Belas adormecidas
Parte dois: Vou dormir quando morrer
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
O garoto, no banco do passageiro, se inclinou para a frente para observar a mulher meio jovem andando pela rua de short de lycra e top esportivo. A cabeça estava baixa, o cabelo suado estava balançando para a frente e para trás. Talvez ela estivesse tentando correr, mas o melhor que conseguia era um trote desajeitado.
— Peitos moles e bunda mole — disse Eric. — Se é isso que você chama de gostosa, tenho pena de você.
— Ah, caramba, tudo bem, admito a minha culpa — disse Don, rindo. —
Tudo bem, como não dá para ver a cara dela, que tal eu ficar com quinze pontos?
— Tudo bem por mim — disse Eric. — Dá uma buzinada.
Quando eles passaram pela mulher cambaleante, Don apertou a buzina. A mulher levantou a cabeça (o rosto não era feio, na verdade, exceto pelos círculos roxos grandes embaixo dos olhos fundos) e tropeçou. O pé esquerdo prendeu no tornozelo direito e ela se estatelou na calçada.
— Ela caiu! — gritou Eric. — A mulher caiu! — Ele inclinou o pescoço para olhar para trás. — Mas espera, ela está se levantando! Não está nem esperando a
contagem! — Ele começou a cantarolar o tema de Rocky soprando pelos lábios.
Don olhou pelo retrovisor e viu a mulher se levantar, trêmula. Os joelhos estavam ralados e o sangue escorria pelas canelas. Ele achou que ela ia mostrar o dedo do meio, a adolescente para quem eles buzinaram depois do começo do turno tinha feito isso, mas a mulher zumbi nem olhou em volta, só continuou andando trôpega na direção do centro.
Don disse:
— Você viu a cara dela?
— Impagável — disse Eric, e levantou a mão.
Don bateu na mão dele.
Eles tinham uma lista de ruas para percorrer, escrita em um caderno onde anotaram os endereços das casas onde havia mulheres adormecidas, junto com o nome delas e alguma espécie de identificação. Se as casas estivessem trancadas, eles podiam arrombar, o que foi divertido no começo. Don também gostava de lavar as mãos com sabonetes diferentes em banheiros diferentes, e a variedade de estilos e cores de calcinhas nas gavetas de roupas íntimas das mulheres de Dooling era um assunto que pedia seu estudo havia tempo. Porém, emoções baratas passavam rápido. Não era ação de verdade. Sem uma bunda para preenchê-las, as calcinhas perderam a graça logo. No fim das contas, ele e Júnior não passavam de agentes do censo.
— Aqui é a Ellendale Street, não é? — perguntou Don quando parou a Ram no meio-fio.
— É, sim, El Commandante. Os três quarteirões.
— Bom, vamos andar, parceiro. Vamos procurar as vagabundas e escrever o nome delas. — Mas antes que Don pudesse abrir a porta do motorista, Eric segurou o braço dele. O novato estava olhando para um terreno baldio entre a Ellendale e a escola de ensino médio.
— Quer se divertir um pouco, chefe?
— Sempre estou a fim de diversão — disse Don. — É meu sobrenome. O que você tem em mente?
— Você já botou fogo em algum?
— Casulo? Não. — Mas Don tinha visto imagens na televisão, um vídeo de celular de dois caras de máscara de hóquei acendendo um fósforo e botando fogo
em um. O noticiário chamava caras como esses de “Brigadas do Maçarico”. O
casulo no vídeo pegou fogo como uma fogueira encharcada de gasolina. Whoosh!
— Você já?
— Não — disse Eric —, mas eu ouvi falar que eles queimam rapidinho.
— O que você tem em mente?
— Tem uma mulher sem-teto que mora ali. — Eric apontou. — Se quiser chamar isso de morar, claro. Não é bom pra ela e nem pra ninguém. Nós poderíamos dar um foguinho pra ela. Só pra ver como é, sabe. Ninguém sentiria falta dela mesmo. — Eric de repente pareceu inquieto. — Claro que, se você não quiser…
— Eu não sei se quero ou não — disse Don. Era mentira. Ele queria, sim. Só de pensar, ele ficou com certo tesão. — Vamos dar uma olhada nela e decidir.
Podemos olhar a Ellendale depois.
Eles saíram do carro e seguiram para o terreno baldio cheio de mato onde ficava o abrigo da Velha Essie. Don tinha um isqueiro Zippo. Ele tirou do bolso e começou a abrir e fechar, abrir e fechar.
2
1
As mulheres começaram a chamar de “lugar novo” porque não era mais Dooling, ao menos não a Dooling que elas conheciam. Mais tarde, quando começaram a perceber que poderiam ficar ali por muito tempo, começaram a chamar de Nosso Lugar.
O nome pegou.
2
A carne tinha gosto do fluido de isqueiro que era usado para acender o carvão velho do porão da sra. Ransom, mas elas comeram toda a perna que Lila tinha arrancado do corpo do lince no qual havia atirado com a arma de serviço e retirado da piscina fétida.
— Nós somos esquisitas — disse Molly naquela primeira noite, lambendo a gordura dos dedos e pegando outro pedaço. Ser esquisita não parecia algo ruim para ela.
— Isso mesmo, querida — disse a avó dela —, mas não posso mentir que essa comida está bem gostosa. Me passa outro pedaço, senhora xerife.
Elas tinham se abrigado nos restos da casa da sra. Ransom, sem experimentar nada das comidas enlatadas na despensa porque Lila estava com medo de botulismo. Elas se alimentaram por duas semanas basicamente de frutas silvestres que colheram dos arbustos do antigo bairro de subúrbio e de pequenas espigas de milho selvagem, duro e quase sem gosto, mas pelo menos comestível.
Maio era muito cedo para frutas silvestres e para milho, mas elas encontraram
ambos mesmo assim.
Disso Lila tirou uma conclusão, incerta no começo, mas ficando cada vez mais sólida: a versão de Dooling onde elas estavam se movia em um ritmo diferente de tempo da Dooling onde elas tinham estado antes. O tempo parecia o mesmo, mas não era. A sra. Ransom confirmou que tinha ficado sozinha por vários dias até Molly aparecer. As horas no lugar antigo (antes?) eram dias no novo (agora?). Talvez mais do que dias.
Essa preocupação com fluxos de tempo diferentes ocupava Lila nos minutos antes de o sono a levar. Muitos dos lugares onde elas dormiam ficavam a céu aberto — árvores caídas abriram buracos em alguns telhados, o vento tinha arrancado outros —, e Lila piscava para as estrelas enquanto adormecia. As estrelas eram as mesmas, mas a intensidade do brilho era chocante. Eram fagulhas brancas e quentes. Era real aquele mundo sem homens? Era o paraíso?
O purgatório? Um universo alternativo em um fluxo temporal alternativo?
Mais mulheres e crianças chegaram. A população começou a crescer rapidamente, e apesar de Lila não querer o trabalho, ela se viu no comando. De forma automática, ao que parecia.
