Belas adormecidas

Stephen King, Owen King · Capítulo 3 de 6 · parte 6/12

Páginas do PDF

Belas adormecidas

Parte dois: Vou dormir quando morrer

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

— Por que você está brilhando? — perguntou à raposa.

Outros animais tinham comentado sobre esse fenômeno e tinham cautela com ela. A raposa via quando olhava para seu reflexo na água parada. Uma luz dourada se agarrava a ela. Era a marca Dela.

— Eu tive sorte — disse a raposa.

A cobra balançou a língua para ela.

— Venha aqui. Me deixe morder você.

A raposa saiu correndo do chalé. Vários pássaros a atormentaram enquanto ela pulava sob a copa dos galhos retorcidos e emaranhados, sem folhas, mas a barulheira não significou nada para a raposa, cuja barriga estava cheia e cuja pelagem era densa como a de um urso.

Quando chegou à clareira, a Árvore estava lá, a peça central de um oásis cheio de folhas e quente nos campos de neve. Suas patas foram do chão frio para o solo quente e viçoso de verão que era o canteiro eterno da Árvore. Os galhos da Árvore tinham camadas que misturavam incontáveis verdes, e além da passagem no fuste, o tigre branco, balançando a cauda, observou sua aproximação com olhos sonolentos.

— Não preste atenção em mim — disse a raposa —, eu só estou de passagem.

— Ela passou correndo, entrou no buraco preto e saiu do outro lado.

7

1

Don Peters e Eric Blass ainda não tinham sido substituídos no bloqueio da West Lavin quando um Mercedes SL 600 todo amassado veio na direção deles saindo da prisão. Don estava de pé no mato, se sacudindo depois de mijar. Ele fechou o zíper correndo e voltou para a pick-up que estavam usando como viatura. Eric estava de pé na estrada com a arma na mão.

— Guarda o canhão, Júnior — disse Don, e Eric colocou a Glock no coldre.

O motorista do Mercedes, um homem de cabelo cacheado com rosto corado, parou de forma obediente quando Don levantou a mão. Ao lado dele estava uma mulher bonita. Melhor dizendo, incrivelmente bonita, principalmente depois de todas as Mulheres Zumbis que ele e Eric haviam visto nos dias anteriores. Além do mais, ela era familiar.

— Habilitação e documentos — disse Don.

Ele não tinha ordens para olhar as carteiras de habilitação dos motoristas, mas era isso que policiais diziam quando paravam carros. Fica olhando, Júnior, pensou ele. Vê só como um homem age.

O motorista entregou a carteira de habilitação; a mulher remexeu no porta-luvas e encontrou o documento do carro. O homem era o dr. Garth Flickinger.

De Dooling, com residência no bairro mais chique da cidade, na Briar.

— Podem me dizer o que vocês foram fazer na prisão?

— Foi ideia minha, policial — disse a mulher. Deus, ela era bonita. Não tinha bolsas embaixo dos olhos daquela vagabunda. Don se perguntou o que ela estava tomando para ficar tão vivaz. — Sou Michaela Morgan. Do NewsAmerica?

Eric exclamou: — Eu sabia que conhecia você!

Aquilo não quis dizer nada para Don, que não assistia ao noticiário da rede, e menos ainda o blá-blá-blá que passava o tempo todo na TV a cabo, mas ele se lembrou de onde a tinha visto.

— É mesmo! No Squeaky Wheel. Você estava bebendo lá!

Ela lançou para ele um sorriso de alta voltagem, todo dentes com coroas e maçãs do rosto proeminentes.

— Isso mesmo! Um homem fez um discurso dizendo que Deus estava punindo as mulheres por usarem calça. Foi muito interessante.

Eric disse:

— Posso pedir seu autógrafo? Seria legal ter um depois que você… — Ele parou, confuso.

— Depois que eu adormecer? — disse ela. — Acho que o valor deve ter despencado no mercado de autógrafos, ao menos temporariamente, mas se Garth, o dr. Flickinger, tiver uma caneta no porta-luvas, não vejo por que n…

— Esqueça isso — disse Don com aspereza. Ele estava constrangido pela falta de profissionalismo do parceiro mais jovem. — Eu quero saber por que vocês estavam na prisão, e não vão a lugar nenhum enquanto não me contarem.

— Claro, policial. — Ela voltou o sorriso para ele de novo. — Embora meu nome profissional seja Morgan, meu verdadeiro nome é Coates, e eu sou aqui da cidade. Na verdade, a diretora é…

— Coates é sua mãe? — Don estava chocado, mas quando se olhava além do nariz, que era pontudo como uma flecha enquanto o de Janice era torto, dava para ver a semelhança. — Bom, odeio dizer isso, mas sua mãe não está mais entre nós.

— Eu sei. — Não houve sorriso agora. — O dr. Norcross me disse. Nós falamos com ele pelo interfone.

— Aquele cara é um babaca — disse o tal Flickinger.

Don sorriu, não deu para evitar.

— Tenho que concordar. — Ele devolveu os papéis.

— Não quis deixar ela entrar — disse Flickinger, atordoado. — Não quis nem deixar ela se despedir da mãe.

— Bem — disse Michaela —, a verdade é que esse não foi o único motivo para

eu ter pedido a Garth para me levar lá. Eu também queria entrevistar uma mulher chamada Eva Black. Você deve ter ouvido o papo de que ela dorme e acorda. Seria uma história e tanto, sabe. O mundo lá fora não liga pra muita coisa atualmente, mas ligaria pra isso. Só que Norcross disse que ela estava em um casulo, como o resto das detentas.

Don sentiu vontade de esclarecer as coisas. Mulheres, até as repórteres, ao que parecia, eram sofrivelmente otárias.

— Pura baboseira, e todo mundo sabe. Ela é diferente, especial, e ele está mantendo ela lá dentro por algum motivo maluco. Mas isso vai mudar. — Ele deu uma piscadela exagerada o suficiente para incluir Garth, que piscou para ele.

— Seja legal comigo e eu talvez consiga a entrevista quando tirarmos ela de lá.

Michaela riu.

— Acho melhor eu olhar o porta-malas — disse Don. — Só para poder dizer que olhei.

Garth saiu do carro e abriu o porta-malas, que subiu com um ruído cansado; Geary tinha dado algumas porradas naquela parte também. Ele esperava que o palhaço não olhasse embaixo do estepe; foi lá que ele guardou o saco de Relâmpago Roxo. O palhaço não se deu a esse trabalho, só deu uma olhada rápida e assentiu. Garth fechou o porta-malas. Isso produziu um ruído ainda mais alto, o som de um gato com a pata presa em uma porta.

— O que aconteceu com seu carro? — perguntou Eric quando Garth se sentou atrás do volante.

Garth abriu a boca para contar ao rapaz que o agente maluco do Controle de Animais tinha destruído o carro, mas se lembrou de que o agente maluco do Controle de Animais agora era, de acordo com Norcross, o xerife em exercício.

— Moleques — disse ele. — Vândalos. Se veem uma coisa bonita, logo querem destruir, não é?

