de deficientes ao lado do caminho de cimento da entrada.

6

Fora Vern Rangle, Roger Elway e as policiais da delegacia, todas confirmadas como adormecidas durante a operação de Frank para catalogar as mulheres, sete policiais restavam do grupo original da xerife Lila Norcross: Terry Coombs, Pete Ordway, Elmore Pearl, Dan “Treater” Treat, Rupe Wittstock, Will Wittstock e Reed Barrows. Era um grupo sólido, na opinião de Terry. Todos eram veteranos de polícia com pelo menos um ano de serviço, e Pearl e Treater haviam servido no Afeganistão.

Com os três policiais aposentados, Jack Albertson, Mick Napolitano e Nate McGee, formavam dez.

Don Peters, Eric Blass e Frank Geary chegavam ao treze da sorte.

Frank rapidamente convocou seis outros voluntários, inclusive o treinador JT

Wittstock, pai dos policiais que tinham o mesmo sobrenome e treinador de defesa do time de futebol americano da Dooling High School; Pudge Marone, barman do Squeaky Wheel, que levou a espingarda Remington que guardava atrás do balcão do bar; Drew T. Barry, da Drew T. Barry Indenizações, vendedor de seguros e caçador de cervos vencedor de prêmios; Carson “Country Strong”

Struthers, cunhado de Pudge, que lutou até ter um recorde de 10-1 na liga amadora de boxe e o médico mandá-lo parar enquanto ainda tinha massa cinzenta; e dois integrantes do comitê da cidade, Bert Miller e Steve Pickering, os dois, assim como Drew T. Barry, conhecedores dos procedimentos na hora de

caçar um cervo. Com isso, eles eram dezenove, e quando souberam que a mulher dentro da prisão podia ter informações relacionadas à doença do sono, talvez até conhecimento da cura, todos ficaram dispostos a ajudar.

7

Terry estava satisfeito, mas queria um número redondo. A visão do rosto pálido de Vern Rangle e do pescoço estraçalhado era uma coisa que ele jamais conseguiria esquecer. Ele notava a lembrança como notava a presença de Geary, silencioso como uma sombra, acompanhando tudo que ele fazia, julgando cada escolha.

Porém, não importava. O único caminho para sair dali era em frente: passando por Norcross até Eva Black, e passando por Black até o final do pesadelo. Terry não sabia o que aconteceria quando chegassem a ela, mas sabia que seria o final. Quando o final chegasse, ele poderia trabalhar para apagar da memória o rosto exangue de Vern Rangle. Sem mencionar o rosto da esposa e da filha, que não existiam mais. Em outras palavras, fazer o cérebro se submeter à vontade dele através da bebida. Estava ciente de que Frank o estava encorajando a ingerir álcool, mas e daí? E daí, porra?

Don Peters tinha recebido a tarefa de ligar para os guardas do Instituto Penal de Dooling, e não demorou para descobrir que Norcross tinha quatro guardas trabalhando, no máximo. Um deles, Wettermore, era bicha, e outro, Murphy, tinha sido professor de história. Somando a mulher Black e o velho Burke, além de mais dois ou três sobre quem eles não sabiam, só para garantir, isso queria dizer que eles estavam contra menos de doze, sendo que provavelmente nenhum com expectativa de permanecer no posto se as coisas esquentassem, por mais armamentos que tivessem obtido.

Terry e Frank pararam na loja de bebidas da Main Street. Estava aberta e cheia de gente.

— Ela não me amava mesmo! — anunciou um tolo para a loja toda, balançando uma garrafa de gim. Ele fedia como um furão. Terry ficou tentado a dizer para o homem que não podia culpá-la, mas não teve energia.

As prateleiras estavam praticamente vazias, mas Terry encontrou duas

garrafas de gim e pagou com dinheiro que logo não valeria mais nada, ele achava, se aquela merda continuasse. Ele encheu a garrafinha com o líquido de uma garrafa, carregou a outra em um saco de papel e andou com Frank até um beco próximo. Dava em um pátio cheio de sacos de lixo e caixas de papelão moles de tanto pegar chuva. A porta do apartamento de Johnny Lee Kronsky ficava lá, no térreo, entre duas janelas com placas de plástico no lugar de vidro.

