Belas adormecidas

Stephen King, Owen King · Capítulo 3 de 6 · parte 11/12

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Belas adormecidas

Parte dois: Vou dormir quando morrer

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

café batendo uma na outra em um armário, e ela pareceu ouvir Evie na mente, um grito inarticulado misturando dor e surpresa. Depois disso, o tempo pulou.

Jeanette estava no chão, o céu era composto de folhas, e havia sangue em sua boca.

A mulher com a pistola se aproximou. O cano da arma soltava fumaça, e Jeanette entendeu que não tinha sido o tempo que havia pulado, afinal. Ela tinha levado um tiro.

— Abaixe a arma! — ordenou a mulher. Jeanette abriu a mão, sem saber que ainda estava segurando a pistola até que caísse no chão.

— Eu conheço você — sussurrou Jeanette. Parecia que havia um peso grande e quente no peito dela. Era difícil respirar, mas não estava doendo. — Foi você que levou Evie para a prisão. A policial. Eu vi você pela janela.

— Está com cheiro de querosene — disse Lila. Ela pegou a lata virada, cheirou e a largou.

Antes da reunião daquela manhã no Shopwell, alguém tinha mencionado que um dos carrinhos de golfe havia sumido, e ninguém tinha assinado a retirada; uma garota chamada Maisie Wettermore disse que tinha visto Elaine Nutting alguns minutos antes, dirigindo um na direção do Depósito de Madeira Adams.

Lila, que foi até lá com Janice Coates, trocou um olhar com a ex-diretora. Só havia duas coisas na direção do Depósito de Madeira: as ruínas do laboratório de metanfetamina e a Árvore. As duas ficaram preocupadas com a ideia de Elaine Nutting ir lá sozinha. Lila se lembrou das dúvidas de Elaine sobre os animais do local, principalmente o tigre, e pensou que ela podia tentar matá-lo. Lila tinha certeza de que não seria uma coisa boa. Por isso, as duas pegaram um carrinho de golfe e foram atrás.

E agora Lila tinha atirado em outro ser humano, uma mulher que ela nunca tinha visto, que estava sangrando no chão, gravemente ferida.

— O que você ia fazer? — perguntou ela.

— Não eu — disse Jeanette, olhando para a mulher que chorava. — Ela. Foi ela. O querosene era dela. A arma era dela. Eu impedi. Jeanette sabia que estava morrendo, mas não estava exatamente sentindo dor.

Um frio como de água de poço subia por ela, levando seus dedos dos pés, depois o resto dos pés, os joelhos, indo na direção do coração. Bobby tinha medo de

água quando era pequeno.

E Bobby tinha medo de que alguém fosse pegar sua coca e seu chapéu do Mickey Mouse. Esse era o momento capturado na foto na cela que era dela. Não, querido, não, ela dissera para ele. Não se preocupe. As duas coisas são suas. Sua mãe não vai deixar ninguém tirar de você.

E se Bobby estivesse ali agora, perguntando sobre aquela água? Aquela água na qual a mãe estava afundando? Ah, ela diria que não havia nada com que se preocupar. Era um choque no começo, mas dava para se acostumar.

Porém, Jeanette não era campeã no Suas mentiras valem prêmios. Não tinha calibre de competidora. Ela conseguia contar uma mentirinha para Bobby, mas não para Ree. Se Ree estivesse ali, teria que admitir que, apesar de a água do poço não doer, também não parecia normal.

Ela conseguia ouvir a voz incorpórea do apresentador: Acabou para Jeanette Sorley, infelizmente, mas vamos mandá-la para casa com presentes lindos de despedida. Fale sobre os presentes, Ken! O apresentador falava como Warner Wolf, o sujeito do “Vamos ao videoteipe”. Ei, se era para ir para casa, não dava para ter anunciante melhor.

A diretora Coates, o cabelo agora branco como giz, bloqueou o céu de Jeanette. Ficava bem nela aquele cabelo, mas a mulher estava magra demais, com manchas grandes embaixo dos olhos, as bochechas fundas. Ela pegou o acendedor de churrasqueira.

— Sorley? — Coates se apoiou em um joelho e segurou a mão dela. —

Jeanette?

— Ah, merda — disse a policial. — Acho que cometi um erro horrível. — Ela ficou de joelhos e apoiou as palmas das mãos no ferimento de Jeanette, aplicando pressão, sabendo que não adiantava de nada. — Eu só queria te derrubar, mas a distância… e fiquei com medo por causa da Árvore… me desculpe.

Jeanette sentiu o sangue escorrer dos dois cantos da boca. Começou a ofegar.

— Eu tenho um filho, o nome dele é Bobby… eu tenho um filho.

As últimas palavras de Jeanette foram dirigidas a Elaine, e a última coisa que ela viu foi o rosto da mulher, os olhos arregalados e assustados.

— Por favor… eu tenho um filho…

15

Mais tarde, quando a fumaça e o gás lacrimogênio sumirem, vai haver dezenas de histórias sobre o Instituto Penal para Mulheres de Dooling, todas diferentes, a maioria conflitante, verdadeiras em alguns detalhes e falsas em outros. Quando um conflito sério começa, uma luta até a morte, a realidade objetiva se perde rapidamente na fumaça e no barulho.

Além do mais, muitos dos que poderiam acrescentar seus próprios relatos estavam mortos.

1

Quando Van Lampley, com um tiro no quadril, sangrando, cansada até a alma, dirigiu o quadriciclo lentamente por uma estrada de terra que podia ser a Allen Lane (era difícil ter certeza; havia tantas estradas de terra naquelas colinas), ela ouviu uma explosão distante vinda da direção da prisão. Olhou para o celular com rastreio que tinha tirado de Fritz Meshaum. Na tela, o celular na mão dela era representado por um ponto vermelho. O dispositivo GPS da bazuca era um verde. Os dois pontos agora estavam bem próximos, e ela achou que já tinha levado o quadriciclo até onde seria possível sem alertar os Griner que estava atrás deles.

Talvez a explosão seja eles atirando outro rojão da bazuca, pensou ela. Era possível, mas como garota de região de mineração que tinha crescido com a música desagradável de dinamite, ela achava que não. A explosão da prisão tinha sido mais abrupta e mais forte. Foi dinamite, sim. Aparentemente, os irmãos Griner não eram os únicos filhos da mãe com explosivos por aí.

Ela estacionou, desceu do quadriciclo e cambaleou. A perna esquerda da calça estava encharcada de sangue do quadril até o joelho, e a adrenalina que a tinha levado até ali estava passando. Cada parte do seu corpo doía, mas o quadril, onde Meshaum havia atirado, era pura agonia. Alguma coisa estava estilhaçada lá dentro, ela sentia os ossos roçando a cada passo, e agora estava tonta pela perda de sangue, além dos dias e noites sem dormir. Cada parte dela gritava para desistir, para abandonar aquela loucura e ir dormir.

