Como se casar com um marquês

Julia Quinn · Capítulo 19 de 26

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Como se casar com um marquês

Capítulo 18

 

 

Elizabeth acertou outro soco em James e, dessa vez, pegou-o tão desprevenido que ele caiu no chão.

– Que coisa horrível de se dizer! – gritou.

– Elizabeth – disse Caroline, segurando o pulso da jovem e puxando-a para o lado. – Acho que ele acabou de pedi-la em casamento. Isso é uma coisa boa de se dizer. Uma coisa boa. – Ela se virou para o marido, que estava olhando para James e tentando não rir. – Não é uma coisa boa?

– Ele não falou a sério – retrucou Elizabeth irritada. – Só está dizendo isso porque se sente culpado. Sabe que o que fez foi errado e...

– Espere um momento – intrometeu-se Blake. – Achei que a senhorita tinha dito que ele nem sabia que havia feito algo errado.

– Ele não sabia. Não sabe. Eu não sei! – Elizabeth se virou e estreitou os olhos na direção do belo cavalheiro moreno. – E o senhor nem estava aqui. Como sabe o que eu falei? Ficou escutando a nossa conversa?

Blake, que trabalhara com James no Departamento de Guerra por muitos anos, apenas deu de ombros.

– Temo que eu tenha feito isso no automático.

– Ora, é um hábito lamentável. Eu... – Elizabeth se interrompeu e gesticulou na direção dele de forma impaciente. – Quem é o senhor?

– Blake Ravenscroft – respondeu ele, inclinando o corpo em uma saudação educada.

– Meu marido – esclareceu Caroline.

– Ah, sim, o que é amigo dele – Elizabeth agora gesticulou com a mão na direção de James, que estava sentado no chão, segurando o nariz – há anos. Perdoe-me se esse vínculo não me faz vê-lo com bons olhos.

Blake apenas sorriu.

Elizabeth balançou a cabeça, sentindo-se estranhamente desequilibrada. O mundo estava desmoronando ao seu redor em uma velocidade alucinante, todos falavam ao mesmo tempo, e a única coisa a que ela parecia capaz de se agarrar era à raiva que sentia por James. Elizabeth sacudiu o dedo na direção dele, ainda encarando Blake com severidade.

– Ele é um aristocrata. Um maldito marquês.

– Isso é assim tão ruim? – perguntou Blake, erguendo as sobrancelhas.

– Ele deveria ter me contado!

– James – recomeçou Caroline, ajoelhando-se perto dele da melhor forma que sua fantasia permitiu –, você está sangrando?

Sangrando? Elizabeth odiava se importar com isso mas não conseguiu evitar um arquejo e se virou de imediato para James. Nunca o perdoaria pelo que ele fizera, e com certeza nunca mais queria voltar a vê-lo, mas também não gostaria que ele estivesse ferido.

– Não estou sangrando – resmungou James.

Caroline olhou para o marido e contou:

– Ela deu dois socos nele.

– Dois? – Blake sorriu. – É mesmo?

– Isso não é engraçado – ralhou Caroline.

Blake se virou para James.

– Você deixou que ela o socasse duas vezes?

– Maldição, fui eu que lhe ensinei.

– Isso, meu bom amigo, mostra uma incrível falta de visão da sua parte.

James o encarou com irritação.

– Eu estava tentando lhe ensinar a se proteger.

– De quem? De você?

– Não! De... Ah, pelo amor de Deus, o que isso importa, eu... – James viu Elizabeth se afastando aos pouquinhos e rapidamente se colocou de pé. – Você não vai a lugar algum – grunhiu ele, agarrando a faixa na cintura da fantasia dela.

– Solte-me! Argh... ah... James! – Elizabeth se debateu como um peixe fora da água, tentando sem sucesso se virar para conseguir fuzilá-lo com o olhar. – Tire. As mãos. De MIM!

– Nem em um milhão de anos.

Elizabeth olhou para Caroline com uma expressão de súplica. Com certeza outra mulher seria solidária à causa dela.

– Por favor, diga a ele para me soltar.

Caroline olhou de Blake para James, e então voltou-se novamente para Elizabeth. Claramente dividida entre a lealdade ao antigo amigo e à simpatia por Elizabeth, ela balbuciou:

– Eu... não sei o que está acontecendo, a não ser pelo fato de ele não ter dito a você quem era.

