Belas adormecidas

Stephen King, Owen King · Capítulo 3 de 6 · parte 12/12

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Belas adormecidas

Parte dois: Vou dormir quando morrer

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

— Você não tem autoridade pra isso agora — comentou Angel. — É demais até para um escroto como você. Você se molhou, não foi? Mamãe não ia gostar disso.

Ao ouvir menção à sua santa mãe, Don jogou a cautela para o espaço e partiu para cima. Angel golpeou, e poderia ter encerrado as coisas naquela hora se ele

não tivesse tropeçado no capacete de futebol. Em vez de cortar a garganta dele, o cinzel abriu um corte fundo na testa. O rosto de Don foi coberto de sangue quando ele caiu de joelhos.

— Ai! Ai! Para, isso dói!

— É? E isso? — disse Angel, e deu um chute na barriga dele.

Tentando piscar para tirar o sangue dos olhos, Don segurou uma das pernas de Angel e a puxou para baixo. O cotovelo dela bateu no chão e fez o cinzel sair voando. Don se contorceu acima do corpo dela e esticou a mão para o pescoço da mulher.

— Eu não vou trepar com você depois que estiver morta — disse ele para ela

—, isso é nojento. Só vou te sufocar até você ficar inconsciente. Só vou matar você quando term…

Angel pegou o capacete e bateu com um movimento amplo do braço, acertando direto na testa sangrando de Don. Ele rolou de cima dela, com as mãos no rosto.

— Ai, não, para com isso, detenta!

Bater o capacete assim também é penalidade para a nfl, pensou Angel, mas como ninguém vai mostrar isso na tv, acho que não vou perder nada.

Ela bateu em Don com o capacete mais duas vezes, talvez quebrando o nariz dele no segundo golpe. Estava bem torto, sem dúvida. Ele conseguiu se virar e ficar de joelhos com a bunda para cima. Estava gritando alguma coisa que parecia “Para com isso, detenta”, mas era difícil saber, porque o porco estava ofegando demais. Além disso, os lábios estavam cortados e a boca estava cheia de sangue. Jorrava a cada palavra, e Angel se lembrou do que diziam quando ela era criança: seus banhos vêm com toalhas?

— Chega — disse Don. — Por favor, chega. Você quebrou a minha cara.

Ela jogou o capacete para o lado e pegou o cinzel.

— Aqui está sua esfregada de peito, guarda Peters!

Ela enfiou o cinzel entre as omoplatas dele, até o cabo de madeira.

— Mãe! — gritou ele.

— Tudo bem, guarda Peters. Esse é pela sua mãe! — Ela arrancou o cinzel dele e enfiou no pescoço, e ele desabou.

Angel deu alguns chutes, montou nele e começou a perfurar de novo.

Continuou até não conseguir mais levantar o braço.

16

1

Drew T. Barry chegou à Guarita e viu o que tinha feito Peters parar antes de a mulher o pegar: dois homens, um deles possivelmente Norcross, o filho da mãe arrogante que tinha instigado aquela confusão. Ele estava com o braço em volta do outro. Aquilo era bom. Os dois não faziam ideia de que ele estava ali, e deviam estar indo para onde estava a mulher. Para protegê-la. Era insano, considerando o tamanho da força que Geary tinha reunido, mas olha o dano que eles já tinham conseguido provocar. Gente boa da cidade morta e ferida! Eles mereciam morrer só por isso.

E então, mais dois saíram da fumaça: uma mulher e um homem mais jovem.

Todos de costas para Drew T. Barry.

Cada vez melhor.

2

— Jesus Cristo — disse Clint para o filho. — Você devia estar escondido. — Ele olhou com repreensão para Michaela. — Você devia ter cuidado disso.

Jared respondeu antes que Michaela pudesse dizer qualquer coisa.

— Ela fez o que você mandou, mas eu não podia me esconder. Não podia.

Não se houver chance de recuperarmos a mamãe. E Mary. Molly também. — Ele apontou para a mulher na cela no final do corredor. — Pai, olha pra ela! Ela está flutuando! O que ela é? É ao menos humana?

Antes que Clint pudesse responder, uma explosão musical soou no celular de Hicks, seguida de uma voz eletrônica baixinha: — Parabéns, jogadora Evie! Você

sobreviveu! Boom Town é sua!

Evie caiu na cama, virou as pernas para o chão e se aproximou das grades.

Clint achava que não estava mais em posição de ser surpreendido, mas ficou chocado de ver que os pelos pubianos dela eram quase todos verdes. Não eram pelos, na verdade. Era algum tipo de vegetação.

— Eu ganhei! — gritou ela com alegria — E bem na hora! Eu só tinha dois por cento de bateria. Agora, posso morrer feliz!

— Você não vai morrer — disse Clint. Mas não acreditava mais nisso. Ela ia morrer, e quando o que restava da força de Geary chegasse, o que seria a qualquer momento, era provável que eles também morressem com ela. Tinham matado muitos. Os homens de Frank não parariam.

3

Drew T. Barry deslizou pela lateral da Guarita, gostando cada vez mais do que estava vendo. A não ser que houvesse um defensor escondido nas celas, tudo que restava do grupinho de Norcross estava no final do corredor, reunido como pinos em uma pista de boliche. Eles não tinham onde se esconder e não tinham para onde correr. Excelente.

Ele levantou o Weatherby… e um cinzel foi encostado em seu pescoço, logo abaixo do ângulo do maxilar.

— Não, não, não — disse Angel com a voz de uma alegre professora primária.

O rosto, a camisa e a calça larga estavam sujos de sangue. — Se você se mexer, corto sua jugular. Estou com a lâmina bem em cima. O único motivo para você não estar morto foi que deixou que eu terminasse de resolver minha situação com o guarda Peters. Coloque essa arma no chão. Não se incline, só largue.

— Essa arma é muito valiosa, moça — disse Drew T. Barry.

— Pergunta se eu estou me importando.

— Pode disparar.

— Vou correr esse risco.

Drew T. Barry largou a arma.

— Agora me entrega a que está pendurada no seu ombro. E não tente nada engraçadinho.

Atrás deles:

— Moça, o que quer que você esteja segurando no pescoço dele, pode abaixar.

Angel lançou um olhar rápido por cima do ombro e viu quatro ou cinco homens com rifles apontados. Ela sorriu para eles.

— Vocês podem atirar em mim, mas esse aqui vai morrer comigo. É uma promessa de coração.

Frank ficou olhando, indeciso. Drew T. Barry, torcendo para viver um pouco mais, entregou o M4 de Don.