Kronsky, uma figura mítica naquela parte da West Virginia, atendeu e olhou para a garrafa no saco.

— Os que vêm com presentes podem entrar — disse ele, e pegou a garrafa.

Só havia uma cadeira na sala. Kronsky a ocupou. Bebeu metade da garrafa em dois goles enormes, o pomo de adão subindo e descendo como a boia perto da ponta de uma linha de pesca, sem prestar atenção em Terry e Frank. Havia uma televisão no mudo em uma mesa, mostrando imagens de várias mulheres encasuladas flutuando na superfície do oceano Atlântico. Elas pareciam botes salva-vidas estranhos.

E se um tubarão decidisse morder uma? , Terry se perguntou. Ele achava que, se isso acontecesse, o tubarão teria uma surpresa.

O que aquilo significava? Qual era o sentido?

Terry decidiu que o sentido podia ser gim. Ele pegou a garrafinha de Frank e tomou um gole.

— Essas mulheres são do avião grande que caiu — disse Johnny Lee. —

Interessante elas flutuarem assim, não é? Essa coisa deve ser muito leve. Como capoque, sei lá.

— Olha todas elas — disse Terry, impressionado.

— É, é, que visão. — Johnny Lee estalou os lábios.

Ele era investigador particular licenciado, mas não do tipo que ia atrás de esposas traidoras ou que solucionava mistérios. Até 2014, tinha trabalhado para a Ulysses Energy Solutions, a companhia de carvão, variando entre diversas operações, se passando por mineiro e ouvindo os boatos de organização sindical, trabalhando para minar líderes que pareciam particularmente eficientes.

Mascote das empresas, em outras palavras.

Porém, aconteceu um problema. Um problema bem grande, poderia-se dizer.

Houve um desmoronamento. Kronsky estava cuidando dos explosivos. Os três

mineiros que ficaram enterrados embaixo da pedra estavam falando alto sobre fazerem uma votação. Quase tão revelador quanto: um deles estava usando uma camiseta com o rosto de Woody Guthrie. Os advogados contratados pela Ulysses impediram que acusações fossem feitas; um acidente trágico, eles alegaram com sucesso perante o grande júri. No entanto, Kronsky foi obrigado a se aposentar.

Foi por isso que Johnny Lee voltou para Dooling, onde nasceu. Agora, no apartamento localizado em posição estratégica, dobrando a esquina da loja de bebidas, ele estava em processo de encher a cara até morrer. A cada mês, um cheque da UES chegava pelo Federal Express. Uma mulher que Terry conhecia no banco contou que a anotação no canhoto era sempre a mesma: TARIFAS. O total das TARIFAS dele não era uma fortuna, como o apartamento malcuidado provava, mas Kronsky sobrevivia com isso. A história toda era familiar para Terry porque raramente um mês se passava sem que a polícia fosse chamada até o apartamento do sujeito por um vizinho que tinha ouvido barulho de vidro quebrando; uma pedra ou tijolo jogados em uma das janelas de Kronsky, sem dúvida por sindicalistas. Johnny Lee nunca chamava a polícia. Deixava que todos soubessem que ele não estava preocupado; JL Kronsky estava cagando para o sindicato.

Uma tarde, não muito antes do início do surto da Aurora, quando Terry estava fazendo parceria com Lila na Unidade Um, a conversa se voltou para Kronsky.

Ela disse: “Alguma hora, algum mineiro descontente, provavelmente parente de um dos caras que Kronsky matou, vai estourar a cabeça dele, e o filho da puta provavelmente vai ficar feliz de morrer”.

8

— Temos um problema na prisão — disse Terry.

— Tem um problema em toda parte, chefia. — Kronsky tinha um rosto maltratado, inchado e acabado, e olhos escuros.

— Esqueça as outras partes — disse Frank. — Nós estamos aqui.

— Estou cagando para onde vocês estão — disse Johnny Lee, e acabou com a garrafa.

— Pode ser que a gente precise explodir uma coisa — disse Terry.

Barry Holden e seus amigos ladrões de delegacia tinham levado muitos armamentos, mas não haviam visto os explosivos dos irmãos Griner.

