Como se casar com um marquês
Capítulo 20
L ady Danbury raramente saía de casa sem seu gato.
Malcolm, infelizmente, tinha dificuldade em apreciar os aspectos mais agradáveis da vida fora da Casa Danbury. Ah, ele fazia um passeio ocasional pelos estábulos, normalmente em busca de um rato grande e gordo, mas, como fora criado entre a nobreza, claramente se considerava no mesmo patamar e não gostava de ser arrancado de seu ambiente acolchoado.
Para absoluto deslumbramento de Lucas e Jane, Malcolm escolhera expressar sua ira com um miado desolado e bastante acusador. Ele ficou repetindo o lamento a intervalos de dois segundos, com uma regularidade que seria impressionante se não fosse monstruosamente irritante.
– Miau! – reclamou ele.
– Que som é esse? – perguntou Caroline.
TUM.
– O miado ou a batida? – quis saber Elizabeth, enquanto apoiava a cabeça na mão.
– Miau!
– Ambos.
TUM.
Elizabeth esperou pelo miado seguinte e respondeu:
– Isso foi o gato de lady Danbury e – TUM – isso foi lady Danbury.
Antes que Caroline pudesse fazer qualquer comentário, elas ouviram outro som, de pés se movendo rápido pela casa.
– E isso, imagino – comentou Elizabeth de forma seca –, foi minha irmã Susan, servindo chá para lady Danbury.
– Ainda não conheci lady Danbury – disse Caroline.
Elizabeth segurou-a pelo braço e puxou-a para a frente.
– Então está prestes a ter esse prazer.
– Elizabeth! – bradou lady D. da sala de estar. – Ouvi você!
– Ela escuta tudo – murmurou Elizabeth.
– Também ouvi isso!
Elizabeth ergueu as sobrancelhas e disse a Caroline, apenas mexendo os lábios:
– Está vendo?
Caroline abriu a boca para dizer algo, então parou com um olhar apavorado na direção da sala de estar. Ela tirou o caderno das mãos de Elizabeth, pegou uma pena que estava sobre a escrivaninha no saguão e rabiscou.
Elizabeth leu:
Ela me deixa apavorada.
Elizabeth assentiu.
– Ela provoca esse efeito na maior parte das pessoas.
– Elizabeth!
– Miau!
Elizabeth balançou a cabeça.
– Não posso acreditar que ela trouxe o gato.
– ELIZABETH!
– Acho melhor você entrar para vê-la – sussurrou Caroline.
Elizabeth suspirou e caminhou na direção da sala de estar no ritmo mais lento possível. Lady Danbury certamente teria uma opinião a dar sobre os eventos humilhantes da noite anterior, e Elizabeth teria que ficar sentada, quieta, enquanto a condessa falava. Seu único consolo foi estar arrastando Caroline consigo.
– Vou esperar aqui – sussurrou Caroline.
– Ah, não vai, não – retrucou Elizabeth. – Ouvi seu sermão. Agora você tem que ouvir o dela.
A expressão de Caroline foi de pura consternação.
– Você vem comigo e ponto final – insistiu Elizabeth, passando a mão ao redor do braço de Caroline.
– Mas...
– Bom dia, lady Danbury – falou Elizabeth, sorrindo apesar dos dentes cerrados, enquanto enfiava a cabeça pela porta da sala de estar. – Não posso negar que estou surpresa pela visita.
– Onde você estava? – quis saber lady Danbury, tentando acomodar o peso do corpo na poltrona esfarrapada favorita de Elizabeth. – Estou esperando há horas.
Elizabeth ergueu a sobrancelha.
– Só estou fora há quinze minutos, lady Danbury.
– Humpf. Você está ficando mais insolente a cada dia, Elizabeth Hotchkiss.
– Sim – concordou Elizabeth com a insinuação de um sorriso. – Estou mesmo, não estou?
– Humpf. Onde está meu gato?
– Miiiiiiaaaaauuuu!
Elizabeth se virou e viu um monte de pelos bege descer o corredor como um raio, seguido por duas crianças dando gritinhos de alegria.
– Acho que no momento ele está ocupado, lady Danbury.
