Belas adormecidas

Stephen King, Owen King · Capítulo 3 de 6 · parte 5/12

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Belas adormecidas

Parte dois: Vou dormir quando morrer

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

— Você acha que Norcross está comendo ela? — perguntou Don naquele momento.

Frank olhou para ele com olhos pequenos.

— Isso é improvável e irrelevante.

Don entendeu a mensagem e não disse mais nada até Gus Vereen ir ver se alguém queria mais alguma coisa.

Quando Gus se afastou, o juiz Silver falou.

— O que você encara como as nossas opções, Frank? O que Terry acha disso?

— O tom de pele de Sua Excelência estava preocupantemente cinzento. O

discurso dele estava úmido, como se estivesse falando com um pedaço de tabaco na boca.

— Nossas opções são limitadas. Nós poderíamos esperar Norcross sair, mas quem sabe quanto tempo isso pode levar. A prisão deve ter um bom estoque de comida.

— Ele está certo — disse Don. — Não tem filé nem nada, mas tem comida não perecível suficiente para durar até o fim dos dias.

— Quanto mais esperarmos — continuou Frank —, mais o boato se espalha.

Muitos caras daqui podem começar a pensar em cuidar da questão eles mesmos.

— Ele esperou que alguém dissesse Não é isso que você está fazendo? , mas ninguém disse nada.

— E se não esperarmos? — perguntou o juiz.

— Norcross tem um filho, e é claro que vocês conhecem a esposa dele.

— É uma boa policial — disse o juiz. — É cuidadosa, detalhista. A moça segue as regras.

Eric, pego duas vezes pela xerife Norcross por excesso de velocidade, fez uma careta azeda.

— E nós queríamos que ela estivesse aqui — disse Geary. Don não acreditou nem por um segundo. Desde o começo, quando Geary enfiou a mão na axila de Don e o tratou como uma marionete, ele viu que o sujeito não era do tipo que aceitava a segunda posição. — Mas ela está desaparecida, e o filho dela também.

Se estivessem por aqui, eu diria para tentarmos ver se eles conseguiam convencer Norcross a largar o que quer ele esteja fazendo com a tal Black.

O juiz Silver estalou a língua e olhou para a xícara de café. Não tinha tocado nela. A gravata tinha limões amarelos desenhados, e o contraste com a pele acentuava a aparência doentia do homem. Uma mariposa voou em volta da cabeça dele. O juiz a espantou, e ela saiu voando até pousar em um dos globos pendurados no teto da lanchonete.

— Então… — disse o juiz Silver.

— Pois é — disse Don. — O que vamos fazer?

Frank Geary balançou a cabeça e tirou algumas migalhas da mesa, recolhendo tudo na palma da outra mão.

— Nós poderíamos montar um grupo responsável. Quinze, vinte homens de confiança. Equipamos todos. Deve haver coletes suficientes na delegacia. Só Deus sabe o que mais. Nós não tivemos tempo de fazer um inventário.

— Você acha mesmo… — Reed Barrows começou a falar, cheio de dúvida, mas Frank falou acima dele.

— Tem uns seis rifles de assalto, pelo menos. Devem ir para os caras que souberem usar. Todos os outros carregam Winchesters ou as armas pequenas, ou as duas coisas. Don aqui vai dar a planta da prisão, qualquer detalhe que puder ajudar. Depois, vamos fazer uma exibição de força e dar a Norcross mais uma chance de entregar a mulher. Acho que ele vai entregar.

O juiz perguntou o óbvio.

— E se ele não entregar?

— Acho que ele não conseguiria nos deter.

— Isso parece um tanto extremo, mesmo considerando as circunstâncias —

disse o juiz. — E Terry?

— Terry está… — Frank jogou as migalhas no chão da lanchonete.

— Ele está bêbado, juiz — disse Reed Barrows.

Isso impediu que Frank precisasse dizer. O que ele disse, com expressão chateada, foi: — Ele está fazendo o melhor que pode.

— Bêbado é bêbado — disse Reed.

Vern Rangle concordou com a declaração.

— Então… — O juiz tocou no ombro grande de Frank e apertou. — Acho que é você, Frank.

Gus Vereen se aproximou com a fatia de Don de torta de sorvete. A expressão do dono da lanchonete era de dúvida. A fatia estava coberta de gelo.

— Tem certeza, Don?

— Que se foda — disse Don. Se as moças que faziam torta no mundo sumissem e ele ainda quisesse coisas doces, teria que ser mais aventureiro na hora de comer.

— Hã, Frank? — disse Vern Rangle.

— O quê? — Soou mais como O que foi agora?

— Eu só estava pensando que talvez nós devêssemos colocar uma viatura vigiando a prisão. Para o caso, sabe, de o doutor decidir tirar ela de lá e esconder em algum lugar.

Frank o encarou e bateu na lateral da própria cabeça, uma porrada forte que fez todos pularem.

— Jesus. Você está certo. Eu devia ter feito isso logo.

— Eu vou — disse Don, esquecendo a torta de sorvete. Ele se levantou rápido, as coxas acertando a parte de baixo da mesa e fazendo as xícaras e pratos pularem. Seus olhos brilhavam. — Eu e Eric. Se alguém tentar entrar ou sair, nós impedimos.

Frank não gostava de Don, e Blass era só um garoto, mas talvez não houvesse problema. Era só uma precaução. Ele não achava que Norcross tentaria tirar a mulher de lá. Para ele, ela devia parecer mais protegida onde estava, atrás dos muros da prisão.

— Tudo bem — disse ele. — Mas se alguém sair, só pare a pessoa. Nada de armas na mão, estão ouvindo? Não vão bancar o Velho Oeste. Se a pessoa se recusar a parar, vão atrás. E me mandem mensagem pelo rádio na mesma hora.

— Não para Terry? — perguntou o juiz.

— Não. Para mim. Estacionem no pé da estrada de acesso à prisão, onde sai da West Lavin. Entenderam?

— Entendemos! — disse Don. Ele ia cuidar de tudo. — Vem, parceiro. Vamos nessa.

Quando eles saíram, o juiz murmurou: — O indescritível perseguindo o incomível.

— O quê, juiz? — perguntou Vern Rangle.

Silver balançou a cabeça. Parecia cansado.

— Deixa pra lá. Cavalheiros, tenho que dizer que, de modo geral, não estou gostando de como as coisas estão indo. Eu me pergunto…

— O quê, Oscar? — perguntou Frank. — O que você se pergunta?

Mas o juiz não respondeu.

5

— Como você soube? — Era Angel. — Sobre o bebê?

A pergunta tirou Evie do Olympia Diner, onde, pelos olhos da mariposa pousada no lustre, ela estava observando os homens fazendo seus planos. E só para aumentar a diversão, tinha outra coisa acontecendo bem mais perto. Clint tinha visitantes. Em pouco tempo, ela também teria.

Evie se sentou e inspirou o ar do Instituto Penal de Dooling. O fedor de produtos de limpeza era horrivelmente profundo; ela esperava morrer em pouco tempo e estava triste por isso, mas já tinha morrido antes. Nunca era bom, mas nunca era o fim… se bem que aquela vez podia ser diferente.