– Isso não é o bastante?

– Ora, James raramente conta quem ele é – declarou Caroline.

– O quê? – perguntou Elizabeth em uma voz aguda, virando o corpo para conseguir empurrar o ombro aristocrático de James. – Você já fez isso antes? Criatura desprezível, amoral...

– Já basta! – bradou James.

Seis cabeças espiaram do canto da casa.

– Acho de verdade que deveríamos entrar na casa – disse Caroline em uma voz fraca.

– A menos que vocês prefiram ter uma plateia – acrescentou Blake.

– Quero ir para casa – declarou Elizabeth, mas ninguém a escutou.

Ela não soube por que isso a surpreendeu, ninguém a ouvira a noite toda.

James assentiu brevemente para Blake e Caroline, e indicou a casa com um movimento rápido de cabeça. Ele segurou com mais força a faixa do vestido de Elizabeth e, quando entrou na casa, não houve nada que ela pudesse fazer além de acompanhá-lo.

Poucos momentos depois, Elizabeth se viu na biblioteca, o que era o mais cruel toque de ironia. Como se casar com um marquês ainda repousava na estante, no local exato onde ela o deixara.

Conteve um desejo irracional de começar a rir. A Sra. Seeton estava certa, havia mesmo um marquês em cada canto. A nobreza estava por toda parte, só esperando para humilhar mulheres pobres e desavisadas.

E James fizera isso. Ele a humilhara o tempo todo que passara ensinando a ela como agarrar um marquês – um maldito marquês. Toda vez que ele tentara ensinar a ela como sorrir ou como flertar ela fora diminuída. E quando ele a beijara, fingindo não passar de um administrador sem recursos, ele a maculara com suas mentiras.

Se James não a estivesse segurando pela faixa da fantasia, Elizabeth provavelmente teria pegado o maldito livro e o arremessado pela janela... e aproveitaria para empurrar James também.

Elizabeth sentiu os olhos dele em seu rosto, fazendo sua pele arder, e quando o encarou percebeu que ele acompanhara o olhar dela na direção do livro da Sra. Seeton.

– Não diga nada – sussurrou ela, dolorosamente consciente da presença dos Ravenscrofts. – Por favor, não me deixe constrangida dessa maneira.

James assentiu de forma breve, e Elizabeth sentiu o corpo todo relaxar de alívio. Não conhecia Blake e mal sabia sobre Caroline, mas não conseguiria suportar que eles soubessem que ela fora tão patética a ponto de buscar um manual para conseguir um marido.

Blake fechou a porta da biblioteca, então olhou para as pessoas ali dentro com uma expressão neutra.

– Hã... – começou ele, os olhos indo de Elizabeth para James –, gostariam que saíssemos?

– Sim – disse James em tom azedo.

– Não! – praticamente gritou Elizabeth.

– Acho que deveríamos ir – sugeriu Blake à esposa.

– Elizabeth quer que fiquemos, e não podemos deixá-la aqui sozinha com ele – argumentou Caroline.

– Não seria apropriado – apressou-se a acrescentar Elizabeth.

Ela não queria ficar sozinha com James. Se ficassem a sós, ele a venceria pelo cansaço, a faria esquecer sua raiva. Usaria palavras suaves, toques delicados, e ela acabaria perdendo de vista o que era verdade e o que era certo. Elizabeth sabia que James tinha aquele poder, e odiava a si mesma por isso.

– Acho que já passamos da fase do que é apropriado – retorquiu James.

Caroline se sentou na beirada da mesa.

– Ah, céus...

Blake encarou a esposa com um olhar divertido.

– Desde quando você passou a se preocupar tanto com o que é ou não apropriado?

– Desde... ah, fique quieto. – Então, em uma voz sussurrada, acrescentou: – Você não quer que eles se casem?

– Eu nem sequer sabia da existência dela até dez minutos atrás.

– Não vou me casar com ele – declarou Elizabeth, tentando não reparar no modo como sua voz vacilou ao dizer aquelas palavras. – E eu agradeceria se vocês dois não falassem como se eu não estivesse aqui.

Caroline baixou os olhos.

– Desculpe – murmurou. – Odeio quando as pessoas fazem isso comigo.