— Você sabe usar explosivo plástico, não sabe?

— Pode ser que saiba — disse Kronsky. — O que eu ganho com isso, chefia?

Terry fez uns cálculos.

— Estou pensando uma coisa. Pudge Marone do Squeaky está com a gente, e acho que ele vai deixar você pendurar sua conta para o resto da vida. — E Terry achava que isso não duraria muito tempo.

— Hum — disse Johnny Lee.

— E claro que também é uma chance de você fazer um grande serviço à sua cidade.

— Dooling pode ir se foder — respondeu Johnny Lee Kronsky —, mas, mesmo assim… por que não? Por que não, porra?

Isso fez com que eles chegassem a vinte.

9

O Instituto Penal de Dooling não tinha torres de guarda. Tinha um telhado plano impermeabilizado, com ventilação, dutos e canos de exaustão. Não havia muita cobertura além de uns quinze centímetros de beirada de tijolos. Depois de avaliar esse telhado, Willy Burke disse para Clint que gostava da perspectiva de trezentos e sessenta graus da área toda, mas gostava ainda mais das próprias bolas.

— Não tem nada aqui que poderia parar uma bala. Que tal aquele abrigo ali?

— O velho apontou para baixo.

Apesar de levar o nome de BARRACÃO DE EQUIPAMENTOS nas plantas da prisão, era um balcão básico de guardar coisas, como o cortador de grama que as detentas (as de confiança) usavam para cuidar do campo de softball, além de ferramentas de jardinagem, equipamento esportivo e pilhas de jornais e revistas mofados presos com barbante. Porém, o mais importante era que a construção era de blocos de cimento.

Eles deram uma olhada. Clint arrastou uma cadeira para trás do barracão, e Willy se sentou lá, embaixo da proteção do telhado.

Daquela posição, um homem ficaria protegido da visão de qualquer um da cerca, mas ainda estaria visível da linha de fogo que ficava entre o barracão e a prisão.

— Se eles vierem só de um lado, eu devo ficar bem — disse Willy. — Vou ver eles com o canto do olho e me proteger.

— E dos dois lados ao mesmo tempo? — perguntou Clint.

— Se eles fizerem isso, estarei de olho.

— Você precisa de ajuda. De suporte.

— Quando você diz isso, doutor, me faz desejar que eu tivesse ido mais à igreja na juventude.

O sujeito idoso olhou para ele com simpatia. Desde que tinha chegado à prisão, a única explicação que ele pediu a Clint foi a garantia de que a resistência que eles estavam preparando era o que Lila iria querer. Clint respondeu que sim na mesma hora, embora, naquele estágio, não tivesse mais certeza se Lila realmente iria querer. Parecia que Lila tinha ido embora havia anos.

Clint tentou oferecer a mesma simpatia, um pouco de savoir faire despreocupado na hora de encarar o inimigo, mas o que restava do senso de humor dele pareceu ter caído pela traseira do trailer de Barry Holden junto com Gerda Holden e Garth Flickinger.

— Você foi ao Vietnã, não foi, Willy?

Willy levantou a mão esquerda. A pele da palma estava toda marcada por tecido cicatricial.

— Na verdade, ainda tem algumas partes de mim lá.

— Como foi? — perguntou Clint. — Quando você estava lá? Deve ter perdido muitos amigos.

— Ah, perdi — disse Willy. — Eu perdi amigos. Quanto a como foi, eu praticamente só sentia medo. Confusão. O tempo todo. É assim que você está se sentindo agora?

— É — admitiu Clint. — Eu não fui treinado para isso.

Eles ficaram ali, na luz leitosa da tarde. Clint se perguntou se Willy percebia o que o psiquiatra estava realmente sentindo: um pouco de medo e confusão, era verdade, mas também empolgação. Certa euforia contagiava os preparativos, a perspectiva de despejar a frustração, consternação, perda e impossibilidade de tudo na ação. O próprio Clint notava o que estava acontecendo, uma injeção de adrenalina agressiva tão antiga quanto os símios.