E eu vou fazer isso, pensou ela, pegando o rifle e a pistola antiga que Meshaum tinha usado para atirar nela, mas ainda não. Eu posso não conseguir fazer nada sobre o que está acontecendo na prisão, mas posso dar trabalho para aqueles dois filhos da mãe antes que eles piorem as coisas. Depois disso, posso apagar.

Saindo da pista e subindo pela vegetação de árvores baixas, havia dois sulcos que talvez já tivessem sido uma estrada. Vinte metros depois, ela encontrou a picape que os Griner haviam roubado. Ela olhou dentro, não viu nada que quisesse e continuou em frente, a perna um peso que ela arrastava junto com o resto do corpo. Não precisava mais do aplicativo de rastreamento porque sabia onde estava, apesar de não ir lá desde os dias de ensino médio, quando era um local de namoro não dos melhores. Uns quatrocentos metros depois, talvez um pouco mais, a pista coberta de mato terminava em um monte onde havia algumas lápides tortas: o lote familiar de uma família que já tinha partido havia muito tempo, provavelmente a família Allen, se aquela era mesmo a Allen Lane.

Era a terceira ou quarta escolha de adolescentes cheios de tesão porque a vista do alto era do Instituto Penal. Não exatamente o melhor clima para romance.

Eu consigo fazer isso, ela disse para si mesma. Mais cinquenta metros.

Ela percorreu os cinquenta metros, disse para si mesma que conseguia percorrer mais cinquenta, e continuou assim até ouvir vozes à frente. Em seguida, houve um whoosh explosivo, seguido de Little Lowell Griner e seu irmão Maynard comemorando e batendo nas costas um do outro.

— Eu não sabia se teria alcance, mano, mas olha só! — gritou um deles. A resposta foi um grito rebelde.

Van engatilhou a pistola de Meshaum e seguiu na direção dos sons da comemoração caipira.

2

Clint acreditava que a expressão “seu coração gelou” não era nada além de expressão poética até que o dele realmente gelou. Sem perceber que tinha deixado a proteção oferecida pelo canto sudoeste do prédio principal, ele olhou de queixo caído a chuva de concreto que descia da Ala C. Quantas das mulheres adormecidas naquela ala tinham morrido na explosão, incineradas ou despedaçadas dentro dos casulos? Ele mal ouviu uma coisa passar zumbindo pela orelha esquerda, e também não sentiu o puxão quando outra bala, essa disparada por Mick Napolitano de detrás do segundo buldôzer, abriu um dos bolsos da calça dele e espalhou moedas perna abaixo.

Willy Burke o segurou pelos ombros e o puxou com tanta força que Clint quase caiu.

— Está maluco, doutor? Quer morrer?

— As mulheres — disse Clint. — Tinha mulheres lá. — Ele secou os olhos, que estavam se enchendo de lágrimas por causa do gás acre. — Aquele filho da puta do Geary colocou um lançador de foguetes ou alguma coisa assim naquela colina onde fica o cemitério!

— Não tem nada que a gente possa fazer agora. — Willy se inclinou e se apoiou nos joelhos. — Você pegou um dos filhos da mãe, pelo menos, e isso é um começo. Nós precisamos entrar. Vamos para a porta dos fundos e levar Billy conosco.

Ele estava certo. A frente do prédio estava uma zona de fogo.

— Willy, você está bem?

Willy Burke se empertigou e ofereceu um sorriso esforçado. O rosto estava pálido e a testa, coberta de suor.

— Bom, droga. Acho que posso estar tendo alguma coisa no coração. O

médico me mandou parar com o cachimbo depois do último check-up. Eu devia ter ouvido.

Ah, não, pensou Clint. Ah… não… porra.

Willy leu o pensamento no rosto de Clint, pois não havia nada de errado com seus olhos, e deu um tapa no ombro dele.

— Ainda não chegou meu fim, doutor. Vamos nessa.

3

Da posição do lado de fora da sala de visita, agora quase certamente estripada pela explosão de dinamite (junto com qualquer pessoa que estivesse dentro), Frank viu Jack Albertson cair com a máscara de gás torta. Não havia nada além de sangue onde antes ficava o rosto. A própria mãe não teria reconhecido ele, pensou Frank.

Ele levantou o walkie-talkie.

— Notícias! Pessoal, deem notícias!

Só oito ou nove responderam, a maioria sendo os que estavam usando os buldôzeres como proteção. Claro que nem todos os homens tinham o aparelho, mas devia haver pelo menos mais algumas respostas. O palpite mais otimista de Frank era que ele tinha perdido quatro homens, incluindo Jack, que deveria estar mortinho da silva. Na verdade, ele supunha que podiam ser cinco ou seis, e os feridos precisariam ser hospitalizados. Talvez o garoto, Blass, que eles tinham deixado no bloqueio da estrada com Miller, pudesse levá-los ao St. Theresa em um dos ônibus, se bem que só Deus sabia quem ainda estaria trabalhando lá. Se houvesse alguém. Como chegou àquele ponto? Eles tinham os buldôzeres, caramba. Era para terem acabado com aquilo rápido!

Johnny Lee Kronsky segurou o ombro dele.

— Nós precisamos entrar lá, amigo. Acabar com eles. Com isto.

A mochila dele ainda estava aberta. Ele empurrou a toalha em que tinha enrolado a dinamite e mostrou a Frank o C4 dos irmãos Griner. Kronsky tinha feito um formato que parecia uma bola de futebol americano de brinquedo.

Havia um Android enfiado dentro.

— É meu celular — disse Kronsky. — Estou doando à causa. Era uma merda mesmo.

Frank perguntou:

— Por onde a gente entra? — O gás lacrimogênio estava se dissipando, mas ele sentia como se o cérebro estivesse cheio dele, obscurecendo todo pensamento. A luz do dia estava ficando mais forte, o sol nascendo vermelho.

— Bem no meio seria o melhor — disse Kronsky, e apontou para o trailer meio destruído. Estava inclinado para cima do prédio, mas havia espaço para

passar espremido e chegar à entrada principal, que tinha sido destruída e arrancada das dobradiças. — Struthers e aqueles caras dos buldôzeres vão nos dar cobertura. A gente entra e segue em frente até pegar a vagabunda que provocou isso tudo.

Frank não tinha mais certeza de quem tinha provocado aquilo tudo e quem estava no comando, mas assentiu. Parecia não haver mais nada a fazer.

— Tenho que configurar o timer — disse Kronsky, e ligou o celular enfiado no C4. Havia um fio na entrada de fone de ouvido do telefone. A outra ponta estava ligada a um dispositivo de bateria enfiado no explosivo. Olhar para aquilo tudo fez Frank se lembrar de Elaine preparando jantares de domingo, tirando o assado do forno e enfiando um termômetro de carne.

Kronsky deu um tapa no ombro dele, um tapa nada gentil.

— Quanto tempo, você acha? E pense com cuidado, porque quando o contador chegar a números de um dígito, eu vou jogar, onde quer que a gente esteja.

