Belas adormecidas
Parte dois: Vou dormir quando morrer
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
— Você viu aquilo? — perguntou ela. — Os ratos?
— Vi — disse Damian. O tom dele estava agudo e estridente, a imitação que ele fazia da voz dela. — Eu vi aqueles ratos, Jeanie baby.
Ugh, pensou Jeanette. Ele estava legal quando reapareceu na vida dela, mas agora estava ficando irritante.
— Tem ratos assim comendo meu cadáver por causa do jeito como você me matou, Jeanie baby.
— Me desculpe. — Ela tocou o próprio rosto. Parecia que estava chorando, mas seu rosto estava seco. Jeanette coçou a testa e enfiou as unhas na pele, tentando sentir um pouco de dor. Ela odiava ser maluca.
— Vem. Dá uma olhada. — Damian chegou mais perto e aproximou o rosto.
— Eles enfiaram as unhas até meu tutano. — Os olhos dele eram buracos negros; os ratos tinham comido os globos oculares. Jeanette não queria olhar, queria fechar os olhos, mas, se fizesse isso, sabia que o sono estaria esperando.
— Que tipo de mãe deixa o pai do próprio filho terminar assim? Mata ele e deixa os ratos comerem os restos como se ele fosse uma porra de biscoito?
— Jeanette — chamou Evie. — Ei. Aqui.
— Deixa essa vagabunda pra lá, Jeanie — disse Damian. Um camundongo caiu da boca quando ele falou. Foi parar no colo de Jeanette. Ela gritou e bateu nele, mas não estava lá. — Eu preciso da sua atenção. Olhos em mim, idiota.
Evie disse:
— Estou feliz de você ter ficado acordada, Jeanette. Estou feliz de você não ter me ouvido. Tem uma coisa acontecendo do outro lado e… bom, eu achei que ficaria feliz, mas talvez eu esteja ficando mole por causa da idade. Para o caso improvável de essa coisa durar, eu gostaria que houvesse uma audiência justa.
— Do que você está falando? — A garganta de Jeanette estava doendo. Tudo nela estava doendo.
— Você quer ver Bobby de novo?
— É claro que quero — respondeu Jeanette, ignorando Damian. Estava ficando mais fácil fazer isso. — É claro que eu quero ver o meu menino.
— Tudo bem, então. Escute com atenção. Há caminhos secretos entre os dois mundos, túneis. Cada mulher que adormece passa por um, mas tem outro, um muito especial, que começa em uma árvore muito especial. É o único que funciona nas duas direções. Você está entendendo?
— Não.
— Mas vai entender — disse Evie. — Tem uma mulher do outro lado desse túnel que vai fechar ele, se ninguém impedir. Eu respeito a posição dela, acho perfeitamente válida, a espécie masculina agiu de forma abismal deste lado da Árvore, nenhum tipo de avaliação progressiva pode alterar essa conclusão, mas todo mundo merece ser ouvido. Uma mulher, um voto. Elaine Nutting não pode ter a permissão de tomar a decisão por todo mundo.
O rosto de Evie estava nas grades da cela. Filetes verdes tinham crescido em volta das têmporas dela. Os olhos estavam da cor castanha de olhos de tigre.
Havia mariposas no cabelo dela, formando uma tiara em movimento. Ela é um monstro, pensou Jeanette, e é linda.
— O que isso tem a ver com Bobby?
— Se a Árvore pegar fogo, o túnel se fecha. Ninguém vai poder voltar. Nem
você e nem nenhuma outra mulher, Jeanette. O fim vai ser inevitável.
— Não, não, não. Já é inevitável — disse Damian. — Durma, Jeanie.
— Cala essa boca! Você está morto! — gritou Jeanette para ele. — Me desculpe por ter matado você, e eu faria qualquer coisa para voltar atrás, mas você era um filho da puta cruel e está feito, então pode calar essa boca!
Essa declaração ecoou pelo interior estreito da Ala A. Damian não estava lá.
— Muito bem colocado — disse Evie. — Corajoso! Agora, me escute, Jeanette: eu quero que você feche os olhos. Você vai passar pelo túnel, pelo seu túnel, mas não vai lembrar.
Essa parte Jeanette achou que tivesse entendido.
— Porque eu vou estar dormindo?
— Exatamente! Quando estiver do outro lado, você vai se sentir melhor do que se sente há muito tempo. Eu quero que você siga a raposa. Ele vai levar você aonde você precisa ir. Lembre-se: Bobby e a Árvore. Um depende do outro.
Jeanette deixou que seus olhos se fechassem. Bobby, ela lembrou a si mesma.
Bobby e a Árvore e o túnel que seguia em mão dupla. O túnel que uma mulher chamada Elaine queria fechar com um incêndio. Seguir a raposa. Ela contou um-dois-três-quatro-cinco e tudo estava igual. Menos Evie, claro, que tinha virado uma Dama Verde. Como se ela mesma fosse uma árvore.
Então ela sentiu cócegas na bochecha e um toque da renda mais suave.
10
Depois do tiro, eles ouviram Bert Miller berrar, gritar e ficar gritando enquanto o companheiro o arrastava para longe. Clint pegou a mira do rifle de Willy Burke para olhar. A figura de amarelo no chão estava segurando a coxa e o outro homem o estava segurando por baixo dos braços.
— Que bom. Obrigado. — Clint devolveu o rifle para Wettermore.
Willy Burke estava olhando para os dois com consideração cuidadosa: em parte com admiração e em parte com cautela.
Clint voltou para dentro. A porta dos fundos que levava ao pequeno ginásio estava presa por um tijolo.
Para diminuir a visibilidade de quem estava do lado de fora, eles tinham
cortado a luz e só deixado as lâmpadas vermelhas de emergência. Elas criavam pontos escarlates nas beiradas do piso de madeira onde as detentas jogavam basquete em meia quadra. Clint parou na cesta e se apoiou na parede. Seu coração estava disparado. Ele não estava com medo, ele não estava feliz, mas estava ali.
Clint avisou para si mesmo sobre a euforia que estava sentindo, mas isso não equilibrou a vibração agradável nos membros. Ele estava se distanciando de si mesmo ou voltando a si mesmo. Não sabia qual das duas coisas. O que ele sabia era que tinha o milk-shake e que Geary não ia tirá-lo dele. O fato de Geary estar errado quase não importava.
Aurora não era um vírus, era um feitiço, e Evie Black não era como nenhuma outra mulher — nenhum outro humano — que já tivesse existido. Não dava para consertar uma coisa que estava além da compreensão humana com um martelo, e era isso que Frank Geary, Terry Coombs e os outros homens do lado de fora da prisão presumiam que pudessem fazer. Aquilo exigia uma abordagem diferente.
Estava óbvio para Clint e devia ter ficado para eles, porque não eram todos homens burros, mas por algum motivo não tinha ficado, e isso significava que ele ia ter que usar o próprio martelo para bloquear o deles.
