Como se casar com um marquês
Capítulo 11
Elizabeth ficou surpresa por não se sentir muito preocupada com o estado de sua casa quando chegou com James à porta. As cortinas de damasco verde estavam desbotadas e as sancas precisavam de mais uma demão de tinta. A mobília era de qualidade, mas já tinha sido muito usada, com almofadas colocadas estrategicamente sobre as áreas que mais precisavam de renovação. De modo geral, a casa tinha uma aparência ligeiramente descuidada. Os artigos de decoração eram poucos e estimados – todos os objetos de valor já haviam seguido seu caminho até a casa de penhores ou até as mãos do caixeiro-viajante.
Normalmente Elizabeth sentia necessidade de explicar como sua família acabara naquela situação difícil e de deixar claro que moravam em uma casa muito maior antes de os pais deles morrerem. Afinal, Lucas era um baronete e era constrangedor que estivessem reduzidos àquelas circunstâncias.
Mas com James, ela simplesmente abriu a porta com um sorriso, certa de que ele veria o chalezinho do modo como ela via: um lar aconchegante e confortável. Ele mencionara o fato de ser bem-nascido, mas também dissera que a família havia perdido qualquer fortuna que já possuíra, portanto compreenderia a impossibilidade dela de comprar coisas novas, sua necessidade de economizar.
A casa estava – felizmente! – arrumada, e o ar cheirava a biscoitos recém-assados.
– Você está com sorte hoje – comentou Elizabeth sorridente. – Susan deve ter decidido fazer biscoitos.
– O cheiro está delicioso – disse James.
– Biscoitos de gengibre. Ora, por que não me acompanha até a cozinha? Temo que sejamos terrivelmente informais por aqui. – Ela abriu a porta da cozinha e o convidou a entrar. Quando James não se sentou, ela o encarou muito séria e disse: – Você não precisa ficar de pé por minha causa. Seu quadril está machucado e deve estar doendo muito. Além disso, é tolice você ficar de pé aí enquanto preparo o chá.
Ele puxou uma cadeira e se sentou, então perguntou:
– São seus irmãos, no jardim?
Elizabeth afastou a cortina e espiou pela janela.
– Sim, aqueles são Lucas e Jane. Não sei bem onde está Susan, embora com certeza ela tenha estado aqui há pouco tempo. Os biscoitos ainda estão quentinhos. – Ela sorriu e depositou um prato com biscoitos na frente dele. – Vou chamar Lucas e Jane. Estou certa de que eles vão querer conhecê-lo.
James observou com interesse enquanto Elizabeth batia três vezes no painel de madeira da janela. Em questão de segundos, a porta da cozinha se abriu com força e duas crianças apareceram.
– Ah, é você, Elizabeth – disse o menininho. – Achei que fosse Susan.
– Não, sou só eu mesmo. Tem alguma ideia de para onde ela foi?
– Ao mercado – respondeu o irmão. – Com alguma sorte alguém nos dará um pouco de carne em troca daqueles nabos.
– Por pena, é mais provável – murmurou a pequena menina. – Não consigo imaginar que alguém desista de um belo pedaço de carne em troca de um nabo miserável.
– Odeio nabo – declarou James.
Os três Hotchkisses viraram a cabeça loura na direção dele.
James acrescentou:
– Uma amiga uma vez me disse que se pode aprender muito sobre perseverança com um nabo, mas nunca consegui descobrir o que ela quis dizer.
Elizabeth engasgou.
– Acho isso uma grande bobagem – opinou a menina.
– Lucas, Jane! – interrompeu Elizabeth, falando alto. – Gostaria de lhes apresentar o Sr. Siddons. Ele é meu amigo e também trabalha na Casa Danbury. É o novo administrador de lady Danbury.