— Eu acho… — Frank balançou a cabeça, tentando clarear o pensamento. Ele nunca tinha entrado na prisão, e esperara que Don Peters desse a explicação necessária da disposição interna. Só não tinha se dado conta do quanto Peters era inútil. Agora que era tarde demais, parecia um deslize absurdo. Quantas outras coisas ele tinha deixado passar? — Quatro minutos?

Falando como um professor mal-humorado de ensino médio com um aluno burro, Kronsky perguntou: — Você está me perguntando ou me dizendo?

Eles ouviram disparos, mas o ataque parecia ter parado. A próxima coisa poderia ser seus homens decidindo recuar. Isso não podia acontecer.

Nana, pensou Frank, e disse: — Quatro minutos. Eu tenho certeza.

Frank pensou: Em quatro minutos, eu vou estar morto ou isso vai estar terminando.

Claro que era possível que a mulher fosse morta no ataque final, mas era um risco que ele teria que correr. Isso o fez pensar nos cachorros nas jaulas, tendo as vidas reféns de forças que não entendiam.

Kronsky abriu um aplicativo, digitou na tela e 4:00 apareceu. Ele digitou de novo, e os números começaram a fazer contagem regressiva. Frank ficou olhando fascinado enquanto um 3:59 virava um 3:58, que virava um 3:57.

— Está pronto, Geary? — perguntou Kronsky. No sorriso lunático, um dente de ouro cintilou.

(“O que você está fazendo?”, o agitador filho da puta tinha gritado para Kronsky naquele dia, na mina Graystone nº 7 da Ulysses Energy. “Pare de enrolar.” O agitador filho da puta estava pelo menos vinte metros à frente. Nas profundezas escuras subterrâneas, Kronsky não conseguia ver o rosto do imbecil, e menos ainda a camiseta de Woody Guthrie, só a lanterna na cabeça. Há poder no sindicato, o agitador filho da puta gostava de dizer. Havia mais poder em um dólar, e o homem da Ulysses Energy deu a Johnny Lee Kronsky algumas notas novas para cuidar do problema. “Foda-se você, seu sindicato e o cavalo no qual você veio montado”, disse Kronsky para o agitador filho da puta antes de jogar a dinamite e correr feito louco.) — Acho que a gente devia… — começou Frank, e foi nessa hora que Lowell Griner disparou a bazuca pela primeira vez. Houve um som de movimento quase diretamente acima. Frank teve um vislumbre borrado de alguma coisa voando. Algum projétil.

— Para o chão! — gritou Kronsky, mas não deu a Frank a chance de fazer isso; só o segurou pelo pescoço e puxou para baixo.

O rojão acertou a Ala C e explodiu. No mundo além da Árvore, catorze antigas detentas do Instituto Penal de Dooling desapareceram, piscando uma vez antes de nuvens de mariposas se espalharem no ar onde elas estavam.

4

Apesar de ter um walkie-talkie, Drew T. Barry foi um dos que não responderam à ordem de Frank de dar notícias. Ele nem ouviu porque tinha desligado o aparelho. Tinha ido o mais alto que podia ainda mantendo certa proteção e pegou o Weatherby. O ângulo não era tão bom quanto ele esperava. Pela mira do Weatherby, viu um barracão de metal corrugado. A porta dos fundos da prisão estava aberta, havia luz saindo em um ângulo, mas aquele cara estava atrás do barracão, defendendo o caminho. Barry viu um cotovelo… um ombro… parte de uma cabeça, mas que foram rapidamente recolhidos depois de uma espiada para onde Elmore Pearl e Don Peters ainda estavam posicionados. Drew T. Barry tinha que eliminar o sujeito, e estava se coçando para dar o tiro (sim, o dedo do

gatilho estava literalmente coçando), mas sabia que tiro nenhum era melhor do que um tiro ruim. Ele tinha que esperar. Se Pearl ou Peters jogassem outra pedra, isso podia fazer o cara botar a cabeça toda para fora para ver o que estava acontecendo, mas Drew T. Barry não contava que isso fosse acontecer. Elmore Pearl era cauteloso demais, e aquele merda gordo do Peters era mais perdido do que cego em tiroteio.

Anda, babaca, pensou Drew T. Barry. Dois passos bastariam. Talvez só um.

Porém, apesar de ter se encolhido no chão quando a dinamite explodiu, Billy Wettermore mantinha a posição atrás do barracão. Foi preciso a explosão da bazuca para fazer com que ele se levantasse. Ele saiu de detrás da proteção do barracão e olhou na direção do som, e isso deu a Drew T. Barry a linha de fogo direta que ele estava esperando.

A fumaça subia acima da prisão. Pessoas estavam gritando. Armas estavam sendo disparadas, aleatoriamente, sem dúvida. Drew T. Barry não tinha paciência com tiros a esmo. Ele prendeu a respiração e apertou o gatilho do rifle.

O resultado foi totalmente satisfatório. Na mira, ele viu o sujeito voar para a frente, a camisa esvoaçando em farrapos.

— Peguei ele, por Deus — disse Drew T. Barry, olhando para o que restava de Billy Wettermore com uma espécie de satisfação sombria. — Foi um bom tiro, se posso dizer…

Das árvores abaixo, veio outro tiro, seguido da voz inconfundível do policial Elmore Pearl.

— Ah, seu idiota do caralho, o que você fez? O QUE VOCÊ FEZ?

Drew T. Barry correu na direção dos colegas, mantendo a cabeça abaixada, se perguntando o que tinha dado errado agora.

5

Clint e Willy viram Billy Wettermore ser jogado no ar. Quando Billy caiu, estava inerte. Um dos sapatos voou do pé, girou e bateu na beirada do telhado do barracão. Clint começou a ir na direção dele.

A mão de Willy Burke que o segurou estava surpreendentemente forte.

— Não, não — disse Willy. — Pode parar, doutor. Não dá pra ir lá agora.

Clint tentou pensar.

— A gente pode tentar entrar no meu escritório pela janela. O vidro é reforçado, mas não tem grade.

— Eu posso cuidar de uma janela — disse Willy. — Vamos. — Mas, em vez de andar, ele se inclinou e segurou os joelhos de novo.

6

Don Peters nem ouviu direito Elmore Pearl gritando com ele. Atordoado pelo choque, de joelhos, ele estava olhando para o antigo parceiro de Patrulha Zumbi caído no chão de pernas abertas com sangue jorrando de um buraco no pescoço.

Eric Blass olhou para ele, sufocando com mais sangue.

— Parceiro! — gritou Don. Seu capacete de futebol americano escorregou para a frente, cobrindo os olhos, e ele o empurrou com a base da mão. —

Parceiro, foi sem querer!

Pearl o puxou para ficar de pé.

— Seu babaca burro, ninguém nunca ensinou que você tem que ver em que está atirando antes de puxar o gatilho?

Eric fez um som grave de gorgolejo, tossiu um spray fino de sangue e bateu no que sobrava do pescoço.

