Como se casar com um marquês
Capítulo 12
– Pelo amor de São Pedro! – exclamou Susan. – O que aconteceu com você?
– Foi apenas um pequeno acidente – respondeu Elizabeth.
Seu talento para mentiras provavelmente havia se aprimorado, porque Susan não revirou os olhos no mesmo instante nem bufou, sem acreditar. Jogar água sobre si mesma por certo não fora o melhor dos planos, mas sem dúvida fora criativo. Como não conseguiria arrumar os cabelos, então poderia muito bem deixá-los num estado ainda pior. Ao menos, dessa forma, ninguém desconfiaria que o desalinho dela se devia aos dedos de James.
A pequena cabeça loura de Lucas se moveu de um lado para outro enquanto ele avaliava o estrago.
– É como se houvéssemos sido visitados por uma grande inundação.
Elizabeth tentou não se irritar com o comentário do irmão.
– Eu estava umedecendo um pano para o Sr. Siddons, que machucou o olho, então esbarrei na panela e...
– Como a panela ainda está de pé? – perguntou o menino.
– É que eu a coloquei novamente assim – respondeu Elizabeth, com alguma rispidez.
Lucas se surpreendeu com o tom da irmã e até recuou um passo.
– Acho melhor eu ir – anunciou James.
Elizabeth olhou de relance para ele. James sacudia água das mãos e parecia espantosamente paciente, considerando que ela acabara de encharcá-lo sem aviso prévio.
Susan pigarreou. Elizabeth ignorou-a. Susan voltou a pigarrear.
– Eu poderia usar uma toalha antes de partir? – pediu James.
– Ah, sim, é claro.
Susan voltou a tossir, um som tão alto dessa vez que seria de imaginar que ela precisava de um médico, de um cirurgião, de um hospital limpo e bem iluminado. Para não mencionar uma sala de quarentena.
– O que é, Susan? – perguntou Elizabeth em um sibilo.
– Vai me apresentar?
– Ah, sim. – Elizabeth sentiu o rosto ficar quente diante do óbvio lapso de protocolo. – Sr. Siddons, tenho o prazer de lhe apresentar minha irmã, Srta. Hotchkiss. Susan, esse é...
– Sr. Siddons? – perguntou a menina em um arquejo.
Ele sorriu e inclinou a cabeça em um cumprimento muito cosmopolita.
– Parece que a senhorita me conhece.
– Ah, não, de forma alguma – retrucou Susan, tão rapidamente que mesmo a mais tola das pessoas diria que estava mentindo. Ela abriu um sorriso um tanto largo demais, na opinião de Elizabeth... e então mudou logo de assunto. – Elizabeth, você fez algo de novo nos cabelos?
– Estão molhados – declarou a irmã mais velha.
– Eu sei, mas ainda assim parecem...
– Molhados.
Susan se calou, mas de algum modo conseguiu dizer “desculpe” sem mover os lábios.
– O Sr. Siddons precisa ir – disse Elizabeth em tom desesperado. Ela se adiantou e agarrou o braço dele. – Eu o levarei até o portão.
– Foi um prazer conhecê-la, Srta. Hotchkiss – dirigiu-se a Susan por sobre o ombro... e não poderia tê-lo feito de outra maneira, já que Elizabeth passou quase arrastando-o pelos três Hotchkisses mais jovens e agora estava passando com ele pela porta que dava para o corredor. – E a você também, Lucas! – gritou James. – Precisamos pescar juntos um dia desses!
O menino deixou escapar um grito de alegria e saiu correndo para o corredor atrás deles.
– Ah, obrigado, Sr. Siddons. Obrigado!
Elizabeth já o levara quase até os degraus da frente da casa quando ele parou de repente e disse:
– Há mais uma coisa que preciso fazer.
– O que mais você poderia ter para fazer? – quis saber Elizabeth. Mas James já se desvencilhara dela e caminhava a passos largos de volta até a porta da cozinha. Quando ela achou que ele já não conseguiria ouvir, resmungou: – Tenho a impressão de que já fizemos tudo o que tínhamos para fazer hoje.
James deu um sorriso malicioso por cima do ombro.
– Nem tudo.
Elizabeth balbuciou palavras sem sentido enquanto tentava pensar em uma resposta adequadamente destruidora, mas James arruinou o momento derretendo o coração dela.
– Ah, Jane! – chamou ele, inclinando-se contra o batente da porta.
Elizabeth não conseguiu ver dentro da cozinha, mas conseguia imaginar perfeitamente a cena: a irmã pequena levantando a cabeça, os olhos azul-escuros arregalados e encantados.
James soprou um beijo para ela.
