Como se casar com um marquês

Julia Quinn · Capítulo 3 de 26

Páginas do PDF

Como se casar com um marquês

Capítulo 2

 

– James! – Não era comum ver Agatha Danbury dar gritinhos agudos, mas James era seu sobrinho favorito. E, verdade seja dita, ela provavelmente gostava mais dele do que dos próprios filhos. James, pelo menos, era inteligente o bastante para não enfiar a cabeça entre as estacas de uma cerca. – Que prazer vê-lo!

James fez uma reverência e ofereceu o rosto para um beijo da tia.

– Prazer? – questionou ele. – Você parece quase surpresa com a minha chegada. Ah, por favor, sabe que eu nunca ignoraria um chamado seu, como não o faria com um chamado do próprio príncipe regente.

– Ah, certo.

Ele estreitou os olhos diante da resposta indiferente dela.

– Agatha, não está fazendo nenhum joguinho comigo, não é?

Ela de súbito se empertigou na poltrona.

– Você pensaria uma coisa dessas de mim?

– Claro que pensaria – retrucou James com um sorriso tranquilo, enquanto se sentava. – Aprendi meus melhores truques com você.

– Sim, bem, alguém precisava tomar conta de você – disse lady Danbury. – Pobre criança. Se eu não tivesse...

– Agatha – interrompeu James, sério.

Não estava com a menor vontade de se envolver em uma conversa sobre a própria infância. Devia tudo à tia... Mas não queria entrar no assunto naquele momento.

– Acontece que não estou fazendo nenhum joguinho – falou ela, com uma fungadinha de desdém. – Estou sendo chantageada.

James se inclinou para a frente. Chantageada? Agatha era uma velha dama muito esperta, mas bastante decorosa, e ele não conseguia imaginá-la fazendo nada que pudesse motivar uma chantagem.

– Consegue imaginar uma coisa dessas? – perguntou ela. – Que alguém tenha coragem de me chantagear? Humpf. Onde está meu gato?

– Onde está seu gato? – repetiu ele.

– Maaaaaaaaaaaaalcolmmmmmmm!

James se surpreendeu ao ver o felino monstruosamente obeso entrar na sala. O bichano foi até o rapaz, cheirou-o e pulou no colo dele.

– Ele não é o gato mais simpático que existe? – perguntou Agatha.

– Odeio gatos.

– Vai amar Malcolm.

James concluiu que seria mais fácil tolerar o gato do que discutir com a tia.

– Tem alguma ideia de quem pode estar fazendo a chantagem?

– Nenhuma.

– Posso lhe perguntar por que está sendo chantageada?

– O motivo é muito constrangedor... – disse ela, os olhos de um azul pálido cintilando, marejados.

James ficou preocupado. Tia Agatha nunca chorava. Poucas coisas na vida dele haviam sido completa e absolutamente constantes, e uma delas fora Agatha. Ela era sagaz, tinha um senso de humor ácido, amava-o acima de tudo e nunca chorava. Nunca.

James teve o impulso de ir até ela, mas se controlou. Agatha não iria querer que ele a consolasse. Veria isso apenas como uma constatação de seu breve momento de fraqueza. Além do mais, o gato não mostrou nenhuma intenção de sair do colo dele.

– Você está com a carta? – perguntou James com delicadeza. – Presumo que tenha recebido uma.

Ela assentiu, pegou um livro que estava pousado sobre a mesa ao lado dela e retirou uma única folha de papel que estava entre as páginas. Em silêncio, entregou-a ao sobrinho.

James colocou o gato no chão com delicadeza e se levantou. Deu alguns passos na direção da tia e pegou a carta. Ainda parado, baixou os olhos para o papel em suas mãos e leu:

Lady D.,

Conheço seus segredos. E conheço os segredos de sua filha. Meu silêncio terá um preço.

James olhou para ela.

– Foi só isso?

Agatha balançou a cabeça e estendeu outra folha a ele.

– Também recebi essa.

James pegou o papel.