— Obrigada — disse Angel, e pendurou a arma no ombro. Ela recuou, largou o cinzel e levantou as duas mãos ao lado do rosto, mostrando a Frank e aos outros que estavam vazias. Em seguida, recuou lentamente pelo corredor curto até onde Clint estava com o braço ainda em volta de Willy, sustentando-o. Ela manteve as mãos levantadas o tempo todo.

Drew T. Barry, surpreso por estar vivo (mas agradecido), pegou o Weatherby.

Sentia-se meio tonto. Ele achava que qualquer um se sentiria meio tonto depois de uma detenta maluca colocar um cinzel no seu pescoço. Ela mandou que ele largasse a arma… mas deixou que ele pegasse de novo. Por quê? Para ela poder estar no matadouro com os amigos? Parecia a única resposta. Uma resposta maluca, mas ela era maluca. Todos eram.

Drew T. Barry decidiu que Frank Geary teria que dar o próximo passo. Ele tinha inaugurado aquele festival colossal de merda, que desse um jeito de limpar tudo. Assim era melhor, porque, para o mundo lá fora, o que eles tinham feito naquela última meia hora pareceria ação de justiceiro. E havia algumas partes, como os cadáveres ambulantes no ginásio, por exemplo, ou a mulher verde nua que ele tinha visto junto às grades alguns passos atrás de Norcross, em que o mundo lá fora simplesmente não acreditaria, com ou sem Aurora. Drew T. Barry se sentia sortudo por estar vivo, e ficaria feliz de desaparecer ao fundo. Com sorte, o mundo talvez nem soubesse que ele tinha estado ali.

— Que porra é essa? — disse Carson Struthers, que tinha visto a mulher verde no final do corredor. — Isso aí não é certo nem normal. O que você quer fazer com ela, Geary?

— Pegar ela, e com vida — disse Frank. Ele nunca tinha se sentido tão cansado, mas iria até o final. — Se ela é mesmo a chave para a Aurora, os

médicos que descubram. Nós vamos levar ela até Atlanta e entregar ela.

Willy começou a levantar o rifle, mas lentamente, como se pesasse quinhentos quilos. Não estava quente na Ala A, mas o rosto redondo estava molhado de suor. Tinha deixado a barba dele escura. Clint tirou o rifle dele. No final do corredor, Carson Struthers, Treater, Ordway e Barrows levantaram as armas.

— É agora! — gritou Evie. — Lá vamos nós! Tiroteio no OK Corral! Bonnie e Clyde! Duro de matar na prisão feminina!

Porém, antes que o curto corredor da Ala A pudesse se tornar uma zona de guerra, Clint largou o rifle de Willy e tirou o M4 do ombro de Angel. Ele levantou a arma acima da cabeça para o grupo de Frank ver. Lentamente, e com certa relutância, os homens que tinham levantado as armas as baixaram.

— Não, não — disse Evie. — As pessoas não vão pagar para ver esse clímax porcaria. Nós precisamos reescrever.

Clint não prestou atenção; ele estava concentrado em Frank.

— Eu não posso deixar que você leve ela, Frank.

Em uma imitação sinistramente boa de John Wayne, Evie disse: — Se você fizer mal à mocinha, vai ter que responder a mim, seu verme.

Frank também a ignorou.

— Aprecio sua dedicação, Norcross, mas juro que não consigo entender.

— Talvez você não queira — disse Clint.

— Ah, eu acho que não é essa a questão — respondeu Frank. — É você que não está enxergando direito.

— Tem merda psiquiátrica demais na cabeça dele — falou Struthers, e isso gerou algumas gargalhadas tensas.

Frank falou com paciência, como se ensinando a um aluno lento.

— Até onde sabemos, ela é a única mulher no planeta que consegue dormir e acordar novamente. Seja razoável. Eu quero levar ela para médicos que vão poder estudar e talvez entender como reverter o que aconteceu. Esses homens querem as mulheres e filhas de volta.

Houve um som de concordância dos invasores.

— Então, chega para o lado, mocinha — disse Evie, ainda imitando o Duke.

— Eu acho…

— Ah, cala a boca — disse Michaela. Evie arregalou bem os olhos, como se tivesse levado um tapa inesperado. Michaela se adiantou, fixando em Frank um olhar que queimava. — Estou com cara de quem está com sono, sr. Geary?

— Não estou interessado no que você está sentindo — disse Frank. — Nós não viemos pegar você. — Isso gerou outro murmúrio de concordância.

— Mas devia. Eu estou bem acordada. Angel também. Ela nos acordou.

Respirou em nós e nos acordou.

— É isso que queremos para todas as mulheres — disse Frank, e isso gerou um som ainda mais alto de concordância. A impaciência que Michaela viu no rosto do homem à frente dela era próxima do ódio. — Se você está mesmo acordada, devia entender isso. Não é ciência espacial.

— Você não entende, sr. Geary. Ela pôde fazer isso porque Angel e eu não estávamos em casulos. Suas esposas e filhas estão. Isso também não é ciência espacial.

Silêncio. Ela finalmente tinha a atenção deles, e Clint se permitiu ter esperança. Carson Struthers falou uma palavra simples: — Baboseira.

Michaela balançou a cabeça.

— Seu homem burro e cabeça dura. Todos vocês são burros e cabeça dura.

Evie Black não é uma mulher, é um ser sobrenatural. Vocês ainda não entenderam isso? Depois de tudo que aconteceu? Vocês acham que médicos podem tirar DNA de um ser sobrenatural? E colocar ela em um tubo de ressonância magnética para descobrir como funciona? Todos os homens que morreram aqui morreram por nada!

Pete Ordway levantou um rifle Garand.

— Posso meter uma bala em você, moça, e fazer você calar a boca. Estou bem tentado.

— Abaixa a arma, Pete — disse Frank.

Ele sentia aquela coisa quase fugindo de controle. Ali estavam homens armados de cara para um problema aparentemente sem solução. Para eles, o jeito mais fácil de lidar com a situação seria aos tiros. Ele sabia disso porque sentia o mesmo.

— Norcross? Mande seu pessoal chegar para o lado. Quero dar uma boa olhada nela.

Clint recuou, um braço em volta de Willy Burke para sustentá-lo e a outra mão entrelaçada nos dedos de Jared. Michaela estava do outro lado do filho.

Angel ficou parada com postura desafiadora na porta da cela por um momento, protegendo Evie com o próprio corpo, mas quando Michaela segurou sua mão e a puxou com delicadeza, ela cedeu e foi para o seu lado.

— É melhor vocês não machucarem ela — disse Angel. Sua voz estava tremendo; havia lágrimas em seus olhos. — É melhor que não, seus filhos da mãe. Ela é uma deusa, porra.