Dorothy Harper, do Comitê Curricular, e as amigas dela, três mulheres alegres de cabelos brancos, na casa dos setenta anos, que se apresentaram como amigas do clube do livro, surgiram da floresta que cresceu em volta de um condomínio. Elas mimaram bastante Molly, que adorava ser mimada. Janice Coates chegou caminhando pela Main Street, com uma folha presa no permanente destruído, acompanhada de três mulheres com uniforme da prisão.
Janice e as três antigas detentas (Kitty McDavid, Celia Frode e Nell Seeger) precisaram abrir caminho pelo mato para sair do Instituto Penal de Dooling.
— Boa tarde, moças — disse Janice depois de abraçar Blanche McIntyre e Lila. — Perdoem nossa aparência. Acabamos de fugir da cadeia. Agora, qual de vocês furou o dedo em uma roca e criou essa confusão?
Algumas das residências antigas estavam habitáveis e recuperáveis. Outras estavam absurdamente tomadas de mato ou desmoronadas, ou as duas coisas. Na Main Street, elas olharam de queixo caído para a escola de ensino médio, que já era um prédio ultrapassado na antiga Dooling. Nessa nova, estava literalmente partido ao meio, cada metade da estrutura caída em direções opostas, e com
aberturas entre os tijolos irregulares. Pássaros pousavam no linóleo das salas de aula que se projetavam para o alto. O prédio municipal, que incluía a prefeitura e a delegacia, estava meio desmoronado. Havia um buraco aberto na Malloy.
Tinha um carro no fundo, submerso até o para-brisa em água da cor de café.
Uma mulher chamada Kayleigh Rawlings se juntou à colônia e ofereceu sua experiência como eletricista. Não era surpresa para a antiga diretora, que sabia que Kayleigh tinha feito curso profissionalizante para aprender sobre fiações e voltagens. O fato de Kayleigh e seus estudos terem saído de dentro do Instituto Penal de Dooling não era problema. A mulher não havia cometido nenhum crime no lugar novo, debaixo daquelas estrelas brilhantes demais.
Kayleigh conseguiu ressuscitar um gerador movido a energia solar ligado no que já tinha sido a casa de um médico rico, e elas cozinharam coelho no fogão elétrico dele e ouviram discos velhos no jukebox Rock-Ola vintage.
À noite, elas conversavam. A maioria das mulheres tinha passado pela mesma experiência, como Lila na viatura na entrada da casa da sra. Ransom, de despertar no lugar onde tinham adormecido. Porém, algumas outras se lembravam de perceber que estavam no escuro, sem ouvir nada além de vento, canto de pássaros e talvez vozes distantes. Quando o sol nasceu, essas mulheres abriram caminho para oeste pela floresta e chegaram ou em Ball’s Hill Road ou em West Lavin. Para Lila, a imagem que elas ofereceram dos primeiros momentos era de um mundo se formando, como se as cercanias da existência delas fosse um ato de imaginação coletiva. Ela pensou que isso era tão provável quanto qualquer outra ideia.
3
Um dia atrás do outro, uma noite atrás da outra. Exatamente quantos desde o primeiro dia, ninguém sabia ao certo, mas semanas, certamente, e depois meses.
Um grupo de caça e coleta foi formado. Havia muitos animais, principalmente cervos e coelhos, assim como muitas frutas selvagens, legumes e verduras. Elas nunca chegaram perto de passar fome. Havia um grupo agricultor, um grupo construtor, um grupo de cuidados com saúde e um grupo educador para dar aulas às crianças. Cada manhã, uma garota diferente parava na frente da
escolinha e tocava um sino. O som se espalhava por quilômetros. Mulheres ensinavam; algumas das garotas mais velhas também.
Nenhum vírus as infectou, mas houve muitos casos de urticária para resolver, além de muitos cortes e machucados, até mesmo ossos quebrados resultantes dos perigos inerentes de estruturas havia muito abandonadas — beiradas afiadas, desabamentos e armadilhas escondidas. Se aquele mundo fosse um fruto da imaginação, Lila às vezes pensava quando estava adormecendo, era incrivelmente forte se era capaz de fazer as pessoas sangrarem.
No porão da escola, onde uma variedade de mofo fez a festa nos arquivos cheios de transcrições com décadas de idade, Lila descobriu um mimeógrafo que não devia ser usado desde os anos 1960. Estava bem embalado em uma caixa de plástico. Algumas das antigas detentas da prisão acabaram se mostrando incrivelmente talentosas. Elas ajudaram Molly Ransom a fazer tinta a partir de groselha do pântano, e a garota criou um jornal de uma folha só chamado Feitos de Dooling. A primeira manchete foi ESCOLA REABRE!, e ela citou Lila Norcross por ter dito: “É bom ver as crianças voltando à rotina”. Molly perguntou a Lila qual era seu título, Chefe de Polícia de Dooling ou simplesmente xerife. Lila disse para chamá-la só de “uma cidadã”.
E havia as Reuniões. Elas aconteciam uma vez por semana, no começo, depois duas, e duravam uma ou duas horas. Apesar de acabarem sendo extremamente importantes para a saúde e o bem-estar das mulheres que moravam em Nosso Lugar, elas começaram a acontecer quase por acidente. As primeiras presentes foram as senhoras que se intitulavam o Clube do Livro da Primeira Quinta-feira, no mundo antigo. No novo, elas se reuniam no supermercado Shopwell, que estava incrivelmente bem preservado. E elas tinham assunto suficiente para conversar mesmo sem um livro como tópico. Blanche, Dorothy e Margaret e Gail, que eram irmãs, se sentavam em cadeiras dobráveis na frente do mercado e conversavam sobre todas as coisas de que sentiam falta. Isso incluía café fresco e suco de laranja, ar-condicionado, televisão, coleta de lixo, internet e poder pegar o telefone e ligar para uma amiga. Porém, mais do que tudo, e todas concordavam com isso, elas sentiam falta dos homens. Mulheres mais jovens começaram a chegar e foram bem recebidas. Elas conversavam sobre os vazios em suas vidas, lugares que antes eram ocupados por filhos, sobrinhos, pais, avôs… e maridos.
— Quero dizer uma coisa — disse Rita Coombs em uma reunião perto do final do primeiro verão, e àquela altura já havia quase cinquenta mulheres presentes. — Pode ser franqueza demais para algumas de vocês, mas não ligo.
Sinto falta de uma boa trepada de sexta à noite. Terry era rápido demais no gatilho no começo do nosso relacionamento, mas quando treinei bem, ele era bom. Tinha noites em que eu conseguia ter dois pequenos e um grande antes de ele disparar a arma. E depois? Eu dormia como um bebê!
— Seus dedos não funcionam? — perguntou alguém, gerando gargalhadas generalizadas.
— Funcionam, sim! — retorquiu Rita. Ela também estava rindo, as bochechas vermelhas como maçãs. — Mas querida, não é a mesma coisa!
Isso gerou uma salva de palmas entusiasmadas, mas algumas mulheres, como Candy, a esposa retraída de Fritz Meshaum, por exemplo, se abstiveram.