– Adeus, doce Jane. Gostaria de verdade que você fosse um pouco mais velha.
Elizabeth deixou escapar um suspiro de êxtase e afundou em uma cadeira. A irmã sonharia com aquele beijo pelo resto da infância.
O discurso fora ensaiado à exaustão, mas o sentimento sem dúvida era sincero. Elizabeth sabia que teria que confrontar James para falar sobre o comportamento escandaloso deles, então passou a noite e também a manhã seguinte ensaiando conversas mentalmente. Ela ainda estava repetindo as palavras para si mesma quando abria caminho pela lama – chovera na noite da véspera – em direção à Casa Danbury.
Esse plano – esse bizarro, estranho e incompreensível plano que supostamente a levaria até o altar – precisava de regras. Normas de comportamento, diretrizes, esse tipo de coisa. Porque se ela não tivesse alguma ideia do que deveria esperar na companhia de James Siddons, era provável que ficasse louca.
Por exemplo, o comportamento dela na tarde anterior fora claramente a prova de que estava muito alterada. Jogara água por todo o corpo em uma crise de pânico! Isso sem mencionar sua reação lasciva ao beijo de James.
Ela teria que assumir um mínimo de controle da situação. Recusava-se a ser objeto de uma obra de caridade para diversão dele. Insistiria em pagar a James pelos serviços dele e pronto.
Além do mais, ele não poderia agarrá-la e puxá-la para seus braços quando ela não estivesse esperando. Por mais tolo que isso pudesse parecer, os beijos dele teriam que permanecer apenas no campo acadêmico. Era a única forma de Elizabeth conseguir sair daquele episódio com a alma intacta.
Quanto ao coração dela... bem, esse provavelmente já era uma causa perdida.
Mas não importava quantas vezes Elizabeth tentasse ensaiar o pequeno discurso que preparara, sempre soava diferente do que gostaria. Primeiro autoritária demais, então fraca demais. Estridente demais, então bajuladora demais. Onde diabos uma mulher deveria procurar conselho?
Talvez devesse dar só mais uma olhada em Como se casar com um marquês. Se eram regras e decretos que ela queria, certamente os encontraria ali. Talvez a Sra. Seeton houvesse incluído no livro algo sobre como convencer um homem de que ele estava errado sem insultá-lo de forma mortal. Ou sobre como conseguir que um homem fizesse o que a mulher queria ao mesmo tempo que o fazia achar que tudo fora ideia dele desde o começo. Elizabeth estava certa de que vira algo a esse respeito nos trechos que lera.
E se não houvesse, pelo amor de Deus, deveria haver. Ela não conseguiria imaginar uma habilidade mais útil. Sem contar com uns poucos conselhos femininos que a mãe lhe dera antes de morrer.
– Nunca fique com o crédito – dissera Claire Hotchkiss à filha. – Você vai conseguir muito mais se deixá-lo pensar que ele é o homem mais inteligente, corajoso e poderoso do mundo.
E essa tática, pelo que Elizabeth observara, funcionava. O pai dela fora extremamente devotado à mãe. Anthony Hotchkiss nunca conseguia prestar atenção em mais nada – incluindo os próprios filhos – quando a esposa entrava em um cômodo em que ele estivesse.
No entanto, infelizmente para Elizabeth, apesar de ter lhe oferecido conselhos sobre o que fazer com um homem, a mãe nunca parecera disposta a explicar como colocar os conselhos em prática.
Talvez essas coisas fossem intuitivas para algumas mulheres, mas certamente não eram para Elizabeth. Santo Deus, se ela se vira obrigada a consultar um manual só para saber o que dizer a um homem, por certo não saberia como fazê-lo acreditar que suas ideias na verdade tinham sido dele.
Ela ainda estava tentando dominar as lições mais básicas do flerte. Aquela parecia uma técnica de fato avançada.
Elizabeth bateu com os pés nos degraus do lado de fora da Casa Danbury para limpar a lama, então entrou pela porta da frente e se apressou pelo corredor até a biblioteca. Lady D. ainda estava tomando o café da manhã, aquela área da casa ainda se via tranquila e aquele maldito livrinho estava esperando...
Ela atentou para andar apenas sobre a elegante passadeira que se estendia por toda a extensão do corredor. Algo no silêncio ao redor lhe pareceu sagrado – é claro que isso devia ter alguma coisa a ver com as discussões intermináveis que tivera que suportar no café da manhã, pois Lucas e Jane brigaram para determinar de quem era a vez de fazer a limpeza. No instante em que seus pés tocaram o piso, ouviu-se um barulho estrondoso que ecoou pelo corredor e deixou em pior estado seus nervos já em frangalhos.