– Quero ir para casa – repetiu Elizabeth.

– Eu sei, querida – murmurou Caroline –, mas precisamos mesmo resolver esse assunto e...

Alguém começou a bater na porta.

– Vá embora! – gritou Blake.

– Você vai se sentir muito melhor pela manhã se resolvermos isso agora – continuou Caroline. – Eu lhe prometo que...

– SILÊNCIO!

A voz de James reverberou no cômodo com tanta força que Elizabeth se sentou. Infelizmente a mão dele ainda estava ao redor da faixa do vestido, então ela se viu arquejando por ar, a faixa apertando suas costelas.

– James, me solte – ofegou.

Ele a soltou, embora provavelmente mais por causa do desejo de balançar o punho para todos os que estavam na biblioteca do que por qualquer outra coisa.

– Pelo amor de Deus – esbravejou ele –, como um homem consegue pensar com todo esse barulho? Será que podemos ter uma conversa civilizada? Apenas um assunto de cada vez, para que todos possamos acompanhar?

– Na verdade, se analisarmos bem, estamos discutindo um único assunto. É claro que estamos todos falando ao mesmo tempo... – argumentou Caroline, provavelmente em uma iniciativa não muito esperta.

O marido a puxou para o seu lado com firmeza o bastante para que ela deixasse escapar um gritinho. Depois disso, Caroline não disse mais nada.

– Preciso falar com Elizabeth – disse James. – A sós.

A resposta de Elizabeth foi rápida e firme.

– Não.

Blake começou a caminhar na direção da porta, arrastando Caroline atrás de si.

– Está na hora de irmos, querida.

– Não podemos deixá-la aqui sozinha contra a vontade dela – protestou Caroline. – Não está certo, e em sã consciência não posso...

– Ele não vai machucá-la – interrompeu Blake.

Mas Caroline fincou o pé ao redor da perna de uma mesa.

– Não vou deixá-la aqui – insistiu.

Do outro lado da sala, Elizabeth disse um “obrigada” comovido e silencioso, apenas mexendo os lábios.

– Blake... – falou James, olhando de relance para Caroline, que havia passado os braços de abóbora ao redor de uma poltrona.

Blake deu de ombros.

– Você logo saberá, James, que há momentos em que um homem não pode discutir com a esposa.

– Ora, ele vai aprender isso com alguma outra esposa, porque eu não vou me casar com ele – declarou Elizabeth.

– Ótimo! – explodiu James, acenando com o braço na direção de Blake e Caroline em um gesto irritado. – Fiquem e escutem. De qualquer forma, era provável que ficassem ouvindo atrás da porta. E quanto a você... – Ele voltou o olhar furioso para Elizabeth. – Você vai me escutar e vai se casar comigo.

– Está vendo? – sussurrou Caroline para Blake. – Eu sabia que ele mudaria de ideia e nos deixaria ficar.

James se virou lentamente na direção do casal, o pescoço tão tenso que seu maxilar tremia.

– Ravenscroft – disse para Blake, a voz controlada –, você nunca teve necessidade de estrangulá-la?

– Ah, o tempo todo – respondeu o amigo em tom animado. – Mas na maior parte do tempo fico feliz por ter sido eu a me casar com ela, e não você.

– O quê? – perguntou Elizabeth em uma voz muito aguda. – Ele a pediu em casamento? – Ela balançou a cabeça para a frente e para trás por vários segundos antes de conseguir parar de movê-la e fixar os olhos em Caroline. – Ele a pediu em casamento?

– Sim – respondeu Caroline com um dar de ombros despreocupado. – Mas não estava falando sério.

Elizabeth se virou para James com uma expressão dura nos olhos.

– Você tem o hábito de fazer pedidos de casamento falsos?

James se voltou para Caroline com uma expressão ainda mais severa.

– Você não está melhorando a situação.

Caroline encarou o marido com olhos inocentes.

– Não me peça ajuda – disse Blake.

– Ele teria se casado comigo se eu tivesse aceitado – explicou Caroline após dar um suspiro alto. – Mas James só me pediu em casamento para incitar Blake a fazer o mesmo. Na verdade, foi uma atitude muito atenciosa da parte dele. James será um marido maravilhoso, Elizabeth. Eu garanto.

Elizabeth encarou os três com perplexidade. Observá-los interagindo era exaustivo.

