Como se casar com um marquês
Capítulo 10
James chegou ao portão da frente às 4h15 da tarde. Sabia que era absurdamente cedo, mas por algum motivo não conseguira impedir os próprios pés de o levarem ao lugar combinado para o encontro. Passara a tarde toda inquieto, tamborilando sobre as mesas e sempre andando de um lado para outro nos cômodos em que entrava. Tentara se sentar e escrever o plano de aula de que tanto se gabara, mas não encontrou as palavras para isso.
Ele não tinha experiência em preparar uma jovem dama para o convívio social. A única jovem dama que ele realmente conhecia era a esposa de seu melhor amigo, Blake Ravenscroft. E a própria Caroline não fora exatamente preparada para o convívio em sociedade. Quanto às outras mulheres que James conhecia... bem, eram todas exatamente do tipo que a Sra. Seeton gostaria que suas leitoras aprendessem a ser. E James sentira um enorme alívio em se ver livre exatamente desse tipo ao deixar Londres.
O que ele queria em uma mulher? Seu compromisso de ajudar Elizabeth parecia implorar pela resposta a essa pergunta. O que ele, James, queria em uma esposa? Ele precisava se casar, não havia como questionar o destino a esse respeito. Mas era terrivelmente difícil imaginar passar o resto da vida com uma flor tímida que tinha medo de expressar a própria opinião.
Ou pior, com uma flor tímida que nem sequer possuía uma opinião.
E como se não bastasse, essas jovens damas sem opinião invariavelmente vinham acompanhadas de mães extremamente cheias de opinião.
James se forçou a admitir que não estava sendo justo. Conhecia umas poucas jovens damas interessantes. Com uma ou duas delas ele poderia até mesmo ter se casado sem medo de estar arruinando a própria vida. Não teria sido uma união por amor nem teria havido grande paixão, mas poderia ter ficado satisfeito em alguma medida.
Então o que havia nessas damas, nas que haviam chamado a atenção dele mesmo que por um momento fugaz? Uma certa joie de vivre, um amor pela vida, um sorriso que parecia real, uma luz nos olhos. James estava certo de que não era o único homem que percebera essas coisas – afinal, todas as moças em questão haviam sido rapidamente pedidas em casamento, na maior parte dos casos por homens de quem ele gostava e a quem respeitava.
Amor pela vida. Talvez tudo se resumisse a isso. James passara a manhã lendo Como se casar com um marquês e, a cada decreto, imaginava aquela luz incomparável de safira se apagando um pouco mais dos olhos de Elizabeth.
Não queria moldá-la segundo um ideal predeterminado qualquer de como deviam ser as jovens inglesas. Não queria ver Elizabeth andando com os olhos baixos, tentando ser misteriosa e recatada. Só queria que Elizabeth fosse ela mesma.
Elizabeth fechou a porta da Casa Danbury ao sair e desceu pela entrada principal. Seu coração estava disparado, as mãos úmidas e, por mais que não se sentisse exatamente envergonhada por James ter descoberto seu segredo desesperado, estava bastante nervosa.
Ela ficara a tarde toda se censurando por ter aceitado a oferta. Afinal, não passara a noite da véspera soluçando até dormir exatamente porque achava que poderia amar um homem com quem nunca se casaria? E agora estava se colocando de propósito na companhia dele, permitindo que ele brincasse com ela, que flertasse com ela e...
Santo Deus, e se James quisesse beijá-la de novo? Ele dissera que iria treiná-la para atrair outros homens. Isso envolvia beijos? E, se envolvesse, ela permitiria que ele seguisse em frente?
Elizabeth resmungou. Como se fosse ser capaz de detê-lo. Toda vez que estavam juntos no mesmo cômodo, seus olhos acabavam encontrando a boca de James e ela se lembrava da sensação de ter aqueles lábios sobre os dela. E que Deus a ajudasse, mas queria sentir aquilo de novo.