Eles que começaram! Que infantil! E tão verdadeiro!
O ciclo dessa lógica girava em rodas enferrujadas e barulhentas. Clint deu socos na parede acolchoada várias vezes e desejou que houvesse um homem à frente. Ele pensou em piretoterapia: a cura pela febre. Por um tempo, tinha sido tratamento de ponta, só que fazer os pacientes contraírem malária era um remédio muito pesado. Às vezes os salvava e às vezes acabava com eles. Evie era uma piretoterapeuta ou a piretoterapia? Seria possível que fosse médica e tratamento ao mesmo tempo?
Ou, ao mandar que Billy Wettermore desse aquele tiro na perna do conselheiro Bert Miller, ele tinha sido quem administrou a primeira dose?
11
Passos estalaram no chão, vindos da direção do ginásio. Angel estava saindo da Guarita abandonada com um molho de chaves de cela. Ela as segurou na mão
direita, a chave maior se projetando entre os dedos indicador e do meio. Uma vez, ela tinha enfiado uma chave afiada na orelha de um caubói velho e sujo em um estacionamento de Ohio. Não matou o caubói, mas ele não gostou muito.
Angel, sentindo-se gentil, só tirou a carteira do homem, a aliança vagabunda, as raspadinhas e a fivela de prata do cinto; permitiu que ele ficasse com a vida.
O dr. Norcross passou pela parede de vidro da Guarita sem parar. Angel pensou se valia se aproximar por trás e enfiar a chave na jugular do charlatão traidor. Adorou a ideia. Infelizmente, tinha prometido a Evie não matar ninguém até o amanhecer, e Angel tinha um medo profundo de contrariar a bruxa.
Ela deixou o doutor passar.
Angel seguiu para a Ala C e para a cela que era lar de Maura e Kayleigh. A forma que era claramente Maura, baixa e atarracada, estava deitada perto da beirada da cama de baixo, onde alguém a tinha colocado depois que ela pegou no sono na Ala A. Kayleigh estava perto da parede. Angel não tinha ideia do que Evie quis dizer quando falou que “as almas delas estavam mortas”, mas isso encorajou certo cuidado.
Ela usou a ponta de uma chave para cortar a teia que cobria o rosto de Maura.
O material se abriu com um ronronar, e as feições gorduchas de bochechas vermelhas de Maura surgiram. Ela podia ter sido garota-propaganda de algum produto “caseiro” vendido em lojas pequenas — “Pão de milho da Mãe Maura”
ou “Xarope Calmante Dunbarton”. Angel pulou para o corredor, pronta para sair correndo se Maura fosse para cima dela.
A mulher na cama se sentou devagar.
— Maura?
Maura Dunbarton piscou. Olhou para Angel. Os olhos eram só pupila. Ela soltou o braço direito do casulo, depois o esquerdo, e colocou as mãos juntas no colo.
Depois que Maura ficou sentada assim por alguns minutos, Angel entrou na cela de novo.
— Eu não vou só te machucar se você vier para cima de mim, Mo-Mo. Vou matar você.
A mulher ficou sentada em silêncio, os olhos pretos fixos na parede.
Angel usou a chave para cortar a teia que cobria o rosto de Kayleigh. Tão rapidamente quanto antes, ela saiu correndo da cela para o corredor.
O mesmo processo se repetiu: Kayleigh saiu da parte de cima do casulo como se estivesse tirando um vestido, observando com olhos que estavam todos pretos.
Ombro a ombro, as duas mulheres ficaram sentadas, com teias cortadas pendendo do cabelo, do queixo, do pescoço. Elas pareciam fantasmas em uma casa de terror de um parque de diversões vagabundo.
— Vocês estão bem? — perguntou Angel.
Elas não responderam. Não pareciam estar respirando.
— Vocês sabem o que precisam fazer? — perguntou Angel, menos nervosa agora, mas curiosa.
Elas não disseram nada. Nenhum tipo de reflexão surgiu nos olhos pretos. Um aroma suave de terra úmida e revirada emanava das duas mulheres. Angel pensou (mas queria não ter pensado): É assim que os mortos suam.
— Tá. Tudo bem. — Ou elas fariam alguma coisa, ou não fariam. — Vou deixar com vocês, então. — Ela pensou em acrescentar alguma coisa de natureza encorajadora, como arrasem com eles, mas decidiu não falar nada.
Angel foi até a carpintaria e usou as chaves para destrancar as ferramentas.
Enfiou uma furadeira de mão pequena na cintura, um cinzel em uma meia e uma chave de fenda na outra.
Em seguida, se deitou de costas embaixo de uma mesa e ficou observando uma janela preta em busca do primeiro sinal de vida. Não se sentia nada sonolenta.
12
Filamentos giraram e cresceram em volta do rosto de Jeanette, se partindo, caindo e subindo, encobrindo suas feições. Clint se ajoelhou ao lado dela, querendo segurar sua mão, mas sem ousar.
— Você era uma boa pessoa — disse ele para ela. — Seu filho amava você.
— Ela é uma boa pessoa. O filho ama ela. Ela não está morta, só dormindo.
Clint foi até a grade da cela de Evie.
— É o que você diz, Evie.
Ela estava sentada na cama.
— Você parece estar recuperando o ânimo, Clint.
A postura dela, a inclinação da cabeça para baixo, o cabelo preto brilhante caindo pela lateral do rosto, era de melancolia.
— Você ainda pode me entregar. Mas não por muito tempo.
— Não — disse ele.
— Que voz tinha aquele homem em quem você mandou Wettermore atirar!
Eu consegui ouvir daqui.
O tom dela não era bajulador. Era reflexivo.
— As pessoas não gostam de levar tiros. Dói. Talvez você não saiba disso.
— O Prédio Municipal foi destruído esta noite. As pessoas que fizeram isso botaram a culpa em você. O xerife Coombs pulou fora. Frank Geary vai trazer os homens dele de manhã. Alguma dessas coisas surpreende você, Clint?
Não surpreendia.
— Você é muito boa em conseguir o que quer, Evie. Mas não vou dar os parabéns.
— Agora pense em Lila e nas outras no mundo além da Árvore. Acredite em mim: elas estão indo bem lá. Estão construindo uma coisa nova, uma coisa boa.
E vai haver homens. Homens melhores, criados desde o nascimento por mulheres em uma comunidade de mulheres, homens que vão aprender a se conhecer e conhecer o mundo deles.
Clint disse:
— A natureza essencial deles vai prevalecer com o tempo. A masculinidade.
Um vai levantar o punho para o outro. Acredite em mim, Evie. Você está olhando para um homem que sabe.
— Realmente — concordou Evie. — Mas esse tipo de agressão não é de natureza sexual, é da natureza humana. Se você duvida da capacidade agressiva das mulheres, pergunte à sua guarda Lampley.
— Ela deve estar dormindo em algum lugar agora — disse Clint.