As duas grandes perguntas surgiram, claro, de cem maneiras diferentes.
Primeiro, como elas tinham ido parar ali, em Nosso Lugar? E por quê?
Foi magia? Foi um experimento científico que deu errado? Foi desejo de Deus?
A continuação da existência delas era recompensa ou punição?
Por que elas?
Kitty McDavid era oradora frequente quando a discussão assumia essa direção; a lembrança do pesadelo que havia tido na véspera da Aurora, com a figura escura que ela reconheceu como uma rainha e as teias que fluíram do cabelo, permanecia vívida, ainda a assombrando.
— Não sei o que fazer, se devo rezar por perdão ou o quê — disse ela.
— Ah, que se foda — aconselhou Janice Coates. — Você pode fazer o que quiser, já que o papa não está aqui para criar regras, mas eu vou continuar fazendo o melhor que posso. O que mais há para fazer, sinceramente, que sabemos que pode fazer diferença? — Isso também agradou em massa.
No entanto, a pergunta “Que porra aconteceu?” era renovada toda hora. Sem satisfação duradoura.
Em uma Reunião (foi pelo menos meio ano depois do que Janice Coates gostava de chamar de Grande Deslocamento), uma nova frequentadora chegou e
se acomodou em um saco de vinte e cinco quilos de fertilizante nos fundos do salão. Ela manteve a cabeça baixa durante a discussão animada da vida como era agora e da notícia de uma descoberta maravilhosa no escritório da transportadora UPS: nove caixas de Lunapads, que eram absorventes reutilizáveis.
— Chega de cortar camisetas para enfiar na calcinha naquela época do mês!
— disse Nell Seeger, exultante. — Aleluia!
Perto do final da Reunião, a conversa se desviou, como sempre acontecia, para as coisas das quais elas sentiam falta. Essas discussões quase sempre geravam lágrimas pelos meninos e homens, mas a maioria das mulheres dizia que se sentia ao menos temporariamente sem um peso nas costas. Aliviadas.
— Nós terminamos, moças? — perguntou Blanche nesse dia em particular. —
Alguém tem um desejo ardente a compartilhar antes de voltarmos ao trabalho?
Uma mão pequena se levantou, os dedos sujos de várias cores diferentes de giz.
— Sim, querida — disse Blanche. — Você é nova, não é? E muito pequena!
Você pode ficar de pé?
— Bem-vinda — disseram as mulheres em coro, virando-se para olhar.
Nana Geary se levantou. Limpou as mãos na frente da camiseta, que agora estava muito gasta e rasgada nas mangas… mas ainda era a favorita dela.
— Minha mãe não sabe que estou aqui — disse ela —, e espero que ninguém conte.
— Querida — disse Dorothy Harper —, aqui é como Vegas. O que acontece na Hora das Mulheres fica na Hora das Mulheres.
Isso gerou um murmúrio de gargalhadas, mas a garotinha com camiseta rosa desbotada nem sorriu.
— Eu só quero dizer que sinto falta do meu pai. Eu entrei na Pearson’s Drug e encontrei a loção pós-barba que ele usa, o nome é Drakkar Noir, e senti o cheiro e comecei a chorar.
A parte da frente do supermercado ficou em silêncio mortal, com exceção de algumas fungadas. No fim das contas, Nana não tinha sido a única a visitar as prateleiras de loção pós-barba na Pearson’s Drug.
— Acho que é só isso — disse Nana. — Só que… eu sinto falta dele e queria poder ver ele de novo.
Elas a aplaudiram.
Nana se sentou e cobriu o rosto com as mãos.
4
Nosso Lugar não era uma utopia. Havia lágrimas, mais do que algumas discussões, e, durante o primeiro verão, houve um assassinato seguido de suicídio que chocou a todas, principalmente porque não fazia sentido. Maura Dunbarton, outra refugiada do Instituto Penal de Dooling do mundo anterior, estrangulou Kayleigh Rawlings e tirou a própria vida. Foi Coates quem chamou Lila para ver.
Maura estava pendurada em uma forca amarrada na barra enferrujada de um balanço de quintal. Kayleigh foi descoberta no quarto que elas compartilhavam, morta no saco de dormir, com o rosto cinzento e a esclera dos olhos abertos coberta de hemorragias. Ela foi estrangulada e esfaqueada mais de dez vezes.
Maura deixou um bilhete, rabiscado em um pedaço de envelope.
O mundo está diferente, mas eu sou a mesma. Vocês vão ficar melhor sem mim. Eu matei Kayleigh sem motivo. Ela não me irritou nem iniciou nada. Eu ainda amava ela, como na prisão. Sei que ela era útil para vocês.
Não consegui me controlar. Fiquei com vontade de matar ela e matei. Me arrependi. — Maura
— O que você acha? — perguntou Lila.
— Acho que é um mistério, como tudo aqui. Acho uma pena que, na hora de a escrota maluca matar alguém, tenha escolhido a única em Nosso Lugar que sabia ligar fios e montar um circuito. Agora sobe e corta a corda enquanto eu seguro as pernas dela.
Coates se aproximou e, sem cerimônia, passou os braços pelas pernas curtas de Maura Dunbarton. Ela olhou para Lila.
— Anda logo, vai, não me deixa esperando. Pelo cheiro, parece que ela cagou na calça. O suicídio é tão glamouroso.
Elas enterraram a assassina e sua vítima infeliz em frente à cerca frouxa que envolvia a prisão. Já era verão de novo, iluminado e quente, com insetos pulando pela grama. Coates falou algumas palavras sobre a contribuição de Kayleigh à
comunidade e o ato intrigante de homicídio de Maura. Um coral de crianças cantou “Amazing Grace”. A voz das garotinhas fez Lila chorar.
Ela tinha ido buscar várias fotos de Jared e Clint em casa e às vezes ia às Reuniões, mas, com o passar do tempo, o filho e o marido começaram a parecer menos reais. À noite, na barraca (Lila preferia acampar enquanto o tempo ainda estava clemente), ela ligava a lanterna e observava o rosto deles na luz. Quem Jared se tornaria? Ele ainda tinha bochechas arredondadas, mesmo nas fotos mais recentes. Doía não saber.
Ela olhou para a imagem do marido, o sorriso irônico e o cabelo grisalho, e sentiu falta dele, embora não tanto quanto sentia de Jere. Suas desconfianças sobre Clint naquele último dia horrível a constrangiam; suas mentiras e medos sem sentido a deixavam com vergonha. Porém, Lila também percebeu que estava enxergando o marido de um jeito diferente agora que o via pelas lentes da memória. Ela pensou em como ele tinha pavimentado o passado com cuidado, em como havia usado a autoridade de médico para reforçar as coisas que escondia e a afastar delas. Clint achava que só ele era capaz de lidar com aquele tipo de dor? Que era demais para sua mente pequena e seu espírito fraco absorverem? Ou era um tipo de egoísmo mascarado como força? Ela sabia que os homens aprendiam (primariamente de outros homens, claro) que deviam guardar a dor para si mesmos, mas ela também sabia que o casamento devia desfazer um pouco desse aprendizado. Não foi assim com Clint.