Lady D.,

Quinhentas libras pelo meu silêncio. Coloque em um saco simples atrás do The Bag of Nails na

sexta-feira à meia-noite. Não conte a ninguém. Não me decepcione.

– The Bag of Nails? – perguntou James, a sobrancelha arqueada.

– É a taberna local.

– Você deixou o dinheiro?

Ela assentiu, constrangida.

– Mas só porque eu sabia que você não conseguiria chegar aqui até sexta-feira passada.

James ficou em silêncio por algum tempo, enquanto decidia a melhor maneira de formular o que diria a seguir.

– Acho que seria melhor me contar sobre esse segredo – disse ele finalmente, em tom delicado.

Agatha balançou a cabeça, recusando-se.

– É vergonhoso demais. Não posso.

– Agatha, você sabe que sou discreto. E sabe que a amo como se fosse minha mãe. Seja o que for que me conte, não sairá deste aposento. – Quando ela não fez nada além de morder o lábio, ele perguntou: – Qual das filhas compartilha desse segredo?

– Melissa – sussurrou Agatha. – Mas ela não sabe.

James fechou os olhos e deixou o ar escapar lentamente. Sabia o que viria a seguir e resolveu poupar a tia do constrangimento de ter que confessar.

– Ela é ilegítima, não é isso?

Agatha assentiu.

– Tive um caso. Durou apenas um mês. Ah, eu era tão jovem e tão tola na época...

James se esforçou para não demonstrar sua perplexidade. A tia sempre fora muito rígida em relação à decência, então era inconcebível que tivesse tido um relacionamento fora do matrimônio. Mas, como ela mesma dissera, era jovem na época e talvez um pouco tola. E, depois de tudo que Agatha fizera por ele, James não se sentia no direito de julgá-la. A tia fora sua salvadora e, se fosse preciso, ele daria a vida por ela sem um segundo de hesitação.

A velha dama deu um sorriso triste.

– Eu não sabia o que estava fazendo.

James pesou as próprias palavras com cuidado antes de perguntar:

– Seu medo, então, é que o chantageador revele o segredo à sociedade e envergonhe Melissa?

– Não dou a mínima importância ao que pensa a sociedade – retrucou Agatha, bufando. – Metade deles também é de bastardos. Provavelmente dois terços dos não primogênitos. É por Melissa que temo. Ela está muito bem casada com um conde, portanto o escândalo não a atingiria, mas era muito próxima de lorde Danbury... Ele sempre disse que ela era sua filha favorita, e partiria o coração de Melissa saber que não era seu verdadeiro pai.

James não se lembrava de lorde Danbury ser muito mais próximo de Melissa do que de qualquer outro filho. Na verdade, não se lembrava de ele ser próximo dos filhos e ponto final. Danbury fora um homem genial, mas distante. Com certeza do tipo que achava que “as crianças têm que ficar no quarto e não devem ser trazidas ao convívio dos adultos mais do que uma vez por dia”. Mas, se Agatha acreditava que Melissa fora a favorita dele, quem era James para discutir?

– O que vamos fazer, James? – perguntou Agatha. – Você é a única pessoa em quem confio para me ajudar a passar por essa provação. E com sua experiência...

A tia sabia que ele já trabalhara para o Departamento de Guerra. Não havia mal nisso, e ele nem estava mais em qualquer missão, mas Agatha era muito curiosa e sempre fazia perguntas sobre as façanhas do sobrinho. Havia algumas coisas que um homem não se sentia à vontade para comentar com a tia. Isso sem falar que James poderia ser enforcado em nome da Coroa se revelasse algumas das informações que viera a saber ao longo dos anos.

– Você recebeu mais algum bilhete? – interrompeu-a James.

Agatha balançou a cabeça.

– Não. Nenhum.

– Farei algumas investigações preliminares, mas desconfio que não vamos descobrir nada até que você receba outro bilhete.

– Você acha que haverá outro?

James assentiu, sério.

– Chantagistas não sabem a hora de parar. Esse é o defeito fatal deles. Nesse meio-tempo, posso brincar de ser seu novo administrador. Mas me pergunto como você espera que eu faça isso sem ser reconhecido.

