Belas adormecidas

Stephen King, Owen King · Capítulo 3 de 6 · parte 9/12

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Belas adormecidas

Parte dois: Vou dormir quando morrer

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

Bom, ela tinha uma arma, o .30-.06 de sempre. Não devia ser muita coisa em comparação ao que havia na caçamba daquela picape roubada, mas e daí? Ela tinha mesmo alguma coisa a perder que não estivesse planejando uma hora antes entregar para o universo? — Querem se meter comigo, rapazes? — disse Van, ligando o quadriciclo e acelerando (um erro, pois ela não se deu ao trabalho de verificar a quantidade de gasolina que ainda havia no tanque do Suzuki antes de sair de casa). — Por que a gente não vê quem se mete com quem?

3

Os Griner ficaram ouvindo o rádio da polícia em intervalos durante os dias que tinham passado na cabana, mas ouviram direto no caminho até a cidade, porque a banda da polícia estava enlouquecida. As transmissões e conversas não significavam muito para Maynard, cujo cérebro raramente saía da primeira marcha, mas Lowell pegou o assunto geral.

Alguém, um grupo de pessoas, na verdade, havia pegado um monte de armas no arsenal da delegacia, e a polícia ficara furiosa como vespas depois que alguém mexe no vespeiro. Pelo menos dois dos ladrões tinham sido mortos, um policial também havia morrido, e o resto da gangue tinha escapado em um trailer enorme. Eles levaram as armas roubadas para a prisão feminina. A polícia também ficou falando de uma mulher que queria tirar do local, e parecia que os ladrões de armas queriam ficar com ela. Low não conseguiu acompanhar essa parte. E também não ligava. Só ligava de a polícia ter reunido uma força civil armada e estar se preparando para um grande confronto, talvez na manhã seguinte, e que planejava o ponto de encontro para a interseção da Route 31 com a West Lavin Road. Isso queria dizer que a delegacia ficaria sem defesa. Também deu a Lowell uma brilhante ideia de como eles poderiam pegar Kitty McDavid.

— Low?

— O que, irmão?

— Não consigo entender quem está no comando no meio dessa falação.

Alguns dizem que o policial Coombs assumiu o lugar da puta da Norcross, e alguns dizem que foi um cara chamado Frank. Quem é Frank?

— Não sei e não ligo — disse Little Low. — Mas quando chegarmos na cidade, fique de olhos abertos procurando um garoto sozinho.

— Que garoto, irmão?

— Um com idade suficiente para andar de bicicleta e espalhar uma história —

disse Low na hora que a Silverado roubada passou pela placa que dizia BEM-VINDOS A DOOLING, UM ÓTIMO LUGAR PARA A SUA FAMÍLIA.

4

O quadriciclo Suzuki conseguia fazer noventa e cinco quilômetros por hora em estrada aberta, mas com a noite caindo e os reflexos prejudicados, Van não ousava passar de sessenta e cinco. Quando passou pela placa de BEM-VINDOS A DOOLING, a Silverado transportando os irmãos Griner já tinha desaparecido.

Talvez ela os tivesse perdido, mas talvez não. A Main Street estava quase deserta, e ela esperava ver o veículo lá, estacionado ou rodando lentamente enquanto os meninos maus procuravam alguma coisa que valesse a pena pegar. Se ela não os visse, achava que o melhor que podia fazer era ir até a delegacia e denunciá-los para quem estivesse de serviço. Seria uma espécie de anticlímax para uma mulher torcendo para fazer uma coisa boa que compensasse um tiro pelo qual ainda se sentia mal, mas era como seu pai sempre dizia: às vezes, temos o que queremos, mas na maior parte das vezes, temos só o que dá para ter.

O começo do centro da cidade propriamente dito era marcado pelo Barb’s Beauty Salon and Hot Nails de um lado e pela Ace Hardware (visitada recentemente por Johnny Lee Kronsky em busca de ferramentas, fios e pilhas) do outro. Foi entre esses dois estabelecimentos comerciais que o quadriciclo de Vanessa engasgou duas vezes, soltou um estouro pelo escapamento e morreu.

Ela verificou o mostrador de combustível e viu o ponteiro apontando para o E.

Não era o final perfeito para uma porra de dia perfeito?

Havia um Zoney’s a um quarteirão onde ela poderia comprar alguns galões de gasolina, supondo que houvesse alguém atendendo no local. Porém, estava escurecendo, os malditos Griner podiam estar em qualquer lugar, e andar um quarteirão parecia um esforço enorme no estado em que ela se encontrava.

Talvez fosse melhor acabar logo com tudo, como tinha planejado fazer mais cedo… Só que ela não tinha se tornado campeã estadual de queda de braço por desistir quando as coisas ficavam difíceis, certo? E não era nisso que ela estava pensando? Em desistir?

— Só quando minha mão tiver tocado na porra da mesa — disse Van para o quadriciclo parado, e saiu andando pela calçada deserta até a delegacia de polícia.

5

O estabelecimento em frente à delegacia era a Drew T. Barry Indenizações, e o proprietário, naquele momento, estava na West Lavin Road com o resto da força civil. Low estacionou a Silverado atrás da loja, em uma vaga marcada com RESERVADO PARA FUNCIONÁRIO DA BARRY, TODOS OS OUTROS SERÃO REBOCADOS. A porta dos fundos estava trancada, mas duas batidas com o ombro forte de May resolveram isso. Low o seguiu para dentro, arrastando o garoto que eles tinham encontrado andando de bicicleta perto do boliche. O garoto em questão era Kent Daley, integrante do time de tênis da escola e amigo íntimo de Eric Blass. A bicicleta de Kent estava agora na caçamba da Silverado. Ele estava choramingando, apesar de ser velho demais para esse tipo de comportamento; Low acreditava que choramingar não era problema para garotas adolescentes, mas garotos deviam começar a se segurar aos dez anos e acabar com esse hábito até os doze. Porém, estava disposto a dar um desconto para aquele. Afinal, ele devia achar que seria estuprado e assassinado.

— Você precisa calar a boca, meu jovem — disse ele. — Você vai ficar bem se se comportar.

Ele empurrou Kent até o aposento da frente, cheio de mesas e pôsteres dizendo que a apólice de seguro certa podia salvar sua família de uma vida de pobreza. Na vitrine, virada para o bairro comercial vazio, o nome de Drew T.

Barry estava impresso ao contrário em letras douradas altas. Quando Low olhou para fora, viu uma mulher andando lentamente pela calçada do outro lado. Não era muito bonita, era corpulenta, com corte de cabelo de lésbica, mas ver qualquer mulher no momento era uma raridade. Ela olhou para o

estabelecimento de Barry, mas, sem luzes acesas, não conseguiu ver nada além do reflexo dos postes da rua, que tinham acabado de se acender. Ela subiu os degraus da delegacia e tentou usar a porta. Trancada. E isso não é a cara da polícia de uma cidade pequena? , pensou Low. Trancar a porta da frente depois que armas são roubadas. Agora, ela estava tentando o interfone.