E tinha a piscina. Ela ainda sentia raiva. E de como ele havia largado o emprego sem nem avisar, tantos anos antes. E um milhão de pequenas decisões ao longo do tempo, tomadas por ele e com as quais ela tinha que viver. Isso fazia com que ela se sentisse uma Esposa de Stepford, mesmo com o marido em outro mundo.
Corujas piaram na escuridão, e cachorros, selvagens depois de sei lá quantas gerações caninas, uivaram. Lila fechou a barraca. A lua brilhava azul pelo tecido amarelo. Lembrar-se de toda a novela doméstica a deprimiu, as partes dela e as partes dele, as conversas, ele bate uma porta, ela bate outra. A merda teatral para a qual ela sempre tinha olhado com desprezo no casamento das outras pessoas.
Condescendência, seu nome é Lila, ela pensou, e teve que rir.
5
As cercas vivas que antes envolviam a prisão floresceram densamente. Lila entrou pelo corte improvisado na folhagem que Coates e as outras mulheres que despertaram lá dentro tinham aberto. A entrada na prisão em si era por um buraco na parede sul. Alguma coisa, Lila achava que o fogão industrial a gás na cozinha, tinha explodido, jogando longe o concreto com a facilidade de uma criança soprando uma vela de aniversário. Ao entrar, ela quase esperava sair em outro lugar (uma praia branca, uma via de paralelepípedos, uma montanha rochosa, Oz), mas quando chegou era só uma ala de antigas celas. As paredes estavam meio desmoronadas, algumas das portas com grades arrancadas das dobradiças. Ela pensou que a detonação devia ter sido excepcional. Havia mato crescendo no chão e mofo se espalhando no teto.
Ela passou pela ala destruída e saiu no corredor central da prisão, o que Clint chamava de Broadway. As coisas estavam melhor lá. Lila seguiu a linha vermelha pintada no meio do corredor. Os vários portões e barreiras estavam destrancados; as janelas reforçadas por arame que davam para as partes da prisão (refeitório, biblioteca, a Guarita) estavam embaçadas. Onde a Broadway chegava na porta da frente havia outra seção que mostrava sinais de explosão: blocos de concreto quebrados, pedaços poeirentos de vidro, a porta de aço que separava a entrada verdadeira da prisão entortada para dentro. Lila desviou dos destroços.
Mais adiante, ainda na Broadway, ela passou pela porta aberta da sala dos funcionários. Lá dentro, nasciam cogumelos no carpete. O ar fedia a vida vegetal entusiasmada.
Ela acabou chegando na sala de Clint. A janela do canto estava explodida, e parte de um arbusto crescia para dentro, cheio de flores brancas. Um rato gordo remexia no enchimento de uma almofada rasgada do sofá. Ele olhou para Lila por um momento e correu para a segurança em uma pilha de parede desmoronada.
A gravura de Hockney pendurada atrás da mesa de seu marido estava torta, inclinada para a direita. Ela a ajeitou. A imagem mostrava um prédio simples da cor de areia com fileiras de janelas com cortinas idênticas. No térreo, o prédio tinha duas portas. Uma era azul e a outra vermelha: exemplos das famosas cores
de Hockney, fortes como os sentimentos despertados por boas lembranças, mesmo que as lembranças em si fossem fracas… e as possibilidades de interpretação atraíram Lila. Ela tinha dado a gravura para Clint muitos anos antes, pensando que ele poderia apontar para ela e dizer para os pacientes:
“Estão vendo? Nada está fechado para você. Há portas para uma vida mais saudável e mais feliz”.
A ironia era tão evidente quanto a metáfora. Clint estava em outro mundo.
Jared estava em outro mundo. Até onde ela sabia, um ou os dois podiam estar mortos. A gravura de Hockney pertencia aos ratos, ao mofo e ao mato daquele mundo. Era um mundo quebrado, vazio e esquecido, mas era o que elas tinham.
Era Nosso Lugar, pelo amor de Deus. Lila saiu da sala e percorreu de volta o caminho pelo mundo morto da prisão até o buraco na folhagem. Ela queria ir embora.
6
Durante aqueles meses, mais mulheres continuaram aparecendo vindas do que James Brown já tinha chamado de “mundos dos homens, dos homens, dos homens”. Elas relataram que, em Dooling, onde tinham adormecido, a crise da Aurora ainda era recente; lá, só dois ou três dias tinham se passado. A violência, a confusão e o desespero dos quais elas falavam parecia irreal para as primeiras que haviam chegado àquele lugar. Mais ainda: quase não parecia importante. As mulheres daquele mundo tinham os próprios problemas e preocupações. Uma delas era o tempo. O verão tinha acabado. Depois do outono, o inverno chegaria.
Com a ajuda de manuais da biblioteca e com a supervisão da responsável duvidosa que era Magda Dubcek, viúva de um empreiteiro (sem mencionar mãe do cara da piscina de Lila), elas conseguiram terminar pelo menos parte do trabalho que Kayleigh tinha começado antes de ser assassinada pela ex-namorada maluca. O falecido marido de Magda tinha ensinado bastante coisa sobre eletricidade para ela.
— Meu marido me dizia o que estava fazendo todos os dias. “Olha, aqui está o fio elétrico, Magda, e esse é o fio terra”, e assim por diante. Eu ouvia. Ele não sabia, achava que estava falando com a parede, mas eu ouvia. — Nessa hora,
Magda parou para fazer uma expressão maliciosa que levou Lila a se lembrar dolorosamente de Anton. — Bom, nas primeiras quinhentas vezes eu ouvi, pelo menos.
Com energia retirada de alguns painéis solares que tinham sobrevivido aos anos de abandono, elas conseguiram criar uma rede elétrica limitada para pelo menos algumas das casas mais altas.
Carros comuns eram inúteis; era impossível determinar quanto tempo aquela versão do mundo havia ficado abandonada, mas o estado dos carros estacionados dava a dica de que tinha sido tempo suficiente para a umidade deteriorar os motores. Um carro guardado em uma garagem ainda de pé talvez estivesse em condições, mas não havia uma gota de gasolina que não estivesse desestabilizada ou evaporada. O que as mulheres encontraram foi uma pequena frota de carrinhos de golfe movidos a energia solar bem preservados no barracão de equipamentos do country clube. Quando foram recarregados, funcionaram na mesma hora. As mulheres os dirigiam pelas ruas que tinham sido desobstruídas de todas as árvores e folhagem.
Assim como o Shopwell, o Olympia Diner aguentou a passagem do tempo incrivelmente bem, e Rita Coombs, antes esposa de Terry, reabriu-o no esquema de troca.
— Eu sempre quis tentar ter um restaurante — explicou ela a Lila —, mas Terry nunca quis que eu trabalhasse. Disse que deixaria ele preocupado. Terry nunca conseguiu entender como era chato ser uma peça de porcelana em um armário.