Ele disse para si mesmo que não devia estar pensando assim, e talvez não devesse mesmo, mas a sensação era boa. Era como se um cara igualzinho a ele, dirigindo um conversível com a capota fechada, tivesse parado ao lado do velho Clint em um sinal, assentido uma vez em reconhecimento tranquilo e, ao surgir o sinal verde, seu sósia tivesse enfiado o pé no acelerador, e o velho Clint tivesse ficado olhando enquanto ele partia em disparada. O novo Clint tinha que correr porque estava participando de uma missão, e participar de uma missão era bom.

Enquanto estavam seguindo para os fundos da prisão, Willy contou para ele sobre as mariposas e as pegadas brancas que tinha visto perto do trailer de Truman Mayweather. Milhões de mariposas, ao que parecia, cobrindo os galhos das árvores, voando em bandos sobre a copa da floresta.

— Eram dela? — Como todo mundo, Willy tinha ouvido os boatos. —

Daquela mulher que está aqui?

— Eram — disse Clint. — E não é nem a metade da história.

Willy disse que não duvidava.

Eles arrastaram uma segunda cadeira e deram uma automática para Billy Wettermore. Tinha sido convertida (se de forma legal ou não, Clint não sabia e nem se importava) a totalmente automática. Isso deixou um homem em cada ponta do barracão. Não era perfeito, mas era o melhor que eles podiam fazer.

10

Atrás da mesa principal da delegacia, o corpo de Linny Mars estava encasulado no chão com o laptop ao lado ainda exibindo o vídeo do Vine com a queda da London Eye. A Terry, parecia que ela tinha deslizado da cadeira quando finalmente adormeceu. Ela estava caída de qualquer jeito, bloqueando parcialmente o corredor que levava às áreas oficiais do local.

Kronsky passou por cima dela e andou pelo corredor, procurando o armário das provas. Terry não gostou disso.

— Ei, você reparou que tem uma pessoa aqui? No chão?

— Tudo bem, Terry — disse Frank. — Vamos cuidar dela.

Eles carregaram Linny até uma cela e a colocaram com delicadeza em um colchão. Ela não tinha adormecido havia muito tempo. As teias nos olhos e na boca estavam finas. Os lábios estavam retorcidos em uma expressão de felicidade delirante. Quem ia saber o motivo? Talvez só porque a luta para ficar acordada tinha acabado.

Terry tomou outro gole. Baixou a garrafinha, e a parede da cela partiu para cima dele. Ele esticou a mão para segurá-la. Depois de um momento, conseguiu ficar ereto de novo.

— Estou preocupado com você — disse Frank. — Você está… exagerando na medicação.

— Estou ótimo. — Terry balançou a mão para afastar uma mariposa que voava perto do seu ouvido. — Você está feliz de estarmos nos armando, Frank? Era isso que você queria, não era?

Frank lançou a Terry um olhar demorado. Não foi nem um pouco ameaçador, totalmente vazio. Ele olhou para Terry da forma como crianças olhavam para telas de televisão, como se tivessem saído do corpo.

— Não — disse Frank. — Eu não diria que estou feliz. É o trabalho, só isso. O

que temos para encarar.

— Você sempre diz isso para si mesmo antes de dar porrada em alguém? —

perguntou Terry, genuinamente interessado, e ficou surpreso quando Frank se encolheu, como se tivesse levado um tapa.

Kronsky estava na sala de espera quando eles saíram. Tinha encontrado o explosivo plástico e um amontoado de dinamite que alguém havia achado em uma cascalheira perto da propriedade Griner e entregado para a polícia. Johnny Lee não pareceu aprovar.

— Essa dinamite não tinha que estar aqui, pessoal. Está sujeita a humores.

Mas o C4… — Ele balançou o explosivo e fez Frank contrair o rosto. — Dava para passar um caminhão por cima e nada aconteceria.

— Então você quer deixar a dinamite? — perguntou Terry.

— Jesus, não. — Kronsky pareceu ofendido. — Eu amo dinamite. Sempre amei. Dinamite é coisa clássica. A gente só precisa embrulhar em um cobertor.

Ou talvez a Bela Adormecida ali tenha um suéter grosso no armário dela. Ah, e vou precisar buscar algumas coisas na loja de material de construção. A delegacia

de polícia tem conta lá, imagino.

