Como se casar com um marquês

Julia Quinn · Capítulo 9 de 26

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Como se casar com um marquês

Capítulo 8

 

 

Na manhã seguinte, Elizabeth chegou à Casa Danbury mais cedo que de costume, na esperança de conseguir se esgueirar até a biblioteca e devolver o livro antes que lady Danbury terminasse o café da manhã. Tudo o que queria era tirar aquela coisa maldita de seu alcance para sempre.

Ela treinou a cena na mente centenas de vezes. Devolveria Como se casar com um marquês para a estante e sairia da biblioteca, fechando com força a porta. E rezava para que esse fosse o fim daquela história.

– Você não me causou nada além de sofrimento – murmurou Elizabeth para dentro da bolsa onde guardara o livro.

Santo Deus, havia se tornado uma perfeita idiota. Estava conversando com um livro. Um livro! Que não tinha qualquer poder, que não mudaria a vida dela e que certamente não responderia quando ela fosse estúpida a ponto de falar com ele.

Era só um livro. Um objeto inanimado. O único poder que ele detinha era o que ela mesma escolhera lhe dar. Só poderia ser importante na vida dela se ela permitisse.

É claro, aquilo não explicava por que Elizabeth quase esperava que o livrinho cintilasse na escuridão toda vez que espiava dentro da bolsa.

Ela passou pelo corredor na ponta dos pés, ao menos uma vez na vida agradecendo por lady Danbury ser tão presa à rotina. Naquele momento, a condessa já teria consumido um terço de seu café da manhã, o que significava que Elizabeth teria pelo menos mais vinte minutos antes que a patroa aparecesse na sala de estar.

Dois minutos para colocar o livro de volta na biblioteca e mais dezoito para que pudesse se acalmar.

Elizabeth estava com a mão dentro da bolsa e segurava o livro quando fez a curva no corredor. A porta da biblioteca estava aberta. Perfeito. Quanto menos barulho fizesse, menor seria a possibilidade de que alguém esbarrasse com ela. Não que houvesse muita atividade naquela parte da casa antes de lady D. terminar o desjejum, mas, ainda assim, quanto mais cuidado melhor.

Elizabeth passou de lado pela abertura da porta, o olhar fixo na prateleira onde encontrara o livro no começo da semana. Tudo que precisava fazer era atravessar o cômodo, colocar o livro de volta e sair. Sem desvios, sem paradas desnecessárias.

Ela tirou o livro da bolsa, os olhos fixos na prateleira. Mais dois passos e...

– Bom dia, Elizabeth.

Ela deu um grito.

James recuou ligeiramente, surpreso.

– Minhas mais sinceras desculpas por assustá-la.

– O que está fazendo aqui? – quis saber Elizabeth.

– Você está tremendo – percebeu ele, a voz preocupada. – Eu realmente a assustei, não foi?

– Não – disse ela, a voz alta demais. – É só que eu não estava esperando encontrar ninguém. A biblioteca costuma estar vazia a esta hora da manhã.

Ele deu de ombros.

– Gosto de ler. Lady Danbury me disse que tenho livre acesso à coleção dela. Aliás, o que é isso em sua mão?

Elizabeth seguiu os olhos dele até a mão dela e arquejou. Santo Deus, ela ainda estava segurando o livro.

– Não é nada – apressou-se em dizer, enquanto tentava enfiar o livro de volta na bolsa. – Nada. – Mas o nervosismo a deixou desajeitada, e o livro caiu no chão.

– Esse é o livro que você estava tentando esconder de mim no outro dia – disse James com um brilho triunfante nos olhos.

– Não é! – exclamou Elizabeth quase gritando, enquanto se abaixava para cobrir o livro com o corpo. – É apenas um romance bobo que eu peguei emprestado, e...

– É bom? – perguntou James em uma voz arrastada. – Talvez eu goste dele.

– Você detestaria – respondeu de imediato Elizabeth. – É um romance.

– Gosto de romances.

– É claro que todo mundo gosta de romances – argumentou ela, sem pensar muito no que estava dizendo –, mas tem certeza de que quer ler este aqui? Acho que não. É muito melodramático. Você acabaria bastante entediado.

– Será? – murmurou James, um dos cantos da boca erguendo-se em um meio sorriso esperto.

Elizabeth assentiu com veemência.

– No fim das contas, é mesmo um livro para mulheres.

– Isso é bastante discriminatório, não acha?

– Estou apenas tentando lhe poupar tempo.

