Como se casar com um marquês

Julia Quinn · Capítulo 20 de 26

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Como se casar com um marquês

Capítulo 19

 

 

Não demorou muito para Elizabeth chegar à conclusão de que Blake Ravenscroft, apesar de ser amigo íntimo de James, era um homem muito sábio. Enquanto a acompanhava até em casa, não ficou puxando conversa nem fez perguntas indiscretas. Só o que fez foi dar um tapinha carinhoso no braço dela e dizer:

– Se precisar de alguém, estou certo de que Caroline terá prazer em conversar com você.

Era preciso ser um homem muito esperto para saber quando manter a boca fechada.

O caminho de charrete até a casa dela foi feito em silêncio, salvo pelas ocasionais orientações de Elizabeth em relação ao caminho que deveria ser seguido.

No entanto, quando se aproximaram do chalé Hotchkiss, Elizabeth ficou surpresa ao ver a casinha toda iluminada.

– Santo Deus – murmurou ela. – Eles devem ter acendido todas as velas da casa.

Então, é claro, por força do hábito, começou a fazer de cabeça as contas do gasto com aquela iluminação toda e rezou para que as crianças não tivessem usado nenhuma das velas caras de cera de abelha que ela costumava reservar para quando tinham visita.

Blake tirou os olhos do caminho e a encarou.

– Algum problema?

– Espero que não. Não posso imaginar.

A charrete parou e Elizabeth desceu sem esperar pela ajuda de Blake. Não havia motivo algum para que o chalé Hotchkiss estivesse tão movimentado. Havia barulho o bastante na casa para acordar os mortos, e por mais que parecessem sons estridentes e animados, Elizabeth não conseguiu controlar o pânico que lhe subiu pelo peito.

Ela entrou correndo e seguiu os gritinhos e risadas até a sala de estar. Susan, Jane e Lucas estavam de mão dadas, girando em círculo, rindo e cantando canções vulgares a plenos pulmões.

Elizabeth ficou absolutamente chocada. Nunca vira os irmãos agindo daquele jeito. Gostava de pensar que conseguira resolver a maior parte das preocupações deles durante os últimos cinco anos e que as crianças haviam tido uma infância agradável, razoavelmente livre de preocupações, mas nunca os vira tão completamente bêbados de felicidade.

Ela sentiu Blake parado ao seu lado e não conseguiu encontrar uma resposta quando ele sussurrou:

– Você sabe o que aconteceu?

Depois de cerca de cinco segundos, Susan viu a irmã parada na porta, observando-os boquiaberta, e parou a ciranda, fazendo com que Jane e Lucas caíssem um por cima do outro em um emaranhado de braços finos e cabelos louros.

– Elizabeth! – exclamou Susan. – Já chegou!

Elizabeth assentiu devagar.

– O que está acontecendo? Não esperava que ainda estivessem acordados.

– Ah, Elizabeth! – exclamou Jane, entusiasmada. – A coisa mais maravilhosa. Você não vai acreditar!

– Que ótimo – retrucou Elizabeth, ainda muito abalada para conseguir colocar qualquer sentimento nas palavras.

Mas tentou. Não sabia o que acontecera para provocar tanta alegria nos irmãos, mas achava que devia apagar um pouco da mágoa nos olhos por eles e ao menos tentar parecer animada.

Susan correu até a irmã, segurando um pedaço de papel que pegara na escrivaninha.

– Olhe o que chegou enquanto você estava fora. Um mensageiro trouxe.

– Um mensageiro de libré – acrescentou Jane. – E era absurdamente lindo.

– Era um criado – disse Lucas à irmã.

– Isso não exclui o fato de que era lindo – retorquiu ela.

Elizabeth se pegou sorrindo. Ouvir Lucas e Jane implicando um com o outro era muito maravilhosamente normal. Bem diferente do resto daquela noite terrível. Ela pegou o papel da mão de Susan e o leu.

Suas mãos começaram a tremer.

– Não é incrível? – perguntou Susan, os olhos azuis cintilando de encantamento. – Quem teria imaginado?

Elizabeth não disse nada, pois estava tentando conter a onda de náusea que ameaçava subir pela sua garganta.

– Quem você acha que pode ter feito isso? – perguntou Jane. – Deve ser alguém fantástico. A pessoa mais adorável e generosa do mundo todo.