O palhaço se inclinou para olhar a moça bonita.

— Vou para o Squeaky quando meu turno terminar. Se você ainda estiver acordada, eu adoraria pagar uma bebida pra você.

— Eu adoraria — respondeu Michaela como se estivesse sendo sincera.

— Dirijam com cuidado e tenham uma boa noite — disse o palhaço.

Garth mexeu no câmbio, mas antes que pudesse entrar na estrada, o garoto

gritou: — Esperem!

Garth parou. O garoto estava inclinado para a frente, com as mãos nos joelhos, olhando para Michaela.

— E aquele autógrafo?

Havia uma caneta no porta-luvas, e era uma bem bonita, com GARTH

FLICKINGER, M.D. em dourado no corpo. Michaela escreveu Para Eric com carinho na parte de trás de um cartão de visitas de um representante farmacêutico e entregou para ele. Garth saiu dirigindo quando o garoto ainda estava agradecendo. A menos de oitocentos metros pela Route 31 na direção da cidade, eles viram uma viatura indo na direção deles, se deslocando rápido.

— Vá mais devagar — disse Michaela. Assim que a viatura desapareceu na colina de trás, ela mandou que ele enfiasse o pé no acelerador.

Garth obedeceu.

2

Durante dois anos, Lila tinha atormentado Clint para adicionar seus vários contatos aos dele, para o caso de problemas na prisão. Seis meses antes, ele finalmente havia feito o que ela vinha pedindo, mais para que ela parasse de encher o saco, e agora agradecia a Deus pela persistência dela. Primeiro, ele ligou para Jared e falou para ele aguentar firme; se tudo corresse bem, ele disse para o filho, alguém apareceria para buscá-lo logo depois de escurecer.

Possivelmente em um trailer. Depois, ele fechou os olhos, fez uma breve oração para ter eloquência, e ligou para o advogado que havia facilitado a transferência de Eva Black para a prisão.

Depois de cinco toques, Clint estava se resignando a falar com a caixa postal quando Barry Holden atendeu.

— Holden falando. — Ele pareceu desinteressado e exausto.

— Aqui é Clint Norcross, Barry. Da prisão.

— Clint. — Não mais do que isso.

— Preciso que você me escute. Com muita atenção.

Nada de Barry Holden.

— Ainda está aí?

Depois de uma pausa, Barry respondeu com a mesma voz desinteressada.

— Estou.

— Onde estão Clara e as suas filhas? — Quatro meninas, entre três e doze anos. Uma coisa terrível para um pai que as amava, mas talvez uma coisa boa para Clint, por mais horrível que fosse pensar nisso; ele não precisaria falar sobre o destino do mundo, só sobre o destino das reféns de Barry.

— No andar de cima, dormindo. — Barry riu. Mas não uma gargalhada de verdade, só um ha-ha-ha, como um balão de diálogo em um gibi. — Ah, você sabe. Embrulhadas naquelas… coisas. Estou na sala com uma espingarda. Se alguém aparecer aqui com um fósforo aceso, estouro a cara dele.

— Eu acho que pode ter uma forma de salvar sua família. Acho que elas podem acordar. Essa ideia te interessa?

— É a mulher? — Uma coisa nova surgiu na voz de Barry. Uma coisa viva. —

É verdade o que estão dizendo? Que ela pode dormir e acordar? Se for só boato, seja sincero comigo. Não quero ter esperança se não houver motivo.

— É verdade. Agora, escute. Tem duas pessoas indo ver você. Um é médico, a outra é a filha da diretora Coates.

— Michaela ainda está acordada? Mesmo depois de tanto tempo? — Barry tinha começado a falar com a voz de antes. — Não é impossível, acho. Gerda, minha mais velha, aguentou até ontem à noite. Mas ainda é impressionante.

— Ela não está só acordada, está totalmente desperta. Diferentemente de todas as outras mulheres nos Três Condados que ainda estão de olhos abertos. A mulher que está aqui foi quem fez isso. Soprou na garganta dela e a acordou.

— Se isso for piada, Norcross, é de extremo mau gos…

— Você vai ver. Eles vão contar tudo e vão pedir pra você fazer umas coisas perigosas. Não quero dizer que você é nossa única esperança, mas… — Clint fechou os olhos, massageou a têmpora com a mão livre. — Mas pode ser exatamente isso o que você é. E o tempo está curto.

— Eu faria qualquer coisa pela minha esposa e pelas minhas filhas — disse Barry. — Qualquer coisa.

Clint se permitiu uma longa expiração de alívio.

— Amigo, eu estava torcendo pra você dizer isso.

3

Barry Holden tinha mesmo uma espingarda. Não era nova, tinha sido passada por três gerações de Holden, mas ele a limpava e lubrificava, e parecia bem letal.

Ele ouviu Garth e Michaela com ela sobre as coxas. Ao lado, em uma mesinha decorada com um paninho bordado de Clara Holden, havia uma caixa aberta de balas vermelhas e gordas.

Falando um e depois o outro, Michaela e Garth contaram ao advogado o que Clint tinha contado a eles: que a chegada de Eva Black coincidia com as primeiras vítimas relatadas da Aurora; que ela havia matado dois homens com as mãos; que ela tinha se permitido ser presa sem lutar, dizendo que era o que queria; que ela havia batido com a cara sem parar na grade da viatura de Lila; que os machucados haviam cicatrizado com velocidade mágica.

— Além de me despertar, ela sabia coisas sobre mim que não tinha como saber — disse Michaela —, e dizem que ela consegue controlar os ratos. Sei que é difícil de acreditar, mas…

Garth a interrompeu.

— Outra prisioneira, Fitzroy, nos disse que ela usou os ratos para conseguir o celular do vice-diretor. E ela está mesmo com um celular. Eu vi.

— Tem mais — disse Michaela. — Ela alega ter matado o juiz Silver. Ela disse que…

Ela parou, relutando em dizer, mas Clint falou para eles contarem a verdade, somente a verdade e nada mais do que a verdade. Lembrem-se de que ele pode estar sofrendo, disse Clint, mas ainda é advogado, e dos bons. Consegue farejar uma mentira a cinquenta metros de distância, mesmo contra o vento.

— Ela disse que fez isso usando mariposas. Porque Silver estava tentando trazer uma pessoa de fora da cidade, e isso não é permitido.

Michaela sabia que, uma semana antes, seria nesse momento que Barry Holden teria decidido que eles estavam compartilhando uma ilusão nociva ou tentando fazer a pior e mais drogada pegadinha do mundo, e os convidaria a sair de sua casa. Porém, aquele momento não era uma semana antes. Em vez de mandar que eles saíssem, Barry entregou a espingarda do avô para Michaela.

— Segure isto.

Havia um laptop sobre a mesa da cozinha. Barry se sentou no sofá (também fartamente decorado com o trabalho da esposa) e começou a digitar. Depois de um momento, ele ergueu o rosto.

— A polícia do condado de Bridger está relatando um acidente na Old Coughlin Road. Uma fatalidade. Não tem nome, mas o veículo era uma Land Rover. O juiz Silver dirige uma Land Rover.