Evie sorriu como se tivesse mais informações.
— Não sou tola a ponto de prometer a você que as mulheres do outro lado da Árvore têm uma utopia. O que elas vão ter é um começo melhor e uma boa chance de um final melhor. Você está no caminho dessa chance. Você e só você,
de todos os homens na Terra. Eu preciso que saiba disso. Se me deixar morrer, aquelas mulheres vão ser libertadas para viverem vidas da escolha delas.
— Vidas da sua escolha, Evie. — A voz dele pareceu seca aos próprios ouvidos.
O ser do outro lado da porta da cela batucou um ritmo na moldura da cama com a ponta dos dedos.
— Linny Mars estava na delegacia quando foi destruída. Ela se foi para sempre. Ela não teve escolha.
— Você tirou dela — disse Clint.
— Nós poderíamos continuar com isso para sempre. Culpa sua, culpa minha.
A história mais antiga do universo. Vá lutar sua guerra, Clint. Essa é uma coisa que os homens sabem fazer. Me faça ver outro pôr do sol.
13
1
Quando a primeira faixa de sol apareceu acima da floresta atrás do Instituto Penal de Dooling, uma fileira de buldôzeres surgiu na West Lavin, de uma ponta a outra. Os três eram Caterpillars; dois D-9 e um D-11 grande. A equipe de ataque era formada por dezoito homens no total. Quinze estavam com os buldôzeres, indo na direção do portão de entrada; três estavam avançando pela parte de trás da cerca da prisão. (Eles tinham deixado o conselheiro Miller no bloqueio com um frasco de Vicodin e a perna com o curativo apoiada em uma cadeira dobrável.) Frank havia organizado doze no grupo ofensivo, em três quartetos. Cada quarteto, com coletes e máscaras, se escondia atrás de um buldôzer, usando-o como proteção. As janelas e grades dos buldôzeres foram cobertas com pedaços de aço. O policial aposentado Jack Albertson dirigia o primeiro da fila, o treinador JT Wittstock dirigia o segundo e o antigo boxeador amador, Carson Struthers, dirigia o terceiro. Frank estava ao lado de Albertson no buldôzer dele.
Os homens no bosque eram o policial Elmore Pearl, o caçador Drew T. Barry (o escritório dele agora estava destruído) e Don Peters.
2
Clint viu os buldôzeres da janela alta da Ala B e correu para a escada, vestindo o colete à prova de balas no caminho.
— Divirta-se se ferrando, doutor — gritou Scott Hughes com alegria quando ele passou correndo.
— Até parece que eles vão deixar você sair numa boa se entrarem — disse Clint. Isso arrancou o sorriso do rosto de Scott.
Clint correu pela Broadway e parou para botar a cabeça na sala de visitas.
— Rand, eles estão chegando. Prepare o gás lacrimogênio.
— Certo — disse Rand da sala familiar na extremidade da sala, e colocou calmamente a máscara que já estava preparada.
Clint continuou até a estação de segurança junto à porta.
A estação era uma salinha básica à prova de balas, por onde os visitantes tinham que passar e se registrar. A salinha tinha uma janela comprida e uma gaveta para a entrega de identidades e objetos de valor para o guarda de serviço.
Havia um painel de comunicação como os da Guarita e do portão, com monitores que podiam exibir a vista de várias áreas internas e externas da prisão.
Tig estava em frente a esse painel.
Clint bateu na porta e Tig a abriu.
— O que você vê nos monitores?
— O nascer do sol está ofuscando as lentes. Se tem homens atrás dos buldôzeres, eu ainda não consigo ver.
Eles tinham oito ou nove granadas de gás para serem disparadas pelo lançador. No monitor central, embaixo das espirais de brilho, Clint viu várias caírem no estacionamento e espalharem fumaça branca misturada com a fumaça escura que ainda saía dos pneus. Ele mandou Tig ficar de olho e saiu correndo.
Seu próximo destino era a sala de descanso. Jared e Michaela estavam à mesa com um maço de cartas e copos de café.
— Vão se esconder agora. Está começando.
Michaela levantou o copo para ele em um brinde.
— Desculpa, doutor. Tenho idade suficiente para votar e tudo. Acho que vou ficar por aqui mesmo. Quem sabe, pode até ter um prêmio Pulitzer no meu futuro.
Jared estava pálido como giz. Ele olhou de Michaela para o pai.
— Tudo bem — disse Clint. — Longe de mim querer limitar a liberdade de imprensa. Jared, se esconda, e não me diga onde.
Ele saiu correndo antes que o filho pudesse responder. A respiração estava ofegante quando chegou à porta dos fundos que dava perto do barracão e do
campo. O motivo de ele nunca ter sugerido a Lila que eles corressem juntos, até a manhã da Aurora, era que ele não queria que ela precisasse limitar seu ritmo por causa dele; teria sido constrangedor. Qual era a raiz disso, vaidade ou preguiça? Clint prometeu a si mesmo refletir de verdade sobre a pergunta quando tivesse um tempinho livre e, se ele tivesse sorte de sobreviver àquela manhã e voltar a falar com a esposa, possivelmente repetir a proposta de eles começarem a correr juntos.
— Três buldôzeres na estrada — anunciou Clint ao sair.
— Nós sabemos — disse Willy Burke. Ele andou até Clint de onde estava, atrás do barracão. Havia um contraste estranho entre o colete à prova de balas e o suspensório vermelho festivo, agora caído em arcos sobre os quadris. — Tig mandou mensagem de rádio. Billy vai ficar aqui, vigiando a cerca norte. Eu vou até a esquina ali para ver se tenho linha de fogo livre. Você pode se juntar a mim, mas vai precisar de uma destas. — Ele entregou uma máscara de gás para Clint e colocou a dele.
3
Na virada de noventa graus da estrada para o portão, Frank bateu na placa de metal acima da porta, sinal para Albertson ficar para a direita. Jack fez exatamente isso, de forma lenta e cuidadosa. Os homens recuaram um pouco, mantendo o volume de metal à frente o tempo todo enquanto manobravam.
Frank estava de colete e segurava uma Glock na mão direita. Via filetes de fumaça descendo pela estrada. Isso era esperado: ele ouviu o estalo das granadas de gás sendo disparadas. Eles não podiam ter muitas. Havia muito mais máscaras do que granadas no arsenal da delegacia.
O primeiro buldôzer completou seu ajuste, e os quatro homens subiram atrás, encostados ombro a ombro.
No cockpit do buldôzer, Jack Albertson estava protegido atrás da chapa de aço, erguida em posição mais alta, bloqueando o vidro da frente. Ele acelerou bem enquanto seguia para o portão.
Frank usou o walkie-talkie, embora nem todos na força de ataque tivessem um; tudo havia sido feito às pressas.
— Se preparem, pessoal. Está para acontecer. — E por favor, pensou ele, com o menor derramamento de sangue possível. Ele já tinha perdido dois homens, e o ataque nem tinha começado.