Um último vislumbre de felicidade. Talvez esse fosse o objetivo dela com tudo aquilo. Iria se casar com alguém que não amava, talvez até com alguém de quem nem sequer gostava. Era assim tão errado querer uns poucos últimos dias de risos, olhares secretos e formigamentos provocados por desejo recém-descoberto?
Enquanto caminhava na direção do portão da frente, Elizabeth desconfiou que estivesse pedindo para ter uma frustração amorosa ao concordar em se encontrar com James, mas o coração dela não a deixaria fazer outra coisa. Já lera Shakespeare o bastante para confiar no Bardo, e se ele dizia que era melhor ter amado e perder do que nunca ter amado... bem, Elizabeth acreditava nele.
James estava esperando por ela, longe da vista da Casa Danbury, e seus olhos se iluminaram ao vê-la.
– Elizabeth – chamou ele, caminhando na direção dela.
Elizabeth parou, satisfeita só de vê-lo se aproximar, a brisa suave alvoroçando os cabelos escuros. Nunca conhecera ninguém que parecesse mais confortável na própria pele do que James Siddons. Ele tinha um passo fácil, um modo de andar suave. Ela pensou nas inúmeras vezes em que tropeçara em um tapete ou em que batera com a mão em uma parede, e suspirou de inveja.
James alcançou-a e disse apenas:
– Você está aqui.
– Achou que eu não estaria?
– Achei que você ficaria em dúvida.
– É claro que estou em dúvida. Esta é com certeza a coisa mais irregular que já fiz.
– Que admirável – murmurou ele.
– Mas não importaria se eu tivesse uma ou muitas dúvidas. – Ela deu um sorriso impotente. – Tenho que passar por aqui para ir embora, portanto não teria como evitá-lo mesmo se tentasse.
– Que sorte a minha.
– Tenho a impressão de que a sorte sorri com frequência para você.
Ele inclinou a cabeça.
– Ora, por que diz isso?
Ela deu de ombros.
– Não sei. É que você parece ser o tipo de pessoa que sempre cai de pé.
– Desconfio que você seja uma sobrevivente também.
– De certa maneira, sim, suponho. Eu poderia ter desistido da minha família anos atrás, sabe. Parentes se ofereceram para ficar com Lucas.
– Mas não com o resto de vocês?
Ela deu um sorrisinho irônico.
– O resto de nós não possui títulos.
– Entendo. – James deu o braço a ela e indicou o sul. – É por aqui?
Elizabeth fez que sim com a cabeça.
– Sim, cerca de 1,5 quilômetro descendo a estrada, então mais uns 400 metros pela estrada lateral.
Eles caminharam alguns passos, então James se virou para ela e disse:
– Você falou que era uma sobrevivente “de certa maneira”. O que quis dizer com isso?
– É mais fácil para um homem ser um sobrevivente do que para uma mulher.
– Isso não faz sentido.
Ela o encarou com uma expressão que inspirava certa compaixão. James nunca compreenderia o que ela teria a dizer a respeito, mas Elizabeth imaginou que devia uma explicação a ele de qualquer modo:
– Quando um homem passa por dificuldades financeiras, há um grande número de coisas que ele pode fazer, opções a buscar, para reverter a situação. Ele pode servir o Exército ou arrumar uma ocupação em um navio pirata. Pode procurar trabalho, como você fez. E também tem a possibilidade de usar seu encanto e sua aparência – ela balançou a cabeça e sorriu com relutância –, como imagino que você já tenha feito.
– E uma mulher não pode fazer essas coisas?
– Uma mulher que esteja procurando por trabalho não tem muitas opções se não desejar deixar a própria casa. Um posto de governanta paga um pouco melhor do que o de dama de companhia, mas duvido que muitos patrões aceitassem tranquilamente que eu levasse Susan, Jane e Lucas comigo para morar na ala dos criados.