Frank deu três passos para a frente, sem saber e sem ligar se os homens que restavam iriam atrás. Olhou para Evie por tanto tempo e tão intensamente que Clint também se virou para olhar.

O verde que se misturava com o cabelo dela tinha sumido. O corpo nu era bonito, mas nada extraordinário. Os pelos pubianos eram um triângulo escuro acima da junção das coxas.

— Mas que porra — disse Carson Struthers. — Ela não era… verde?

— É… um prazer finalmente conhecer você em pessoa, senhora — disse Frank.

— Obrigada — disse Evie. Apesar da nudez ousada, ela falou com a timidez de uma estudante. Os olhos estavam virados para baixo. — Você gosta, Frank, de botar animais em jaulas?

— Eu só boto em jaulas os que precisam ser enjaulados — disse Frank, e pela primeira vez em dias, sorriu de verdade. Se tinha uma coisa que ele sabia, era que a selvageria era uma via de mão dupla: o perigo que um animal selvagem apresentava aos outros e o perigo que os outros apresentavam ao animal selvagem. Em geral, ele se preocupava mais em manter os animais protegidos das pessoas. — E eu vim tirar você da sua. Quero levar você para médicos que possam te examinar. Você me permitiria fazer isso?

— Acho que não — disse Evie. — Eles não encontrariam nada e não mudariam nada. Lembra a história da galinha dos ovos de ouro? Quando os homens abriram a barriga dela, não havia nada dentro além de entranhas.

Frank suspirou e balançou a cabeça.

Ele não acredita nela porque não quer acreditar, pensou Clint. Porque não pode se dar ao luxo de acreditar. Não depois de tudo que fez.

— Senhora…

— Por que você não me chama de Evie? — disse ela. — Não gosto dessa formalidade. Achei que nos demos bem quando falamos ao telefone, Frank. —

Mas os olhos dela ainda estavam voltados para baixo. Clint se perguntou o que havia neles que ela precisava esconder. Dúvida sobre a missão dela ali? Devia ser só o desejo dele falando, mas era possível… Jesus Cristo não tinha orado para que tirassem o cálice de seus lábios? Assim como Frank desejava que os cientistas do CDC fossem tirar o cálice dos dele, supunha o psiquiatra. Que eles fossem examinar os exames de imagem e de sangue e de DNA de Evie e dizer ahá.

— Evie, então — disse Frank. — Essa detenta… — Ele inclinou a cabeça na direção de Angel, que estava olhando para ele com fúria. — Ela diz que você é uma deusa. É verdade?

— Não — disse Evie.

Ao lado de Clint, Willy começou a tossir e esfregar o lado esquerdo do peito.

— Essa outra mulher… — Dessa vez, o rosto se virou para indicar Michaela.

— Ela diz que você é um ser sobrenatural. E… — Frank não gostava de dizer em voz alta, chegar perto da fúria a que podia levar, mas tinha que fazer isso. — …

você sabia coisas sobre mim que não tinha como saber.

— E ela sabe flutuar! — disse Jared, de repente. — Será que você reparou nisso? Ela levitou! Eu vi! Nós vimos!

Evie olhou para Michaela.

— Você está enganada sobre mim, sabe. Eu sou uma mulher, e de muitas formas como qualquer outra. Como as que esses homens amam. Se bem que amor é uma palavra perigosa quando vem de homens. Na maioria das vezes eles não querem dizer a mesma coisa que as mulheres, quando a dizem. Às vezes, eles querem dizer que matariam por amor. Às vezes, quando eles falam, não estão querendo dizer muita coisa. O que, claro, a maioria das mulheres acaba descobrindo. Algumas com resignação, muitas com sofrimento.

— Quando um homem diz que ama você, isso só quer dizer que ele quer enfiar o pinto dentro da sua calcinha — disse Angel, querendo ajudar.

Evie voltou a atenção para Frank e para os homens de pé atrás dele.

— As mulheres que vocês querem salvar estão neste momento vivendo a vida em outro lugar. Vidas felizes, de modo geral, embora a maioria sinta falta dos

filhinhos e às vezes dos maridos e pais. Não vou dizer que elas nunca se comportam mal, elas estão longe de serem santas, mas quase sempre vivem em harmonia. Nesse mundo, Frank, ninguém puxa a camiseta favorita da filha, grita na cara dela, faz ela passar vergonha e nem apavora ela dando soco na parede.

— Elas estão vivas? — perguntou Carson Struthers. — Você jura, mulher?

Jura por Deus?

— Juro — disse Evie. — Juro pelo seu deus e por todos os deuses.

— Como conseguimos elas de volta?

— Não me cutucando, me furando e tirando meu sangue. Essas coisas não adiantariam nada mesmo que eu permitisse.

— O que adianta?

Evie abriu bem os braços. Os olhos brilharam, as pupilas se expandindo até diamantes negros, as íris passando de verde-claro a âmbar brilhante, virando olhos de gato.

— Me matem — disse ela. — Me matem e elas vão acordar. Todas as mulheres do planeta. Eu juro que é verdade.

Como um autômato, Frank ergueu o rifle.

4

Clint entrou na frente de Evie.

— Não, pai, não! — gritou Jared.

Clint não deu atenção.

— Ela está mentindo, Geary. Ela quer que você mate ela. Não inteiramente, acho que uma parte dela mudou de ideia, mas foi o que ela veio fazer aqui. O que foi enviada para fazer aqui.

— Só falta você dizer que ela quer ser pendurada em uma cruz — disse Pete Ordway. — Sai da frente, doutor.

Clint não saiu.

— É um teste. Se nós passarmos, temos chance. Se não passarmos, se vocês fizerem o que ela espera que façam, a porta se fecha. Este vai ser um mundo de homens até todos os homens terem morrido.

Ele pensou nas brigas das quais tivera que participar quando era criança,

lutando não por milk-shakes, mas só por um pouco de sol e espaço, um pouco de espaço só para respirar. Para crescer. Pensou em Shannon, sua antiga amiga, que precisou dele para tirá-la do purgatório tanto quanto ele precisou dela. Ele fez isso da melhor forma que pôde, e ela lembrou. Por que outro motivo teria dado à filha o sobrenome dele? Porém, ainda tinha uma dívida. Com Shannon, por ser sua amiga. Com Lila, por ser sua amiga e esposa e mãe do seu filho. E os que estavam com ele, ali, na frente da cela de Evie? Eles também tinham mulheres com quem tinham dívidas. Sim, até Angel. Era hora de pagar.

A luta que ele queria tinha acabado. Clint via que tinha sido nocauteado e não tinha ganhado nada.

Ainda não.

Ele esticou as mãos para os dois lados, com as palmas para cima, e fez sinal.

