Belas adormecidas
Parte dois: Vou dormir quando morrer
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
— Interessante você nos ver do mesmo lado. Eu não tinha entendido essa parte. E quando exatamente você começou a perceber isso?
O sorriso sumiu.
— Não. Não faça isso.
— Não faça o quê?
— Não caia no DSM IV. Para lidar com isso, você precisa deixar pra trás certas suposições e contar com a intuição. Abraçar seu lado feminino. Todo mundo tem um. Pense em todos os autores que colocaram um vestido. A história de Mildred Pierce, de James Cain, por exemplo. É um dos meus favoritos.
— Tem muitas psiquiatras que protestariam contra a ideia de que…
— Quando nos falamos ao telefone, quando sua esposa ainda estava acordada, você acreditou no que eu estava dizendo. Ouvi na sua voz.
— Eu estava… passando por um momento estranho naquela noite.
Resolvendo questões pessoais. Olha, não estou duvidando da sua influência, dos seus poderes, como quer que você queira caracterizar. Vamos supor que você esteja no controle. Pelo menos hoje.
— Sim, vamos supor isso. Mas amanhã eles podem vir me buscar. Se não vierem amanhã, virão depois de amanhã, ou no dia seguinte. Não vai demorar.
Enquanto, no outro mundo, o mundo além da Árvore, tudo está se movendo em um ritmo muito mais rápido, os meses estão voando lá. Ainda há perigos, mas a cada um que as mulheres superam, a chance de elas quererem voltar para este mundo diminui.
— Vamos dizer que entendo e acredito em metade do que você está dizendo
— disse Clint. — Quem enviou você?
— O presidente Reginald Q. Cretino — disse Angel sem levantar a cabeça. —
Ou ele, ou o lorde Imbeciloide Cretinoide. Talvez…
Ela deu um grito. Clint se virou a tempo de ver um rato marrom grande passar pelas grades e entrar na cela de Angel. Ela levantou os pés para cima da cama e
gritou de novo.
— Sai! Sai! Eu odeio ratos!
— Você vai ficar quieta, Angel? — perguntou Evie.
— Vou! Vou! Eu prometo! Vou!
Evie girou o dedo, como um juiz sinalizando um home run. O rato deu meia-volta, saiu da cela de Angel e se encolheu no corredor, observando-a com olhos brilhantes.
Clint se virou para Evie. Ele tinha uma série de perguntas na mente quando foi até lá, perguntas elaboradas para fazê-la enfrentar seus delírios, mas agora todas foram sopradas como um castelo de cartas em um vento forte.
Sou eu quem está delirando, pensou ele. Estou me agarrando aos meus delírios para não ficar completamente maluco.
— Ninguém me enviou — disse Evie. — Eu vim porque quis.
— Podemos fazer um acordo? — perguntou ele.
— Nós já temos um — respondeu Evie. — Se sobrevivermos a isso, se você me salvar, as mulheres vão ter liberdade de escolher o destino delas. Mas eu aviso: o grandalhão, Geary, está muito determinado a me pegar. Ele acha que pode controlar os outros homens e me capturar viva, mas acho que está errado quanto a isso. E, se eu morrer, acabou.
— O que você é? — perguntou ele.
— Sua única esperança. Sugiro que você pare de se preocupar comigo e concentre todas as suas energias nos homens lá fora. É com eles que você precisa se preocupar. Se você ama sua esposa e seu filho, Clint, precisa trabalhar rapidamente para ficar em vantagem. Geary ainda não está totalmente no controle, mas vai estar em breve. Ele é inteligente, está motivado e não confia em ninguém além de si mesmo.
— Eu distraí ele. — Os lábios de Clint estavam dormentes. — Ele tem desconfianças, sim, mas não tem como ter certeza.
— Mas vai ter quando falar com Hicks, e está indo pra lá agora.
Clint jogou o corpo para trás como se ela tivesse esticado a mão por entre as grades e dado um tapa nele. Hicks! Ele tinha se esquecido de Hicks. Ele ficaria de boca calada se Frank Geary perguntasse a ele sobre Eva Black? Porra nenhuma.
Evie se inclinou para a frente, o olhar grudado no de Clint.
— Eu avisei sobre sua esposa e seu filho, eu lembrei que tem armas que você pode usar, e essas coisas são mais do que eu devia ter feito, mas eu não esperava gostar tanto de você. Acho que eu talvez me sinta até atraída por você, porque você é tão imprudente. Você parece um cachorro latindo para a maré, dr.
Norcross. Sem querer fugir do assunto, mas esse é outro aspecto do problema básico, a equação homem-mulher que nunca se equilibra. Deixa pra lá, é assunto pra outra hora. Você tem uma decisão a tomar: ou prepara suas defesas ou sai e deixa que me peguem.
— Eu não vou deixar que eles peguem você — disse Clint.
— Discurso pomposo. Muito macho.
O tom de deboche o exasperou.
— Seu olho que tudo vê sabe que tive que desconectar os telefones públicos, Evie? Que impedi que todas as mulheres daqui se despedissem das pessoas, até dos filhos, porque não podíamos correr o risco de notícias sobre você se espalharem mais? Que meu próprio filho também deve estar em perigo? Ele é um adolescente e está correndo riscos que estou mandando que ele corra.
— Eu sei o que você fez, Clint. Mas eu não fiz você fazer nada.
Clint de repente ficou furioso com ela.
— Se você acredita nisso, está mentindo para si mesma.
Na prateleira, ela pegou o celular de Hicks.
— Já acabamos aqui, doutor. Quero jogar um pouco de Boom Town. — Ela deu uma piscadela de adolescente paqueradora. — Estou ficando cada vez melhor.
6
— Aqui estamos nós — disse Garth Flickinger, e parou o Mercedes amassado na frente do trailer ainda mais amassado de Truman Mayweather.
Michaela olhou sem entender. Nos últimos dias, ela sentia como se estivesse sonhando, e o trailer enferrujado, em cima de blocos de concreto, cercado de mato e partes descartadas de automóveis, com a fita de isolamento da polícia agora caída no chão e voando languidamente, parecia só mais uma virada peculiar das que acontecem nos sonhos.
Mas eu ainda estou aqui, ela disse para si mesma. Minha pele ainda é minha pele. Certo? Ela passou a mão na bochecha e pela testa. Certo. Ainda sem teias.
Ainda ali.
— Vem, Mickey — disse Garth, saindo do carro. — Se eu encontrar o que estou procurando, você vai ficar abastecida por pelo menos um ou dois dias.
Ela tentou abrir a porta, não conseguiu encontrar a maçaneta e ficou ali sentada até Garth dar a volta e abrir para ela, com uma reverência extravagante.
Como um garoto levando a garota ao baile em vez de a um trailer de merda na floresta onde havia acontecido um assassinato duplo recentemente.
— Opa, vamos indo — disse Garth, segurando o braço dela e puxando. Ele estava alegre e animado. Por que não? Não era ele que estava acordado havia mais de cem horas.