O lado bom, ela disse para si mesma, é que não vou ter mais que sentir o cheiro deste lugar, essa mistura de produtos de limpeza e desespero.

Ela achara que Troia fedia: as pilhas de corpos, os incêndios, as entranhas de peixes atenciosamente deixadas para os deuses ( obrigada pra caralho, pessoal, era exatamente o que a gente queria) e os aqueus idiotas andando pela praia, se recusando a se lavar, deixando o sangue cozinhar no sol e enferrujar as juntas das armaduras. Isso não era nada em comparação ao fedor inescapável do mundo moderno. Ela era jovem e se impressionava facilmente naquela época, nos dias que precederam a existência do Lysol e da água sanitária.

Enquanto isso, Angel tinha feito uma pergunta perfeitamente justa, e pareceu quase sã. No momento, pelo menos.

— Eu sei sobre seu bebê porque eu leio mentes. Não sempre. Na maior parte do tempo. Leio melhor a mente dos homens, eles são mais simples, mas sou boa com mulheres também.

— Então você sabe… que eu não queria.

— Sim, eu sei disso. E fui dura demais com você. Antes. Me desculpe. Tinha muita coisa acontecendo.

Angel ignorou o pedido de desculpas. Estava concentrada em recitar uma coisa que tinha decorado, um consolo que tinha criado para lhe dar luz quando a escuridão estava mais profunda e não havia ninguém acordado com quem falar para afastar a mente de si mesma e das coisas que tinha feito.

— Eu precisei fazer aquilo. Todos os homens que matei me machucaram, ou teriam machucado se eu tivesse dado oportunidade. Eu não queria matar aquela bebê, mas não podia deixar que aquela fosse a vida dela.

O suspiro que Evie produziu em resposta estava carregado de lágrimas reais.

Angel estava dizendo a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade de uma existência em uma época e lugar em que as coisas não tinham dado certo.

Claro que as chances de ter dado certo eram poucas para Angel, de qualquer forma; a mulher era má e maluca. Mesmo assim, ela estava certa: eles a tinham machucado, e provavelmente teriam machucado a criança com o tempo. Aqueles homens e todos os homens como eles. A terra os odiava, mas amava o fertilizante que vinha dos corpos assassinos.

— Por que você está chorando, Evie?

— Porque sinto tudo, e dói. Agora, silêncio. Se eu puder citar mais uma vez Henrique IV, o jogo está em andamento. Tenho coisas a fazer.

— Que coisas?

Como se em resposta, a porta na extremidade da Ala A se abriu com força e passos se aproximaram. Era o dr. Norcross, os guardas Murphy e Quigley e dois estranhos.

— Cadê os passes deles? — gritou Angel. — Esses dois não têm passes para estarem aqui!

— Silêncio, eu falei — disse Evie. — Senão vou ter que fazer você se calar.

Vamos ter uma conversa, Angel, não estrague.

Clint parou em frente à cela de Evie. A mulher parou ao lado dele. Havia bolsas arroxeadas embaixo de seus olhos, mas os olhos em si estavam brilhantes e cientes.

Evie disse:

— Oi, Michaela Coates, também conhecida como Michaela Morgan. Sou Eva Black. — Ela esticou a mão entre as grades. Tig e Rand se adiantaram por instinto, mas Clint esticou os braços para segurá-los.

Michaela apertou a mão oferecida sem hesitar.

— Você já me viu na televisão, suponho.

Evie deu um sorriso caloroso.

— Não sou muito de noticiário. É deprimente demais.

— Então, como você sabe…?

— Posso te chamar de Mickey, como seu amigo, o dr. Flickinger, chama?

Garth deu um pulo.

— Sinto muito por você não ter conseguido ver sua mãe — prosseguiu Evie.

— Ela era uma boa diretora.

— Porra nenhuma — murmurou Angel, e quando Evie pigarreou de forma ameaçadora: — Tudo bem, estou calando a boca, estou calando a boca.

— Como você sabe…? — começou Michaela.

— Que sua mãe era a diretora Coates? Que você assumiu o nome Morgan porque um babaca cretino que era professor de jornalismo disse que os espectadores de televisão costumam se lembrar de nomes com aliteração? Ah, Mickey, você não devia ter dormido com ele, mas acho que você já sabe disso agora. Pelo menos o aborto espontâneo te impediu de ter que fazer uma escolha terrível. — Evie estalou a língua e balançou a cabeça, fazendo o cabelo escuro esvoaçar.

Exceto pelos olhos vermelhos, Michaela estava completamente pálida.

Quando Garth passou o braço em volta de seus ombros, ela segurou a mão dele como uma mulher se afogando segura uma boia salva-vidas.

— Como você sabe disso? — sussurrou Michaela. — Quem é você?

— Eu sou uma mulher, ouça meu rugido — disse Evie, e mais uma vez, riu: foi um som alegre, como sinos sacudidos. Ela voltou a atenção para Garth. —

Quanto a você, dr. Flickinger, um conselho de amiga. Você precisa largar as drogas, e logo. Você já ouviu um aviso do seu cardiologista. Não vai ter outro. Se você continuar fumando aqueles cristais, seu ataque do coração fulminante vai acontecer em… — Ela fechou os olhos como uma médium de feira itinerante, para logo os abrir. — Em uns oito meses. Nove, talvez. Provavelmente quando estiver assistindo pornografia com a calça nos tornozelos e um frasco de Lubriderm à mão. Antes do seu quinquagésimo terceiro aniversário.

— Tem jeitos piores — disse Garth, mas a voz soou fraca.

— Claro, isso se você tiver sorte. Se você ficar com Michaela e Clint aqui e tentar defender a pobre e indefesa eu e o resto das mulheres, é bem provável que morra bem antes.

— Você tem o rosto mais simétrico que já vi. — Garth fez uma pausa e pigarreou. — Pode parar de dizer coisas assustadoras agora?

Aparentemente, Evie não podia.

— É uma pena sua filha ter hidrocefalia e precisar viver em uma instituição, mas isso não é desculpa para o mal que você está fazendo a um corpo e uma mente ótimos.

Os guardas estavam olhando para ela boquiabertos. Clint esperava que acontecesse alguma coisa que provasse que Evie não era daquele mundo, mas isso ia além de suas expectativas mais loucas. Como se tivesse dito isso em voz alta, Evie olhou para ele… e piscou.

— Como você sabe sobre Cathy? — perguntou Garth. — Como pode saber?

Olhando para Michaela, Evie disse: — Eu tenho agentes entre as criaturas do mundo. Elas me contam tudo. Me ajudam. É como com a Cinderela, mas diferente. Primeiro de tudo, eu gosto mais deles como ratos do que como cocheiros.

— Evie… sra. Black… você é responsável pelas mulheres adormecidas? E, se for, você pode acordar elas?

— Clint, tem certeza de que isso é uma ideia inteligente? — perguntou Rand.

— Deixar essa moça fazer uma entrevista na cadeia? Acho que a diretora Coates não…

Jeanette Sorley escolheu esse momento para cambalear pelo corredor, segurando a blusa marrom de forma a fazer uma bolsinha improvisada.