Don queria explicar. Primeiro, o rugido da dinamite, depois uma segunda explosão, depois os arbustos em movimento atrás. Ele tinha certeza de que eram mais homens daquela porra de psiquiatra. Como ele podia saber que era Blass?

Ele atirou sem pensar, muito menos mirar. Que providência cruel tinha feito o tiro acertar Blass quando ele atravessava o bosque para se juntar a eles?

— Eu… eu…

Drew T. Barry apareceu, o Weatherby pendurado no ombro.

— O que foi…

— O Wild Bill Hickok aqui atirou em um dos nossos — disse Pearl. Ele deu um soco na barriga de Don, derrubando-o ao lado de Eric. — Acho que o garoto estava vindo ajudar.

— Eu achei que ele estava nos ônibus! — ofegou Don. — Frank mandou que ele ficasse lá para o caso de haver feridos, eu ouvi! — Isso era verdade.

Drew T. Barry botou Don de pé. Quando Pearl fechou a mão para acertar o sujeito choroso de rosto pálido, Barry o segurou.

— Pode bater nele o quanto quiser depois. Por mim, pode bater nele como se fosse um filho bastardo. Agora, a gente pode precisar dele. Ele conhece a disposição lá dentro, nós não.

— Você acertou ele? — perguntou Pearl. — O cara do barracão?

— Acertei — disse Drew T. Barry —, e se isso for parar em um tribunal, lembre que você me deu sinal verde. Agora, vamos acabar com isso.

De uma colina acima da prisão, eles viram um brilho de luz forte e um rastro de fumaça branca. Isso foi seguido de outra explosão do outro lado da prisão.

— Quem está disparando foguetes daquela colina? — perguntou Pearl.

— Não sei e não quero saber — disse Barry. — Aqui onde estamos, atrás da prisão, tem umas mil toneladas de concreto entre eles e nós. — Ele apontou colina abaixo, para a pista. — O que tem depois daquela porta, Peters?

— O ginásio — disse Don, ansioso para reparar o que já estava começando a acreditar que tinha sido um erro justificável, o tipo de coisa que qualquer um poderia ter feito. Eu estava tentando proteger Pearl e a mim mesmo, pensou ele, e quando essa loucura acabar, Elmore vai ver isso. Elmore vai me agradecer e pagar uma bebida no Squeaky. E, ei, foi só Blass, o maior delinquente lunático que já conheci, que botou fogo naquela pobre velha sem-teto antes que eu pudesse impedir.

— É onde as putas jogam basquete e vôlei. O corredor principal começa do outro lado, o que chamamos de Broadway. A mulher está em uma cela na Ala A, à esquerda. Não muito longe.

— Então vamos — disse Pearl. — Você vai na frente, Gatilho Veloz. Tenho um alicate para cortar a cerca.

Don não queria ir na frente.

— Acho que eu devia ficar com Eric. Ele era meu parceiro, afinal.

— Não precisa — disse Drew T. Barry. — Ele se foi.

7

Um ano antes da Aurora, quando Michaela ainda estava relegada a filmar notícias menores para o NewsAmerica — coisas como cachorros que sabiam

contar e irmãos gêmeos que se encontram sem querer depois de cinquenta anos de separação —, ela tinha feito uma matéria dizendo que pessoas com grandes coleções de livros tinham contas menores de aquecimento do que os não leitores porque os livros eram um bom isolante térmico. Com isso em mente, ela se dirigiu à biblioteca da prisão quando os tiros começaram, correndo de cabeça baixa. O que ela descobriu foi basicamente estantes cheias de brochuras velhas, não exatamente o isolante que ela tinha em mente, e quando a dinamite explodiu na sala ao lado e a parede tremeu, ela foi coberta de romances de Nora Roberts e James Patterson.

Ela correu para a Broadway, dessa vez sem se dar ao trabalho de baixar a cabeça, mas fazendo uma pausa, horrorizada, para olhar a sala de visita, onde o que restava de Rand Quigley estava amontoado no chão e pingando do teto.

Michaela estava totalmente desorientada, à beira do pânico, e quando o tiro de bazuca acertou a Ala C e uma nuvem de poeira voou na direção dela (lembrando-a de imagens que tinha visto depois do desmoronamento das Torres Gêmeas), ela se virou para voltar por onde tinha vindo. Antes de dar três passos, um braço forte envolveu seu pescoço, e ela sentiu uma lâmina fria de aço na têmpora.

— Ei, lindinha — disse Angel Fitzroy. Como Michaela não respondeu imediatamente ao cumprimento, Angel empurrou com mais força o cinzel que tinha pegado na carpintaria. — Que porra está acontecendo lá fora?

— O Armagedom — respondeu Michaela com uma voz ofegante que não se parecia nem um pouco com o tom alegre que ela usava na televisão. — Por favor, pare de me sufocar.

Angel soltou Michaela e a virou de frente para si. A fumaça que vinha pelo corredor carregava o odor acre de gás lacrimogênio, fazendo as duas tossirem, mas elas conseguiam ver bem uma à outra. A mulher com o cinzel era pequena, nervosa, com um jeito predador.

— Você está diferente — disse Michaela. Devia ser um comentário extremamente estúpido com a prisão sendo atacada e uma condenada segurando um cinzel na frente dos olhos dela, mas foi só em que conseguiu pensar. —

Desperta. De verdade.

— Ela me acordou — disse Angel, com orgulho. — Evie. Como fez com você.

Porque eu tinha uma missão.

— E que missão seria essa?

— Elas — disse Angel, e apontou para duas mulheres que vinham pelo corredor, parecendo não estarem incomodadas com a fumaça e os tiros. Para Michaela, os restos de casulo pendurados em Maura Dunbarton e Kayleigh Rawlings pareciam pedaços de mortalha podre em um filme de terror. Elas passaram sem olhar para as outras duas.

— Como elas podem…? — começou Michaela, mas um segundo disparo de bazuca atingiu a parte da frente antes que ela pudesse terminar a pergunta. O

chão tremeu, e mais fumaça surgiu, preta e fedendo a diesel.

— Não sei como elas podem fazer essas coisas e não ligo — disse Angel. —

Elas têm o trabalho delas e eu tenho o meu. Você pode ajudar ou eu posso enfiar esse cinzel na sua barriga. O que você prefere?

— Eu vou ajudar — disse Michaela. (Deixando a ética jornalística de lado, seria difícil contar a história depois, se ela estivesse morta.) Ela seguiu Angel, que pelo menos parecia saber para onde estava indo. — Qual é o trabalho?

— A gente vai proteger a bruxa — disse Angel. — Ou morrer tentando.

Antes que Michaela pudesse responder, Jared Norcross saiu da cozinha, que era adjacente à lavanderia da prisão, onde Michaela o tinha deixado. Angel levantou o cinzel. Michaela segurou o pulso dela.

— Não! Ele está com a gente!

Angel estava lançando a Jared seu melhor olhar mortal.