Ela falou com leveza, mas manteve o olhar desviado de uma forma que Lila achou que fosse de vergonha, vergonha por ser feliz de ter uma coisa dela. Lila torcia para que Rita superasse aquilo e achava que acabaria conseguindo. Muitas delas se sentiam mudadas, mas de certa forma isso também podia conter aquele toque de vergonha, como se elas estivessem matando aula. Mulheres como Magda e Rita, que de repente se viam necessárias e floresciam na luz de um novo mundo. Conforme as semanas iam passando, elas discutiam não só aquilo de que sentiam falta, mas também um pouco do que não estava fazendo falta alguma.
As folhas mudaram como acontecia no mundo antigo, mas para Lila as cores pareciam mais vibrantes e duradouras.
Ela estava no jardim da sra. Ransom um dia no que parecia o final de outubro, colhendo abóboras para as estudantes esculpirem. A Velha Essie, sentada em um banco na sombra, estava olhando para ela. Ao lado do banco estava um carrinho de compras enferrujado cheio de coisas que Essie havia recolhido, como se tentando reabastecer a vida nova com lembranças da velha: um rádio, um celular, um monte de roupas, uma coleira de cachorro, um calendário de 2007, uma garrafa de alguma coisa sem rótulo, mas que podia ter sido xarope de bordo um dia, e um trio de bonecas. Ela gostava de ir atrás de Lila quando a via com o chapéu de palha de abas largas empurrando o carrinho de mão cheio de ferramentas de jardinagem.
A velha senhora ficou em silêncio no começo e se afastava sempre que alguém chegava perto, mas, com o passar das semanas, começou a relaxar, ao menos perto de Lila. Às vezes ela até falava, embora Lila achasse que ela nunca tinha sido boa de conversa, nem em sua melhor época.
— As coisas estão melhores agora — disse Essie uma vez. — Eu tenho minha própria casa. — Ela olhou com carinho para as bonecas no colo. — Minhas garotas gostam. Os nomes delas são Jingle, Pingle e Ringle.
Lila perguntou, nessa ocasião, qual era o sobrenome dela.
— Já foi Peterson — disse Essie —, mas agora é Estabrook. Eu voltei a usar meu nome de solteira, como aquela Elaine. Este lugar é melhor do que o antigo, e não só porque estou usando meu nome de solteira e tenho minha própria casa.
O cheiro é mais doce.
Naquele dia, Essie parecia estar mais introspectiva de novo. Quando Lila tentou puxar conversa, ela balançou a cabeça, fez um movimento vigoroso para Lila se afastar e remexeu no carrinho enferrujado. De dentro, tirou um rádio Philco antigo e começou a jogar de uma mão para a outra. Lila não tinha o menor problema com isso; ela que brincasse de batata quente até cansar, se era o que aliviava a mente.
Quando estava se preparando para parar e almoçar, Janice Coates chegou de bicicleta.
— Xerife — disse ela para Lila. — Uma palavrinha.
— Não sou mais xerife, Janice. Você não lê o Feitos de Dooling? Eu sou só uma cidadã qualquer.
Coates não se deixou abalar.
— Tudo bem, mas você precisa saber que tem gente desaparecendo. Já foram três. Gente demais para ser coincidência. Precisamos de alguém para cuidar dessa situação.
Lila examinou a abóbora que tinha acabado de cortar do pé. O alto era laranja forte, mas a parte de baixo estava preta e podre. Ela a largou com um baque na terra cultivada.
— Fale com o Comitê de Redesenvolvimento ou toque no assunto na próxima Reunião. Eu estou aposentada.
— Pare com isso, Lila. — Coates, empoleirada no assento da bicicleta, cruzou os braços ossudos. — Não me venha com essa merda. Você não está aposentada, está deprimida.
Sentimentos, pensou Lila. Os homens quase nunca queriam falar sobre eles, as mulheres quase sempre queriam. Podia ser tedioso. Isso ocorreu a ela com surpresa. Ocorreu a ela que talvez precisasse reavaliar parte de seus ressentimentos pelo estoicismo de Clint.
— Eu não consigo, Janice. — Lila andou pela fileira de abóboras. — Me desculpe.
— Eu também estou deprimida — disse Janice. — Eu talvez nunca mais veja minha filha. Penso nela quando acordo de manhã e antes de dormir à noite.
Todos os dias. E sinto falta de ligar para os meus irmãos. Mas não vou deixar isso…
Houve um baque seco e um grito baixo atrás delas. Lila olhou ao redor. O
rádio estava na grama ao lado de Jingle, Pingle e Ringle. As bonecas olhavam para o céu sem nuvens com suas expressões inertes e angelicais. Essie tinha sumido. Havia só uma mariposa marrom no lugar onde ela estivera. Bateu as asas sem direção por um momento, depois saiu voando para longe, deixando para trás um leve odor de fogo.
3
1
— Puta que pariu! — gritou Eric Blass. Ele estava sentado no chão, olhando para cima. — Você viu aquilo?
— Ainda estou vendo — respondeu Don, olhando para o bando de mariposas voando sobre as quadras de tênis na direção da escola. — E sentindo o cheiro.
Ele tinha dado seu isqueiro a Eric, já que ele havia tido a ideia (também para que ele pudesse de forma razoavelmente plausível colocar a culpa no garoto se alguém descobrisse). Eric se agachou, acendeu o Zippo e encostou na beirada do casulo naquele buraco cheio de tralhas. O casulo se acendeu com um estalo e um brilho, como se contivesse pólvora em vez de uma sem-teto maluca. O fedor foi imediato e sulfúrico. Era como se Deus em pessoa tivesse soltado gases. A Velha Essie se sentou ereta (não que desse para ver mais do que apenas o contorno dela) e pareceu se virar para eles. Por um instante, as feições apareceram, pretas e prateadas como um negativo de foto, e Don viu os lábios dela se repuxarem em um rosnado. Em um momento, não havia mais nada dela.
A bola de fogo subiu a uma altura de menos de um metro e meio, parecendo girar. Em seguida, virou mariposas, centenas delas. Do casulo e do esqueleto, não havia sinal, e a grama onde a Velha Essie estava deitada não ficou nem chamuscada.
Não era esse tipo de fogo, pensou Don. Se fosse, nós teríamos fritado.
Eric se levantou. O rosto estava muito branco, os olhos, frenéticos.
— O que foi isso? O que acabou de acontecer?
— Eu não faço ideia — disse Don.
— Aquelas Brigadas do Maçarico, ou sei lá qual é o nome… houve algum relato de queimarem casulos que acabaram virando insetos voadores?
— Não que eu saiba. Mas pode ser que não estejam relatando essa parte.
— É, pode ser. — Eric lambeu os lábios. — É, não tem motivo para ela ser diferente.
Não, não havia motivo para a Velha Essie ser diferente de todas as outras mulheres adormecidas do mundo. Porém, Don conseguia pensar em um motivo para as coisas em Dooling serem diferentes. As coisas podiam ser diferentes ali porque havia uma mulher especial ali, uma que dormia sem um casulo crescer em volta dela. E que acordava.