— Alguém quer ervilha? — disse ela. — Alguém quer ervilha fresca?

Enquanto isso, Evie parecia ter perdido o fio da meada. As mãos estavam segurando as grades da prisão com força suficiente para deixar os nós dos dedos brancos.

— Evie? — perguntou Clint. — Está tudo bem?

— Está. E embora eu aprecie sua necessidade de agir rápido, Clint, estou fazendo várias coisas ao mesmo tempo esta tarde. Você precisa esperar enquanto eu cuido de uma coisa. — Mais para si mesma do que para as seis pessoas de pé em frente à cela: — Lamento ter que fazer isso, mas ele não teria muito tempo, de qualquer jeito. — Uma pausa. — E ele sente falta da gata.

6

O juiz Silver tinha percorrido a maior parte do caminho até o estacionamento do Olympia quando Frank o alcançou. Gotas de chuva brilhavam nos ombros murchos do sobretudo do homem.

Silver se virou quando ele se aproximou (ao que parecia, não havia nada de errado com a audição dele) e abriu um sorriso doce.

— Quero agradecer novamente por Cocoa — disse ele.

— Tudo bem — disse Frank. — Eu só estava fazendo meu trabalho.

— É verdade, mas você agiu com compaixão verdadeira. Tornou tudo mais fácil para mim.

— Fico feliz. Juiz, tive a impressão de que você teve uma ideia lá dentro. Quer me contar?

O juiz Silver pensou.

— Posso ser franco?

O outro homem sorriu.

— Como meu nome é Frank, eu não esperaria menos.

Silver não retribuiu o sorriso.

— Tudo bem. Você é um bom homem, e fico feliz de ter assumido o comando, já que o policial Coombs está… vamos dizer hors de combat… e está claro que nenhum dos outros policiais quer a responsabilidade, mas você não tem experiência na aplicação da lei, e essa é uma situação delicada.

Extremamente delicada. Você concorda?

— Concordo — disse Frank. — Com todos os pontos.

— Estou com medo de uma situação intensa. De um grupo que perca o controle e vire uma turba. Já vi acontecer durante uma das greves mais feias de mineradores de carvão nos anos 1970, e não foi bonito. Prédios foram queimados, houve uma explosão com dinamite, homens morreram.

— Você tem uma alternativa?

— Talvez. Eu… Sai daqui, porcaria! — O juiz balançou uma mão cheia de artrite para a mariposa batendo asas em volta de sua cabeça. Ela se afastou, pousou na antena de um carro e ficou mexendo as asas no chuvisco leve. —

Essas coisas estão em toda parte agora.

— Aham. O que você estava dizendo?

— Tem um homem chamado Harry Rhinegold em Coughlin. Era do FBI e se

aposentou e foi morar lá dois anos atrás. É um bom homem, tem um bom histórico, várias recomendações do Bureau. Eu já vi na parede do escritório dele.

Estou pensando em falar com ele e ver se ele ajuda.

— Como o quê? Policial?

— Como conselheiro — disse o juiz, e inspirou de forma ruidosa. — E, possivelmente, como negociador.

— Um negociador de reféns, você quer dizer.

— É.

O primeiro impulso de Frank, infantil e forte, foi de dizer para o juiz que de jeito nenhum, ele que estava no comando. Só que, tecnicamente, não estava.

Terry Coombs estava, e era sempre possível que Terry aparecesse, de ressaca, mas sóbrio, e quisesse assumir as rédeas. Além disso, ele, Frank, podia impedir o juiz de alguma outra forma que não fosse aprisionamento físico? Não podia.

Embora Silver fosse cavalheiro demais para dizer (a não ser que realmente precisasse, claro), ele era um funcionário do tribunal e, como tal, era superior a um policial voluntário cujas especialidades eram pegar cachorros de rua e fazer propagandas para adoção de animais no canal público. Havia mais uma consideração, e era a mais importante de todas: negociação de reféns não era má ideia. O Instituto Penal de Dooling era como um castelo fortificado. Importava quem ia tirar a mulher de lá, desde que isso acontecesse? Desde que ela pudesse ser interrogada? Coagida, se necessário, se eles concluíssem que ela era capaz de acabar com a Aurora?

Durante esse tempo, o juiz ficou olhando para ele, com as sobrancelhas peludas erguidas.

— Vá em frente — disse Frank. — Vou contar para Terry. Se esse Rhinegold concordar, podemos fazer uma reunião aqui ou na delegacia esta noite.

— Então você não… — O juiz pigarreou. — Não vai agir imediatamente?

— Nesta tarde e noite, só vou deixar a viatura parada perto da prisão. —

Frank fez uma pausa. — Fora isso, não posso prometer nada, e até isso depende de Norcross não tentar alguma coisa.

— Eu não acho…

— Mas eu acho. — Frank bateu com seriedade com o dedo na têmpora, como se para indicar um processo de pensamento acontecendo. — Na posição que

estou agora, eu tenho que achar. Ele se acha inteligente, e homens assim podem ser um problema. Para os outros e para ele mesmo. Encarando dessa forma, sua ida a Coughlin é uma missão de misericórdia. Por isso, dirija com cuidado, juiz.

— Na minha idade, eu sempre dirijo com cuidado — respondeu o juiz Silver.

A entrada dele na Land Rover foi lenta e dolorosa de ver. Frank estava quase indo ajudar quando Silver finalmente se sentou atrás do volante e bateu a porta.

O motor ganhou vida, Silver acelerando sem pensar, e as luzes se acenderam, formando cones iluminados no chuvisco.

Antigo funcionário do FBI, e em Coughlin, pensou Frank, maravilhado. As maravilhas não acabavam nunca. Talvez ele pudesse ligar para o Bureau e conseguir uma ordem federal mandando Norcross soltar a mulher. Era improvável, com o governo em agitação, mas não fora de questão. Se Norcross os desafiasse, ninguém poderia culpá-los se forçassem a barra.

Ele voltou para dentro da lanchonete para dar ordens aos policiais que restavam. Já tinha decidido enviar Barrows e Rangle para substituir Peters e o garoto Blass. Ele e Pete Ordway podiam começar a fazer uma lista de homens, só os responsáveis, que pudessem formar um grupo, se fosse necessário. Não havia necessidade de voltar para a delegacia, onde Terry podia aparecer; eles podiam fazer tudo ali na lanchonete.

7

O juiz Oscar Silver raramente dirigia, e, quando dirigia, não passava de sessenta e cinco quilômetros por hora, independentemente de quantos carros estivessem atrás. Se começassem a buzinar e a grudar na sua traseira, ele encontrava um lugar para encostar e os deixar passar, depois voltava ao ritmo lento. Estava ciente de que tanto seus reflexos quanto sua visão tinham piorado. Além disso, ele tinha sofrido três ataques cardíacos e sabia que a operação de ponte de safena feita na válvula falha, no St. Theresa, dois anos antes, só seguraria o infarto final por um tempo. Estava tranquilo quanto a isso, mas não tinha desejo nenhum de morrer atrás do volante, onde uma guinada final poderia levar uma ou mais pessoas inocentes junto. Indo a sessenta e cinco (menos, dentro dos limites da cidade), ele achava que teria uma boa chance de frear e passar o câmbio para a

posição de estacionar antes que as luzes se apagassem de vez.