Ele se agachou.

– Muito atencioso da sua parte.

Ela mexeu o corpo de modo que acabou sentada em cima do livro.

– É bom ser atenciosa.

Ele chegou mais perto, os olhos cintilando.

– Essa é uma das coisas de que mais gosto em você, Elizabeth.

– O quê? – perguntou ela em uma voz aguda.

– O fato de ser atenciosa.

– Isso não pode ser verdade – retrucou ela, quase antes que ele terminasse de falar. – Ontem mesmo eu soube que você achava que eu estava chantageando lady Danbury. Isso seria atencioso da minha parte?

– Você está tentando mudar de assunto – acusou James –, mas, só para deixar registrado, eu já tinha me convencido de que você não era a chantagista. É verdade que você era minha primeira suspeita... afinal, tem livre acesso aos pertences de lady Danbury. Mas não é preciso muito tempo em sua companhia para se ter uma percepção precisa de seu caráter.

– Que atencioso da sua parte – falou ela, em tom sarcástico.

– Saia de cima do livro, Elizabeth – ordenou ele.

– Não.

– Saia de cima do livro.

Ela resmungou alto. Não era possível que sua vida tivesse chegado àquele ponto. “Humilhação” nem chegaria perto de descrever como se sentia naquele momento. E “vermelha” nem de longe traduziria a cor do rosto dela.

– Você só está piorando a situação.

Ele estendeu a mão e deu um jeito de segurar num pedaço do livro.

Elizabeth afundou mais o corpo no mesmo instante.

– Não vou sair daqui.

Ele a encarou com malícia e mexeu os dedos.

– E eu não vou tirar a mão daqui.

– Seu libertino – reclamou ela em um arquejo. – Roçando a mão na parte de trás do corpo de uma dama.

James se inclinou para a frente.

– Se eu estivesse roçando a mão na parte de trás do seu corpo, você com certeza estaria com uma expressão bem diferente.

Ela deu um tapinha no ombro dele. Provavelmente merecido, pensou James, mas de forma alguma sairia daquela biblioteca sem dar uma boa olhada no livrinho vermelho de Elizabeth.

– Pode me insultar quanto quiser – falou ela em tom orgulhoso –, mas não vai adiantar. Não vou me mexer.

– Elizabeth, você está parecendo uma galinha tentando chocar um livro.

– Se você tivesse o mínimo de cavalheirismo...

– Ah, mas há hora e lugar para um homem se comportar com um cavalheiro, e esse não é o caso aqui.

Ele enfiou mais os dedos embaixo do corpo dela e capturou uma extensão maior do livro. Mais um pouco e seria capaz de passar o polegar ao redor da lombada e então conseguiria pegá-lo!

Elizabeth cerrou o maxilar.

– Tire as mãos de baixo de mim – murmurou com determinação.

Ele fez o oposto e moveu os dedos mais alguns centímetros.

– Um feito impressionante, realmente, falar tudo isso por entre os dentes.

– James!

Ele ergueu a mão livre.

– Só um momento, por gentileza. Estou me concentrando.

Enquanto ela o encarava com raiva, ele passou o polegar pela lombada do livro. E seus lábios se curvaram em um sorriso letal.

– Agora está perdida, Srta. Hotchkiss.

– O que você... Aaaaaaaauuuu!

Com um puxão, ele arrancou o livro de baixo do corpo dela e a fez cair no chão.

– Nãããããão! – gritou Elizabeth, como se o destino do mundo dependesse da capacidade dela de recuperar o livro.

James correu para o outro lado da biblioteca, o livro erguido no ar em um gesto de triunfo. Elizabeth era pelo menos 30 centímetros mais baixa do que ele, nunca seria capaz de alcançar o livro.

– James, por favor – implorou.

Ele balançou a cabeça, desejando não se sentir tão cafajeste... a expressão no rosto dela era de partir o coração. Mas havia dias que estava curioso para saber que livro era aquele, e afinal chegara até ali. Portanto, levantou a cabeça, virou o livro para baixo e leu o título:

COMO SE CASAR COM UM MARQUÊS

James ficou surpreso. Com certeza ela não sabia... Não, não tinha como Elizabeth conhecer sua verdadeira identidade.

– Por que fez isso? – perguntou Elizabeth em uma voz engasgada. – Por que teve que fazer isso?

Ele inclinou a cabeça na direção dela.

– O que é isso?

– O que parece ser? – Elizabeth estava ríspida.