– Me permite? – murmurou Blake.

Em silêncio, Elizabeth estendeu o papel para ele. Quando se deu conta, Susan, Jane e Lucas a estavam encarando com expressões perplexas.

– Você não está feliz? – quis saber Jane.

Blake devolveu o papel e Elizabeth voltou a lê-lo, como se reler o que estava escrito pudesse mudar a mensagem ofensiva.

Sir Lucas Hotchkiss,

Srta. Hotchkiss,

Srta. Susan Hotchkiss,

Srta. Jane Hotchkiss,

É com grande prazer que informo que sua família é destinatária dessa doação anônima no

valor de 5 mil libras.

Outros acordos foram feitos por seu benfeitor para que Sir Lucas frequente Eton. Ele deve se

reportar à escola no começo do próximo ano letivo.

Sinceramente,

George Shillingworth

Shillingworth and Son, Advogados

Era de James. Só podia ser. Ela se virou para Blake, incapaz de disfarçar a dureza do olhar.

– Ele só teve a intenção de ajudá-la – disse Blake baixinho.

– É insultante – retrucou ela, mal conseguindo pronunciar as palavras. – Como posso aceitar isso? Como eu poderia...

Ele pousou a mão sobre o braço dela.

– Você está exausta. Talvez seja melhor pensar a respeito pela manhã...

– É claro que estou exausta! Eu...

Elizabeth percebeu o rosto assustado dos irmãos e cobriu a boca com a mão, horrorizada com a própria falta de controle.

Três pares de olhos azuis iam do rosto dela para o do Sr. Ravenscroft, que os irmãos nem sequer conheciam, e...

Sr. Ravenscroft. Precisava apresentá-lo às crianças. Eles já estavam perturbados o bastante com a reação dela e ao menos deveriam saber quem estava parado no saguão da casa deles.

– Susan, Jane, Lucas – disse ela tentando manter a voz neutra –, esse é o Sr. Ravenscroft. Ele é amigo do... – Elizabeth engoliu em seco. Quase dissera “Sr. Siddons”, mas aquele não era o verdadeiro nome dele, certo? – É amigo de lady Danbury – completou. – E fez a gentileza de me acompanhar até em casa.

Os irmãos murmuraram cumprimentos. Elizabeth se virou para Blake e falou:

– Sr. Ravenscroft, esses são... – Ela se interrompeu e estreitou os olhos. – Quero dizer, é Sr. Ravenscroft, não é? Ou o senhor também está escondendo algum tipo de título?

Blake fez que não com a cabeça com a sombra de um sorriso no canto dos lábios.

– Um mero senhor, sinto muito, mas se for necessário revelar tudo, meu pai era visconde.

Elizabeth quis sorrir, pois sabia que os comentários dele tinham a intenção de divertir, mas não conseguiu. Em vez disso, virou-se para os irmãos e com o coração pesado falou:

– Não podemos aceitar isso.

– Mas...

– Não podemos. – Elizabeth nem reparou que irmão havia se manifestado e já rechaçou o protesto. – É dinheiro demais. Não podemos aceitar esse tipo de caridade.

Aparentemente, Jane discordava.

– Mas você não acha que quem quer que tenha nos dado esse dinheiro queria que ficássemos com ele?

Elizabeth tentou engolir o nó que parecia apertar sua garganta. Quem poderia saber o que James pretendera? Aquilo tudo seria parte de um grande plano para zombar dela? Depois de tudo o que ele já fizera, quem poderia saber como funcionava a mente dele?

– Com certeza acho – respondeu ela com cautela –, caso contrário não teria nossos nomes no início da carta. Mas isso é irrelevante. Não podemos aceitar essa quantidade de dinheiro de um estranho.

– Talvez não seja um estranho – comentou Susan.

– Então a situação é ainda pior! – rebateu Elizabeth. – Meu Deus, já imaginou? Alguma pessoa horrível nos tratando como marionetes, puxando nossas cordinhas, pensando que pode controlar nosso destino? É doentio. Doentio.

Houve um momento de silêncio, seguido pelo mais terrível dos sons. Lucas, lutando para controlar as lágrimas. Ele levantou os olhos muito arregalados para Elizabeth, com uma expressão de partir o coração.

– Isso significa que eu não poderei ir para Eton? – perguntou o menino em um sussurro.