Porém, aquele dia foi diferente. Quando passou de Ball’s Ferry e da Old Coughlin Road, ele aumentou a velocidade até o ponteiro chegar ao cem, um território que ele não explorava havia cinco anos ou mais. Já tinha falado com Rhinegold pelo celular, e o antigo agente do FBI estava disposto a conversar (embora o juiz, uma alma experiente e ardilosa, preferisse não discutir o assunto pelo telefone; devia ser uma precaução desnecessária, mas discrição sempre tinha sido seu método), e isso era uma coisa boa. A coisa ruim: Silver percebeu de repente que não confiava em Frank Geary, que falava com tanta facilidade sobre reunir um bando de homens e invadir a prisão. Ele pareceu razoável no Olympia, mas a situação era totalmente irracional. O juiz não gostou de como Frank havia feito um ato daqueles parecer prático quando devia ser um último recurso.

Os limpadores de para-brisa estalavam de um lado para outro, limpando a chuva fina. Ele ligou o rádio e sintonizou na estação de notícias de Wheeling.

— A maioria dos serviços da cidade está suspensa até nova ordem — disse o locutor —, e quero repetir que o toque de recolher das nove horas vai ser aplicado com severidade.

— Boa sorte com isso — murmurou o juiz.

— Agora, relembrando nossa história. As ditas Brigadas do Maçarico, incitadas por relatórios falsos na internet de que o ar expirado através da substância, ou casulo, em torno das mulheres adormecidas está espalhando a peste Aurora, foram identificadas em Charleston, Atlanta, Savannah, Dallas, Houston, Nova Orleans e Tampa. — O locutor fez uma pausa e, quando voltou a falar, o sotaque ficou mais pronunciado. — Vizinhos, tenho orgulho de dizer que nenhum grupo ignorante desses opera aqui em Wheeling. Nós todos temos mulheres nas nossas vidas que amamos loucamente, e matar elas enquanto dormem, por menos natural que esse sono seja, seria uma coisa horrível de se fazer.

Ele pronunciou horrível como hurrível.

A Land Rover do juiz Silver estava chegando perto da fronteira da cidade vizinha de Dooling, Maylock. A casa de Rhinegold em Coughlin ficava do outro lado, um trajeto de vinte minutos, mais ou menos.

— A Guarda Nacional foi chamada em todas as cidades onde essas Brigadas estão agindo, com ordens de atirar para matar se esses tolos supersticiosos não pararem. Digo amém para isso. O CDC repetiu que não tem verdade nenhuma em…

O para-brisa estava ficando embaçado. O juiz Silver se inclinou para a direita, sem nunca tirar os olhos da estrada, e ligou o desembaçador. O ventilador soou.

Com o vento, uma nuvem de mariposas marrons pequenas saíram dos dutos de ventilação, enchendo o carro e envolvendo a cabeça do juiz. Elas pousaram no cabelo dele e roçaram nas bochechas. Pior do que tudo, voaram na frente de seus olhos, e uma coisa que uma de suas tias velhas tinha dito muito tempo antes, quando ele era só um garoto impressionável, voltou à mente dele com o brilho de um fato comprovado, como para cima é para cima e para baixo é para baixo.

“Nunca esfregue os olhos depois de tocar em uma mariposa, Oscar”, dissera ela. “O pó das asas dela vai entrar nos seus olhos e você vai ficar cego.”

— Saiam daqui! — gritou o juiz Silver. Ele tirou as mãos do volante e bateu na cara. Mariposas continuaram saindo da ventilação, centenas delas, talvez milhares. A cabine da Land Rover virou uma névoa marrom em movimento. —

Saiam daqui, saiam daqui, saiam…

Um peso enorme caiu no lado esquerdo do peito dele. A dor desceu pelo braço esquerdo como eletricidade. Ele abriu a boca para gritar, e mariposas voaram para dentro, andando na língua e provocando coceira no interior da boca. Com a última inspiração, ele as puxou pela garganta, onde entupiram a traqueia. A Land Rover desviou para a esquerda; um caminhão que se aproximava desviou para a direita a tempo de não colidir, indo parar na vala, inclinado, mas sem virar. Não havia vala a evitar do outro lado da estrada, só o guarda-corpo que separava a ponte Dorr’s Hollow do ar livre e do riacho abaixo. O veículo de Silver quebrou a amurada e caiu. A Land Rover despencou na água abaixo. O juiz Silver, já morto, foi lançado pelo para-brisa no riacho Dorr’s Hollow, um afluente do Ball Creek. Um dos mocassins caiu e seguiu flutuando com a correnteza, se encheu de água e afundou.

As mariposas saíram do veículo virado, agora borbulhando na água, e voltaram voando em bando para Dooling.

8

— Eu odiei fazer isso — disse Eva, falando não com os visitantes, na percepção de Clint, mas consigo mesma. Ela limpou uma única lágrima do canto do olho esquerdo. — Quanto mais tempo eu passo aqui, mais humana eu fico. Eu tinha me esquecido disso.

— De que você está falando, Evie? — perguntou Clint. — O que você odiou fazer?

— O juiz Silver estava tentando trazer ajuda externa — disse ela. — Talvez não fizesse diferença, mas eu não podia correr o risco.

— Você matou ele? — perguntou Angel, parecendo interessada. — Usou seus poderes especiais?

— Eu tive que fazer isso. De agora em diante, o que acontece em Dooling fica em Dooling.

— Mas… — Michaela passou a mão pelo rosto. — O que está acontecendo em Dooling está acontecendo em toda parte. Vai acontecer comigo.

— Não por um tempo — disse Evie. — E você também não vai precisar de mais estimulantes. — Ela esticou um punho frouxo pelas grades da prisão, esticou um dedo e chamou. — Vem aqui.

— Eu não faria isso — disse Rand, e Garth falou ao mesmo tempo: — Não seja burra, Mickey. — Ele segurou o antebraço dela.

— O que você acha, Clint? — perguntou Evie, sorrindo.

Sabendo que estava cedendo, não só nisso, mas em tudo, Clint disse: —

Deixem ela ir.

Garth soltou o braço de Michaela. Como se hipnotizada, ela deu dois passos para a frente. Evie colocou o rosto entre as grades, os olhos nos de Michaela. Ela abriu os lábios.

— Coisa de lésbica! — gritou Angel. — Liguem as câmeras, a chupação já vai começar!

Michaela não deu atenção. Encostou a boca na de Evie. Elas se beijaram com as grades duras da cela acolchoada entre elas, e Clint ouviu um farfalhar quando Eva Black expirou dentro da boca e dos pulmões de Michaela. Ao mesmo tempo, sentiu os pelos dos braços e pescoço se eriçarem. Sua visão ficou borrada de

lágrimas. Em algum lugar, Jeanette estava gritando e Angel estava gargalhando.