Ele olhou para Michaela Coates. O que eles estavam dizendo, essencialmente, era que o destino de todas as mulheres do planeta Terra dependia do que acontecesse ali em Dooling nos dias a seguir. Era loucura, mas a filha da diretora Coates, sentada ali na cadeira de balanço favorita de Clara e olhando para ele com seriedade, era o melhor argumento de que era verdade. Possivelmente, um argumento irrefutável. Uma notícia da CNN naquela manhã havia dito que era estimado que menos de dez por cento das mulheres do mundo ainda estavam acordadas no quinto dia da Aurora. Barry não sabia se era verdade, mas estava disposto a apostar a espingarda do avô que nenhuma delas estava como Michaela.

— Ela… fez o quê? Beijou você? Como quando o príncipe beijou a princesa Aurora no desenho?

— Foi — disse Michaela. — Foi assim. E ela respirou na minha garganta.

Acho que foi isso que fez acontecer: a respiração dela.

Barry voltou a atenção para Garth.

— Você viu isso?

— Vi. Foi incrível. Mickey parecia um vampiro depois de uma transfusão. —

E quando viu o rosto franzido de Michaela: — Desculpa, querida, talvez não seja a melhor metáfora.

— Na verdade, é uma boa comparação — disse ela friamente.

Barry ainda estava tentando entender.

— E ela diz que vão atrás dela? A polícia? Os cidadãos? E que Frank Geary está no comando?

— É.

Michaela tinha deixado de fora tudo que Evie tinha dito sobre as mulheres adormecidas terem que tomar as próprias decisões; ainda que fosse verdade, aquela parte estava fora do alcance deles.

— Eu conheço Geary — disse Barry. — Nunca defendi ele, mas esteve no tribunal distrital algumas vezes. Eu me lembro de um caso em que uma mulher reclamou que ele ameaçou ela por não botar guia no rottweiler. Ele tem o que podemos chamar de problemas de raiva.

— Nem me diga — murmurou Garth.

Barry olhou para ele com as sobrancelhas erguidas.

— Deixa pra lá — disse Garth. — Não é importante.

Barry pegou a espingarda de volta.

— Tudo bem, contem comigo. Primeiro de tudo porque não tenho nada pra fazer com Clara e as meninas dormindo. Além disso… eu quero ver essa mulher misteriosa com meus próprios olhos. O que Clint quer de mim?

— Ele disse que você tem um trailer Winnebago — disse Michaela. — Para acampar com sua esposa e suas filhas.

Barry sorriu.

— Não um Winnebago, um Fiesta. Bebe uma tonelada de gasolina, mas cabem seis pra dormir dentro. As meninas brigam quase sem parar, mas tivemos bons momentos naquela coisa velha. — Seus olhos se encheram de lágrimas de repente. — Momentos muito bons.

4

O Fleetwood Fiesta de Barry Holden estava parado em um estacionamento pequeno atrás do prédio de granito antiquado onde ficava o escritório dele. O

trailer era uma coisa monstruosa listrada como uma zebra. Barry se sentou no banco do motorista enquanto Michaela subiu no banco do passageiro. Eles esperavam Garth examinar a delegacia de polícia. A espingarda de herança da família Holden estava no chão entre eles.

— Isso tem alguma chance, na sua opinião? — perguntou Barry.

— Não sei — respondeu Michaela. — Espero que sim, mas não sei.

— Bom, é loucura, disso não há dúvida — disse Barry —, mas é melhor do que ficar sentado em casa pensando coisas ruins.

— Você precisa ver Evie Black para entender de verdade. Falar com ela. Você tem que… — Ela procurou a palavra certa. — Você tem que ter a experiência de

estar com ela. Ela…

O celular de Michaela tocou. Era Garth.

— Tem um coroa esquisito de barba sentado embaixo de um guarda-chuva em um dos bancos da frente, mas, fora isso, o caminho está limpo. Não tem nenhuma viatura no estacionamento lateral, só alguns veículos particulares. Se nós vamos fazer isso, acho melhor irmos logo. Esse trailer não é o que eu chamaria de discreto.

— Estamos indo — disse Michaela. Ela encerrou a ligação.

A viela entre o prédio de Barry e o do lado era estreita, não podia haver mais do que doze centímetros de cada lado do Fleetwood, mas Barry percorreu o caminho com a tranquilidade que vem da experiência. Ele parou na boca da viela, mas a Main Street estava deserta. É quase como se os homens também tivessem sumido, pensou Michaela quando Barry fez uma curva aberta à direita e dirigiu os dois quarteirões até o prédio municipal.

Ele parou o Fleetwood na frente, ocupando três espaços marcados com APENAS

VEÍCULOS OFICIAIS, OS OUTROS SERÃO REBOCADOS. Saíram, e Garth se juntou a eles. O

homem de barba se levantou e se aproximou, segurando o guarda-chuva acima da cabeça. O cabo de um cachimbo aparecia no bolso do macacão Oshkosh. Ele esticou a mão para Barry e disse: — Oi, advogado.

Barry apertou a mão dele.

— Oi, Willy. Bom ver você aqui, mas não posso parar pra jogar conversa fora.

Estamos com pressa. Coisa urgente.

Willy assentiu.

— Estou esperando Lila. Sei que as chances de ela estar dormindo são grandes, mas espero que não. Quero falar com ela. Fui até o trailer onde os traficantes foram mortos. Tem uma coisa estranha lá. Não só lencinhos de fada.

As árvores estão cheias de mariposas. Eu queria falar com ela sobre isso, talvez levar lá para ver. Se não ela, a pessoa que está no comando.

— Este é Willy Burke — disse Barry para Garth e Michaela. — É voluntário do corpo de bombeiros, do Adopt-A-Highway, treina o time de futebol americano infantil, é um bom sujeito. Mas estamos mesmo com pressa, Willy, então…

— Se é com Linny Mars que vocês querem falar, é melhor irem logo. — Os

olhos de Willy foram de Barry para Garth e para Michaela. Eram fundos e rodeados de rugas, mas argutos. — Ela ainda estava acordada na última vez que entrei, mas estava se cansando rápido.

— Não tem nenhum policial aí? — perguntou Garth.

— Não, estão todos em patrulha. Menos Terry Coombs, talvez. Eu soube que ele anda meio mal. Caindo de bêbado, sabe.

Os três começaram a subir os degraus até a porta.

— Vocês não viram Lila, então? — perguntou Willy atrás deles.

— Não — disse Barry.

— Bom… talvez eu espere um pouco mais. — E Willy voltou para o banco. —

Tem uma coisa estranha lá, sem dúvida. Tantas mariposas. E o lugar tem uma vibração.

5

Linny Mars, parte dos dez por cento da população feminina ainda acordada naquela segunda-feira, continuava a andar com o laptop, mas agora estava se movendo devagar, tropeçando ocasionalmente e esbarrando na mobília. Para Michaela, ela parecia um brinquedo de corda com a corda quase no final. Duas horas atrás, eu estava assim, pensou ela.