A respiração de Elizabeth ficou presa na garganta. Ela tentou dizer a Lucas que ele não poderia ir, sabia que tinha que dizer a ele que não poderiam aceitar o dinheiro de James, mas as palavras simplesmente não saíram.

Ela ficou parada ali, encarando o rosto trêmulo do irmão. Ele estava se esforçando muito para manter o lábio superior firme e não demonstrar a decepção que sentia. Os bracinhos estavam rígidos como gravetos ao lado do corpo e o queixo projetava-se para a frente, como se manter o maxilar rígido de algum modo ajudasse a conter as lágrimas.

Elizabeth olhou para o irmão e viu o preço do próprio orgulho.

– Não sei quanto a Eton – disse ela, inclinando-se para abraçá-lo. – Talvez ainda possamos arrumar outra forma.

Mas Lucas se afastou.

– Não podemos pagar. Você tentou esconder esse fato, mas sei a verdade. Não pode pagar. Nunca poderei ir.

– Isso não é verdade. Talvez isso – ela indicou vagamente a carta – signifique algo diferente.

Elizabeth deu um sorriso fraco. As palavras dela não transmitiram convicção alguma, e até um menino de 8 anos de idade... especialmente um menino de 8 anos de idade... podia dizer que ela estava mentindo.

Os olhos de Lucas se fixaram nos dela pelo momento mais longo e angustiante da vida dela. Então ele apenas engoliu em seco e disse:

– Vou para a cama.

Elizabeth não tentou detê-lo. Não havia nada que pudesse dizer.

Jane o seguiu sem dizer uma palavra, a trancinha loura parecendo de algum modo sem vida.

Elizabeth olhou para Susan.

– Você me odeia?

Susan fez que não com a cabeça.

– Mas não a compreendo.

– Não podemos aceitar isso, Susan. Ficaríamos em dívida com nosso benfeitor pelo resto da vida.

– Mas por que isso importa? Nem sequer sabemos quem ele é!

– Não ficarei em dívida com ele – declarou Elizabeth com determinação. – Não ficarei.

Susan recuou um passo, os olhos arregalados.

– Você sabe quem foi. Sabe quem mandou isso.

– Não – retrucou Elizabeth, mas ambas sabiam que ela estava mentindo.

– Sabe, sim. E é por isso que não vai aceitar.

– Susan, não vou mais discutir esse assunto.

Susan deu as costas e se apoiou no batente da porta quando chegou ao corredor.

– Vou consolar Lucas – avisou. – Ele precisa de um ombro para chorar.

Elizabeth se encolheu.

– Um golpe direto – murmurou Blake, depois que Susan subiu as escadas.

Elizabeth se virou. Havia se esquecido completamente de que ele estava ali.

– Como?

Ele balançou a cabeça.

– Não vale a pena repetir.

As pernas de Elizabeth se recusaram a mantê-la de pé por mais um segundo que fosse, então ela afundou no sofá.

– Parece que o senhor testemunhou todos os meus momentos privados essa noite.

– Nem todos.

Ela deu um sorriso sem humor.

– Imagino que o senhor vá voltar até o marquês e contar tudo a ele.

– Não. Vou contar tudo à minha esposa, mas não a James.

Elizabeth o encarou com uma expressão confusa.

– Então, o que vai dizer a ele?

Blake deu de ombros enquanto se encaminhava para a porta.

– Que ele é um idiota se perder você. Mas imagino que ele já saiba disso.

 

Elizabeth acordou na manhã seguinte sabendo que seria um dia horroroso. Não havia ninguém que desejasse ver, absolutamente ninguém com quem quisesse falar, e isso incluía a si mesma.

Não queria encarar os irmãos e a expressão de decepção no rosto deles. Não queria ver os Ravenscrofts – completos estranhos que haviam testemunhado a absoluta humilhação dela. Recusou-se a visitar lady Danbury, achava que não conseguiria passar o dia na companhia da condessa sem cair em lágrimas e acabar perguntando a ela como tivera coragem de participar da farsa de James.

E com certeza não queria ver James.

Ela se levantou, se vestiu e então voltou a se sentar na cama. Uma estranha indisposição a dominava. O dia anterior fora exaustivo de todas as maneiras... seus pés, sua mente, seu coração, tudo se recusava a funcionar agora. Ficaria feliz se pudesse ficar apenas sentada ali na cama, sem ver ninguém nem fazer nada, por uma semana.