— Está? Está com a gente? Vai nos ajudar a proteger a bruxa?

— Bom — disse Jared. — Eu estava planejando sair para dançar e tomar umas bolinhas, mas acho que posso mudar meus planos.

— Eu falei para Clint que ia proteger você — disse Michaela, com reprovação na voz.

Angel balançou o cinzel e mostrou os dentes.

— Ninguém tem proteção hoje além da bruxa. Ninguém tem proteção além de Evie!

— Tudo bem — disse Jared. — Se isso for ajudar meu pai e trouxer minha mãe e Mary de volta, eu estou dentro.

— Mary é sua namorada? — perguntou Angel. Ela tinha baixado o cinzel.

— Não sei. Não exatamente.

— Não exatamente. — Angel pareceu refletir sobre isso por um momento. —

Você trata ela bem? Não empurra, não bate, não grita?

— A gente precisa sair daqui antes que morra sufocado — disse Michaela.

— Eu trato ela bem, sim.

— É melhor mesmo — disse Angel. — Vamos lá. Evie está na cela acolchoada na Ala A. A cela é acolchoada, mas a grade é dura. Vocês têm que ficar na frente dela. Assim, qualquer um que queira chegar a ela vai ter que passar por vocês.

Michaela achou que era um plano horrível, o que poderia explicar por que Angel estava dizendo “vocês”, e não “nós”.

— Onde você vai estar?

— Em uma missão de comando — disse Angel. — Talvez eu possa derrubar alguns antes de eles chegarem aqui. — Ela balançou o cinzel. — Vou estar logo com vocês, não tenham medo.

— Umas armas podiam ajudar se você… — Jared foi sufocado pela explosão mais alta de todas. Dessa vez, estilhaços, principalmente pedaços de parede e teto, choveram neles. Quando Michaela e Jared se empertigaram novamente, Angel não estava mais com eles.

8

— Que porra foi isso? — perguntou Frank nos segundos depois que o primeiro rojão de bazuca acertou a Ala C.

Ele se levantou, tirando poeira, sujeira e alguns pedaços de cimento do cabelo.

Os ouvidos não estavam exatamente ecoando; o que ele ouvia era o chiado alto e metálico que às vezes sentia na cabeça depois de tomar aspirina demais.

— Alguém está disparando com artilharia pesada daquela colina lá — disse Kronsky. — Devem ser as mesmas pessoas que destruíram a delegacia. Venha, sr. Xerife em Exercício. O tempo está passando. — Ele mais uma vez mostrou os dentes em um sorriso com brilho dourado tão alegre que pareceu surreal.

Apontou para a tela do celular enfiado no explosivo plástico. 3:07 mudou para 3:06, que mudou para 3:05.

— Certo — disse Frank.

— Lembre-se, não hesite. Quem hesita se fode.

Eles seguiram para as portas destruídas. Com a visão periférica, Frank viu os homens que chegaram atrás dos buldôzeres olhando para eles. Nenhum parecia ansioso para se juntar àquele ataque em particular, e Frank não os culpava.

Provavelmente, alguns estavam desejando terem ido embora com Terry Coombs.

9

Enquanto a batalha pelo Instituto Penal de Dooling se aproximava do clímax, Terry estava estacionado na garagem. Era pequena; a porta estava fechada; as janelas da Unidade Um estavam abertas e o grande motor V8 estava ligado. Terry inspirou escapamento em respirações longas de encher o pulmão. No começo, o gosto era ruim, mas dava para se acostumar bem rápido.

Não é tarde demais para mudar de ideia, disse Rita, segurando a mão dele. A esposa estava ao seu lado no banco do passageiro. Você ainda pode tomar o controle lá. Impor um pouco de sanidade.

— Tarde demais para isso, querida — disse Terry. A garagem agora estava azul de fumaça tóxica. Terry respirou fundo de novo, sufocou a tosse e inspirou de novo. — Não sei como isso vai terminar, mas não vejo um bom final. Assim é melhor.

Rita apertou a mão dele com solidariedade.

— Eu fico pensando em toda a sujeira na estrada que já limpei — disse Terry.

— E na cabeça daquele cara, enfiada pela parede do trailer daquele traficante.

Baixo, através dos quilômetros, da direção da prisão, veio o som de explosões.

Terry repetiu:

— Assim é melhor. — Ele fechou os olhos. Apesar de saber que estava sozinho na Unidade Um, ele ainda sentia a esposa apertando sua mão conforme resvalava para longe de Dooling e de todo o resto.

10

Frank e Johnny Lee Kronsky estavam passando entre os destroços do trailer de Barry Holden e a parede da prisão. Estavam quase nas portas destruídas quando ouviram o som do segundo disparo de bazuca.

— Chegando! — gritou Kronsky.

Frank olhou para trás e viu uma coisa incrível: o rojão acertou o estacionamento perto da grade derrubada, quicou alto sem explodir e caiu de bico no buldôzer que tinha sido pilotado pelo falecido Jack Albertson. O rugido da detonação foi ensurdecedor. O banco do motorista foi projetado pela camada fina do teto do buldôzer. Pedaços desintegrados subiram no ar como teclas de um piano de aço. Um dos escudos de ferro que tinham sido posicionados para proteger as portas do cockpit foi jogado para a frente, perfurando o trailer adiante como a pena de um martelo gigante.

Frank tropeçou na base retorcida de uma das portas internas, e assim sua vida foi salva. Johnny Lee Kronsky, ainda de pé, não foi só decapitado por uma beirada do Fleetwood que saiu voando; ele foi partido em dois nos ombros.

Mesmo assim, cambaleou mais dois ou três passos, o coração batendo por tempo suficiente para fazer jorrar dois jatos de sangue no ar. Em seguida, desabou. A bola de futebol americano de C4 caiu de suas mãos e rolou na direção da estação de segurança. Parou com o celular Android embutido visível, e Frank viu 1:49

virar 1:48, que virou 1:47.

Ele se arrastou na direção do explosivo, piscando para tirar poeira de concreto dos olhos, e rolou para o lado e para o abrigo da recepção parcialmente desabada quando Tig Murphy pulou de trás do vidro à prova de balas da estação de segurança e disparou com a arma pela abertura por onde os visitantes entregavam a identidade e o celular. O ângulo era ruim, e o disparo de Tig foi alto demais. Frank ficaria bem se ficasse abaixado, mas se tentasse ir em frente, na direção da porta que levava à prisão em si, seria alvo fácil. Se voltasse, a mesma coisa.

O saguão estava se enchendo de fumaça de diesel do buldôzer em chamas.

Junto a isso havia o fedor intenso e nauseante do sangue derramado de Kronsky, litros e litros, ao que parecia. Embaixo de Frank estava uma das pernas da mesa da recepção, a ponta quebrada afundando nas costas dele entre as omoplatas. O

C4 estava fora do alcance de Frank. 1:29 virou 1:28, que virou 1:27.