– Touché – disse James, assentindo para mostrar que compreendera.
– E quanto ao encanto e à aparência, ora, uma mulher pode usar essas características para três coisas: trabalhar no teatro, se tornar amante de algum homem ou se casar. Quanto a mim, não tenho qualquer inclinação ou talento para atuar, e não desejo envergonhar minha família ao manter uma relação ilícita. – Elizabeth olhou para James e deu de ombros. – Minha única opção é o casamento. Suponho que para uma mulher isso signifique ser uma sobrevivente.
Ela fez uma pausa e os cantos de sua boca tremeram como se não soubessem se era a tentativa de um sorriso ou o acompanhamento natural de um cenho franzido.
– Bastante desagradável, não acha?
James passou um longo tempo em silêncio. Gostava de pensar em si mesmo como um homem de mente aberta, mas nunca tinha parado para pensar em como deveria ser restritivo estar na pele de uma mulher. Sempre tomara como certa a vida que levava, com sua infinidade de escolhas.
Elizabeth inclinou a cabeça.
– Por que está olhando tão sério?
– Por respeito.
Ela recuou, surpresa.
– Como?
– Eu já a admirava antes. Você sempre se mostrou uma jovem inteligente e divertida. Mas agora percebo que merece meu respeito, assim como a minha admiração.
– Ah. Eu... eu...
Ela ficou ruborizada e claramente sem palavras.
– Não tive a intenção de deixá-la desconfortável.
– Não deixou – retrucou Elizabeth, a voz aguda demais denunciando que estava mentindo.
– Deixei sim, e eu não tinha a intenção de que essa tarde fosse ser tão séria. Temos trabalho a fazer, mas não há motivo para que não seja divertido.
Ela pigarreou.
– O que você tem em mente?
– Não temos muito tempo, por isso somos forçados a definir prioridades – explicou ele. – Devemos nos concentrar apenas nas habilidades mais importantes.
– Que são?
– Beijar e esbofetear.
Elizabeth deixou cair a bolsa que carregava.
– Você parece surpresa.
– Não consigo decidir qual das duas opções apresentadas me surpreende mais.
James se abaixou e pegou a bolsa dela.
– Faz todo o sentido quando se pensa a respeito. Um cavalheiro vai querer beijar uma dama antes de pensar em pedi-la em casamento.
– Não se ele respeitá-la – argumentou ela. – Tenho pleno conhecimento de que os homens não beijam mulheres solteiras a quem respeitam.
– Eu beijei você.
– Ora... isso foi... diferente.
– E acredito que já tenhamos deixado claro que respeito você. Mas chega disso. – Ele afastou os protestos dela com um aceno de mão. – Precisa confiar em mim quando lhe digo que nenhum cavalheiro com uma gota de bom senso vai se casar com uma mulher sem testar a temperatura da água primeiro.
– Nossa, colocado dessa forma soa tão poético... – resmungou ela.
– No entanto, isso pode colocá-la em uma posição desconfortável.
– Ah, você tem essa noção? – perguntou Elizabeth em tom sarcástico.
Ele a fuzilou com o olhar, claramente irritado com a constante interrupção dela.
– Faltam a alguns cavalheiros o bom senso básico e o discernimento, e talvez eles não interrompam o beijo no momento devido. É por isso que preciso ensiná-la a esbofetear.
– E você vai fazer tudo isso em uma tarde?
James tirou o relógio do bolso e o abriu, seu rosto com a imagem perfeita da despreocupação.
– Não, eu havia pensado apenas no beijo para esta tarde. Podemos tratar dos socos amanhã.
– E você já praticou pugilismo?
– É claro.
Ela o encarou com desconfiança.
– Não são aulas caríssimas? Ouvi dizer que há pouquíssimos instrutores realmente qualificados em Londres.
– Sempre há formas de conseguir o que se precisa – comentou ele. James olhou para ela com uma sobrancelha erguida. – Acho que você disse que sou do tipo que sempre cai de pé.