Desde aquela noite no Squeaky Wheel, ela e Garth tinham se tornado melhores amigos. Ou parceiros de drogas, pelo menos. Ele tinha um saco grande de cristal, o estoque de emergência, disse ele, o que fez um bom equilíbrio com a bebida. Ela ficou feliz de ir para casa com ele quando o Wheel ficou sem álcool e fechou as portas. Em qualquer outra circunstância, ela talvez até tivesse dormido com ele; ainda que os homens não a atraíssem muito, às vezes a novidade era interessante, e Deus sabia que, pelo jeito como as coisas estavam indo, ela gostava de ter companhia. Porém, não naquelas circunstâncias. Se dormisse com ele, acabaria mesmo dormindo depois, ela sempre dormia, e, se isso acontecesse, já era. Não que ela soubesse se ele estava interessado; Garth Flickinger não se apresentava como o mais sexual dos seres, exceto em relação a drogas, pelas quais era apaixonado.
O estoque de emergência era bem grande, e a festa foi rolando na casa de Garth por boa parte das quarenta e oito horas seguintes. Quando ele finalmente adormeceu por algumas horas na tarde de domingo, ela explorou o conteúdo da escrivaninha com tampo rolável do médico. Previsivelmente, continha uma pilha de periódicos médicos e vários cachimbos de drogas queimados. Menos esperada foi uma foto amassada de um bebê enrolado em um cobertor rosa.
Estava escrito Cathy na parte de trás. Além disso, no armário embaixo da escrivaninha, havia uma caixa grande de suplementos vitamínicos para répteis.
Depois disso, ela brincou com o jukebox dele. Só tinha jam bands, infelizmente;
ela não precisava ouvir “Casey Jones”, pois já estava a caminho de se tornar Casey Jones. Michaela zapeou pelo que pareceram ser quinhentos canais na TV
gigantesca, parando só para ver os comerciais em que o locutor tinha a voz mais alta, mais ofensiva de “se não me ouvir, vai morrer”. Ela achava que se lembrava de ter comprado um aspirador Shark que tinha sido enviado para o antigo endereço em Washington. Duvidava que fosse chegar; apesar de ter sido um homem quem havia atendido a ligação, Michaela tinha certeza de que eram mulheres quem executavam os pedidos. Não costumavam ser as mulheres que ficavam com esse tipo de emprego? Os empregos de merda?
Se houver uma privada sem mancha dentro, pensou ela, dá para saber que tem uma mulher por perto.
— Trume me disse que tinha conseguido a melhor porra do mundo, e não estava mentindo — disse Garth, levando-a para o trailer. — Não me entenda mal, ele era maníaco e mentia quase o tempo todo, mas essa foi uma ocasião rara em que isso não aconteceu.
O trailer tinha um buraco na lateral cercado por uma mancha que parecia sangue seco, mas isso não devia estar ali de verdade. Ela devia estar sonhando acordada, coisa comum entre pessoas que ficavam muito tempo sem dormir, disse um especialista autoproclamado em uma matéria do NewsAmerica que ela tinha visto antes de partir para as colinas verdes da cidade natal nos Apalaches.
— Você não está vendo um buraco na lateral do trailer, está? — perguntou ela. Até a voz parecia de sonho agora. Parecia estar saindo de um alto-falante no alto de sua cabeça.
— Estou, sim — disse ele. — O buraco está aí, sim. Escuta, Mickey, Trume chamava essa coisa nova de Relâmpago Roxo, e ganhei uma amostra antes de a maluca entrar na jogada e apagar Trume e o ajudante dele. — Garth caiu momentaneamente no devaneio. — O cara tinha a tatuagem mais idiota do mundo. Sabe o cocô de South Park? O que canta e tudo. Estava tatuado no pomo de adão dele. Quem tatua um cocô no pomo de Adão? Me fala. Mesmo que seja um cocô esperto, cantor e dançarino, ainda é um cocô. Todo mundo que olha pra você vê um cocô. Não é minha especialidade, mas já pesquisei, e você não acreditaria na dificuldade que é remover uma coisa dessas.
— Garth. Pare. Volte. A maluca. É a mulher sobre quem as pessoas na cidade
estão falando? A que está na prisão?
— Aham. Ela é um Hulk. Eu tive sorte de fugir. Mas são águas passadas, mijo que desceu com a descarga, notícia da semana passada, essas coisas. Não importa. E devíamos ficar felizes por isso, acredite em mim. O que importa é esse cristal bom pra caralho. Trume não fez, ele conseguiu em Savannah, eu acho, mas ele ia fazer, sabe? Ia analisar e criar a versão dele. Ele tinha um saco de sete litros e meio cheio dessa porra, e está em algum lugar aqui. Eu vou encontrar.
Michaela esperava que encontrasse, porque refazer o estoque era necessário.
Eles tinham fumado as reservas de Garth nos últimos dias, tinham fumado até os fragmentos que caíram no tapete e algumas lascas que encontraram embaixo do sofá, com Garth insistindo para que ela escovasse os dentes depois de cada sessão de uso do bong.
— Porque é por isso que os viciados em metanfetamina têm dentes tão estragados — disse ele para ela. — Eles ficam doidos e esquecem a higiene básica.
A substância machucou a garganta dela, e o efeito de euforia já tinha passado havia tempo, mas a manteve acordada. Michaela tinha quase certeza de que adormeceria no trajeto até ali, que pareceu interminável, mas conseguiu ficar acordada, nem ela sabia como. E para quê? O trailer, equilibrado em blocos de concreto, não parecia exatamente a Fonte da Percepção. Ela só podia rezar para que o Relâmpago Roxo não fosse uma fantasia do cérebro drogado de Garth Flickinger.
— Pode entrar — disse ela —, mas eu não vou com você. Pode ter fantasmas.
Ele olhou para ela com reprovação.
— Mickey, você é jornalista. Uma especialista em notícias. Sabe que não existem fantasmas.
— Eu sei disso — disse Michaela pelo alto-falante no topo da cabeça —, mas, no meu estado atual, posso ver alguns mesmo assim.
— Não gosto de deixar você sozinha. Não vou poder dar um tapa se você começar a pegar no sono.
— Eu mesma dou o tapa. Vá buscar. Mas tente não demorar.
Garth subiu os degraus, tentou abrir a porta e forçou com o ombro quando
não conseguiu. A porta se escancarou, e ele tropeçou para dentro. Um momento depois, passou a cabeça pelo buraco manchado de marrom na lateral do trailer, com um sorriso enorme no rosto.
— Não pegue no sono, coisinha linda! Se lembre que vou dar um retoque no seu nariz qualquer dia desses!
— Só em sonhos, cretino — disse ela, mas Garth já tinha voltado com a cabeça para dentro do trailer. Michaela ouviu baques e estrondos quando ele começou a procurar o elusivo Relâmpago Roxo. Que a polícia devia ter levado e guardado no armário de provas da delegacia, isso se não tivesse levado para suas mulheres em casa.