– Achei que não ser reconhecido fosse seu talento especial.

– E é – retrucou ele –, mas ao contrário da França, da Espanha e até mesmo da costa sul da Inglaterra, cresci aqui. Ou quase isso.

O olhar de Agatha de repente ficou perdido. James sabia que a tia estava pensando na infância dele, em todas as vezes em que ela encarara o pai dele em confrontos silenciosos e furiosos, insistindo que James ficaria melhor com a família Danbury.

– Ninguém o reconhecerá – assegurou ela, por fim.

– E Cribbins?

– Ele faleceu ano passado.

– Ah. Sinto muito.

James sempre gostara do velho mordomo.

– O novo mordomo é correto, imagino, embora outro dia tenha tido a audácia de me pedir para chamá-lo de Wilson.

James não sabia por que se daria ao trabalho de perguntar, mas quis tirar a dúvida assim mesmo:

– Esse deve ser o nome dele, não?

– Imagino que sim – disse ela, bufando discretamente. – Mas como vou me lembrar disso?

– Acabou de fazê-lo.

Agatha o encarou com severidade.

– Se ele é meu mordomo, vou chamá-lo de Cribbins. Na minha idade é perigoso ter qualquer grande mudança de comportamento.

– Agatha – disse James, se esforçando para demonstrar paciência –, podemos voltar ao que estávamos discutindo?

– Sobre você ser reconhecido.

– Sim.

– Todos se foram. Você não me visita há quase dez anos.

James ignorou o tom acusador da tia.

– Eu a vejo o tempo todo em Londres e você sabe disso.

– Isso não conta.

Ele se recusou a perguntar por quê. Sabia que ela estava morrendo de vontade de dizer o motivo.

– Há algo em particular que eu precise saber antes de assumir meu papel de administrador? – perguntou ele.

Ela fez que não com a cabeça.

– O que você precisaria saber? Eu o criei de forma adequada. Você já deve saber tudo o que é necessário sobre administração de propriedades.

Aquilo era verdade, embora James tivesse preferido deixar que os próprios administradores cuidassem das suas propriedades desde que herdara o título. Era mais fácil, já que não gostava de passar muito tempo no Castelo Riverdale.

– Muito bem, então – disse ele, levantando-se. – Já que Cribbins, o Primeiro, não está mais entre nós... que sua alma eternamente paciente descanse em paz...

– O que quer dizer com isso?

James projetou a cabeça um pouco para a frente e para o lado, de maneira bastante sarcástica.

– Qualquer um que tenha sido seu mordomo por quarenta anos merece ser canonizado.

– Seu patife impertinente – murmurou ela.

– Agatha!

– Para que segurar a língua na idade em que estou?

Ele balançou a cabeça.

– Como eu estava tentando dizer, já que Cribbins se foi, ser seu administrador é um disfarce tão bom quanto outro qualquer. Além do mais, gosto da ideia de passar algum tempo ao ar livre quando os dias estão assim agradáveis.

– Londres estava sufocante?

– Muito.

– O ar ou as pessoas?

James deu um risinho.

– Ambos. Muito bem, agora me diga onde deixo as minhas coisas. Ah, e tia Agatha... – ele se inclinou e deu um beijo no rosto da velha dama –, é muito bom ver você.

Ela sorriu.

– Também amo você, James.

 

Quando Elizabeth chegou em casa, estava ofegante e coberta de lama. Ficara tão ansiosa para se afastar da Casa Danbury que praticamente correra pelos primeiros 500 metros. Para piorar, o verão em Surrey estava sendo particularmente úmido, e a coordenação motora dela nunca fora das melhores. E quanto àquela protuberante raiz de árvore... bem, não havia mesmo como evitá-la. Assim, com um tombo, Elizabeth viu seu melhor vestido arruinado.