– Nós a estamos confundindo, não estamos? – perguntou Caroline.

Elizabeth ficou completamente sem palavras.

– É mesmo uma história sensacional – disse Blake com um dar de ombros. – Eu escreveria um livro a respeito, mas sei que ninguém acreditaria em mim.

– Acha mesmo? – perguntou Caroline, os olhos iluminados de prazer. – Que título você daria ao livro?

– Não sei... – falou Blake, esfregando o queixo. – Talvez algo sobre como agarrar uma herdeira.

James aproximou o rosto do de Blake.

– Por que não Como deixar seus amigos completa e irrevogavelmente loucos?

Elizabeth balançou a cabeça.

– Vocês são todos loucos. Estou certa disso.

Blake deu de ombros.

– Eu também tenho certeza disso pelo menos metade do tempo.

– Eu poderia por favor ter uma palavra com Elizabeth? – perguntou James, irritado.

– Desculpe – pediu Blake em uma voz claramente determinada a irritar. – Esqueci completamente por que estamos aqui.

James enfiou a mão esquerda nos cabelos, logo acima da testa, e puxou-os. Pareceu a única maneira de evitar apertar o pescoço de Blake.

– Estou começando a perceber por que é melhor cortejar uma mulher em particular.

Blake ergueu a sobrancelha.

– O que quer dizer com isso?

– Que vocês arruinaram tudo.

– Por quê? – atacou Elizabeth. – Porque ela revelou a sua identidade de forma inadvertida?

– Eu ia lhe contar tudo amanhã.

– Não acredito em você.

– Não me importo se acredita ou não! – berrou James. – É a verdade.

– Perdoem a interrupção – pontuou Caroline –, mas não deveria se importar se ela acredita ou não em você? Afinal, você a pediu em casamento.

James começou a tremer, desesperado para estrangular alguém naquela biblioteca, mas sem saber exatamente com quem estava mais furioso. Havia Blake, com seus olhares debochados; Caroline, que certamente era a mulher mais enxerida de toda a criação; e Elizabeth...

Elizabeth. Sim, devia ser ela a pessoa de quem ele realmente queria apertar o pescoço, porque só o fato de pensar no nome dela já fazia sua temperatura se elevar vários graus. E não apenas devido à paixão.

Estava furioso. Os ossos trêmulos, os dentes cerrados, os músculos prestes a saltar da pele. E as três pessoas no local claramente não se davam conta do perigo que estavam correndo cada vez que faziam outra piadinha idiota.

– Vou falar agora – falou James, mantendo a voz lenta e controlada. – E a pessoa que me interromper vai ser jogada pela janela. Fui claro?

Ninguém disse nada.

– Fui claro?

– Achei que você quisesse que ficássemos quietos – ironizou Blake.

O que foi o incentivo de que Caroline precisava para abrir a boca e dizer:

– Você acha que ele percebeu que a janela não está aberta?

Elizabeth levou a mão à boca. James a encarou com severidade. Que Deus a ajudasse se ela risse.

Ele respirou fundo e fitou muito sério os olhos azuis de Elizabeth.

– Eu não lhe contei quem eu era porque fui chamado até aqui para investigar a chantagem que estão fazendo com a minha tia.

– Alguém está chantageando a sua tia? – perguntou Caroline em um sussurro.

– Santo Deus! – exclamou Blake. – O cretino deve estar querendo morrer. – Ele se voltou para Elizabeth. – Falando por mim, tenho pavor daquele velho dragão.

James olhou para os Ravenscrofts, então voltou-se expressivamente para a janela e tornou a olhar para Elizabeth.

– Não teria sido prudente informá-la dos meus reais propósitos aqui na Casa Danbury porque, caso não se lembre, você era a primeira suspeita.

– Você suspeitou de Elizabeth? – interrompeu Caroline. – Está completamente louco?

– Ele suspeitou – afirmou Elizabeth. – E está. Louco, quero dizer.

James respirou fundo mais uma vez. Estava a dois passos de entrar em combustão espontânea.

– Eu logo retirei Elizabeth da lista de suspeitos – declarou.

– E foi nesse momento que você deveria ter me contado quem era – apontou Elizabeth. – Antes de... – Ela se interrompeu e abaixou os olhos.