Ela entrou correndo na biblioteca e inalou o aroma da madeira polida e de livros antigos. Como saboreava aqueles breves momentos de privacidade... Em um movimento cuidadoso e silencioso, Elizabeth fechou a porta ao entrar e examinou as estantes. Lá estava ele, pousado de lado na prateleira onde ela o encontrara alguns dias antes.
Só uma olhadinha não faria mal. Elizabeth sabia que era um livro tolo e que a maior parte do que estava escrito ali não passava de bobagem, mas se conseguisse encontrar apenas um mísero conselho que a ajudasse em seu dilema...
Ela pegou o livro e folheou-o, os dedos virando as páginas com agilidade enquanto examinava por alto as palavras da Sra. Seeton. Elizabeth passou rapidamente pela parte que falava sobre guarda-roupa e a besteira sobre ensaiar. Talvez houvesse algo mais para o fim...
– O que você está fazendo?
Ela olhou na direção do som, dolorosamente consciente de que a expressão em seu rosto era a mesma de um cervo encarando o cano da espingarda de um caçador.
– Nada?
James atravessou o cômodo a passos largos, as pernas longas deixando-o a apenas intimidantes cinco passos dela.
– Você está lendo aquele livro de novo, não está?
– Não exatamente lendo – balbuciou Elizabeth. Era uma tonta por se sentir tão envergonhada, mas não conseguiu deixar de se sentir como se tivesse sido pega fazendo algo desprezível. – Estava só folheando.
– Sinceramente, não vejo a menor diferença entre as duas coisas.
Elizabeth decidiu que o melhor a fazer era mudar de assunto.
– Como soube que eu estava aqui?
– Ouvi seus passos. Da próxima vez, se quiser agir de forma clandestina, ande sobre o tapete.
– Eu andei! Mas o tapete termina. É preciso andar alguns passos direto sobre o piso para entrar na biblioteca.
Os olhos castanhos de James ficaram com um brilho estranho, quase acadêmico, enquanto ele dizia:
– Há formas de abafar... Ah, não importa. Não é esse o assunto em questão. – Ele estendeu a mão e arrancou dela o exemplar de Como se casar com um marquês. – Achei que houvéssemos concordado que esse livro não passa de uma grande tolice. De uma coleção de baboseiras pretensiosas feitas para transformar as mulheres em idiotas choronas desprovidas de cérebro.
– E eu tive a impressão de que os homens já são idiotas chorões desprovidos de cérebro.
– A maior parte realmente é – resmungou ele, concordando. – Mas você não precisa ser assim.
– Ora, Sr. Siddons, está me deixando chocada. Acho que isso foi um elogio!
– E você diz que não sabe flertar... – grunhiu James.
Elizabeth não conseguiu evitar o sorriso que nasceu em seu íntimo. De todos os elogios de James, os relutantes eram os que mais mexiam com ela.
James a encarou com severidade, a expressão agora quase infantil de tão petulante, e devolveu o livro para a prateleira.
– Não me deixe pegá-la olhando de novo para esse livro.
– Eu estava só procurando um conselho – explicou ela.
– Se precisa de conselho, eu lhe darei.
Elizabeth crispou os lábios por um breve segundo antes de responder:
– Acho que não é apropriado neste caso.
– Que diabo quer dizer com isso?
– Sr. Siddons...
– James – interrompeu ele, irritado.
– James – corrigiu-se. – Não sei o que o deixou nesse humor, mas não aprecio sua linguagem. Nem o seu tom.
Ele deixou o ar escapar longamente, impressionado por seu corpo ter estremecido ao fazer isso. Seu estômago parecia estar cheio de nós havia quase 24 horas, e tudo por causa daquela mulher tão pequenina. Elizabeth mal batia no ombro dele, pelo amor de Deus.
Começara com aquele beijo. Não, pensou James com amargura, começara muito antes disso, com a expectativa, a divagação, o sonho de como seria sentir a boca de Elizabeth sob a dele.
E é claro que não fora o bastante. Não fora nem de longe o bastante. Ele conseguira fingir despreocupação até muito bem na tarde anterior – com a ajuda da panela de água certeira dela, o que certamente apagara boa parte do desejo dele.
Mas a noite o deixara sozinho com os próprios pensamentos. E James tinha uma imaginação vívida.
– Estou de mau humor – respondeu ele finalmente e evitou uma mentira acrescentando: – porque não dormi bem na noite passada.
– Ah.
Elizabeth pareceu surpresa com a simplicidade da resposta dele. Abriu a boca como se fosse fazer mais perguntas, então voltou a fechá-la.