4
— O que você acha? — Clint perguntou a Willy.
Do outro lado da cerca dupla, o primeiro buldôzer, com a lâmina frontal erguida, estava se aproximando. Por meio segundo, houve um vislumbre de movimento na parte de trás da máquina.
Willy não respondeu. O sujeito estava revivendo um metro quadrado de inferno sem nome no sudeste da Ásia, em 1968. Tudo estava imóvel, com água de pântano até o pomo de adão, uma camada de fumaça bloqueando o céu, ele ensanduichado no meio, e tudo estava tão imóvel, e um pássaro vermelho, azul, amarelo e enorme, do tamanho de uma águia, passou flutuando ao lado dele, morto, com o olho enevoado. A criatura estava tão vívida e incongruente na luz estranha. As penas gloriosas roçaram no ombro de Willy, e a corrente suave a levou, e ela desapareceu na fumaça.
(Uma vez, ele contou isso para a irmã. “Eu nunca tinha visto um pássaro daquele jeito. Nem durante o tempo que fiquei lá. E também não vi nenhum depois, claro. Eu me pergunto às vezes se era o último da espécie.” O Alzheimer já tinha consumido boa parte da personalidade dela, naquela época, mas ainda havia sobrado um pouquinho, e ela disse: “Talvez só estivesse… machucado, Willy”. E Willy disse para ela: “Eu te amo mesmo, sabe”. Sua irmã ficou vermelha.) A lâmina do buldôzer acertou o meio da cerca com um estrondo alto.
Os elos se curvaram para dentro antes de a seção inteira ser arrancada do chão e jogada em cima da segunda camada de cerca, depois da área central. Fantasmas de gás lacrimogênio se abriram na frente do buldôzer conforme foi se adiantando, batendo na segunda cerca com o fragmento emaranhado da primeira. A cerca interna se curvou e desabou, e o buldôzer passou por cima dos detritos. Continuou pelo estacionamento tomado de fumaça, com um pedaço de cerca preso e chiando embaixo.
O segundo e o terceiro buldôzer foram atrás pela abertura.
Um sapato marrom, visível atrás do canto esquerdo traseiro do primeiro buldôzer, apareceu na visão de Willy. Ele disparou. Um homem gritou e caiu da parte de trás do veículo, girando um braço e jogando longe uma arma. Era um sujeitinho de pernas arqueadas usando uma máscara de gás e um colete. (Willy não saberia que era Pudge Marone, do Squeaky Wheel, nem que o rosto de Pudge estivesse visível. Willy não bebia em bares havia anos.) Apesar de o tronco do homem estar protegido, as pernas e braços não estavam, e isso era ótimo porque Willy não queria matar ninguém, se pudesse evitar. Ele disparou de novo, não exatamente onde queria, mas perto, e a bala calibre .223, disparada por um rifle de assalto M4 que era propriedade do Departamento de Polícia de Dooling até o dia anterior, explodiu o polegar de Pudge Marone.
Um braço surgiu atrás do buldôzer para ajudar o homem caído, uma tentativa compreensível e talvez até louvável, embora nem um pouco sábia. O braço em questão pertencia ao policial aposentado Nate McGee, que, tendo perdido mais de cem dólares jogando dados no asfalto da Route 31 na noite anterior, acabou acalmando a si mesmo com dois pensamentos falsos: um, que se tivesse certeza de que a sra. McGee talvez acordasse um dia, não teria feito aposta nenhuma; e o outro, que pelo menos ele já tinha esgotado o azar da semana. Não era verdade.
Willy atirou uma terceira vez, acertando o cotovelo do braço esticado. Houve outro grito, e McGee caiu de trás do buldôzer. Willy disparou mais quatro tiros rápidos, testando a placa de aço que tinha sido presa na grade do veículo, e ouviu as balas ricochetearem inutilmente.
Frank se inclinou de trás da cobertura do primeiro buldôzer com uma pistola e disparou uma série de tiros rápidos na direção de Willy. Em 1968, Willy talvez conseguisse julgar, pelo ângulo do braço de Geary, que a mira estava ruim e ficasse em posição para derrubá-lo, mas 1968 tinha sido cinquenta anos antes, e levar um tiro era algo que ninguém desejava. Willy e Clint chegaram para o lado para se esconderem.
Quando o buldôzer de Jack Albertson rolou pelos filetes de gás lacrimogênio e fumaça preta direto para cima do trailer e da porta da frente, os detritos embaixo da parte fronteira fazendo um ruído alto, o segundo buldôzer, dirigido pelo treinador Wittstock, passou pelo buraco na cerca.
Com Albertson na frente e Carson Struthers atrás, a lâmina do treinador
Wittstock estava erguida como proteção. Ele ouvia os tiros, ouvia os gritos, mas não viu Nate McGee segurando o cotovelo no chão à frente, e quando o buldôzer passou por cima do homem caído, o treinador Wittstock concluiu que as esteiras da máquina estavam passando apenas sobre um dos pneus queimados.
Ele deu um grito de comemoração. Estava ultrapassando as barreiras, como ensinava os jogadores de futebol americano a fazer, destemidos e implacáveis!
Da posição estratégica na janela da sala de visitas, Rand esperou para disparar no primeiro buldôzer só quando o veículo estava na metade do caminho entre o portão e a porta de entrada. Seus tiros atingiram a placa de aço aqui e ali, ricocheteando sem efeito.
Pete Ordway, os garotos Wittstock e Dan “Treater” Treat, protegidos pelo segundo buldôzer, se viram de cara com o corpo esmagado de Nate McGee. A máscara de gás do morto estava cheia de sangue, e o tronco tinha explodido em volta das tiras do colete. Havia massa cinzenta jorrando da esteira do veículo; pedaços de pele balançavam como bandeirolas. Rupe Wittstock gritou e pulou para longe da sujeira, se afastando das vísceras, mas entrando na linha de fogo de Rand.
O primeiro disparo de Rand passou a dois centímetros da cabeça do alvo, o segundo, a um. Rand soltou um palavrão e botou o terceiro tiro bem no meio das costas do homem. A bala se alojou no colete à prova de balas que o alvo estava usando e o fez se curvar. Ele jogou os braços para o alto como um torcedor em um estádio fazendo a ola. Rand atirou uma quarta vez, mais baixo. Acertou o alvo nas nádegas e o derrubou no chão.
O policial Treat não se deixou afetar. Saído havia apenas um ano da divisão de paraquedistas 82nd Airborne, ainda tinha certa tranquilidade em relação a levar um tiro, aquela que Willy Burke tinha perdido muito tempo antes. Ele pulou do segundo buldôzer sem pensar duas vezes. (Na verdade, ficou aliviado de entrar no modo militar. A ação era um distanciamento da realidade inescapável de que sua filha Alice estava naquele segundo apoiada na mesa de brincadeiras no apartamento em que eles moravam, envolta em fibras brancas, quando devia estar se levantando para outro dia de aulas do segundo ano. E era um distanciamento do pensamento de que seu filho de um ano estava no momento em uma creche nada confiável cuidada por homens.) Sem cobertura, Treat
devolveu os tiros com um M4 que tinha recuperado na Route 31.
