Belas adormecidas

Stephen King, Owen King · Capítulo 3 de 6 · parte 7/12

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Belas adormecidas

Parte dois: Vou dormir quando morrer

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

O celular dele tocou. A caravana estava disparada pela Ball’s Hill. Frank tirou

o aparelho do bolso.

— Geary.

— Frank, aqui é Eva Black. — Ela falou um tom acima de um sussurro, e a voz tinha um tom rouco e paquerador.

— É mesmo? É um prazer conhecer você.

— Estou ligando do meu novo celular. Eu não tinha um, então Lore Hicks me deu o dele. Não foi cavalheiresco da parte dele? Aliás, é melhor você ir mais devagar. Não precisa correr risco de acidente. O trailer fugiu. Só tem quatro pessoas mortas e Reed Barrows.

— Como você sabe disso?

— Acredite em mim, eu sei. Clint ficou surpreso de ser tão fácil executar o roubo. Eu também, para ser sincera. Nós rimos muito. Eu achava que você estava um pouco mais no controle das coisas. Me enganei.

— Você deveria se entregar, sra. Black. — Frank se concentrou em medir as palavras. Em manter distante a vermelhidão que queria tomar sua mente. — Ou deveria desistir dessa… coisa. Seja lá o que for. Você deveria fazer isso antes que alguém se machuque.

— Ah, nós já passamos do estágio de se machucar. O juiz Silver, por exemplo, ficou bem mais do que machucado. O dr. Flickinger também, que na verdade não era um sujeito ruim quando estava de cabeça limpa. Nós estamos no estágio da extinção em massa.

Frank apertou o volante da viatura.

— Que porra é você?

— Eu poderia fazer a mesma pergunta, mas sei o que você diria: “Eu sou o Bom Pai”. Porque com você é só Nana-Nana-Nana, não é? O papai protetor.

Você já pensou ao menos uma vez em todas as outras mulheres e o que você poderia estar fazendo com elas? O que poderia estar botando em risco?

— Como você sabe sobre a minha filha?

— É minha obrigação saber. Tem um blues antigo que diz: “Antes de você me acusar, olhe para si mesmo”. Você precisa ampliar suas perspectivas, Frank.

O que eu preciso, pensou Frank, é botar as mãos no seu pescoço.

— O que você quer?

— Quero que você seja homem! Quero que você seja uma porra de homem e

torne isso mais interessante! Quero que sua preciosa Nana possa ir à escola e dizer: “Meu pai não é só um funcionário público que pega gatos selvagens, e não é só um cara que dá socos em paredes ou puxa minha blusa favorita e grita com a minha mãe quando as coisas não são do jeito que ele quer. Ele também foi o homem que deteve aquela fada velha do mal que botou todas as mulheres para dormir”.

— Deixe minha filha fora disso, sua puta.

O tom de provocação sumiu da voz dela.

— Quando você protegeu ela no hospital, aquilo foi um ato de coragem. Eu admirei o que você fez. Admirei você. De verdade. Eu sei que você a ama, e isso não é pouca coisa. Eu sei que, da sua forma, você só quer o melhor para ela. E

isso me faz amar você um pouquinho, apesar de você ser parte do problema.

À frente, os dois veículos estavam parando ao lado da viatura amassada de Reed Barrows. Frank viu Barrows se aproximando para se encontrar com eles.

Mais à frente, viu os corpos na estrada.

— Pare com isso — disse Frank. — Deixe elas em paz. Deixe as mulheres acordarem. Não só minha esposa e minha filha, todas elas.

Evie disse: — Você vai ter que me matar primeiro.

8

Angel perguntou quem era esse Frank com quem Evie tinha falado. — Ele é o matador de dragão — disse Evie. — Eu só precisava garantir que ele não fosse ficar distraído com unicórnios.

— Você é maluca pra caralho. — Angel assoviou.

Evie não era, mas esse não era um assunto a ser discutido com Angel, que, de qualquer forma, tinha direito a uma opinião.

9

1

A raposa aparece para Lila em um sonho. Ela sabe que é sonho porque a raposa sabe falar.

— Oi, meu bem — diz ela enquanto entra no quarto da casa na St. George Street que Lila agora divide com Tiffany, Janice Coates e duas médicas do Centro das Mulheres, Erin Eisenberg e Jolie Suratt. (Erin e Jolie são solteiras. A terceira médica do Centro das Mulheres, Georgia Peekins, mora do outro lado da cidade com duas filhas que sentem muita falta do irmão mais velho.) Outro motivo para saber que é sonho é por ela estar sozinha no quarto. A outra cama, onde Tiffany dorme, está vazia e arrumada.

A raposa coloca as patinhas da frente (brancas, em vez de vermelhas, como se tivesse andado por tinta fresca para chegar lá) na colcha que a cobre.

— O que você quer? — pergunta Lila.

— Mostrar o caminho de volta — diz a raposa. — Mas só se você quiser ir.

2

Quando Lila abriu os olhos, era de manhã. Tiffany estava na outra cama, onde era o lugar dela, o cobertor empurrado até os joelhos, a barriga uma meia lua acima do short que usava para dormir. Ela estava com mais de sete meses agora.

Em vez de ir para a cozinha para preparar o horror de chicória que servia de café para elas naquela versão de Dooling, Lila foi direto pelo corredor e abriu a porta da frente em uma agradável manhã de primavera (o tempo passava com uma flexibilidade tão escorregadia ali; os relógios marcavam o tempo normal,

mas não havia nada de normal no local). A raposa estava lá, como ela sabia que estaria, sentada no caminho de pedras cobertas de mato com a cauda enrolada em volta das patas. Olhou para Lila com grande interesse.

— Oi, meu bem — disse Lila.

A raposa inclinou a cabeça e pareceu sorrir. Em seguida, saltitou pelo pátio até a rua e se sentou de novo. Olhando para ela. Esperando.

Lila foi acordar Tiffany.

3

No fim das contas, dezessete residentes de Nosso Lugar seguiram a raposa em seis dos carrinhos de golfe movidos a energia solar, uma caravana seguindo lentamente para fora da cidade e pelo que tinha sido a Route 31 na direção de Ball’s Hill. Tiffany foi no carrinho com Janice e Lila, reclamando o tempo todo de não poder ir a cavalo. Isso foi vetado por Erin e Jolie, que estavam preocupadas com a força das contrações de Tiff ainda restando de seis a oito semanas de gravidez. Isso elas disseram para a futura mãe. O que não transmitiram a ela (apesar de Lila e Janice saberem) foi a preocupação que tinham com o bebê, que foi concebido quando Tiffany ainda usava drogas diariamente, às vezes até de hora em hora.

Mary Pak, Magda Dubcek, as quatro integrantes do Clube do Livro da Primeira Quinta-feira e cinco antigas detentas do Instituto Penal de Dooling também foram. Também estava junto Elaine Nutting, antiga Geary. Ela foi com as duas médicas. Sua filha também quis ir, mas Elaine bateu o pé e foi firme mesmo quando as lágrimas começaram a cair. Nana ficou com a velha sra.