— Tem homens em volta da prisão toda! — gritou Frank. — Desistam e não vão ficar feridos!

— Vai cagar! Essa prisão é nossa! Você está invadindo e não tem autoridade!

— Tig disparou novamente.

— Tem explosivo! C4! Vai fazer você em pedacinhos!

— Isso aí, e eu sou a porra do Luke Skywalker!

— Olhe aqui fora! Para baixo! Você vai ver!

— Pra você tentar meter uma bala na minha barriga pela abertura? Eu passo.

Desesperado, Frank olhou na direção da porta por onde tinha entrado, parcialmente bloqueada pelos restos do trailer.

— Pessoal de fora! — gritou ele. — Preciso de cobertura!

Não houve nenhum disparo de cobertura. Nem reforços. Dois dos homens, Steve Pickering e Will Wittstock, estavam batendo em retirada, carregando o ferido Rupe Wittstock com eles.

No chão coberto de detritos do saguão, quase na base da estação de segurança controlada por Tig Murphy, o celular continuou a contagem regressiva a caminho do zero.

11

Ver Billy Wettermore inegavelmente morto fez Don Peters se sentir um pouco melhor. Don tinha ido jogar boliche com ele uma vez. A princesinha fez duzentos e cinquenta e dois pontos e ganhou vinte dólares de Don. Ficou bem óbvio que ele tinha usado algum tipo de bola adulterada, mas Don deixou passar, assim como deixava passar tanta coisa, porque era o tipo de cara tranquilo. Bom, às vezes o mundo voltava para o lado certo, e isso era um fato. Um veado a menos no mundo, pensou ele, vamos todos dizer viva.

Ele correu na direção do ginásio. Talvez seja eu quem vai pegar ela, pensou ele.

Meter uma bala na boca veloz de Evie Black e acabar com isso de vez. Eles esqueceriam o erro com Júnior, e eu não teria que pagar bebida no Squeaky pelo resto da vida.

Ele andou na direção da porta, já imaginando Evie Black à frente, mas Elmore Pearl o empurrou para longe.

— Pra trás, Gatilho Veloz.

— Ei! — gritou Don. — Você não sabe para onde ir!

Ele começou a andar de novo, mas Drew T. Barry o segurou e balançou a

cabeça. O próprio Barry não tinha intenção de ser o primeiro a entrar, não sem saber o que estava esperando. Provavelmente o cara em quem eles tinham atirado era a única retaguarda, mas se houvesse alguém, Pearl tinha melhor chance de acertar a pessoa do que Peters, cuja única morte pela qual tinha sido responsável naquela manhã havia sido a de um deles.

Pearl estava olhando por cima do ombro para Don e sorrindo ao entrar no ginásio.

— Relaxe e deixe um homem ir na fr…

Ele só chegou até aí quando as mãos frias de Maura Dunbarton o seguraram, uma pelo pescoço e a outra pela parte de trás da cabeça. Elmore Pearl olhou naqueles olhos sem alma e começou a gritar. Não gritou por muito tempo; a coisa reanimada que já tinha sido Maura enfiou a mão na boca dele, ignorou os dentes mordendo e puxou para baixo. O som do maxilar superior e do inferior se separando foi como o som de uma coxa sendo arrancada de um peru de Ação de Graças.

12

— Nós somos dois filhos da puta! — exclamou Maynard Griner, exultante. — Se fosse um pouco mais longe, os rojões iam explodir no estacionamento. Você viu aquele último quicar, Low?

— Vi — concordou Low. — Pulou como uma pedra em um laguinho e acertou o buldôzer. Não foi ruim, mas posso fazer melhor. Recarrega pra mim.

Abaixo, a prisão estava soltando fumaça de um buraco na parede oeste. Era uma visão gloriosa, lembrando o jorro que saía de uma mina quando a explosão acontecia, só que muito melhor, obviamente, porque eles não estavam quebrando pedras. Eles estavam quebrando uma porra de instituição estadual.

Valeria a pena fazer isso mesmo que não precisassem fechar a boca delatora de Kitty McDavid.

May estava enfiando a mão na bolsa de munição quando ouviu um galho quebrar. Virou-se enquanto pegava a arma no cinto, na lombar.

Van disparou com a pistola que Fritz Meshaum tinha usado para tentar matá-la. A distância era pequena, mas ela estava exausta, e em vez de acertar Maynard

no peito, a bala só roçou o ombro e o jogou em cima da bolsa de rojões de bazuca. A arma dele, não disparada, caiu em alguns arbustos e ficou presa pelo guarda-mato.

— Irmão! — gritou ele. — Tiro! Ela atirou em mim!

Low largou a bazuca e pegou o rifle que estava ao seu lado. Com um deles fora de serviço, Van podia se dar ao luxo de se concentrar. Ela apoiou a arma no centro dos consideráveis seios e puxou o gatilho. A boca de Little Low explodiu, o cérebro saiu pela parte de trás do crânio, e ele aspirou os próprios dentes com o suspiro final.

— Low! — gritou Maynard. — Irmão!

Ele pegou a arma pendurada no arbusto, mas antes que pudesse mirar, seu pulso foi segurado por uma coisa que era mais uma algema de ferro do que uma mão humana.

— Você devia saber que não é para apontar uma arma para uma campeã de queda de braço, mesmo depois de ela ter passado uma semana sem dormir —

disse Van com uma voz estranhamente gentil, torcendo a mão. De dentro do pulso de May veio o som de galhos se quebrando. Ele gritou. A arma caiu de sua mão, e Van a chutou para longe.

— Você atirou no Low — balbuciou Maynard. — Matou ele!

— Matei mesmo.

A cabeça de Van estava apitando; seu quadril latejava; parecia que ela estava de pé em um convés em águas tormentosas. Estava perto do fim de sua resistência considerável e sabia disso, mas aquilo foi uma visão mais útil do que se matar, sem dúvida nenhuma. Só que, e agora?

May tinha a mesma pergunta, ao que parecia.

— O que você vai fazer comigo?

Eu não posso amarrar ele, pensou Van. Não tenho nada com que fazer isso. Vou simplesmente dormir e deixar que ele fuja? Provavelmente depois de atirar em mim algumas vezes enquanto meu casulo cresce?

Ela olhou para a prisão, onde um trailer esmagado e um buldôzer em chamas bloqueavam a porta de entrada. Meditou sobre o buraco que o primeiro disparo de bazuca tinha feito na Ala C, onde dezenas de mulheres estavam dormindo, indefesas em seus casulos. Quantas haviam sido mortas por aqueles babacas

caipiras?

— Qual dos dois você é? Lowell ou Maynard?

— Maynard, moça. — Ele tentou dar um sorriso.

— Você é o burro ou o inteligente, Maynard?

O sorriso dele aumentou.

— Eu sou o burro, sem dúvida. Repeti a escola e abandonei no sétimo ano. Eu faço o que Lowell manda.

Van retribuiu o sorriso.