— Moço? — choramingou Kent. — Eu quero ir pra casa. Pode ficar com minha bicicleta.

— A gente pode ficar com o que a gente quiser, seu babaquinha espinhento —

disse May.

Low torceu o pulso do garoto, fazendo-o gritar.

— Qual é a dificuldade de entender uma ordem de calar a boca? Mano, vá buscar o sr. Bazuca. E a munição.

May saiu. Low se virou para o garoto.

— A identidade na sua carteira diz que seu nome é Kent Daley e que você mora na Juniper Street número 15. É isso mesmo?

— Sim, senhor — disse o garoto, limpando o catarro do nariz na parte de trás da mão. — Kent Daley, e não quero confusão. Só quero ir pra casa.

— Você está com um problemão, Kent. Meu irmão é um sujeito maluco. Não tem nada que ele ame mais do que destruir um ser humano. O que você fez, o que provocou esse azar todo pra você, na sua opinião?

Kent lambeu os lábios e piscou rápido. Abriu a boca e fechou.

— Você fez mesmo alguma coisa. — Low riu; a culpa era hilária. — Quem está em casa?

— Minha mãe e meu pai. Só que minha mãe está, você sabe…

— Tirando uma sonequinha, é? Ou uma soneca enorme?

— Sim, senhor.

— Mas seu pai está bem?

— Sim, senhor.

— Você quer que eu vá até o número 15 da Juniper Street e dê um tiro na cabeça do seu pai?

— Não, senhor — sussurrou Kent. Lágrimas escorriam pelas bochechas pálidas.

— Não, claro que não quer, mas vou fazer isso se você não fizer o que eu

mandar. Você vai fazer o que eu mandar?

— Sim, senhor. — Nem um sussurro agora, só uma brisa pelos lábios do garoto.

— Quantos anos você tem, Kent?

— De-de-dezessete.

— Jesus, quase idade suficiente para votar e chorando como um bebê. Pare com isso.

Kent se esforçou.

— Você consegue andar bem rápido naquela bicicleta, né?

— Acho que sim. Eu ganhei os 40K dos Três Condados ano passado.

Little Low não sabia o que eram os 40K e não ligava.

— Você sabe onde a Route 31 cruza com a West Lavin Road? A estrada que leva à prisão?

Maynard tinha voltado com a bazuca e a munição. Do outro lado da rua, a mulher forte tinha desistido do interfone e estava voltando pelo caminho que tinha feito com a cabeça baixa. O chuvisco finalmente tinha parado.

Low sacudiu Kent, que estava olhando para a bazuca com fascinação temerosa.

— Conhece a estrada?

— Sim, senhor.

— Que bom. Tem uns homens lá, e vou dizer uma mensagem. Você vai dar o recado para o homem chamado Terry ou para o homem chamado Frank, ou para os dois. Agora, escute.

6

Terry e Frank estavam, naquele momento, saindo da Unidade Um e se aproximando do portão duplo do Instituto Penal de Dooling, onde Clint e outro homem os esperavam. Dez pessoas da força civil estavam reunidas no cruzamento; o resto tinha assumido posições em volta da prisão, no que Terry chamava de rosa dos ventos: norte, nordeste, leste, sudeste, sul, sudoeste, oeste e noroeste. Havia mato, e estava úmido, mas nenhum dos homens pareceu se importar. Eles eram movidos pela adrenalina.

E vão ficar assim até o primeiro levar uma bala e começar a gritar, pensou Terry.

A picape alterada de alguém estava bloqueando o portão interno. O espaço morto tinha sido preenchido com pneus, que estavam encharcados de gasolina, pelo cheiro. Não foi uma estratégia ruim. Terry quase admirou o que tinham feito. Ele apontou a lanterna para Norcross e para o homem barbado de pé ao lado dele.

— Willy Burke — disse Terry. — Lamento ver você aqui.

— E eu lamento ver você aqui — respondeu Willy. — Fazendo o que não devia estar fazendo. Ultrapassando sua autoridade. Bancando o justiceiro. — Ele tirou o cachimbo do bolso do macacão e começou a enchê-lo.

Terry nunca teve certeza se Norcross era doutor ou só senhor, então decidiu usar o primeiro nome.

— Clint, isso já quase passou do ponto da conversa. Um dos meus policiais foi morto. Vern Rangle. Acho que você conhecia ele.

Clint suspirou e balançou a cabeça.

— Conhecia e lamento. Ele era um bom homem. Espero que você lamente da mesma forma a morte de Garth Flickinger e Gerda Holden.

— A morte da garota Holden foi um ato de legítima defesa — disse Frank. —

Ela estava arrancando a garganta do policial Rangle.

— Eu quero falar com Barry Holden — disse Clint.

— Ele está morto — disse Frank. — E a culpa é sua.

Terry se virou para Frank.

— Você tem que me deixar cuidar disso.

Frank levantou as mãos e recuou. Ele sabia que Coombs estava certo, ali estava seu temperamento fazendo com que perdesse o controle, mas o odiava por isso mesmo assim. O que sentia vontade era de pular a cerca, que se danasse o arame farpado no alto, e bater a cabeça daqueles filhos da puta uma na outra. A voz provocadora de Evie Black ainda estava na cabeça dele.

— Clint, me escute — disse Terry. — Estou disposto a aceitar que os dois lados têm culpa e estou disposto a garantir que nenhuma acusação será feita a nenhum de vocês aqui se você me deixar levar a mulher agora.

— Barry está mesmo morto? — perguntou Clint.

— Está — respondeu o xerife em exercício. — Ele também atacou Vern.

Willy Burke esticou a mão e segurou o ombro de Clint.

— Vamos falar sobre Evie — disse Clint. — O que exatamente vocês planejam fazer com ela? O que podem fazer? Terry pareceu perdido, mas Frank estava pronto e falou com segurança.

— Nós vamos levar ela para a delegacia. Enquanto Terry estiver interrogando ela, vou reunir rapidamente uma equipe de médicos do hospital estadual.

Juntando a polícia e os médicos, nós vamos descobrir o que ela é, o que fez com as mulheres e se pode ou não resolver.

— Ela diz que não fez nada — disse Clint, olhando ao longe. — Diz que é só a emissária.

Frank se virou para Terry.

— Quer saber? Esse homem só fala merda.

Terry lançou a ele um olhar de reprovação (ainda que com os olhos um pouco vermelhos), e Frank mais uma vez levantou as mãos e recuou.

— Você não tem um único médico aí dentro — disse Terry —, e não tem médicos assistentes para chamar porque eu lembro que as duas são mulheres e já devem estar em casulos. Então, no fim das contas, você não está fazendo exame nenhum nela, só está prendendo…

— Segurando ela — rosnou Frank.

— … e ouvindo o que ela diz…

— Acreditando em tudo, você quer dizer! — gritou Frank.