Ransom e a neta. As duas meninas logo ficaram amigas, mas nem a perspectiva de passar um dia com Molly alegrou Nana. Ela queria seguir a raposa, ela disse, porque era uma coisa que parecia de conto de fadas. Ela queria desenhar tudo.

— Fique com sua filha, se quiser — Lila disse para Elaine. — Nós temos bastante gente.

— O que eu quero é ver o que aquela coisa quer — respondeu Elaine. Se bem que, na verdade, ela não sabia se queria ou não. A raposa, agora sentada na frente dos destroços da barbearia Pearson esperando com paciência as mulheres

se reunirem e partirem, provocava nela uma sensação de presságio, aleatória, mas forte.

— Vamos logo! — disse Tiffany, com mau humor. — Antes que eu fique com vontade de mijar de novo!

Assim, elas seguiram a raposa, que saiu saltitando da cidade sobre a linha apagada no centro da estrada, olhando de vez em quando para trás para ter certeza de que a tropa ainda estava lá. Parecendo sorrir. Parecendo quase dizer: Tem umas mulheres bem bonitas na plateia hoje.

Era um passeio (estranho, era verdade, mas ainda um dia de folga das várias tarefas e trabalhos), e devia haver conversa e risadas, mas as mulheres na fila de carrinhos de golfe estavam quase silenciosas. Os faróis dos carrinhos se acederam com o movimento, e quando elas passaram pela selva que já tinha sido o Depósito de Madeira Adams, Lila teve o pensamento de que elas pareciam mais um cortejo fúnebre do que garotas em um passeio.

Quando a raposa saiu da estrada e pegou um caminho coberto de mato quatrocentos metros depois do depósito de madeira, Tiffany enrijeceu e colocou as mãos de forma protetora sobre a barriga.

— Não, não, não, pode parar aqui e me deixar saltar. Eu não vou voltar ao trailer de Tru Mayweather, nem mesmo se não passar de uma pilha de metal retorcido.

— Não é para lá que a gente vai — disse Lila.

— Como você sabe?

— Espere e veja.

No fim das contas, os restos do trailer quase não estavam mais visíveis; uma tempestade o tinha derrubado de cima dos blocos de cimento, e ele estava caído de lado no meio do mato como um dinossauro enferrujado. Trinta ou quarenta metros depois, a raposa virou para a esquerda e entrou na floresta. As mulheres dos dois carrinhos da frente viram um brilho de pelo alaranjado, que depois sumiu.

Lila desceu do carrinho e foi até o ponto onde o animal havia entrado na floresta. As ruínas do abrigo próximo tinham sido tomadas por mato, mas, mesmo depois de tanto tempo, um odor químico pairava no ar. A metanfetamina pode ter ido, Lila pensou, mas as lembranças ficaram. Mesmo ali, onde o tempo

parecia galopar, parar para tomar fôlego e galopar de novo.

Janice, Magda e Blanche McIntyre se juntaram a ela. Tiffany ficou no carrinho de golfe, segurando a barriga. Parecia enjoada.

— Tem uma trilha feita por animais — disse Lila, apontando. — Podemos seguir sem muita dificuldade.

— Eu não vou entrar nessa floresta de jeito nenhum — disse Tiffany. — Não quero nem saber se a raposa dança sapateado. Estou tendo contrações de novo.

— Você não ia mesmo se não estivesse tendo contrações — respondeu Erin.

— Vou ficar com você. Jolie, pode ir se quiser.

Jolie foi. As quinze mulheres seguiram a trilha em fila indiana, Lila na frente e a antiga sra. Frank Geary no final. Elas tinham andado por quase dez minutos quando Lila parou e levantou os braços, os indicadores apontando para a esquerda e para a direita como um guarda de trânsito indeciso.

— Puta merda — disse Celia Frode. — Eu nunca vi nada assim. Nunca.

Os galhos dos choupos, bétulas e amieiros dos dois lados estavam cobertos de mariposas. Parecia haver milhões delas.

— E se elas atacarem? — murmurou Elaine, mantendo a voz baixa e agradecendo a Deus por não ter cedido aos pedidos de Nana de ir junto.

— Elas não vão atacar — disse Lila.

— Como você pode saber disso? — perguntou Elaine.

— Eu só sei — respondeu Lila. — Elas são como a raposa. — Ela hesitou, procurando a palavra certa. — São emissárias.

— De quem? — perguntou Blanche. — Ou de quê?

Essa foi outra pergunta que Lila preferiu não responder, apesar de poder.

— Venham — disse ela. — Não falta muito agora.

4

Quinze mulheres pararam no mato alto, olhando para o que Lila tinha passado a chamar de Árvore Impressionante. Ninguém disse nada por talvez trinta segundos. Em seguida, uma voz aguda e ofegante, a de Jolie Suratt, disse: — Meu Deus do céu.

A Árvore subia como um obelisco vivo no sol, os vários troncos cheios de nós

se curvando uns nos outros, às vezes concentrando raios de luz cheios de pólen, às vezes criando cavernas escuras. Aves tropicais se espalhavam pelos galhos e fofocavam nas folhas verdes. Na frente, o pavão que Lila tinha visto antes andava de um lado para outro como o porteiro mais elegante do mundo. A cobra vermelha também estava lá, pendurada em um galho, um trapezista reptiliano balançando para um lado e para outro. Embaixo da cobra havia uma fenda escura onde os vários fustes pareciam se afastar. Lila não se lembrava disso, mas não se surpreendeu. Nem quando a raposa saiu de dentro como um palhaço de uma caixa surpresa e deu uma mordida brincalhona no pavão, que não deu atenção.

Janice Coates segurou o braço de Lila.

— Nós estamos vendo isso?

— Estamos — disse Lila.

Celia, Magda e Jolie deram um grito agudo, em uma harmonia tripla perfurante. O tigre branco estava saindo da abertura no tronco. Observou as mulheres na beirada da clareira com os olhos verdes, depois se espreguiçou, parecendo quase se curvar a elas.

— Fiquem paradas! — gritou Lila. — Fiquem paradas, todas! Ele não vai fazer mal a ninguém! — Torcendo com todas as forças para que fosse verdade.

O tigre encostou o focinho no da raposa. Virou-se para as mulheres de novo, parecendo olhar para Lila com interesse particular. Em seguida, andou até atrás da árvore e sumiu.

— Meu Deus — disse Kitty McDavid. Ela estava chorando. — Que coisa mais linda! Que porra de coisa mais linda de Deus!

Magda Dubcek disse: — Aqui é swiety miejsce. Um lugar sagrado. — E ela fez o sinal da cruz.

Janice estava olhando para Lila.

— Me conte.

— Eu acho que é uma saída — disse Lila. — Um caminho de volta. Se a gente quiser.