– Agora você vai me dizer que é do tipo que cai de pé com os braços erguidos e pronto para dar socos?
Ele riu e deu alguns murros no ar.
– Não há nada melhor para manter o sangue correndo nas veias.
Ela franziu o cenho, parecendo não acreditar muito.
– Não me parece uma atividade muito feminina.
– Achei que houvéssemos decidido que não nos prenderíamos à visão da Sra. Seeton sobre o que as mulheres devem ou não fazer.
– Não vamos nos prender, mas estamos tentando encontrar um marido para mim – retrucou ela.
– Ah, sim, seu marido – disse ele em tom sombrio.
– Não consigo imaginar que haja um único homem na Inglaterra que deseje se casar com uma dama pugilista.
– Você não precisa ser pugilista. Só tem que ser capaz de dar um soco bom o bastante para mostrar que não se pode tirar vantagem de você.
Ela deu de ombros e cerrou um dos punhos.
– Assim?
– Deus, não! Não coloque o polegar para dentro do punho. Com certeza irá quebrá-lo desse jeito.
Elizabeth moveu o polegar para o lado de fora do punho.
– Assim?
Ele assentiu, aprovando.
– Exatamente. Mas hoje vamos estudar beijos.
– Não, vamos deixar isso para depois. – Ela esticou o braço algumas vezes, o punho ainda cerrado. – Estou me divertindo muito.
James resmungou, sem saber muito bem o que o aborrecia mais – ter que deixar os beijos para outro dia ou o fato de Elizabeth ter o soco mais fraco que ele já vira.
– Não, não é assim – falou ele, posicionando-se atrás dela. James deixou a bolsa dela cair no chão, enquanto pousava a mão sobre o cotovelo de Elizabeth e reajustava o ângulo do ombro dela. – Você dá socos como uma moça.
– Eu sou uma moça.
– Ora, isso eu sempre achei óbvio, mas não precisa lutar como uma.
– E como um homem luta? – perguntou Elizabeth, engrossando propositalmente a voz.
– Pelo que aprendi, moças socam assim. – James cerrou o punho e movimentou o braço para a frente e para trás, o cotovelo nunca se afastando muito da lateral do corpo. – Homens, por outro lado, dão mais impulso no braço.
– Demonstre, por favor.
– Muito bem. Afaste-se, então. Não quero machucá-la.
Elizabeth brindou-o com um sorrisinho irônico e recuou alguns passos.
– Isso é espaço suficiente para um homem?
– Não deboche. Apenas observe. – Ele moveu o braço para trás. – Tenho que lhe mostrar isso a pelo menos metade da velocidade normal, já que não vou socar nada além de ar. A potência do soco provavelmente fará o golpe voltar na minha direção.
– Para todos os propósitos, então – disse Elizabeth com um gesto magnânimo da mão –, velocidade reduzida.
– Preste atenção. Você está assistindo a um mestre.
– Disso eu não tenho dúvida – comentou ela ironicamente.
James esticou o braço inteiro para a frente. Se ele tivesse se movido a plena velocidade e se houvesse alguém parado na frente, James estava quase certo de que o teria nocauteado.
– O que você acha? – perguntou ele, muito satisfeito consigo mesmo.
– Faça de novo.
James ergueu as sobrancelhas mas obedeceu, e se balançou ainda mais dessa vez. Ele olhou para Elizabeth – ela havia estreitado os olhos e o examinava como se ele fosse uma peça premiada em uma feira de gado.
Elizabeth o encarou brevemente e sugeriu:
– Mais uma vez?
– Você está prestando atenção ou só está tentando me fazer parecer um tolo?
– Ah, com certeza estou prestando atenção. Se você está parecendo um tolo, não tenho nada a ver com isso.
James moveu o braço para trás uma última vez.
– Recapitulando: quando uma mulher vai dar um soco, o movimento parte do ombro, sem usar os músculos do meio das costas.
