Como se casar com um marquês

Julia Quinn · Capítulo 17 de 26

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Como se casar com um marquês

Capítulo 16

 

Enquanto acompanhava Elizabeth até em casa, James sentiu sua vida entrar em foco. Desde que fora forçado a sair do Departamento de Guerra, ficara mais flutuando pela vida do que de fato vivendo. Se vira vítima de um mal-estar. Sabia que precisava seguir em frente, mas não estava satisfeito com as opções que se apresentavam. Sabia que precisava se casar, mas sua reação às mulheres em Londres havia sido quase sempre morna. Precisava ter um interesse mais ativo em suas terras e propriedades, mas era difícil chamar o Castelo Riverdale de lar quando via a sombra do pai em cada canto.

Mas no espaço de uma semana a vida dele assumira uma nova direção. Pela primeira vez em mais de um ano ele queria alguma coisa.

Queria alguém.

Queria Elizabeth.

Sentira-se enfeitiçado por ela antes daquela tarde, encantado e obcecado a ponto de decidir se casar com ela. Mas algo muito estranho e mágico acontecera na baia do estábulo quando ele tentara consolá-la.

James se descobrira contando a ela coisas que havia mantido em segredo por anos. E quando todas as palavras já haviam sido derramadas, sentira o vazio que morava em seu peito sendo preenchido. E soube então que não estava enfeitiçado por Elizabeth. Não estava encantado nem obcecado.

Precisava dela.

E sabia que não teria paz até que ela fosse dele, até que conhecesse cada centímetro daquele corpo, cada canto daquela alma. Se aquilo era amor, estava disposto a se entregar de boa vontade.

Mas não podia abandonar suas responsabilidades e não quebraria a promessa que fizera à tia. Resolveria o mistério daquele maldito chantagista. Depois de tudo o que Agatha fizera por ele quando criança, resolveria aquele mistério para ela.

Elizabeth amava Agatha. Portanto, entenderia.

Mas isso não significava que ele não tomaria nenhuma atitude. Dissera a Agatha que o melhor modo de desmascarar o chantagista era esperar outro bilhete, e aquilo era verdade, mas estava cansado de esperar.

Ele olhou para Elizabeth, viu os olhos daquele azul infinito e a pele irretocável, e tomou sua decisão.

– Terei que ir a Londres amanhã – disse James de modo abrupto.

Ela virou rápido a cabeça para encará-lo.

– Londres? – repetiu. – Por quê?

– Alguns negócios desagradáveis de família – respondeu ele, odiando o fato não poder contar a ela toda a verdade, mas sentindo-se confortado pelo fato de que suas palavras não eram exatamente uma mentira.

– Entendo – disse ela devagar.

É claro que ela não entendia, pensou ele, aborrecido. Como poderia? Mas não podia lhe contar. Era improvável que o chantagista de Agatha se tornasse violento, mas James não poderia afastar completamente essa possibilidade. A única forma de proteger Elizabeth era deixá-la no escuro.

– Voltarei logo – continuou ele. – Em uma semana, espero.

– Não está planejando ir atrás de Fellport, não é? – perguntou Elizabeth, o cenho franzido de preocupação. – Porque se estiver...

James pressionou o dedo indicador gentilmente contra os lábios macios dela.

– Não estou planejando ir atrás de Fellport.

Ela continuou desconfiada.

– Se você voltar a agredi-lo, será enforcado – insistiu Elizabeth. – Com certeza você sabe...

James a silenciou com um beijo breve mas cheio de promessas.

– Não se preocupe comigo – murmurou ele contra o canto da boca de Elizabeth. Ele recuou e segurou as mãos dela. – Há coisas que preciso resolver, pendências de que preciso cuidar antes de...

Ele deixou as palavras morrerem e viu a pergunta silenciosa nos olhos dela.

– Vamos ficar juntos – prometeu ele. – Eu lhe prometo.