Finalmente, Evie rompeu o beijo e deu um passo para trás.

— Que boca doce — disse ela. — Que garota doce. Como está se sentindo agora?

— Estou desperta — disse Michaela. Os olhos estavam arregalados, e os lábios recém-beijados estavam tremendo. — Estou mesmo desperta!

Não havia dúvida de que estava. As bolsas roxas embaixo dos olhos tinham sumido, mas isso era o de menos; a pele tinha se esticado sobre os ossos, e as bochechas antes pálidas estavam com um brilho rosado. Ela se virou para Garth, que estava olhando para ela com o queixo caído, impressionado.

— Eu estou mesmo desperta!

— Puta merda — disse Garth. — Acho que está mesmo.

Clint moveu a mão aberta na direção do rosto de Michaela. Ela afastou a cabeça.

— Seus reflexos voltaram — disse ele. — Você não teria conseguido fazer isso cinco minutos atrás.

— Quanto tempo consigo ficar assim? — Michaela segurou os próprios ombros, se abraçando. — É maravilhoso!

— Alguns dias — repetiu Evie. — Depois disso, o cansaço vai voltar, e com juros. Você vai adormecer por mais que lute, e um casulo vai crescer, como com o resto. A não ser que…

— A não ser que você tenha o que quer — disse Clint.

— O que eu quero é imaterial agora — respondeu Evie. — Achei que você tinha entendido isso. É o que os homens desta cidade vão fazer comigo que importa. E o que as mulheres do outro lado da Árvore decidirem.

— O que… — começou Garth, mas Jeanette bateu nele como um jogador de futebol americano querendo derrubar outro, empurrando-o nas grades. Ela o empurrou para o lado com o ombro, olhando para Evie.

— Faz comigo! Evie, faz comigo! Eu não quero ter mais que lutar, não quero mais ver o homem, faz comigo!

Evie segurou as mãos dela e a olhou com tristeza.

— Não posso, Jeanette. Você devia parar de lutar e ir dormir como as outras.

Elas precisam de uma pessoa corajosa e forte como você do lado de lá. Elas

chamam de Nosso Lugar. Pode ser seu lugar também.

— Por favor — sussurrou Jeanette, mas Evie soltou as mãos dela. Jeanette cambaleou para longe, esmagando as ervilhas que tinham caído e chorando sem fazer barulho.

— Não sei — disse Angel, pensativa. — Talvez eu não mate você, Evie. Estou pensando que talvez… Não sei. Você é espiritual. Além do mais, é ainda mais maluca do que eu. O que é uma coisa e tanto. Evie falou com Clint e os outros de novo: — Homens armados virão. Eles me querem porque acham que eu posso ter provocado a Aurora, e, se eu provoquei, posso botar fim nela. Isso não é exatamente verdade, é mais complicado do que isso. Só porque eu acionei uma coisa sozinha, não quer dizer que eu possa desativar. Mas vocês acham que homens zangados e assustados acreditariam nisso?

— Nem em um milhão de anos — disse Garth Flickinger. Atrás dele, Billy Wettermore grunhiu, concordando.

Evie disse:

— Eles vão matar qualquer um que atrapalhe, e quando eu não conseguir despertar as belas adormecidas com um movimento da minha varinha mágica de Fada Madrinha, eles vão me matar. Depois, vão botar fogo na prisão e em todas as mulheres dentro, só de raiva.

Jeanette tinha voltado para a área de remoção de piolhos para retomar a conversa com o homem, mas Angel estava prestando atenção. Clint quase conseguia ouvir o humor dela melhorar, como um gerador ganhando vida e entrando em ação.

— Eles não vão me matar. Não sem eu resistir.

Pela primeira vez, Evie pareceu irritada. Clint achava que o que ela tinha feito para despertar Mickey Coates podia ter acabado com sua energia.

— Angel, eles vão atropelar você como uma onda derrubando um castelo de areia de criança.

— Pode ser, mas vou levar alguns comigo. — Angel fez alguns movimentos enferrujados de kung-fu que fizeram Clint ter um sentimento que ele nunca tinha associado a Angel Fitzroy: pena.

— Você nos trouxe aqui? — perguntou Michaela. Seus olhos estavam

brilhando, fascinados. — Você nos atraiu pra cá? Garth e eu?

— Não — disse Evie. — Você não entende como sou impotente, pouco mais do que um dos coelhos do homem das drogas pendurados em um fio, esperando para ser esfolado ou libertado. — Ela voltou o olhar atento para Clint. — Você tem um plano? Eu acho que tem.

— Nada grandioso — disse Clint —, mas eu talvez consiga ganhar um tempo.

Nós temos uma posição fortificada aqui, mas seria útil ter mais alguns homens…

— O que seria útil — interrompeu Tig — é um pelotão de fuzileiros.

Clint balançou a cabeça.

— A não ser que Terry Coombs e aquele Geary consigam ajuda externa, eu acho que podemos segurar a prisão com doze homens, talvez dez. Agora, somos só quatro. Cinco se conseguirmos trazer Scott Hughes para o nosso lado, mas não tenho muita esperança disso.

Clint continuou, falando mais com Mickey e com o médico que ela levou junto. Ele não gostava da ideia de enviar Flickinger em uma missão de vida ou morte (nada sobre a aparência e o cheiro dele contrariava o pronunciamento de Evie de que ele era um drogado), mas Flickinger e a filha de Janice Coates eram tudo o que ele tinha.

— O verdadeiro problema são as armas, e a grande pergunta é quem vai botar a mão nelas primeiro. Sei pela minha esposa que tem um arsenal e tanto na delegacia. Desde o Onze de Setembro e todas as ameaças de terrorismo doméstico que vieram depois, a maioria das cidades do tamanho de Dooling tem.

As armas menores são Glock 17, e acho que Lila disse Sig alguma coisa…

— Sig-Sauer — disse Billy Wettermore. — É uma boa arma.

— Eles têm semiautomáticas M4, com aqueles pentes grandes — prosseguiu Clint — e algumas Remington Model 700. Além disso, acho que Lila disse que eles têm um lançador de granadas de quarenta milímetros.

— Armas. — Evie falou sem se dirigir a ninguém em particular. — A solução perfeita para qualquer problema. Quanto mais armas você tiver, mais bem resolvido estará o problema.

— Você está de sacanagem? — gritou Michaela. — Um lançador de granada?

— É, mas não para explosivos. Eles usam com gás lacrimogênio.

— Não se esqueça dos coletes à prova de balas. — Rand parecia desanimado.

— Se não for muito de perto, esses coletes seguram uma bala de Mossberg. E os Mossies são o armamento mais pesado que temos.

— Parece uma situação de aposta contra a banca — comentou Tig.

Billy Wettermore disse: — Eu não quero matar ninguém se não precisar. Eles são nossos amigos, pelo amor de Deus.

— Bom, boa sorte — disse Evie. Ela foi até a cama e ligou o celular do diretor-assistente Hicks. — Vou jogar um pouco de Boom Town e tirar um cochilo. — Ela sorriu para Michaela. — Não vou responder mais nenhuma pergunta da imprensa. Você beija muito bem, Mickey Coates, mas me deixou exausta.