— Fica quieto, Frank. — Terry falou com controle, mas quando se virou para Clint e Willy, suas bochechas estavam vermelhas. — Mas ele está certo. Vocês estão acreditando. Engolindo tudo, por assim dizer.

— Você não entende — disse Clint. Ele parecia cansado. — Ela não é uma mulher, ao menos não no sentido que entendemos. Acho que ela não é totalmente humana. Tem certas habilidades. Consegue convocar ratos, disso tenho certeza. Eles fazem o que ela quer. Foi assim que ela pegou o celular de Hicks. Todas aquelas mariposas que as pessoas estão vendo na cidade também têm a ver com ela, e ela sabe das coisas. Coisas que não tem como saber.

— Você está dizendo que ela é uma bruxa? — perguntou Terry. Ele pegou a garrafinha e tomou um gole. Provavelmente não era a melhor forma de negociar, mas precisava de alguma coisa, e naquele momento. — Pare com isso, Clint. Só

falta você me dizer que ela consegue andar sobre a água.

Frank pensou no fogo girando no ar na sala da casa dele e explodindo em mariposas; e no telefonema, Evie Black dizendo que o tinha visto proteger Nana.

Ele apertou os braços sobre o peito e sufocou a raiva. Que importância tinha o que Evie Black era? O que importava era o que tinha acontecido, o que estava acontecendo, e como resolver.

— Abra os olhos, filho — disse Willy. — Veja o que aconteceu no mundo nessa última semana. Todas as mulheres dormindo em casulos, e vocês recusam a ideia de que a tal Black possa ser uma coisa sobrenatural? Vocês precisam melhorar. Precisam parar de enfiar o nariz onde não são chamados e deixar que essa coisa se desenrole do jeito que o doutor diz que ela quer.

Como Terry não conseguiu pensar em resposta adequada, tomou outro gole.

Viu como Clint estava olhando para ele e tomou um terceiro, só para irritar o filho da mãe. Quem era ele para julgar, escondido atrás dos muros da prisão enquanto Terry tentava segurar o resto do mundo no lugar?

— Ela só pediu mais alguns dias — disse Clint —, e é isso que quero que vocês deem a ela. — Ele grudou o olhar no de Terry. — Ela está esperando derramamento de sangue e deixou isso bem claro. Porque acredita que é a única forma pela qual os homens sabem resolver seus problemas. Não vamos cumprir as expectativas dela. Esperem. Nos deem setenta e duas horas. E, depois, podemos reavaliar a situação.

— É mesmo? E o que você acha que vai mudar? — O álcool ainda não tinha tomado conta da mente de Terry, até o momento só estava de visita, e ele pensou, quase rezou: Me dê uma resposta em que eu consiga acreditar.

Porém, Clint só balançou a cabeça.

— Não sei. Ela diz que não está totalmente nas mãos dela, mas setenta e duas horas sem atirar seria o primeiro passo certo, disso eu tenho certeza. Ah, e ela diz que as mulheres precisam fazer uma votação.

Terry quase riu.

— Como é que as mulheres adormecidas vão fazer isso, porra?

— Não sei — respondeu Clint.

Ele está tentando ganhar tempo, pensou Frank. Dizendo qualquer coisa inventada que aparece no seu cérebro de psiquiatra. Você ainda está sóbrio o bastante para ver

isso, não está, Terry?

— Eu preciso pensar — disse Terry.

— Tudo bem, mas precisa pensar com clareza, então faça um favor a si mesmo e derrame o resto dessa bebida no chão. — Seu olhar se desviou para Frank, os olhos frios do garoto órfão que lutou para ganhar milk-shakes. — O

Frank aqui acha que ele é a solução, mas eu acho que ele é o problema. Acho que ela sabia que haveria um cara como ele. Acho que sabe que sempre tem.

Frank deu um pulo para a frente, enfiou a mão pela cerca, segurou Norcross pelo pescoço e o enforcou até os globos oculares se arregalarem, depois pularem e ficarem pendurados sobre as bochechas… mas só em pensamento. Ele esperou.

Terry refletiu e depois cuspiu na terra.

— Foda-se, Clint. Você não é médico de verdade.

E quando ele levantou a garrafinha e tomou outro gole longo e desafiador, Frank deu um grito comemorativo em pensamento. No dia seguinte, o xerife em exercício Coombs estaria fora de combate. E ele, Frank, assumiria o comando.

Não haveria setenta e duas horas, e ele não ligava se Evie Black era bruxa, princesa, fada ou a Rainha Vermelha do País das Maravilhas. Tudo que ele precisava saber sobre Eva Black estava naquele telefonema curto.

Pare com isso, ele disse para ela, quase implorou, quando ela ligou do celular roubado. Deixe as mulheres acordarem.

Você vai ter que me matar primeiro, respondeu a mulher.

E era o que Frank pretendia fazer. Se isso trouxesse as mulheres de volta?

Final feliz. Se não? Vingança por ela ter tirado a única pessoa da vida dele que importava. De qualquer forma, o problema estaria resolvido.

7

Na hora em que Van Lampley chegou ao quadriciclo parado, sem ideia do que fazer em seguida, um garoto passou em disparada em uma daquelas bicicletas com guidão seca suvaco. Ele estava indo rápido o suficiente para o cabelo voar da testa, e estava com uma expressão de puro terror. Podia ter sido causada por várias coisas, do jeito que o mundo estava, mas Van não tinha dúvida do que

tinha despertado o sentimento no garoto. Não era intuição; era certeza absoluta.

— Garoto! — gritou ela. — Garoto, onde eles estão?

Kent Daley não deu atenção a ela, só pedalou mais rápido. Ele estava pensando na coroa sem-teto com quem eles tinham brincado. Não deviam ter feito aquilo. Deus estava fazendo com que pagassem. Fazendo com que ele pagasse. Ele pedalou ainda mais rápido.

8

Apesar de Maynard Griner ter abandonado os corredores escolares ainda no oitavo ano (e os corredores ficaram felizes de nunca mais terem que vê-lo), ele era bom com máquinas; quando seu irmão mais novo passou a bazuca e um rojão, May manuseou a arma como se tivesse feito isso a vida toda. Ele examinou a ponta altamente explosiva do rojão, o fio que corria pela lateral da coisa, as aletas na base. Grunhiu, assentiu e alinhou as aletas com os sulcos dentro do tubo. Entrou com facilidade. Ele apontou para uma alavanca acima do gatilho e abaixou da telinha de inventário.

— Puxe isso. Deve engatilhar a bazuca.

Low obedeceu e ouviu um clique.

— É assim, May?

— Deve ser, desde que Fritz tenha colocado bateria nova. Acho que é uma carga elétrica que dispara o foguete.

— Se ele não colocou, vou até lá enfiar no rabo dele — disse Low. Seus olhos cintilavam quando ele olhou para a vitrine de vidro laminado de Drew T. Barry e apoiou a bazuca no ombro no melhor estilo de filme de guerra. — Se afaste, irmão!