Na janela, Rand caiu de joelhos na mesa sobre a qual estava de pé.
Fragmentos de concreto choveram em seu pescoço e suas costas.
Treater levantou Rupe Wittstock e o puxou para a proteção de uma pilha de pneus fumegantes.
O buldôzer se chocou na traseira do trailer Fleetwood, batendo com o capô dele na porta da frente da prisão em uma explosão de vidro.
5
Jared estava sentado no chão da lavanderia enquanto Michaela empilhava lençóis em volta dele, construindo um montinho para escondê-lo.
— Me sinto idiota — disse Jared.
— Você não parece idiota — respondeu Michaela, o que não era verdade. Ela esticou um lençol acima da cabeça dele.
— Me sinto uma mulherzinha.
Michaela odiava aquela palavra. Mesmo enquanto ouvia mais tiros soando lá fora, a palavra a irritou. Naquele contexto, ser mulherzinha significava ser covarde, e apesar de ser mulher, não havia nada de covarde nela. Janice Coates não a tinha criado para ser covarde. Ela levantou o lençol e deu um tapa forte (mas não muito) na bochecha de Jared.
— Ei! — Ele levou a mão ao rosto.
— Não diga isso.
— O quê?
— Não diga mulherzinha querendo dizer uma fraqueza. Se sua mãe não ensinou isso, deveria. — Michaela largou o lençol sobre o rosto dele.
6
— É um crime ninguém estar filmando isso para passar na porra da TV — disse Low.
Com o olho na mira da bazuca, ele viu o segundo buldôzer esmagar o pobre otário que tinha caído na frente da esteira, viu o pseudo-Rambo pular de trás do segundo buldôzer, começar a atirar e salvar o outro cara. Ele testemunhou em
seguida, não sem uma mistura de surpresa e euforia, o primeiro buldôzer esmagar o trailer como se fosse uma sanfona em cima da porta da prisão. Era um conflito estelar, e só ia ficar melhor quando eles apimentassem tudo com três ou quatro rojões da bazuca.
— Quando é que a gente vai entrar em ação? — perguntou May.
— Assim que os policiais estiverem um pouco mais cansados.
— Como a gente vai ter certeza de que matou Kitty, Low? Aquele lugar deve estar cheio de vagabundas em casulos.
— A gente provavelmente não vai ter certeza, May, mas nós vamos disparar todos esses rojões e explodir a porra do lugar, então acho que temos boas chances. Até certo ponto, acho que vamos ter que torcer para dar sorte. — Low não gostava dos resmungos de última hora do irmão. — E nós vamos aproveitar isso ou não? Ou você prefere que eu dê todos os tiros?
— Para com isso, Low, eu não disse isso — protestou May. — Seja justo.
7
No nível 32 do Boom Town, pequenas aranhas cor-de-rosa começaram a invadir o campo de estrelas, triângulos e esferas em chamas de Evie. As aranhas encharcavam as esferas e as transformavam em estrelas cintilantes irritantes que travavam o funcionamento de tudo, droga. Na Ala A, o som de tiros ecoava de forma estridente. Evie não se deixou afetar; ela já tinha visto e ouvido homens matando em numerosas ocasiões. Porém, as aranhas cor-de-rosa a incomodavam.
— Tão más — disse ela para ninguém, deslizando as formas coloridas de um lado para outro, procurando ligações.
Evie estava extremamente relaxada; enquanto jogava no celular, estava flutuando de costas alguns centímetros acima do colchão.
8
Arbustos tremeram do outro lado da cerca norte, diretamente à frente da posição de Billy Wettermore na viela atrás do barracão. Ele soltou mais de dez tiros no amontoado verde de onde veio a movimentação. Os arbustos tremeram e
sacudiram.
Drew T. Barry, um corretor de seguros ardiloso que sempre seguia o caminho mais distante de qualquer risco, não estava perto da linha de fogo de Billy. Na verdade, com a prudência que não só o tornava a primeira parada de Dooling para todas as necessidades de indenização, mas também um excelente caçador, disposto a esperar para conseguir o tiro ideal, ele parou os dois outros homens (Pearl e Peters) no bosque atrás do ginásio da prisão. Peters tinha dito que a porta dos fundos da prisão ficava na parede oeste do ginásio. A reação produzida pela pedra que Drew jogou na vegetação perto daquele lugar revelou muito a eles: sim, devia haver uma porta, e sim, estava protegida.
— Policial? — disse Drew T. Barry.
Eles estavam agachados atrás de um carvalho. Uns cinco metros à frente, ainda havia pedaços de folha no ar do estrago provocado pelos tiros. A julgar pelo som, o atirador devia estar trinta ou quarenta metros depois da cerca interna, perto do muro da prisão.
— O quê? — respondeu Don Peters. O rosto vermelho estava molhado de suor. Ele estava carregando a bolsa com as máscaras e os alicates de cortar cadeado.
— Não você, o verdadeiro policial — disse Drew T. Barry.
— Sim? — Pearl assentiu para ele.
— Se eu matar o cara que está atirando na nossa direção, não tem chance de eu ser acusado de nada? Você tem certeza de que Geary e Coombs vão jurar que agimos no cumprimento legal do nosso dever?
— Tenho. Palavra de escoteiro. — Elmore Pearl levantou a mão na saudação de sua infância, os três primeiros dedos erguidos, o mindinho preso pelo polegar.
Peters limpou o catarro da garganta.
— Precisa que eu volte e traga um tabelião, Drew?
Drew T. Barry ignorou a cutucada engraçadinha, mandou os dois ficarem no lugar e começou a voltar para a floresta, seguindo pela inclinação norte em passos rápidos e silenciosos, com o rifle Weatherby pendurado nas costas.
9
Com a parada dos buldôzeres, Frank continuou mirando no canto sudoeste da prisão, pronto para acertar o atirador que estava lá, se ele mostrasse a cara. Os tiros o abalaram; tornaram tudo real. Ele se sentia nauseado pelo sangue e pelos corpos no chão, obscurecidos e revelados conforme as nuvens de gás lacrimogênio se deslocavam no vento, mas sua determinação continuava forte.
Ele sentia horror, mas não remorso. Sua vida era a vida de Nana, o que tornava o risco aceitável. Foi o que ele disse para si mesmo.
Kronsky se juntou a ele.
— Anda logo — disse Frank. — Quanto mais cedo isso acabar, melhor.
— Você tem razão nisso, chefia — disse Kronsky, apoiado em um joelho e com a mochila no chão. Ele abriu a mochila, tirou o pacote de dinamite e cortou três quartos do pavio.