Michaela andou até os destroços do laboratório de metanfetamina. Estava cercado de arbustos chamuscados e árvores pretas. Nenhuma metanfetamina seria preparada ali no futuro, nem roxa e nem de cor nenhuma. Ela se perguntou se o barracão tinha explodido sozinho, como podia acontecer com lugares assim, ou se a mulher que matou os traficantes havia provocado a explosão. Era uma pergunta teórica àquela altura, mas a mulher em si interessava a Michaela, despertava a curiosidade natural e investigativa que a tinha feito revistar as gavetas da cômoda de Anton Dubcek quando tinha oito anos e acabou direcionando-a para o jornalismo, onde era possível investigar as gavetas de todo mundo, as reais e as figurativas. Essa parte da mente dela ainda estava ativa, e ela achava que a estava mantendo acordada tanto quanto a metanfetamina de Flickinger. Ela tinha perguntas sem respostas.
Perguntas como de que forma aquela tal de Aurora havia começado. E por que, supondo que houvesse um porquê. Perguntas como se as mulheres podiam ou não voltar, como a Bela Adormecida voltou. Sem mencionar perguntas sobre a mulher que tinha matado os traficantes de cristal, cujo nome era, de acordo com uma conversa que eles ouviram no Squeaky Wheel e na cidade, Eva ou Evelyn ou Ethelyn Black, e que podia supostamente dormir e acordar novamente, o que a tornava diferente de qualquer outra mulher do mundo, a não ser que outra existisse na Terra do Fogo ou no alto do Himalaia. Aquela mulher podia ser só um boato, mas Michaela achava que havia algum elemento de verdade nela.
Quando boatos chegavam de direções diferentes, era inteligente prestar atenção.
Se eu não estivesse vivendo com um pé na realidade e o outro na Terra do Sono, pensou Michaela, começando a andar pelo caminho atrás do barracão destruído, eu iria correndo para a prisão feminina para começar a fazer perguntas.
Outra pergunta: quem estava cuidando da prisão, agora que sua mãe estava dormindo? Hicks? Sua mãe dizia que ele tinha o cérebro de um hamster e a firmeza de uma água-viva. Se a memória dela ainda estava funcionando direito, Vanessa Lampley era a guarda mais antiga da equipe. Se Lampley não estivesse mais lá, ou se estivesse dormindo, só restava…
O zumbido estava soando só dentro de sua cabeça? Ela não tinha como ter certeza, mas achava que não. Ela achava que eram os cabos de força que passavam ali perto. Nada demais, mas seus olhos estavam detectando coisas difíceis de descartar como normais. Marcas cintilantes como contornos de mão em uns troncos a alguns metros do barracão explodido. Marcas cintilantes que pareciam pegadas no musgo e na lama, como se dissesse “por aqui, moça”. E
amontoados de mariposas em muitos dos galhos, empoleiradas lá parecendo observá-la.
— Bu! — gritou ela para um dos amontoados de insetos. As mariposas bateram as asas, mas não saíram voando. Michaela deu um tapa em um lado da cara, depois no outro. As mariposas ainda estavam lá.
Casualmente, Michaela se virou e olhou encosta abaixo para o barracão e para o trailer. Ela esperava se ver deitada no chão, envolta em teias, evidência inegável de que tinha se desconectado do corpo e se tornado um espírito. Porém, não havia nada além das ruínas e do som baixo de Garth Flickinger, ainda fazendo uma caça enlouquecida ao tesouro.
Ela olhou para o caminho, pois era um caminho, as pegadas cintilantes diziam que era, e viu uma raposa sentada trinta ou quarenta metros à frente. A cauda estava envolvendo as patas. Estava observando-a. Quando ela deu três passos hesitantes na direção do animal, a raposa correu pelo caminho, parando uma vez para olhar para trás. Parecia estar dando um sorriso simpático.
Por aqui, moça.
Michaela foi atrás. A parte curiosa dela estava totalmente desperta agora, e ela se sentia mais alerta, mais ciente do que havia se sentido em dias. Quando percorreu mais cem metros, havia tantas mariposas nas árvores que os galhos
pareciam não ter mais superfície. Deviam ser milhares. Porra, dezenas de milhares. Se a atacassem (isso despertou uma lembrança do filme de Hitchcock sobre pássaros assassinos), ela seria sufocada, mas Michaela achava que isso não ia acontecer. As mariposas eram observadoras. Só isso. Sentinelas. Batedoras. A raposa era a líder. Mas aonde a estava levando?
Sua guia levou Michaela por uma subida, por um leve declive, mais uma colina acima e por uma região de vegetação mais carregada com bétulas e amieiros. Os troncos estavam cheios de pontos com aquela brancura estranha.
Ela passou as mãos por um deles. A ponta dos dedos cintilaram brevemente, depois a coisa branca sumiu. Havia casulos ali? Aquilo era resíduo deles? Mais perguntas sem respostas.
Quando ela levantou o rosto depois de olhar a mão, a raposa tinha sumido, mas o zumbido estava mais alto. Não parecia mais o som de cabos de força. Era mais forte e mais vital. A terra em si vibrava embaixo dos seus sapatos. Ela andou na direção do som, mas parou, tão perplexa quanto Lila Norcross tinha ficado no mesmo local pouco mais de quatro dias antes.
À frente havia uma clareira. No centro dela, uma árvore retorcida com muitos troncos entrelaçados, marrom-avermelhados, subia aos céus. Folhas amplas e pré-históricas pendiam dos galhos. Ela sentia o aroma pungente, um pouco parecido com noz-moscada, diferente de qualquer coisa que ela já tivesse sentido na vida. Uma coleção digna de aviário de pássaros exóticos se alojava nos galhos altos, assobiando, se lamuriando e piando. No pé da árvore havia um pavão do tamanho de uma criança, a cauda iridescente aberta para o deleite de Michaela.
Eu não estou vendo isso, ou, se estou, todas as mulheres adormecidas também estão. Porque estou como elas agora. Eu adormeci nas ruínas daquele barracão, e um casulo está se formando em torno de mim enquanto eu admiro o pavão. Eu devo ter me descuidado de alguma forma, só isso.
O que a fez mudar de ideia foi o tigre branco. A raposa veio na frente, como se o guiasse. Uma cobra vermelha envolvia o pescoço do tigre como um adorno bárbaro. A cobra balançou a língua, provando o ar. Ela via sombras aparecendo e sumindo nos músculos dos flancos do tigre conforme ele andava em sua direção.
Os olhos verdes enormes estavam fixados nos dela. A raposa começou a trotar, e seu focinho roçou no tornozelo dela, frio e um pouco úmido.
Dez minutos antes, Michaela teria dito que não tinha mais disposição para andar rápido, menos ainda correr. Agora, ela se virou e voltou correndo pelo caminho que tinha percorrido em grandes passos saltados, empurrando galhos e fazendo nuvens de mariposas marrons saírem voando pelo céu. Caiu de joelhos, se levantou e continuou correndo. Não se virou, porque tinha medo de o tigre estar atrás dela, o maxilar aberto para parti-la em duas pela cintura.