A bateria no dispositivo do gatilho estava ótima. Houve um ruído seco. Saiu fumaça do tubo. Antes que qualquer um dos dois tivesse tempo de respirar, a parte da frente da delegacia explodiu. Pedaços de tijolos da cor de areia e estilhaços de vidro voaram para a rua.

— U-huuuul! — May bateu nas costas do irmão. — Você viu isso, irmão?

— Vi — respondeu Low. Um alarme estava soando em algum lugar no interior da delegacia atacada. Homens estavam correndo para olhar. A frente do

prédio agora era uma boca arreganhada cheia de dentes quebrados. Eles viram as chamas dentro e papéis voando pelo ar como pássaros queimados. —

Recarregue.

May alinhou as aletas de um segundo rojão e puxou a alavanca.

— Pronto! — May estava pulando de empolgação. Isso era mais divertido do que a vez em que eles tinham jogado uma carga de dinamite no tanque de trutas de Tupelo Crossing.

— Fogo no buraco! — gritou Low, e puxou o gatilho da bazuca.

O rojão voou até o outro lado da rua, deixando uma trilha de fumaça. Os homens que tinham saído para olhar viram, saíram correndo e se jogaram no chão. A segunda explosão destruiu a parte central do prédio. O casulo de Linny sobreviveu ao primeiro disparo, mas não ao segundo. Mariposas voaram de onde ela estava e pegaram fogo.

— Me deixa atirar uma vez! — May esticou as mãos para a bazuca.

— Não, a gente precisa sair daqui — disse Low. — Mas você vai ter sua oportunidade. Prometo.

— Quando? Onde?

— Na prisão.

9

Van Lampley estava ao lado do quadriciclo, estupefata. Ela viu a primeira trilha de fumaça atravessar a Main Street e soube o que significava antes mesmo da explosão. Aqueles filhos da puta dos irmãos Griner arrumaram um lançador de foguetes ou alguma arma do tipo com Fritz Meshaum. Quando a fumaça da segunda explosão começou a sumir, ela viu chamas saindo dos buracos que tinham sido as janelas. Uma das três portas estava caída na rua, contorcida em uma espiral de aço cromado. As outras não estavam à vista.

Ai para qualquer um que estivesse lá dentro, pensou ela.

Red Platt, um dos vendedores da Kia de Dooling, andou na direção dela, oscilando e cambaleando. Havia sangue escorrendo pela lateral direita do rosto dele, e o lábio inferior não parecia mais totalmente preso à boca, apesar de ser difícil identificar com todo o sangue.

— O que foi aquilo? — gritou Red com voz rouca. Estilhaços de vidro brilhavam no cabelo fino. — Que porra foi aquilo?

— Trabalho de dois babacas que precisam ser impedidos antes que façam mal a mais gente — disse Van. — É melhor você ir se cuidar, Red.

Ela andou na direção do posto Shell, se sentindo ela mesma pela primeira vez em dias. Sabia que essa sensação não duraria, mas, enquanto estivesse lá, ela pretendia aproveitar a adrenalina. O posto estava aberto, mas sem atendimento.

Van encontrou uma lata de dez galões na parte da oficina, encheu em uma das bombas e deixou uma nota de vinte no balcão ao lado da registradora. O mundo podia estar acabando, mas ela tinha sido criada para pagar o que devia.

Ela levou a lata até o quadriciclo, encheu o tanque e saiu da cidade na direção que os irmãos Griner tinham tomado.

10

Kent Daley estava tendo uma noite muito ruim e não eram nem oito horas. Ele mal tinha saído da Route 31 e acelerado na direção dos ônibus bloqueando a West Lavin Road quando foi derrubado da bicicleta por um fio atravessando a estrada e caiu no chão. A cabeça bateu no asfalto e luzes fortes brilharam nos olhos dele. Quando passaram, ele viu o cano de um rifle a oito centímetros do rosto.

— Puta que pariu! — exclamou Reed Barrows, o policial que derrubou Kent.

Reed tinha sido colocado na posição sudoeste na rosa dos ventos de Terry. Ele baixou a arma e puxou Kent pela frente da camisa. — Eu conheço você. É o garoto que botou bombinhas em caixas de correio ano passado.

Havia homens correndo na direção deles vindos do novo e melhorado bloqueio na estrada, com Frank Geary na frente. Terry Coombs vinha por último, cambaleando um pouco. Eles sabiam o que tinha acontecido na cidade; mais de dez ligações já tinham sido feitas para mais de dez celulares, e conseguiam ver o fogo ardendo no meio de Dooling daquele ponto mais alto. A maioria queria voltar com tudo, mas Terry, temendo ser uma distração para eles não tirarem a mulher da prisão, mandou que mantivessem suas posições.

— O que você está fazendo aqui, Daley? — perguntou Reed. — Você poderia

ter levado um tiro.

— Eu tenho um recado — disse Kent, massageando a nuca. Não estava sangrando, mas um galo grande estava se formando. — É para Terry ou Frank, ou para os dois.

— Que porra está acontecendo? — perguntou Don Peters. Em algum momento, ele tinha colocado um capacete de futebol americano; seus olhos próximos um do outro, nas sombras do escudo sobre a testa, pareciam os de uma ave pequena e faminta. — Quem é esse?

Frank empurrou Don de lado e se apoiou em um joelho ao lado do garoto.

— Eu sou Frank — disse ele. — Qual é o recado?

Terry também se apoiou em um joelho. Seu hálito era de álcool.

— Vamos lá, filho… respire fundo… respire fundo… e se controle.

Kent avaliou os pensamentos confusos.

— Aquela mulher na prisão, a especial, ela tem amigos na cidade. Muitos.

Dois deles me pegaram. Disseram para vocês pararem o que estão fazendo e irem embora, senão a delegacia vai ser só a primeira coisa a explodir.

Os lábios de Frank se esticaram em um sorriso que não chegou nem perto dos olhos. Ele se virou para Terry.

— O que você acha, xerife? Nós vamos ser bons meninos e vamos embora?

Little Low não era nenhum gênio de QI alto, mas tinha um grau de astúcia que manteve a operação Griner funcionando por quase seis anos até ele e o irmão finalmente serem pegos. (Low culpava sua natureza generosa; eles tinham deixado a vagabunda da McDavid, que estava longe de ser deslumbrante, ficar com eles, e ela havia retribuído se tornando uma dedo-duro.) Ele tinha uma compreensão instintiva da psicologia humana em geral e da psicologia masculina em particular. Quando se dizia para homens que eles não deviam fazer uma coisa, era exatamente isso que eles faziam.

Terry nem hesitou.

— Nós não vamos sair daqui. Vamos entrar ao amanhecer. Eles que explodam a cidade toda.

Os homens que tinham se reunido em volta deram um grito tão rouco e tão selvagem que Kent Daley se encolheu. O que ele queria mais do que tudo era ir para casa cuidar da cabeça dolorida, trancar todas as portas e dormir.