– Humpf. Deixe o gato para lá. Lidarei com ele mais tarde. Preciso falar com você, Elizabeth.
Elizabeth puxou Caroline para dentro da sala.
– Já conhece a Sra. Ravenscroft, lady Danbury?
– A esposa daquele rapaz, Blake, não é?
Caroline assentiu.
– Um bom rapaz, acredito – concedeu lady D. – Amigo do meu sobrinho. Costumava nos visitar quando criança.
– Sim – confirmou Caroline. – Ele morre de medo da senhora.
– Humpf. Homem esperto. Você deveria sentir o mesmo.
– Ah, com certeza.
Lady Danbury estreitou os olhos.
– Está zombando de mim?
– Como se ela ousasse – interrompeu Elizabeth. – A única em quem a senhora não mete medo sou eu, lady Danbury.
– Pois bem, vou fazer o meu melhor para conseguir isso agora, Elizabeth Hotchkiss. Preciso falar com você e é urgente.
– Sim – disse Elizabeth com cautela, sentando-se na beira do sofá. – Era o que eu temia. A senhora nunca havia aparecido no nosso chalé antes.
Quando lady Danbury pigarreou, Elizabeth deixou o ar escapar longamente, esperando pelo sermão que estava certa de que receberia. Lady Danbury tinha opinião sobre tudo, e Elizabeth acreditava que os acontecimentos da noite anterior não seriam exceção. Como James era sobrinho dela, com certeza a condessa ficaria do lado dele, e Elizabeth seria forçada a suportar uma longa lista dos muitos atributos positivos dele, pontuados por uma menção ocasional aos atributos positivos da própria lady Danbury.
– Você não compareceu ao baile de máscaras ontem – acusou lady D. de forma dramática, apontando o dedo na direção de Elizabeth.
Elizabeth a encarou boquiaberta.
– Era sobre isso que queria falar comigo?
– Estou muito aborrecida. Você – ela apontou na direção de Caroline – eu vi. A abóbora, certo? A mais bárbara das frutas.
– Acredito que seja um legume – opinou Caroline.
– Bobagem, é uma fruta. Se tem sementes na polpa, é uma fruta. Onde aprendeu biologia, menina?
– É uma abóbora – declarou Elizabeth. – Podemos deixar assim?
Lady Danbury acenou com a mão para encerrar de vez o assunto.
– Seja o que for, não cresce na Inglaterra. Portanto, não me serve.
Elizabeth sentiu que estava ficando cansada. Lady Danbury era exaustiva.
A condessa em questão virou a cabeça para encará-la.
– Ainda não acabei com você, Elizabeth.
Elizabeth teria reclamado se tivesse tido tempo antes de Lady D. acrescentar de modo severo:
– E sente-se direito.
Elizabeth endireitou o corpo.
– Pois bem, então – continuou a velha dama –, eu me esforcei muito para convencê-la a comparecer à minha festa. Consegui uma fantasia para você... uma fantasia muito digna, diga-se de passagem... e você me retribui ignorando inclusive a fila de cumprimentos? Eu me senti muito insultada. Muito...
– Miiiiiiaaaaauuuu!
Lady Danbury levantou os olhos a tempo de ver Lucas e Jane passarem correndo.
– O que eles estão fazendo com o meu gato? – quis saber.
Elizabeth esticou o pescoço.
– Não estou certa se eles estão perseguindo Malcolm ou se é Malcolm que os está perseguindo.
Caroline se intrometeu na situação.
– Eu teria o maior prazer de ir até lá investigar.
Elizabeth deixou uma das mãos pousar pesadamente sobre o braço de Caroline.
– Por favor, fique – disse, em uma voz bastante doce.
– Elizabeth – bradou lady Danbury –, vai me responder?
Elizabeth vacilou, confusa.
– A senhora me fez uma pergunta?
– Onde você estava? Por que não compareceu à festa?
– Eu... Eu...
Elizabeth ficou com dificuldades para encontrar as palavras. Certamente não poderia contar a verdade... que estivera do lado de fora da casa, sendo seduzida pelo sobrinho da condessa.
– E então?
Toc, toc, toc.
Elizabeth disparou para fora da sala como uma bala.