Antes de Terry e Frank saírem, eles arrumaram uma bolsa esportiva cheia de armas e munição que não tinham sido levadas, e carregaram todos os coletes e capacetes que conseguiram reunir. Não havia muita coisa, mas a força civil (não fazia sentido chamar de outra coisa) levaria armamento em quantidade de casa.

Linny não tinha deixado suéter nenhum no armário, então Johnny Lee enrolou a dinamite em duas toalhas do banheiro. Ele segurou contra o peito como se estivesse carregando um bebê.

— Está ficando tarde para qualquer tipo de ataque — observou Frank. — Se é que vamos chegar a isso.

Terry disse:

— Eu sei. Vamos reunir os rapazes esta noite, cuidar para que todos saibam o que é o que e quem está no comando. — Ele olhou diretamente para Frank quando disse isso. — Vamos requisitar dois ônibus escolares da cidade e vamos estacionar eles no cruzamento da Route 31 com a West Lavin, onde estava o bloqueio, para que ninguém precise dormir ao relento. Vamos deixar seis ou oito de guarda, no… você sabe… — Ele fez um círculo no ar.

Frank o ajudou.

— No perímetro.

— É, isso. Se tivermos que invadir, vamos amanhã de manhã, pelo leste.

Vamos precisar de buldôzeres para derrubar o muro. Envie Pearl e Treater para pegarem dois no pátio dos serviços públicos. As chaves ficam no trailer de lá.

— Ótimo — disse Frank, porque era mesmo. Ele não teria pensado nos buldôzeres.

— Amanhã logo cedo nós derrubamos as cercas e entramos no prédio principal pelo estacionamento. Assim, o sol vai estar nos olhos deles. O primeiro passo vai ser forçar eles para dentro, para longe das portas e janelas. O segundo passo vai ser Johnny Lee explodindo as portas de entrada, e estaremos dentro.

Vamos pressionar para que entreguem as armas. Nesse ponto, acho que vão entregar. Vamos mandar alguns para a parte de trás, para garantir que não fujam.

— Faz sentido — disse Frank.

— Mas, primeiro…

— Primeiro?

— Nós vamos falar com Norcross. Esta noite. Cara a cara, se ele for homem o bastante. Vamos oferecer a ele uma chance de entregar a mulher antes que aconteça alguma coisa irreversível.

Os olhos de Frank expressavam o que ele sentia.

— Eu sei o que você está pensando, Frank, mas, se ele for um homem razoável, vai ver que é a coisa certa. Ele é responsável por mais vidas do que a dela, afinal.

— E se mesmo assim ele disser não?

Terry deu de ombros.

— Nós entramos e pegamos ela.

— Aconteça o que acontecer?

— Isso mesmo, aconteça o que acontecer. — Eles saíram, e Terry trancou as portas duplas da delegacia.

11

Rand Quigley pegou a caixa de ferramentas e passou duas horas remexendo e martelando a pequena janela reforçada por arame embutida na parede de concreto da sala de visitas.

Tig Murphy estava sentado ali perto, tomando uma coca e fumando um cigarro. A proibição de fumar tinha sido anulada.

— Se você fosse um detento — disse ele —, isso daria mais cinco anos à sua sentença.

— Ainda bem que eu não sou detento, né?

Tig jogou as cinzas no chão e decidiu não dizer o que estava pensando: se estar trancafiado significava que a pessoa era detenta, eles eram detentos agora.

— Cara, esse lugar foi feito no capricho, hein?

— Aham. Como se fosse uma prisão — disse Rand.

— Ha-ha-ha.

Quando o vidro finalmente caiu, Tig bateu palmas.

— Obrigado, senhoras e senhores — disse Rand, imitando Elvis. — Muito obrigado.

Com a janela removida, Rand podia ficar em cima da mesa que eles haviam colocado embaixo como plataforma de tiro e enfiar a arma pelo buraco. Aquele era o ponto dele, com ângulos limpos para o estacionamento e o portão de entrada.

— Eles acham que nós somos uns fracos — disse Rand. — Mas nós não somos.

— Isso mesmo, Rand.

Clint colocou a cabeça pela porta da sala.

— Tig. Comigo.