Não que o melhor vestido dela estivesse em boas condições. Havia pouco dinheiro nos cofres dos Hotchkisses para comprar roupas novas, mas dava-se um jeito se a pessoa em questão não coubesse mais nas antigas. Ainda assim, Elizabeth tinha lá seu orgulho e, se não tinha condições de vestir a família na última moda, ao menos podia se certificar de que estivessem todos arrumados e limpos.

Agora havia lama endurecida na faixa de veludo da cintura e, pior ainda, ela de fato roubara um livro de lady Danbury. E não fora qualquer livro. Roubara o que sem dúvida devia ser o mais estúpido e mais idiota da história dos livros. E tudo porque precisava leiloar a si mesma à melhor oferta.

Elizabeth engoliu em seco enquanto lágrimas se formavam em seus olhos. E se não houvesse ofertas? Então, o que faria?

Ela bateu com os pés no chão diante da porta da frente, para tirar a lama seca, e entrou na pequena casa. Tentou se esgueirar pelo corredor e subir as escadas até seu quarto sem que ninguém a visse, mas Susan foi mais rápida.

– Santo Deus! O que aconteceu com você?

– Escorreguei – declarou Elizabeth, sem tirar os olhos das escadas.

– De novo?

Aquilo foi o bastante para que ela se virasse e lançasse à irmã um olhar fuzilante.

– O que quer dizer com “de novo”?

Susan tossiu.

– Nada.

Elizabeth voltou a se virar para subir as escadas, mas sua mão bateu em uma mesa de canto.

– Aiiiiii! – uivou de dor.

– Aaah – reagiu Susan, se encolhendo em solidariedade. – Aposto que doeu.

Elizabeth apenas encarou a irmã com fúria, os olhos estreitos.

– Lamento profundamente – Susan apressou-se a dizer, bastante ciente do mau humor da irmã.

– Vou para o meu quarto – avisou Elizabeth, pronunciando cada palavra lentamente, como se a dicção cuidadosa de algum modo pudesse levá-la aos seus aposentos mais depressa. – Vou me deitar para um cochilo. E, se alguém me perturbar, não responderei pelos meus atos.

Susan assentiu.

– Jane e Lucas estão brincando no jardim. Tomarei cuidado para que não façam barulho quando voltarem.

– Ótimo, eu.... Aiiiiiiiii!

Susan se encolheu de novo.

– O que foi agora?

Elizabeth se abaixou e pegou um pequeno objeto de metal. Um dos soldadinhos de chumbo de Lucas.

– Há alguma razão para isso estar aqui no chão, onde qualquer um pode pisar? – perguntou.

– Nenhuma em que eu consiga pensar – respondeu Susan com uma tentativa fracassada de sorriso.

Elizabeth apenas suspirou.

– Não estou tendo um bom dia.

– É, eu percebi.

Elizabeth tentou sorrir, mas só conseguiu esticar os lábios. Não foi capaz de fazer os cantos se erguerem.

– Quer que eu lhe prepare uma xícara de chá? – perguntou Susan, gentil.

Elizabeth assentiu.

– Seria maravilhoso, obrigada.

– Será um prazer. Vou só... o que é isso na sua bolsa?

– O quê?

– Esse livro.

Elizabeth praguejou baixinho e enfiou o volume embaixo de um lenço.

– Não é nada.

– Pegou um livro emprestado de lady Danbury?

– Digamos que tenha sido isso.

– Ah, que bom! Já li tudo o que temos. Não que tenhamos muita coisa.

Elizabeth apenas assentiu e tentou passar pela irmã.

– Sei que você ficou de coração partido por ter que vender nossos livros – comentou Susan –, mas o dinheiro que arrecadou pagou as aulas de latim do Lucas.

– Preciso mesmo ir...

– Posso ver o livro? Talvez eu queira lê-lo depois.

– Não – respondeu Elizabeth com rispidez, o tom de voz saindo muito mais alto do que ela gostaria.

Susan recuou.

– Perdão.

– Preciso devolvê-lo amanhã. É só isso. Você não terá tempo de lê-lo.

– Posso só vê-lo?

– Não!

Susan se adiantou.