11

Até o momento, a adrenalina a estava segurando; Van bateu na porta de Fritz Meshaum com força suficiente para sacudi-la na moldura. Uma mão de dedos longos que parecia ter juntas demais puxou uma cortina imunda para o lado. Um rosto com barba por fazer espiou. Um momento depois, a porta foi aberta. Fritz abriu a boca, mas Van o segurou e começou a sacudi-lo como um terrier com um rato na boca antes que ele pudesse dizer uma palavra.

— O que você vendeu pra eles, seu merdinha? Foi um lançador de foguetes?

Foi, não foi? Quanto aqueles filhos da puta pagaram para poderem abrir um buraco no meio da cidade?

Eles já estavam dentro de casa, Van empurrando Fritz pela sala abarrotada.

Ele bateu sem forças em um dos ombros dela com a mão esquerda; o outro braço estava preso em uma tipoia improvisada que parecia ter sido feita de lençol.

— Para com isso! — gritou Fritz. — Para com isso, mulher, meu braço já foi deslocado pelos dois cretinos!

Van o empurrou para uma poltrona imunda com uma pilha de revistas eróticas velhas ao lado.

— Fale.

— Não foi um lançador de foguetes, foi uma bazuca russa vintage, eu podia ter vendido por seis, sete mil dólares em uma daquelas vendas de armas de estacionamento em Wheeling, e aqueles dois caipiras filhos da puta roubaram!

— Ah, claro que você diria isso, não é? — Van estava ofegante.

— É a verdade. — Fritz olhou para ela com atenção, os olhos descendo do rosto redondo para os seios grandes e os quadris largos, depois para cima novamente. — Você é a primeira mulher que eu vejo em dois dias. Há quanto tempo está acordada?

— Desde quinta de manhã.

— Caramba, você deve ter batido um recorde.

— Não cheguei nem perto. — Van tinha procurado no Google. — Esquece isso. Aqueles caras explodiram a delegacia.

— Eu ouvi um estrondo — admitiu Fritz. — Acho que a bazuca está funcionando bem.

— Ah, funcionou direitinho. Por acaso você sabe para onde eles vão agora?

— Não faço ideia. — Fritz começou a sorrir, expondo dentes que não viam dentista havia muito tempo, isso se já tinham visto alguma vez. — Mas posso descobrir.

— Como?

— Os idiotas olharam para a tela, e quando falei que era uma tela de inventário, eles acreditaram! — A gargalhada dele soou como uma lixa em uma dobradiça enferrujada.

— De que você está falando?

— Do rastreador GPS. Eu coloquei em todos os meus itens de primeira linha para o caso de serem roubados. E a bazuca era um deles. Posso rastrear pelo celular.

— Que você vai dar pra mim — disse Van, e esticou a mão.

Fritz olhou para ela, a expressão astuta e azul-aguada embaixo de pálpebras enrugadas.

— Se você pegar minha bazuca, vai devolver antes de adormecer?

— Não — disse Van —, mas não vou quebrar seu outro braço para acompanhar o deslocado. Que tal?

O homenzinho riu e disse: — Tudo bem, mas só porque eu tenho uma quedinha por mulheres grandes.

Se estivesse se sentindo mais normal, Van talvez desse uma surra nele por um comentário assim (não seria difícil e seria um serviço de utilidade pública), mas, no estado de exaustão em que estava, ela nem considerou a possibilidade.

— Então vem.

Fritz se levantou do sofá.

— O celular está na mesa da cozinha.

Ela recuou, mantendo o rifle apontado para ele.

Ele a guiou por um corredor curto e escuro até a cozinha. Havia um fedor de cinzas que deixou Van com vontade de vomitar.

— O que você estava cozinhando?

— Candy — disse Fritz. Ele bateu na mesa coberta de linóleo.

— Candy? — Não parecia nada que ela conhecesse. Coisas cinzentas, como pedaços de jornal queimado, estavam espalhadas pelo chão.

— Candy é a minha esposa — disse ele. — Agora falecida. Taquei fogo na velha tagarela com um fósforo de cozinha. Nunca percebi que ela tinha tanto fogo. — Os dentes pretos e marrons foram revelados em um sorriso feroz. —

Entendeu? Fogo?

Não tinha como evitar agora. Cansada ou não, ela ia ter que machucar o filho da mãe cruel. Esse foi o primeiro pensamento de Van. O segundo foi que não havia celular na mesa coberta de linóleo.

Uma arma soou, e o ar sumiu dos pulmões dela. Ela esbarrou na geladeira e caiu no chão. Sangue escorreu de um ferimento a bala no quadril. O rifle que ela estava segurando voou de suas mãos. Fumaça saía da beirada da mesa diretamente à frente. Nesse momento, ela viu o cano; era da pistola que Meshaum tinha prendido embaixo do tampo da mesa.

Fritz soltou a arma da fita adesiva que a segurava, se levantou e contornou a mesa.

— Cuidado nunca é demais. Deixe sempre uma arma carregada em todos os aposentos. — Ele se agachou ao lado de Van e encostou o cano da pistola na testa dela. O bafo tinha cheiro de tabaco e carne. — Essa foi do meu avô. O que você acha disso, porca gorda?

Ela não achava nada e nem precisava. O braço direito de Van Lampley, o que tinha derrubado Hallie “Destruidora” O’Meara na partida do campeonato da Divisão de 35-45 anos do Ohio Valley para mulheres de 2010 e que tinha rompido um dos ligamentos de Erin Makepeace em 2011, voou como uma armadilha acionada. A mão direita se ergueu, pegou o pulso de Fritz Meshaum e espremeu com dedos feitos de aço, puxando de forma tão violenta que ele caiu em cima dela. A pistola antiga disparou, enfiando uma bala no chão entre o braço e as costelas de Van. A bile subiu pela garganta dela quando o peso do corpo dele apertou o ferimento, mas ela continuou torcendo o pulso dele, e naquele ângulo, Fritz só podia disparar no chão de novo até que a arma escorregasse da mão dele. Ossos estalaram. Ligamentos foram repuxados. Fritz gritou. Ele mordeu a mão dela, mas Van só dobrou o pulso com mais força e começou a socar metodicamente a parte de trás da cabeça dele com o punho esquerdo, acertando com o anel de noivado de diamante.

— Tudo bem, tudo bem! Penico! Penico, porra! Eu me rendo! — gritou Fritz

Meshaum. — Já chega!

Porém, Van não achava que chegava. O bíceps dela se flexionou e a tatuagem da lápide, SEU ORGULHO, inchou.

Ela continuou torcendo com uma das mãos e socando com a outra.

12

1

Na última noite da prisão, o tempo ficou limpo e as nuvens de chuva do dia foram sopradas para o sul por um vento regular, deixando o céu para as estrelas e convidando os animais a levantarem a cabeça, farejarem e conversarem. Nada de setenta e duas horas. Nada de pensar melhor. Uma mudança ia acontecer no dia seguinte. Os animais sentiram da mesma maneira que sentiam tempestades se aproximando.