No fim, James teve que beijá-la uma última vez.

– O futuro parece muito promissor – sussurrou James, as palavras doces e suaves contra os lábios dela. – Muito promissor mesmo.

 

Elizabeth ainda mantinha aquelas palavras no coração dez dias mais tarde, quando ainda não havia recebido sinal de James. Ela não sabia bem por que estava tão otimista em relação ao futuro. Ainda era uma dama de companhia e James ainda era um administrador, e nenhum dos dois tinha um tostão, mas por algum motivo ela confiava nas habilidades dele para tornar o futuro, como o próprio James colocara, promissor.

Talvez ele estivesse esperando uma herança de algum parente distante. Talvez conhecesse algum dos mestres de Eton e conseguisse arranjar um modo de Lucas frequentar a instituição por um valor reduzido. Talvez...

Talvez, talvez, talvez. A vida estava cheia de talvez, mas de repente “talvez” guardava muito mais promessas.

Depois de tantos anos carregando tantas responsabilidades, Elizabeth sentia-se quase exultante por ter abandonado a sensação de preocupação constante. Se James dissera que poderia resolver seus problemas, ela acreditava nele. Talvez fosse tola por acreditar que um homem fosse capaz de entrar na vida dela e tornar tudo perfeito. Afinal, o pai dela não fora exatamente um modelo de confiabilidade e retidão.

Mas certamente ela merecia um pouco de mágica na vida. Agora que encontrara James, não conseguia se forçar a procurar armadilhas e perigos. Sentia o coração mais leve do que já sentira em anos e se recusava a pensar que alguma coisa poderia roubar essa felicidade.

Lady Danbury confirmou que James conseguira um breve período de folga para visitar a família. Era um benefício fora do comum para um administrador, mas Elizabeth presumiu que ele recebesse mais consideração e liberdade por causa de sua leve ligação com os Danburys.

O que era estranho, no entanto, era o quase permanente estado de irritação de lady Danbury. Ela podia até ter cedido o tempo de que James precisava para cuidar dos assuntos dele, mas claramente não o fizera com muita boa vontade ou senso de caridade. Elizabeth não conseguiria contar o número de vezes que pegara lady D. resmungando por causa da ausência dele.

Mais recentemente, no entanto, lady Danbury andava preocupada demais com o baile de máscaras, que estava próximo, para continuar a reclamar de James. Seria o maior baile oferecido na Casa Danbury em anos, e todos os que trabalhavam na casa, além de cinquenta serviçais extras contratados apenas para o evento, se agitavam de um lado para outro. Elizabeth mal conseguia se deslocar da sala de estar para a biblioteca (que ficava apenas três portas mais para baixo) sem tropeçar em alguém em busca de lady Danbury para questioná-la a respeito da lista de convidados, do cardápio, das lanternas chinesas, das fantasias...

Sim, fantasias. No plural. Para grande choque de Elizabeth, lady Danbury encomendara duas fantasias. De rainha Elizabeth para si mesma e de pastora para Elizabeth.

Elizabeth não achou nada divertido.

– Não vou carregar aquele bastão de pastora comigo a noite toda – avisou.

– Bastão, rá. Isso não é nada – disse lady D. com uma gargalhada. – Espere só até ver o carneiro.

– O quêêêê?

– Estou brincando. Santo Deus, menina, você precisa ter mais senso de humor.

Elizabeth balbuciou vários sons sem sentido antes de finalmente conseguir dizer:

– Ah, por favor!

Lady D. fez um gesto com a mão, dispensando as reclamações de Elizabeth.

– Eu sei, eu sei. Agora você vai dizer que qualquer pessoa que tenha sobrevivido cinco anos trabalhando para mim só pode ter um excelente senso de humor.

– Algo assim – murmurou Elizabeth.

– Ou talvez que, se você não tivesse um senso de humor sensacional, a essa altura já estaria morta pela tortura de ser minha dama de companhia.