Linny passou por eles, olhando para o laptop com olhos vermelhos, sem parecer perceber que estavam ali até Barry bater no ombro dela. Ela deu um pulo e as mãos voaram para cima. Garth pegou o laptop antes que caísse no chão. Na tela, havia um vídeo da London Eye. Em câmera lenta, a roda-gigante oscilava e girava pelo Tâmisa sem parar. Era difícil entender por que alguém ia querer destruir a London Eye, mas, ao que parecia, tiveram necessidade de fazer isso.

— Barry! Você me deu um baita susto!

— Me desculpe — disse ele. — Terry me mandou buscar algumas armas do arsenal. Acho que ele quer na prisão. Você pode me dar as chaves, por favor?

— Terry? — Ela franziu a testa. — Por que ele… Lila é a xerife, não Terry.

Você sabe disso.

— Lila, certo — disse Barry. — Foi ordem de Lila através de Terry.

Garth foi até a porta e olhou para fora, convencido de que uma viatura do

departamento do xerife apareceria a qualquer momento. Talvez duas ou três.

Eles seriam jogados na cadeia, e aquela aventura lunática acabaria antes mesmo de começar. Até o momento, não havia ninguém lá fora além do sujeito barbado sentado embaixo do guarda-chuva, como Paciência em seu monumento, mas isso não podia durar muito.

— Você pode me ajudar, Linny? Por Lila?

— Claro. Vou ficar feliz de ver ela de volta — disse Linny. Ela foi até a mesa e botou o laptop em cima. Na tela, a London Eye caía e caía. — Aquele Dave está cuidando das coisas até ela voltar. Ou talvez o nome dele seja Pete. É confuso ter dois Petes aqui. De qualquer modo, não sei muito sobre ele. Ele é muito sério.

Ela remexeu na gaveta de cima e pegou um chaveiro pesado. Olhou para as chaves. Os olhos se fecharam. Fios brancos subiram na mesma hora das pálpebras, oscilando no ar — Linny! — disse Barry com voz alta. — Acorda!

Os olhos dela se abriram, e os fios desapareceram.

— Eu estou acordada. Pare de gritar. — Ela passou o dedo pelas chaves e as fez tilintar. — Sei que é uma dessas…

Barry pegou o chaveiro.

— Eu encontro. Srta. Morgan, talvez você queira voltar para o trailer e esperar lá.

— Não, obrigada. Vou ajudar. Vai ser mais rápido assim.

Nos fundos da sala principal havia uma porta de metal sem marcações, pintada de um tom particularmente desagradável de verde. Havia duas trancas.

Barry encontrou a chave que cabia na de cima com facilidade. Porém, a segunda estava levando mais tempo. Michaela achava que Lila talvez tivesse ficado com aquela. Talvez estivesse no bolso dela, enterrada embaixo de um daqueles casulos brancos.

— Tem alguém vindo? — gritou ela para Garth.

— Ainda não, mas andem logo. Isso está me deixando com vontade de fazer xixi.

Só havia três chaves no chaveiro quando Barry encontrou a que fazia a segunda tranca girar. Ele abriu a porta, e Michaela viu uma salinha do tamanho de um armário com rifles em suportes e pistolas aninhadas em nichos de isopor que lembravam a ela o lugar onde sua turma de primeiro ano guardava o almoço.

Havia prateleiras cheias de caixas de munição. Em uma parede havia um pôster com um ranger texano com um chapéu de caubói apontando um revólver com um cano preto enorme. NÃO SE META COM O JOÃO DA LEI estava escrito embaixo.

— Pegue o máximo de munição que puder — disse Barry. — Vou pegar as M4

e algumas Glocks.

Michaela foi na direção da prateleira de munição, mudou de ideia e voltou para a área de atendimento. Pegou o cesto de lixo de Linny e virou no chão, derrubando um monte de papéis e copos descartáveis de café. Linny não prestou atenção. Michaela colocou o máximo de caixas de munição que achava que conseguia carregar dentro do cesto de lixo e saiu da salinha com o cesto nos braços. Garth passou por ela para pegar o que conseguisse de armas. Barry tinha deixado uma das três portas aberta. Michaela desceu os degraus amplos de pedra sob o chuvisco cada vez mais pesado a tempo de ver Barry chegar no Fleetwood.

O homem barbado se levantou do banco, ainda segurando o guarda-chuva acima da cabeça. Ele disse alguma coisa para Barry, que respondeu. O homem barbado, Willy, abriu a porta de trás do trailer para que Barry pudesse colocar as armas dentro.

Michaela se juntou a ele, ofegante. Barry pegou o cesto de lixo das mãos dela e virou as caixas de munição em cima da pilha de armas. Eles voltaram juntos para dentro da delegacia enquanto Willy ficava olhando, ainda embaixo do guarda-chuva. Garth saiu com uma segunda braçada de armas, a calça sendo puxada para baixo pelo peso das caixas de munição que ele tinha enfiado nos bolsos.

— O que o coroa disse pra você? — perguntou Michaela.

— Ele queria saber se estávamos fazendo uma coisa que a xerife Norcross aprovaria — respondeu Barry. — Eu disse que sim.

Eles voltaram para dentro e correram até a salinha. Tinham pegado metade das armas. Michaela viu uma coisa que parecia uma submetralhadora sofrendo de caxumba.

— A gente devia levar aquilo. Acho que é aquele lançador de gás lacrimogênio. Não sei se precisamos, mas não quero que mais ninguém fique com aquilo.

Garth voltou.

— Venho com más notícias, defensor Holden. Uma viatura parou atrás do seu

trailer.

Eles correram até a porta e espiaram pelo vidro escuro. Tinham dois homens saindo da viatura, e Michaela reconheceu os dois: o palhaço e o parceiro caçador de autógrafos.

— Ah, Cristo — disse Barry —, é Don Peters, da prisão. O que ele está fazendo em uma viatura da polícia? O sujeito tem o cérebro de um inseto.

— Aquele inseto em particular foi visto recentemente cuidando de um bloqueio de estrada perto da prisão — disse Garth.

O barbudo se aproximou dos recém-chegados, disse alguma coisa e apontou para o outro lado da Main Street. Peters e seu jovem parceiro correram até a viatura e pularam dentro. As luzes foram acesas, e eles foram embora com a sirene tocando.

— O que está acontecendo? — perguntou Linny com voz distraída. — Que porra está acontecendo?

— Está tudo bem — disse Garth, e abriu um sorriso. — Não precisa se preocupar. — E, para Barry e Michaela: — Posso sugerir que a gente pare enquanto está ganhando?

— O que está acontecendo? — choramingou Linny. — Ah, isso é tudo um pesadelo!

— Aguenta firme aí, moça — disse Garth. — Pode ser que melhore.

Os três saíram e correram assim que chegaram no caminho de concreto.

Michaela estava com o lançador de granada em uma das mãos e cartuchos de gás lacrimogênio na outra. Sentia-se a própria Bonnie Parker. Willy estava ao lado do Fleetwood.

— Como você tirou aqueles caras daqui? — perguntou Barry.