2

Espremido ao lado do parceiro no último banco de um dos ônibus escolares que tinham sido requisitados para bloquear a Route 31, Eric Blass ouvia os roncos de Don Peters. Qualquer remorso vago que Eric pudesse ter sentido por botar fogo na Velha Essie foi atenuado pelo fim do dia. Se ninguém reparasse que ela tinha sumido, que importância ela tinha, afinal?

Rand Quigley, um homem bem mais atencioso do que a maioria achava, também estava a postos. Seu local era uma cadeira de plástico na sala de visitas.

No colo, ele segurava um carrinho de brinquedo para crianças pequenas andarem virado de cabeça para baixo, que pertencia à área familiar. Era fonte de decepção desde que Rand conseguia lembrar; os filhos das detentas subiam nele e empurravam, mas ficavam frustrados porque não conseguiam fazer curva. O

problema era um eixo quebrado. Rand pegou um tubo de resina na caixa de ferramentas e colou o freio, e agora estava segurando as peças juntas para prender com um pedaço de barbante. O fato de que ele podia estar em suas

últimas horas não escapou ao guarda Quigley. Era reconfortante para ele fazer uma coisa útil com o tempo que ainda podia ter.

Na floresta acima da prisão, Maynard Griner olhou para as estrelas e fantasiou em atirar nelas com a bazuca de Fritz. Se desse para fazer isso, elas estourariam como lâmpadas? Alguém, talvez cientistas, já tinha feito um buraco no espaço?

Alienígenas de outros planetas já tinham pensado em atirar em estrelas com bazucas ou raios da morte?

Lowell, encostado no tronco de um cedro, mandou o irmão, que estava deitado de costas, limpar a boca; a luz das estrelas, emitidas milhões de anos antes, cintilava na baba de Maynard. O humor de Low estava péssimo. Ele não gostava de esperar, mas não era bom para eles usar a artilharia antes de os policiais agirem. Os mosquitos estavam picando e uma coruja arrombada estava piando desde que o sol tinha se posto. Valium melhoraria sua disposição imensamente. Até Nyquil ajudaria. Se o túmulo de Big Lowell fosse perto, Little Lowell nem hesitaria em cavar um buraco até o cadáver podre para livrá-lo daquela garrafa de Rebel Yell.

Lá embaixo, a estrutura em T da prisão aparecia no brilho seco emitido pelas torres de luz. De três lados, o vale onde ficava a construção era cercado de florestas. Havia um campo aberto a leste, indo até o terreno alto onde Low e May estavam acampados. Low achava que aquele campo era uma excelente linha de fogo. Não havia nada que impedisse o voo de um rojão explosivo de bazuca.

Quando a hora chegasse, seria incrível.

3

Dois homens se agacharam no espaço entre a frente do Fleetwood de Barry Holden e a porta de entrada da prisão.

— Quer fazer as honras? — Tig perguntou a Clint.

Clint não tinha certeza se era uma honra, mas disse que sim e acendeu o fósforo e colocou na trilha de gasolina que Tig e Rand tinham preparado mais cedo.

A trilha pegou fogo, que serpenteou da entrada até a área de manobra do estacionamento e por baixo da cerca interior. Na área gramada que separava essa

cerca da segunda, externa, as pilhas de pneus encharcados primeiro soltaram fumaça e logo pegaram fogo. Em pouco tempo, a luz do fogo acabou com boa parte da escuridão na área da prisão. Colunas de fumaça imunda começaram a subir.

Clint e Tig voltaram para dentro.

4

Na sala de descanso dos guardas, escura, Michaela usou uma lanterna para olhar as gavetas. Encontrou uma caixa de baralho e perguntou a Jared se queria jogar Tapão com ela. Todas as outras pessoas, exceto as três prisioneiras acordadas que restavam, estavam a postos, vigiando. Michaela precisava de alguma coisa com que se ocupar. Eram dez da noite de segunda. Na manhã da quinta anterior, ela tinha acordado às seis em ponto e ido correr. Estava se sentindo disposta, bem.

— Não posso — disse Jared.

— O quê? — perguntou Michaela.

— Estou superocupado — disse ele, e deu um sorriso torto. — Estou pensando nas coisas que devia ter feito e não fiz. E que meu pai e minha mãe deviam ter esperado para ficarem com raiva um do outro. E que minha namorada, bom, ela não era exatamente minha namorada, mais ou menos, pegou no sono enquanto estava me abraçando. — Ele repetiu: — Superocupado.

Se Jared Norcross precisava de cuidados maternais, Michaela era a pessoa errada. O mundo estava fora de prumo desde quinta, mas enquanto estava com Garth Flickinger, ela tinha conseguido lidar com a situação quase como se fosse uma piada, um contratempo. Não esperava sentir tanta falta dele. A alegria chapada dele era a única coisa que fazia sentido em um mundo que tinha enlouquecido.

Ela disse:

— Eu também estou com medo. Você seria louco se não estivesse. — Eu só… — Ele parou de falar.

Ele não entendia o que os outros na prisão tinham dito sobre a mulher, que ela tinha poderes, que aquela Michaela, a filha repórter da diretora, supostamente havia ganhado um beijo mágico da prisioneira especial que deu

nova energia a ela. Ele não entendia o que tinha acontecido ao pai. Só entendia que gente tinha começado a morrer.

Como Michaela tinha suposto, Jared sentia falta da mãe, mas não estava procurando uma substituta. Não dava para substituir Lila.

— Nós somos os mocinhos, né? — perguntou Jared.

— Não sei — admitiu Michaela. — Mas tenho certeza de que não somos os vilões.

— Já é alguma coisa.

— Venha, vamos jogar cartas.

Jared passou a mão pelos olhos.

— Ah, caramba, tudo bem. Eu sou campeão de Tapão. — Ele se aproximou da mesa de centro no meio da sala.

— Quer uma coca ou alguma outra coisa?

Ele fez que sim, mas nenhum dos dois tinha moedas para a máquina. Eles foram até a sala da diretora, esvaziaram a enorme bolsa de tricô de Janice Coates e se agacharam no chão, procurando moedas em meio a notas fiscais, bilhetes, protetores labiais e cigarros. Jared perguntou a Michaela por que ela estava sorrindo.

— Por causa da bolsa da minha mãe — disse Michaela. — Ela é diretora de prisão, mas tem essa monstruosidade hippie como bolsa.

— Ah. — Jared riu. — Mas como deve ser a bolsa de uma diretora, na sua opinião?

— Uma coisa que se fecha com correntes ou uma algema.

— Que pervertido!

— Não seja infantil, Jared.

Havia mais do que moedas suficientes para duas cocas. Antes de eles voltarem para a sala de descanso, Michaela deu um beijo no casulo que envolvia sua mãe.

Tapão era um jogo que demorava uma eternidade, mas Michaela venceu Jared na primeira rodada em menos de dez minutos.

— Droga. Esse jogo é um inferno — disse ele.

Eles jogaram de novo e de novo e de novo, sem falar muito, só virando cartas no escuro. Michaela continuou ganhando.