Os dois subiram a escada até o andar de cima da Ala B. Era o ponto mais alto da prisão, o único segundo andar da estrutura. Havia janelas nas celas viradas para a West Lavin. Eram ainda mais fortes do que a janela da sala de visitas: grossas, reforçadas, presas entre camadas de concreto. Era difícil imaginar Rand derrubando uma da parede só com as ferramentas manuais.

— Nós não temos como defender este lado — disse Tig.

— Não — respondeu Clint —, mas é um posto de observação excelente, e nós não precisamos defender, certo? Não tem entrada por aqui.

Isso pareceu indiscutível para Clint e para Scott Hughes também, que estava relaxando algumas celas depois e ouvindo tudo.

— Tenho certeza de que vocês vão acabar morrendo de uma forma ou de outra, e não vou chorar quando acontecer — gritou ele —, mas o médico de cabeça está certo. Seria preciso usar uma bazuca para abrir um buraco nessa parede.

12

No dia em que dois grupos adversários de homens de Dooling se armaram, se preparando para fazer guerra, menos de cem mulheres ainda estavam acordadas nos Três Condados. Uma delas era Eva Black; uma era Angel Fitzroy; uma era Jeanette Sorley.

Vanessa Lampley era uma quarta. Mais cedo, seu marido finalmente havia adormecido na poltrona, permitindo que Van fizesse o que ela tinha decidido fazer. Desde que tinha voltado da prisão depois de atirar em Ree Dempster,

Tommy Lampley tentou ficar acordado com ela pelo máximo de tempo que conseguisse. Van ficou feliz de ter companhia. Porém, um programa de competição culinária o derrubou, levando-o à terra dos sonhos com um tutorial sobre gastronomia molecular. Van esperou para ter certeza de que ele estava dormindo profundamente para sair. Ela não ia permitir que o marido, dez anos mais velho do que ela, com quadris de titânio e sofrendo de angina, ficasse com a tarefa inclemente de cuidar do corpo dela pelos anos que restassem a ele. E Van também não tinha interesse nenhum em se tornar a peça de mobília mais deprimente do mundo.

Mesmo cansada como estava, seus pés ainda estavam leves, e ela saiu sorrateiramente da sala sem perturbar o sono dele. Na garagem, pegou um rifle de caça e o carregou. Abriu a porta, ligou o quadriciclo e saiu.

Seu plano era simples: atravessar a floresta até o cume acima da estrada, respirar ar puro, apreciar a vista, escrever um bilhete para o marido e apontar o cano para debaixo do queixo. Pelo menos ela não tinha filhos com quem se preocupar.

Ela foi devagar porque estava com medo de bater em razão do cansaço que sentia. Os pneus pesados do quadriciclo faziam todas as raízes e pedras pelas quais passava gerarem uma dor pelos braços grossos e até os ossos. Van não se importou. A chuva fina também não era problema. Apesar da exaustão, os pensamentos se arrastando, ela estava intensamente ciente de todas as sensações físicas. Teria sido melhor morrer sem saber que ia morrer, Ree? Van podia fazer a pergunta, mas seu cérebro não conseguia processá-la de maneira a gerar uma resposta satisfatória. Qualquer resposta se dissolvia antes de conseguir se formar.

Por que a sensação era tão ruim se ela havia atirado em uma detenta que teria matado outra, caso contrário? Por que a sensação era tão ruim se ela só tinha feito o trabalho dela? Essas respostas também não se formavam, não conseguiam nem começar a se formar.

Van chegou ao topo do cume. Desligou o quadriciclo e desceu dele. Ao longe, na direção da prisão, uma névoa preta pairava acima do dia que acabava, resíduo úmido do incêndio da floresta que tinha se extinguido sozinho. Logo abaixo, a terra descia em uma inclinação longa e suave. Na base dela havia um riacho lamacento, que crescia com a chuva. Acima do riacho, a algumas dezenas de

metros, havia uma cabana de caça com telhado coberto de musgo. Uma fumacinha saía pelo cano da chaminé.

Ela tateou os bolsos e percebeu que tinha se esquecido completamente de papel e alguma coisa com que escrever. Van teve vontade de rir (suicídio não era uma coisa tão complexa, era?), mas um suspiro foi o melhor que conseguiu.