James se levantou e apertou a mão de Lucas com toda a seriedade que dedicaria a um primeiro-ministro. Então se virou para Jane e beijou a mão da menina. Todo o rosto dela se acendeu, mas o mais importante foi que, quando ele olhou para Elizabeth, viu que ela estava sorrindo, feliz.
– Como estão? – perguntou James.
– Muito bem, obrigado – respondeu Lucas.
Jane não disse nada. Estava muito ocupada observando a mão que James beijara.
– Convidei o Sr. Siddons para tomar chá com biscoitos – disse Elizabeth. – Vocês gostariam de se juntar a nós?
Normalmente, James teria ficado frustrado por perder tempo a sós com Elizabeth, mas havia algo aconchegante demais em ficar sentado ali, naquela cozinha, com aqueles três que obviamente sabiam o que era ser uma família.
Elizabeth entregou um biscoito a cada um dos irmãos e perguntou:
– O que vocês dois fizeram o dia todo? Terminaram as lições que deixei para vocês?
Jane assentiu.
– Ajudei Lucas com os exercícios de aritmética.
– Não ajudou, não! – apressou-se a dizer Lucas, com farelos de biscoito voando da boca. – Consigo fazer tudo sozinho.
– Talvez consiga, mas não fez – insistiu Jane, com um dar de ombros que demonstrava superioridade.
– Elizabeth! – protestou Lucas. – Ouviu o que ela me disse?
Mas Elizabeth ignorou a pergunta e começou a cheirar o ar com óbvio desprazer.
– Pelo amor de Deus, que cheiro é esse?
– Fui pescar de novo – respondeu Lucas.
– Você precisa ir se lavar imediatamente. O Sr. Siddons é nosso convidado, e não é educado...
– Não me importo nem um pouco com cheiro de peixe – interrompeu James. – Você pegou alguma coisa?
– Quase peguei um que era deeeeeesse tamanho – contou Lucas, abrindo os braços em quase toda a sua extensão –, mas ele escapou.
– Isso sempre acontece – murmurou James, solidário.
– Mas peguei dois de tamanho médio. Deixei no balde ali fora.
– São nojentos – comentou Jane, que já perdera o interesse na própria mão.
Lucas logo se virou para ela.
– Você não diz isso quando come os peixes no jantar.
– Quando como os peixes no jantar, eles estão sem olhos – retrucou ela.
– Isso porque Lizzie corta a cabeça deles, sua boba.
– Lucas – chamou Elizabeth em voz alta –, acho de verdade que você deve ir lá fora e se lavar para se livrar desse cheiro.
– Mas o Sr. Siddons...
– ... estava apenas sendo educado – interrompeu Elizabeth. – Faça isso agora, e aproveite para mudar logo de roupa.
Lucas resmungou, mas fez o que a irmã pediu.
– Às vezes ele é um desafio – comentou Jane com um suspiro cansado.
James teve que tossir para conter o riso.
Jane assumiu isso como consentimento e continuou, explicando:
– Mas Lucas tem só 8 anos.
– E quantos anos você tem?
– Nove – respondeu ela, como se isso fizesse toda a diferença do mundo.
– Jane, posso falar com você um instante? – chamou Elizabeth lá de onde estava colocando água para ferver para o chá.
Jane pediu licença e foi até o lado da irmã. James fingiu não estar olhando quando Elizabeth se abaixou e sussurrou algo no ouvido da irmã. Jane fez que sim com a cabeça e saiu correndo.
– O que houve? – ele teve que perguntar.
– Achei que ela também deveria se lavar, mas não quis constrangê-la dizendo isso na sua frente.
James inclinou a cabeça.
– Você acha mesmo que ela teria ficado constrangida com isso?
– James, Jane é uma menina de 9 anos que pensa ter 15. Você é um homem bonito. É claro que ela ficaria constrangida.
– Ora, você deve saber disso melhor do que eu – concluiu ele, tentando não demonstrar o prazer que sentira por ela ter elogiado sua aparência.