– Preciso atender à porta! – gritou por sobre o ombro.
– Você não vai me escapar, Lizzie Hotchkiss! – ouviu lady Danbury gritar.
Também achou ter ouvido Caroline murmurar a palavra “traidora” baixinho, mas àquela altura Elizabeth já estava consumida pela preocupação de que fosse James parado do outro lado da pesada porta de carvalho.
Ela respirou fundo. Se ele estivesse ali, não havia nada que pudesse fazer a respeito. Elizabeth abriu a porta.
– Ah, bom dia, Sr. Ravenscroft.
Por que ela ficou desapontada?
– Srta. Hotchkiss. – Ele acenou com a cabeça. – Minha esposa está aqui?
– Sim, está na sala de estar com lady Danbury.
Blake se encolheu.
– Talvez seja melhor eu voltar mais tarde...
– Blake? – eles ouviram Caroline chamar em uma voz um tanto desesperada. – É você?
Elizabeth cutucou o braço de Blake.
– Tarde demais.
Blake arrastou os pés até a sala de estar, a expressão em seu rosto exatamente a mesma do menino de 8 anos que havia sido repreendido por uma brincadeira envolvendo um sapo e uma fronha.
– Blake – praticamente cantou Caroline, o tom cheio de alívio.
– Lady Danbury – murmurou ele.
– Blake Ravenscroft! – exclamou a velha dama. – Não o vejo desde que você tinha 8 anos.
– Eu estava me escondendo.
– Humpf. Todos vocês estão ficando muito insolentes agora que estou velha.
– E como vai a senhora? – quis saber Blake.
– Não tente mudar de assunto – pontuou lady D.
Caroline se virou para Elizabeth e sussurrou:
– Há um assunto?
Lady Danbury estreitou os olhos e sacudiu o dedo na direção de Blake.
– Ainda não terminei de falar com você sobre a vez em que colocou aquele sapo na fronha da pobre Srta. Bowater.
– Ela era uma governanta terrível – retrucou Blake –, e, além do mais, foi tudo ideia de James.
– Estou certa disso, mas você deveria ter tido a retidão moral de...
Lady Danbury se interrompeu de súbito e relanceou um olhar de pânico nada característico na direção de Elizabeth, que nesse momento se lembrou de que a patroa não sabia que ela já descobrira a verdadeira identidade de James.
Elizabeth, que não queria transformar aquele assunto numa potencial fonte de conversa, se virou e passou a examinar atentamente as unhas. Depois de um momento, levantou os olhos, piscou, fingiu surpresa e perguntou:
– Estava falando comigo?
– Não – respondeu lady D. em uma voz confusa. – Nem sequer mencionei seu nome.
– Ah – falou Elizabeth, pensando que talvez tivesse exagerado na cena de não-estou-prestando-atenção. – Vi a senhora me olhando, e...
– Não importa – apressou-se a dizer lady Danbury.
Ela se virou para Blake e abriu a boca, a princípio para repreendê-lo, mas não saiu sequer uma palavra.
Elizabeth mordeu o lábio para conter uma risada. A pobre lady Danbury queria desesperadamente repreender Blake por alguma peça pregada duas décadas antes, mas não poderia, porque isso a faria mencionar o nome de James, sobre quem ela achava que Elizabeth não sabia a verdade e...
– Alguém quer chá? – balbuciou Susan, entrando na sala sob o peso de uma enorme bandeja.
– Exatamente o que eu precisava!
Lady Danbury pareceu pronta a saltar da cadeira em sua pressa de mudar de assunto.
Dessa vez, Elizabeth riu. Santo Deus, quando ela havia conseguido passar a lidar com esse assunto de forma bem-humorada?
– Elizabeth? – sussurrou Caroline. – Você está rindo?
– Não. – Cof. – Estou tossindo.
Caroline falou alguma coisa bem baixinho que Elizabeth achou não ser um elogio.
Susan pousou a bandeja sobre uma mesa com um baque surdo, então foi interrompida por lady Danbury, que puxou a cadeira mais para perto e anunciou:
– Eu servirei.
Susan recuou e esbarrou em Blake, que se afastou para o lado, mais para perto da esposa, e sussurrou:
– Tudo que essa cena encantadora precisa é de James.