— Cuidado para ela não decidir mandar os ratos dela pra cima de vocês —

disse Angel para o grupo todo. — Eles fazem o que ela manda. Foi assim que ela conseguiu o celular do Hicks.

— Ratos — disse Garth. — Isso tudo só melhora.

— Preciso que vocês venham comigo — pediu Clint. — Nós precisamos conversar, mas tem que ser rápido. Vão cercar este lugar logo.

Billy Wettermore apontou para Jeanette, agora sentada de pernas cruzadas na cabine do chuveiro da estação de remoção de piolhos, conversando com sinceridade com uma pessoa que só ela conseguia ver.

— E Sorley?

— Ela vai ficar bem — disse Clint. — Venham. Durma, Jeanette. Se permita descansar.

Sem olhar para ele, Jeanette disse uma única palavra: — Não.

9

Para Clint, a sala da diretora tinha uma aparência arqueológica, como se tivesse ficado abandonada durante anos em vez de menos de uma semana. Janice Coates estava deitada no sofá, envolta na mortalha branca. Michaela foi até ela e se ajoelhou, como se estivesse rezando. Ela acariciou o casulo com uma das mãos, e o material fez sons estalados que fizeram Clint pensar no material de embalagem em que objetos frágeis eram enrolados para serem enviados pelos correios. Garth começou a se aproximar, mas Clint segurou o braço dele.

— Dê um minuto a ela, dr. Flickinger.

Uns três se passaram até Michaela se levantar.

— O que podemos fazer? — perguntou ela.

— Você sabe ser persistente e persuasiva? — perguntou Clint.

Ela o fitou com olhos que não estavam mais vermelhos.

— Eu fui para o NewsAmerica como estagiária sem salário aos vinte e três anos. Aos vinte e seis, era correspondente em tempo integral, e estavam falando em me dar meu próprio programa noturno. — Ela viu Billy lançar um olhar para Tig e Rand e sorriu para eles. — Vocês sabem o que dizem aqui, não sabem? Não é contar vantagem se for verdade. — Ela voltou a atenção para Clint. — Essas são minhas referências. São boas o suficiente?

— Espero que sim — disse Clint. — Escutem.

Ele falou por cinco minutos. Houve perguntas, mas não muitas. A situação deles era ruim e todos sabiam.

6

1

Alexander Peter Bayer, o primeiro bebê a nascer do outro lado da Árvore, respirou pela primeira vez uma semana depois que Lila e Tiffany voltaram dos destroços embaixo da Lion’s Head. Mais alguns dias se passaram até que Lila o conhecesse em uma pequena reunião na casa consertada de Elaine Nutting Geary. Ele não era um bebê tradicionalmente bonito; as várias papadas geravam associação não com um bebê de propaganda, mas com um anotador de apostas que Lila tinha prendido uma vez e era conhecido como “Larry Gordo”. No entanto, o bebê Alexander tinha um jeito irresistivelmente cômico de revirar os olhos, como se estivesse tentando ansiosamente entender onde estava em meio ao amontoado de rostos femininos que pairavam acima dele.

O estado delas nos Apalaches, em um gesto progressista raro, tinha proibido que detentas em trabalho de parto fossem algemadas, mas, durante a festinha, Linda Bayer, proveniente do Instituto Penal de Dooling, comentou sobre uma conhecida de outro estado que tinha sido obrigada a dar à luz acorrentada.

— Tenho que dizer que eu não ia querer fazer isso.

Houve vários suspiros, gestos com a cabeça e algumas pessoas inspirando fundo ao ouvirem aquele comentário. Ninguém no aposento, nem a antiga xerife e nem mesmo a antiga presidente da Associação de Mulheres Republicanas da área, aprovava que prisioneiras grávidas fossem algemadas. Independentemente do que elas estavam construindo naquele novo mundo, Lila tinha dificuldade de conceber aquela instituição específica sendo restabelecida nele.

Um prato de bolinhos um pouco duros (mas ainda bem gostosos) foi passado

de mão em mão. Entre surtos da vertigem estranha que a afligia, Nadine Coombs os tinha preparado em um forno a céu aberto. O forno tinha sido tirado das ruínas do Lowe’s, em Maylock, usando trenós e os cavalos de Tiffany. Lila ficava perplexa às vezes com a velocidade do progresso que elas faziam, com a velocidade e eficiência com que problemas eram resolvidos e avanços eram feitos.

Em determinado momento, o bebê foi parar na mão de Lila.

— Você é o último homem na face da Terra ou o primeiro? — perguntou ela.

Alexander Peter Bayer bocejou.

— Desculpa, Lila. Ele não fala com a polícia. — Tiffany tinha parado ao lado dela no canto da sala.

— É mesmo?

— Por aqui, a gente ensina desde pequenos — disse Tiffany.

Desde a aventura juntas, elas tinham virado amigas improváveis. Lila gostava de como Tiffany andava pela cidade com os cavalos, usando o chapéu branco de caubói, insistindo para que as crianças se aproximassem e fizessem carinho nos animais e vissem como eram macios e quentes.

2

Um dia, sem nada melhor para fazer, Lila e Tiffany revistaram a ACM de Dooling, sem saber exatamente o que estavam procurando, só sabendo que era um dos poucos lugares que não tinham sido investigados. Elas encontraram muita coisa, algumas interessantes, mas nada de que realmente precisassem. Havia papel higiênico, mas o suprimento disso no Shopwell era farto. Também havia caixas de sabonete líquido, mas, ao longo dos anos, tinham endurecido e virado uns tijolos cor de rosa. A piscina tinha secado; não restava nada lá além de um leve odor adstringente de cloro.

O vestiário masculino estava úmido e frio; as paredes cobertas por áreas amplas de mofo de vários tipos; verde, preto, amarelo. Um cadáver mumificado de gambá estava caído no canto, as pernas rígidas no ar, o rosto congelado em um olhar selvagem de morte, os lábios esticados por cima de fileiras de dentes afiados. Lila e Tiffany ficaram por um momento em contemplação silenciosa do

primeiro mictório em uma fileira de seis.

— Perfeitamente preservado — disse Lila.

Tiffany olhou para ela sem entender.

— Aquilo? — Apontando para o gambá.

— Não. Isto. — Lila bateu no mictório, a aliança de casamento estalando na porcelana. — Vamos querer para o nosso museu. Podemos chamar de Museu dos Homens Perdidos.

— Ha! — disse Tiffany. — Quer saber? Esse lugar é assustador pra caralho. E, pode acreditar, isso é uma coisa e tanto, porque eu já andei por muitos buracos.

Eu poderia escrever um guia sobre os buracos de metanfetamina suados, sujos e fodidos dos Apalaches, mas isto aqui é desagradável de verdade. Eu sabia que vestiários masculinos eram lugares sinistros, mas isso é pior do que eu poderia ter imaginado.

— Devia ser melhor antes de ficar velho — disse Lila… mas em dúvida.