Os últimos defensores de Evie se aproximaram e fizeram fila na frente da cela dela, até Willy, que parecia estar quase desmaiando. Jared estava ao lado de Clint, que colocou a mão no pescoço do filho. E então, lentamente, ele pegou o M4 e entregou para Michaela, cuja mãe estava dormindo em um casulo não muito longe de onde eles estavam.

— Me escute, Frank. Evie nos contou que, se você não matar ela, se deixar que vá embora, há uma chance de as mulheres poderem voltar.

— Ele está mentindo — disse Evie, mas agora que não conseguia vê-la, Frank ouviu alguma coisa na voz dela que o fez hesitar. Parecia sofrimento.

— Já chega dessa merda — disse Pete Ordway, e cuspiu no chão. — Nós perdemos muitos homens para chegar até aqui. Vamos pegar ela. Podemos decidir o que vem depois mais tarde.

Clint levantou o rifle de Willy. Fez isso com relutância, mas fez.

Michaela se virou para Evie.

— Quem mandou você aqui acha que é assim que os homens resolvem todos os problemas. Não é verdade?

Evie não respondeu. Michaela achava que a criatura incrível na cela acolchoada estava sendo dilacerada de formas que nunca tinha esperado quando apareceu no bosque perto daquele trailer enferrujado. Porque foi lá que aquilo tudo começou. Michaela tinha estado lá e tinha certeza.

Ela se voltou para os homens armados, agora na metade do corredor. As armas

estavam apontadas. Àquela distância, as balas estraçalhariam o pequeno grupo na frente da mulher estranha.

Michaela levantou sua arma.

— Não precisa ser assim. Mostrem para ela que não precisa.

— E isso quer dizer fazer o quê? — perguntou Frank.

— Quer dizer deixar que ela volte para o lugar de onde veio — disse Clint.

— Não nesta vida — respondeu Drew T. Barry, e foi nessa hora que os joelhos de Willy Burke se dobraram e ele caiu, sem respirar mais.

5

Frank entregou o rifle para Ordway.

— Ele precisa de ressuscitação. Eu fiz o curso no verão…

Clint apontou o rifle para o peito de Frank.

— Não.

Frank o encarou.

— Homem, você está louco?

— Para trás — disse Michaela, apontando a arma para Frank. Ela não sabia o que Clint estava fazendo, mas achava que ele estava dando a última cartada que tinha. Que nós temos, pensou ela.

— Vamos atirar em todo mundo — disse Carson Struthers. Ele parecia quase histérico. — Naquela mulher do demônio também.

— Nada disso — disse Frank. E, para Clint: — Você vai deixar que ele morra?

O que isso provaria?

— Evie pode salvar ele — disse Clint. — Não pode, Evie?

A mulher na cela não disse nada. A cabeça estava baixa, o cabelo cobrindo o rosto.

— Geary… se ela salvar ele, você deixa que ela vá embora?

— Aquele velho filho da puta está fingindo! — gritou Carson Struthers. — É

uma armação que eles planejaram!

Frank começou:

— Posso só verificar se…?

— Tudo bem, pode — disse Clint. — Mas seja rápido. Os danos cerebrais

começam depois de três minutos, e não sei se um ser sobrenatural seria capaz de reverter isso.

Frank correu até Willy, se apoiou em um joelho e colocou os dedos no pescoço do homem. Ele olhou para Clint.

— O relógio dele parou. Eu devia começar a ressuscitação.

— Um minuto atrás, você estava pronto para matar ele — resmungou Reed Barrows.

O guarda Treat, que achava que tinha testemunhado coisas loucas no Afeganistão, gemeu.

— Não estou entendendo nada disso. Só me diga o que é necessário para trazer minhas filhas de volta e eu faço. — Para quem exatamente a declaração dele foi dirigida não ficou muito claro.

— Nada de ressuscitação.

Clint se virou para Evie, que estava com a cabeça baixa. Ele achou isso bom, porque ela não podia deixar de ver o homem no chão.

— Este é Willy Burke — disse Clint. — O país mandou ele servir e ele serviu.

Atualmente, participa dos Bombeiros Voluntários para apagar incêndios florestais na primavera. Eles fazem esse trabalho sem receber. Ele ajuda em todos os jantares que o Ladies Aid organiza para famílias indigentes e o estado é sovina demais para custear. É treinador de futebol americano infantil no outono.

— E ele era um bom treinador — disse Jared. Sua voz estava carregada de lágrimas.

Clint continuou.

— Ele cuidou da irmã durante dez anos quando ela foi diagnosticada com Alzheimer precoce. Dava comida para ela, levava ela de volta quando a mulher botava na cabeça que tinha que sair andando por aí, trocava as fraldas cagadas dela. Ele veio aqui defender você porque queria fazer a coisa certa para você e para a consciência dele. Nunca fez mal a mulher nenhuma na vida. Agora, está morrendo. Talvez você deixe que ele morra. Afinal, ele é só mais um homem, não é?

Alguém estava tossindo por causa da fumaça que vinha da Broadway. Por um momento, não houve nenhum outro som, e de repente Evie Black gritou. Luzes explodiram dentro das grades nos tetos. Portas de cela que estavam trancadas se

abriram e se fecharam com um som que era como o de mãos de ferro aplaudindo. Vários dos homens no grupo de Frank gritaram, um deles em um tom tão agudo que parecia uma garotinha de seis ou sete anos.

Ordway se virou e saiu correndo. Os passos dele ecoaram pelos corredores de concreto.

— Levantem ele — disse Evie. A porta da cela dela tinha se aberto com as outras. Isso se realmente tivesse estado trancada. Clint não tinha dúvida de que ela poderia ter saído quando quisesse durante a última semana. Os ratos tinham sido parte do teatro dela.

Clint e Jared Norcross levantaram o corpo inerte de Willy. Ele era pesado, mas Evie o pegou como se ele não passasse de um saco de penas.

— Você brincou com meu coração — disse ela para Clint. — Foi uma coisa cruel de se fazer, dr. Norcross. — O rosto de Evie estava solene, mas ele achou que viu um brilho de diversão nos olhos dela. Talvez até alegria. Ela envolveu a cintura considerável de Willy com o braço esquerdo e colocou a mão direita no cabelo sujo e suado na parte de trás da cabeça. Em seguida, encostou a boca na dele.

Willy tremeu todo. Os braços se ergueram e envolveram as costas de Evie. Por um momento, o homem idoso e a mulher jovem permaneceram em um abraço profundo. Em seguida, ela o soltou e recuou.

— Como está se sentindo, Willy?

— Bem pra caramba — respondeu Willy Burke. Ele se sentou.