— Falei que tinha gente atirando na loja de materiais de construção. Eles não vão demorar, então acho melhor vocês irem logo. — Willy fechou o guarda-chuva. — E acho melhor eu ir com vocês. Aqueles dois não vão estar muito felizes quando voltarem.

— Por que você nos ajudou? — perguntou Garth.

— Ah, estamos em dias estranhos agora, e um homem precisa confiar nos instintos. Os meus sempre foram bons. O Barry aqui sempre foi amigo de Lila, apesar de jogar no outro time no tribunal, e reconheço essa moça aqui do

noticiário da televisão. — Ele olhou para Garth. — Não gosto muito da sua cara, mas você está com eles, então tudo bem. Além do mais, a sorte está lançada, como dizem. Para onde vamos?

— Primeiro, pegar o filho de Lila — disse Barry —, depois, para a prisão. Que tal participar de um cerco, Willy? Porque pode ser isso que esteja a caminho.

Willy sorriu, mostrando dentes manchados de tabaco.

— Ah, eu tinha um chapéu de pele de guaxinim quando era criança e sempre gostei de filmes sobre o Álamo, então por que não? Me ajudem a subir a escada dessa coisa, por favor. A chuva é cruel com meu reumatismo.

6

Jared, esperando na porta da casa de exibição, estava se preparando para ligar de novo para o pai quando um trailer enorme parou na frente. Ele reconheceu o motorista; assim como os policiais e muitos outros figurões da cidade, Barry Holden tinha sido convidado para jantar na casa dos Norcross algumas vezes.

Jared o encontrou nos degraus.

— Venha — disse Barry. — Nós temos que ir.

Jared hesitou.

— Minha mãe e mais quatro estão no sótão. Estava muito quente lá antes da chuva começar, e vai ficar quente amanhã. Vocês deviam me ajudar a trazer elas para baixo.

— Vai esfriar rápido esta noite, Jared, e nós não temos tempo.

Barry não sabia se as mulheres encasuladas sentiam calor ou frio, mas sabia que a janela de oportunidade estava se fechando rapidamente. Ele também achava que Lila e as outras ficariam melhor escondidas naquela rua tranquila.

Ele tinha insistido em levar a esposa e filhas junto por causa do trailer. Era conhecido em Dooling, e ele tinha medo de represálias.

— Podemos pelo menos dizer para alguém…

— Essa decisão seu pai vai ter que tomar. Por favor, Jared.

Jared se permitiu ser guiado pela calçada até o Fleetwood ligado. A porta de trás se abriu, e seu antigo treinador do Pop Warner saiu com dificuldade. Jared sorriu apesar de tudo.

— Treinador Burke!

— Ah, olha só! — exclamou Willy. — O único quarterback pequenininho que tive que não deixava a bola cair. Entre aqui, filho.

Porém, a primeira coisa que Jared viu foi o amontoado de armas e munição no chão.

— Puta merda, pra que isso?

Uma mulher estava sentada no sofá quadriculado junto à porta. Ela era jovem, muito bonita e vagamente familiar, mas a coisa mais impressionante nela era o quanto parecia desperta. Ela disse: — Com sorte, só garantia.

Um homem de pé na frente dela riu.

— Eu não apostaria nisso, Mickey. — Ele esticou a mão. — Garth Flickinger.

Atrás de Garth Flickinger, em um sofá combinando, havia cinco corpos encasulados arrumados, cada um menor do que o anterior, como um conjunto de bonecas russas.

— São a esposa e as filhas do sr. Holden, pelo que me disseram — disse o treinador Burke.

O trailer começou a se deslocar. Jared cambaleou. Willy Burke o segurou, e quando Jared estava apertando a mão do sr. Flickinger, achou que talvez tudo fosse um sonho. Até o nome do cara parecia saído de um sonho. Quem no mundo real se chamava Garth Flickinger?

— Prazer te conhecer — disse ele. Na sua visão periférica, as mulheres Holden rolaram umas por cima das outras quando o trailer dobrou uma esquina.

Jared se obrigou a não olhar para elas, mas não havia como não vê-las, reduzidas a bonecas mumificadas. — Eu sou, ah, Jared Norcross. — E, sonho ou não, ele teve certo ressentimento: houve tempo para o sr. Holden pegar a família dele, não houve? E por quê? Porque o trailer era dele?

O celular de Jared tocou na hora em que Barry fez a volta no final da Tremaine Street. Eles estavam deixando sua mãe, Platinum, Molly, Mary e a sra.

Ransom para trás. Parecia errado, mas tudo parecia errado. Então, qual era a novidade?

Quem estava ligando era seu pai. Eles falaram brevemente, e Clint pediu para falar com Michaela. Quando ela pegou o celular, Clint disse: — O que você precisa fazer é o seguinte.

Ela ouviu.

7

O policial Reed Barrows tinha estacionado a Unidade Três diretamente em frente à estrada de duas pistas que levava à prisão. O terreno ali era mais alto: ele e Vern tinham visão clara de pelo menos dez quilômetros da Route 31. Reed esperava uma falação de Peters por ter sido retirado da posição tão pouco tempo depois de terem assumido o posto, mas Peters foi surpreendentemente tranquilo. Devia estar ansioso para começar a bebedeira do dia mais cedo. Talvez o moleque também. Reed duvidava que estivessem verificando identidades no Squeaky Wheel naquela semana, e no momento, a polícia tinha coisa melhor a fazer do que fiscalizar as leis relacionadas ao consumo de bebida alcoólica.

Peters relatou que eles tinham parado um único carro, com uma repórter que tinha ido até a prisão querendo uma entrevista e sido mandada embora. Reed e Vern não pararam ninguém. Até o tráfico na Main Road estava tão fraco que era quase inexistente. A cidade está em luto pelas mulheres, pensou Reed. Porra, o mundo está em luto.

Reed se virou para o parceiro, que estava lendo alguma coisa no Kindle enquanto tirava meleca do nariz.

— Você não está limpando as melecas embaixo do banco, está?

— Jesus, não. Não seja nojento. — Vern levantou o traseiro, puxou um lenço do bolso de trás, limpou um tesouro verde nele e o guardou. — Me diz uma coisa, o que a gente está fazendo aqui? Estão mesmo achando que Norcross é burro o bastante para botar aquela mulher no mundo agora que tem ela atrás das grades?

— Não sei.

— Se um caminhão de comida ou alguma outra coisa aparecer, o que a gente tem que fazer?

— Mandar parar e pedir instruções pelo rádio.

— Para quem? Terry ou Frank?

Quanto a isso, Reed tinha menos certeza.

— Acho que eu tentaria o celular de Terry primeiro. Deixaria uma mensagem

só para garantir, se ele não atendesse. Por que a gente não se preocupa com isso só se acontecer?

— E provavelmente não vai acontecer, considerando a situação atual.

— É. A infraestrutura caiu no limbo.

— O que é infraestrutura?

— Pesquisa no seu Kindle, que tal?

Vern fez isso mesmo.

— “As estruturas físicas e organizacionais básicas necessárias para a operação de uma sociedade ou empresa.” Ah.

— Ah. O que ah quer dizer?