Foi nessa hora que o walkie-talkie no cinto dela ganhou vida. Houve uma explosão de estática, sem dar para identificar as palavras, mas parecia Erin aos ouvidos de Lila, e parecia que ela estava gritando.

5

Tiffany estava deitada no banco da frente do carrinho de golfe. Uma camiseta velha do St. Louis Rams que ela tinha arrumado em algum lugar estava caída no chão. Os seios, antes pequenas protuberâncias, se projetavam de um sutiã simples de bojo grande (os de lycra agora eram totalmente inúteis). Erin estava inclinada entre as pernas dela com as mãos abertas sobre aquele morro incrível que era a barriga. Quando as mulheres chegaram correndo, algumas pisando em galhos e com uma mariposa ou outra no cabelo, Erin se abaixou. Tiffany gritou, com as pernas abertas em V: — Acabe com isso, ah, pelo amor de Deus, acabe logo!

— O que você está fazendo? — perguntou Lila ao chegar nela, mas quando olhou para baixo, o que Erin estava fazendo e por que ficaram óbvios. A calça jeans de Tiff estava aberta. Havia uma mancha no tecido azul, e o algodão da calcinha estava úmido e rosado.

— O bebê está nascendo, e a bunda está onde devia estar a cabeça — disse Erin.

— Ah, meu Deus, parto pélvico? — perguntou Kitty.

— Eu tenho que virar ele — disse Erin. — Nos leve para a cidade, Lila.

— A gente vai ter que levantar ela — falou Lila. — Não posso dirigir enquanto a gente não fizer isso.

Com a ajuda de Jolie e Blanche McIntyre, Lila botou Tiffany em uma posição parcialmente sentada com Erin espremida ao lado. Tiffany gritou de novo: — Ah, isso dói!

Lila entrou atrás do volante do carrinho, o ombro direito pressionando o esquerdo de Tiffany. Erin tinha quase se virado de lado para caber.

— A que velocidade essa coisa vai? — perguntou ela.

— Não sei, mas vamos descobrir. — Lila pisou no acelerador, fazendo uma careta pelo uivo de dor de Tiff quando o carrinho deu um pulo. Tiffany gritou a cada sacolejar, e foram muitos. Naquele momento, a Árvore Impressionante e seu carregamento de aves exóticas era a coisa mais distante da mente de Lila.

Porém, não era assim para a antiga Elaine Geary.

6

Elas pararam no Olympia Diner. Tiffany estava sentindo dor demais para ir mais longe. Erin mandou Janice e Magda buscarem a bolsa dela na cidade enquanto Lila e três outras mulheres carregavam Tiffany para dentro.

— Juntem algumas mesas — disse Erin — e sejam rápidas. Preciso endireitar esse bebê agora, e preciso que a mãe esteja deitada para poder fazer isso.

Lila e Mary empurraram as mesas. Margaret e Gail colocaram Tiffany em cima, fazendo careta e virando a cara, como se Tiff estivesse jogando lama nelas, em vez de dando gritos de protesto.

Erin voltou a trabalhar na barriga de Tiffany, sovando como se fosse massa.

— Acho que está começando a se mexer, graças a Deus. Vamos lá, Júnior, que tal uma pirueta pra dra. Erin?

Erin apertou a barriga de Tiff com uma das mãos enquanto Jolie Suratt empurrava de lado.

— Parem! — gritou Tiffany. — Parem, filhas da puta!

— Está virando — disse Erin, ignorando o xingamento. — Virando mesmo, graças a Deus. Tire a calça dela, Lila. A calça e a calcinha. Jolie, continue apertando. Não deixe que vire de volta.

Lila segurou uma perna da calça jeans de Tiffany, Celia Frode, a outra. Elas puxaram, e a calça velha saiu. A calcinha de Tiffany saiu junto até metade das pernas, deixando manchas de sangue e líquido amniótico nas coxas. Lila terminou de tirá-la. Estava pesada de líquido, quente e encharcada. Ela sentiu uma coisa subir pela garganta, mas logo voltar.

Os gritos eram constantes agora, a cabeça de Tiffany se debatia de um lado para o outro.

— Não posso esperar a bolsa — disse Erin. — O bebê está saindo agora. Só que… — Ela olhou para a antiga colega de profissão, que assentiu. — Arrumem uma faca para Jolie. Uma afiada. Vamos ter que cortar ela um pouco.

— Eu tenho que fazer força — ofegou Tiffany.

— Porra nenhuma — disse Jolie. — Ainda não. A porta está aberta, mas precisamos soltar as dobradiças. Abrir mais espaço.

Lila achou uma faca de carne e, no banheiro, um frasco antigo de peróxido de hidrogênio. Ela encharcou a lâmina, parou para considerar o álcool gel junto à porta e apertou o botão do dispensador. Nada. A substância lá dentro tinha

evaporado muito tempo antes. Ela voltou correndo. As mulheres estavam em volta de Tiffany, Erin e Jolie em um semicírculo. Todas estavam de mãos dadas, menos Elaine Geary, que estava com os braços apertados em volta da barriga. Ela estava direcionando o olhar primeiro para a bancada, depois para os compartimentos vazios, depois para a porta. Para qualquer lugar, menos para a mulher ofegante e gritando na mesa de cirurgia improvisada, agora nua em pelo exceto por um sutiã velho de algodão.

Jolie pegou a faca.

— Você desinfetou com alguma coisa?

— Peróxido de hid…

— Está bom — disse Erin. — Mary, procure um cooler de isopor por aí. Uma de vocês, arrume toalhas. Deve ter na cozinha. Coloquem em cima de…

Ouviu-se um uivo infeliz de Tiffany quando Jolie Suratt executou a episiotomia com faca de carne, sem anestesia.

— Coloquem as toalhas em cima dos carrinhos de golfe — terminou Erin.

— Ah, é, os painéis solares! — Quem falou foi Kitty. — Para aquecer o bebê.

Nossa, isso foi inteli…

— Queremos que fiquem mornas, não quentes — disse Erin. — Não tenho intenção de assar nosso novo cidadão. Andem logo.

Elaine ficou onde estava e deixou as outras mulheres passarem como água em volta de uma pedra, continuando a dirigir o olhar para qualquer coisa que não fosse Tiffany Jones. Seus olhos estavam brilhantes e rasos.

— Está muito perto? — perguntou Lila.

— Sete centímetros — disse Jolie. — Ela vai chegar a dez antes de você conseguir dizer Jack Robinson. O apagamento do colo do útero está completo, ao menos uma coisa que aconteceu direito. Faz força, Tiffany, mas guarde um pouco de energia para a próxima.

Tiffany fez força. Tiffany gritou. A vagina de Tiffany se abriu, se fechou e se abriu de novo. O sangue fluía por entre as pernas.

— Não estou gostando do sangue. — Lila ouviu Erin murmurar isso para Jolie com o canto da boca, como um informante dando dicas em uma corrida de cavalos. — Tem muito saindo. Cristo, eu queria pelo menos ter meu fetoscópio.