Elas usaram martelos e cinzéis para quebrar os cadeados dos armários. Lila encontrou relógios parados, carteiras cheias de papel verde inútil e retângulos de plástico inúteis, smartphones mortos e, portanto, emburrecidos, chaveiros, calças comidas por traças, e uma bola de basquete murcha. As descobertas de Tiffany não foram muito melhores: uma caixa quase cheia de Tic Tac e uma fotografia apagada de um homem careca com peito peludo em uma praia com a filhinha rindo nos ombros dele.

— Flórida, aposto — disse Tiffany. — É pra lá que eles vão quando têm dinheiro.

— Provavelmente. — A foto fez Lila pensar no filho, o que ela achava cada vez mais contraproducente, mas não podia evitar. Mary contou tudo sobre Clint, enrolando para manter os guardas na prisão, e sobre Jared, que escondeu os corpos delas ( nossos outros corpos, pensou ela) no sótão da casa de exibição na rua. Ela ficaria sabendo mais alguma coisa sobre os dois? Apareceram mais duas mulheres depois de Mary, mas nenhuma delas sabia nada sobre os dois homens da vida dela. E por que saberiam? Jared e Clint estavam em uma nave espacial, e a nave estava ficando cada vez mais distante, tantos anos-luz, e eles acabariam sumindo totalmente da galáxia e esse seria o fim. Finito. Quando ela deveria começar a ficar de luto por eles? Já tinha começado?

— Ah — disse Tiffany. — Não faça isso.

— O quê?

Porém, Tiffany conseguiu ler seu rosto, viu através da desesperança e da confusão.

— Não se deixe afetar. — Ela guardou a foto no armário e fechou a porta.

No ginásio do andar de cima, ela desafiou Lila em um jogo de H-O-R-S-E. O

prêmio era a caixa quase cheia de Tic Tac. Elas bateram a bola de basquete no chão. Foi uma guerra difícil: as duas eram ruins e a bola estava meio murcha. A filha de Clint, que no fim das contas não era filha dele, teria vencido as duas com facilidade. Tiffany fazia arremessos em um estilo vovozinha, com a mão por baixo, o que Lila achava irritantemente feminino, mas também fofo. Quando tirava o casaco, dava para ver a barriguinha de grávida, uma bolota na cintura de Tiffany.

— Por que Dooling? Por que nós? Essas são as perguntas, você não acha? —

Lila correu atrás da bola. Tiffany tinha jogado na arquibancada poeirenta à direita da quadra. — Eu tenho uma teoria.

— Tem? Pode falar.

Lila jogou a bola das arquibancadas. Passou longe da rede à distância de um carro e quicou na segunda fileira da arquibancada em frente.

— Isso foi patético — disse Tiffany.

— Olha quem fala.

— É verdade.

— Temos duas médicas e algumas enfermeiras. Temos uma veterinária.

Temos algumas professoras. Kayleigh sabia mexer em eletricidade, e apesar de ela não estar mais aqui, Magda não é ruim. Temos uma carpinteira. Temos duas musicistas. Temos uma socióloga que já está escrevendo um livro sobre a nova sociedade.

— É, e quando acabar, Molly pode imprimir com a tinta de sumo de frutas silvestres — disse Tiffany, rindo.

— Temos aquela professora de engenharia aposentada da universidade.

Temos costureiras e jardineiras e cozinheiras aos montes. As moças do clube do livro estão organizando um grupo para que as mulheres possam conversar sobre as coisas de que sentem falta e afastar um pouco da tristeza e da dor. Nós temos

até uma encantadora de cavalos. Está vendo?

Tiffany pegou a bola.

— Vendo o quê?

— Nós somos tudo de que precisamos — disse Lila. Ela tinha descido da arquibancada e estava parada com os braços cruzados na lateral da quadra. — Foi por isso que fomos escolhidas. Todas as habilidades básicas de que precisamos estão aqui.

— Certo. Talvez. Pode ser. Acho que você pode estar certa. — Tiffany tirou o chapéu de caubói e se abanou com ele. Estava achando graça. — Você é tão policial. Solucionando os mistérios.

Porém, Lila não tinha acabado.

— E como fazemos as coisas evoluírem? Nós já temos nosso primeiro bebê. E

quantas mulheres grávidas temos aqui? Doze? Oito?

— Umas dez, talvez. É o suficiente para recomeçar um novo mundo, na sua opinião, se metade delas for menina?

— Não sei. — Lila estava especulando agora, o rosto ficando quente conforme as ideias apareciam. — Mas é um começo, e aposto que tem instituições de congelamento com geradores programados para continuar funcionando. Seria preciso ir até uma cidade grande para procurar uma, eu acho, mas aposto que seria possível. E haveria esperma congelado lá. E seria suficiente para botar um mundo, um novo mundo, em crescimento.

Tiffany colocou o chapéu na cabeça, inclinado para trás, e quicou a bola de basquete no chão algumas vezes.

— Novo mundo, é?

— Ela pode ter planejado assim. A mulher. Eva. Para podermos recomeçar sem homens, ao menos no começo — disse Lila.

— O Jardim do Éden sem o Adão, é? Certo, xerife, quero fazer uma pergunta.

— Claro.

— É um bom plano? O que aquela mulher elaborou para nós?

É uma pergunta justa, pensou Lila. As habitantes de Nosso Lugar discutiam sobre Eva Black sem parar; os boatos que tinham se iniciado no velho mundo foram levados para o novo; era rara a Reunião em que o nome dela (isso se era mesmo o nome dela) não surgia. Ela era uma extensão e uma possível resposta às

perguntas originais, o grande Como e Por que da situação delas. Discutiram a probabilidade de ela ser mais do que uma mulher, mais do que humana, e havia uma crença cada vez maior de que ela era a fonte de tudo o que tinha acontecido.

Por um lado, Lila lamentava as vidas que tinham sido perdidas (Millie, Nell, Kayleigh, Jessica Elway antes delas, e quantas outras), assim como as histórias e existências daqueles de quem as que ainda estavam vivas haviam sido separadas.

Os homens e garotos delas estavam longe. Porém, a maioria (Lila definitivamente estava entre elas) não podia negar a renovação que se apresentava à frente: Tiffany Jones com bochechas redondas e cabelo lindo e um segundo coração batendo. No velho mundo, havia homens que tinham feito mal a Tiff, e muito. No velho mundo, havia homens que queimavam mulheres, incinerando-as nas duas realidades. Brigadas do Maçarico, Mary disse que era o nome. Havia mulheres ruins e homens ruins; se alguém podia alegar o direito de fazer essa declaração, Lila, que havia prendido muitos dos dois, sentia que era ela. Porém, os homens brigavam mais; eles matavam mais. Essa era uma das coisas em que os sexos nunca tinham sido iguais: eles não eram igualmente perigosos.

Então, sim, Lila achava que provavelmente era um bom plano. Implacável, mas muito bom. Um mundo reiniciado por mulheres que tinham uma oportunidade de serem mais seguras e mais justas. Ainda assim…

— Não sei. — Lila não podia dizer que uma existência sem o filho era melhor.

Podia conceber a ideia, mas não conseguia articular sem se sentir uma traidora com Jared e sua antiga vida.