— Vem — disse Don. — Temos trabalho a fazer na Ellendale Street. Sacos de puta pra contar. Nomes pra escrever. Isso aqui… isso nunca aconteceu. Certo, parceiro?
— Certo. Sem dúvida.
— Você não vai falar sobre isso, vai?
— Jesus, não!
— Que bom.
Mas eu talvez fale, pensou Don. Só que não com Terry Coombs. Don só precisou de dois dias para chegar à conclusão de que o homem era praticamente inútil.
Como é que se dizia? Um testa de ferro. E parecia ter um problema com bebida, o que era verdadeiramente patético. Pessoas que não conseguiam controlar seus impulsos lhe causavam repugnância. Porém, aquele Geary, o que Terry tinha escolhido como policial-chefe… Ele era inteligente e estava muito interessado na tal Evie Black. Ele a soltaria em breve, se já não tivesse feito isso. Era com ele que Don devia falar sobre aquilo, se fosse necessário falar.
No entanto, ele precisava pensar primeiro.
Com muito cuidado.
— Don?
Eles estavam de volta na picape.
— O que, garoto?
— Ela viu a gente? Pareceu que viu.
— Não — disse Don. — Ela não viu nada, só explodiu. Não seja bicha, Júnior.
2
Terry disse que queria ir para casa e pensar no próximo passo. Frank, que tinha certeza de que o próximo passo do xerife em exercício seria se deitar para dormir e fazer o porre passar, disse que era uma boa ideia. Ele levou Terry até a porta de casa e dirigiu direto para a delegacia. Lá, encontrou Linny Mars andando em círculos com um laptop nas mãos. Havia uma casquinha de pó branco nas narinas dela. As bochechas estavam de um vermelho intenso. Os olhos estavam turvos e afundados. Do laptop vinha o som familiar de caos.
— Oi, Pete.
Ela o estava chamando de Pete desde a manhã. Frank não se deu ao trabalho de corrigir. Se fizesse isso, ela lembraria que ele era Frank por alguns minutos, depois voltaria para Pete. A perda da memória recente era comum entre as mulheres que ainda estavam acordadas. Os lobos frontais estavam derretendo como manteiga em uma panela quente.
— O que você está vendo?
— Vídeos no YouTube — disse ela, sem reduzir a velocidade do circuito pelo escritório. — Eu poderia ver da minha mesa, sabe, a tela do desktop é muito maior, mas cada vez que me sento, começo a flutuar. Andar é melhor.
— Entendi. O que está acontecendo? — Não que ele realmente precisasse de uma atualização. Frank sabia o que estava acontecendo: coisas ruins.
— São vídeos da Al Jazeera. Todas as redes de notícias estão enlouquecendo, mas a Al Jazeera está batendo os recordes. O Oriente Médio inteiro está em chamas. Petróleo, sabe. Poços de petróleo. Pelo menos ainda não soltaram bombas, mas alguém vai acabar soltando uma. Você não acha?
— Não sei. Linny, será que você pode pesquisar uma coisa para mim? Tentei no celular, mas não consegui nada. Acho que os funcionários da prisão são bem cuidadosos com suas informações pessoais.
Linny estava andando mais rápido agora, ainda olhando para o laptop, que estava segurando na frente do corpo como um cálice. Ela tropeçou em uma cadeira, quase caiu, se endireitou e continuou andando.
— Os xiitas estão lutando com os sunitas, e o ISIS está lutando com os dois. A Al Jazeera botou um painel de comentaristas, e eles parecem achar que é porque
as mulheres adormeceram. Eles dizem que, sem mulheres para proteger, embora a ideia de proteção deles não seja a mesma que a minha, um controle psicológico central do judaísmo e do islamismo se foi. Como se essas duas coisas fossem o mesmo. Basicamente, ainda culpando as mulheres, mesmo depois de elas terem dormido. Loucura, né? Na Inglaterra…
Chega de notícias do mundo, pensou Frank. Ele bateu palmas repetidamente na frente do rosto de Linny.
— Eu preciso que você faça seu trabalho por um minuto, querida. Você pode fazer isso por mim?
Ela ficou atenta.
— Claro! Do que você precisa, Pete?
— Terry me pediu para pegar o endereço de Lawrence Hicks. Ele é o vice-diretor do Instituto Penal. Você consegue para mim?
— É moleza, mamão com açúcar, mel na chupeta. Tenho todos os números de telefone e endereços. Para o caso de haver problema lá, sabe.
No entanto, acabou não sendo moleza, no fim das contas. Não no estado em que Linny se encontrava. Frank esperou pacientemente enquanto ela se sentava à mesa, primeiro tentando um arquivo e desistindo, depois outro, um terceiro, sacudindo a cabeça e xingando o computador como as pessoas faziam mesmo quando a culpa era delas. Houve um momento em que Linny começou a cochilar, e ele viu um fio branco sair de sua orelha. Ele bateu palmas na frente do nariz dela.
— Se concentra, Linny, está bom? Isso pode ser importante.
Ela levantou a cabeça. O fio se partiu, flutuou, desapareceu. Ela deu um sorriso torto para ele.
— Entendido. Ei, lembra aquela noite em que dançamos de trenzinho no Halls of Ivy em Coughlin e ficavam tocando aquela música, “Boot-Scootin’
Boogie”?
Frank não tinha ideia do que ela estava dizendo.
— Claro. Lawrence Hicks. O endereço.
Ela finalmente encontrou. Clarence Court 64, no lado sul da cidade. O mais longe que dava para ficar da prisão e ainda ser residente de Dooling.
— Obrigado, Linny. É melhor você tomar um café.
— Acho que vou preferir pó colombiano em vez de grãos colombianos.
Funciona melhor. Que Deus abençoe os irmãos Griner.
O telefone tocou. Linny atendeu.
— Polícia! — Ela ouviu por uns três segundos e desligou.
— Ficam ligando para perguntar: “É verdade que tem uma mulher na prisão…”. Blá-blá-blá. Eu tenho cara de jornal? — Ela abriu um sorriso desesperado e infeliz. — Não sei por que me dou ao trabalho de tentar ficar acordada. Só estou adiando o inevitável.
Ele se inclinou e tocou nos ombros dela com a ponta dos dedos; não sabia que ia fazer isso até fazer.
— Aguenta aí. Pode haver um milagre esperando depois da próxima curva.
Você não vai saber até chegar lá.
Linny começou a chorar.
— Obrigada, Dave. Foi uma coisa legal de dizer.
— Eu sou um bom homem — disse Frank, que tentava ser bom, mas achava que nem sempre era possível. No longo prazo, ele achava que ser bom não adiantava. Frank não gostava disso. Não dava prazer a ele. Ele não sabia se Elaine tinha chegado a perceber que ele não gostava de perder a cabeça. Só entendia como eram as coisas. Alguém tinha que puxar o arado, e, em Dooling, era ele.