— Meu Deus — disse Reed Barrows. — Ele parece vinte anos mais jovem.

— Não sou beijado assim desde o ensino médio — disse Willy. — Isso se já fui. Moça, acho que você salvou minha vida. Agradeço por isso, mas acho que o beijo foi melhor ainda.

Evie começou a sorrir.

— Fico feliz de você ter gostado. Eu também gostei, apesar de não ter sido tão bom quanto zerar o Boom Town.

Clint não estava com o sangue fervendo; a exaustão e o milagre mais recente de Evie o tinham esfriado. Ele via a raiva que tinha sentido recentemente como um homem olhando para um estranho que tinha invadido sua casa e bagunçado a cozinha enquanto preparava um café da manhã extravagante e exagerado.

Sentia-se triste, arrependido e terrivelmente cansado. Gostaria de poder ir para casa, se sentar ao lado da esposa, compartilhar o espaço com ela e não ter que dizer uma palavra.

— Geary — disse Clint.

Frank demorou para olhar para ele, como um homem saindo de um estado de torpor.

— Deixa ela ir embora. É o único jeito.

— Pode ser, mas nem isso é garantido, é?

— Não — concordou Clint. — O que é garantido nessa vida toda fodida?

Angel falou nessa hora.

— Maus momentos e bons momentos — disse ela. — Maus e bons momentos. Todo o resto é bosta de cavalo no celeiro.

— Achei que ia demorar até quinta-feira, mas… — Evie riu, um som como sinos repicando. — Esqueci como os homens podem agir rápido quando botam uma coisa na cabeça.

— Claro — disse Michaela. — Pensa só no Projeto Manhattan.

6

Aos dez minutos depois das oito daquela bela manhã, uma fileira de seis veículos seguiu pela West Lavin Road, e a prisão atrás deles fumegava como uma guimba de charuto abandonada em um cinzeiro. Os carros entraram na Ball’s Hill Road.

A Unidade Dois ia na frente com as luzes girando lentamente. Frank estava atrás do volante. Clint estava ao lado dele. Atrás dos dois estava Evie Black, exatamente onde tinha se sentado depois que Lila a prendeu. Na ocasião, ela estava seminua. Nessa viagem de volta, ela estava usando um uniforme vermelho do Instituto Penal de Dooling.

— Não tenho ideia de como vamos explicar isso para a Polícia Estadual —

disse Frank. — Um monte de homens mortos, um monte de homens feridos.

— Neste momento, todos estão muito ocupados com a Aurora — disse Clint

—, e provavelmente metade não está nem indo trabalhar. Quando todas as mulheres voltarem, se elas voltarem, ninguém vai se importar.

Atrás dele, Evie falou baixinho.

— As mães vão se importar. As esposas. As filhas. Quem você acha que limpa os campos de batalha depois que os tiroteios acabam?

7

A Unidade Dois parou na pista que levava ao trailer de Truman Mayweather, onde a fita amarela de CENA DE CRIME ainda estava pendurada, voando. Os outros veículos, mais duas viaturas da polícia, dois carros civis e a picape de Carson Struthers, pararam atrás.

— E agora? — perguntou Clint.

— Agora nós vamos ver — disse Evie. — Se um desses homens não mudar de ideia e atirar em mim, claro.

— Isso não vai acontecer — respondeu Clint, não tão confiante quanto pareceu.

Portas foram fechadas. Naquele momento, o trio na Unidade Dois ficou onde estava.

— Me conta uma coisa, Evie — disse Frank. — Se você é só a emissária, quem está no comando desse circo? Alguma… sei lá… força vital? A Grande Mãe Terra, talvez, apertando o botão de reiniciar?

— Você está falando da Grande Lésbica no céu? — perguntou Evie. — Uma deidade baixa e corpulenta usando um terninho malva e sapatos práticos? Não é essa a imagem que a maioria dos homens tem quando acha que uma mulher está tentando guiar a vida deles?

— Não sei. — Frank se sentia desanimado, exaurido. Sentia falta da filha.

Sentia falta até de Elaine. Não sabia o que tinha acontecido com sua raiva. Era como se o bolso tivesse rasgado e o sentimento tivesse caído em algum ponto do caminho. — O que vem à mente quando você pensa em homens, espertinha?

— Armas — disse ela. — Arrogância. Visão limitada. Vergonha e falta de vergonha. E mais armas. Clint, parece que não tem maçaneta aqui atrás.

— Não deixe que isso te atrapalhe — disse ele.

Ela não deixou. Uma das portas de trás se abriu, e Evie Black saiu. Clint e Frank se juntaram a ela, um de cada lado, e Clint se lembrou das aulas sobre a Bíblia que foi obrigado a assistir em um orfanato ou outro. Jesus na cruz, com o

cara malvado e descrente de um lado e o bom ladrão do outro, o que, de acordo com o messias moribundo, se juntaria a ele em pouco tempo no paraíso. Clint se lembrava de pensar que o pobre sujeito provavelmente teria preferido liberdade condicional e uma refeição de frango.

— Não sei que força me enviou aqui — disse ela. — Só sei que fui chamada e…

— Você veio — terminou Clint.

— É. E agora, vou voltar.

— O que nós fazemos? — perguntou Frank.

Evie se virou para ele, e não estava mais sorrindo.

— Vocês fazem o trabalho que costuma ser reservado às mulheres. Vocês esperam. — Ela respirou fundo. — Ah, o ar está com cheiro tão fresco depois daquela prisão.

Ela passou pelos homens amontoados como se eles não estivessem lá e segurou Angel pelos ombros. Angel olhou para ela com olhos brilhantes.

— Você agiu bem — disse Evie —, e agradeço do fundo do coração.

Angel disse:

— Eu te amo, Evie!

— Eu também te amo — disse Evie, e beijou os lábios dela.

Evie andou na direção do laboratório destruído. Atrás dele estava a raposa, a cauda envolvendo as patas, ofegando e olhando para ela com olhos brilhantes.

Ela foi atrás do animal, e os homens a seguiram.

8

— Pai — disse Jared com uma voz que mal passava de um sussurro. — Você está vendo? Me diga que sim.

— Ah, meu Deus — disse o policial Treat. — O que é aquilo?

Eles olharam para a árvore com os muitos troncos retorcidos e os bandos de aves exóticas. Subia tanto que o topo não podia ser visto. Clint sentia uma força irradiando dela como uma corrente elétrica forte. O pavão abriu a cauda para a admiração deles, e quando o tigre branco apareceu do outro lado, com a barriga roçando na grama alta, várias armas foram erguidas.

— Baixem essas armas! — gritou Frank.