— Bom, acho que vou deixar você ir embora, Maynard. Sem maiores problemas. Você tem uma picape lá embaixo. Dei uma olhada, e as chaves estão na ignição. Acho que você consegue chegar no centro turístico South of the Border ao meio-dia, se pisar fundo. Então, por que você não vai logo, antes que eu mude de ideia?

— Obrigado, moça.

May começou a correr entre as lápides do pequeno cemitério. Van pensou brevemente em cumprir a promessa, mas havia boas chances de ele voltar e a encontrar dormindo ao lado do irmão morto. Mesmo que não voltasse, eles tinham rido da emboscada imunda que tinham feito como garotos jogando bolas de beisebol em garrafas de madeira durante uma feira de interior. Ela também não ousava deixá-lo ir longe, porque não confiava mais na própria mira.

Pelo menos, ele não saberia o que o atingiu, pensou ela.

Van levantou a pistola de Meshaum e, não sem lamentar, meteu uma bala nas costas de May. “Uf” foi a palavra final dele na mãe terra, na hora que caiu para a frente em uma pilha de folhas secas.

Van se sentou com as costas em uma lápide torta, tão velha que o nome entalhado estava quase totalmente apagado, e fechou os olhos. Sentia-se mal por ter atirado em um homem pelas costas, mas essa sensação foi rapidamente sufocada por uma onda crescente de sono.

Ah, era tão bom se entregar.

Fios começaram a surgir da pele. Voaram lindamente de um lado para outro na brisa matinal. Seria mais um lindo dia no interior montanhoso.

13

O vidro deveria ser à prova de balas, mas dois tiros de curta distância do M4 que Willy carregava arrancaram a janela de Clint da moldura. Clint pulou para dentro e caiu em cima da mesa (parecia que ele tinha se sentado atrás dela escrevendo relatórios e avaliações em outra vida). Ouviu gritos e berros vindo da direção do ginásio, mas não era nada que pudesse resolver naquele momento.

Ele se virou para ajudar Willy e viu o homem encostado no prédio com a cabeça abaixada. A respiração estava difícil e rápida.

Willy levantou os braços.

— Espero que você seja forte o bastante para me puxar para dentro, doutor, porque eu não vou conseguir ajudar muito.

— Me dá sua arma primeiro.

Willy entregou a M4. Clint a colocou na mesa junto com a sua arma, em cima de uma pilha de formulários de bom comportamento. Em seguida, segurou as mãos de Willy e puxou. O homem conseguiu ajudar, sim, batendo com os sapatos na parede abaixo da janela, e praticamente voou para dentro. Clint caiu para trás. Willy, em cima dele.

— É isso que eu chamo de intimidade — disse Willy. A voz estava tensa, e ele parecia pior do que nunca, mas estava sorrindo.

— Nesse caso, é melhor você me chamar de Clint. — Ele botou Willy de pé, entregou a M4 para ele e pegou a própria arma. — Vamos para a cela de Evie.

— O que a gente vai fazer quando chegar lá?

— Não faço ideia — disse Clint.

14

Drew T. Barry não conseguia acreditar no que estava vendo: duas mulheres que pareciam cadáveres e Elmore Pearl com a boca aberta em uma caverna bocejante. O maxilar inferior parecia estar caído sobre o peito.

Pearl cambaleou para longe da criatura que o segurava. Deu quase doze passos quando Maura o pegou pela gola encharcada de suor. Ela o puxou para perto e enfiou o polegar no olho direito. Houve um estalo, como uma rolha saindo de uma garrafa. Líquido viscoso escorreu pela bochecha de Pearl, e ele caiu inerte.

Kayleigh se virou desajeitadamente para Don Peters, como um brinquedo de

corda com mola gasta. Ele sabia que devia correr, mas uma fraqueza absurda pareceu tomar conta dele. Eu adormeci, pensou ele, e este é o pior pesadelo do mundo. Tem que ser, porque essa é Kayleigh Rawlings. Eu botei a puta na lista de mau comportamento mês passado. Vou deixar ela me pegar, e é nessa hora que vou acordar.

Drew T. Barry, cujo trabalho envolvia imaginar as piores coisas que podiam acontecer com as pessoas, nunca considerou a ideia de estar dormindo. Aquilo estava acontecendo, apesar de parecer algo saído direto daquele programa em que gente morta e podre voltava à vida, e ele tinha todas as intenções de sobreviver.

— Se abaixa! — gritou ele.

Don talvez não tivesse se abaixado se o explosivo plástico não tivesse sido detonado naquele momento do outro lado da prisão. Ele mais caiu do que se abaixou, mas funcionou; em vez de segurar a carne macia do rosto dele, os dedos pálidos de Kayleigh bateram no plástico duro do capacete de futebol americano.

Houve um tiro, amplificado em níveis monstruosos pelo ginásio vazio, e um disparo à queima-roupa do Weatherby, uma arma capaz de parar um elefante, literalmente, fez o serviço em Kayleigh. O pescoço dela explodiu e a cabeça pendeu para trás completamente. Seu corpo desmoronou.

Maura jogou Elmore de lado e pulou em cima de Don, um bicho-papão cujas mãos se abriam e fechavam, se abriam e fechavam.

— Atira nela! — gritou Don. A bexiga afrouxou, e o mijo quente escorreu pelas pernas, encharcando as meias.

Drew T. Barry considerou não fazer isso. Peters era um idiota, um canhão desgovernado, e talvez ficassem melhor sem ele. Ah, droga, pensou ele, tudo bem.

Porém, depois disso, sr. Guarda da Prisão, você está por conta própria.

Ele atirou no peito de Maura Dunbarton. Ela voou até o centro da quadra e caiu ao lado do falecido Elmore Pearl. Ficou ali por um momento, depois se levantou com dificuldade e partiu para cima de Don de novo, apesar de as metades de cima e de baixo parecerem não estar mais funcionando tão bem juntas.

— Atira na cabeça dela! — gritou Don (ele parecia ter esquecido que tinha uma arma). — Atira na cabeça dela como você fez com a outra!

— Você pode fazer o favor de calar a boca? — disse Drew T. Barry. Ele mirou e abriu um buraco que vaporizou o quadrante superior esquerdo do crânio de Maura Dunbarton.

— Ah, Deus — ofegou Don. — Ah, Deus, ah, Deus, ah, Deus. Vamos sair daqui. Vamos voltar para a cidade.

Por menos que Drew T. Barry gostasse do ex-guarda gorducho, ele entendia o impulso de Peters de fugir; até se solidarizava, em certo grau. Porém, não tinha se tornado o segurador mais bem-sucedido dos Três Condados desistindo de um trabalho antes do fim. Ele pegou Don pelo braço.

— Drew, elas estavam mortas! E se tiver mais?

— Não estou vendo mais nenhuma, você está?

— Mas…

— Vai na frente. Nós vamos encontrar a mulher que viemos buscar. — E, do nada, um pouco do francês do ensino médio de Drew T. Barry voltou à mente.