Mary voltou com o tipo de cooler de plástico duro que Lila tinha levado para o

lago Maylock muitas vezes, quando ela, Clint e Jared faziam piqueniques lá. Na lateral, havia as palavras BUDWEISER! RAINHA DAS CERVEJAS!

— Serve, dra. Erin?

— Serve — disse Erin, sem olhar. — Tudo bem, Tiff, faz força pra valer.

— Minhas costas estão me matando… — disse Tiffany, mas o matando virou um mataaaaNNN enquanto seu rosto se contorcia e os punhos batiam na superfície lascada de fórmica da mesa.

— Estou vendo a cabeça! — gritou Lila. — Estou vendo o ro… ah, Cristo, Erin, o que…?

Erin empurrou Jolie de lado e segurou um dos ombros do bebê antes que pudesse voltar, os dedos apertando de uma forma que deixou Lila enjoada. A cabeça do bebê deslizou para a frente, inclinada com força para um dos lados, como se estivesse tentando olhar para o caminho de onde tinha vindo. Os olhos estavam fechados, o rosto cinzento. Em volta do pescoço e subindo por uma bochecha até a orelha, como uma forca, estava o cordão umbilical sujo de sangue que fez Lila pensar na cobra vermelha pendurada na Árvore Impressionante. Do peito para baixo, o bebê ainda estava dentro da mãe, mas um braço tinha se soltado e estava pendurado, inerte. Lila conseguia ver cada dedo perfeito, cada unha perfeita.

— Pare de fazer força — disse Erin. — Sei que você quer terminar, mas não ainda.

— Eu preciso — ofegou Tiffany.

— Você vai estrangular seu bebê se empurrar — disse Jolie. Ela estava de novo ao lado de Erin, ombro a ombro. — Espere. Só… me dê um segundo…

Tarde demais, pensou Lila. Já está estrangulado. Basta olhar para a carinha cinzenta.

Jolie enfiou um dedo embaixo do cordão umbilical, depois dois. Flexionou os dedos em um gesto de “vem cá”, primeiro afastando o cordão do pescoço do bebê e depois soltando. Tiffany gritou, cada tendão do pescoço se contraindo de alívio.

— Faz força! — disse Erin. — O máximo de força que conseguir! No três!

Jolie, não deixe ele cair de cara nesse chão imundo quando sair! Tiff! Um, dois, três!

Tiffany fez força. O bebê pareceu pular nas mãos de Jolie Suratt. Estava

grudento, era lindo e estava morto.

— Canudo! — gritou Jolie. — Arrumem um canudo! Agora!

Elaine se adiantou. Lila não a tinha visto se mexer. Ela estava com um na mão, já fora da embalagem de papel.

— Aqui.

Erin pegou o canudo.

— Lila — disse Erin. — Abra a boca dele.

Dele. Até o momento, Lila não tinha reparado na vírgula cinzenta embaixo da barriga do bebê.

— Abra a boca dele! — repetiu Erin.

Com cuidado, Lila obedeceu usando dois dedos. Erin colocou uma ponta do canudo na própria boca e a outra na pequena abertura que os dedos de Lila tinham criado.

— Agora, levante o queixo dele — instruiu Jolie. — Temos que criar sucção.

Para quê? Morto era morto. Porém, mais uma vez, Lila obedeceu às ordens e viu manchas aparecerem nas bochechas de Erin Eisenberg quando ela sugou em uma ponta. Houve um som perceptível: flup. Erin virou a cabeça de lado para cuspir o que parecia catarro. Em seguida, assentiu para Jolie, que levantou o bebê até o próprio rosto e soprou delicadamente na boca.

O bebê só ficou parado, a cabeça para trás, com gotas de sangue e gosma na cabeça careca. Jolie soprou de novo, e um milagre aconteceu. O peitinho subiu e desceu; os olhos azuis se abriram de leve. Ele começou a chorar. Celia Frode começou a aplaudir, e as outras se juntaram a ela… menos Elaine, que tinha voltado para onde estava antes, os braços novamente abraçando a barriga. O

choro do bebê era constante agora. As mãozinhas estavam fechadas.

— É o meu bebê — disse Tiffany, e levantou os braços. — O meu bebê está chorando. Me deem ele aqui.

Jolie amarrou o cordão umbilical com um elástico e embrulhou o bebê com a primeira coisa à mão, um avental de garçonete que alguém havia pegado em um gancho de parede. Ela passou o embrulho chorão para Tiffany, que olhou na carinha dele, riu e beijou uma bochecha grudenta.

— Onde estão as toalhas? — perguntou Erin. — Tragam agora.

— Ainda não devem estar muito quentes — disse Kitty.

— Pode trazer mesmo assim.

As toalhas foram levadas, e Mary forrou o cooler da Budweiser com elas.

Enquanto isso, Lila viu mais sangue jorrando por entre as pernas de Tiffany.

Muito sangue. Litros, talvez.

— Isso é normal? — alguém perguntou.

— Perfeitamente. — A voz de Erin estava firme e segura, a personificação da confiança: não havia problema nenhum ali. Foi nessa hora que Lila começou a desconfiar de que Tiffany provavelmente morreria. — Mas tragam mais toalhas.

Jolie Suratt foi pegar o bebê nos braços da mãe e colocar no bercinho improvisado. Erin balançou a cabeça.

— Deixe que ela segure ele mais um pouco.

Nessa hora, Lila teve certeza.

7

Era crepúsculo no que já tinha sido a cidade de Dooling e agora era Nosso Lugar.

Lila estava sentada no degrau da frente da casa na St. George Street com uma pilha de papéis grampeados nas mãos enquanto Janice Coates subia a calçada.

Quando Janice se sentou ao seu lado, Lila captou um aroma de zimbro. De um bolso dentro do colete quadriculado, a ex-diretora tirou a fonte disso: uma garrafa de gim Schenley. Ela entregou para Lila, que fez que não.

— Placenta retida — disse Janice. — Foi o que Erin me disse. Não tem como raspar, ao menos não a tempo de parar o sangramento, e sem as drogas que usam.

— Oxitocina — disse Lila. — Eu tomei quando Jared nasceu.

Elas ficaram em silêncio por um tempo, vendo a luz do que tinha sido um dia muito longo sumir. Finalmente, Janice disse: — Eu achei que você talvez quisesse ajuda para tirar as coisas dela.

— Já tirei. Ela não tinha muita coisa.

— Nenhuma de nós tem. E é um certo alívio, você não acha? Nós aprendemos um poema na escola, alguma coisa sobre comprar e gastar e consumir todas as nossas forças. Keats, talvez.

Lila, que tinha aprendido o mesmo poema, sabia que era de Wordsworth, mas

não disse nada. Janice recolocou a garrafa no bolso de onde tinha saído e tirou um lenço relativamente limpo. Usou para limpar primeiro uma das bochechas de Lila e depois a outra, uma ação que gerou lembranças dolorosamente doces da mãe de Lila, que tinha feito a mesma coisa nas muitas ocasiões em que a filha, uma moleca confessa, havia caído de bicicleta ou do skate do irmão.