Tiffany assentiu.

— Que tal isto então: você consegue arremessar para trás? — Ela se virou de costas para a cesta, dobrou os joelhos e jogou a bola por cima da cabeça. Subiu, bateu no canto da tabela, quicou no aro… e caiu, quicou, quicou, quicou, tão perto.

3

Um jorro ocre saiu pela torneira. Um cano estalou alto ao bater em outro. O

fluxo marrom engasgou, parou, e, aleluia, água limpa começou a cair na pia.

— Bom — disse Magda Dubcek para a pequena reunião em torno da pia na parede da usina de tratamento de água. — Aí está.

— Incrível — disse Janice Coates.

— Que nada. Pressão, gravidade. Não é tão complexo. Vamos tomar cuidado, acionar um bairro de cada vez. Indo devagar e sempre a gente vence a corrida.

Lila, pensando no bilhete antigo do filho de Magda, Anton, sem dúvida um cara meio burro e talentoso no sexo, mas conhecedor de águas por mérito próprio, abraçou abruptamente a velha senhora.

A água ecoou no aposento comprido da usina do Distrito de Águas do Condado de Dooling, fazendo-as se calarem. Em silêncio, as mulheres se revezaram para passar as mãos no jorro de água fresca.

4

Uma das coisas de que todas sentiam falta era a possibilidade de entrar em um carro e dirigir para algum lugar em vez de andar e ter bolhas nos pés. Os carros ainda estavam lá, alguns em bom estado por terem ficado parados em garagens, e pelo menos algumas das baterias que elas encontraram em depósitos ainda tinham energia. O verdadeiro problema era a gasolina. Cada gota tinha se oxidado.

— Vamos ter que refinar — explicou a professora de engenharia aposentada em uma reunião do comitê.

A no máximo duzentos e quarenta quilômetros, no Kentucky, havia poços de armazenamento e refinarias que poderiam ser recolocadas em funcionamento com trabalho e sorte. Elas logo começaram a planejar outra viagem; designaram tarefas e selecionaram voluntárias. Lila observou as mulheres no aposento em busca de sinais de apreensão. Não havia nenhum. Dentre os rostos, ela prestou atenção em Celia Frode, a única sobrevivente do grupo de exploração. Celia estava assentindo junto com as outras.

— Me coloquem nessa lista — disse Celia. — Eu vou. Sinto que estou precisando andar por aí.

Seria arriscado, mas elas tomariam mais cuidado dessa vez. Não hesitariam.

5

Quando chegaram ao segundo andar da casa de exibição, Tiffany anunciou que não ia subir a escada para o sótão.

— Vou esperar aqui.

— Se você não vai subir, por que veio? — perguntou Lila. — Você não está tão grávida assim.

— Eu estava torcendo para você me dar uns Tic Tacs, trapaceira. E estou bem grávida, pode acreditar. — Lila tinha ganhado o jogo e as balinhas.

— Aqui. — Ela jogou a caixinha para Tiffany e subiu a escada.

A casa de exibição de Pine Hills acabou se mostrando ironicamente mais bem construída do que quase todas as outras estruturas na Tremaine, inclusive a casa de Lila. Apesar de escuro, com pequenas janelas sujas pela passagem do tempo, o sótão estava seco. Lila andou pelo espaço, os passos levantando nuvens de poeira do chão. Mary tinha dito que era onde ela, Lila e a sra. Ransom estavam, lá naquele outro mundo. Ela queria sentir a si mesma, sentir o filho.

Não sentiu nada.

Em uma ponta do sótão, uma mariposa estava batendo em uma das janelas sujas. Lila andou até lá para libertá-la. A janela estava emperrada. Lila ouviu um estalo quando Tiffany subiu a escada. Ela empurrou Lila para o lado, pegou uma faca portátil, passou a ponta pelas beiradas, e a janela se abriu. A mariposa fugiu e saiu voando.

Abaixo, havia neve nos gramados altos, na rua malcuidada, na viatura velha na entrada da casa da sra. Ransom. Os cavalos de Tiffany estavam enfiando os focinhos onde podiam, relinchando sobre qualquer coisa que os fizesse relinchar, balançando os rabos. Lila via além da casa dela, além da piscina que nunca quis e da qual Anton cuidava, e além do olmo sobre o qual ele havia deixado o bilhete. Um animal laranja saiu da beirada da floresta de pinheiros que havia atrás do bairro. Era uma raposa. Mesmo de longe, o brilho da pelagem de inverno era evidente. Como o inverno tinha chegado tão rápido?

Tiffany estava no meio do sótão. Estava seco, mas também frio, principalmente com a janela aberta. Ela entregou a caixa de Tic Tac para Lila.

— Eu queria comer todos, mas seria errado. Eu abdiquei da minha vida de

crimes.

Lila sorriu e guardou a caixa no bolso.

— Eu te declaro reabilitada.

As mulheres estavam a trinta centímetros uma da outra, se olhando, soltando vapor na respiração. Tiffany tirou o chapéu e largou no chão.

— Se você acha que é piada, não é. Não quero tirar nada de você, Lila. Não quero tirar nada de ninguém.

— O que você quer? — perguntou Lila.

— Minha própria vida. Com bebê e uma casa e tudo. E gente que me ama.

Lila fechou os olhos. Ela tinha todas essas coisas. Não conseguia sentir Jared, não conseguia sentir Clint, mas se lembrava deles, se lembrava da própria vida.

Essas lembranças doíam. Faziam formas na neve, como os anjos que eles faziam quando crianças, mas essas formas estavam ficando mais indefinidas a cada dia.

Deus, ela estava tão solitária.

— Não é muita coisa — disse Lila, e reabriu os olhos.

— Para mim, parece muita coisa. — Tiffany esticou as mãos e puxou o rosto de Lila para perto do dela.

6

A raposa trotou para longe do condomínio de Pine Hills, atravessou a Tremaine Street e entrou na vegetação densa de trigo de inverno que tinha crescido do outro lado. Ela estava caçando o odor de esquilos hibernando. A raposa amava esquilos ( Crocantes! Suculentos! ), e, naquele lado da Árvore, depois de tanto tempo sem serem incomodados pela presença humana, eles tinham ficado descuidados.

Depois de uma busca de meia hora, ela encontrou uma pequena família em um buraco cavado. Eles nem despertaram, nem enquanto a raposa os mastigava.

— Tão gostoso — disse para si mesma.

A raposa foi em frente, entrou no bosque para chegar à Árvore. Fez uma pausa breve para explorar uma casa abandonada. Mijou em uma pilha de livros espalhados no chão e xeretou um armário cheio de lençóis podres. Na cozinha da casa, havia comida na geladeira com cheiro deliciosamente estragado, mas

suas tentativas de abrir a porta não deram em nada.

— Me deixe entrar — a raposa ordenou à geladeira, para o caso de ela só estar fingindo ser um objeto inanimado.

A geladeira ficou parada, sem responder.

Uma cobra saiu de debaixo do fogão à lenha do outro lado da cozinha.

Continuar: parte 6 de 12