Ora, não exatamente feliz. Feliz era um exagero. Mas o que estava sentindo certamente era melhor do que o que sentiria se alguém batesse na porta e...

Toc, toc.

Elizabeth arregalou os olhos.

– Só uma vez – grunhiu para o teto – o Senhor não poderia me fazer um pequeno favor? – Ela se levantou, deu um passo, então levantou os olhos novamente, as feições assumindo uma expressão de fato decepcionada. – No que se refere a favores, esse teria sido bem pequeno.

Ela abriu a porta. Susan estava parada no corredor, a mão erguida, pronta para bater de novo. Elizabeth não disse nada, principalmente porque tinha a sensação de que não ficaria orgulhosa do seu tom de voz se o fizesse.

– Você tem visita – avisou Susan.

– Não quero vê-lo.

– Não é “ele”.

Todo o rosto de Elizabeth se projetou para a frente em uma expressão de surpresa.

– Não?

– Não. – Susan estendeu um cartão de visita cor de creme. – Ela parece ser uma dama muito gentil.

Elizabeth percebeu distraidamente que o cartão era feito do papel mais elegante, o mais caro.

 

Sra. Blake Ravenscroft

– Presumo que ela seja a esposa do homem que conhecemos ontem. – observou Susan.

– Sim. O nome dela é Caroline. – Elizabeth passou a mão pelos cabelos, que ainda nem conseguira prender. – É uma pessoa muito gentil, mas sinceramente não estou com disposição para receber visitas agora e...

– Perdão – interrompeu Susan –, mas acho que ela não irá embora.

– Como?

– Se não me engano, as palavras exatas dela foram: “Imagino que ela não queira receber visitas, mas ficarei satisfeita em esperar até que ela se sinta mais disposta.” Então ela se sentou, pegou um livro...

– Santo Deus, não foi Como se casar com um marquês, não é?

– Não, na verdade o livro era preto, estava mais para um caderno... e acho que deve ser algum tipo de diário, porque ela começou a escrever nele. Mas, como eu estava dizendo – continuou Susan –, então ela olhou para mim e disse: “Não precisa se preocupar. Posso entreter a mim mesma.”

– Ela disse isso?

Susan assentiu e deu de ombros.

– Portanto, não estou me preocupando. Ela parece perfeitamente satisfeita em ficar escrevendo no livrinho. Mas estou preparando chá, em nome das boas maneiras.

– Ela realmente não vai embora, não é?

Susan fez que não com a cabeça.

– Ela parece a mais determinada das mulheres. Não acho que irá embora até ver você. Eu não ficaria surpresa se a dama tivesse trazido uma muda de roupa.

– Então acho então que é melhor arrumar meus cabelos e descer.

Susan estendeu a mão para a pequena penteadeira de Elizabeth e pegou uma escova.

– Eu a ajudarei.

Elizabeth presumiu que aquilo fosse uma desculpa para arrancar informações; Susan nunca se oferecera para arrumar os cabelos dela antes. Mas o movimento da escova em seus cabelos estava tão gostoso que ela resolveu não fazê-la parar. Na verdade, aquele era um raro momento em que alguém cuidava dela.

Elizabeth contou as escovadas em seus cabelos até que Susan começasse a fazer perguntas. Uma, duas, três, quatro. Ah, ela fez uma breve pausa antes da quinta, devia estar se preparando para alguma coisa...

– A visita da Sra. Ravenscroft tem alguma coisa a ver com os acontecimentos da noite passada? – perguntou Susan.

Cinco escovadas. Elizabeth ficou impressionada. Nunca pensara que Susan teria resistido a mais do que três.

Susan passou mais uma vez a escova pelos cabelos de Elizabeth.

– Lizzie? Você me ouviu?

– Certamente não sei o motivo da visita da Sra. Ravenscroft – mentiu Elizabeth.

– Humpf.

– Ai!

– Desculpe.

– Me dê isso! – Elizabeth arrancou a escova da mão da irmã. – E os grampos também. Não confio em você com qualquer objeto pontiagudo.

Susan recuou, os braços cruzados, e franziu o cenho.

– É difícil me concentrar com você me encarando desse jeito – resmungou Elizabeth.