5

Terry cochilou em uma cadeira de camping atrás do bloqueio na estrada. Estava sonhando com a esposa. Ela tinha aberto uma lanchonete. Estavam servindo pratos vazios. “Mas Rita, aqui não tem nada”, disse ele, e devolveu o prato para ela. Rita entregou de volta para ele. Isso continuou pelo que pareceram anos. O

prato vazio para lá e para cá. Terry foi ficando cada vez mais frustrado. Rita, sem falar nada, sorria para ele como se tivesse um segredo. Do lado de fora das janelas da lanchonete, as estações passavam voando como fotografias em um projetor de slides antigo — inverno, primavera, verão, outono, inverno, primavera...

Ele abriu os olhos, e Bert Miller estava de pé em sua frente.

O primeiro pensamento de Terry ao despertar não foi sobre o sonho, mas sobre um momento mais cedo naquela noite, na cerca, Clint Norcross chamando a atenção dele por causa da bebida, humilhando-o na frente dos outros dois. A irritação do sonho se misturou com vergonha, e Terry compreendeu perfeitamente que ele não era o homem certo para o trabalho de xerife. Que Frank Geary ficasse com a função, se queria tanto. E que Clint Norcross encarasse Frank Geary, se queria negociar com um homem sóbrio.

Havia lampiões para todo lado. Homens estavam reunidos em grupos, com rifles pendurados nos ombros, rindo e fumando, comendo ração humana em embalagens recicláveis. Só Deus sabia de onde tinham vindo. Alguns estavam ajoelhados no asfalto, jogando dados. Jack Albertson estava usando uma furadeira em um dos buldôzeres, prendendo uma placa de ferro na janela.

O conselheiro municipal Bert Miller queria saber se havia um extintor de incêndio.

— O treinador Wittstock tem asma, e a fumaça do fogo nos pneus daqueles babacas está vindo pra cá.

— Claro — disse Terry, e apontou para uma viatura próxima. — No porta-malas.

— Obrigado, xerife.

O conselheiro municipal foi buscar o extintor de incêndio. Houve um grito de comemoração dos homens jogando dados quando alguém fez uma pontuação

alta.

Terry se levantou da cadeira e se dirigiu para as viaturas estacionadas.

Enquanto andava, ele tirou a arma do cinto e deixou cair na grama. Que se foda essa merda, pensou ele. Que se foda.

No bolso estavam as chaves da Unidade Um.

6

Do assento do motorista da picape de controle de animais, Frank observou a renúncia silenciosa do xerife em exercício.

Você fez isso, Frank, disse Elaine ao lado dele. Não está orgulhoso?

— Ele fez isso com ele mesmo — disse Frank. — Eu não amarrei e coloquei um funil na boca dele. Tenho pena, porque ele não foi homem suficiente para o serviço, mas também tenho inveja, porque ele pode sair fora.

Mas você não, disse Elaine.

— Não — concordou ele. — Eu vou até o final. Por causa de Nana.

Você está obcecado por ela, Frank. Nana-Nana-Nana. Você se recusou a ouvir o que Norcross disse porque só consegue pensar nela. Você não pode esperar ao menos um pouco?

— Não. — Porque os homens estavam lá, prontos para agir.

E se aquela mulher estiver manipulando você?

Uma mariposa gorda pousou no limpador de para-brisa da picape. Ele acionou a alavanca para mover o limpador e fazê-la voar. Em seguida, ligou o motor e saiu dirigindo, mas, diferentemente de Terry, pretendia voltar.

Primeiro, ele parou na casa da Smith para olhar Elaine e Nana no porão. Elas estavam como ele as havia deixado, escondidas atrás de uma estante, embaixo de lençóis. Ele disse para o corpo de Nana que a amava. Falou para o corpo de Elaine que lamentava eles nunca conseguirem concordar. E falou com sinceridade, embora o fato de que ela continuava a repreendê-lo, mesmo mergulhada no sono não natural, fosse extremamente irritante.

Ele trancou novamente a porta do porão. Na entrada da garagem, perto dos faróis da picape, reparou que havia uma poça no buraco que ele pretendia consertar em breve. Sedimentos verdes, marrons, brancos e azuis flutuavam na

água. Eram os restos do desenho de Nana da árvore, feito em giz, levado pela chuva.

Quando Frank chegou ao centro de Dooling, o relógio do banco dizia 00:04.

A terça-feira tinha chegado.

Ao passar pela loja de conveniência Zoney’s, Frank reparou que alguém tinha quebrado a vitrine.

O Prédio Municipal ainda estava soltando fumaça. Ele ficou surpreso de Norcross permitir que seus aliados explodissem o local de trabalho da esposa.

Porém, os homens estavam diferentes agora, ao que parecia. Até médicos como Norcross. Mais como eram antes, talvez.

No parque do outro lado da rua, havia um homem, sem motivo aparente, usando um cortador para trabalhar na calça manchada de azinhavre da estátua usando cartola do primeiro prefeito. Fagulhas voavam e eram duplicadas no visor de vidro escurecido do capacete de soldagem do homem. Mais à frente, outro homem, no estilo Gene Kelly em Cantando na chuva, estava pendurado em um poste, mas estava com o pau na mão, mijando no chão e gritando uma música estranha: — O capitão está na cabine, rapazes, tomando conhaque e cerveja!

Marinheiros no puteiro, onde tem mulher vindo na bandeja! Vamos cantar, vamos cantar, Joe!

A ordem que existira e que Frank e Terry tentaram manter nos últimos dias caóticos estava desmoronando. Ele achava que era uma espécie de luto selvagem.

Podia terminar ou podia levar a um cataclismo mundial. Quem sabia?

Era aqui que você devia estar, Frank, disse Elaine.

— Não — respondeu ele.

Ele estacionou atrás do escritório. Todos os dias, tirava meia hora para parar lá. Ele alimentava os cães de rua e deixava uma tigela de Alpo para o que era seu bichinho de estimação especial, seu cachorro do escritório. Havia agitação no local quando ele entrava, e eles ficavam inquietos, tremendo, choramingando e uivando, porque normalmente ele só conseguia passear com eles uma vez por dia, no máximo, e, dos oito animais, provavelmente só dois tinham sido treinados.

Ele pensou se devia sacrificá-los. Se alguma coisa acontecesse com ele, era quase certo que morreriam de fome; não era provável que um bom samaritano

aparecesse para cuidar deles. A possibilidade de simplesmente soltá-los não ocorreu a Frank. Não se deixava cachorros soltos na rua.

Uma fantasia se delineou na mente de Frank: chegar no dia seguinte com Nana, deixar que ela desse comida e passeasse com eles. Ela sempre gostava de fazer isso. Ele sabia que ela amaria o cachorro de estimação do escritório, um misto de beagle e Cocker com olhos caídos e jeito estoico. Ela adoraria o jeito como ele apoiava a cabeça em cima das patas, como um garoto apoiado em uma mesa, obrigado a ouvir uma aula infinita na escola. Elaine não gostava de cachorros, mas, independentemente do que acontecesse, isso não importava mais. De uma forma ou de outra, ele e Elaine tinham chegado ao fim, e se Nana quisesse um cachorro, o animal podia morar com Frank.