— Cherchez la femme.

— Xexe o quê?

— Deixa pra lá. — Drew T. Barry apontou com o rifle de ponta. Não exatamente para Don, mas para perto. — Vai na frente. Uns dez metros à frente está bom.

— Por quê?

— Porque — disse Drew T. Barry — eu acredito em precaução.

15

Enquanto Vanessa Lampley estava acabando com Maynard Griner e Elmore Pearl estava passando por uma cirurgia oral improvisada feita pelo cadáver reanimado de Maura Dunbarton, Frank Geary estava embaixo da mesa da recepção parcialmente desabada, vendo 0:46 virar 0:45 e 0:44. Não haveria ajuda vinda de fora, ele sabia disso agora. O restante dos homens lá fora estava esperando ou tinha ido embora. Se ele queria passar pela maldita estação de segurança e entrar na prisão em si, teria que fazer isso sozinho. A única alternativa era voltar correndo para fora, de quatro, e torcer para o cara atrás do vidro à prova de balas não atirar na bunda dele.

Desejou que nada daquilo tivesse acontecido. Desejou estar passeando por uma das estradas agradáveis do condado de Dooling na sua picape, procurando o quati de estimação de alguém. Se um quati domesticado sentia fome, dava para atraí-lo para perto e usar a rede com um pedaço de queijo ou carne moída na ponta da vara comprida que Frank chamava de vara de petisco. Isso o fez pensar na perna quebrada da mesa cutucando suas costas. Ele rolou de lado, pegou a perna e puxou pelo chão. Era longa o suficiente para chegar à bola de futebol letal. Era bom finalmente ter um pouco de sorte.

— O que você está fazendo? — perguntou Tig por trás do vidro.

Frank não se deu ao trabalho de responder. Se não desse certo, ele era um homem morto. Ele enfiou a ponta quebrada da perna na bola de futebol. Johnny Lee tinha garantido que nem passar de carro por cima do troço faria com que explodisse, e a vareta não disparou o explosivo. Ele ergueu a perna da mesa e se inclinou embaixo da janela com a abertura para identificação. 0:17 virou 0:16, que virou 0:15. Tig disparou uma vez, e Frank sentiu a bala passar acima dos dedos.

— Quem quer esteja aí dentro, é melhor correr — disse ele. — Corra enquanto ainda tem chance.

Seguindo o próprio conselho, Frank mergulhou na direção da porta da frente, esperando levar bala, mas Tig não disparou mais.

Tig estava espiando pelo vidro a bola de futebol branca presa na ponta da perna da mesa como um pedaço de chiclete enorme. Deu uma boa olhada no celular, onde 0:04 virou 0:03. Entendeu nessa hora o que ia acontecer. Correu para a porta que levava ao corredor da prisão. A mão estava na maçaneta quando o mundo ficou branco.

16

Do lado de fora da entrada principal, protegido do sol forte pelos restos do trailer (que nunca mais levaria Barry Holden e sua família em viagens), Frank sentiu o prédio danificado tremer com a mais recente explosão. O vidro que tinha sobrevivido às explosões anteriores graças ao arame reforçado explodiu em estilhaços cintilantes.

— Venham! — gritou Frank. — Qualquer um que tenha sobrado, venha! Nós vamos pegar ela agora!

Por um momento, não houve nada. Porém, quatro homens, Carson Struthers, o policial Treat, o policial Ordway e o policial Barrows, saíram de seus esconderijos e correram até as portas explodidas da prisão.

Eles se juntaram a Frank e desapareceram na fumaça.

17

— Puta… que… pariu — sussurrou Jared Norcross.

No momento, Michaela estava incapaz de falar, mas se viu desejando com todo o coração ter uma equipe de filmagem. Só que uma equipe não ajudaria, não é? Se o que ela estava vendo fosse transmitido, a plateia acharia que era truque de câmera. Era preciso estar presente para acreditar. Era preciso ver a mulher nua flutuando trinta centímetros acima do colchão com um celular na mão; era preciso ver os filetes verdes se retorcendo no cabelo preto.

— Oi! — disse Evie com alegria, mas sem olhar. A maior parte da atenção dela estava voltada para o celular que tinha nas mãos. — Falo com vocês em um minuto, mas agora tenho uma coisinha importante para terminar.

Os dedos dela no celular eram um borrão.

— Jared? — Era Clint. Ele parecia impressionado e com medo. — O que você está fazendo aqui?

18

Indo na frente agora (por menos que gostasse), Don Peters chegou na metade do corredor que levava à Broadway quando Norcross e um sujeito velho e barbudo com suspensórios pretos apareceram na fumaça. Norcross estava apoiando o companheiro. O homem de suspensórios andava devagar, inclinado. Don achava que ele tinha levado um tiro, apesar de não ver sangue. Vocês dois vão levar um tiro em um minuto, pensou Don, e ergueu o rifle.

Dez metros atrás, Drew T. Barry ergueu o rifle dele, embora não tivesse ideia do que Peters tinha visto; a fumaça estava densa demais, e Peters estava na frente. Nesse momento, quando Clint e Willy passaram pela Guarita e entraram

no corredor curto da Ala A que levava à cela acolchoada, um par de braços brancos e compridos saiu de dentro da enfermaria e pegou Don pelo pescoço.

Drew T. Barry olhou impressionado quando, como em um truque de mágica, Don sumiu. A porta da enfermaria foi fechada. Quando Barry correu até onde Peters estava e tentou mexer na maçaneta, viu que a porta estava trancada.

Olhou pelo vidro reforçado e viu uma mulher que parecia estar doidona de drogas segurando um cinzel no pescoço de Peters. Ela tinha tirado o capacete ridículo de futebol americano dele; estava caído no chão, virado ao lado da arma.

O cabelo fino de Peters estava grudado no crânio em mechas suadas.

A mulher, uma detenta com uniforme marrom, viu Barry olhando. Ela levantou o cinzel e sinalizou com ele. O gesto foi bem claro: Sai daqui.

Drew T. Barry pensou em atirar pelo vidro, mas isso só atrairia os resistentes que tivessem restado. Ele também se lembrou da promessa que tinha feito a si mesmo antes de atirar na segunda bicho-papão no ginásio: Depois disso, sr.

Guarda da Prisão, você está por conta própria.

Ele fez uma pequena saudação para a detenta com cara de maluca e um sinal de positivo por garantia. Em seguida, percorreu o corredor, mas com cautela.

Antes de ser pego, Peters tinha visto alguma coisa.

19

— Ah, olha o que eu achei — disse Angel. — É o cara que gosta de pegar nos peitos das garotas, girar os mamilos e se esfregar nas bundas delas até gozar na cueca.

Quando ela levantou a mão para mandar o cara do seguro embora, Don tinha se afastado e aberto certa distância entre os dois.

— Larga esse cinzel, detenta. Larga agora e não vou precisar dar uma advertência.

Continuar: parte 12 de 12