— Que você está certo. Caiu no limbo. Eu fui ao Shopwell hoje de manhã, antes de ir trabalhar. Parece que caiu uma bomba lá.

No pé da colina, na luz da tarde cinzenta, eles viram um veículo se aproximando.

— Reed?

— O quê?

— Sem mulheres, não vai ter mais bebês.

— Você tem mesmo uma mente científica — disse Reed.

— Se isso não acabar, onde a raça humana vai estar em sessenta ou cem anos?

Era uma coisa sobre a qual Reed Barrows não queria pensar, principalmente com a esposa em um casulo e o bebê pequeno sendo cuidado (provavelmente de forma inadequada) pelo velho sr. Freeman, da casa ao lado. E ele nem precisava.

O veículo estava agora perto o suficiente para ele ver que era um trailer enorme listrado como uma zebra, e estava indo mais devagar, como se pretendesse entrar na estrada da prisão. Não que pudesse, com a Unidade Três atravessada no caminho.

— Aquele trailer é de Holden — disse Vern. — O advogado. Meu irmão cuida dele em Maylock.

O Fleetwood parou. A porta do motorista foi aberta, e Barry Holden saiu. Ao mesmo tempo, os policiais saíram da Unidade Três.

Holden os cumprimentou com um sorriso.

— Cavalheiros, venho trazendo ótimas notícias.

Nem Reed e nem Vern retribuíram o sorriso.

— Ninguém vai para a prisão, sr. Holden — disse Reed. — Ordens do xerife.

— Acho que isso não é exatamente a verdade — disse Barry, ainda sorrindo.

— Acredito que um cavalheiro chamado Frank Geary deu essa ordem, e ele meio que foi autonomeado. Não foi?

Reed não sabia como responder, então ficou em silêncio.

— De qualquer modo — disse Barry —, recebi uma ligação de Clint Norcross.

Ele decidiu que entregar a mulher para a polícia local é a coisa certa a fazer.

— Bom, graças a Deus por isso! — exclamou Vern. — O homem ficou sensato!

— Ele me quer na prisão para facilitar a negociação e deixar claro para registro público por que ele fugiu do protocolo. Só uma formalidade, na verdade.

Reed estava prestes a dizer Não deu para escolher um veículo menor para vir aqui? O carro não pegou, foi? , mas nessa hora o rádio do painel da Unidade Três soou. Era Terry Coombs, e ele parecia aborrecido.

— Unidade Três, Unidade Três, responda! Agora mesmo! Agora mesmo!

8

Na hora em que Reed e Vern estavam vendo a aproximação do trailer de Barry Holden, Terry Coombs entrou no Olympia Diner e foi até o compartimento onde Frank e o policial Pete Ordway estavam sentados. Frank não ficou muito feliz de ver Coombs de pé e andando por aí, mas escondeu o sentimento da melhor maneira possível.

— E aí, Terry?!

Terry assentiu para os dois homens. Tinha se barbeado e trocado de camisa.

Parecia atordoado, mas sóbrio.

— Jack Albertson me disse que vocês estavam aqui. — Albertson era um dos policiais aposentados que tinha sido chamado de volta a serviço dois dias antes.

— Recebi notícias bem ruins do condado de Bridger quinze minutos atrás. —

Não havia cheiro de álcool em Terry. Frank esperava mudar isso. Não gostava de encorajar um homem que provavelmente estava no princípio do alcoolismo, mas Coombs era mais fácil de lidar quando tinha tomado uns goles.

— O que está acontecendo em Bridger? — perguntou Pete.

— Acidente na estrada. O juiz Silver caiu do riacho Dorr’s Hollow. Está morto.

— O quê? — O grito de Frank foi alto o bastante para fazer Gus Vereen sair da cozinha.

— É uma pena — disse Terry. — Ele era um bom homem. — Ele puxou uma cadeira. — Alguma ideia do que ele estava indo fazer lá?

— Ele foi em Coughlin falar com um cara que ele conhecia, que era do FBI, para pedir ajuda em fazer Norcross ser mais sensato — disse Frank. Só podia ter sido ataque cardíaco. O juiz estava com uma aparência terrível, pálido e trêmulo.

— Se ele está morto… essa ideia já era.

Com esforço, ele se recompôs. Gostava do juiz Silver e estava disposto a seguir a ideia dele, ao menos até certo ponto. Esse ponto não existia mais.

— E aquela mulher ainda está na prisão. — Frank se inclinou para a frente. —

Acordada. Norcross estava mentindo sobre ela estar em um casulo. Hicks me contou.

— Hicks tem péssima reputação — disse Terry.

Frank não queria saber.

— E tem outras coisas estranhas sobre ela. Ela é a chave.

— Se aquela vagabunda começou tudo isso, ela vai saber parar — disse Pete.

A boca de Terry tremeu.

— Não há prova disso, Pete. E como a Aurora começou do outro lado do mundo, parece meio improvável. Acho que nós todos precisamos respirar fundo e…

O walkie-talkie de Frank ganhou vida. Era Don Peters.

— Frank! Frank, responde! Preciso falar com você! É melhor você responder essa coisa, porque os filhos da puta…

Frank levou o walkie-talkie à boca.

— Aqui é Frank. Responda. E olhe essa boca, você está no ar…

— Os filhos da puta roubaram as armas! — gritou Don. — Um velho decrépito de merda nos mandou ir atrás de uma coisa que era mentira, e eles roubaram as porras das armas aqui da porra da delegacia!

Antes que Frank pudesse responder, Terry tirou o walkie-talkie da mão dele.

— Coombs aqui. Quem foi?

— Barry Holden em um trailer enorme! Sua atendente aqui disse que tinha mais gente com ele, mas ela está péssima, e não sei quem era!

— Todas as armas? — perguntou Terry, atônito. — Pegaram todas as armas?

— Não, não, não todas, acho que não deu tempo, mas muitas! Jesus Cristo, o trailer era enorme!

Terry ficou olhando para o walkie-talkie na mão, paralisado. Frank disse para si mesmo que era melhor ficar de boca calada e deixar Terry pensar sozinho…

mas não conseguiu. Parecia que nunca conseguia quando estava com raiva.

— Você ainda acha que devíamos respirar fundo e esperar Norcross decidir?

Porque você sabe para onde estão indo com as armas, não sabe?

Terry olhou para ele, os lábios tão apertados que a boca quase sumiu.

— Acho que você talvez tenha se esquecido de quem está no comando aqui, Frank.

— Desculpa, xerife. — Por baixo da mesa, suas mãos estavam tão apertadas que estavam tremendo, as unhas deixando marcas nas palmas.

Terry ainda estava olhando para ele.

— Me diz que você botou alguém lá, na estrada que leva até a prisão.

Seria culpa sua se eu não tivesse botado, do jeito que estava bêbado. Ah, mas quem estava dando bebida para ele?

— Botei. Rangle e Barrows.

— Que bom. Isso é bom. Em que unidade eles estão?

Frank não sabia, mas Pete Ordway sabia.

— Na Três.

Don estava falando sem parar, mas Terry o interrompeu e apertou o botão.