– Eu... hã... não sei.

Ainda segurando o livro no alto, James abriu-o e folheou algumas páginas.

– Parece ser um manual, na verdade.

– Então é isso – concluiu ela. – Agora, por favor, me devolva o livro. Preciso devolvê-lo a lady Danbury.

– Isso pertence à minha... a lady Danbury? – quis saber James, espantado.

– Sim! Agora me devolva.

James balançou a cabeça, voltou a olhar para o livro e novamente para Elizabeth.

– Mas por que ela precisaria de um livro como esse?

– Não sei! – A voz dela saiu quase em um uivo. – É um livro antigo. Talvez ela o tenha comprado antes de se casar com lorde Danbury. Mas, por favor, me deixe colocá-lo de volta na estante antes que lady D. acabe de tomar o café da manhã.

– Em um instante.

James virou outra página e leu.

nunca desencoste um lábio do outro quando sorrir. um sorriso de lábios fechados é infinitamente

mais misterioso, e seu trabalho é fascinar seu marquês.

– É por isso que elas sempre fazem isso? – murmurou ele. E olhou de relance para Elizabeth. – O Decreto no 12 explica muito.

– O livro – quase rosnou Elizabeth, a mão estendida.

– Só para o caso de você estar interessada – disse ele, com um gesto expansivo da mão –, eu por exemplo prefiro uma mulher que saiba sorrir. Isso... – ele sorriu de forma zombeteira sem desencostar um lábio do outro – é completamente sem sentido.

– Não acho que a Sra. Seeton estivesse se referindo a isso. – Ela imitou a expressão dele. – Acho que se referia a isso.

Dessa vez, Elizabeth curvou os lábios em um meio sorriso delicado, que fez um arrepio descer pela espinha de James até...

– Sim – concordou ele, tossindo –, esse seu sorriso sem dúvida é bem mais eficiente.

– Não acredito que estou conversando sobre isso com você – desabafou Elizabeth, mais para si mesma do que para ele. – Podemos, por favor, simplesmente devolver esse livro à estante?

– Temos pelo menos mais dez minutos antes que lady Danbury termine o café da manhã. Não se preocupe. – Ele voltou a se concentrar no livrinho vermelho. – Estou achando esse livro fascinante.

– Eu não estou – declarou ela.

James voltou sua atenção novamente para Elizabeth. Ela estava parada, muito rígida, os punhos cerrados ao lado do corpo. No rosto havia duas manchas de raiva muito vermelhas.

– Você está zangada comigo – observou ele.

– Sua perceptividade é impressionante.

– Mas eu estava só brincando com você. Precisa saber que nunca tive a intenção de ser ofensivo.

Os olhos dela ficaram um pouco mais duros.

– Está me vendo rir?

– Elizabeth – falou James, tentando acalmá-la –, eu só estava de brincadeira. Com certeza você não leva esse livro a sério.

Ela não respondeu. O silêncio no cômodo ficou mais pesado e James viu um relance de mágoa nos olhos cor de safira. Os cantos dos lábios dela estremeceram, então se enrijeceram e ela desviou os olhos.

– Ah, meu Deus – sussurrou ele, enquanto sentia pequenas pontadas de culpa atingirem seu estômago. – Por favor, me desculpe.

Elizabeth ergueu o queixo, mas James percebeu que ela lutava para controlar as emoções quando disse:

– Podemos parar com isso agora?

Ele abaixou os braços em silêncio e entregou o livro para ela. Elizabeth não agradeceu, apenas pegou o exemplar e segurou-o contra o peito.

– Eu não imaginava que você estivesse procurando um marido – comentou James baixinho.

– Você não sabe nada a meu respeito.

Ele fez um gesto constrangido na direção do livro.

– Ajudou?

– Não.

A falta de qualquer inflexão na voz dela foi um soco no estômago dele. E de súbito James se deu conta de que teria que dar um jeito de melhorar aquela situação. Precisava afastar aquela expressão de morta dos olhos dela e devolver o tom alegre à sua voz. Precisava ouvi-la rir e se ouvir rir de alguma piadinha dela.

Não sabia por quê. Só sabia que precisava fazer alguma coisa.

James pigarreou e perguntou:

– Há algo que eu possa fazer para ajudá-la?

– Como?

– Posso ajudá-la de algum jeito?

Ela o encarou com desconfiança.

– Aonde quer chegar com isso?

James entreabriu ligeiramente os lábios enquanto tentava descobrir como responder.