Saiu da floresta acima do barracão e viu Garth de pé ao lado do Mercedes, segurando um saco grande cheio do que pareciam pedras preciosas roxas.
— Sou em parte cirurgião cosmético, em parte um cão farejador do caralho!
— gritou ele. — Nunca duvide! Essa porra estava presa com fita adesiva no painel do teto! Vamos… Mickey? O que foi?
Ela se virou e olhou para trás. O tigre tinha sumido, mas a raposa estava ali, a cauda mais uma vez em volta das patas.
— Você está vendo aquilo?
— O quê? Aquela raposa? Claro. — A alegria dele sumiu. — Ei, ela não mordeu você, né?
— Não, não me mordeu. Mas… vem comigo, Garth.
— Ir pra onde, pra floresta? Não, obrigado. Nunca fui escoteiro. Só preciso olhar para hera venenosa para ter urticária. Meu lance era o clube de química, ha-ha. Não tem surpresa nenhuma nisso.
— Você tem que vir. Estou falando sério. É importante. Eu preciso… bem…
de verificação. Você não vai ter urticária. Tem uma trilha.
Ele foi, mas sem nenhum entusiasmo. Ela o guiou pelo barracão destruído e por entre as árvores. A raposa só trotou no começo, depois saiu correndo, ziguezagueando entre as árvores até sumir de vista. As mariposas também tinham sumido, mas…
— Ali. — Ela apontou para uma das marcas. — Você vê aquilo? Por favor, me diga que vê.
— Hã — disse Garth. — Caramba.
Ele guardou o saco precioso de Relâmpago Roxo dentro da camisa aberta e se ajoelhou para examinar a pegada luminosa. Usou uma folha para tocar nela com cuidado, cheirou o resíduo e o viu sumir.
— É aquela substância do casulo? — perguntou Michaela. — É, não é?
— Pode já ter sido — disse Garth. — Ou talvez uma exsudação do que causa os casulos. Estou chutando, mas… — Ele se levantou. Parecia ter esquecido que eles tinham ido procurar mais drogas, e Michaela teve um vislumbre do médico inteligente e investigativo que se levantava ocasionalmente da cama king-size dentro do crânio de Garth. — Escuta, você ouviu os boatos, né? Quando fomos buscar mais suprimentos no mercado do centro?
(Tais suprimentos, cerveja, batata Ruffles, macarrão instantâneo e um tubo tamanho grande de creme azedo, foram em pouca quantidade. O Shopwell estava aberto, mas já tinha sido saqueado.) — Boatos sobre a mulher — disse ela.
— Claro.
— O que eles não sabem é que foi aqui que ela apareceu primeiro — disse Garth. — Talvez a gente tenha mesmo a Maria Tifoide aqui em Dooling. Sei que parece improvável, todos os relatos dizem que a Aurora começou do outro lado do mundo, mas…
— Acho possível — disse Michaela. O cérebro dela estava funcionando de novo, e em velocidade máxima. A sensação era divina. Podia não durar, mas, enquanto durasse, pretendia ficar montada nela como se fosse um daqueles touros mecânicos. Yahoo, vaqueira. — E tem outra coisa. Eu talvez tenha descoberto de onde ela veio. Vem, vou mostrar.
Dez minutos depois, eles estavam na beirada da clareira. A raposa tinha sumido. O mesmo para o tigre e o pavão com a cauda fabulosa. E também os pássaros exóticos de muitas cores. A árvore ainda estava lá, só que…
— Bem — disse Garth, e ela praticamente ouvia a atenção dele se desviando, como ar saindo de uma boia furada —, é um belo carvalho antigo, Mickey, tenho que concordar, mas não tem nada de especial.
— Eu não imaginei. Não imaginei. — Mas ela já estava começando a duvidar.
Talvez também tivesse imaginado as mariposas.
— Mesmo que você tenha imaginado, essas marcas de mãos e pés definitivamente são material de Arquivo X. — Garth se animou. — Tenho todos os episódios em disco, e continuam muito bons, se bem que os celulares que eles usam nas duas ou três primeiras temporadas são hilários. Vamos para casa fumar e ver alguns, o que você acha?
Michaela não queria assistir a Arquivo X. O que ela queria era dirigir até a
prisão e ver se conseguia uma entrevista com a mulher da vez. Parecia uma trabalheira danada, e era difícil imaginar como persuadir alguém a deixá-la entrar, com a aparência que estava (meio parecida com a Bruxa Má do Oeste, só que de calça jeans e uma blusa sem mangas), mas depois do que eles tinham visto ali, onde a mulher supostamente havia feito sua primeira aparição…
— Que tal um Arquivo X da vida real? — propôs ela.
— O que você quer dizer?
— Vamos dar uma volta. Eu conto no caminho.
— Não podemos experimentar isto primeiro? — Ele balançou o saco, esperançoso.
— Em breve — disse ela. Teria que ser em breve, porque o cansaço a estava dominando. Era como ficar presa em um saco preto sufocante, mas com um pequeno rasgo, e esse rasgo era a curiosidade dela, permitindo a entrada de um raio de luz forte.
— Bom… tudo bem. Eu acho.
Garth foi na frente pelo caminho de volta. Michaela parou só para dar uma olhada para trás, torcendo para surpreender a árvore incrível de volta no lugar.
Porém, era só um carvalho, largo e alto, mas nem um pouco sobrenatural.
A verdade está por aí, ela pensou. E talvez eu não esteja cansada demais para descobrir.
7
Nadine Hicks era das antigas; nos dias anteriores à Aurora, ela tinha a tendência de se apresentar como “sra. Lawrence Hicks”, como se, ao se casar com o marido, ela tivesse em algum grau se tornado ele. Agora, ela estava embrulhada como um presente de casamento, inclinada sobre a mesa de jantar. Na frente dela havia um prato vazio, um copo vazio, guardanapo e talheres. Depois de deixar Frank entrar, Hicks o levou para a sala de jantar, e o vice-diretor se sentou à mesa de cerejeira em frente à esposa para terminar o café da manhã.
— Aposto que você acha isso estranho — disse Hicks.
Não, pensou Frank, eu não acho que colocar sua esposa encasulada à mesa de jantar como uma boneca mumificada enorme seja estranho. Acho, ah, como é a
palavra? Já sei: insano .
— Eu não vou julgar você — disse Frank. — O choque foi grande. Todo mundo está fazendo o melhor que pode.
— Bom, policial, eu só estou tentando manter a rotina. — Hicks estava de terno e tinha feito a barba, mas havia bolsas enormes embaixo dos olhos e o terno estava amassado. Claro, as roupas de todo mundo pareciam amassadas agora. Quantos homens sabiam passar roupa? E dobrar? Frank sabia, mas não tinha ferro. Desde a separação, ele levava as roupas para a Tinturaria Dooling, e se precisasse de uma calça passada para já, ele a colocava embaixo do colchão, se deitava em cima por uns vinte minutos e pronto.