Não havia nada a fazer, e seu raciocínio não devia ser tão difícil de entender.

Se ela fosse encontrada, claro. E se alguém se importasse. Van tirou o rifle das costas.

A porta da cabana se abriu de repente quando ela estava posicionando o cano da arma na base do queixo.

— É melhor que ele ainda tenha aquele tubo de explosivo — disse um homem, a voz se espalhando alta e clara —, ou vai desejar que aquele apanhador de cachorros tivesse acabado com ele. Ah, e traz o rádio. Quero acompanhar o que a polícia está fazendo.

Van baixou o rifle e viu os dois homens entrarem em uma picape Silverado brilhante e se afastarem. Ela tinha certeza de que os conhecia, e com a aparência deles (de ratos de floresta experientes e sorrateiros), não era de nenhuma cerimônia de premiação da Câmara de Comércio. Os nomes teriam lhe ocorrido imediatamente se ela não estivesse tão privada de sono. Sua mente parecia cheia de lama. Ela ainda conseguia sentir o sacolejo do quadriciclo, apesar de não estar mais em movimento. Pontinhos fantasma de luz disparavam pela visão dela.

Quando a picape sumiu, ela decidiu visitar a cabana. Haveria alguma coisa em que escrever lá dentro, mesmo que fosse o verso de um calendário de algum ano que já tinha passado.

— E vou precisar de alguma coisa com que prender o papel na minha blusa —

disse ela.

Sua voz soou rouca e estrangeira. A voz de outra pessoa. E havia outra pessoa de pé bem ao lado dela. Só que, quando ela virou a cabeça, a pessoa tinha sumido. Isso estava acontecendo cada vez mais: observadores se esgueirando nas extremidades de sua visão. Alucinações. Quanto tempo dava para ficar acordada antes que todos os pensamentos racionais sumissem e você ficasse completamente louca?

Van montou no quadriciclo e o dirigiu pela crista até o terreno descer e ela

conseguir percorrer o caminho irregular que levava até a cabana.

O local tinha cheiro de feijão, cerveja, carne de cervo frita e peidos de homem. Pratos lotavam a mesa, a pia estava ocupada por mais, e havia panelas sujas no fogão à lenha. Na prateleira acima da lareira, havia a foto de um homem sorridente com uma picareta no ombro e um chapéu surrado de caipira tão enfiado na cabeça que a aba encostava nas orelhas. Ao olhar para a foto em tom de sépia, Vanessa se deu conta de quem tinha visto, porque seu pai tinha mostrado para ela o homem naquela foto quando ela tinha no máximo doze anos. Ele estava indo para o Squeaky Wheel.

— Aquele ali é Big Lowell Griner — disse seu pai —, e quero que você fique longe dele, querida. Se ele disser oi pra você, responda com outro oi, o dia não está lindo?, e siga em frente.

Então aqueles dois eram os filhos imprestáveis de Big Lowell. Maynard e Little Low Griner, bem pomposos e dirigindo uma picape nova quando deviam estar na cadeia em Coughlin, esperando julgamento, entre outras coisas, por um assassinato que Kitty McDavid tinha presenciado e no qual aceitou testemunhar.

Em uma parede forrada de pinho do corredor curto que devia levar aos quartos da cabana, Van viu um caderno velho pendurado em um barbante. Uma folha de papel daquele caderno serviria perfeitamente para um bilhete de suicídio, mas ela de repente decidiu que queria ficar acordada e viva ao menos mais um pouco. Ela saiu, feliz de escapar do fedor, e dirigiu o quadriciclo para longe da cabana o mais rápido que ousou. Depois de um quilômetro e meio mais ou menos, o caminho acabava em uma das muitas estradas de terra de Dooling. Havia poeira pairando à esquerda; não muito, por causa da chuva leve, mas suficiente para ela saber para que lado os fugitivos tinham virado. Eles estavam com uma boa vantagem quando ela chegou à Route 7, mas o terreno ali era inclinado para baixo e aberto, o que facilitava que ela visse a picape, diminuída ao longe, mas claramente a caminho da cidade.