Elizabeth encarou a patroa, espantada.

– Lady Danbury, acho que a senhora é que deve ter desenvolvido senso de humor.

– Aff. Na minha idade, a pessoa precisa ter senso de humor. É o único modo de conseguir chegar ao fim do dia.

Elizabeth apenas sorriu.

– Onde está meu gato?

– Não tenho ideia, lady Danbury. Não o vi essa manhã.

Lady D. virou a cabeça de um lado para outro e falou, enquanto examinava a sala em busca de Malcolm:

– Ainda assim é de imaginar que eu deveria receber pelo menos um pouco mais de respeito.

– Sinceramente, não tenho ideia do que a senhora quis dizer com esse comentário.

O rosto da velha dama assumiu uma expressão azeda.

– Em relação a você e James, vou acabar nunca tendo permissão para ser tão arrogante quanto eu quiser.

Antes que Elizabeth pudesse retrucar, lady D. se virou para trás e continuou:

– Na minha idade, é meu direito ser tão arrogante quanto eu quiser.

– E que idade seria essa no dia de hoje?

Lady D. balançou o dedo para Elizabeth.

– Não seja engraçadinha. Você sabe muito bem a minha idade.

– Faço o possível para me manter em dia com essa informação.

– Humpf. Onde está meu gato?

Como já respondera àquele questionamento, Elizabeth preferiu perguntar:

– Quando, hã, a senhora acha que Sr. Siddons retorna?

Os olhos de lady Danbury estavam perspicazes demais quando ela respondeu:

– Meu administrador errante?

– Sim.

– Não sei, maldição. A propriedade está ficando em ruínas.

Elizabeth olhou pela janela, para os jardins intermináveis e imaculados da Casa Danbury.

– Talvez a senhora esteja exagerando um pouco.

Lady D. começou a dizer alguma coisa, mas Elizabeth levantou a mão e disse:

– E não me diga que sua idade é prerrogativa para que exagere.

– Ora, mas é. Humpf. Malcolm!

Os olhos de Elizabeth se voltaram rapidamente para a porta. O rei da Casa Danbury estava entrando na sala de estar, as patas gordas se movendo silenciosamente sobre o tapete.

– Aí está você, meu docinho – disse lady Danbury, em uma voz melosa. – Venha com a mamãe.

Mas Malcolm nem sequer balançou a cauda cor de café com leite para ela. Diante do olhar horrorizado de lady D., o gato trotou direto até onde estava Elizabeth e pulou no colo dela.

– Bom gatinho – mimou Elizabeth em uma voz suave.

– O que está acontecendo aqui? – quis saber lady D.

– Malcolm e eu nos reconciliamos, de certo modo.

– Mas ele a odeia!

– Ora, lady Danbury – falou Elizabeth, fingindo estar chocada. – Ao longo de todos esses anos, a senhora insistiu que ele era um gatinho absolutamente amigável.

– Ele com certeza é um gatinho perfeito – murmurou lady D.

– Sem falar em todas as vezes em que a senhora alegou que era tudo imaginação minha.

– Eu menti!

Elizabeth levou a mão ao rosto demonstrando uma incredulidade zombeteira.

– Não!

– Quero meu gato de volta.

Elizabeth deu de ombros. Malcolm virou de costas e esticou as patas acima da cabeça.

– Felino traidor miserável.

Elizabeth sorriu para Malcolm enquanto acariciava o pelo sob o queixo dele.

– A vida é boa, não é, Malcolm? A vida é boa, muito boa.

Malcolm ronronou em concordância, e Elizabeth sabia que falava a verdade.

Em Londres, James estava frustrado como o diabo. Passara bem mais de uma semana investigando a vida de Agatha e não conseguira nada. Não encontrara uma alma que sequer soubesse de alguém que guardasse rancor contra a tia dele. Ah, com certeza várias pessoas tinham muito a dizer sobre os modos insolentes dela e sobre sua forma direta de se relacionar, mas ninguém a odiava de fato.