O café da manhã de Hicks era patê com torrada.
— Espero que você não se importe de eu comer. É um café da manhã tradicional pra mim. Levar ela de um lado para outro abre o apetite. Depois disso, vamos ficar no quintal um pouco. — Hicks se virou para a esposa. — Não é, Nadine?
Os dois esperaram dois segundos sem sentido, como se ela talvez respondesse.
Porém, Nadine só ficou ali parada, uma estátua alienígena atrás do jogo americano.
— Escuta, não quero tomar muito do seu tempo, sr. Hicks.
— Tudo bem. — Hicks pegou a ponta da torrada e deu uma mordida.
Gotículas de patê caíram no joelho dele. — Droga. — Hicks riu com a boca cheia. — Já estou ficando sem roupas limpas. É Nadine quem lava a roupa.
Preciso que você acorde e cuide disso, Nadine. — Ele engoliu o pedaço e deu um aceno curto e sério para Frank. — Eu limpo a caixa de areia e tiro o lixo nas manhãs de sexta. É imparcial. Uma divisão justa de trabalho.
— Senhor, eu só quero perguntar…
— E boto gasolina no carro dela. Ela odeia aquelas bombas self-service. Eu dizia para ela: “Você vai ter que aprender se eu me for antes de você, querida”. E
ela dizia…
— Eu quero perguntar sobre o que está acontecendo na prisão. — Frank também queria se afastar de Lore Hicks o mais rápido possível. — Tem uma mulher lá sobre quem as pessoas estão falando. O nome dela é Eva Black. O que você pode me dizer sobre ela?
Hicks observou o prato.
— Eu ficaria longe dela.
— Então ela está acordada?
— Quando eu saí, estava. Mas, sim, eu ficaria longe dela.
— Dizem que ela dorme e acorda. É verdade?
— Parecia que sim, mas… — Hicks, ainda olhando para o prato, virou a cabeça, como se estivesse desconfiado do patê na torrada. — Eu odeio insistir, mas eu deixaria pra lá, policial.
— Por que você diz isso? — Frank estava pensando nas mariposas que tinham surgido do pedaço de teia que Garth Flickinger havia queimado. E na que pareceu fixar os olhos nele.
— Ela pegou meu celular — disse Hicks.
— Como é? Como ela fez isso?
— Ela me ameaçou com ratos. Os ratos estão com ela. Fazem o que ela manda.
— Os ratos fazem o que ela manda.
— Você vê as implicações, não vê? Como todo hotel, toda prisão tem seus roedores. Os cortes aumentam o problema. Eu me lembro de Coates reclamar de ter que cancelar a desratização. Não cabia no orçamento. Não pensam nisso na legislatura, não é? “É só uma prisão. O que são alguns ratos para as detentas se elas mesmas são ratos?” Bom, e se uma das detentas aprende a controlar os ratos?
E aí? — Hicks empurrou o prato para longe. Aparentemente, não estava mais com apetite. — É uma pergunta retórica, claro. A legislatura não pensa em coisas assim.
Frank parou na porta da sala de jantar de Hicks e contemplou a probabilidade de o homem estar sofrendo alucinações geradas por estresse e sofrimento.
Porém, havia o fragmento de teia que tinha virado mariposas… E isso? Frank tinha visto acontecer. E uma mariposa não havia ficado o encarando? Podia ter sido alucinação (ele mesmo estava sofrendo de estresse e dor, afinal), mas Frank achava que não. Quem podia dizer que o vice-diretor não tinha perdido vários parafusos? E quem podia dizer que ele não estava dizendo a verdade?
Talvez ele tivesse perdido vários parafusos porque estava dizendo a verdade.
Que tal isso como possibilidade desagradável?
Hicks se levantou.
— Como você está aqui, se importaria de me ajudar a carregar ela lá para fora? Estou com dor nas costas e não sou mais jovem.
Havia poucas coisas que ele quisesse fazer menos do que aquilo, mas Frank concordou. Pegou as pernas grossas de Nadine Hicks e o marido a segurou pelas axilas. Eles a levantaram e saíram pela porta da frente, desceram os degraus e foram para a lateral da casa, carregando cuidadosamente a mulher entre eles. A teia estalou como papel de presente.
— Aguenta aí, Nadine — disse Hicks para a membrana branca que envolvia o rosto da esposa. — Vamos acomodar você na cadeira Adirondack. Para pegar um pouco de sol. Tenho certeza de que passa pelo casulo.
— E quem está no comando agora? — perguntou Frank. — Da prisão?
— Ninguém — disse Hicks. — Ah, acho que Van Lampley pode alegar o comando, se ainda estiver de pé. Ela é a guarda mais antiga.
— O psiquiatra, dr. Norcross, alega que é o diretor em exercício — disse Frank.
— Besteira.
Eles acomodaram a sra. Hicks em uma cadeira Adirondack amarela no pátio de pedra. Claro que não estava sol. Só a mesma chuva leve. Em vez de penetrar, as gotas caíam na superfície do casulo e escorriam, como aconteceria no tecido de uma barraca à prova d’água. Hicks começou a meio balançar e meio arrastar um guarda-sol. A base fez um ruído agudo na pedra.
— Tenho que tomar cuidado, não posso aplicar protetor solar com aquela coisa nela, e ela se queima com muita facilidade.
— Norcross? O psiquiatra?
Hicks riu.
— Norcross é contratado. Não tem autoridade. Ele não foi indicado por ninguém.
Isso não surpreendeu Frank. Ele tinha desconfiado de que a exibição de moral de Norcross era bem isso: uma exibição. Porém, isso o irritou mesmo assim.
Havia vidas em jogo. Muitas, mas não havia problema em pensar primeiro em Nana, porque ela representava todo o resto. Não havia egoísmo no que ele estava fazendo quando se olhava por esse ângulo; visto por aquela luz, era altruísta!
Enquanto isso, ele precisava ficar calmo.
— Que tipo de homem ele é? O psiquiatra?
Hicks posicionou o guarda-sol e o abriu acima da esposa.
— Pronto. — Ele respirou fundo algumas vezes. Suor e chuva escureceram a gola dele. — Ele é inteligente, tenho que admitir. Inteligente demais, na verdade. Não tinha nada que estar trabalhando em uma prisão. E pense nisto: ele ganha salário de tempo integral, quase igual ao meu, mas não podemos pagar uma desratização. Isso é a política que conhecemos no século XXI, policial Geary.
— O que você quer dizer quando diz que ele não tinha nada que estar trabalhando em uma prisão?
— Por que ele não foi fazer atendimento particular? Já vi os registros dele. Ele já publicou artigos. Tem os diplomas certos. Eu sempre achei que havia algo de estranho nele de querer ficar com criminosas e viciadas, mas não sei o quê. Se for uma coisa sexual, ele sempre é extremamente cuidadoso. Essa é a primeira coisa que vem à cabeça quando pensamos em um homem que gosta de trabalhar com criminosas. Mas acho que não é isso.