Van deu um tapa forte em cada bochecha e foi atrás. Estava toda molhada agora, mas o frio ajudaria a mantê-la acordada por mais um tempo. Se ela estivesse fugindo de uma acusação de assassinato, já estaria a caminho da Georgia agora. Mas não aqueles dois; eles estavam voltando para a cidade, sem

dúvida para fazer alguma coisa ruim, como era da natureza deles. Ela queria saber o que era e talvez impedir que acontecesse.

Compensar pelo que tinha feito a Ree não estava fora de questão.

11

1

Fritz Meshaum não queria entregar a bazuca, ao menos não sem pagamento.

Porém quando May o pegou com firmeza pelos ombros e Low torceu seu braço direito quase até as omoplatas, ele mudou de ideia e levantou um alçapão no chão da cabana em ruínas, revelando o tesouro atrás do qual os irmãos Griner tinham ido.

Little Low esperava que fosse verde, como as dos filmes da Segunda Guerra Mundial, mas a bazuca de Fritz estava pintada de preto fosco, com um número de série comprido na lateral e aquelas letras russas engraçadas embaixo. Um aro de ferrugem envolvia a boca. Ao lado dela havia uma bolsa com doze rojões com mais palavras em russo escritas em estêncil. Também havia oito ou dez rifles e umas vinte armas menores, a maioria semiautomática. Os irmãos prenderam algumas no cinto. Não havia nada como pistolas no cinto de um homem para fazê-lo sentir que tinha o domínio da situação.

— Que coisa é aquela? — perguntou May, apontando para um quadrado preto e brilhante de plástico acima do gatilho da bazuca.

— Sei lá — disse Fritz, olhando. — Algum tipo de tela de inventário para quem quer controlar o uso, provavelmente.

— Tem palavras em inglês ali — disse May.

Fritz deu de ombros.

— E daí? Eu tenho um boné John Deere com umas merdas chinesas na etiqueta. Todo mundo vende coisas pra todo mundo. Graças aos judeus, é assim que o mundo funciona. Os judeus, eles…

— Deixa os malditos judeus pra lá — disse Little Low. Se ele deixasse Fritz começar a falar sobre os judeus, ele logo partiria para falar sobre o governo federal, e eles ficariam agachados em volta daquela porra de buraco no chão pelo resto da primavera. — Só quero saber se funciona. Se não funcionar, diga logo, para não voltarmos aqui e arrancarmos seu saco.

— Acho que a gente devia arrancar o saco dele de qualquer jeito, Low — disse May. — É o que eu acho. Aposto que é pequeno.

— Funciona, funciona — disse Fritz, presumivelmente falando sobre a bazuca, e não sobre o saco. — Agora me solta, seu merda.

— Que boca ele tem, não é, irmão? — observou Maynard.

— É — disse Little Low. — Tem mesmo. Mas vamos perdoar desta vez. Pega umas arminhas dessas aí.

— Não são arminhas — disse Fritz, com indignação. — São automáticas do exército…

— Seria bom se você calasse a boca — disse Low —, e o que é bom pra mim é bom pra você. Nós já vamos, mas se essa sua bazuca não funcionar, nós vamos voltar e fazer com que desapareça pelo seu cu frouxo até o gatilho.

— Sim, senhor, isso aí! — exclamou May. — Quero ver você tentar cagar depois dessa!

— O que você vai fazer com meu canhão?

Little Low Griner deu um sorriso gentil.

— Já chega, e não se preocupe com o que não é da sua conta.

2

Do alto de uma colina, a quatrocentos metros, Van Lampley observou a Silverado parar no pátio escabroso de Fritz Meshaum. Observou os Griner saírem e voltarem até a picape roubada alguns minutos depois carregando coisas, sem dúvida mais coisas roubadas, que colocaram na caçamba. Em seguida, eles partiram, mais uma vez na direção de Dooling. Ela pensou em entrar na casa de Meshaum depois que eles saíram, mas, em seu estado atual, ela se sentia incapacitada para fazer perguntas coerentes. E ela precisava mesmo? Todo mundo em Dooling sabia que Fritz Meshaum era apaixonado por qualquer coisa

que tivesse gatilho e atirasse. Os irmãos Griner tinham feito uma parada para se armarem. Era tão claro quanto o nariz no meio da cara dela.

Continuar: parte 9 de 12