– Antes do quê? – perguntou Caroline.

– A janela, minha querida – falou Blake, dando um tapinha carinhoso no braço da esposa. – Lembre-se da janela.

Ela assentiu e se voltou para James e Elizabeth, na expectativa.

James a ignorou de propósito e se concentrou apenas em Elizabeth. Ela estava sentada em uma cadeira, as costas muito retas, o rosto parecendo tão tenso que ele achou que a mais suave carícia a faria perder o controle. James tentou se lembrar de como Elizabeth estava apenas uma hora antes, ruborizada de paixão e prazer. Para seu grande horror, não conseguiu.

– Não revelei minha identidade a você naquele momento porque senti que antes de tudo eu devia explicações à minha tia. Ela tem sido...

Ele buscou palavras que pudessem explicar a profundidade de sua devoção pela velha dama tão caprichosa, mas então lembrou que Elizabeth conhecia o seu passado. Na verdade, ela era a única pessoa a quem ele contara toda a história de sua infância. Até mesmo Blake só sabia de algumas partes.

– Ela vem sendo muito importante para mim ao longo dos anos – declarou James finalmente. – Eu não poderia...

– Você não precisa me explicar seu amor por lady Danbury – disse Elizabeth em uma voz suave, sem encontrar os olhos dele.

– Obrigado. – Ele pigarreou. – Eu não sabia... ainda não sei... a identidade do chantagista. Além disso, não tenho como determinar se esse indivíduo pode vir a ser perigoso. Não vi motivo para arrastá-la ainda mais para dentro da questão.

Elizabeth levantou a cabeça rapidamente e a expressão que James viu nos olhos dela foi de partir o coração.

– Certamente você sabe que eu jamais faria qualquer mal a lady Danbury.

– É claro que sei. Sua devoção a ela é óbvia. Mas permanece o fato de que você não tem experiência nesses assuntos e...

– E você tem experiência? – perguntou ela, o sarcasmo evidente, mas não ofensivo.

– Elizabeth, passei a maior parte da última década trabalhando para o Departamento de Guerra.

– O revólver – sussurrou ela. – O modo como você atacou Fellport. Eu sabia que havia algo estranho ali.

James praguejou baixinho.

– Minha briga com Fellport não teve nada a ver com a minha experiência no Departamento de Guerra. Pelo amor de Deus, Elizabeth, o homem havia atacado você.

– Sim – retrucou ela –, mas você pareceu ter muita familiaridade com a violência. Foi fácil demais para você. O modo como sacou o revólver... passou a impressão de ter muita experiência em fazer aquilo.

James se inclinou para a frente, os olhos ardentes fixos nos dela.

– O que eu senti naquele momento estava muito longe do familiar. Foi ódio, Elizabeth, puro e primitivo, e completamente diferente de qualquer coisa que já tenha corrido pelas minhas veias.

– Você... você nunca tinha sentido ódio antes?

Ele fez que não com a cabeça lentamente.

– Não daquele jeito. Fellport ousou atacar o que era meu. Ele tem sorte de eu tê-lo deixado vivo.

– Não sou sua – sussurrou ela.

Mas faltou confiança na voz.

– Não?

Do outro lado do cômodo, Caroline suspirou.

– James, não consigo perdoá-lo. Simplesmente não consigo – disse Elizabeth.

– Por que diabo você não consegue me perdoar? – James perdeu a calma. – Por não ter lhe contado que eu tenho um título? Achei que você houvesse dito que não queria um maldito marquês.

Com um pouco menos de raiva, ela sussurrou:

– O que quer dizer?

– Não se lembra? Foi aqui mesmo nessa biblioteca. Você estava segurando o livro e...

– Não mencione aquele livro – reclamou Elizabeth, a voz baixa e furiosa. – Nunca mais o mencione.

– Por que não? – provocou James, a raiva e a mágoa tornando-o cruel. – Por que não quer ser lembrada de como estava desesperada, voraz e ambiciosa?

– James! – exclamou Caroline. – Pare com isso.

Mas ele estava magoado demais, descontrolado demais.

– Você não é melhor do que eu, Elizabeth Hotchkiss. Fica pregando sobre honestidade, mas estava disposta a preparar uma armadilha para algum tolo inocente a fim de arrastá-lo para o casamento.