Bom para ela, pensou James, irritado. Se Elizabeth mostrasse mesmo que um vago interesse no motivo do sono ruim, ele com certeza contaria a ela. Descreveria seus sonhos nos mais explícitos detalhes.
– Lamento que você sofra de insônia – disse ela por fim –, mas acho sinceramente que precisamos conversar sobre sua oferta de me ajudar a conseguir um marido. Tenho certeza de que percebe que é uma oferta um tanto incomum.
– Achei que tivéssemos concordado que não deixaríamos que isso guiasse nossas ações.
Ela o ignorou.
– Preciso de um mínimo de estabilidade na vida, Sr. Siddons.
– James.
– James. – Ela repetiu o nome dele, a palavra saiu como um suspiro. – Não posso ficar em constante vigilância, em alerta para a possibilidade de você me atacar a qualquer momento.
– Atacar?
Um dos cantos da boca de James se inclinou na sugestão de um sorriso. Gostou da imagem que atacar lhe trouxe à mente.
– E certamente não pode ser benéfico para nós sermos tão, hã...
– Íntimos? – ajudou ele, só para irritá-la.
Funcionou. A expressão com que ela o encarou seria capaz de estilhaçar uma vidraça.
– A questão é – disse Elizabeth em voz alta, como se aquilo pudesse apagar a interferência dele – que nosso objetivo é conseguir um marido para mim, e...
– Não se preocupe – disse ele, alterado. – Vamos lhe encontrar um marido.
Mas no instante em que disse essas palavras, James percebeu um vago gosto estranho na boca. Podia se imaginar dando aulas a Elizabeth – imaginar cada delicioso minuto –, mas a ideia de ela de fato alcançar o objetivo de se casar o deixava um pouco nauseado.
– Isso me leva a outro ponto – voltou a dizer ela.
James cruzou os braços. Mais um ponto e ele teria que amordaçá-la.
– Sobre esse trabalho e seu desejo de me ajudar a encontrar um marido... não sei se me sinto confortável ficando em dívida com você.
– Não ficará.
– Ficarei, sim – retrucou Elizabeth com firmeza. – E insisto em lhe pagar.
O sorriso que ele dirigiu a ela foi tão másculo que Elizabeth sentiu as pernas bambas.
– E como pretende me pagar? – perguntou ele em uma voz arrastada.
– Chantagem.
James a encarou com surpresa. Elizabeth sentiu uma pontada de orgulho ao perceber.
– Chantagem? – repetiu ele.
– Lady Danbury me contou que você a está ajudando a desmascarar quem a chantageou. Gostaria de ajudá-lo.
– Não.
– Mas...
– Eu disse não.
Ela o encarou e, quando ele não disse nada, perguntou:
– Por que não?
– Porque pode ser perigoso, é por isso.
– Você está fazendo isso.
– Sou homem.
– Ah! – exclamou Elizabeth, cerrando os punhos ao lado do corpo. – Você é muito hipócrita! Tudo o que disse ontem sobre me respeitar e sobre achar que eu sou mais inteligente do que a média... foi apenas um monte de bobagens para me fazer confiar em você... para que pudesse...
– Isso não tem nada a ver com respeito, Elizabeth.
James plantou as mãos nos quadris, e ela chegou a recuar um passo diante da expressão nos olhos dele. Foi quase como se James tivesse se transformado em outro homem bem ali, no espaço de cinco segundos... um homem que fazia coisas perigosas, que conhecia pessoas perigosas.
– Estou indo – disse Elizabeth. – No que me diz respeito, você pode ficar aqui se quiser.
Ele a segurou pelo vestido.
– Acho que não terminamos essa conversa.
– Não estou certa de que desejo sua companhia.
Ele deixou escapar um suspiro longo e frustrado.
– O fato de respeitá-la não significa que eu esteja disposto a colocá-la em perigo.
– Acho difícil de acreditar que a nêmesis de lady D. seja um indivíduo perigoso. Afinal, ela não está sendo chantageada por guardar segredos de estado ou coisa parecida.
– Como pode ter certeza disso?
Elizabeth o encarou boquiaberta.
– É por isso?
– Não, é claro que não – retrucou ele, com irritação. – Mas você não teria como saber, não é?
– É claro que teria! Trabalho para ela há mais de cinco anos. Acha mesmo que lady Danbury se comportaria de forma suspeita sem que eu notasse? Santo Deus, veja como eu reagi quando ela começou a cochilar durante o dia.
James a encarou com severidade, a expressão nos olhos castanho-escuros não deixando espaço para discussão.