A porta protegida do buldôzer se abriu. Jack Albertson desceu, carregando a antiga arma de serviço, uma .38.
— Nos proteja de toda a merda que vem de lá — disse Kronsky para Albertson, apontando na direção onde Willy Burke estava. Em seguida, se virou para Frank. — Vamos nessa, e é melhor você dar passadas largas.
Os dois homens seguiram pela parede noroeste da prisão, agachados. Embaixo da janela derrubada que era um dos pontos de fogo dos defensores, Kronsky parou. Estava com a dinamite na mão e um isqueiro azul de plástico na outra. O
cano do rifle defensor que tinha aparecido ali voltou a aparecer.
— Pegue essa coisa — disse ele para Frank.
Frank não questionou a ordem, só esticou o braço e fechou a mão esquerda no tubo de metal. Ele puxou a arma da mão do homem que estava dentro. Ouviu um palavrão abafado. Kronsky acendeu o isqueiro, acendeu o pavio curto e jogou lá dentro casualmente, direto pelo buraco. Frank largou o rifle e se deitou no chão.
Três segundos depois, houve um estrondo. Fumaça e pedaços de carne sangrenta voaram pela janela.
10
A terra tremeu e soltou um rugido ultrajado.
Clint, lado a lado com Willy Burke na parede oeste, viu uma onda de gás
lacrimogênio do estacionamento, gerada pelo que tinha acabado de explodir.
Sinos soaram no crânio dele, e suas juntas vibraram. Por baixo de todo aquele barulho, ele só conseguia pensar que as coisas não estavam indo tão bem quanto esperava. Aquele pessoal ia matar Evie e todo o resto. Culpa dele, fracasso dele.
A pistola que estava carregando ridiculamente (nunca nos quinze anos de casamento ele tinha aceitado o convite de Lila para ir ao campo de tiro com ela) surgiu na mão dele mesmo assim, implorando para ser disparada.
Ele se inclinou em volta de Willy Burke, observou o amontoado na porta da frente e apontou para a figura de pé na traseira do primeiro buldôzer. O homem estava olhando para a nuvem de poeira saindo da janela de Rand Quigley, que, assim como tudo naquela manhã, tinha explodido e abandonado a forma original.
(Jack Albertson não esperava a explosão. Deu um susto nele, e ele baixou a guarda para olhar. Apesar de o caos não o incomodar — como mineiro na juventude, um mineiro que tinha sobrevivido a muitos tremores de terra, seus nervos eram bons —, o deixava perplexo. Qual era o problema dessa gente, que preferia um tiroteio a entregar uma mulher má para a lei? Na visão dele, o mundo ia ficando cada vez mais maluco a cada ano que passava. Seu Waterloo pessoal foi a eleição de Lila Norcross como Chefe do Departamento de Polícia de Dooling. Um rabo de saia como xerife! Não podia ficar mais ridículo do que isso.
Jack Albertson apresentou seu pedido de aposentadoria naquela época e voltou para casa para apreciar sua solteirice em paz.) O braço de Clint ergueu a pistola, a mira encontrou o homem atrás do buldôzer, e seu dedo puxou o gatilho. O tiro foi seguido de um estalo suculento, o som de uma bala atravessando a placa frontal da máscara de gás do homem. Clint viu a cabeça ser jogada para trás e o corpo desmoronar.
Ah, Jesus, pensou ele. Devia ser alguém que conhecia.
— Venha! — gritou Willy, puxando-o para a porta dos fundos. Clint foi, as pernas fazendo o que precisavam fazer. Matar alguém tinha sido mais fácil do que ele achava que seria. O que só tornava tudo pior.
14
1
Quando Jeanette abriu os olhos, a raposa estava deitada em frente à porta da cela de Evie. O focinho estava apoiado no piso de cimento rachado, dos quais brotava musgo verde.
— Túnel — disse Jeanette para si mesma. Tinha alguma coisa sobre um túnel.
Ela disse para a raposa: — Eu passei por um? Não lembro se passei. Você foi mandada por Evie?
A raposa não respondeu, como ela quase esperava (nos sonhos, animais sabiam falar, e aquilo parecia um sonho… mas ao mesmo tempo não). A raposa só bocejou, olhou para ela com esperteza e se levantou.
A Ala A estava vazia, e havia um buraco na parede. Raios de luz do sol matinal entravam por ele. Havia geada nos pedaços de cimento quebrado, derretendo e pingando com o aumento da temperatura.
Jeanette pensou: Me sinto desperta de novo. Acho que estou acordada.
A raposa fez um ruído e andou até o buraco. Olhou para Jeanette, fez outro ruído e passou, então foi engolida pela luz.
2
Ela passou pelo buraco com cuidado, se abaixando por causa das pontas afiadas de cimento quebrado, e se viu em um campo de mato até o joelho e girassóis mortos. A luz da manhã fez Jeanette estreitar os olhos. Seus pés esmagaram a vegetação rasteira congelada, e o ar frio gerou um arrepio por baixo do tecido fino do uniforme.
As sensações fortes de ar fresco e brilho do sol a despertaram completamente.
O corpo antigo, exausto pelo trauma, pelo estresse e pela falta de sono, era uma pele que tinha sido deixada para trás. Jeanette se sentia nova.
A raposa correu bruscamente pela grama, guiando-a pelo lado leste da prisão na direção da Route 31. Jeanette teve que andar rápido para acompanhar enquanto seu olhar se ajustava à luz intensa do dia. Ela lançou um olhar para a prisão: arbustos desfolhados sufocavam as paredes; as carcaças enferrujadas de um buldôzer e de um trailer bloqueavam a entrada da construção, também cobertas de vegetação; pedaços chamativos de grama amarelada surgiam de rachaduras e buracos no estacionamento; outros veículos enferrujados estavam espalhados no asfalto. Jeanette olhou na direção oposta. As cercas estavam derrubadas; ela via o arame cintilando no meio do mato. Apesar de Jeanette não entender o como e nem o porquê, ela absorveu imediatamente a situação. Aquilo era o Instituto Penal de Dooling, mas o mundo tinha girado, talvez durante anos.
Sua guia continuou pela vala que acompanhava a Route 31, atravessou a estrada rachada e em desintegração e entrou na escuridão azul-esverdeada da floresta do outro lado. Conforme a raposa subia o aclive, o pelo laranja surgia e sumia na penumbra.
Jeanette correu para atravessar a estrada, mantendo o olhar no rabo em movimento. Um dos tênis escorregou em um trecho úmido, e ela precisou se segurar em um galho para não se desequilibrar. O frescor do ar, carregado de seiva de árvore, folhas em compostagem e terra molhada, ardia pela garganta dela até o peito. Estava fora da prisão, e uma lembrança de jogar Banco Imobiliário quando criança surgiu: Saída livre da prisão! Essa nova realidade maravilhosa extirpava o quadrado da floresta do próprio tempo e o transformava em uma ilha além do alcance: de limpadores industriais, de ordens, de chaves tilintando, de roncos e peidos de colegas de cela, de choro de colegas de cela, de portas de cela sendo fechadas. Agora, ela era a única governante; rainha Jeanette, daquele momento em diante. Ser livre era doce, mais doce do que ela tinha fantasiado.