– Morda sua língua – ralhou Elizabeth, sem se desculpar por estar ouvindo a conversa dos dois.
– Lady Danbury não sabe que Elizabeth sabe – contou Caroline em voz baixa.
– O que vocês três estão sussurrando? – bradou lady D.
– Nada!
Teria sido difícil dizer qual dos três gritou a palavra mais alto.
O silêncio reinou enquanto lady Danbury entregava uma xícara de chá a Susan, então Blake se inclinou para a frente e perguntou:
– Será que ouvi uma batida na porta?
– Pare de brincadeira – repreendeu Caroline.
– Foi o gato – disse Elizabeth com firmeza.
– Você tem um gato? – quis saber Blake.
– É o gato de lady Danbury.
– Onde está meu gato? – questionou lady D.
– Ela escuta tudo – murmurou Elizabeth.
– Eu ouvi isso!
Elizabeth revirou os olhos.
– A senhorita parece estar de bom humor hoje – comentou Blake.
– É muito exaustivo ficar perturbada. Decidi retornar ao meu hábito de fazer o melhor do pior.
– Fico feliz em ouvir isso, porque acabo de ver James chegando a cavalo – avisou Blake.
– O quê? – Elizabeth se virou rápido para olhar pela janela. – Não o estou vendo.
– Ele já passou.
– Do que vocês três estão falando? – voltou a perguntar lady Danbury.
– Achei que você tivesse dito que ela ouvia tudo – mencionou Caroline.
Lady Danbury se virou para Susan e comentou:
– Sua irmã parece prestes a sofrer um ataque apoplético.
– Ela está assim desde a noite passada – contou Susan.
Lady D. deu uma gargalhada.
– Gosto de sua irmã, Elizabeth. Se você algum dia se casar e me deixar, quero essa menina como minha nova dama de companhia.
– Não vou me casar – Elizabeth foi categórica, mais por hábito do que por qualquer outra coisa.
O que fez com que os dois Ravenscrofts se virassem e a encarassem com expressões de dúvida.
– Não vou!
Foi então que ouviram batidas na porta.
Blake ergueu a sobrancelha.
– E a senhorita diz que não vai se casar – murmurou ele.
– Elizabeth! – bradou lady Danbury. – Não vai atender a porta?
– Estava considerando essa possibilidade – resmungou Elizabeth.
Lucas e Jane escolheram esse momento para aparecer na porta da sala.
– Quer que eu atenda? – perguntou Jane.
– Acho que perdi o gato de lady Danbury – acrescentou Lucas.
Lady D. deixou cair a xícara de chá.
– Onde está meu pobre Malcolm?
– Bem, ele entrou correndo na cozinha, então saiu para o jardim, passou por trás do canteiro de nabos e...
– Eu poderia valsar até a porta da frente – sugeriu Jane. – Preciso praticar.
– Malcolm! – gritou lady D. – Aqui, gatinho, gatinho!
Elizabeth se virou e encarou Caroline e Blake com irritação, já que ambos se sacudiam com risadas silenciosas e que pareciam incontroláveis.
– Acho que ele não vai ouvi-la daqui, lady Danbury – alertou Lucas.
As batidas na porta ficaram mais fortes. Pelo visto, Jane decidira valsar ao redor do saguão antes de atender.
Então James começou a gritar o nome de Elizabeth, seguido por:
– Abra esta porta de uma vez!
Elizabeth se deixou cair sobre um banco acolchoado, lutando contra uma vontade absurda de rir. Se a temperatura na sala estivesse apenas alguns degraus mais quente, ela juraria que estava no inferno.
James Sidwell, marquês de Riverdale, não estava de bom humor. O temperamento dele não poderia ser classificado nem como educado. Passara a manhã quase subindo pelas paredes, praticamente se acorrentando à cama para evitar procurar Elizabeth.
Se dependesse dele, já teria ido procurá-la assim que acordara, mas não, tanto Caroline quanto Blake haviam insistido para que ele lhe desse um pouco de tempo. Elizabeth estava exaltada, segundo os dois. Era melhor esperar até que as emoções dela estivessem mais sob controle.