— Encontrei isto na cômoda onde ela estava guardando as coisas do bebê —

disse Lila, entregando para Janice as folhas de papel. — Estava embaixo de uns macacões e sapatinhos.

Na frente, Tiffany tinha colado uma foto de uma mãe rindo, com penteado perfeito, segurando um bebê que gargalhava em um raio de luz do sol. Janice tinha quase certeza de que tinha sido cortada de uma propaganda de papinha de bebê de uma revista para senhoras, talvez a Good Housekeeping. Embaixo, Tiffany tinha escrito: LIVRO DE ANDREW JONES PARA UMA BOA VIDA.

— Ela sabia que era menino — disse Lila. — Não sei como sabia, mas sabia.

— Magda disse para ela. Tinha a ver com alguma superstição antiga de barriga alta.

— Ela deve ter passado um tempo trabalhando nisso, mas eu nunca vi ela fazendo. — Lila se perguntou se Tiffany sentia vergonha. — Veja a primeira página. Foi o que fez a minha torneirinha abrir.

Janice abriu o livrinho feito em casa. Lila se inclinou para perto, e elas leram juntas.

10 REGRAS PARA VIVER BEM

1. Seja gentil com os outros e eles vão ser gentis com você.

2. Não use drogas como diversão NUNCA.

3. Se estiver errado, peça desculpas.

4. Deus vê o que você faz de errado, mas ELE é gentil e vai perdoar.

5. Não conte mentiras, porque isso vira hábito.

6. Nunca bata em um cavalo com um chicote.

7. Seu corpo é seu templo, então NÃO FUME.

8. Não trapaceie, seja JUSTO com todo mundo.

9. Tome cuidado com os amigos que escolher. Eu não tomei.

10. Lembre que sua mãe sempre vai amar você e você vai ficar BEM!

— Acho que foi o último que me pegou de jeito — disse Lila. — Ainda me afeta. Me dá a garrafa. Acho que preciso de um gole, no fim das contas.

Janice passou a garrafa para ela. Lila engoliu, fez uma careta e devolveu.

— Como está o bebê? Bem?

— Considerando que nasceu seis semanas antes da hora, com o cordão umbilical como colar, ele está indo muito bem — disse Janice. — Graças a Deus tínhamos Erin e Jolie, senão teríamos perdido os dois. Ele está com Linda Bayer e o bebê dela. Linda parou de amamentar Alex um tempo atrás, mas assim que ouviu Andy chorando, o leite voltou na mesma hora. É o que ela diz. Enquanto isso, temos outra tragédia para encarar.

Como se Tiffany não fosse suficiente para um dia, Lila pensou, e tentou fazer uma expressão neutra.

— Pode contar.

— Sabe Gerda Holden? A mais velha das quatro garotas Holden? Ela desapareceu.

Era quase certo que isso queria dizer que uma coisa mortal tinha acontecido com ela naquele outro mundo. Todas aceitavam isso como fato agora.

— Como Clara está reagindo?

— Como era de se esperar — respondeu Janice. — Está meio fora de si. Ela e as meninas vinham sentindo aquela vertigem estranha nessa última semana, mais ou menos…

— Então tem alguém deslocando elas.

Janice deu de ombros.

— Talvez. Provavelmente. Seja lá o que for, Clara está com medo de outra filha sumir a qualquer momento. Talvez as três. Eu também teria medo. — Ela começou a folhear o Livro de Andrew Jones para uma boa vida. Cada página continha uma expansão das dez regras.

— Devíamos falar sobre a Árvore? — perguntou Lila.

Janice pensou, mas balançou a cabeça.

— Talvez amanhã. Esta noite, só quero dormir.

Lila, que não sabia se conseguiria dormir, segurou a mão de Janice e apertou.

8

Nana tinha pedido à mãe para dormir com Molly na casa da sra. Ransom, e Elaine deu permissão depois de verificar com a velha senhora se não haveria problema.

— Claro — disse a sra. Ransom. — Molly e eu adoramos Nana.

Isso bastava para a mulher que já tinha usado o nome Elaine Geary, que estava pela primeira vez feliz de a filha estar fora de casa. Nana era sua querida, sua joia, um raro ponto de concordância com o ex-marido, o que segurou o casamento por mais tempo do que teria durado sem ela, mas naquela noite, Elaine tinha uma coisa importante a fazer. Que era mais por Nana do que por ela. Por todas as mulheres de Dooling, na verdade. Algumas delas (Lila Norcross, por exemplo) talvez não entendessem agora, mas entenderiam depois.

Isso se ela decidisse ir até o fim.

Os carrinhos de golfe que tinham levado no passeio até aquela árvore estranha no bosque estavam estacionados atrás do que tinha sobrado do Prédio Municipal. Uma coisa boa que pode se dizer de mulheres, ela pensou, uma de muitas , é que elas costumam guardar as coisas quando terminam de usar. Os homens eram diferentes. Eles deixavam as coisas deles espalhadas para todo lado. Quantas vezes tinha mandado Frank colocar a roupa suja no cesto? Não bastava que ela lavasse e passasse, tinha que recolher também? E quantas vezes ela ainda as tinha encontrado no banheiro, em frente ao chuveiro ou caídas no chão do quarto? E ele podia se dar ao trabalho de passar uma água no copo ou lavar o prato depois de um lanchinho noturno? Não! Parecia que os pratos e copos ficavam invisíveis depois que a utilidade deles acabava. (O fato de que o marido deixava o escritório imaculado e as gaiolas de animais limpíssimas tornavam o comportamento distraído ainda mais irritante.) Coisas pequenas, diriam, e quem poderia discordar? Eram mesmo! Porém, ao longo de quinze anos, essas coisas tinham virado uma versão doméstica de uma tortura chinesa antiga sobre a qual ela tinha lido em um livro da Time-Life que havia pegado em uma caixa de donativos no Goodwill. Morte por mil cortes, esse era o nome. O

temperamento ruim de Frank foi só o pior e mais profundo desses cortes. Ah, às vezes havia um presente, um beijo suave no pescoço, um jantar fora (à luz de

velas!), mas essas coisas eram só a cobertura de um bolo duro e difícil de mastigar. O Bolo do Casamento! Ela não estava preparada para dizer que todos os homens eram iguais, mas a maioria era, porque os instintos vinham de fábrica. Com o pênis. A casa de um homem era seu castelo, era o que diziam, e inserido nos cromossomos XY havia uma crença profunda de que todos os homens eram reis e todas as mulheres eram suas empregadas.

As chaves ainda estavam nos carrinhos. Claro que estavam; podia haver casos ocasionais de furtos mesquinhos em Nosso Lugar, mas nunca tinha havido um roubo de verdade. Essa era uma das coisas boas. Havia muitas coisas boas, mas nem todo mundo podia se contentar com elas. Os choramingos e reclamações nas Reuniões eram um exemplo. Nana tinha ido a algumas. Ela achava que Elaine não sabia, mas ela sabia. Uma boa mãe monitorava a filha e sabia quando ela estava sendo contaminada por más companhias com ideias ruins.