O tigre se deitou, os olhos impressionantes os observando pela grama alta. As armas foram baixadas. Menos uma.

— Espere aqui — disse Evie.

— Se as mulheres de Dooling voltarem, todas as mulheres do planeta voltam?

— perguntou Clint. — É assim que funciona?

— É. As mulheres desta cidade representam todas as mulheres, e tem que ser suas mulheres a voltar. Por aqui. — Ela apontou para uma abertura na Árvore. —

Se uma se recusar… — Ela não precisou terminar. Mariposas voaram e bateram asas em volta da cabeça dela como um diadema.

— Por que elas iam querer ficar? — perguntou Reed Barrows, parecendo sinceramente perplexo.

A gargalhada de Angel foi áspera como um grasnido de corvo.

— Eu tenho uma pergunta melhor: se elas construíram uma coisa boa, como Evie disse, por que iam querer ir embora?

Evie começou a andar na direção da Árvore, a grama alta batendo na calça vermelha, mas parou quando ouviu o estalo de alguém preparando um rifle. Um Weatherby, na verdade. Drew T. Barry era o único homem que não tinha baixado a arma quando Frank mandou, mas ele não o estava apontando para Evie. Estava apontando para Michaela.

— Você vai com ela — disse ele.

— Abaixe essa arma, Drew — pediu Frank.

— Não.

Michaela olhou para Evie.

— Eu posso ir com você para esse lugar aonde você está indo? Sem estar em um casulo?

— Claro — respondeu Evie.

Michaela voltou a atenção para Barry. Não parecia mais com medo; sua testa estava franzida em confusão.

— Mas por quê?

— Pode chamar de precaução — disse Drew T. Barry. — Se ela estiver falando a verdade, talvez você consiga persuadir sua mãe, e sua mãe talvez consiga persuadir o resto. Eu acredito firmemente em precaução.

Clint viu Frank erguer uma pistola. A atenção de Barry estava fixada nas mulheres, e o tiro seria fácil, mas Clint balançou a cabeça. Em voz baixa, ele disse: — Já houve mortes demais.

Além do mais, pensou Clint, talvez o sr. Dupla Indenização esteja certo.

Evie e Michaela passaram pelo tigre branco e foram até a abertura na árvore, onde a raposa as esperava sentada. Evie entrou sem hesitar e sumiu de vista.

Michaela hesitou e foi atrás.

Os homens restantes dos que tinham atacado a prisão e dos que a haviam defendido começaram a espera. No começo, ficaram andando de um lado para outro, mas, com o passar do tempo, como nada aconteceu, a maioria se sentou no chão.

Não Angel, porém. Ela andou de um lado para outro, como se quisesse aproveitar ao máximo o fato de não estar no confinamento da cela, da carpintaria, da Guarita e da Broadway. O tigre estava cochilando. Uma vez, Angel se aproximou dele, e Clint prendeu a respiração. Ela era realmente louca.

O animal ergueu a cabeça quando Angel ousou acariciar suas costas, mas a grande cabeça voltou a se apoiar nas patas e os olhos incríveis se fecharam.

— Está ronronando! — gritou ela para eles com o que parecia ser exultação.

O sol subiu até o teto do céu e pareceu parar lá.

— Acho que não vai acontecer — disse Frank. — E, se não acontecer, eu vou passar o resto da vida desejando ter matado ela.

Clint disse:

— Acho que ainda não foi decidido.

— É? Como você sabe?

Foi Jared que respondeu. Ele apontou para a Árvore.

— Porque aquilo ainda está ali. Se desaparecer ou virar um carvalho ou um salgueiro chorão, aí vocês podem desistir.

Eles esperaram.

17

1

No supermercado Shopwell, onde as Reuniões tradicionalmente aconteciam, Evie falou com um grupo grande das que agora chamavam a Nosso Lugar de lar.

Não demorou para ela falar o que queria, que se resumia a uma coisa: a decisão era delas.

— Se vocês ficarem aqui, todas as mulheres, de Dooling a Marrakesh, vão aparecer neste mundo, no lugar onde adormeceram. Livres para recomeçar.

Livres para criar os filhos como quiserem. Livres para viver em paz. É um bom negócio, ao menos aos meus olhos. Mas vocês podem ir. E, se forem, todas as mulheres vão acordar onde adormeceram no mundo dos homens. Mas todas vocês têm que ir.

— O que você é? — Janice Coates, abraçando Michaela, falou com Evie por cima do ombro da filha. — Quem te deu esse poder?

Evie sorriu. Uma luz verde pairava em volta dela.

— Eu sou só uma velha mulher que parece nova por enquanto. E não tenho poder nenhum. Como a raposa, sou só uma emissária. São vocês, todas vocês, que detêm o poder.

— Bem — disse Blanche McIntyre —, vamos discutir. Como um júri. Acho que é isso que nós somos.

— Sim — disse Lila. — Mas não aqui.

2

Elas levaram até a tarde para reunirem as habitantes do novo mundo.

Mensageiras foram enviadas para todos os cantos da cidade para chamar as mulheres que não estavam no supermercado.

Elas andaram da Main Street em uma fila silenciosa e subiram a Ball’s Hill. Os pés de Blanche McIntyre estavam doendo, e Mary Pak a levou em um dos carrinhos de golfe. Blanche estava segurando Andy Jones no colo, o bebê órfão, embrulhado em uma manta azul, e contou para ele uma história muito curta: —

Era uma vez um rapazinho que ia para lá e para cá, e todas as moças do local o amavam.

Tufos verdes surgiam. Estava frio, mas a primavera estava chegando. Elas estavam quase na mesma época do ano que fazia no mundo antigo, quando partiram. A percepção surpreendeu Blanche. Parecia a ela que um período bem mais longo tinha passado.

Quando saíram da estrada e subiram pela trilha ladeada de mariposas pela floresta, a raposa apareceu para conduzi-las pelo resto do caminho.

3

Quando os termos de Evie foram reexplicados para as que precisavam ser atualizadas, Michaela Coates subiu em uma caixa de leite, assumiu seu lado repórter (talvez pela última vez, talvez não) e contou para elas tudo o que tinha acontecido do lado de fora.

— O dr. Norcross convenceu os justiceiros a recuarem — disse ela. — Uma boa quantidade de homens deu a vida antes de a razão prevalecer.

— Quem morreu? — gritou uma mulher. — Por favor, me diga que meu Micah não foi um deles!

— E Lawrence Hicks? — perguntou outra.

Houve uma balbúrdia de vozes questionadoras.

Lila levantou as mãos.

— Moças, moças!

— Eu não sou moça — resmungou uma ex-detenta chamada Freida Elkins. —

Fale por você, xerife.