– Ótimo.

– Susan Mary Hotchkiss!

– Não fale comigo como se fosse minha mãe.

Elizabeth deixou escapar um longo e cansado suspiro e passou a mão pela testa. Era só o que faltava naquela manhã...

– Susan – disse em tom calmo –, lhe contarei o que você precisa saber quando eu puder.

Susan ficou encarando-a por vários momentos e parecia estar pesando as palavras.

– É o melhor que posso fazer – acrescentou Elizabeth, enfiando o último grampo nos cabelos. – Portanto, você pode muito bem mostrar um pouco de boa vontade e tentar compreender a minha posição.

Susan assentiu, os olhos escurecendo com um toque de arrependimento. Ela se afastou quando Elizabeth saiu do quarto, então seguiu a irmã pelas escadas.

Quando Elizabeth entrou, Caroline estava aconchegada no sofá da sala de estar, escrevendo em um caderno com capa de couro.

Ao ouvir o som de passos, a dama levantou os olhos.

– Você não está terrivelmente surpresa em me ver, espero.

Elizabeth deu um sorrisinho.

– Eu não estava esperando você, mas agora que está aqui, não, não posso dizer que estou surpresa.

Caroline fechou o caderno.

– Blake me contou tudo.

– Sim, ele disse que contaria. Eu... – Elizabeth parou, olhou sobre o ombro e encarou Susan, que estava se demorando na porta. Diante do olhar irritado, a menina se afastou rapidamente, mas ainda assim Elizabeth se virou para Caroline e disse: – Gostaria de caminhar pela alameda? Não posso antecipar a natureza de sua conversa, mas, se deseja privacidade, sugiro fortemente que saiamos de casa.

Caroline riu.

– Adoro famílias. São muito maravilhosamente enxeridas. – Ela se levantou e levou a mão às costas. – Estou certa de que você preferiria que a sua estivesse na Grécia agora... ou mais longe!... mas não cresci com uma família que fosse minha e posso lhe garantir que é muito bom ter alguém interessado em você a ponto de ficar ouvindo atrás da porta.

– Suponho que isso dependa do humor em que a pessoa está – concedeu Elizabeth.

Caroline deu uma palmadinha na barriga.

– Esse é parte do motivo para eu estar tão ansiosa por esse filho. Não tenho uma família atrás de mim, por isso posso muito bem criar uma para o futuro.

Elas caminharam até a porta da frente e saíram da casa, Caroline ainda segurando seu caderninho preto. Quando estavam fora da vista do chalé, Caroline se virou para Elizabeth e disse:

– Espero que não se sinta insultada pelas ações de James no que se refere à ordem de pagamento.

– Não sei de que outro modo eu poderia me sentir.

Caroline pareceu prestes a dar uma sugestão, mas fechou a boca, balançou ligeiramente a cabeça e continuou por outro caminho.

– Talvez ele tenha providenciado a ordem de pagamento porque não queria que você se sentisse forçada a se casar contra a vontade de seu coração.

Elizabeth não disse nada.

– Tenho certeza de que não sei a história toda – continuou Caroline –, mas venho tentando juntar as informações que possuo da melhor forma possível, e acredito que você tenha achado que precisava se casar bem para sustentar sua família.

Elizabeth assentiu com tristeza.

– Não temos nada. Mal consigo alimentá-los.

– Estou certa de que James só queria lhe garantir a liberdade para escolher quem você quisesse. Talvez até para que pudesse escolher um mero administrador.

Elizabeth virou rapidamente a cabeça para encarar a visitante.

– Não, ele nunca quis isso – retrucou em uma voz baixa e trêmula.

– Não? Quando nós duas conversamos na festa, pareceu que você e seu administrador estavam perto de um acordo.

Elizabeth mordeu o lábio inferior. Quando James era apenas o Sr. Siddons, ele nunca mencionara casamento, mas havia sim jurado que eles encontrariam um modo de ficar juntos. Elizabeth presumira que essas palavras eram sinceras, mas como confiar em palavras como essas se a verdadeira identidade dele era uma mentira?

Caroline pigarreou.

– Não acho que você deva aceitar a caridade de James.

– Então você compreende como eu me sinto...

– Mas acho que você deve se casar com ele.

– Ele me fez de tola, Caroline.

– Não acho que James tivesse essa intenção.