 

Além disso, não havia qualquer sombra de escândalo cercando o passado dela. No que dizia respeito a Londres, Agatha, lady Danbury, tinha levado uma vida exemplar. Honrada e sincera, ela era vista como um exemplo de conduta para as mulheres da Inglaterra.

Para dizer a verdade, James não conseguia se lembrar de já ter feito uma investigação tão tediosa.

Soubera de antemão que era pouco provável que descobrisse algo significativo, afinal o chantagista procurara Agatha em Surrey. Mas ele não havia conseguido desencavar nenhuma pista na Casa Danbury e, pela lógica, o próximo passo seria Londres. Se o inimigo de Agatha soubera do segredo do passado dela através da eficiente rede de fofocas da aristocracia, então era de imaginar que alguém em Londres saberia de alguma coisa.

James terminara amargamente desapontado.

Não havia nada a fazer, a não ser voltar para a Casa Danbury e torcer para que o chantagista houvesse feito outra exigência. No entanto, aquilo parecia improvável. Com certeza a tia já o teria avisado se tivesse recebido outro bilhete ameaçador. Sabia onde encontrá-lo, pois James dissera a ela exatamente aonde iria e o que esperava conseguir.

Agatha se opusera com determinação à partida dele. Estava convencida de que o chantagista seria encontrado em Surrey, escondendo-se nas sombras da Casa Danbury. Quando James saiu pela porta da frente, Agatha já estava em plena forma, resmungona e emburrada, mais irritada do que aquele gato dela.

James se encolheu por dentro ao pensar na pobre Elizabeth, presa na companhia rabugenta da tia dele durante a última semana. Mas se havia alguém capaz de tirar Agatha de um ataque de mau humor, ele estava convencido de que essa pessoa era Elizabeth.

Mais três dias. Não devotaria mais tempo do que isso a sua investigação em Londres. Três dias e então retornaria à Casa Danbury, declararia à tia o seu fracasso e anunciaria suas intenções a Elizabeth.

Mais três dias e ele poderia recomeçar sua vida.

 

Na sexta-feira à tarde, a Casa Danbury estava sitiada. Elizabeth se trancou na biblioteca por uma hora só para ficar longe do enxame de criados que preparavam a mansão para o baile de máscaras daquela noite. No entanto, não havia como escapar da atividade frenética, e lady Danbury insistira para que Elizabeth se arrumasse lá mesmo. Foi uma proposta sensata, pois eliminava a necessidade de Elizabeth ter que ir para casa e voltar fantasiada para a festa da patroa. Mas isso também tornava impossível que ela escapasse e conseguisse alguns minutos de paz.

O tempo na biblioteca não contava. Como poderia contar quando não menos do que cinco criados bateram na porta, requisitando a opinião dela sobre os assuntos mais tolos? Por fim, Elizabeth se viu obrigada a jogar as mãos para o alto e gritar:

– Pergunte a lady Danbury!

Quando a primeira carruagem entrou no caminho que levava à casa, Elizabeth subiu correndo as escadas até o quarto que lady Danbury lhe designara naquela noite. A terrível fantasia de pastora estava pendurada no guarda-roupa, com o bastão que a acompanhava apoiado contra a parede.

Elizabeth se jogou na cama. Não tinha a menor vontade de chegar cedo à festa. Sua expectativa era de que passaria a noite sozinha. Não tinha problemas com a própria companhia, mas a última coisa que desejava era que reparassem que ela estava sozinha. Se chegasse quando a festa já estivesse a pleno vapor, poderia se misturar à multidão. Àquela altura, os convidados de lady Danbury estariam envolvidos demais nas próprias conversas para prestarem atenção nela.