— Unidade Três, Unidade Três, responda! Agora mesmo! Agora mesmo!

8

1

Ao ouvir o rádio, Reed Barrows mandou Barry ficar onde estava.

— Tudo bem — disse Barry. Ele deu três batidas na lateral do Fleetwood, uma mensagem para Willy Burke (agachado atrás da cortina que separava a frente do trailer da parte de trás) de que eles deviam partir para o plano B. O plano B era bem simples: pular fora enquanto Barry ficava oferecendo o máximo possível de distração. Era fundamental que as armas chegassem à prisão e que as meninas ficassem fora de perigo. Barry não precisava nem pensar duas vezes. Seria preso, claro, mas ele conhecia um ótimo advogado.

Ele colocou a mão no ombro de Vern Rangle, tirando-o delicadamente da frente do trailer.

— Parece que alguém na delegacia está cheio de coisa para fazer — observou Rangle com alegria, andando sem pensar junto com o advogado. — Para onde nós vamos?

Eles estavam indo para longe do trailer para que, primeiro, Rangle não visse Willy Burke se sentando no banco do motorista, e, segundo, para dar ao Fleetwood espaço para ir em frente sem atropelar ninguém. Porém, Barry não podia dizer isso para o policial. Um conceito que ele sempre fez questão de passar para as filhas era o de que a lei era impessoal: não tinha a ver com seus sentimentos, só com seu argumento. Se conseguisse se distanciar totalmente da preferência pessoal, sempre seria melhor. O ideal era sair da própria pele e vestir a do cliente enquanto ao mesmo tempo mantinha seu cérebro.

(Gerda, que foi convidada para um encontro por um garoto do ensino médio

— só do primeiro ano, mas velho demais para ela —, havia tentado recentemente convencer o pai a advogar por ela pro bono para convencer a mãe de que ela tinha idade suficiente para ir ao cinema com ele. Foi um ato incrivelmente inteligente de Gerda, mas Barry recusou alegando o relacionamento familiar. Além disso, ele, como pai, não tinha intenção de deixá-la ir a lugar algum com um garoto que tinha quase quinze anos e que provavelmente ficava duro cada vez que o vento batia. Se Cary Benson quisesse tanto assim passar um tempo com ela, ele podia comprar um sundae para ela no Dairy Treet da cidade mesmo. Em plena luz do dia.) O que Barry preferiu não dizer para Gerda foi sobre a condição complicada da culpa inquestionável. Às vezes, se entrava na pele do cliente e se descobria que ele ( você) era absurdamente, inquestionavelmente, sem a menor possibilidade de fingir que não era, culpado como o pecado. Quando a situação acontecia, a única tática sensata era distrair e desestruturar, se prender a detalhes, segurar as engrenagens e enrolar. Com sorte, seria possível cansar o outro lado até oferecerem um acordo vantajoso só para se livrar de você, ou, melhor ainda, irritar ou confundir os adversários até estragarem totalmente o caso.

Com isso em mente, ele improvisou com a pergunta mais absurda que conseguiu elaborar tão de improviso.

— Escuta, Vern. Eu queria chamar você de lado para perguntar uma coisa.

— Tudo bem…

Barry se inclinou para a frente com ares confidenciais.

— Você é circuncidado?

Gotas de chuva pontilhavam a superfície dos óculos de Vern Rangle, obscurecendo os olhos. Barry ouviu o motor do trailer acelerar, o ruído quando ele mudou a marcha, mas o policial não prestou atenção. A pergunta sobre circuncisão o tirou do ar.

— Nossa, sr. Holden… — Vern sacudiu um lenço distraidamente e recomeçou a dobrá-lo. — Isso é meio pessoal, sabe.

Atrás dele, houve um baque e o ruído de metal em metal.

Enquanto isso, Reed Barrows tinha se sentado no banco do motorista da viatura para atender ao chamado de Terry, mas o microfone escorregou da mão úmida. Os segundos que passaram enquanto ele se inclinava para pegá-lo no

chão e desenrolar o fio foram importantes porque permitiram que Willy Burke se preparasse.

— Câmbio, aqui é a Unidade Três. Barrows falando, câmbio — disse Reed quando estava com o microfone na mão.

Pela janela, ele viu o trailer passando na frente da viatura para o acostamento de cascalho e a lateral gramada na metade sul da estrada. Essa visão não alarmou Reed; ele ficou perplexo. Por que Barry Holden estava movendo o trailer? Ou era Vern que o estava movendo para alguém passar? Aquilo não fazia sentido. Eles precisavam resolver a questão com o advogado e o trailer antes de falar com qualquer outra pessoa que quisesse passar.

A voz de Terry Coombs soou no rádio.

— Prenda Barry Holden e confisque o veículo! Ele está com um monte de armas roubadas e está indo para a prisão! Está ouvindo…

A frente do trailer bateu na frente da viatura, o microfone caiu da mão de Reed uma segunda vez, e a vista pelo para-brisa se desviou, como se presa por dobradiças.

— Ei!

2

Na parte de trás do trailer, Jared perdeu o equilíbrio. Caiu do sofá em cima das armas.

— Está tudo bem? — perguntou Garth. O médico conseguiu ficar de pé apertando as costas na bancada da cozinha e se segurando na pia.

— Estou.

— Obrigada por perguntar sobre mim! — Michaela tinha conseguido ficar no sofá, mas tinha caído de lado.

Garth percebeu que adorava Mickey. Ela tinha fibra, como o pessoal mais antigo gostava de dizer. Não mudaria nada nela. O nariz e todo o resto eram o mais próximo da perfeição que dava para chegar.

— Eu não precisava, Mickey — respondeu ele. — Eu sei que você está bem porque você sempre fica bem.

3

O trailer seguiu lentamente, rente à encosta lateral e inclinado, indo a vinte e cinco quilômetros por hora, empurrando a viatura para o lado. Metal chiava contra metal. Vern ficou de boca aberta e se virou para Barry. O advogado se meteu na frente dele e Vern deu um soco no olho de Barry e o fez cair de bunda.

— Pare o trailer! — gritou Reed da porta aberta da viatura em movimento. —

Atire nos pneus!

Vern pegou a arma.

O trailer conseguiu passar pela viatura e começou a ganhar velocidade. Estava em um ângulo de sessenta graus quando saiu do acostamento, agora voltando para o meio da rua. Vern, mirando no pneu direito traseiro, apertou o gatilho rápido demais. O tiro foi muito alto e perfurou a parede do trailer. O veículo estava a uns cinquenta metros. Quando chegasse na estrada, não teria mais jeito.

Vern parou um momento para ser recompor e mirou de novo, da forma correta, apontando novamente para o pneu direito traseiro… e disparou no ar quando Barry Holden o derrubou no chão.

4

Jared, no chão, com as costas sendo cutucadas em vários lugares por miras e cabos de armas, ficou surdo com o disparo. Sentia a gritaria ao redor (a mulher, Michaela? Flickinger?), mas não conseguia ouvir. Os olhos encontraram um buraco na parede: a bala tinha feito uma abertura como o topo de uma bombinha depois da explosão. Suas mãos, apoiadas no piso do trailer, sentiram as rodas girando abaixo, ganhando velocidade, tremendo no asfalto.