– Quero vê-lo.

– Eu já disse que não!

Elizabeth desviou para a direita, mal conseguindo escapar das mãos da irmã, que tentava agarrá-la, e disparou na direção da escada. Mas quando seu pé tocou no primeiro degrau, ela sentiu a mão de Susan agarrar suas saias.

– Peguei você! – grunhiu Susan.

– Me solte!

– Não até você me mostrar esse livro.

– Susan, sou sua guardiã legal e exijo que...

– Você é minha irmã, e quero ver o que está escondendo.

Apelar para a razão não funcionaria, percebeu Elizabeth, por isso segurou as saias e puxou-as com força... o que só a fez tropeçar no degrau e deixar a bolsa cair no chão.

– Arrá! – gritou Susan, triunfante, pegando o livro.

Elizabeth gemeu.

– Como se casar com um marquês? – disse Susan erguendo os olhos, a expressão um pouco confusa e absolutamente divertida.

– É só um livro bobo. – Elizabeth sentiu o rosto esquentar. – Só achei... quer dizer, só achei que eu...

– Um marquês? – perguntou Susan, parecendo em dúvida. – Estamos estabelecendo objetivos bem ambiciosos aqui, não é mesmo?

– Pelo amor de Deus! – exclamou Elizabeth, irritada. – Não vou me casar com um marquês. Mas talvez o livro tenha algum conselho útil... afinal, preciso me casar com alguém, e ninguém está me pedindo em casamento.

– A não ser Squire Nevins... – murmurou Susan, folheando o livro.

Elizabeth engoliu uma golfada de bile. A ideia de Squire Nevins tocando-a, beijando-a... a deixava gelada. Mas se ele fosse o único modo de salvar a família dela...

Elizabeth fechou os olhos com força. Tinha que haver alguma coisa naquele livro que a ensinasse a conseguir um marido. Qualquer coisa!

– Esse livro é mesmo bem interessante – disse Susan, sentando-se no chão acarpetado, perto de Elizabeth. – Escute só: Decreto n o 1...

– Decreto? – ecoou Elizabeth. – Há decretos aí?

– Parece que sim. Vou lhe dizer, esse negócio de arrumar um marido é mais complicado do que eu pensava.

– Só me diga qual é o tal decreto.

Susan baixou os olhos para o livro.

– “Seja única. Mas não única demais.”

– Que diabo quer dizer isso? – explodiu Elizabeth. – Essa deve ser a coisa mais absurda que já ouvi. Vou devolver esse livro amanhã. Afinal, quem é essa Sra. Seeton? Nem marquesa ela é, portanto não vejo por que eu deveria escutar...

– Não, não – disse Susan, acenando com o braço para a irmã sem olhar para ela. – Esse é só o título do decreto. Ela explica o que quer dizer.

– Não tenho certeza se quero ouvir – resmungou Elizabeth.

– Na verdade, é bem interessante.

– Me dê isso aqui.

Elizabeth arrancou o livro da mão da irmã e leu silenciosamente:

é indispensável que você seja uma mulher absolutamente única. o milagre que você deve ser

capaz de operar é hipnotizar o lorde em questão até que ele não consiga prestar atenção a nada

que não seja o seu rosto.

Elizabeth bufou.

– “O milagre que você deve ser capaz de operar”? “Prestar atenção a nada que não seja o seu rosto”? Onde essa mulher aprendeu a escrever? Em uma perfumaria?

– Acho a parte sobre o rosto bastante romântica – comentou Susan, dando de ombros.

Elizabeth ignorou a irmã.

– Onde está a parte sobre não ser única demais? Ah, aqui.

você deve se esforçar para conter sua singularidade de modo que apenas ele possa percebê-la.

precisa provar a ele que será um bem valioso como esposa. nenhum lorde da realeza deseja estar

acorrentado ao constrangimento e ao escândalo.

– Até sobre correntes esse livro fala? – perguntou Susan.

Elizabeth ignorou-a e continuou a ler.

em outras palavras, você precisa se destacar na multidão, mas apenas na multidão em que ele

esteja. porque ele é o único que importa.