– É só que... bem, por acaso sei uma coisinha ou outra sobre encontrar um marido... ou, no meu caso, uma esposa.

Ela arregalou os olhos.

– Você é casado?!

– Não! – exclamou ele, surpreendendo a si mesmo com a intensidade da própria voz.

Elizabeth relaxou de modo visível.

– Ah, graças a Deus. Porque você... você...

– Porque eu beijei você?

– Sim – murmurou ela, o rosto ficando ainda mais vermelho.

James estendeu a mão, pousou os dedos sob o queixo dela e a forçou a encará-lo.

– Se eu fosse casado, Elizabeth, pode ter certeza de que não me envolveria com outra dama.

– Que... atencioso da sua parte.

– O que quis dizer foi que se você está realmente procurando um marido, eu ficaria feliz em ajudá-la de todas as maneiras possíveis.

Elizabeth ficou apenas encarando-o por um longo tempo, sem conseguir acreditar na ironia do momento. Ali estava ela, parada diante do homem por quem passara toda a noite anterior chorando, e ele estava se oferecendo para ajudá-la a encontrar outro homem para se casar?

– Isso não pode estar acontecendo – disse Elizabeth para si mesma. – Isso não pode estar acontecendo.

– Não vejo por que não – comentou ele com tranquilidade. – Eu a considero uma amiga, e...

– De que maneira você poderia me ajudar? – perguntou ela, imaginando que diabo a havia possuído para que ela estivesse dando continuidade àquele assunto. – Você é novo por aqui. Não teria como me apresentar a nenhum candidato adequado. E – acrescentou Elizabeth, gesticulando na direção dele – você claramente não é muito bem versado nas artes de se vestir bem.

Ele se afastou, indignado.

– Como assim?

– Suas roupas são perfeitamente adequadas, mas o auge delas foi há alguns anos.

– Assim como as suas – comentou ele com um sorrisinho zombeteiro.

– Eu sei – retrucou Elizabeth. – E é por isso que preciso da ajuda de alguém que saiba do que está falando.

James inclinou a cabeça rigidamente para o lado, então levantou-a de novo, tentando reprimir uma resposta ríspida. A menina impertinente tinha que ver o guarda-roupa dele em Londres. Roupas em abundância, todas da última moda, e nenhuma delas com aquelas listras e franjas típicas dos dândis.

– Por que deseja tanto se casar? – perguntou ele, decidindo que era mais importante compreender a situação do que defender o próprio figurino.

– Não é da sua conta.

– Discordo. Se vou ajudá-la, então deve ser da minha conta.

– Eu não permiti que você me ajudasse – lembrou ela.

Os olhos de James voltaram para o livro.

– Tem que ser um marquês?

Elizabeth o encarou sem compreender.

– Como?

– Tem que ser um marquês? – repetiu ele. – Precisa ter o título? Isso é assim tão importante?

Ela recuou um passo diante do tom estridente dele.

– Não.

James sentiu os músculos relaxarem. Nem se dera conta de como estivera tenso ou de como era importante para ele que a resposta de Elizabeth fosse negativa. Havia passado toda a vida dolorosamente ciente de que era a posição social dele que importava, não seu caráter. O pai nunca o chamara de filho, apenas de herdeiro. O antigo marquês não soubera como se relacionar com uma criança, tratara James como um adulto em miniatura. Qualquer transgressão infantil era vista como um insulto ao título, e James aprendeu rápido a manter sua personalidade normalmente expansiva escondida sob uma máscara de obediência e seriedade – ao menos quando estava na companhia do pai.

James fora popular na escola – como costumavam ser meninos com seu encanto natural e seu porte atlético –, mas levara algum tempo para separar os verdadeiros amigos daqueles que o viam apenas como um trampolim para uma vida e uma posição melhores.

Sendo assim, em Londres – santo Deus! Ele poderia ter duas cabeças e a tromba de um elefante que aquelas damas não se importariam. “O marquês, o marquês”, ele as ouvia sussurrar. “Ele é marquês. Tem fortuna. Mora em um castelo.” A aparência e a juventude dele eram vistas como uma vantagem, mas James nunca ouvira ninguém mencionar sua inteligência, seu senso de humor ou mesmo seu sorriso.

No fim das contas, Elizabeth Hotchkiss era a primeira mulher que James conhecia em muito tempo que parecia gostar dele pelo que ele era.

Ele voltou a olhar para ela.