Elizabeth imitou o soco feminino dele.
– Assim.
– Exatamente. Um homem, por outro lado, usa a força das costas assim como a do braço.
– Esses músculos aqui?
Ela levantou o braço direito e usou a mão esquerda para mostrar os músculos que envolviam a parte direita das costelas.
James sentiu a boca ficar seca. O vestido dela se ajustara ao redor dos lugares menos usuais.
– Aqui, James? – quis saber Elizabeth, cutucando as próprias costas. – Ou aqui?
Dessa vez, ela cutucou as costas dele, mas acabou errando o lugar e acertou-o mais para o lado, perto da cintura.
– Estava certo na primeira vez – avisou James, afastando-se do dedo dela. Se Elizabeth errasse as costas dele por mais alguns centímetros na direção sul, ele não se responsabilizaria pelos próprios atos.
– Então, é mais ou menos assim.
Ela deu um soco a uma velocidade reduzida, movendo-se apenas um pouco mais rápido do que ele na demonstração.
– Sim. Mas você precisa de um pouco mais de movimento lateral. Observe-me mais uma vez. – Ele deu outro soco. – Percebeu?
– Acho que sim. Gostaria que eu tentasse?
– Sim. – James cruzou os braços. – Me dê um soco.
– Ah, não, eu não conseguiria.
– Não, quero que faça.
– Não consigo. Nunca machuquei uma pessoa intencionalmente.
– Elizabeth, o único propósito desta aula é que você se torne capaz de machucar outra pessoa se houver necessidade. Se não conseguir se forçar a dar um soco em um ser humano, então tudo isso será uma total perda de tempo.
Ela não pareceu muito convencida.
– Se você insiste.
– Insisto.
– Muito bem.
Quase sem que qualquer um dos dois tivesse tempo para se preparar, Elizabeth moveu o braço para trás e lançou-o para a frente. Antes que James tivesse qualquer ideia do que estava acontecendo, se viu derrubado no chão, com o supercílio direito latejando.
Elizabeth, em vez de mostrar qualquer tipo de arrependimento ou preocupação com o bem-estar dele, ficou pulando feito louca, soltando gritinhos de alegria.
– Consegui! Consegui de verdade! Você viu? Você viu?
– Não, mas senti – resmungou ele.
Ela plantou as mãos nos quadris, com um enorme sorriso no rosto, como se estivesse prestes a ser coroada rainha do mundo.
– Ah, foi brilhante! Vamos fazer de novo.
– Não vamos, não – reclamou ele.
Elizabeth parou de sorrir e se inclinou para baixo.
– Machuquei você?
– De forma alguma – mentiu ele.
– Não?
Ela pareceu decepcionada.
– Ora, talvez só um pouquinho.
– Ah, bom, eu... – Ela reprimiu o que quer que estivesse planejando dizer. – Eu não me expressei bem. Juro. Não quero que você se machuque, mas realmente coloquei toda a minha força naquele soco, e...
– Sem dúvida vou exibir os resultados do seu soco amanhã, não se preocupe.
Ela arquejou em uma mistura de alegria e horror.
– Deixei você com um olho roxo?
– Achei que você não quisesse me machucar.
– Não quero – apressou-se em dizer Elizabeth –, mas devo confessar que nunca tinha feito nada parecido, e é um enorme prazer ter feito do modo certo.
James não achava que seu olho ficaria com um roxo tão esplêndido como ela obviamente esperava, mas ainda assim sentiu-se bastante irritado consigo mesmo por tê-la subestimado tanto. Elizabeth era tão pequenina... ele jamais imaginaria que ela acertaria logo no primeiro soco. E, mesmo depois disso, achava que ela jamais teria força bastante para fazer mais do que surpreender o oponente. Tudo o que ele pretendia era ensinar o suficiente a Elizabeth para que ela conseguisse desarmar o insolente a tempo de sair correndo.