— Eu não posso dizer quem está morto — disse Michaela —, porque durante a maior parte da luta eu estava dentro da prisão. Sei que Garth Flickinger está

morto, e… — Ela ia mencionar Barry Holden, mas viu a esposa dele e as filhas que restavam olhando com expectativa e perdeu a coragem. — … e isso é tudo que sei. Mas posso dizer que todos os meninos e bebês de Dooling estão bem. —

Rezando de coração para que fosse verdade.

A plateia explodiu em gritos, assobios e aplauso.

Quando Michaela terminou, Janice Coates assumiu o lugar dela e explicou que todo mundo teria oportunidade de manifestar sua escolha.

— Falando por mim — disse ela —, eu voto, com certo lamento, por voltar.

Este lugar é bem melhor do que o que deixamos, e acredito que o céu é o limite.

Sem os homens, nós tomamos decisões de forma justa e sem confusão.

Compartilhamos recursos sem briga. Houve bem poucos tipos de violência entre membros da nossa comunidade. As mulheres me irritaram a vida toda, mas elas não chegam nem perto dos homens. — A ironia de seu próprio marido, Archie, que tinha partido com aquele ataque cardíaco prematuro, ter sido um homem calmo e sensato, ela não mencionou. Exceções não eram a questão. A questão era o caso geral. A questão era a história.

Enquanto as feições de Janice antes eram suaves, agora estavam fundas até os ossos. O cabelo branco descia pelas costas. Saltados nas órbitas, os olhos tinham um brilho distante. Ocorreu a Michaela que sua mãe, por mais ereta que se posicionasse e por mais que falasse com clareza, estava doente. Você precisa de um médico, mãe.

— No entanto — prosseguiu Janice —, eu também acredito que devo ao dr.

Norcross voltar. Ele arriscou a vida, e outros arriscaram as deles, pelas mulheres da prisão quando duvido que muitos outros fariam o mesmo. Em relação a isso, quero que vocês saibam, mulheres que eram detentas da prisão, que vou fazer o que for possível para cancelar a sentença de vocês, ou ao menos reduzi-las. E se vocês quiserem um tempo para fugir, vou informar às autoridades de Charleston e Wheeling que acho que vocês morreram no ataque.

Essas antigas detentas se adiantaram em um grupo. Eram doze a menos do que naquela manhã. Kitty McDavid, entre outras, tinha desaparecido sem deixar rastros (exceto por uma revoada breve de mariposas). Não restava dúvida do que isso queria dizer: aquelas mulheres tinham morrido nos dois mundos. Homens as haviam matado.

E todas as detentas votaram pela volta. Isso poderia surpreender um homem, mas não surpreendeu a diretora Janice Coates, que sabia de um fato estatístico revelador: quando mulheres fugiam da prisão, a maioria era recapturada quase imediatamente, porque elas não costumavam fugir, como os homens tinham a tendência de fazer. O que as mulheres faziam era ir para casa. A primeira coisa na mente das antigas detentas que falaram naquela reunião final eram os filhos meninos no outro mundo.

Por exemplo, Celia Frode: Celia disse que os meninos de Nell precisariam de uma mãe, e mesmo que ela própria tivesse que voltar para a cela, a irmã de Nell era uma pessoa que certamente ficaria com eles.

— Mas a irmã de Nell não vai ajudar eles em nada se estiver dormindo, vai?

Claudia Stephenson falou com o rosto virado para o chão, tão baixo que a multidão pediu que ela repetisse: — Não quero segurar ninguém — repetiu ela.

— Vou com a maioria.

As mulheres da Primeira Quinta-feira também votaram pela volta.

— É melhor aqui — disse Gail, falando em nome de todas. — Janice está certa quanto a isso. Mas não é Nosso Lugar de verdade. É outro lugar. E quem sabe, talvez tudo que aparentemente aconteceu lá vá tornar aquele lugar melhor.

Michaela achava que ela devia ter razão, mas provavelmente só por pouco tempo. Os homens prometiam não levantar mais a mão para esposas e filhos com frequência, e falavam com sinceridade, mas só conseguiam cumprir a promessa por um ou dois meses, no máximo. A raiva voltava, como um surto recorrente de malária. Por que isso seria diferente?

Sopros fortes e frios sacudiram a grama alta. Bandos de gansos voando em V, voltando do sul inabitado, atravessaram o céu azul acima da multidão.

Parece um funeral, pensou Mary Pak. Era tão inegável quanto a morte, intenso o bastante para machucar os olhos, frio o bastante para atravessar o casaco e o suéter e deixar a pele arrepiada.

Quando chegou a vez dela, ela disse: — Eu quero descobrir como é me apaixonar de verdade por um garoto. — Essa confissão teria partido o coração de Jared se ele estivesse presente para ouvir. — Eu sei que o mundo é mais fácil para os homens, e isso é horrível, é injusto, mas quero uma oportunidade de ter uma vida normal como sempre esperei ter, e talvez seja egoísmo, mas é isso que

eu quero, tá? Eu posso até querer ter um bebê. E… é só o que eu tenho a dizer.

— Essas últimas palavras viraram soluços e Mary desceu, afastando as mulheres que tentaram consolá-la.

Magda Dubcek disse que claro que precisava voltar.

— Anton precisa de mim. — O sorriso dela era de uma inocência terrível.

Evie viu o sorriso e ficou de coração partido.

(De um lugar a alguns metros, coçando as costas em um carvalho, a raposa olhou o embrulho azul que era Andy Jones, aninhado na traseira do carrinho de golfe. O bebê estava dormindo profundamente, desprotegido. Ali estava, o sonho dos sonhos. Nada de galinha, nada de galinheiro inteiro, nada de todos os galinheiros do mundo. O petisco mais doce, um bebê humano. Ela ousaria? Ora, não. Só podia fantasiar… mas, ah, que fantasia! Rosada e cheirosa!) Uma mulher falou do marido. Ele era um ótimo sujeito, de verdade mesmo, fazia a parte dele, a incentivava, tudo. Outra mulher falou sobre o parceiro de composição musical.

Ele não era das melhores pessoas, mas eles tinham uma conexão, um jeito sintonizado. Ele era a letra; ela era a música.

Algumas só sentiam saudade de casa.

Carol Leighton, professora de Educação Cívica na escola de ensino médio, disse que queria comer um KitKat que não estivesse velho e se sentar no sofá para assistir a um filme na Netflix e fazer carinho no gato.

— Minhas experiências com homens foram cem por cento péssimas, mas eu não fui feita para começar de novo em um novo mundo. Talvez eu seja covarde por isso, mas não posso fingir. — Ela não estava sozinha em sua vontade de ter os confortos da vida comum que tinham ficado para trás.