Elizabeth levantou os olhos.

– Há um problema aqui.

– É mesmo?

– Sim. – Ela ficou tamborilando com o dedo na testa, como fazia sempre que estava muito concentrada. – Tudo isso pressupõe que eu tenho em vista um homem só.

Susan a encarou com os olhos arregalados.

– Você certamente não poderia se casar com mais de um homem!

– Quis dizer que não tenho um homem específico em mente – explicou Elizabeth, dando um tapa no ombro da irmã.

– Entendi. Ora, ainda assim a Sra. Seeton parece ter um bom argumento. Afinal você não pode se casar com dois.

Elizabeth fez uma careta.

– É claro que não. Mas acho que devo demonstrar interesse em mais de um, se quiser garantir um pedido de casamento. Mamãe não dizia sempre que não devemos colocar todos os nossos ovos em um único cesto?

– Humm – murmurou Susan –, você tem razão. Vou pesquisar a respeito hoje à noite.

– Como assim?

Mas Susan já se levantara e estava subindo a escada correndo.

– Vou ler o livro hoje à noite e conversarei com você de manhã! – gritou ela do patamar da escada.

– Susan! – Elizabeth usou seu tom mais severo. – Traga esse livro de volta já!

– Não se preocupe! Já terei montado nossa estratégia quando nos encontrarmos para o café da manhã!

E o som que Elizabeth ouviu em seguida foi o da chave girando na fechadura, enquanto Susan se trancava no quarto que compartilhava com Jane.

– Café da manhã? – murmurou Elizabeth. – Ela está planejando ficar sem jantar, então?

Aparentemente, sim. Ninguém viu a sombra de Susan nem ouviu um pio saindo de seu quarto. Naquela noite, o clã Hotchkiss ficou reduzido a apenas três membros à mesa, e a pobre Jane não conseguiu nem entrar no próprio quarto para se recolher, tendo que dormir com Elizabeth.

Elizabeth não achou nada engraçado. Jane era um amor, mas puxava todas as cobertas para si.

 

Quando Elizabeth desceu para o café da manhã, no dia seguinte, Susan já estava à mesa, com o livrinho vermelho nas mãos. Elizabeth percebeu, irritada, que a cozinha não tinha sinais de uso.

– Você não podia ter começado a preparar o café? – perguntou, de mau humor, enquanto procurava ovos no armário.

– Eu estava ocupada – respondeu Susan. – Muito ocupada.

Elizabeth não falou nada. Maldição. Tinham apenas três ovos. Teria que sair sem comer o dela e torcer para que lady Danbury estivesse planejando um almoço reforçado naquele dia. Colocou a frigideira de ferro em cima de um tripé sobre o fogo e quebrou os três ovos.

Susan aproveitou a deixa e começou a fatiar pão para torrada.

– Algumas regras do livro não são terrivelmente difíceis de colocar em prática – comentou, enquanto ajudava. – Acho que até você conseguiria segui-las.

– Estou impressionada com sua confiança em mim – retrucou Elizabeth, de forma seca.

– Na verdade, você deveria começar a praticar agora. Lady Danbury vai oferecer uma festa no fim do verão, não vai? Com certeza haverá maridos em potencial entre os convidados.

– Eu não estarei entre os convidados.

– Lady Danbury não pretende convidá-la? – perguntou Susan, claramente ultrajada. – Ora, eu nunca imaginaria uma coisa dessas! Tudo bem que você é dama de companhia dela, mas também é filha de um baronete, e então...

– É claro que ela vai me convidar – tranquilizou-a Elizabeth em um tom calmo. – Mas não vou aceitar o convite.

– Por quê?

Elizabeth não respondeu de imediato. Permaneceu parada onde estava, observando as claras dos ovos se tornarem brancas.

– Susan – disse por fim. – Olhe para mim.

Susan encarou-a.

– Sim?

Elizabeth segurou uma ponta do vestido verde desbotado que usava.