Mas, pensou James, lamentando e apalpando o olho com cuidado, parecia que os socos dela eram qualquer coisa menos temporários. Ao olhar para Elizabeth, viu que ela parecia tão orgulhosa de si mesma que não conseguiu conter um sorriso, antes de dizer:
– Criei um monstro.
– Você acha?
O rosto dela se iluminou ainda mais, o que James não imaginara ser possível. Era como se o próprio sol estivesse se derramando de seus olhos.
Elizabeth começou a dar socos no ar.
– Talvez você pudesse me ensinar algumas técnicas mais avançadas.
– Você já está avançada o suficiente, obrigado.
Ela parou de pular de um lado para outro, o rosto sério.
– Devemos colocar algo nesse olho? Talvez ele não inche e fique roxo se colocarmos algo frio sobre ele.
James quase recusou. Para dizer a verdade, o olho dele não estava assim tão prejudicado – fora mais a surpresa do que qualquer outra coisa que o derrubara no chão. Mas Elizabeth acabara de convidá-lo para entrar na casa dela, e essa oportunidade não podia ser desperdiçada.
– Alguma coisa fria seria o ideal – murmurou ele.
– Venha comigo, então. Quer ajuda para se levantar?
Um tanto humilhado, James olhou para a mão esticada dela. Ela o estaria achando um fracote?
– Você me deu um soco no olho – retrucou ele com uma voz irônica. – O resto de mim está funcionando muito bem, obrigado.
Elizabeth retirou a mão.
– Só pensei... Você caiu no chão com força, afinal.
Maldição. Outra oportunidade perdida. O orgulho dele estava se tornando um aborrecimento. Poderia ter se apoiado nela por todo o caminho até a casa.
– Por que não tento me levantar sozinho e vemos como me saio? – sugeriu ele. Talvez pudesse torcer um tornozelo dali a mais ou menos uns 20 metros.
– Parece uma boa ideia. Mas tenha cuidado para não exigir demais de si.
James deu alguns passos cuidadosos, tentando lembrar com que lado do corpo havia caído no chão. Não seria bom mancar do lado errado.
– Tem certeza de que não está sentindo dor?
Ele teria que ser muito cafajeste para se aproveitar da preocupação que via nos olhos dela, mas obviamente a consciência dele partira para destinos desconhecidos, porque James suspirou e disse:
– Acho que sinto algo no quadril.
Elizabeth olhou para o quadril dele, o que provocou outro tipo de dor em regiões próximas.
– Está machucado?
– Não consigo imaginar outra coisa – respondeu ele. – Estou certo de que não é nada de mais, mas...
– Mas dói quando você anda – continuou ela, assentindo com um movimento maternal de cabeça. – Provavelmente se sentirá melhor pela manhã, mas parece tolice se cansar. – Ela franziu o cenho, pensativa. – Talvez fosse melhor você simplesmente voltar para a Casa Danbury. Se caminhar até o meu chalé, terá que voltar andando, e...
– Ah, estou certo de que não está tão ruim assim – apressou-se em dizer James. – E eu me comprometi a acompanhá-la até em casa.
– James, eu caminho sozinha até em casa todo dia.
– Não importa, devo cumprir minhas promessas.
– Fico feliz em liberá-lo dessa. Afinal, você não imaginava que seria nocauteado.
– Sinceramente, não está doendo tanto. Só não consigo caminhar com a minha velocidade usual.
Ela pareceu em dúvida.
– Além do mais – acrescentou James, achando que precisava reforçar sua posição –, ainda temos muito a conversar sobre a festa ao ar livre de lady Danbury no sábado.
– Tudo bem – concordou Elizabeth com relutância. – Mas você precisa prometer que vai me dizer se a dor se tornar insuportável.
Uma promessa fácil de cumprir, já que ele não estava sentindo dor alguma. Ora, ao menos não o tipo de dor ao qual ela se referia.