Assim, James esperou. Contra a própria vontade e, mais importante no que dizia respeito ao seu temperamento, contra o próprio instinto natural, ele esperou. Então, quando finalmente foi até o quarto dos Ravenscrofts para perguntar se achavam que já havia esperado o bastante, encontrou um bilhete de Caroline para Blake, explicando que ela fora até o chalé dos Hotchkisses.
E logo encontrou também um bilhete de Blake para James, dizendo quase a mesma coisa.
E, como última afronta, quando James atravessava o grande salão da Casa Danbury, o mordomo o interrompeu para mencionar que a condessa havia ido até o chalé dos Hotchkisses.
A única criatura que não fizera o caminho de quase 2 quilômetros fora o maldito gato.
– Elizabeth! – gritou James, batendo com o punho contra uma porta sólida, surpreendentemente bem-feita. – Deixe-me entrar neste instante, ou eu juro que...
A porta foi aberta de forma abrupta. James olhou para o nada, então abaixou o olhar alguns centímetros. A pequena Jane Hotchkiss estava parada à porta, sorrindo encantada para ele.
– Bom dia, Sr. Siddons – cantarolou, estendendo a mão. – Estou aprendendo a valsar.
Com relutância, James encarou o fato de que não poderia passar direto por uma menina de 9 anos e viver com isso na consciência.
– Srta. Jane – respondeu ele. – Que prazer voltar a vê-la.
Ela balançou os dedos.
Ele não entendeu.
Ela voltou a balançá-los.
– Ah, claro – apressou-se em dizer James, inclinando-se para beijar a mão dela.
Ao que parecia, depois que beija uma vez a mão de uma menininha, um homem fica obrigado a repetir o gesto pelo resto da infância dela.
– Está um lindo dia, não acha? – perguntou Jane, ostentando seu tom mais adulto.
– Sim, eu...
As palavras se perderam enquanto ele olhava por cima do ombro dela, tentando ter um vislumbre do que estava causando tanta comoção na sala de estar. A tia estava gritando alguma coisa, Lucas gritava também, e até Susan fazia o mesmo, enquanto cruzava o corredor para entrar na cozinha.
– Eu o achei! – gritou Susan.
Então, para espanto absoluto de James, uma bola obesa de pelo saiu trotando da cozinha, atravessou o saguão e entrou com calma na sala de estar.
Maldição. Até o desgraçado do gato conseguira chegar ali antes dele.
– Jane, preciso muito falar com a sua irmã – disse James com o que pensou ser uma enorme paciência.
– Com Elizabeth?
Não, com Susan.
– Sim, com Elizabeth – disse ele devagar.
– Ah. Ela está na sala de estar. Mas devo avisá-lo – Jane inclinou a cabeça em um gesto cheio de requinte – que Elizabeth está muito ocupada. Estamos com muitas visitas hoje.
– Eu sei – resmungou James, esperando que Jane se afastasse para não ter que passar por cima dela para chegar à sala de estar.
– Miau!
– Esse gato não é muito bem-comportado – comentou Jane com um arzinho afetado, sem dar sinais de que pretendia se mover, agora que encontrara um novo assunto. – Passou o dia miando assim.
James percebeu que estava com os punhos cerrados ao lado do corpo, sinalizando impaciência.
– É mesmo? – perguntou ele, com o máximo de educação possível no momento.
Se usasse um tom de voz que refletisse como estava se sentindo, a menininha provavelmente sairia correndo dali.
E o caminho para o coração de Elizabeth sem dúvida não incluía reduzir a irmã mais nova dela às lágrimas.
Jane assentiu.
– Ele é um gato terrível.
– Jane – disse James, agachando-se para ficar na altura dela –, eu poderia falar com Elizabeth agora?
A menina se afastou para o lado.
– É claro. O senhor deveria ter pedido.
James resistiu à vontade de fazer um comentário. Em vez disso, agradeceu a menina, deu outro beijo na mão dela e partiu em direção à sala de estar, onde, para sua grande surpresa e certa diversão, encontrou Elizabeth de quatro.
– Malcolm – sibilou Elizabeth –, saia de baixo desse armário agora mesmo.