— Como você lidaria com ele? Ele é sensato?
— Claro, ele é sensato. Um homem muito sensato que também é um sentimental politicamente correto. E é exatamente por isso que eu odeio, como você diz, lidar com ele. Nós não somos uma instituição de reabilitação, sabe. A prisão é um depósito para pessoas que não querem seguir as regras e são péssimas na hora de trapacear. Uma lata de lixo, para falar abertamente, e somos pagos para nos sentarmos na tampa. Coates adora discutir com ele, eles são amigos, mas ele me exaure. Argumenta até você enlouquecer. — Do bolso, Hicks tirou um lenço amassado. Usou para secar algumas gotas do casulo da esposa. —
Adora contato visual. Faz a gente achar que ele acha que a gente é maluco.
Frank agradeceu a Lawrence Hicks pela ajuda e foi até a frente da casa, onde tinha estacionado. O que Norcross estava pensando? Que motivo teria para impedir que eles vissem a mulher? Por que não confiaria neles? Os fatos só pareciam apoiar uma conclusão, e era bem feia: por algum motivo, o doutor estava trabalhando a favor da mulher.
Hicks foi correndo atrás dele.
— Sr. Geary! Policial!
— O que foi?
A expressão do vice-diretor estava tensa.
— Escuta, aquela mulher… — Ele esfregou as mãos. A chuva leve manchou os ombros do paletó amassado. — Se você falar com ela, com Eva Black, não dê a ela a impressão de que quero meu celular de volta, tá? Ela pode ficar. Vou usar o da minha esposa se precisar fazer uma ligação.
8
Quando Jared saiu pelos fundos da casa de exibição onde ele e Mary estavam morando ( Se é que podemos chamar isso de morar, ele pensou), Mary estava encostada na cerca com a cabeça apoiada nos braços. Fios brancos finos saíam do cabelo dela.
Ele correu até ela, quase tropeçou na casinha de cachorro limpinha (uma imitação da casa, até as moldurinhas azuis das janelas), a segurou, sacudiu e beliscou os lóbulos das orelhas, como ela tinha dito para ele fazer se ela começasse a adormecer. Ela disse que tinha lido na internet que era a maneira mais rápida de acordar alguém que tinha adormecido. Claro que havia todo tipo de receita para ficar acordado na internet agora, assim como antigamente havia muitas estratégias para adormecer.
Deu certo. Os olhos dela entraram em foco. Os fios de teia branca se soltaram dela e voaram para o alto, desaparecendo no caminho.
— Opa — disse ela, tocando nas orelhas e tentando dar um sorriso. — Achei que minhas orelhas estavam sendo furadas de novo. Tem uma mancha roxa voando na sua cara, Jere.
— Você devia estar olhando para o sol. — Ele segurou o braço dela. — Vem. A gente tem que correr.
— Por quê?
Jared não respondeu. Se seu pai estava paranoico, era contagioso. Na sala, com a mobília combinando perfeitamente, mas um tanto estéril (até os quadros nas paredes combinavam), ele parou para olhar pela janela para a viatura da delegacia estacionada seis ou sete casas abaixo. Enquanto olhava, dois policiais saíram de uma das casas. Sua mãe tinha convidado todos os policiais e esposas
para jantar uma vez ou outra ao longo dos anos, e Jared conhecia a maioria.
Aqueles dois eram Rangle e Barrows. Considerando que todas as casas exceto aquela estavam sem mobília, os policiais provavelmente só dariam uma olhada rápida. Chegariam ali a qualquer momento.
— Jared, pare de puxar!
Eles tinham colocado Platinum, Molly, a sra. Ransom e Lila no quarto principal. Mary queria deixá-las no térreo, disse que elas não iam se incomodar com a decoração nem nada. Jared insistiu, ainda bem, mas o segundo andar não era suficiente. Como a casa tinha móveis, Rangle e Barrows podiam decidir realmente fazer uma busca.
Ele empurrou Mary para a escada, ela murmurando reclamações o tempo todo. No quarto, ele pegou a cesta com o corpinho embrulhado de Platinum e correu para puxar a tranca no teto do corredor. A escada do sótão desceu com um estrondo. Teria acertado a cabeça de Mary se ele não a tivesse puxado para o lado. Jared subiu, empurrou a cesta do bebê pela borda do alçapão para o piso do sótão e desceu. Ignorando as perguntas dela, ele correu até o corredor e olhou para a rua. A viatura estava se deslocando junto ao meio-fio. Só quatro casas agora. Não, três.
Ele correu até onde Mary estava, com os ombros murchos e a cabeça abaixada.
— Nós temos que carregar elas lá para cima. — Ele apontou para a escada.
— Eu não consigo carregar ninguém — disse ela, parecendo uma criança choramingando. — Estou cansaaada, Jere!
— Eu sei. Mas você consegue levar Molly, ela é leve. Vou pegar a avó dela e a minha mãe.
— Por quê? Por que a gente tem que fazer isso?
— Porque aqueles policiais podem estar nos procurando. Meu pai disse.
Ele esperava que ela perguntasse por que seria ruim os policiais os encontrarem, mas ela não falou nada. Jared a levou até o quarto; as mulheres estavam na cama de casal, Molly descansando em uma toalha fofa no banheiro adjacente. Ele pegou Molly e a colocou nos braços de Mary. Em seguida, pegou a sra. Ransom, que pareceu mais pesada do que ele lembrava. Mas não pesada demais, pensou Jared, e se lembrou do que a mãe gostava de cantar quando ele era pequeno: Destaque o positivo, elimine o negativo.
— E não se meta com o sr. Indeciso — disse ele, segurando melhor o que restava da velha senhora.
— Hã? O quê?
— Deixa pra lá.
Com Molly nos braços, Mary começou a subir a escada um passinho lento de cada vez. Jared (imaginando a viatura já parando na frente da casa, Rangle e Barrows olhando a placa que dizia ENTREM E DEEM UMA OLHADA) encostou o ombro na bunda de Mary quando ela parou na metade da escada. Ela olhou para trás.
— Você está ficando meio íntimo demais, Jared.
— Anda logo, então.
De alguma forma, ela conseguiu chegar ao alto sem derrubar a garota na cabeça dele. Jared foi atrás, ofegando, empurrando a sra. Ransom pela abertura.
Mary colocou o corpinho de Molly nas tábuas do sótão. O espaço ocupava o tamanho da casa. Era baixo e muito quente.
— Já volto — disse Jared.
— Tudo bem, mas estou tendo dificuldade para me importar. O calor está fazendo minha cabeça doer.
Jared voltou até o quarto. Passou os braços pelo corpo embrulhado de Lila e sentiu o joelho machucado dar uma pontada de aviso. Ele tinha se esquecido do uniforme, das botas pesadas, do cinto. O quanto isso acrescentava ao peso de uma mulher saudável e bem nutrida? Cinco quilos? Dez?