Elizabeth indicou o prato de biscoitos.
– Não vai experimentar um?
James pegou um e deu uma mordida.
– Delicioso.
– Não estão? Não sei o que Susan faz. Nunca consegui que os meus saíssem tão bons.
Ela também pegou um biscoito e mordeu.
James encarou-a, incapaz de afastar os olhos da boca de Elizabeth. Ela colocou a língua ligeiramente para fora para capturar um farelo perdido e...
– Voltei!
Ele suspirou. Um dos momentos eróticos mais esperados interrompido por um menino de 8 anos.
Lucas sorriu para James.
– Gosta de pescar?
– É um dos meus esportes favoritos.
– Acho que eu ia gostar de caçar, mas Elizabeth não deixa.
– Sua irmã é uma mulher muito sábia. Um menino da sua idade não deve segurar uma arma sem a supervisão adequada.
Lucas fez uma careta.
– Eu sei, mas não é por isso que ela não me deixa caçar. É porque Elizabeth é muito coração mole.
– Se o fato de não querer ver você machucar um pobre e inocente coelhinho significa que sou coração mole, então... – intrometeu-se Elizabeth.
– Mas você come coelho – argumentou o menino. – Já a vi comendo.
Elizabeth cruzou os braços e resmungou:
– É diferente quando ele tem orelhas.
James riu.
– Você pareceu a jovem Jane com sua aversão a olhos de peixe.
– Não, não, não – insistiu Elizabeth –, é completamente diferente. Caso não lembre, sou eu que sempre corto a cabeça dos peixes. Por isso, é óbvio que não sou toda melindrosa.
– Então, qual é a diferença? – provocou James.
– Sim – aproveitou Lucas, cruzando os braços e inclinando a cabeça, em uma perfeita imitação de James –, qual é a diferença?
– Não tenho resposta para isso!
James se virou para Lucas e disse por trás da mão:
– Ela sabe que ficou sem argumentos.
– Eu ouvi isso!
Lucas só riu.
James trocou um olhar muito másculo com o menininho.
– Mulheres tendem a ficar irritantemente sentimentais quando se trata de criaturas pequenas e peludas.
Elizabeth manteve os olhos no fogão, fingindo estar ocupada com o chá. Já fazia um longo tempo desde que Lucas tivera um homem que pudesse admirar e em quem se espelhar. Ela vivia preocupada por estar privando o irmão de algo importante, criando-o sozinha, apenas com irmãs como companhia. Se tivesse permitido que qualquer um dos parentes que se ofereceram ficassem com ele, Lucas ainda não teria tido um pai, mas pelo menos teria tido um homem adulto como referência na vida.
– Qual foi o maior peixe que você já pescou? – perguntou Lucas.
– Na terra ou no mar?
Lucas cutucou o braço dele sem o menor pudor quando disse:
– Não se pode pescar na terra!
– Estava me referindo a um lago.
Os olhos do menino se arregalaram.
– Você já pescou no mar?
– É claro.
Elizabeth o encarou, perplexa. Ele falara em um tom tão prosaico...
– Você esteve em um navio? – continuou Lucas.
– Não, era mais um veleiro.
Um veleiro? Elizabeth balançou a cabeça meio confusa enquanto tirava alguns pratos do armário. James devia ser muito bem relacionado.
– Qual era o tamanho do peixe que você pegou?
– Ah, não sei. Talvez deste tamanho.
James fez uma medida de cerca de 60 centímetros com as mãos.
– Pelos sinos do inferno! – gritou Lucas.
Elizabeth quase deixou cair um pires.
– Lucas!
– Desculpe, Elizabeth – disse Lucas, sem prestar muita atenção e sem sequer se virar para encará-la. A atenção dele nunca se desviou de James, a quem perguntou: – Ele se debateu muito?
James se inclinou e sussurrou algo no ouvido de Lucas. Elizabeth esticou o pescoço e apurou os ouvidos, mas não conseguiu entender o que foi dito.