Frank saiu, com a certeza de que, na próxima vez que visse Linny Mars, ela estaria em um casulo. O que alguns policiais tinham começado a chamar de sacos de puta. Ele não aprovava o termo, mas não os impedia de dizer. Isso era trabalho de Terry.
Afinal, ele era o xerife.
3
Atrás do volante da Unidade Quatro mais uma vez, Frank chamou pelo microfone Reed Barrows e Vern Rangle, na Unidade Três. Quando Vern respondeu, Frank perguntou se eles ainda estavam na área da Tremaine Street.
— Estamos — disse Vern —, e trabalhando rápido aqui. Não tem muitas adormecidas nesse bairro depois da casa da xerife. Você devia ver quantas placas de vende-se. Acho que a tal recuperação econômica nunca chegou aqui.
— Aham. Escutem, vocês dois, Terry disse que quer localizar a xerife Norcross e o filho dela.
— A casa deles está vazia — disse Vern. — Nós já olhamos. Eu falei isso para Terry. Acho que talvez ele tenha… — Vern deve ter percebido de repente que o que estava dizendo estava sendo transmitido. — Ele anda, você sabe, sobrecarregado de trabalho.
— Não, ele sabe disso — disse Frank. — Ele quer que vocês comecem a olhar as casas vazias também. Ele disse que lembra que tem uma rua sem saída que não foi terminada, um pouco mais para cima. Se vocês encontrarem eles, só digam oi e sigam em frente. Mas façam contato comigo imediatamente, certo?
Reed pegou o microfone.
— Acho que, se Lila não estiver acordada, Frank, ela deve ter entrado na floresta. Senão estaria em um casulo em casa ou na delegacia.
— Olha, só estou repassando o que Terry me disse. — Frank não ia dizer para aqueles dois o que parecia óbvio: Norcross estava um passo à frente. Se a esposa dele ainda estivesse acordada, ela ainda estaria no comando. Portanto, o médico ligou para o filho e mandou o garoto levar Lila para um lugar mais seguro. Era outra indicação de que o homem estava aprontando. Frank tinha certeza de que eles não estariam longe de casa.
— E onde está Terry? — perguntou Reed.
— Eu deixei ele em casa — disse Frank.
— Jesus. — Reed pareceu enojado. — Espero que ele dê conta do trabalho, Frank. De verdade.
— Corta esse papo — disse Frank. — Lembre que você está no ar.
— Entendido — disse Reed. — Vamos começar a olhar as casas vazias pela Tremaine. Aquela parte está na nossa lista mesmo.
— Ótimo. Unidade Um desligando.
Frank pendurou o microfone de volta e foi para Clarence Court. Ele queria muito saber onde estavam Lila Norcross e o filho; eles podiam ser os recursos de que ele precisava para acabar com a situação sem derramamento de sangue.
Porém, esse era o segundo ponto da sua lista. Estava na hora de conseguir algumas respostas sobre a sra. Eva Black.
4
Jared atendeu no segundo toque.
— Aqui é do CDC, filial de Dooling. Epidemiologista Jared Norcross falando.
— Não precisa disso, Jere — disse Clint. — Estou sozinho na minha sala.
Mary está bem?
— Por enquanto, sim. Ela está andando no quintal. Diz que o sol desperta ela.
Clint se sentiu levemente alarmado e disse a si mesmo para não ser tão neurótico. Tinha cercas e muitas árvores; ela ficaria bem lá atrás. Terry e seu ajudante não tinham como enviar um drone ou um helicóptero.
— Acho que ela não vai conseguir ficar acordada muito mais, pai. Nem sei como conseguiu tanto tempo.
— Nem eu.
— E não sei por que a mamãe queria que a gente ficasse aqui. Tem alguns móveis, mas a cama é dura. — Ele fez uma pausa. — Isso deve parecer frescura, né? Com tudo que está acontecendo?
— As pessoas costumam se concentrar nas coisas pequenas para impedir que as grandes sobrecarreguem elas — disse Clint. — E sua mãe estava certa, Jere.
— Você não acha que uma Brigada do Maçarico vai surgir em Dooling, acha?
Clint pensou no título de um livro antigo: Isso não vai acontecer aqui. A questão era que qualquer coisa podia acontecer em qualquer lugar. Mas não, não era com uma Brigada do Maçarico de Dooling que ele estava preocupado.
— Tem coisas que você não sabe — disse Clint —, mas como outras pessoas sabem, ou ao menos desconfiam, vou contar tudo esta noite. — Depois disso eu posso não ter mais muitas oportunidades, pensou ele.
— Vou levar jantar para você e para Mary. Pizza de carne moída e de cogumelo do Pizza Wagon parece bom? Será que ainda está aberto?
— Parece ótimo — disse Jared. — Que tal uma camiseta limpa também?
— Vai ter que ser uma camisa de guarda — disse Clint. — Eu não quero passar em casa.
Jared não respondeu de primeira. Clint ia perguntar se ele ainda estava lá quando o filho disse: — Por favor, me diga que você só está sendo paranoico.
— Vou explicar tudo quando chegar aí. Mantenha Mary acordada. Lembre a
ela que não dá pra comer pizza com um casulo na cara.
— Vou fazer isso.
— E, Jared?
— O quê?
— A polícia não está me informando das estratégias para lidar com a situação local, pois não estou nas boas graças deles agora, mas, se eu fosse eles, estaria passando pente fino pela cidade para fazer uma lista de todas as mulheres adormecidas e seu paradeiro. Terry Coombs pode não ser inteligente o bastante nem estar no controle o suficiente para pensar nisso, mas acredito que tenha um homem trabalhando com ele capaz disso.
— Certo…
— Se eles aparecerem onde você está, fique quieto, e… tem algum depósito na casa? Fora o porão?
— Não sei, não olhei tudo, mas acho que tem um sótão.
— Se você vir policiais na rua, tem que levar todo mundo lá para cima.
— Jesus, é sério? Você está me assustando, pai. Não sei se estou entendendo.
Por que eu não devia deixar a polícia encontrar mamãe, a sra. Ransom e Molly?
Não estão botando fogo nas mulheres aqui, né?
— Não estão, mas ainda pode ser perigoso, Jared. Para você, para Mary e principalmente para sua mãe. Como eu falei, a polícia não está muito feliz comigo agora. Tem a ver com a mulher sobre a qual contei pra vocês, a que é diferente. Eu não quero entrar em detalhes, mas você precisa acreditar em mim.
Você pode levar elas para o sótão ou não?
— Posso. Espero que não precise, mas posso.
— Que bom. Eu te amo e vou estar aí em pouco tempo, com sorte com uma pizza.
Mas primeiro, pensou ele, vou fazer outra visita a Evie Black.