– Como terei condições de ir a uma festa elegante com as roupas que tenho? Posso estar desesperada, mas ainda tenho meu orgulho.

– Vamos falar sobre suas roupas quando chegar a hora de tocarmos nesse assunto – declarou Susan com firmeza. – E, de qualquer modo, isso não terá importância. Não se seu futuro marido não conseguir prestar atenção em nada que não seja o seu rosto.

– Se eu ouvir essa frase mais uma vez...

– Nesse meio-tempo – interrompeu Susan –, precisamos aperfeiçoar seus talentos.

Elizabeth teve que se controlar para não estourar as gemas dos ovos.

– Você não disse que havia um novo administrador na propriedade de lady Danbury?

– Eu não disse nada disso!

– Não? Ah. Bem, então deve ter sido Fanny Brinkley, que deve ter ouvido da camareira, que deve ter ouvido...

– Vá direto ao ponto, Susan – pediu Elizabeth.

– Por que não pratica com ele? A menos que o homem seja terrivelmente repulsivo, é claro.

– Ele não é repulsivo – murmurou Elizabeth.

Sentiu o rosto esquentar e manteve a cabeça baixa para que a irmã não notasse seu rubor. O novo administrador de lady Danbury estava longe de ser repulsivo. Na verdade, era o homem mais belo que já vira. E o sorriso dele provocara reações estranhas no íntimo de Elizabeth.

Era uma pena que o homem não tivesse rios de dinheiro.

– Ótimo! – disse Susan, batendo palmas, empolgada. – Você só precisa fazer com que ele se apaixone por você.

Elizabeth virou os ovos.

– E então...? Susan, ele é um administrador. Não tem o dinheiro necessário para mandar Lucas para Eton.

– Tolinha, você não vai se casar com ele. Vai apenas treinar com ele.

– Isso soa tão frio... – comentou Elizabeth, franzindo a testa.

– Ora, você não tem mais ninguém por perto com quem praticar seus talentos. Agora, escute com atenção. Separei várias regras para começar.

– Regras? Achei que fossem decretos.

– Decretos, regras, no fim é tudo a mesma coisa. Agora, então...

– Jane! Lucas! – chamou Elizabeth. – O café da manhã está pronto!

– Continuando, acho que deveríamos começar com os decretos dois, três e cinco.

– E quanto ao número quatro?

Susan ruborizou graciosamente.

– Esse, hã, fala sobre se vestir na última moda.

Elizabeth mal resistiu à vontade de jogar um ovo frito na irmã.

– Na verdade.... – Susan franziu o cenho –, você pode querer começar direto pelo número oito.

Elizabeth sabia que não deveria dizer nem uma palavra, mas algum demônio dentro dela a forçou a perguntar:

– E qual é o número oito?

Susan leu:

– “Seu encanto deve parecer natural.”

– Meu encanto deve parecer natural? Que diabo quer dizer... Ai!

– Acho que significa que é melhor você não gesticular tanto com os braços, pois só assim sua mão não acertará o tampo da mesa... – disse Susan em uma voz irritante de tão afável.

Se um olhar pudesse matar, Susan estaria sangrando profusamente na testa.

Ela empinou o nariz.

– Estou falando apenas a verdade – declarou, com uma fungadinha.

Elizabeth continuou a fuzilar a irmã com o olhar enquanto levava a mão machucada à boca, como se a pressão dos lábios sobre o lugar da batida fosse mesmo capaz de estancar a dor.

– Jane! Lucas! – chamou de novo, dessa vez quase gritando. – Apressem-se, vamos! O café vai esfriar!

Jane entrou deslizando na cozinha e se sentou. Muito tempo antes a família Hotchkiss dispensara o costume de servir o desjejum na sala de jantar. O café da manhã era sempre servido na cozinha. Além do mais, no inverno todos gostavam de se sentar perto do forno. E no verão... bom, hábitos eram difíceis de mudar, imaginava Elizabeth.

Ela sorriu para a irmã mais nova.

– Você está um tanto desarrumada hoje, Jane.