Eles haviam andado apenas uns poucos passos antes que Elizabeth se virasse para ele e perguntasse:
– Você está bem?
– Ótimo – garantiu James. – Mas agora que você já é uma especialista na arte da autodefesa, acho que deveríamos passar a outros aspectos do seu treinamento.
Ela ruborizou.
– Você quer dizer...
– Exato.
– Não acha que seria mais inteligente começarmos com o flerte?
– Elizabeth, acho que você não precisa se preocupar em relação a isso.
– Mas não tenho a menor ideia de como flertar!
– Só posso dizer que você tem um talento natural.
– Não! – insistiu ela. – Não tenho. Não tenho a mais vaga ideia do que dizer para os homens.
– Você pareceu saber o que dizer para mim. Isto é – corrigiu ele –, quando não estava tentando seguir os decretos da Sra. Seeton.
– Você não conta.
Ele tossiu.
– E por que não?
– Não sei – respondeu ela, com um breve balançar de cabeça. – Só sei que não conta. Você é diferente.
Ele pigarreou de novo.
– Não sou assim tão diferente dos outros membros do meu gênero.
– Se quer saber, acho muito mais fácil conversar com você.
James pensou a respeito. Antes de conhecer Elizabeth, ele se orgulhava de deixar debutantes choramingarem por ele e suas mães grudentas sem fala com apenas um olhar bem dado. Sempre fora uma ferramenta das mais eficientes – uma das únicas coisas realmente úteis que aprendera com o pai.
Apenas por curiosidade, James fixou seu olhar mais arrogante, mais sou-o-marquês-de-Riverdale, em Elizabeth – o mesmo que costumava fazer homens adultos se encolherem em um canto – e disse:
– E se eu a encarasse assim?
Ela caiu na gargalhada.
– Ah, pare! Pare! Você está ridículo.
– Como assim?
– Pare, James. Ah, por favor. Parece um garotinho fingindo ser um duque. Sei disso porque meu irmão mais novo tenta usar o mesmo olhar comigo o tempo todo.
Com o orgulho ferido, James perguntou:
– E quantos anos tem seu irmão?
– Ele tem 8 anos, mas...
O que quer que ela pretendesse dizer, perdeu-se em uma risada.
James não conseguia se lembrar da última vez que alguém rira dele, e particularmente não gostou de ser comparado com um menino de 8 anos.
– Posso lhe assegurar que... – falou ele com toda a frieza.
– Não diga mais nada – pediu Elizabeth, ainda rindo. – Sinceramente, James, a pessoa não deve se exibir como um aristocrata se não consegue se comportar como um.
Nunca, em toda a carreira de James como agente do Departamento de Guerra, ele se sentira mais tentado a revelar sua identidade. Estava se coçando de vontade de agarrá-la, sacudi-la e gritar:
– Sou um maldito marquês, sua tolinha! Posso ser um perfeito esnobe quando estou determinado a isso.
Mas, por outro lado, havia algo encantador no riso inocente de Elizabeth. Nesse momento, ela se virou para ele e disse:
– Ah, por favor, não se ofenda, James. Na verdade, trata-se de um elogio. Você é uma pessoa boa demais para ser um aristocrata.
E foi quando James decidiu que aquele talvez tenha sido o momento mais encantador da vida dele.
Ele abaixou o olhar para um ponto qualquer do caminho, e assim Elizabeth teve que se abaixar para ficar em sua linha de visão.
– Você me perdoa? – perguntou ela, brincalhona.
– Talvez eu encontre algum perdão em meu coração...
– Se você não me perdoar, talvez eu tenha que praticar pugilismo de novo.
Ele se encolheu.
– Nesse caso, eu definitivamente a perdoo.
– Achei que perdoaria. Vamos para casa.
E James se perguntou por que, quando Elizabeth disse “casa”, realmente sentiu como se a casa fosse dele também.