5
Quando Clint chegou à Ala A carregando uma cadeira dobrável da sala comunitária debaixo do braço, Jeanette estava de pé na porta do chuveiro e da estação de remoção de piolhos, tendo uma conversa com um indivíduo que não
existia. Parecia uma negociação complicada de compra de droga. Ela disse que queria do bom porque deixava Damian mais calminho. Evie estava nas grades da cela, observando a situação com o que parecia ser solidariedade… se bem que, com os mentalmente instáveis, nunca dava para ter certeza. E, falando nos mentalmente instáveis, Angel estava sentada na cama em uma cela próxima com a cabeça abaixada e apoiada nas mãos, o cabelo escondendo o rosto. Ela olhou brevemente para Clint, disse “Oi, filho da puta” e baixou a cabeça de novo.
— Sei onde você compra — disse Jeanette para o traficante invisível — e sei que consegue agora. Lá não fecha à meia-noite. Me faz um favor, tá? Por favor?
Por favor? Não quero Damian com um humor daqueles. E os dentinhos de Bobby estão nascendo. Minha cabeça não aguenta.
— Jeanette — disse Clint.
— Bobby? — Ela piscou para ele. — Ah… dr. Norcross… — O rosto dela parecia mais suave, como se todos os músculos já tivessem adormecido e só estivessem esperando que o cérebro teimoso acompanhasse. Isso fez Clint pensar em uma piada antiga. Um papagaio olhou pro outro e perguntou: “Ei, amigão, por que esse bico?”.
Clint queria explicar para ela por que tinha mandado os policiais desconectarem os telefones públicos e pedir desculpas por impedir que ela ligasse para o filho para ter certeza de que o garoto estava bem. Porém, não tinha certeza se Jeanette seria capaz de compreendê-lo àquela altura, e, se compreendesse, se isso adiantaria de alguma coisa ou se só a perturbaria mais.
As liberdades que Clint havia tomado com a vida das mulheres da prisão, a vida de duas pacientes, eram grotescas. O fato de ele sentir que não tinha alternativa não tornava menos grotesco ou cruel. E isso não cobria tudo, nem de longe. Foi por causa de Evie que ele teve que fazer aquilo tudo… e ele percebeu de repente que, louca ou não, ele a odiava por isso.
— Jeanette, seja lá com quem…
— Não me atrapalhe, doutor, eu tenho que fazer isso.
— Eu quero que você vá para o pátio de exercícios.
— O quê? Não posso fazer isso, pelo menos não sozinha, não posso. Isto aqui é uma prisão, sabe. — Ela se virou para a outra direção, a do chuveiro. — Ah, olha só, o homem foi embora. Você assustou ele. — Ela fez um ruído seco de
choro. — O que vou fazer agora?
— Nenhuma das portas está trancada, querida. — Nunca na vida Clint tinha usado um termo de intimidade desses ao falar com uma detenta, mas agora veio com naturalidade, sem ele pensar.
— Vou entrar na lista de mau comportamento se eu fizer isso!
— Ela pirou, doutor — disse Angel, sem levantar o rosto.
— Vai, Jeanette — disse Evie. — Até a oficina de móveis, pelo pátio de exercícios, para o jardim. Tem ervilhas novas lá, doces como mel. Encha os bolsos e volte. O dr. Norcross e eu já vamos ter terminado, e vamos poder fazer um piquenique.
— Um pique piquenique — disse Angel por trás do cabelo, e riu.
— Pode ir — disse Evie.
Jeanette olhou para ela, hesitando.
— O homem pode estar lá fora — disse Evie, persuasiva. — Na verdade, tenho certeza de que está.
— Também pode estar no seu cu imundo — disse Angel por trás do cabelo. —
Pode estar escondido aí. Acha uma chave inglesa pra mim e ajudo você a procurar.
— Você tem boca suja, Angel — disse Jeanette. — Suja. — Ela começou a andar pelo corredor curto da Ala A, parou e olhou fixamente para um raio de sol inclinado no chão, como se hipnotizada.
— Eu digo que você não pode não querer saber de um quadrado de luz —
disse Evie baixinho.
Jeanette riu e exclamou: — Isso mesmo, Ree! Isso mesmo. Suas mentiras valem prêmios, não é?
Ela seguiu em frente, um passo lento atrás do outro, tombando para a esquerda e corrigindo a posição, tombando para a direita e corrigindo a posição.
— Angel? — disse Evie.
Ela falou com aquela mesma voz baixa e amável, mas Angel levantou o rosto na hora, parecendo bem desperta.
— O dr. Norcross e eu vamos ter uma conversa rápida. Você pode ouvir, mas precisa ficar de boca fechada. Se não ficar, vou ter que tapar com um rato, que vai comer sua língua dentro da sua cabeça.
Angel olhou para ela por vários segundos, depois baixou a cabeça nas mãos de novo.
O guarda Hughes apareceu na hora que Clint estava abrindo a cadeira na frente da cela de Evie.
— Uma detenta acabou de sair — disse ele. — Parecia que estava indo para o jardim. Tudo bem?
— Tudo, Scott. Mas fique de olho nela, tá? Se ela adormecer lá fora, coloque na sombra antes de o casulo começar a crescer. Vamos trazer para dentro depois que ela estiver completamente embrulhada.
— Tudo bem, chefe. — Hughes bateu continência e saiu.
Chefe, pensou Clint. Meu Deus, chefe . Eu não fui indicado, não fiz campanha, mas ganhei a função mesmo assim.
— Inquieta é a cabeça que carrega uma coroa — disse Evie. — Henrique IV, parte dois. Não é uma das melhores, mas não é ruim. Você sabia que os homens faziam os papéis de mulheres na época, não sabia?
Ela não lê mentes, Clint disse para si mesmo. Os homens vieram, como ela previu, mas eu poderia ter previsto isso. É lógica simples. Ela tem as habilidades de uma boa vidente de parque de diversões, mas não lê mentes.
Sim, e ele podia continuar acreditando nisso enquanto quisesse, o país era livre. Enquanto isso, ela estava olhando para ele com curiosidade e interesse, os olhos cientes e totalmente despertos. Provavelmente a única mulher viva que ainda estava com uma expressão assim.
— De que nós vamos falar, Clint? Das peças históricas de Shakespeare? De beisebol? Da última temporada de Dr. Who? Pena que acabou com um gancho daqueles, hein? Infelizmente só vão exibir reprises agora. Sei de fonte segura que a companion do Doutor adormeceu alguns dias atrás e agora está passeando na Tardis pelo espaço na mente dela. Mas talvez possam escalar outra pessoa, fazer uma série toda masculina na próxima temporada.
— Parece bom — disse Clint, caindo automaticamente no modo psiquiatra.
— Ou devemos falar sobre uma coisa mais pertinente à situação atual? Eu sugeriria isso, porque o tempo está passando.
— Estou interessado nessa ideia que você tem sobre nós dois — disse Clint. —
De você ser a Mulher e eu ser o Homem. Figuras simbólicas. Arquétipos. Yin e
yang. O rei de um lado do tabuleiro de xadrez, a rainha do outro.
— Ah, não — disse ela, sorrindo. — Nós estamos do mesmo lado, Clint. O rei branco e a rainha branca. Do outro lado, contra nós, há um exército inteiro de peças pretas. Todos os cavalos do rei e todos os homens do rei. Com ênfase nos homens.