Porém, então:
— Bobby. — Ela sussurrou para si mesma. Esse era o nome que tinha que lembrar, que tinha que carregar consigo, para não sentir a tentação de ficar.
3
Avaliar distâncias era difícil para Jeanette; ela estava acostumada com a pista plana de borracha que contornava o campo do Instituto, cada volta cerca de oitocentos metros. A subida regular para sudoeste era mais rigorosa, e ela precisou aumentar as passadas, o que fez os músculos das coxas cantarolarem de uma forma que doía e era maravilhosa ao mesmo tempo. A raposa parava de vez em quando para permitir que ela diminuísse um pouco a distância antes de seguir em frente. Estava suando muito, apesar do frio. O ar dava a sensação daquele momento marcante em que o inverno estava chegando na primavera.
Alguns brotos de pontas verdes surgiam no marrom-cinzento da floresta, e onde a terra estava a céu aberto, estava enlameada de neve derretida.
Talvez tivessem percorrido três quilômetros, talvez quatro, quando a raposa guiou Jeanette por trás de um trailer caído em um mar de mato. Uma fita amarela da polícia já muito velha tremia ao vento, caída no chão. Ela achava que estava chegando perto agora. Ouviu um zumbido leve no ar. O sol estava mais alto, e o meio-dia se aproximava. Ela estava começando a sentir sede e fome, e talvez houvesse algo para comer e beber em seu destino; como um refrigerante gelado cairia bem agora! Mas não importava, Bobby era o que precisava estar em sua mente. Ver Bobby de novo. À frente, a raposa desapareceu embaixo de um arco de árvores quebradas.
Jeanette correu atrás, passando por uma pilha de detritos cobertos de mato.
Talvez já tivesse sido uma cabana ou um barracão. Ali, mariposas cobriam os galhos das árvores, os corpos marrons incontáveis tão próximos uns dos outros que elas pareciam cracas estranhas. E isso levou a um pensamento: Jeanette compreendeu que o mundo em que se encontrava ficava fora de tudo que ela já tinha conhecido, como um local no fundo do mar. As mariposas pareciam imóveis, mas ela as ouvia estalando baixinho, como se falando.
Bobby, elas pareciam dizer. Não é tarde demais para começar de novo, elas pareciam dizer.
A subida finalmente chegou ao fim. Através do que restava da floresta, Jeanette viu a raposa na grama desbotada de um campo de inverno. Ela inspirou fundo. Um aroma de querosene, totalmente inesperado e parecendo desconectado de tudo, atingiu seu nariz e sua boca.
Jeanette saiu em terreno aberto e viu uma coisa que não podia existir. Uma coisa que a fez ter certeza de que não estava mais na área dos Apalaches que conhecia.
4
Era um tigre branco, a pelagem com marcas pretas e finas. O animal revirou a cabeça e rugiu, parecendo o leão da MGM. Atrás dele havia uma árvore, uma Árvore, surgindo da terra em um emaranhado de cem troncos que se retorciam em uma fonte ampla de galhos, pingando com folhas e musgo, viva com os corpos agitados de aves tropicais. Uma cobra vermelha enorme, brilhante e cintilante, subia pelo centro.
A raposa correu até uma abertura no fuste, lançou um olhar um tanto selvagem para Jeanette e sumiu no interior. Era ele, era o túnel que seguia nas duas direções. O túnel que a levaria de volta para o mundo de onde ela tinha vindo, o mundo onde Bobby esperava. Ela começou a andar na direção dele.
— Pare onde está. E levante as mãos.
Uma mulher com uma camisa xadrez amarela e calça jeans estava parada na grama que ia até os joelhos, apontando uma pistola para Jeanette. Ela tinha aparecido pela lateral da árvore, que era, na base, mais ou menos do tamanho de um prédio. Na mão que não estava segurando a pistola, ela carregava uma lata com um elástico azul no meio.
— Não chegue mais perto. Você é nova, não é? E suas roupas dizem que você é da prisão. Deve estar confusa. — Um sorriso peculiar tocou os lábios da moça de camisa amarela, uma tentativa inútil de aliviar a estranheza da situação: a Árvore, o tigre, a arma. — Eu quero te ajudar. Vou ajudar. Nós somos amigas aqui. Eu sou Elaine, tá? Elaine Nutting. Só me deixe fazer uma coisinha e podemos conversar melhor.
— Que coisinha? — perguntou Jeanette, apesar de ter certeza de que sabia.
Por que outro motivo haveria o fedor de querosene? A mulher estava se preparando para botar fogo na Árvore Impossível. Se incendiasse, o caminho de volta para Bobby seria queimado. Evie tinha dito isso. Não podia acontecer, mas
como a mulher poderia ser impedida? Ela estava a pelo menos seis metros de distância, longe demais para que Jeanette partisse para cima.
Elaine se apoiou em um joelho e ficou observando Jeanette com atenção enquanto colocava a pistola na terra (mas ao alcance da mão) e abria rapidamente a tampa da lata de querosene.
— Eu já espalhei as duas primeiras. Só preciso terminar de fazer um círculo.
Para garantir que vá queimar.
Jeanette deu dois passos para a frente. Elaine pegou a arma e se levantou.
— Fique onde está!
— Você não pode fazer isso — disse Jeanette. — Não tem o direito.
O tigre branco estava sentado perto da abertura que tinha engolido a raposa.
Bateu o rabo de um lado para outro e observou com olhos âmbar brilhantes entreabertos.
Elaine jogou querosene na árvore, manchando a madeira de um marrom mais escuro.
— Eu tenho que fazer isso. É melhor assim. Resolve todos os problemas.
Quantos homens te fizeram mal? Muitos, imagino. Eu trabalhei com mulheres como você durante toda a minha vida adulta. Sei que não entrou na prisão sozinha. Um homem empurrou você para lá.
— Moça — disse Jeanette, ofendida pela ideia de que uma olhada nela pudesse revelar a alguém qualquer coisa de importância. — Você não me conhece.
— Talvez não pessoalmente, mas estou certa, não estou? — Elaine virou o resto de querosene em umas raízes e jogou a lata de lado.
Jeanette pensou: Você não é Elaine Nutting, é Elaine Neurótica.
— Teve um homem que me fez mal, sim. Mas eu fiz mais mal a ele. —
Jeanette deu um passo na direção de Elaine. Ela estava a uns quatro metros e meio agora. — Eu matei ele.
— Que bom, mas não chegue mais perto. — Elaine balançou a pistola de um lado para outro, como se pudesse afastar Jeanette. Ou apagá-la.
Jeanette deu outro passo.