– Não precisa ser marquês? – murmurou ele. – Então qual é o motivo do livro?

Elizabeth cerrou os punhos ao lado do corpo e parecia prestes a bater os pés a qualquer momento.

– Porque estava aqui. Porque não se chamava Como se casar com um cavalheiro sem título de nobreza e com certo bom humor. Não sei.

James não conseguiu segurar um sorriso.

– Mas, em primeiro lugar, duvido que eu conseguisse atrair um cavalheiro com um título de nobreza – acrescentou ela. – Não tenho dote e com certeza não sou um diamante de primeira grandeza.

Eles discordavam nisso, mas ele suspeitava de que Elizabeth não acreditaria se lhe dissesse isso.

– Você tem algum candidato em mente? – perguntou ele.

Ela fez uma pausa longa e significativa antes de dizer:

– Não.

– Então você tem um homem em mente – arriscou James com um sorriso.

Mais uma vez, ela permaneceu em silêncio por vários segundos, antes de dizer, em um tom que deixou claro que a vida de James estaria em perigo se ele seguisse com o assunto:

– Ele não é adequado.

– E o que é considerado adequado?

Ela deu um profundo suspiro.

– Não quero apanhar, prefiro não ser abandonada...

– Nossa... você foi longe.

– Esqueça que eu disse alguma coisa – retrucou ela com rispidez. – De qualquer modo, não sei por que estou lhe contando isso. Você obviamente não tem ideia do que é se sentir desesperado, sem alternativas, como é saber que não importa o que faça...

– Elizabeth – disse James com suavidade, pegando a mão dela. – Desculpe.

– Ele precisa ter dinheiro – explicou ela em tom lento, os olhos fixos na mão que ele segurava. – Preciso de dinheiro.

– Entendo.

– Duvido que entenda, mas acredito que seja o bastante para que saiba que estou sem um tostão no bolso.

– Lady Danbury não lhe paga o suficiente para o seu sustento? – perguntou ele, baixinho.

– Paga, mas não é o bastante para sustentar meus irmãos mais novos. E Lucas precisa ir para Eton.

– Sim – concordou James, de modo distraído –, é o que todo menino deveria fazer. Ele é um baronete, você disse?

– Não, eu não disse, mas sim, ele é.

– Lady Danbury deve ter me contado.

Elizabeth deu de ombros e deixou o ar escapar junto com uma risada autodepreciativa.

– É de conhecimento geral. Aqui no distrito somos o exemplo oficial de aristocracia empobrecida. Portanto, não sou exatamente uma boa opção no mercado de casamentos, entende? Tudo o que tenho a oferecer é a linhagem da minha família. E mesmo essa não é assim tão impressionante. Não é como se eu fosse fruto da alta nobreza.

– Não – repetiu James, pensativo –, mas é de imaginar que muitos homens desejariam se casar com alguém da aristocracia local, ainda mais sendo um ramo com títulos. E você tem o bônus adicional de ser absolutamente linda.

Ela levantou os olhos, irritada.

– Por favor, não seja condescendente comigo.

James sorriu, sem acreditar. Era óbvio que Elizabeth não tinha a menor ideia dos próprios encantos.

– Já me disseram que sou razoavelmente bela... – começou ela.

Ora, talvez tivesse alguma ideia.

– ... mas linda é bem diferente.

James acenou com a mão, afastando o protesto dela.

– Você terá que confiar em mim nesse quesito. Como eu estava dizendo, com certeza deve haver vários homens no distrito que gostariam de se casar com você.

– Há um – disse ela, em tom amargo. – Um proprietário de terras local. Mas ele é velho, gordo e cruel. Minha irmã mais nova já disse que fugirá para um orfanato se eu me casar com ele.

– Entendo.

James esfregou o queixo enquanto buscava uma solução para o dilema dela. Parecia um crime que a jovem se visse obrigada a se casar com um proprietário de terras repulsivo que tinha o dobro da idade dela. James tinha dinheiro bastante para mandar o irmão dela para Eton mil vezes.

Ou melhor, o marquês de Riverdale tinha. James Siddons, um mero cavalheiro, não deveria ter nada além das roupas do corpo.

Mas talvez ele pudesse conseguir alguma espécie de presente anônimo. Com certeza Elizabeth não seria assim tão orgulhosa a ponto de recusar um presente inesperado. James não duvidava de que ela fosse capaz de ignorar um presente para si mesma, mas não o faria se o bem-estar da família estivesse em jogo.