Lucas assentiu com certo mau humor, então se levantou, atravessou a cozinha até onde estava a irmã e inclinou-se em uma breve cortesia para ela. Elizabeth ficou tão surpresa que dessa vez de fato deixou cair o que estava segurando. Por sorte era só uma colher.
– Desculpe, Elizabeth – falou Lucas. – Não é educado usar uma linguagem dessas na frente de uma dama.
– Obrigada, Lucas. – Ela olhou de relance para James, que deu um sorrisinho sem ninguém perceber. Ele inclinou a cabeça na direção do menino, então Elizabeth se abaixou, entregou um prato de biscoitos a Lucas e disse: – Por que você e Jane não vão procurar Susan? E podem comer esses biscoitos a caminho da cidade.
Os olhos de Lucas se iluminaram ao ver os biscoitos. Ele pegou o prato rapidamente, deixando Elizabeth boquiaberta para trás.
– O que você disse a ele? – perguntou ela, espantada.
James deu de ombros.
– Não posso lhe contar.
– Mas deve me contar. Seja o que for, foi terrivelmente eficaz.
Ele se recostou na cadeira, parecendo muito satisfeito consigo mesmo.
– É melhor que algumas coisas fiquem apenas entre os homens.
Elizabeth franziu o cenho com um ar divertido, tentando decidir se deveria pressioná-lo mais. Nesse momento, percebeu que a pele ao redor do olho dele começava a ficar arroxeada.
– Ah, eu me esqueci completamente! – pronunciou em um rompante. – Seu olho! Preciso encontrar algo para colocar sobre ele.
– Tenho certeza de que vou ficar bem. Já tive machucados piores e que receberam bem menos atenção.
Mas ela não estava ouvindo, pois agitava-se pela cozinha em busca de algo frio.
– Não precisa se preocupar – tentou James de novo.
Elizabeth olhou para ele, o que o surpreendeu. Achara que ela estava muito envolvida em sua busca para escutá-lo, quanto mais para responder a ele.
– Não vou discutir com você a esse respeito – declarou Elizabeth. – Portanto, pode muito bem poupar seu fôlego.
James percebeu que ela estava falando a verdade. Elizabeth Hotchkiss não era do tipo que deixava projetos por terminar ou responsabilidades em aberto. E se ela insistia em cuidar do olho roxo dele, havia muito pouco que ele – um nobre, um homem com o dobro do tamanho dela – poderia fazer para detê-la.
– Se acha melhor... – murmurou James, tentando soar ao menos um pouco indignado pela atitude dela.
Elizabeth passou as mãos ao redor de algo dentro da pia, então se virou e estendeu para ele.
– Tome.
– O que é isso? – perguntou ele, desconfiado.
– Apenas um pano molhado. O que achou, que eu colocaria sobre o seu rosto o peixe que Lucas pegou?
– Não, hoje você não está zangada o bastante para isso, embora...
Ela ergueu as sobrancelhas enquanto cobria o olho machucado com o pano.
– Você está querendo dizer que acha que, algum dia, pode me enfurecer a tal ponto que...
– Não estou dizendo nada disso. Deus, detesto que fiquem me paparicando. Você só... Não, é um pouco mais para a direita.
Elizabeth ajeitou o pano e se inclinou para a frente ao dizer:
– Está melhor?
– Sim, embora o olho pareça ter ficado quente.
Ela recuou alguns centímetros e endireitou o corpo.
– Desculpe.
– É só um pano – disse ele, ciente de que não era nobre o bastante para afastar os olhos do que estava bem na frente dele.
James não estava certo se Elizabeth percebera que ele estava olhando para seus seios, mas deixou escapar um:
– Oh! – E se afastou rapidamente. – Posso esfriá-lo de novo. – Ela fez isso e estendeu o pano úmido para ele. – É melhor você mesmo colocar.