Flickinger ainda estava de pé. Estava apoiado na bancada da cozinha. Não, não era Flickinger quem estava gritando.

Jared olhou para onde o médico estava olhando.

As figuras encasuladas estavam caídas no sofá. Um buraco ensanguentado tinha se aberto no esterno da terceira da fileira, a mais velha das três meninas, Gerda. Ela se levantou do sofá e cambaleou para a frente. Era ela que estava gritando. Jared viu que ela estava indo na direção de Michaela, encolhida no canto do sofá paralelo. Os braços da garota estavam erguidos, soltos das teias que

anteriormente os prendiam com força no tronco, e a impressão da boca aberta gritando embaixo do casulo era vívida. Mariposas saíam do buraco no esterno.

Flickinger segurou Gerda. Ela se virou, e suas mãos se voltaram para o pescoço dele enquanto giravam em círculo até caírem em cima das armas no chão. Os dois corpos bateram na porta de trás. O trinco se soltou, a porta se abriu, e eles caíram, seguidos por um fluxo de mariposas e um monte de armas e balas.

5

Evie gemeu.

— O quê? — perguntou Angie. — O que houve?

— Ah — respondeu Evie. — Nada.

— Mentirosa — disse Jeanette. Ela ainda estava sentada na cabine do chuveiro. Angel tinha que bater palmas para Jeanette: era quase tão teimosa quanto ela mesma.

— Esse é o som que você faz quando alguém morre. — Jeanette inspirou.

Inclinou a cabeça e falou com uma pessoa invisível. — Esse é o som que ela faz quando alguém morre, Damian.

— Acho que é verdade, Jeanette — disse Evie. — Acho que eu faço mesmo isso.

— Foi o que eu falei. Não falei, Damian?

— Você está alucinando, Jeanette — disse Angel.

O olhar de Jeanette permaneceu voltado para o nada.

— Saíram mariposas pela boca, Angel. Tem mariposas nela. Agora, me deixe em paz, estou tentando ter uma conversa com meu marido.

Evie pediu licença.

— Preciso fazer uma ligação.

6

Reed ouviu o tiro de Vern quando estava passando para o outro banco e abrindo a porta do passageiro. Ele viu a traseira do trailer descendo o declive, a porta de trás balançando.

Havia dois corpos na estrada. Reed pegou a arma e correu na direção deles.

Depois dos corpos, havia uma trilha de três ou quatro rifles de assalto e um pouco de munição espalhada.

Quando chegou nos corpos, ele parou. Sangue e matéria cinzenta sujavam o asfalto em volta do crânio do homem caído mais próximo. Reed já tinha visto sua cota de cadáveres, mas a destruição ali era notável, talvez digna de um prêmio.

Durante a queda, os óculos do homem tinham subido para o cabelo cacheado. A posição dos óculos dava a ele um visual perversamente caloroso e casual, um aspecto professoral, com ele deitado morto na estrada e o cérebro espalhado pelo asfalto.

Mais alguns passos à frente, havia uma mulher caída de lado na posição que o próprio Reed costumava fazer quando estava no sofá vendo televisão. A máscara de teia tinha sido raspada pelo contato com o asfalto, e a pele que restava estava toda ralada. Pelo que sobrara do rosto e do corpo, Reed percebeu que ela era jovem, mas não muito mais do que isso. Uma bala tinha aberto um ferimento grande no peito dela. O sangue da garota escorria para o asfalto úmido.

Tênis bateram no asfalto atrás de Reed.

— Gerda! — gritou alguém. — Gerda!

Reed se virou, e Barry Holden passou correndo e caiu de joelhos ao lado do corpo da filha.

Vern Rangle, com o nariz sangrando, cambaleou pela estrada atrás de Holden, gritando que ia circuncidar o filho da puta.

Que montanha de merda: um homem com o cérebro esmigalhado, uma garota morta, um advogado chorando, Vern Rangle puto da vida, armas e munição na rua. Reed ficou aliviado por Lila Norcross não estar trabalhando no momento como xerife, porque ele não ia querer nem começar a tentar explicar para ela como aquilo tinha acontecido.

Reed segurou Vern um segundo tarde demais e pegou só um pedaço de tecido no ombro. Vern se soltou dele e bateu com a coronha da pistola na nuca de Barry Holden. Houve um estalo feio, como um galho quebrando, e um jorro de sangue.

Barry Holden caiu de cara no chão ao lado da filha. Vern se agachou ao lado do advogado inconsciente e começou a bater nele sem parar com a coronha.

— Vai se foder, vai se foder, vai se foder! Você quebrou meu nariz, seu f…

A jovem, que deveria estar morta e não estava, segurou o maxilar de Vern, fechou os dedos por cima dos dentes inferiores dele e o puxou até o nível dela.

Ela ergueu a cabeça, abriu a boca e enfiou os dentes no pescoço de Vern. O

parceiro de Reed começou a bater nela com a coronha da arma. Não fez a menor diferença. O sangue arterial jorrou em volta dos lábios dela.

Reed se lembrou da própria arma. Levantou-a e atirou. A bala entrou pelo olho da jovem e o sangue correu frouxo, mas a boca permaneceu grudada no pescoço de Vern. Ela parecia estar bebendo o sangue dele.

De joelhos, Reed enfiou os dedos na gosma quente e escorregadia onde os dentes da jovem estavam agarrados no pescoço do parceiro. Ele forçou e puxou, sentindo língua e esmalte. Vern bateu nela mais uma vez, sem resultado, a arma voando da mão relaxada e quicando para longe. Em seguida, ele caiu.

7

O último em uma caravana de três carros, Frank seguia sozinho. Todos estavam com as sirenes ligadas. Ordway e Terry estavam na frente, seguidos de Peters e do parceiro dele, Blass. A solidão não era uma coisa que Frank procurava, mas sempre parecia encontrá-lo. Por que era assim? Elaine tinha pegado Nana e o deixado sozinho. Oscar Silver tinha caído da estrada e o deixou sozinho. Era cruel. Isso fez com que ele ficasse cruel. No entanto, talvez tivesse que ser assim, talvez ele tivesse que ser assim, para fazer o que tinha que fazer.

Porém, ele podia fazer o que tinha que fazer? As coisas estavam dando errado.

Reed Barrows havia mandado uma mensagem de rádio dizendo que tiros tinham sido disparados e que havia um policial morto. Frank acreditava que estava pronto para matar pela filha; tinha certeza de que estava pronto para morrer por ela, mas o que estava ocorrendo a ele agora era que não era o único disposto a correr riscos mortais. O pessoal de Norcross tinha roubado armamento da polícia e rompido uma barricada. Fossem quais fossem os motivos, eles estavam determinados. Frank ficava preocupado de eles estarem tão determinados, de os motivos deles serem um enigma tão grande. O que os estava motivando? O que havia entre Eva Black e Norcross?

Continuar: parte 7 de 12