– Eu não estava! Jamais teria me casado com alguém sem me certificar de que ele soubesse da minha situação antes. Você sabe disso.

– Sei? Não me lembro de você ter mencionado esses princípios tão nobres. Na verdade, tudo que lembro é de você ensaiando seus truques comigo.

– Você me pediu para fazer isso!

– James Siddons, administrador, era bom o bastante para ser provocado, mas não para ser seu marido. Era isso? – comentou ele com desdém.

– Eu amava James Siddons! – deixou escapar Elizabeth.

Então, chocada com o que dissera, ficou de pé de um pulo e disparou em direção à porta.

Mas James era muito rápido. Ele bloqueou o caminho dela e perguntou em um sussurro:

– Você me amava?

– Eu amava James Siddons – repetiu ela em um lamento. – Não sei quem é você.

– Sou o mesmo homem.

– Não, você não é. O homem que eu conheci era uma mentira. Ele não teria me ridicularizado como você fez. E ainda assim... – A voz dela falhou e uma risada horrorizada escapou de seus lábios. – E ainda assim, ele fez isso. Não fez?

– Pelo amor de Deus, Elizabeth, o que foi que eu fiz de tão vil e cruel?

Ela o encarou sem acreditar.

– Você nem sequer imagina, não é? Você me dá nojo.

James sentiu os músculos do pescoço se retesarem de raiva e precisou de cada grama de controle para não agarrá-la pelos ombros e sacudi-la até que ela recuperasse o bom senso. A raiva e a mágoa que sentia eram tão agudas que ele teve medo de que uma mínima demonstração de emoção pudesse desencadear uma terrível onda de fúria. Finalmente, exercendo um autocontrole que ele mal conseguia acreditar possuir, James conseguiu dizer apenas:

– Explique-se.

Elizabeth ficou absolutamente imóvel por um momento, então bateu o pé, atravessou a biblioteca e pegou o exemplar de Como se casar com um marquês que estava na prateleira.

– Você se lembra disso? – gritou ela, sacudindo o livrinho vermelho no ar. – Lembra-se?

– Acho que você me pediu para não mencioná-lo na frente dos Ravenscrofts.

– Não importa. Você já me humilhou na frente deles de qualquer modo. Posso muito bem terminar o serviço.

Caroline pousou a mão no braço de Elizabeth para confortá-la.

– Acho você muito corajosa – disse ela com suavidade. – Por favor, não pense que deve se sentir envergonhada de forma alguma.

– Ah, você não acha que devo? – disparou Elizabeth, engasgando a cada palavra. – Ora, então olhe para isso!

Ela colocou o livro nas mãos de Caroline.

O livro estava com a capa virada para baixo, então Caroline murmurou que não estava entendendo, até virá-lo e ler o título. Um gritinho de compreensão escapou de seus lábios.

– O que é isso, querida? – perguntou Blake.

Em silêncio, Caroline estendeu o livro ao marido. Ele pegou e o folheou por alguns instantes. Então os dois olharam para James.

– Não estou certa do que aconteceu – disse Caroline com cuidado –, mas a minha imaginação está concebendo todo tipo de desastre.

– Ele me encontrou com isso na mão – contou Elizabeth. – Sei que é um livro ridículo, mas eu precisava me casar e não tinha ninguém com quem me aconselhar. Então James me pegou com o livro e temi que zombasse de mim. Mas ele não fez isso.

Ela parou para respirar e secou rápido uma lágrima.

– Ele foi muito gentil. E acabou... acabou se oferecendo para me ensinar. Concordou que eu jamais poderia ter a esperança de me casar com um marquês...

– Eu nunca disse isso! – argumentou James com veemência. – Você disse. Não eu.

– Ele se ofereceu para me ajudar a interpretar o livro, de modo que...

– Eu me ofereci para queimar o livro, caso não se lembre. Falei a você que não passava de uma tolice. – James a encarou com irritação e, quando isso pareceu não deixá-la abalada, usou o mesmo olhar em Blake e Caroline. Isso também pareceu não ter efeito, então ele se voltou novamente para Elizabeth e gritou: – Pelo amor de Deus, mulher, só há uma regra naquele maldito livro que vale a pena seguir!

– E qual é? – perguntou Elizabeth com desdém.