Mas os convidados acabaram chegando todos de uma vez e não aos poucos, e Elizabeth conhecia lady Danbury muito bem para saber que a condessa a arrastaria escada abaixo pelos cabelos se ela se demorasse muito a descer. Assim, vestiu a fantasia de pastora, prendeu no rosto a máscara que lady D. também comprara para ela e se colocou diante do espelho.

– Estou ridícula – disse para o próprio reflexo. – Absolutamente ridícula.

O vestido branco era uma massa de franjas e babados, enfeitado com mais renda do que qualquer pastora poderia pagar, e o corpete, embora com certeza não fosse indecente, era mais decotado do que qualquer coisa que Elizabeth já tivesse usado.

– Como se alguma pastora fosse correr pelos campos usando isso – resmungou, enquanto ajeitava o vestido.

É claro que também era improvável que uma pastora usasse uma máscara enfeitada com penas, mas isso não era nada se comparado à extensão de colo que ela estava exibindo.

– Ah, não me importo – declarou Elizabeth. – De qualquer modo, ninguém vai saber quem eu sou, e, se alguém tentar fazer algo desagradável, pelo menos tenho esse maldito bastão.

Dito isso, Elizabeth pegou o bastão e agitou-o no ar como uma espada. Satisfeita com a arma, saiu do quarto para ir ao salão. Antes que chegasse às escadas, no entanto, uma porta foi aberta de supetão e uma mulher vestida de abóbora saiu de súbito por ela – direto ao encontro de Elizabeth.

As duas caíram sobre o tapete com um baque e um alvoroço de pedidos de desculpas. Elizabeth cambaleou para ficar de pé e olhou para a abóbora, que ainda estava sentada atrás dela.

– Precisa de ajuda para levantar? – perguntou Elizabeth.

A abóbora, que segurava uma máscara verde na mão, assentiu.

– Obrigada. Ando um pouco desajeitada nos últimos tempos.

Elizabeth demorou alguns instantes, mas então percebeu ao que a abó... a dama! Ao que a dama se referia. Tinha que parar de pensar nela como uma abóbora...

– Ah, não! – disse Elizabeth, ficando de joelhos ao lado da outra. – A senhora está bem? Sua... – Ela gesticulou para a barriga da dama, embora fosse difícil dizer onde ela ficava sob a fantasia de abóbora.

– Estou bem – garantiu a dama. – Posso lhe garantir que apenas o meu orgulho saiu ferido.

– Venha, deixe-me ajudá-la.

Era difícil manobrar a fantasia, mas Elizabeth acabou conseguindo levantá-la.

– Lamento muitíssimo por ter esbarrado em você – desculpou-se a dama. – É que eu estava atrasada e sei que meu marido está lá embaixo batendo o pé, e...

– Não foi nada, eu lhe garanto – falou Elizabeth. Então, só porque a dama era uma abóbora muito simpática, acrescentou: – Na verdade, estou bastante grata à senhora. Essa deve ser a primeira vez que não sou a causa de um acidente desses. Sou terrivelmente desastrada.

A nova amiga de Elizabeth riu.

– Já que estamos tão íntimas, por favor, permita que eu seja terrivelmente ousada e me apresente. Sou a Sra. Blake Ravenscroft, mas ficaria insultada demais se você me chamasse de qualquer outra coisa que não Caroline.

– Sou a Srta. Elizabeth Hotchkiss, dama de companhia de lady Danbury.

– Santo Deus, é mesmo? Ouvi dizer que ela é um verdadeiro dragão.

– Na verdade, lady Danbury é uma pessoa muito doce. Mas eu não gostaria de cair nas más graças dela.

Caroline assentiu e levou as mãos aos cabelos castanhos.

– Estou despenteada?

Elizabeth fez que não com a cabeça.

– Não mais do que se esperaria de uma abóbora.

– Sim, suponho que abóboras tenham permissão para serem mais benevolentes em relação à elegância de seus penteados.

Elizabeth riu de novo. Estava gostando bastante da outra mulher.

Caroline ofereceu o braço.

– Vamos descer?