– É que alguém trancou a porta do quarto e me deixou do lado de fora ontem à noite – disse a menina com um olhar severo e rebelde na direção de Susan. – Não tive chance nem de pentear o cabelo.

– Você poderia ter usado a escova de Lizzie – retrucou Susan.

– Gosto da minha escova – rebateu Jane. – É de prata.

Não era prata de verdade, pensou Elizabeth com ironia, ou ela já teria vendido a escova.

– As duas funcionam da mesma forma – declarou Susan.

Elizabeth pôs fim à implicância entre as duas gritando:

– Lucas!

– Temos leite? – perguntou Jane.

– Lamento, querida, não – respondeu Elizabeth, deslizando um ovo para dentro de uma travessa. – Temos o bastante apenas para um chá.

Susan colocou uma fatia de pão no prato de Jane e disse para Elizabeth:

– Sobre o Decreto no 2...

– Agora não – sibilou Elizabeth, e indicou Jane com o olhar.

Felizmente, a menina estava ocupada demais enfiando o dedo no pão para reparar nas irmãs mais velhas.

– Minha torrada está mole – avisou Jane.

Elizabeth ia brigar com Susan por se esquecer de torrar o pão, mas antes disso Lucas entrou saltitante na cozinha.

– Bom dia! – cumprimentou, animado.

– Você parece especialmente alegre – comentou Elizabeth, bagunçando o cabelo do irmão antes de servir o café da manhã dele.

– Hoje vou pescar com Tommy Fairmount e o pai dele. – Lucas engoliu três quartos do ovo que estava em seu prato antes de acrescentar: – Vamos comer bem hoje à noite!

– Que maravilha, meu bem – disse Elizabeth, olhando de relance para o pequeno relógio sobre a bancada, antes de voltar a falar. – Preciso ir. Deixem a cozinha limpa, sim?

Lucas assentiu.

– Supervisionarei os trabalhos.

– Você vai ajudar.

– Isso também – resmungou ele. – Posso comer outro ovo?

O estômago de Elizabeth roncou em solidariedade.

– Não sobrou nenhum.

Jane a encarou com desconfiança.

– Você não comeu nada, Lizzie.

– Tomarei café da manhã com lady Danbury – mentiu Elizabeth.

– Fique com o meu.

Jane empurrou o que restara de seu café da manhã na direção da irmã – dois bocados de ovo e um pedacinho de pão tão empapado que Elizabeth teria que estar muito, mas muito mais faminta para sequer conseguir sentir o cheiro dele.

– Termine seu café, Janie – pediu Elizabeth. – Comerei na casa de lady Danbury. Prometo.

– Terei que pegar um peixe bem grande – sussurrou Lucas para Jane.

Ouvir isso foi a gota d’água para Elizabeth. Ela vinha resistindo àquela caça a um marido – odiava sentir-se uma mercenária pelo simples fato de pensar nessa possibilidade. Mas bastava. Que tipo de mundo era aquele em que um menino de 8 anos fazia planos de pescar um bom peixe não por diversão, mas por estar preocupado em forrar o estômago das irmãs?

Elizabeth endireitou os ombros e saiu pisando firme em direção à porta.

– Susan – falou muito séria –, posso dar uma palavrinha com você?

Jane e Lucas trocaram olhares.

– Ela vai ouvir um sermão por ter esquecido de torrar o pão – sussurrou Jane.

– Torrada mole – comentou Lucas com amargura, enquanto balançava a cabeça. – Isso vai contra a própria natureza humana.

Elizabeth revirou os olhos enquanto saía de casa. De onde o menino tirava essas coisas?

Quando ela e Susan estavam longe dos ouvidos dos outros dois, Elizabeth se virou para a irmã e disse:

– Antes de mais nada, não quero que mencione isso... essa caçada a um marido, na frente das crianças.

Susan levantou o livro da Sra. Seeton.

– Então você vai seguir os conselhos dela?

– Não vejo outra saída – murmurou Elizabeth. – Apenas me diga quais são essas regras.