Frank passeou com eles em coleiras triplas. Ao terminar, escreveu um bilhete — POR FAVOR, DEEM UMA OLHADA NOS ANIMAIS. CUIDEM PARA QUE TENHAM COMIDA E

ÁGUA. O PITBULL MISTO CINZA E BRANCO NA N° 7 É ARISCO, APROXIMEM-SE COM CUIDADO.

POR FAVOR, NÃO ROUBEM NADA, ISTO É UM ÓRGÃO DO GOVERNO. — e prendeu do lado de fora da porta com fita adesiva. Ele acariciou as orelhas do cachorro de estimação por um tempinho.

— Olhe só você — disse ele. — Olhe só.

Quando voltou para a picape e seguiu para o bloqueio na estrada, o relógio do banco dizia 1:11. Ele tinha começado a preparar todo mundo para o ataque às quatro e meia. O amanhecer aconteceria duas horas depois.

7

No lado mais distante do campo de exercícios da prisão, do outro lado da cerca, dois homens com bandanas sobre a boca estavam usando extintores de incêndio para apagar os pneus em chamas. O spray do extintor brilhava fosforescente pela mira de visão noturna, e os homens tinham um contorno amarelo. Billy Wettermore não reconheceu o homem maior, mas conhecia o menor muito bem.

— O merdinha de chapéu de palha é o conselheiro Miller. Bert Miller — disse Billy para Willy Burke.

Havia uma história pessoal irônica ali. Enquanto estudava na Dooling High,

Billy Wettermore tinha sido estagiário no escritório do conselheiro por ser aluno da National Honor Society. Lá, ele foi obrigado a ouvir em silêncio as ideias frequentes de Bert Miller sobre homossexualidade.

— É uma mutação — explicou o conselheiro Miller, dizendo que sonhava em acabar com isso. — Se desse para exterminar todos os gays em um instante, Billy, talvez desse para impedir que a mutação se espalhasse, mas, por outro lado, por mais que a gente possa não gostar de admitir, eles também são humanos, não são?

Muita coisa havia acontecido nos mais de dez anos que se passaram depois disso. Billy era um garoto do interior e era teimoso, e quando largou a faculdade, voltou para a cidade natal nos Apalaches apesar da política. Ali, a preferência dele por homens parecia ser a primeira coisa na mente das pessoas. Apesar de quase duas décadas do século XXI terem transcorrido, isso era muito irritante para Billy, não que ele fosse demonstrar, porque isso seria dar às pessoas algo que elas não mereciam ter.

No entanto, a ideia de disparar uma bala no chão bem na frente de Bert Miller e fazer com que ele cagasse amplamente na calça era extremamente atraente.

— Vou fazer ele dar um pulo, se afastar dos nossos pneus, Willy.

— Não. — Isso veio não de Willy Burke, mas de trás dele.

Norcross tinha se materializado da porta aberta e presa por um calço na parte de trás da prisão. Na escuridão, não havia quase nada visível no rosto além do brilho do aro dos óculos.

— Não? — disse Billy.

— Não. — Clint estava esfregando o polegar da mão esquerda nos nós dos dedos da direita. — Acerta na perna. Derruba ele.

— É sério? — Billy já tinha atirado em animais, mas nunca em um homem.

Willy Burke emitiu um tipo de zumbido pelo nariz.

— Uma bala na perna pode matar um homem, doutor.

Clint assentiu para mostrar que entendia.

— Nós temos que proteger este lugar. Anda logo, Billy. Atira na perna dele.

Assim vai ser um a menos, e vai mostrar pra eles que estamos levando isso a sério. Vai ser um aviso de que eles não vão conseguir nos dominar sem pagar um preço.

— Tudo bem.

Ele baixou o olhar para a mira noturna. O conselheiro Miller, grande como um outdoor, contornado por duas camadas de cerca de arame, estava se abanando com o chapéu de palha, o extintor apoiado na grama ao lado dele. As linhas cruzadas ficaram sobre o joelho esquerdo de Miller. Billy estava feliz de seu alvo ser um babaca, mas odiou fazer aquilo mesmo assim.

Ele apertou o gatilho.

8

As regras de Evie eram: 1) Permanecer escondida e nada de matar enquanto o dia não chegasse!

2) Abrir os casulos que encobriam Kayleigh e Maura!

3) Apreciar a vida!

— Tá, tudo bem — disse Angel. — Mas você tem certeza? Maura e Kay não vão me matar enquanto eu estiver apreciando a vida?

— Tenho — disse Evie.

— Está bom — disse Angel.

— Abram a cela dela — disse Evie, e surgiu uma fileira de ratos do buraco na alcova do chuveiro. O primeiro parou na base da porta da cela de Angel. O

segundo subiu em cima do primeiro, o terceiro em cima do segundo. Uma torre se formou, um corpo cinzento de ratos empilhados uns em cima dos outros como bolas de sorvete hediondas. Evie ofegou quando sentiu o rato de baixo sufocar. — Ah, Mãe — disse ela. — Lamento tanto.

— Olha esse circo maravilhoso aqui. — Angel estava hipnotizada. — Você podia ganhar dinheiro com isso, mana. Sabia?

O rato do topo era o menor, ainda filhote. Ele se espremeu no buraco da fechadura, e Evie controlou as patas dele, procurando nos mecanismos, investindo nele uma força que nenhum rato tivera. A porta da cela se abriu.

Angel pegou duas toalhas no chuveiro, afofou e colocou na cama, depois botou o cobertor por cima. Fechou a porta da cela ao sair. Se alguém olhasse dentro, pareceria que ela finalmente tinha perdido a luta e adormecido.

Ela saiu andando pelo corredor na direção da Ala C, onde a maioria das

adormecidas encasuladas residiam agora.

— Adeus, Angel — disse Evie.

— É — respondeu Angel. — Até mais. — Ela hesitou com a mão na porta. —

Você está ouvindo gritos ao longe?

Evie estava. Ela sabia que era o conselheiro Bert Miller, gritando por causa da bala na perna. Os gritos dele entravam na prisão pelos dutos de ventilação. Angel não precisava se preocupar com aquilo.

— Não se preocupe — disse Evie. — É só um homem.

— Ah — respondeu Angel, e saiu.

9

Jeanette estava sentada encostada na parede em frente às celas durante a conversa de Angel e Evie, ouvindo e observando. Agora, se virou para Damian, morto havia anos e enterrado a mais de cento e cinquenta quilômetros, mas também sentado ao lado dela. Ele estava com uma chave de fenda enfiada na coxa e estava sangrando no chão, apesar de o sangue não parecer nada para Jeanette, não parecer nem molhado. E isso era estranho, porque ela estava sentada em uma poça.

Continuar: parte 10 de 12