Elizabeth assentiu, e as duas desceram as escadas.

– Você conta com minha profunda admiração – disse Caroline com uma risada, erguendo a máscara verde em uma saudação. – Meu marido passou bastante tempo aqui quando criança e garante que ainda tem medo de lady Danbury.

– Seu marido era amigo dos filhos dela?

– Do sobrinho dela, na verdade. O marquês de Riverdale. Inclusive espero vê-lo esta noite. Ele deve ter sido convidado. Já o conheceu?

– Não, ainda não. Mas ouvi falar um pouco sobre ele na semana passada.

– É mesmo? – Caroline começou a descer as escadas com cuidado. – O que ele anda fazendo? Não ouço falar dele há mais de um mês.

– Na verdade, não sei. Lady Danbury deu uma pequena festa ao ar livre na semana passada, e ele mandou um bilhete pedindo a um dos convidados que o encontrasse em Londres com urgência.

– Aaah, que intrigante. E bem típico de James.

Elizabeth sorriu à menção do nome. Tinha seu próprio James, e mal podia esperar para vê-lo de novo.

Caroline parou sobre um degrau e se virou para Elizabeth com uma expressão intrometida, muito de irmã.

– O que significou isso?

– O quê?

– Esse sorriso. E não me diga que não sorriu. Eu vi.

– Ah. – Elizabeth sentiu o rosto quente. – Não é nada. Tenho um pretendente que também se chama James.

– Sério? – Os olhos azul-esverdeados de Caroline ganharam o brilho de uma casamenteira nata. – Você precisa nos apresentar.

– Ele não está aqui, infelizmente. É o novo administrador de lady Danbury, mas foi chamado a Londres há pouco tempo. Alguma emergência de família, eu acho.

– É uma pena. Já sinto que somos amigas de verdade. Eu gostaria de conhecê-lo.

Elizabeth sentiu os olhos marejados.

– Que coisa adorável de se dizer.

– Acha mesmo? Fico feliz por você não pensar que estou indo rápido demais. Não fui criada na alta sociedade e tenho o lamentável hábito de falar sem pensar. Isso deixa meu marido louco.

– Estou certa de que ele a adora.

Os olhos de Caroline cintilaram, e Elizabeth soube que o casamento dela fora motivado por amor.

– Estou tão atrasada que é provável que ele arranque a minha cabeça – admitiu Caroline. – Ele é todo preocupado.

– Então é melhor seguirmos em frente.

– Mal posso esperar para apresentá-la a Blake.

– Seria fantástico. Mas primeiro preciso encontrar lady Danbury e me certificar de que ela não precisa de nada.

– O dever lhe chama, suponho. Mas você precisa prometer que vamos nos encontrar de novo esta noite. – Caroline deu um sorrisinho irônico e apontou para a própria fantasia. – Será fácil me encontrar.

Elizabeth chegou à base da escada e desvencilhou o braço do de Caroline.

– Prometo.

Então, com um sorriso e um aceno, ela saiu apressada do salão de baile. Lady Danbury devia estar na porta da frente recebendo os convidados, e seria mais fácil cortar caminho pelo lado de fora da casa do que tentar passar pelo mar de pessoas que já estavam ali dentro.

 

– Que diabo? – a pergunta foi seguida por xingamentos bem mais grosseiros e obscuros, enquanto James guiava o cavalo ao redor da fila de carruagens que seguia lentamente em direção à Casa Danbury.

O baile de máscaras. O maldito, irritante, inconveniente, baile de máscaras. Ele havia esquecido completamente.

Planejara aquela noite nos mínimos detalhes. Procuraria a tia, diria a ela que havia fracassado, que não fora capaz de desmascarar o chantagista, e prometeria que continuaria tentando, mas que não podia mais manter a vida em suspenso enquanto isso.