Ele desviou o olhar para o rosto dela, a expressão inocente como a de um cachorrinho.
– Mas gosto quando você faz.
– Achei que você não gostasse de ser paparicado.
– Eu achava que não gostasse.
Isso fez com que ela o encarasse com uma das mãos no quadril e uma expressão meio incomodada, meio sarcástica. Naquela pose, Elizabeth parecia ao mesmo tempo tola e encantadora, parada ali com um trapo pendurado na mão.
– Está tentando me convencer de que sou seu anjo de misericórdia, vindo do céu para...
Os lábios de James se abriram devagar em um sorriso ardente.
– Exatamente.
Ela jogou o pano em cima dele, deixando uma mancha úmida no meio da camisa.
– Não acredito em você nem por um segundo.
– Para um anjo de misericórdia, até que você tem o pavio curto... – murmurou ele.
Ela resmungou.
– Apenas ponha o pano no olho.
James fez o que ela pediu. Longe dele desobedecê-la quando ela estava naquele estado de ânimo.
Eles ficaram se encarando por um momento, até que Elizabeth disse:
– Tire do olho por um instante.
Ele afastou a mão do olho.
– O pano?
Ela fez que sim uma vez.
– Você não acabou de mandar que eu colocasse o pano de volta no olho?
– Sim, mas quero avaliar a extensão do hematoma.
James não viu motivo para reclamar, então chegou para a frente, ergueu o queixo e inclinou o rosto para dar a ela um melhor acesso ao olho machucado.
– Humm – murmurou Elizabeth. – Não está nem de perto tão roxo quanto eu esperava.
– Eu lhe disse que não era um ferimento sério.
Ela franziu o cenho.
– Mas eu o derrubei no chão.
James arqueou um pouco mais o pescoço, desafiando-a silenciosamente a colocar a boca de novo à distância de um beijo da dele.
– Talvez se você olhar mais de perto.
Ela não caiu no truque dele.
– Vou conseguir ver melhor a cor do hematoma se chegar mais perto? Humpf. Não sei o que você pretende, mas sou muito esperta para os seus truques.
O fato de ela ser inocente demais para perceber que ele estava tentando lhe roubar um beijo o divertiu e o encantou ao mesmo tempo. Depois de um instante, no entanto, James percebeu que aquilo também o horrorizava. Se ignorava daquela forma os motivos reais dele, que diabo ela iria fazer quando se visse frente a frente com libertinos cujos objetivos eram bem menos nobres do que os dele?
E James sabia que Elizabeth passaria por isso. Ele podia ter reputação de mulherengo, mas tentava viver com certa honra, o que era mais do que poderia dizer sobre a maior parte da aristocracia. E Elizabeth, com aqueles cabelos cor de luar, para não mencionar aqueles olhos, e aquela boca e...
Diabos, não tivera a intenção de ficar sentado ali, fazendo um inventário dos atributos dela. A questão era que Elizabeth não tinha uma família poderosa para defendê-la. Portanto, cavalheiros tentariam, sim, tirar vantagem dela. E quanto mais pensava sobre isso, menos convencido ficava de que ela conseguiria chegar ao altar com a pureza e a alma intactas.
– Precisaremos ter outra aula de pugilismo amanhã – disse James em um rompante.
– Pensei que você tivesse dito...
– Sei o que eu disse – retrucou ele com rispidez –, mas estava só começando a pensar a respeito.
– Quanta dedicação da sua parte... – murmurou ela.
– Elizabeth, você precisa saber se defender. Homens são patifes. Canalhas. Idiotas, todos eles.
– Inclusive você?
– Especialmente eu! Tem alguma ideia do que eu estava tentando fazer no momento em que você examinava meu olho?
Ela fez que não com a cabeça.
Os olhos dele arderam de fúria e desejo.