Dois dias antes, Molly tinha ido para a casa delas, e elas passaram momentos maravilhosos, primeiro brincando do lado de fora (de amarelinha e de pular corda) e depois dentro de casa (redecorando a grande casa de bonecas que Elaine achou justo retirar da Dooling Mercantile), depois lá fora de novo até o sol se pôr. Elas jantaram uma refeição farta, depois da qual Molly voltou andando por duas quadras até a casa dela enquanto escurecia. Sozinha. E por que ela podia fazer isso? Porque naquele mundo não havia predadores. Não havia pedófilos.

Um dia feliz. E foi por isso que Elaine ficou tão surpresa (e um pouco temerosa, por que não admitir?) quando parou na porta do quarto da filha quando estava indo dormir e ouviu Nana chorando.

Elaine escolheu um carrinho, girou a chave e pisou no pequeno pedal redondo do acelerador. Saiu do estacionamento em silêncio e desceu a Main Street, passando pelos sinais de trânsito apagados e pelas lojas escuras. Três quilômetros fora da cidade, ela chegou a um prédio branco com duas bombas de gasolina inúteis na frente. A placa no teto proclamava que era o Mercado Geral de Dooling. O dono, Kabir Patel, não estava lá, claro, assim como os três filhos bem-comportados (ao menos em público). A esposa estava visitando familiares na Índia quando a Aurora chegou, e devia estar encasulada em Mumbai, Lucknow ou alguma outra cidade indiana.

O sr. Patel vendia um pouco de tudo, era a única forma de competir com o supermercado, mas boa parte das coisas já tinha sumido. As bebidas alcoólicas desapareceram primeiro, claro; mulheres gostavam de beber, e quem as ensinava a apreciar o álcool? Outras mulheres? Raramente.

Sem parar e olhar a loja escura, Elaine dirigiu com o carrinho até os fundos.

Ali havia um longo anexo de metal com uma placa na frente que dizia “Loja de Peças Automotivas do Mercado Geral. Venha aqui primeiro e economize!”. O sr.

Patel mantinha a loja arrumada, e ela o aplaudia por isso. O pai de Elaine fazia consertos de motores pequenos para complementar a renda de encanador (isso em Clarksburg), e os dois barracões nos fundos onde ele trabalhava eram cheios de peças descartadas, pneus carecas e vários cortadores de grama e motocultivadores. “Um horror”, reclamava a mãe de Elaine. “Paga as suas sextas-feiras no salão de beleza”, respondia o rei do castelo, e a bagunça continuava no mesmo lugar.

Elaine precisou empurrar com todo o seu peso uma das portas para que se abrisse sobre o trilho sujo, mas acabou conseguindo empurrar um metro e meio, e era mais do que suficiente.

— Qual é o problema, querida? — perguntara ela para a filha que chorava, isso antes de saber que a maldita árvore existia, quando ela achava que as lágrimas da filha eram o único problema que tinha e que passariam com a rapidez de uma pancada de chuva de primavera. — Está com a barriguinha doendo do jantar?

— Não — disse Nana —, e não precisa chamar de barriguinha, mãe. Eu não tenho cinco anos.

Aquele tom exasperado era novidade, e deixou Elaine um pouco irritada, mas ela continuou a acariciar o cabelo de Nana.

— O que foi então?

Nana apertou os lábios, tremeu e explodiu: — Estou com saudade do papai!

Estou com saudade de Billy, ele às vezes segurava minha mão quando a gente ia pra escola andando e era legal, ele era legal, mas o que mais sinto é saudade do papai! Quero que essas férias acabem! Eu quero voltar para casa!

Em vez de parar, como acontecia com as pancadas de chuva de primavera, o choro virou uma tempestade. Quando Elaine tentou acariciar a bochecha dela, Nana afastou sua mão e se sentou na cama com o cabelo desgrenhado em volta

do rosto. Naquele momento, Elaine viu Frank nela. Ela o viu com tanta clareza que foi inquietante.

— Você não lembra como ele gritava com a gente? — perguntou Elaine. — E

da vez que ele deu um soco na parede! Foi assustador, não foi?

— Ele gritava com você! — gritou Nana. — Com você, porque você sempre queria que ele fizesse alguma coisa… ou pegasse alguma coisa… ou fosse uma coisa diferente… sei lá, mas ele nunca gritava comigo!

— Mas puxou sua blusa — disse Elaine. Sua inquietação aumentou e virou uma coisa parecida com horror. Ela achava que Nana tinha se esquecido de Frank? Que o tinha relegado à pilha de lixo junto com a amiga invisível, a sra.

Humpty-Dump? — E era a sua favorita.

— Porque ele estava com medo do homem do carro! O que atropelou o gato!

Ele estava cuidando de mim!

— Lembra quando ele gritou com a sua professora, lembra como você ficou com vergonha?

— Eu não ligo! Eu quero ele!

— Nana, já chega. Você já deixou cl…

— EU QUERO MEU PAI!

— Você precisa fechar os olhos e ir dormir e ter bons sonh…

— eu quero meu pai!

Elaine saiu do quarto e fechou a porta delicadamente ao passar. Que esforço foi preciso para não descer ao nível da criança e bater nela! Mesmo agora, no barracão com cheiro de óleo do sr. Patel, ela não admitia o quanto tinha chegado perto de gritar com a filha. Ou até (por favor, Deus, não) de bater nela. Não foi o tom estridente de Nana, tão diferente da voz suave e hesitante de sempre; não foi nem a semelhança física com Frank, que ela conseguia ignorar quase sempre.

Foi o quanto ela falou como ele enquanto fazia as exigências irracionais e impossíveis. Era quase como se Frank Geary tivesse atravessado o golfo que separava aquele mundo antigo e violento desse novo e tivesse possuído a filha.

Nana estava normal no dia seguinte, mas Elaine não conseguiu parar de pensar nas lágrimas ouvidas pela porta e na forma como a filha tinha empurrado a mão que só ia consolar, e naquela voz feia e estridente que tinha saído de sua boca de criança: Eu quero meu pai. E isso nem era tudo. Ela tinha dado a mão

para o pequeno e feio Billy Beeson do final da rua. Ela sentia falta do namoradinho, que provavelmente adoraria levá-la para trás de um arbusto para brincar de médico. Foi até fácil imaginar Nana e o escabroso Billy aos dezesseis anos, se pegando no banco de trás do Club Cab do pai dele. Fazendo guerra de língua com ela e a avaliando para a posição de Primeira Cozinheira e Lavadora de Mamadeiras no castelinho de merda dele. Esqueça os desenhos, Nana, vá para a cozinha esfregar panelas e frigideiras. Dobre minhas roupas. Me faça gozar, depois eu arroto, rolo para o lado e durmo.