Então iria a cavalo até o chalé de Elizabeth e a pediria em casamento. Passara todo o caminho até ali sorrindo como um tolo, decorando cada palavra que diria. Pensara em chamar Lucas de lado e pedir a mão da irmã a ele. Não que James fosse deixar que um menino de 8 anos mandasse na vida dele, mas por algum motivo a ideia de incluir o menininho no pedido aquecia seu coração.

Além do mais, tinha a sensação de que Elizabeth ficaria encantada com o gesto, o que provavelmente era o verdadeiro motivo para tudo aquilo.

Mas James não conseguiria escapar da Casa Danbury naquela noite, e por certo não conseguiria ficar a sós com a tia.

Frustrado com a aglomeração de carruagens, guiou o cavalo para fora da estrada principal e cortou caminho por um campo com algumas árvores que se estendia ao longo da propriedade. A lua estava cheia e havia luz bastante escapando das muitas janelas da mansão para iluminar o caminho. Assim, James não teve que diminuir muito a velocidade enquanto seguia na direção dos estábulos.

Ele cuidou do cavalo e, cansado, entrou em seu pequeno chalé, sorrindo ao lembrar da vez em que pegara Elizabeth bisbilhotando ali algumas semanas antes. Ele ainda não falara com ela sobre isso. Não importava; eles teriam uma vida inteira para compartilhar lembranças e criar novos momentos a serem recordados.

James tentou ignorar os sons da festa, preferindo a paz e a reclusão de seu lar temporário, mas não conseguiu abstrair os roncos do estômago vazio. Voltara apressado para Surrey, ansioso por ver Elizabeth, e não parara nem para comer um pedaço de pão. O chalé, é claro, não tinha nada comestível e, assim, ele se permitiu um xingamento bastante vulgar e saiu. Com alguma sorte, conseguiria chegar à cozinha sem ser reconhecido ou incomodado por algum bêbado animado.

Manteve a cabeça baixa enquanto abria caminho entre as muitas pessoas que se espalhavam pelos gramados. Se agisse como um criado, os convidados de Agatha veriam um mero funcionário da casa e, com sorte, o deixariam em paz. Com certeza eles não esperariam ver o marquês de Riverdale tão empoeirado, com a roupa amassada.

Ele passou ao largo dos convidados e estava a meio caminho do seu destino quando viu pelo canto do olho uma pastora loura tropeçar em uma pedra, balançar com desespero o braço esquerdo em busca de equilíbrio, até finalmente conseguir se manter de pé enfiando no chão o cajado que segurava.

Elizabeth. Só podia ser. Nenhuma outra pastora loura poderia ser tão absoluta e encantadoramente desajeitada.

Ela parecia estar se esgueirando ao longo do perímetro da Casa Danbury, a caminho da frente da propriedade. James mudou um pouco de direção e seguiu para onde ela estava, o coração pleno por saber que logo a teria nos braços.

Quando se tornara um romântico tolo daquele?

Quem sabia? Quem se importava? Estava apaixonado. Finalmente encontrara a única mulher que poderia preencher seu coração e, se isso fazia dele um tolo, que fosse.

James caminhou pé ante pé atrás dela, que seguia para a frente da casa, e, antes que Elizabeth conseguisse ouvir os passos dele sobre o cascalho, estendeu a mão e segurou seu pulso.

Ela se virou com um arquejo, em choque. James observou com prazer os olhos de Elizabeth irem rapidamente do pânico à alegria.

– James! – gritou ela, e estendeu a mão livre para pegar a dele. – Você voltou!

Ele levou as mãos dela aos lábios e beijou uma de cada vez.

– Não consegui ficar longe.

O tempo que passaram separados a deixara tímida e ela não o encarou quando sussurrou:

– Senti sua falta.

Que o decoro fosse para o inferno! James tomou-a nos braços e beijou-a. Então, quando finalmente conseguiu afastar os lábios dos dela, sussurrou:

– Venha comigo.

– Para onde?

– Para qualquer lugar.

Ela foi.