James fez uma anotação mental para entrar em contato com seu contador o mais rápido possível.

– Assim – voltou a falar Elizabeth, com uma risadinha constrangida –, a menos que você tenha uma fortuna guardada em algum lugar, realmente não sei como poderia me ajudar.

– Ora – disse James, evitando mentir de modo descarado –, pensei em ajudá-la de uma forma diferente.

– Como assim?

Ele escolheu as palavras com cuidado.

– Conheço um pouco da arte do flerte. Antes de procurar emprego eu era... não exatamente ativo, mas cheguei a participar da cena social.

– Em Londres? – perguntou ela, desconfiada. – Com a alta sociedade?

– Nunca vou compreender as complexidades da temporada social de Londres – comentou James em tom enfático.

– Ah. Ora, isso não importa, imagino, já que não tenho dinheiro para participar de uma temporada social. – Ela voltou a levantar os olhos e deu um sorriso triste para ele. – E, mesmo se não fosse esse o caso, todo o meu dinheiro seria gasto com a educação de Lucas.

James a encarou, reparando na delicadeza do rosto oval e nos grandes olhos azuis. Sem dúvida, ela era a pessoa menos egoísta que ele já conhecera.

– Você é uma boa irmã, Elizabeth Hotchkiss – disse ele em tom suave.

– Nem tanto – retrucou ela com desânimo na voz. – Às vezes fico muito ressentida. Se eu fosse uma pessoa melhor...

– Bobagem – interrompeu ele. – Não há nada de errado em sentir raiva diante da injustiça.

Elizabeth riu.

– Não é injustiça, James, é apenas pobreza. Estou certa de que você entende.

Em toda a vida, James nunca se vira sem dinheiro. Quando o pai ainda estava vivo, garantia ao filho uma mesada extremamente polpuda. E quando assumiu o título de nobreza herdou uma fortuna muito mais vultosa.

Elizabeth inclinou a cabeça e olhou pela janela. Lá fora uma brisa suave agitava as folhas do olmo favorito de lady Danbury.

– Às vezes eu desejo... – sussurrou ela.

– O que você deseja? – perguntou James de forma enfática.

Elizabeth balançou de leve a cabeça.

– Não importa. Eu realmente tenho que ir ver lady Danbury. Ela chegará à sala de estar a qualquer minuto e com certeza vai precisar dos meus serviços.

– Elizabeth! – gritou a velha dama do outro lado do corredor.

– Está vendo? Vê como a conheço bem?

James inclinou a cabeça em uma cortesia respeitosa e murmurou:

– Realmente impressionante.

– ELIZABETH!

– Deus do céu – reclamou Elizabeth –, do que ela pode estar precisando com tanta urgência?

– De companhia – respondeu James. – Isso é tudo de que ela realmente precisa.

– E onde está aquele gato ridículo quando preciso dele?

Ela se virou para sair da biblioteca.

– Elizabeth! – chamou James.

Ela se virou.

– Sim?

– O livro. – Ele apontou para o pequeno volume vermelho, ainda debaixo do braço dela. – Você não quer levar isso para a sala de estar, quer?

– Ah! Não! – Ela passou o livro para as mãos dele. – Obrigada. Eu tinha me esquecido completamente de que ele ainda estava comigo.

– Devolverei à estante para você.

– Ele fica naquela prateleira ali – explicou Elizabeth, apontando para o outro lado do cômodo. – De lado, com a capa para baixo. Você precisa se certificar de deixá-lo exatamente como eu disse.

Ele sorriu com indulgência.

– Se sentiria melhor se você mesma o colocasse de volta?

Ela pensou por algum tempo, então disse:

– Na verdade, sim, me sentiria.

E pegou novamente o livro.

James a observou atravessar correndo a biblioteca e colocar com cuidado o livro na prateleira correta. Elizabeth inspecionou seu trabalho por um momento e empurrou o livro, movendo-o ligeiramente para a esquerda. Então torceu os lábios, ficou pensativa, olhou mais um pouco para o livro e empurrou-o de volta para a direita.

– Estou certo de que lady Danbury não vai perceber se o livro estiver um ou dois centímetros fora do lugar.

Mas ela o ignorou, voltou a atravessar a biblioteca apressada, dizendo apenas um “Até mais tarde”.

James enfiou a cabeça pela porta e observou-a desaparecer pelo corredor, na direção da sala de estar de Agatha. Então fechou a porta da biblioteca, pegou o livro e começou a ler.