Elaine tinha levado uma lanterna à manivela, que agora apontou para o interior do anexo automotivo, que ficou intacto. Sem combustível para usar nos carros de Dooling, não havia necessidade de correias de ventoinha e velas de ignição. Assim, o que ela estava procurando podia estar lá. Tinha muito daquele tipo de coisa na oficina do pai dela, e o odor oleoso naquela era o mesmo, trazendo de volta com vividez surpreendente lembranças da garota de marias-chiquinhas que ela tinha sido (mas não com nostalgia, ah, não). Entregando ao pai as peças e ferramentas quando ele as pedia, estupidamente feliz quando ele agradecia, se encolhendo se ele a repreendia por ser lenta ou por pegar a coisa errada. Porque ela queria agradá-lo. Ele era o pai dela, grande e forte, e ela queria agradá-lo em todas as coisas.

Aquele mundo era muito melhor do que o antigo, comandado por homens.

Ninguém gritava com ela ali e ninguém gritava com Nana. Ninguém as tratava como cidadãs de segunda classe. Aquele era um mundo em que uma garotinha podia voltar andando para casa sozinha, mesmo depois de escurecer, e se sentir segura. Um mundo em que o talento de uma garotinha podia crescer junto com os quadris e os seios. Ninguém o podaria na muda ainda. Nana não entendia isso e não estava sozinha; se alguém discordasse, era só ouvir o que se dizia naquelas Reuniões estúpidas.

Eu acho que é uma saída, dissera Lila com as mulheres em volta na grama alta, olhando para a árvore esquisita. E, ah, Deus, se ela estivesse certa...

Elaine entrou mais no barracão de peças de automóveis, apontando o raio da lanterna para o chão porque o piso era de concreto, e o concreto mantinha as coisas frias. E ali, no canto, estava o que ela esperava encontrar: três latas de cinco galões com as tampas bem fechadas. Eram de metal simples, sem marcas,

mas havia um elástico vermelho grosso em volta de uma e elásticos azuis em volta das outras duas. Seu pai marcava suas latas de querosene da mesma forma.

Eu acho que é uma saída. Um caminho de volta. Se a gente quiser.

Algumas sem dúvida iam querer. As mulheres da Reunião que não conseguiam entender a coisa boa que tinham ali. A coisa especial. A coisa segura. Eram as que estavam tão acostumadas com gerações de servidão que voltariam correndo para as correntes. As da prisão, de forma contraintuitiva, provavelmente seriam as primeiras a querer voltar, voltar para o antigo mundo, direto para o buraco de onde foram libertadas. Muitas daquelas criaturas infantis eram incapazes ou não estavam dispostas a perceber que quase sempre havia um coconspirador homem não indiciado por trás da prisão delas. Um homem por quem elas se degradaram. Nos anos que trabalhou como voluntária no abrigo de mulheres, Elaine viu e ouviu um milhão de vezes: “Ele tem bom coração”. “Ele não fez por mal.” “Ele prometeu que vai mudar.” Até ela era vulnerável. No meio daquele dia e noite intermináveis, antes de elas adormecerem e serem transportadas, ela quase se permitiu acreditar, apesar de tudo o que tinha vivenciado com Frank no passado, que ele faria o que ela pedisse, que controlaria a raiva. Claro que ele não fez isso.

Elaine não acreditava que Frank pudesse mudar. Era a natureza masculina dele. Porém, ele a tinha mudado. Às vezes, ela achava que Frank a tinha enlouquecido. Para ele, ela era a ranzinza, a capataz, o alarme irritante que encerrava o descanso diário. Ela ficava impressionada com a falta de percepção de Frank do peso das responsabilidades dela. Ele realmente acreditava que dava prazer a ela ter que lembrá-lo de pagar as contas, de pegar coisas, de manter o temperamento sob controle? Ela tinha certeza de que sim. Elaine não era cega: ela via que o marido não era um homem satisfeito, mas ele simplesmente não a enxergava.

Ela tinha que agir, pelo bem de Nana e das outras. Foi o que ficou claro naquela tarde, na hora que Tiffany Jones estava morrendo naquela lanchonete, abandonando o que restava da pobre vida destruída para que uma criança pudesse viver.

Haveria mulheres que iam querer voltar. Não a maioria, Elaine tinha que acreditar que a maioria das outras mulheres ali não era tão louca, tão

masoquista, mas ela podia correr esse risco? Podia, quando sua doce Nana, que se encolhia cada vez que o pai levantava a voz…?

Pare de pensar nisso, ela disse para si mesma. Concentre-se no que veio fazer.

O elástico vermelho queria dizer querosene barato e provavelmente não teria utilidade nenhuma, assim como a gasolina armazenada embaixo dos vários postos de gasolina da cidade. Era possível mergulhar um fósforo aceso em querosene de elástico vermelho, quando estava velho. Porém, aqueles elásticos azuis queriam dizer que um estabilizante havia sido adicionado, e que por isso poderia manter a volatilidade por dez anos ou mais.

A árvore que elas tinham encontrado naquele dia podia ser incrível, mas ainda era uma árvore, e árvores pegavam fogo. Havia o tigre a levar em conta, claro, mas ela levaria uma arma. Usaria para afastá-lo, atiraria nele se necessário. (Ela sabia atirar; o pai havia lhe ensinado.) Parte dela pensava que essa podia acabar sendo uma precaução desnecessária. Lila chamou o tigre e a raposa de emissários, e Elaine achou que ela estava certa. Ela tinha a ideia de que o tigre não tentaria impedi-la, que a Árvore estava essencialmente desprotegida.

Se era uma porta, precisava ser fechada de vez.

Um dia, Nana entenderia e agradeceria por ela ter feito a coisa certa.

9

Lila acabou dormindo, mas acordou logo depois das cinco, com o novo dia apenas uma linha de luz no horizonte leste. Ela se levantou e fez xixi no penico.

(Água corrente tinha chegado a Dooling, mas ainda não na casa da St. George.

“Mais uma ou duas semanas, talvez”, garantiu Magda.) Lila pensou em voltar para a cama, mas sabia que ficaria rolando de um lado para o outro pensando em quando Tiffany, de uma cor cinzenta no final, perdeu a consciência pela última vez com o bebê recém-nascido ainda nos braços. Andrew Jones, cujo legado seria um livreto grampeado de folhas manuscritas.

Ela se vestiu e saiu da casa. Não tinha destino em particular, mas não ficou totalmente surpresa quando viu a carcaça em ruínas do Prédio Municipal à frente; ela tinha passado a maior parte da vida adulta trabalhando lá. Era como um norte magnético, apesar de não haver nada lá agora para se ver. Algum tipo

de incêndio tinha feito o estrago, iniciado por um raio, talvez, ou por fiação defeituosa. A lateral do prédio que abrigava a sala de Lila era composta de destroços pretos; enquanto os anos de intempéries que penetraram pelas paredes quebradas e pelas janelas trabalharam na outra metade, deixando a parede úmida para o mofo e espalhando os detritos que se reuniram em camadas no chão.