– Se você tivesse me dado mais um segundo, só mais um abençoado segundo, eu teria passado a mão ao redor da sua nuca e, antes que você pudesse contar até um, estaria no meu colo.
Elizabeth não fez qualquer comentário, o que, por alguma razão idiota que James não conseguia definir, o enfureceu.
– Entende o que estou dizendo? – perguntou, irritado.
– Sim – respondeu ela em tom frio. – E devo me lembrar dessa lição como uma parte importante da minha educação. Confio muito nas pessoas.
– Você está malditamente certa a esse respeito – grunhiu James.
– É claro que isso introduz um dilema interessante para a aula de amanhã. – Elizabeth cruzou os braços e o encarou com uma expressão avaliativa. – Afinal, você me disse que preciso estudar os aspectos mais, hã, amorosos do ato de cortejar.
James teve a sensação de que não iria gostar do que estava prestes a ouvir.
– Você me disse que preciso aprender a beijar e – nesse momento o olhar dela era indecifrável – que você é quem deve me ensinar.
James não conseguia pensar em qualquer palavra que pudesse ao menos de longe colocá-lo sob uma luz mais lisonjeira, por isso manteve a boca fechada e tentou se agarrar à própria dignidade encarando Elizabeth com severidade.
– Agora você me diz que não devo confiar em ninguém. Portanto, por que devo confiar em você? – continuou ela.
– Porque eu tenho como objetivo o seu bem-estar.
– Rá!
No que se referia a colocar alguém no lugar, aquele breve som foi preciso e bastante eficiente.
– Por que você está me ajudando? – perguntou ela em um sussurro. – Por que me fez essa bizarra oferta dos seus serviços? Porque você sabe que é bizarro. Com certeza se dá conta disso.
– Por que você aceitou? – contra-atacou ele.
Elizabeth fez uma pausa. Não havia possibilidade de responder. Ela era uma péssima mentirosa e com certeza não poderia contar a verdade a ele. Ah, James se divertiria muito se ela contasse – se soubesse que Elizabeth queria passar uma última semana, ou quinze dias inteiros se ela tivesse sorte, na companhia dele. Queria ouvir a voz dele, sentir o seu perfume e capturar o hálito dele quando James chegasse bem perto. Ela queria se apaixonar e fingir que isso poderia durar para sempre.
Não, a verdade não era uma opção.
– Não importa por que eu aceitei – respondeu ela finalmente.
Ele se levantou.
– Não?
Sem se dar conta, Elizabeth recuou um passo. Era muito mais fácil fingir coragem quando ele estava sentado. Mas em toda a sua altura, James era o espécime masculino mais intimidante com que ela já esbarrara, e todos os seus recentes devaneios sobre se sentir confortável na presença dele pareceram tolos e prematuros.
Agora era diferente. Ele estava ali. Perto. E a desejava.
Aquela sensação que a fazia ficar à vontade perto dele havia desaparecido – a mesma que permitia que ela fosse tão espontânea em sua companhia, que dissesse o que lhe passava pela cabeça sem medo de ficar constrangida. Essa sensação fora substituída por algo infinitamente mais emocionante, algo que parecia roubar seu fôlego, sua capacidade de raciocínio, até sua alma.
Os olhos dele não se desviavam dos dela. A bela cor castanha ficou mais escura e parecia arder lentamente conforme James diminuía a distância entre os dois. Elizabeth não conseguia piscar, não conseguia nem respirar enquanto ele se aproximava cada vez mais. O ar ficou mais quente, elétrico. E James parou.
– Vou beijá-la agora – sussurrou ele.
Ela não conseguiu emitir qualquer som.
James pousou uma das mãos nas costas dela.
– Se não quer que eu faça isso, diga agora, porque se não disser...
Ela achou que não havia se movido, mas seus lábios se abriram em uma concordância silenciosa.