Ele a levou até a escada, avaliou a subida íngreme e pensou: Eu nunca vou conseguir levar ela lá para cima. Não tem como.
A campainha tocou, quatro toques ascendentes e alegres, e ele começou a subir, não ofegando, mas arfando agora. Subiu três quartos da escada e ficou sem energia. Quando estava tentando decidir se podia descer sem largar a mãe, dois braços magros apareceram, as palmas abertas. Mary, graças a Deus. Jared conseguiu subir mais dois degraus e Mary conseguiu pegar Lila.
Do andar de baixo, um dos policiais disse: — Não está nem trancada. A porta está aberta. Venha.
Jared empurrou. Mary puxou. Juntos, eles conseguiram botar Lila acima do nível do alçapão. Mary caiu para trás, puxando Lila por cima dela. Jared pegou o
topo da escada e puxou. A escada subiu, dobrando-se, e ele se apoiou nela, aliviando o final da subida para não fazer um estrondo ao fechar.
Lá embaixo, um policial gritou: — Olá, alguém em casa?
— Como se um saco de puta fosse responder — disse o outro, e os dois riram.
Saco de puta? , pensou Jared. É assim que vocês estão chamando as mulheres? Se minha mãe ouvisse uma coisa assim saindo da boca de vocês, ela daria tanta porrada que a cabeça ia ficar mais baixa que os ombros.
Eles ainda estavam falando, mas indo para o lado da casa onde ficava a cozinha, e Jared não conseguia mais entender o que estavam dizendo. Seu medo foi transmitido automaticamente para Mary, mesmo no estado alterado em que ela estava, e a garota passou os braços em volta dele. Jared inspirou o suor dela, e quando ela encostou a bochecha na dele, o sentiu.
As vozes voltaram, e Jared mandou uma ordem mental para os policiais lá embaixo: Vão embora! O lugar está vazio, vão embora! Mary sussurrou no ouvido dele: — Tem comida na geladeira, Jere. Na despensa também. Uma embalagem que joguei no lixo. E se eles…
Com os sapatos pesados de policial fazendo tum-tum-tum, os dois subiram a escada até o segundo andar. Isso era ruim, mas eles não estavam falando sobre comida na geladeira e nem sobre lixo recente na lata ao lado, e isso era bom.
( Destaque o positivo.) Eles estavam discutindo o que fazer em relação ao almoço.
Debaixo deles, à esquerda, um dos policiais (talvez Rangle) disse: — Essa colcha me parece meio amassada. Você não acha?
— Acho — disse o outro. — Não ficaria surpreso se alguém estivesse ocupando a casa, mas é mais provável que as pessoas que vêm olhar o imóvel, possíveis compradores, se sentem às vezes, não? Experimentem a cama. É uma coisa natural de se fazer.
Mais passos pelo corredor. Tum-tum-tum. Eles pararam, e dessa vez, quando as vozes soaram, eles estavam diretamente abaixo. Mary apertou os braços no pescoço de Jared e sussurrou: — Se eles pegarem a gente escondido aqui, vão nos prender, não vão?
— Shhh — sussurrou Jared, pensando: Teriam nos prendido mesmo se nos encontrassem lá embaixo. Só que provavelmente chamariam de prisão preventiva.
— O alçapão no teto — disse o que provavelmente era Barrows. — Quer ir
olhar o sótão, ou vou eu?
A pergunta foi seguida por um momento de silêncio que pareceu se prolongar para sempre. E o que devia ser Rangle disse: — Pode subir, se quiser, mas se Lila e o filho estivessem na casa, eles estariam aqui embaixo. E eu tenho alergia. Não vou subir para respirar aquela poeira toda.
— Mesmo assim…
— Pode ir, cara — disse Rangle, e na mesma hora a escada desceu, espalhando luz pelo sótão. Se o corpo encasulado de Lila estivesse quinze centímetros mais perto da abertura, estaria visível. — Aprecie o calor lá em cima. Aposto que está fazendo uns quarenta e cinco graus.
— Foda-se — disse Barrows. — E já que toquei no assunto, foda-se você e essa sua conversa pra boi dormir. Alergia. Vem, vamos embora daqui.
A escada subiu, dessa vez se fechando com um estrondo alto que fez Jared dar um pulo apesar de saber que ia acontecer. Os sapatos pesados de policial saíram fazendo tum-tum-tum pela escada. Jared ouviu, prendendo a respiração, quando os policiais pararam no saguão, conversando mais. Em tons baixos. Impossível captar mais de uma palavra ou frase. Alguma coisa sobre Terry Coombs; alguma coisa sobre um policial novo chamado Geary; e alguma coisa sobre o almoço de novo.
Vão embora! , Jared queria gritar para eles. Vão embora antes que Mary e eu passemos mal de calor!
Finalmente, a porta da frente se fechou. Jared apurou os ouvidos para perceber o som da viatura sendo ligada, mas não conseguiu. Ou tinha passado muito tempo ouvindo música alta de fones de ouvido ou o revestimento do sótão era grosso demais. Ele contou até cem e voltou até o zero, mas não conseguia aguentar mais. O calor estava acabando com ele.
— Acho que foram embora — disse ele.
Mary não respondeu, e ele percebeu que o aperto forte no pescoço estava frouxo agora. Ele estava concentrado demais para reparar antes. Quando se virou para olhar para ela, os braços caíram sem vida ao lado do corpo e ela desabou no piso de madeira.
— Mary! Mary! Não durma!
Não houve resposta. Jared abriu o alçapão sem se importar com o estrondo
que a escada fez quando a parte de baixo bateu no piso abaixo. Tinha se esquecido dos policiais. Era com Mary que ele se importava agora, e só com Mary. Talvez não fosse tarde demais.
Só que era. Sacudir não adiantou. Mary tinha adormecido enquanto ele estava prestando atenção para ter certeza de que os policiais não voltariam. Agora, ela estava deitada ao lado de Lila, as feições delicadas já sumindo embaixo dos fios brancos que estavam surgindo do nada.
— Não — sussurrou Jared. — Ela se esforçou tanto.
Ele ficou sentado por quase cinco minutos, vendo o casulo se adensar, se entrelaçar implacavelmente, e depois ligou para o pai.
Foi a única coisa em que ele conseguiu pensar.
4
1
No mundo em que as mulheres existiam antes, Candy Meshaum morava em uma casa na West Lavin, na direção da prisão. Isso era adequado, porque a casa dela também era uma prisão. Naquele novo mundo, ela escolheu viver com algumas outras mulheres, todas frequentadoras da Reunião, em um enclave que elas tinham criado em um guarda-móveis. Esse depósito, como o Shopwell (e diferentemente da grande maioria dos outros prédios da área), ficou quase totalmente isolado durante o número indeterminado de anos de abandono. Era uma estrutura em forma de L de dois andares, compartimentos empilhados no meio da floresta, em uma área de cimento. Feitos de plástico duro e fibra de vidro, os compartimentos cumpriram admiravelmente a promessa do anúncio apagado na placa do lado de fora, de serem à prova de vazamentos. Havia mato e árvores no cimento do chão e folhas entupiam as calhas, mas foi trabalho fácil cortar a vegetação e limpar o escoamento, e os compartimentos abertos, depois de esvaziados de caixas inúteis de objetos pessoais, se mostraram um excelente alojamento, ainda que não exatamente bonito.