— Algumas pessoas dizem que ele mereceu, até algumas que já foram amigas dele. Tudo bem, elas podem acreditar nisso. Mas o promotor não acreditou. E o
mais importante, eu não acredito, apesar de ser verdade que eu não estava lúcida quando aconteceu. E é verdade que ninguém me ajudou quando eu precisava de ajuda. Então eu matei ele, e queria não ter matado. O peso está nas minhas costas, não nas dele. Eu tenho que viver com isso. E vivo.
Outro passo, um pequeno.
— Sou forte o bastante para carregar minha parcela de culpa, certo? Mas tenho um filho que precisa de mim. Ele precisa saber como crescer da forma certa, e isso é uma coisa que eu posso ensinar. Não quero mais ser pressionada por ninguém, homem ou mulher. Na próxima vez que Don Peters tentar me obrigar a bater uma punheta, eu não vou matar ele, mas… vou arrancar os olhos dele na unha, e se ele me bater, vou continuar dando unhadas. Não vou mais ser saco de pancadas. Então, pode pegar o que você acha que sabe sobre mim e enfiar onde o sol não brilha.
— Acho que você está fora de si — disse Elaine.
— Não tem mulheres aqui que querem voltar?
— Não sei. — Elaine deslocou o olhar. — Provavelmente. Mas elas estão perdidas.
— E você tem o direito de tomar essa decisão por elas?
— Se mais ninguém tem coragem — disse Elaine (sem percepção nenhuma de como estava falando como o marido) —, então sim. Nesse caso, depende de mim. — Do bolso da calça jeans ela tirou um acendedor de gatilho com cano comprido, do tipo que as pessoas usavam para botar fogo no carvão de uma churrasqueira. O tigre branco estava olhando e ronronando, um som ribombante e grave que parecia um motor parado. Não parecia para Jeanette que fosse haver qualquer ajuda vinda daquele lado.
— Imagino que você não tenha filhos, né? — perguntou Jeanette.
A mulher pareceu magoada.
— Eu tenho uma filha. Ela é a luz da minha vida.
— E ela está aqui?
— Claro que está. Está protegida aqui. E pretendo fazer com que continue assim.
— O que ela acha disso?
— O que ela acha não importa. Ela é só uma criança.
— Certo, e todas as mulheres que tiveram que deixar filhos homens para trás?
Elas não têm o direito de criar os filhos e proteger eles? Mesmo que gostem daqui, elas não têm essa responsabilidade?
— Sabe — disse Elaine com um sorrisinho —, essa declaração por si só basta para me dizer que você é boba. Garotos crescem e viram homens. E são os homens que fazem todas as besteiras. São eles que derramam sangue e envenenam a Terra. Nós estamos melhor aqui. Tem bebês meninos aqui, sim, mas eles vão ser diferentes. Nós vamos ensinar que eles sejam diferentes. — Ela respirou fundo. O sorrisinho se alargou, como se estivesse inflando-o com gás da loucura. — Este mundo vai ser gentil.
— Quero perguntar de novo: você pretende fechar a porta da vida de todas as outras mulheres que ficaram para trás sem nem perguntar a elas?
O sorriso de Elaine hesitou.
— Elas podem não entender, então eu… eu estou…
— O que você está fazendo, moça? Além de besteira? — Jeanette enfiou a mão no bolso.
A raposa reapareceu e se sentou ao lado do tigre. A cobra vermelha deslizou por um dos tênis de Jeanette, pesada, mas ela nem olhou para baixo. Aqueles animais não atacavam, ela entendia; eram provenientes do que um pastor, nos dias enevoados da infância otimista em que frequentava a igreja, chamava de Reino Pacífico.
Elaine acionou o acendedor. Uma chama tremeu na ponta.
— Eu estou tomando uma decisão executiva!
Jeanette tirou a mão do bolso e jogou um punhado de ervilhas na outra mulher. Elaine se encolheu, levantou a mão com a arma em um gesto instintivo de defesa e recuou. Jeanette percorreu a distância entre as duas e a segurou pela cintura. A arma caiu da mão de Elaine direto na terra, mas ela continuou segurando o acendedor. Elaine se esticou, a chama na ponta se curvando na direção do nó de raízes molhadas de querosene. Jeanette bateu com o pulso de Elaine no chão. O acendedor escorregou da mão dela e se apagou, mas tarde demais; chamas azuis dançaram sobre uma das raízes, se deslocando para o tronco.
A cobra vermelha deslizou árvore acima, querendo ir para longe do fogo. O
tigre se levantou preguiçosamente, foi até a raiz em chamas e colocou a pata em cima. Um filete de fumaça subiu em volta da pata, e Jeanette sentiu o cheiro de pelo queimado, mas o tigre permaneceu no lugar. Quando se afastou, as chamas azuis tinham sumido.
A mulher estava chorando quando Jeanette saiu de cima dela.
— Eu só quero que Nana fique em segurança… eu só quero que ela cresça protegida…
— Eu sei. — Jeanette não conhecia a filha daquela mulher e provavelmente nunca conheceria, mas reconhecia o som de dor verdadeira, dor espiritual. Já tinha sentido muito disso. Ela pegou o acendedor de churrasqueira. Examinou-o.
Era uma ferramenta muito pequena para fechar a porta entre dois mundos.
Talvez tivesse funcionado se não fosse o tigre. Ele devia ter feito aquilo, perguntou-se Jeanette, ou ultrapassou seu limite? E se tiver ultrapassado, será punido?
Tantas perguntas. Tão poucas respostas. Ela levantou o braço em círculo e viu o acendedor de churrasqueira voar girando. Elaine deu um grito de desespero quando o objeto desapareceu na grama, a quarenta ou cinquenta metros.
Jeanette se inclinou e pegou a pistola, com a intenção de prender no cinto, mas estava usando o uniforme de detenta e não tinha cinto. Cintos eram proibidos.
Havia detentas que às vezes se enforcavam com cintos quando tinham um. Havia um bolso na calça de amarrar, mas era raso e ainda com ervilhas até a metade; a arma cairia. O que fazer com ela? Jogar fora parecia o caminho mais sábio.
Antes que pudesse fazer isso, houve ruído de movimento nas folhas atrás dela.
Jeanette se virou com a pistola na mão.
— Ei! Largue isso! Largue a arma!
Havia outra mulher armada no limite da floresta, apontando a pistola para Jeanette. Diferentemente de Elaine, ela segurava a arma com as duas mãos e as pernas abertas, como se soubesse o que estava fazendo. Jeanette, familiarizada com ordens, começou a baixar a arma, pretendendo colocar na grama ao lado da árvore… mas a uma distância prudente de Elaine Neurótica, que podia tentar pegar. Ao se inclinar, a cobra passou pelo galho acima. Jeanette se encolheu e levantou a mão segurando a arma para proteger a cabeça de um objeto em queda visto de relance. Houve um estalo e um tilintar leve, o som de duas canecas de