Porém, para a maioria, eram os filhos que as faziam querer voltar. Um novo começo para todas as mulheres do mundo era uma despedida para sempre dos preciosos filhos, e elas não conseguiam suportar a ideia. Isso também partiu o coração de Evie. Filhos matavam filhos. Filhos matavam filhas. Filhos deixavam armas onde outros filhos podiam encontrá-las e dar tiros acidentais nas irmãs. Filhos queimavam florestas e filhos despejavam produtos químicos na terra assim que os inspetores ambientais iam embora. Filhos não ligavam nos aniversários. Filhos não gostavam de compartilhar. Filhos batiam em filhos, enforcavam namoradas. Filhos percebiam que eram maiores e nunca esqueciam.

Filhos te machucariam se você não dissesse que acreditava na mentira deles.

Filhos não ligavam para o mundo que deixariam para seus filhos e filhas, apesar de dizerem que sim quando chegava a época da eleição.

A cobra deslizou Árvore abaixo e caiu na escuridão, se balançando na frente de Evie.

— Eu vi o que você fez — disse ela para a cobra. — Vi como você distraiu Jeanette. E te odeio por isso.

A cobra não disse nada em resposta. Cobras não precisavam justificar seu comportamento.

Elaine Nutting estava ao lado da filha, mas não prestava atenção, não de verdade. Em sua mente, ainda via os olhos marejados da mulher morta. Eram quase dourados, aqueles olhos, e muito profundos. O olhar neles não era raivoso, apenas persistente. Elaine não podia ignorar aqueles olhos. Um filho, a mulher dissera, eu tenho um filho.

— Elaine? — perguntou alguém. Era hora de tomar uma decisão.

— Tem uma coisa que eu preciso fazer — declarou Elaine. Ela pôs o braço ao redor de Nana. — E minha filha ama o pai.

Nana a abraçou de volta.

— Lila? — perguntou Janice. — E você?

Todas se viraram para ela, e Lila percebeu que podia convencê-las a fazer diferente, se quisesse. Podia garantir a segurança daquele novo mundo e destruir o antigo. Só precisaria de algumas palavras. Ela poderia dizer: Eu amo todas vocês e amo o que fizemos aqui. Não vamos perder isso. Ela poderia dizer: Eu vou perder meu marido, por mais heroico que ele tenha tentado ser, e não quero perder isto. Ela poderia dizer: Vocês, mulheres, nunca vão ser o que foram, e o que eles esperam, porque parte de vocês vai sempre estar aqui, onde são verdadeiramente livres. Vocês vão carregar Nosso Lugar com vocês de agora em diante, e, por causa disso, sempre vão deixar eles confusos.

Só que, na verdade, quando era que os homens não ficavam confusos com as mulheres? Elas eram a magia com a qual os homens sonhavam, e às vezes os sonhos deles eram pesadelos.

O grandioso céu azul tinha perdido a cor. Os últimos raios de luz eram manchas de magnésio acima das colinas. Evie estava observando Lila, sabendo

que tudo se resumia a ela.

— Sim — disse ela para todas. — Sim. Vamos voltar e botar esses caras na linha.

Elas comemoraram.

Evie chorou.

4

Duas a duas, elas partiram, como se saindo da arca encalhada no Ararate.

Blanche e o bebê Andy, Claudia e Celia, Elaine e Nana, a sra. Ransom e Platinum Elway. Elas seguiram de mãos dadas, passando com cuidado por uma raiz enorme e retorcida, depois entrando na noite profunda dentro da Árvore.

No espaço entre os dois mundos havia um brilho, mas era difuso, como se a fonte de luz viesse de depois de uma esquina… Mas esquina de quê? As sombras apenas se aprofundavam, sem revelar muita coisa. O que cada viajante lembrava era um barulho e uma sensação de calor. Dentro daquela passagem pouco iluminada havia uma reverberação que crepitava, uma sensação de cócegas na pele, como asas de mariposas roçando…

… E então elas despertavam do outro lado da Árvore, no mundo dos homens, com os casulos derretendo… mas sem mariposas. Desta vez.

Magda Dubcek se sentou no quarto de hospital onde a polícia tinha colocado seu corpo depois de a encontrarem dormindo no quarto com o cadáver do filho.

Ela limpou as teias dos olhos, atônita de ver uma ala inteira de mulheres se levantando das camas, arrancando os restos de casulos em uma orgia de ressurreição.

5

Lila ficou vendo a Árvore perder as folhas brilhantes, como se estivesse chorando. Elas caíram no chão e formaram montinhos de cor forte. Filetes de musgo escorregaram e caíram dos galhos. Ela viu um papagaio, as asas verdes maravilhosas com marcas prateadas, voar da Árvore e atravessar o céu; viu-o bater as asas para a escuridão e deixar de existir. Amontoados de manchas, nada diferentes do olmo sobre o qual Anton a tinha alertado, se espalharam pelas

raízes da Árvore. Havia um cheiro ruim no ar, como de podridão. Ela sabia que a Árvore estava infestada, que alguma coisa a devorava por dentro enquanto ela morria por fora.

— A gente se vê lá, sra. Norcross — disse Mary Pak, acenando com a mão e segurando a de Molly com a outra.

— Pode me chamar de Lila — disse Lila, mas Mary já tinha atravessado.

A raposa foi atrás dela.

No final, havia Janice, Michaela, Lila e o corpo de Jeanette. Janice pegou uma pá em um dos carrinhos de golfe. O túmulo que elas fizeram tinha menos de um metro, mas Lila achava que não importava. Aquele mundo não existiria depois que elas fossem embora; não haveria animais para devorarem o corpo. Elas enrolaram Jeanette em alguns casacos e cobriram o rosto dela com uma manta de bebê.

— Foi um acidente — disse Janice.

Lila se inclinou, pegou um pouco de terra e jogou na figura coberta dentro do buraco.

— Policiais sempre dizem isso depois que atiram em um homem, mulher ou criança pobre e negro.

— Ela estava com uma arma.

— Mas não ia usar. Tinha vindo salvar a Árvore.

— Eu sei — disse Janice. Ela deu um tapinha no ombro de Lila. — Mas você não sabia. Se lembre disso.

Um galho grosso da Árvore rangeu, estalou e caiu no chão com uma explosão de folhas.

— Eu daria qualquer coisa para voltar atrás — disse Lila. Ela não estava chorando. Agora, as lágrimas estavam além de sua capacidade. — Daria minha alma.

— Acho que está na hora de ir — disse Michaela. — Enquanto ainda podemos. — Ela segurou a mão da mãe e a puxou para a Árvore.