– Você não vai investigar quem é o chantagista, e isso é definitivo.
Ela cruzou os braços em resposta e não disse nada.
– Elizabeth?
Uma mulher mais cautelosa teria prestado atenção ao tom alarmante dele, mas Elizabeth não estava se sentindo muito prudente naquele momento.
– Você não pode me impedir de tentar ajudar lady Danbury. Ela vem sendo como uma mãe para mim e...
Ela engasgou com as palavras quando James a encurralou contra a mesa e passou as mãos ao redor dos braços dela com uma intensidade surpreendente.
– Eu a amarrarei, a amordaçarei. Prenderei você em uma maldita árvore se for necessário para impedi-la de enfiar o nariz onde não é chamada.
Elizabeth engoliu em seco. Nunca vira um homem tão furioso. Os olhos de James ardiam, a mão estava trêmula e o pescoço, tão tenso que dava a impressão de que bastaria uma leve encostada para arrancar a cabeça dele do lugar.
– Bom, então... – disse Elizabeth em uma voz bem aguda, tentando se soltar das mãos dele. James parecia não ter noção da força com que a apertava... ou mesmo que a estava apertando. – Não falei que me intrometeria, só que o ajudaria em certas missões absolutamente seguras e...
– Prometa-me, Elizabeth.
A voz dele estava baixa e intensa, e foi quase impossível não ceder diante da ferocidade de sentimentos contida naquelas três palavras.
– Eu... hã...
Nossa, onde estava a Sra. Seeton quando se precisava dela? Elizabeth tentara bajulá-lo para melhorar o mau humor dele... estava quase certa de que isso estava incluído no Decreto no 26... mas a iniciativa dela não surtira o menor efeito. James ainda estava furioso, as mãos dele continuavam fechadas ao redor dos braços dela como vasos gêmeos e, que Deus a ajudasse, Elizabeth parecia não conseguir afastar os olhos da boca dele.
– Prometa-me, Elizabeth – repetiu James, e ela só conseguia manter os olhos pregados nos lábios dele formando as palavras.
As mãos de James apertaram ainda mais os braços dela e isso, combinado com alguma força divina, a tirou do transe e ela o fitou nos olhos.
– Não farei nada sem consultá-lo primeiro – sussurrou ela.
– Isso não basta.
– Terá que bastar. – Ela se encolheu. – James, você está me machucando.
Ele olhou para as próprias mãos como se fossem objetos alheios a ele, então soltou Elizabeth abruptamente.
– Desculpe – falou, distraído. – Não percebi.
Elizabeth recuou, esfregando os braços.
– Está tudo bem.
James a encarou por um longo momento antes de praguejar baixinho e se virar de costas. Estava tenso, frustrado, mas nunca imaginara a violenta onda de emoções que ela provocava. Bastara a mera ideia de ver Elizabeth em perigo e ele se transformara em um perfeito idiota.
A ironia era extraordinária. Apenas um ano antes James estivera rindo do melhor amigo que passara por uma situação semelhante. Blake Ravenscroft ficara completamente louco quando sua futura esposa tentara tomar parte em uma operação do Departamento de Guerra. E James achara toda a situação muito divertida. Logo percebeu que Caroline não encararia nenhum perigo real, e achou que Blake tinha sido um idiota atrapalhado por ter feito tanto escarcéu com o assunto.
James era capaz de olhar para a presente situação com objetividade bastante para saber que Elizabeth corria muito menos risco ali na Casa Danbury. E ainda assim o sangue dele gelava nas veias de medo e fúria à mera menção do envolvimento dela na questão da chantagem.
Ele tinha um pressentimento de que aquilo não era um bom sinal.
Aquilo só podia ser alguma espécie de obsessão doentia. Não fizera nada além de pensar em Elizabeth Hotchkiss desde que chegara à Casa Danbury no início daquela semana. Primeiro, tivera que investigá-la para descobrir se era uma chantagista, então se vira na posição não desejada de professor de sedução.
Na verdade, ele mesmo se atribuíra esse papel, mas preferiu não se demorar nesse ponto.
Na verdade era natural que ele temesse pela segurança dela. Se colocara como protetor dela de certo modo, pois Elizabeth era tão pequenina... qualquer homem desejaria protegê-la.
E quanto ao desejo que sentia por ela – o que parecia rasgar seu ventre e fazer sua pulsação arder –, ora, ele era um homem, afinal, e ela era uma mulher, e estava ali, e era de fato muito linda, ao menos na opinião dele, e quando Elizabeth sorria coisas estranhas aconteciam com ele...
– Que tudo vá para o inferno– murmurou ele –, terei que beijá-la.