A outra mão de James deslizou para a nuca de Elizabeth e ela pensou tê-lo ouvido murmurar algo enquanto enfiava os dedos em seus cabelos sedosos. James roçou os lábios contra os dela uma vez, duas, então passou para o canto da boca de Elizabeth, onde a língua dele ficou provocando a pele sensível até ela se ver forçada a arquejar de prazer.
E o tempo todo as mãos dele estavam se movendo, acariciando as costas dela, roçando sua nuca. A boca de James passou para a orelha dela e, quando ele sussurrou, Elizabeth sentiu cada arfada ao mesmo tempo que o escutava.
– Vou puxá-la mais para perto.
O hálito e as palavras dele eram quentes contra a pele dela.
Uma parte ainda pouco consciente do cérebro de Elizabeth percebeu que ele estava concedendo a ela um respeito fora do comum e conseguiu encontrar voz por tempo o bastante para dizer:
– Por que está me perguntando?
– Para lhe dar a chance de dizer não. – O olhar dele, ardente, pesado e muito masculino, passeou pelo rosto dela. – Mas você não fará isso.
Ela odiava o fato de que ele não estava errado naquela certeza arrogante, odiava não ter capacidade para recusar nada a James quando ele a segurava nos braços daquela forma. Mas amou a consciência aguda que a dominou – uma sensação estranha de que, pela primeira vez na vida, compreendia o próprio corpo.
E quando James puxou-a mais para perto, Elizabeth adorou perceber que o coração dele estava batendo tão acelerado quanto o dela.
O calor do corpo de James a fazia arder, e ela não sentia nada além dele, não ouvia nada a não ser o fluxo do próprio sangue e uma palavra dita baixinho:
– Maldição.
Maldição?
Ele se afastou.
Maldição. Elizabeth cambaleou para trás e caiu sentada em uma cadeira que estava em seu caminho.
– Você ouviu isso? –murmurou James.
– O quê?
Um murmúrio de vozes.
– Isso – sibilou ele.
Elizabeth levantou-se rápido como uma bala.
– Ah, não – disse ela em um gemido. – É Susan. E Lucas. E Jane. Estou apresentável?
– Hã... quase – mentiu James. – Talvez você queira...
Ele fez gestos vagos que indicavam “arrumação” ao redor da cabeça.
– Meu cabelo? – Ela deixou escapar um arquejo horrorizado. – Meu cabelo! O que você fez com os meus cabelos?
– Nem perto do que eu gostaria de ter feito – segredou James.
– Ah, Deus, ah, Deus, ah, Deus. – Elizabeth se apressou até a pia, parando apenas para olhar por sobre o ombro e dizer: – Jurei por Deus, cinco anos atrás, que seria um exemplo para eles. Agora, olhe para mim.
Ele não fizera muito mais do que olhar para ela durante toda a tarde, pensou James mal-humorado, e tudo o que conseguiu foi frustração.
Ouviu-se uma batida na porta da frente. Elizabeth se sobressaltou.
– Meu cabelo está muito desarrumado? – perguntou, desesperada.
– Ora, não está como quando chegamos – admitiu ele.
Ela mexeu nos cabelos com movimentos rápidos e nervosos.
– Não vou conseguir arrumá-lo a tempo.
James preferiu não falar nada. Por experiência própria ele sabia que homens inteligentes não devem interromper a toalete de uma dama.
– Só há uma coisa a fazer – disse ela.
James observou com interesse enquanto Elizabeth mergulhava as mãos em uma pequena panela que estava cheia de água sobre a bancada. Era a mesma panela que ela usara para umedecer o pano que aplicara no olho dele.
As vozes das crianças estavam mais próximas.
Assim Elizabeth, que até então James considerara um ser humano razoavelmente equilibrado e racional, tirou as mãos da panela e jogou água no rosto todo, no corpete e, a bem da verdade, em James também.
A sanidade dela, decidiu ele, enquanto sacudia a água das botas, era um assunto que obviamente precisava ser revisto.