– Que você se case com seu maldito marquês!

Ela ficou em silêncio por um longo momento, os olhos azuis presos aos dele. Então, em um movimento que partiu o coração de James, deu as costas.

– James disse que me ajudaria a aprender como conquistar um marido – contou ela aos Ravenscrofts. – Mas ele nunca me contou quem era. Nunca me disse que era um maldito marquês.

Ninguém fez qualquer comentário, assim Elizabeth deixou escapar um suspiro amargo e concluiu:

– E agora vocês conhecem a história toda. Como ele se divertiu comigo e com a minha infeliz situação.

James atravessou a biblioteca em um piscar de olhos.

– Nunca ri de você, Elizabeth – disse ele, encarando-a com intensidade. – Você precisa acreditar nisso. Nunca tive a intenção de magoá-la.

– Pois bem, magoou.

– Então case-se comigo. Deixe-me passar a vida me redimindo com você.

Uma lágrima grossa escapou pelo canto do olho de Elizabeth.

– Você não quer se casar comigo.

– Eu a pedi em casamento várias vezes – defendeu-se ele com um suspiro de impaciência. – De que outra prova você precisa?

– Não posso ter meu orgulho? Ou essa é uma emoção reservada à elite?

– Sou uma pessoa assim tão terrível? – A pergunta foi pontuada por um outro suspiro vagamente desconcertado. – Muito bem, eu não lhe disse quem eu era. Desculpe. Perdoe-me por ter gostado... não, por ter me regozijado... com o fato de você ter se apaixonado por mim, não pelo meu título, pelo meu dinheiro ou por qualquer outra coisa. Apenas por mim.

Elizabeth deixou escapar um som engasgado.

– Então foi um teste?

– Não! – praticamente gritou James. – É claro que não foi um teste. Eu lhe disse que tinha razões muito importantes para esconder minha identidade. Mas... mas... – Ele lutou para encontrar as palavras, sem ter ideia de como expressar o que havia em seu coração. – Mas ainda assim foi bom. Você não tem ideia, Elizabeth. Não tem a menor ideia.

– Não – admitiu ela baixinho. – Não tenho.

– Não me castigue, Elizabeth.

A voz dele estava carregada de sentimento, e Elizabeth sentiu aquele tom cálido de barítono alcançar o fundo de sua alma. Precisava sair dali, tinha que escapar antes que ele tecesse mais mentiras ao redor do coração dela.

Elizabeth se desvencilhou das mãos dele e se apressou na direção da porta.

– Tenho que ir – falou, o pânico aumentando em sua voz. – Não posso ficar com você neste momento.

– Para onde vai? – perguntou James, seguindo-a devagar.

– Para casa.

Ele esticou o braço para evitar que ela saísse.

– Não vai caminhar sozinha até em casa. Já está de noite, e esse distrito está cheio de bêbados desvairados.

– Mas...

– Não me importo se você me odeia – falou James em um tom que não deixava margem para protestos. – Não vou permitir que saia daqui sozinha.

Elizabeth dirigiu um olhar suplicante a Blake.

– Então o senhor pode fazer isso. Me levaria até em casa? Por favor?

Blake ficou de pé e seus olhos encontraram brevemente os de James antes de ele assentir.

– Seria uma honra.

– Tome conta dela – disse James emburrado.

Blake voltou a assentir.

– Você sabe que farei isso.

Ele tomou Elizabeth pelo braço e a acompanhou para fora da biblioteca.

James os observou partir, então apoiou-se contra a parede, o corpo tremendo com toda a emoção que mantivera contida durante toda a noite. A fúria, a mágoa, a irritação e até mesmo a maldita frustração, afinal não alcançara o próprio prazer no bosque com Elizabeth. Tudo aquilo parecia estar devorando-o por dentro, tornando difícil até respirar.

Ele ouviu o som de um muxoxo e levantou os olhos. Maldição, havia se esquecido completamente de que Caroline ainda estava ali.

– Ah, James – disse ela em um suspiro. – Como você pôde?

– Poupe-me, Caroline – retrucou ele irritado. – Apenas me poupe.

Então James saiu como um raio da biblioteca e atravessou o salão sem prestar atenção em quem estava à sua volta. Havia uma garrafa de uísque em seu chalé que prometia ser a melhor companhia da noite.