Se bem que Candy Meshaum se esforçou, não foi? , pensou Lila.
Ela andou em volta da estrutura, que estava tomada pela luz natural que entrava pela ampla porta de metal aberta. Havia uma cama arrumada no meio do aposento, coberta com um edredom vermelho cintilante que captava a luz do dia. Pendurada na parede sem janelas estava uma paisagem litorânea emoldurada: céu claro e uma área de costa rochosa. Talvez tivesse sido encontrada no meio dos itens guardados no compartimento. No canto, havia
uma cadeira de balanço, e no chão ao lado havia uma cesta de lã perfurada por duas agulhas de metal. Outra cesta próxima continha pares de meias tricotadas à perfeição, exemplos do trabalho dela.
— O que você acha? — Coates ficou do lado de fora para fumar. (Cigarros, embrulhados em alumínio e celofane, eram outra coisa que tinha aguentado bem.) A diretora, antiga diretora, tinha deixado o cabelo crescer e ficar todo branco. A forma como caía pelos ombros estreitos dava um ar profético a ela, como se estivesse andando pelo deserto em busca de sua tribo. Lila achou que ficava bem nela.
— Gostei do que você fez com seu cabelo.
— Obrigada, mas eu estava me referindo à mulher que deveria estar aqui, mas de repente não está.
Candy Meshaum era uma das quatro mulheres que tinham desaparecido, contando com Essie. Lila entrevistou várias das mulheres que moravam nos compartimentos vizinhos. Candy foi vista se balançando alegremente na cadeira, tricotando, e dez minutos depois, não estava em lugar nenhum. O
compartimento ficava no segundo andar do depósito, perto do meio, mas ninguém a tinha visto sair, uma mulher grande que mancava. Não era inconcebível ela ter conseguido desaparecer assim, mas era improvável.
As vizinhas descreveram Candy como alegre e feliz. Uma delas, que a conhecia antes, no velho mundo, usou a palavra “renascida”. Ela exibia grande orgulho dos trabalhos e do compartimento lindamente decorado que era seu lar.
Mais de uma pessoa mencionou que ela se referia ao local como “o apartamento dos sonhos” sem um pingo de ironia.
— Não vejo nada definitivo. Nada que eu fosse querer levar ao tribunal —
disse Lila. Mas achava que o que tinha acontecido foi parecido com o que aconteceu com Essie: presente em um segundo, no seguinte, não mais. Puf.
Abracadabra.
— Mesma coisa, não é? — Janice, que estava olhando para Essie, relatou ver um brilho pequeno, do tamanho da chama de um isqueiro, e depois, mais nada.
O espaço que a mulher tinha ocupado estava vazio. Os olhos de Janice não conseguiram detectar a transformação, ou desintegração, ou fosse qual fosse o fenômeno que havia ocorrido. Foi rápido demais para a visão dela. A diretora disse que pareceu que Essie tinha sido desligada como uma lâmpada, só que nem um filamento se apagava tão rápido.
— Pode ser — disse Lila.
— Ela está morta — disse Janice. — No outro mundo. Você não acha?
Uma mariposa pousou na parede acima da cadeira de balanço. Lila esticou a mão. A mariposa voou até ela e pousou na unha do indicador. Lila sentiu um leve odor de queimado.
— Pode ser — repetiu ela. Por um momento, esse Clinticismo era tudo que ela ousou dizer. — Nós temos que voltar e nos despedir das moças.
— Ideia maluca — resmungou Janice. — Já temos muito a fazer sem sair explorando.
Lila sorriu.
— Isso quer dizer que você queria estar indo junto?
Imitando Lila, a ex-diretora Coates disse: — Pode ser. É o que seu maldito marido sempre diz.
No flagra, pensou Lila.
2
Na Main Street, uma patrulha estava se preparando para ir ver o mundo além de Dooling. Havia seis mulheres no grupo, e elas tinham enchido dois carrinhos de golfe com suprimentos. Millie Olson, uma guarda da prisão, se ofereceu para liderar. Até aquele momento, ninguém tinha se aventurado muito além da divisa das cidades. Nenhum avião ou helicóptero havia passado voando, nenhum incêndio tinha acontecido ao longe e nenhuma voz tinha surgido nas ondas dos rádios de emergência que elas montaram. Isso reforçava em Lila aquela sensação de incompletude que ela teve desde o começo. O mundo que habitavam agora parecia uma reprodução. Quase como uma cena dentro de um globo de neve, só que sem neve.
Lila e Janice chegaram a tempo de ver os preparativos finais. Uma antiga prisioneira chamada Nell Seeger estava agachada ao lado de um dos carrinhos, cantarolando baixinho enquanto verificava a pressão dos pneus. Millie estava mexendo nos pacotes colocados em um trailer preso na traseira, fazendo uma
verificação de última hora dos suprimentos: sacos de dormir, comida liofilizada, água potável, roupas, dois walkie-talkies de brinquedo que tinham sido encontrados selados em plástico e funcionavam (mais ou menos), dois rifles que a própria Lila havia limpado, kits de primeiros socorros. Havia um clima de empolgação e bom humor; pessoas riam e batiam nas mãos umas das outras.
Alguém perguntou a Millie Olson o que ela faria se elas dessem de cara com um urso.
— Domar — respondeu ela sem pensar, sem levantar o olhar do pacote em que estava mexendo. Isso gerou uma rodada de gargalhadas entre as observadoras.
— Você conhecia ela? — Lila perguntou a Janice. — Antes? — Elas estavam embaixo de um toldo da calçada, ombro a ombro, usando casacos de inverno. A respiração das duas soltava vapor.
— Porra, eu era a chefe dela.
— Não Millie. Candy Meshaum.
— Não. E você?
— Conhecia — disse Lila.
— E?
— Ela era vítima de abuso doméstico. O marido batia nela. Muito. Era por isso que ela mancava. Ele era um babaca, um mecânico que ganhava dinheiro vendendo armas. Fazia negócio com os Griner. Ao menos, era o que diziam, mas nós nunca conseguimos pegar ele por nada. Ele agredia ela com as ferramentas.
Eles moravam na West Lavin, em uma casa caindo aos pedaços. Não estou surpresa de ela não querer ajeitar a casa, não haveria sentido. Os vizinhos nos ligaram mais de uma vez, ouviram ela gritando, mas ela não dizia nada. Tinha medo de reprimendas.
— Sorte ele nunca ter matado ela.
— Acho que provavelmente matou.
A diretora estreitou os olhos para Lila.
— Você quer dizer o que eu acho que quer dizer?