– Mas com certeza foi esse o resultado.

– Por que pensa assim? – Então, antes que Elizabeth pudesse responder, Caroline acrescentou: – Não acho que seja tola. E sei que Blake também não acha. E James com certeza...

– Podemos por favor parar de falar sobre James?

– Claro que sim. Acho que podemos então voltar para a sua casa. – Caroline levou a mão às costas novamente. – Parece que atualmente não tenho mais a energia de sempre. – Ela estendeu o caderno preto e perguntou: – Se incomoda de segurar isso?

– De maneira alguma. É um diário?

– De certo modo. É meu dicionário pessoal. Quando me deparo com uma nova palavra, gosto de anotá-la, com sua definição. Então, é claro, preciso usá-la em algum contexto ou com certeza acabarei esquecendo-a.

– Que interessante – murmurou Elizabeth. – Preciso tentar fazer isso.

Caroline assentiu.

– Escrevi sobre você na noite passada.

– É mesmo?

Ela fez que sim novamente.

– Está aí, na última página. A última página em que eu escrevi, quero dizer. Vá em frente. Não me importo que veja.

Elizabeth folheou o caderno até chegar à última entrada. Estava escrito:

i-ne-xo-rá-vel (adjetivo). Implacável; severo; rigoroso.

Temo que James se mostre inexorável em sua perseguição à Srta. Hotchkiss.

– É o que temo também – murmurou Elizabeth.

– Bem, “temo” foi só uma palavra aleatória – apressou-se a explicar Caroline. – Certamente não temo isso. Na verdade, para ser honesta, deveria ter escrito que eu esperava que James se provasse inexorável.

Elizabeth olhou para a nova amiga e lutou contra a vontade de resmungar.

– Talvez devêssemos simplesmente voltar para casa.

– Tudo bem, mas se me permite fazer um último comentário...

– Se tem a ver com James, eu sinceramente preferia que não o fizesse.

– Tem a ver, mas prometo que será o último. Entenda... – Caroline parou para coçar o queixo, deu um sorriso envergonhado e disse: – Faço isso quando estou tentando ganhar tempo.

Elizabeth gesticulou na direção do caminho de casa, e elas começaram a caminhar.

– Estou certa de que você vai me dizer que James é um homem encantador e...

– Não, eu não ia dizer nada disso – interrompeu Caroline. – Ele é insuportável, mas você precisa confiar em mim quando lhe digo que esse é o melhor tipo de homem.

– O tipo com o qual não se consegue viver?

– Não, o tipo sem o qual não se consegue viver. E se você o ama...

– Não amo.

– Ama, sim. Posso ver em seus olhos.

– Não amo.

Caroline acenou com a mão afastando o protesto da outra.

– Ama, sim. Você só não percebe isso ainda.

– Caroline!

– O que eu estava tentando dizer é que, embora James tenha feito algo realmente terrível não lhe contando a verdade, ele teve suas razões para isso, e nenhuma delas teve a ver com o fato de querer humilhá-la. É claro – acrescentou Caroline com um aceno de cabeça – que sei que é fácil para mim dizer isso, já que não fui eu que recebi aulas de como-se-casar-com-um-marquês de um marquês...

Elizabeth se encolheu.

– Mas as intenções dele foram honradas, tenho certeza. E quando você superar sua raiva, que é muito válida, por sinal – Caroline olhou para Elizabeth, para garantir que a amiga ouvira essa parte –, vai perceber que será muito infeliz sem ele em sua vida.

Elizabeth tentou ignorar essas palavras, porque estava com uma forte desconfiança de que eram mais verdadeiras do que gostaria que fossem.

– Isso sem mencionar – continuou Caroline, animada – que eu serei infeliz sem você na minha vida. Não conheço nenhuma mulher da minha idade além da irmã de Blake, e ela está nas Índias Orientais com o marido.

Elizabeth não conseguiu evitar um sorriso, mas foi salva de ter que dar qualquer outra resposta quando percebeu que a porta da frente do chalé estava aberta. Ela se virou para Caroline e perguntou:

– Não fechamos a porta ao sair?

– Achei que sim.

Foi quando ela ouviu o tum.

Seguido por um brado exigindo chá.

Seguido por um som decididamente felino.

– Ah, não – resmungou Elizabeth. – Lady Danbury.