Por isso, Lila ficou surpresa de ver uma pessoa sentada nos degraus de granito.

Os degraus eram a única coisa no prédio que ainda estava inteira.

Quando ela chegou mais perto, a pessoa se levantou e se aproximou dela.

— Lila? — Embora cheia de incerteza e carregada de lágrimas recentes, a voz era familiar. — Lila, é você?

Novas mulheres eram uma aparição rara agora, e se aquela seria a última, não podia haver outra melhor. Lila correu até ela, a abraçou, beijou as duas bochechas.

— Linny! Ah, Deus, é tão bom ver você!

Linny Mars a abraçou com força e pânico, depois se afastou para poder olhar para o rosto de Lila. Para ter certeza. Lila entendeu perfeitamente e ficou parada.

Porém, Linny estava sorrindo, e as lágrimas nas bochechas eram boas. Parecia para Lila que uma balança divina tinha sido equilibrada: a partida de Tiffany de um lado, a chegada de Linny do outro.

— Há quanto tempo você está sentada aqui? — Lila finalmente perguntou.

— Não sei — disse Linny. — Uma hora, talvez duas. Eu vi a lua descer. Eu…

Eu não sabia para onde ir. Eu estava no escritório, olhando meu laptop, e de repente… como eu vim parar aqui? Onde é aqui?

— É complicado — respondeu Lila, e enquanto levava Linny até os degraus, ocorreu a ela que era uma coisa que mulheres diziam com frequência, mas homens quase nunca. — De certa forma, você ainda está no escritório, só que em um dos casulos. Ou pelo menos é o que nós achamos.

— Nós estamos mortas? Somos fantasmas? É isso que você está dizendo?

— Não. Este lugar é real. — Lila não tinha certeza disso no começo, mas agora tinha. A familiaridade podia ou não gerar desprezo, mas certamente gerava crença.

— Há quanto tempo você está aqui?

— Pelo menos oito meses. Talvez mais. O tempo passa mais rápido deste lado

do… bom, o que quer que seja isso onde estamos. Eu acho que lá, de onde você veio, não passou nem uma semana desde que a Aurora começou, não é?

— Cinco dias. Eu acho. — Linny se sentou.

Lila se sentiu como uma mulher que estava havia muito tempo no exterior e estava ansiosa por notícias de casa.

— Me conte o que está acontecendo em Dooling.

Linny apertou os olhos para Lila e indicou a rua.

— Mas aqui é Dooling, não é? Só que parece meio detonada.

— Nós estamos resolvendo isso — disse Lila. — Me conte o que estava acontecendo quando você saiu de lá. Você teve notícias de Clint? Sabe alguma coisa sobre Jared? — Era improvável, mas ela tinha que perguntar.

— Não tenho como contar muita coisa — disse Linny — porque nos dois últimos dias só consegui pensar em ficar acordada. Fiquei usando as drogas da sala de provas, as da batida dos irmãos Griner, mas no final não estavam mais funcionando direito. E tinha umas coisas estranhas. Gente indo e vindo. Gritos.

Uma pessoa nova no comando. Acho que o nome dele era Dave.

— Dave de quê? — Lila precisou se controlar para não sacudir a atendente.

Linny franziu a testa para as mãos e se concentrou, tentando lembrar.

— Não Dave — disse ela, por fim. — Frank. Um sujeito grande. Ele estava de uniforme, não da polícia, mas depois trocou por uniforme da polícia. Frank Geahart, talvez?

— Você quer dizer Frank Geary? O agente de controle animal?

— É — disse Linny. — Geary, isso mesmo. Nossa, ele é nervoso. Um homem em uma missão.

Lila não sabia como interpretar essa notícia sobre Geary. Ela se lembrava de tê-lo entrevistado para o emprego que ficou com Dan Treater. Geary era impressionante pessoalmente, rápido, confiante, mas o registro dele como agente de controle animal a incomodou. Ele gostava muito de intimações e recebia muitas reclamações: era um subtexto de agressão que era errado para o tipo de força policial que Lila queria em Dooling.

— E Terry? Ele é o policial sênior, devia ter assumido meu lugar.

— Bêbado — disse Linny. — Alguns outros policiais ficaram rindo disso.

— O que você…?

Linny levantou a mão para fazê-la parar.

— Mas logo antes de eu dormir, uns homens apareceram e disseram que Terry queria armas do arsenal por causa de uma mulher na prisão. O que falou comigo era o defensor público, o que você diz que lembra o Will Gardner de The Good Wife.

— Barry Holden? — Lila não estava entendendo.

A mulher na prisão sem dúvida era Evie Black, e Barry tinha ajudado Lila a botar Evie em uma cela no Instituto Penal, mas por que ele…

— Sim, ele. E tinha umas pessoas com ele. Uma era mulher. A filha da diretora Coates, eu acho.

— Não pode ser — disse Lila. — Ela trabalha em Washington.

— Bom, talvez fosse outra pessoa. Naquela hora eu já estava perdida na névoa.

Mas me lembro de Don Peters porque ele tentou passar a mão em mim na véspera do Ano-Novo, ano passado, no Squeaky Wheel.

— Peters da prisão? Ele estava com Barry?

— Não, Peters veio depois. Ficou furioso quando soube que algumas armas tinham sumido. “Pegaram todas as boas”, disse ele, eu me lembro disso, e tinha um garoto com ele, e o garoto disse… ele disse… — Linny olhou para Lila com olhos enormes. — Ele disse: “E se estiverem levando para Norcross na prisão?

Como vamos tirar a puta de lá?”.

Em pensamento, Lila visualizou uma corda de cabo de guerra, com Evie Black como o nó no meio que significaria a vitória para um lado ou outro.

— De que mais você se lembra? Pense, Linny, é importante! — Se bem que o que ela, Lila, podia fazer se fosse isso mesmo?

— De nada — disse Linny. — Depois que Peters e o moleque saíram correndo, eu adormeci. E acordei aqui. — Ela olhou em volta cheia de dúvida, ainda sem saber se existia um “aqui”. — Lila?

— Hm?

— Tem alguma coisa pra comer? Acho que não devo mesmo estar morta, porque estou morrendo de fome.

— Claro — disse Lila, ajudando a amiga a ficar de pé. — Ovos mexidos e torrada, que tal?

— Parece o paraíso. Tenho a sensação de que poderia comer meia dúzia de

ovos e ainda ter espaço para panquecas.

Porém, no fim das contas, Linnette Mars nem chegou a tomar café da manhã; na verdade, ela tinha comido sua última refeição no dia anterior (dois Pop-Tarts de cereja esquentados no micro-ondas da copa da delegacia). Quando as duas mulheres entraram na St. George Street, Lila sentiu a mão de Linny derreter na dela. Só teve um vislumbre de Linny com o canto do olho, com expressão assustada. Não sobrou nada além de uma nuvem de mariposas, subindo para o céu da manhã.

Continuar: parte 8 de 12