Malcolm fungou.
– Neste instante, seu gatinho miserável.
– Não chame meu gato de miserável – reclamou lady Danbury.
Elizabeth estendeu a mão e tentou agarrar a bola de pelo rebelde, que reagiu esticando a pata cheia de garras.
– Lady Danbury, esse gato é um monstro – anunciou Elizabeth, sem erguer a cabeça.
– Não seja absurda. Malcolm é um gatinho de ótima natureza e você sabe disso.
– Malcolm é cria do demo – resmungou Elizabeth.
– Elizabeth Hotchkiss!
– É verdade.
– Na semana passada mesmo você disse que ele era maravilhoso.
– Na semana passada ele estava sendo gentil comigo. Se bem me lembro, a senhora o chamou de traidor.
Lady Danbury fungou enquanto observava Elizabeth tentando agarrar o gato.
– Ele obviamente está aborrecido porque aqueles monstrinhos o estavam perseguindo ao redor da casa.
Essa foi a gota d’água! Elizabeth se levantou do chão, fuzilou lady Danbury com o olhar e grunhiu:
– Ninguém chama Lucas e James de monstrinhos além de mim!
O que se seguiu não foi o mais absoluto silêncio. Blake estava claramente rindo por trás da mão e lady Danbury ficou balbuciando palavras aleatórias, deixando escapar estranhos sons gorgolejantes e piscando com tanta força que Elizabeth poderia jurar que era capaz de ouvir suas pálpebras batendo.
Mas nada a teria preparado para o som lento de palmas que veio de trás dela. Elizabeth se virou com calma em direção à porta.
James. Parado ali, com um meio sorriso impressionado e uma sobrancelha arqueada. Ele fez uma mesura na direção da tia e disse:
– Não consigo me lembrar da última vez que ouvi alguém falar com você assim, tia.
– A não ser você! – retorquiu lady D.
Então, percebendo que James acabara de chamá-la de “tia”, ela começou a balbuciar de novo, virando a cabeça na direção de Elizabeth.
– Está tudo bem – declarou James. – Ela já sabe de tudo.
– Desde quando?
– Desde a noite passada.
Lady Danbury se virou para Elizabeth e falou, irritada:
– E por que você não me disse?
– A senhora não perguntou! – Então Elizabeth se virou de volta para James e perguntou em um grunhido: – Há quanto tempo está parado aí?
– Eu a vi engatinhando para baixo do armário, se é o que está querendo saber.
Elizabeth resmungou por dentro. Conseguira alcançar Jane, antes de a irmã ir abrir a porta, e implorara a ela para mantê-lo no saguão ao menos até que conseguisse devolver o maldito gato para lady Danbury.
Não queria de forma alguma que a primeira visão que James tivesse dela depois do embate da véspera fosse de seu traseiro.
Quando pusesse as mãos naquele gato...
– Por que ninguém me informou sobre a revelação da verdadeira identidade de James? – perguntou lady Danbury em uma voz estridente.
– Blake – disse Caroline, puxando o braço do marido –, essa talvez seja a nossa deixa para ir embora.
Ele fez que não com a cabeça.
– Eu não perderia isso por nada no mundo.
– Bem, terá que perder – declarou James com determinação. Ele atravessou a sala e pegou a mão de Elizabeth. – Vocês são bem-vindos para ficar e saborear o chá, mas Elizabeth e eu estamos de saída.
– Espere um instante – protestou ela, tentando sem sucesso soltar a mão da dele. – Você não pode fazer isso.
Ele a encarou.
– Não posso fazer o quê?
– Isso! – reclamou ela. – Você não tem direitos sobre mim...
– Terei – retrucou ele, ostentando um sorriso muito confiante e másculo.
– Péssima estratégia da parte dele – sussurrou Caroline para Blake.
Elizabeth cerrou os punhos, tentando desesperadamente conter a raiva.
– Esta casa é minha – declarou ela. – Se alguém vai dizer aos meus convidados que são bem-vindos para fazer qualquer coisa, essa pessoa serei eu.
– Então faça isso – pediu James.
– E você não pode ordenar que eu saia com você.
– Não fiz isso. Só comuniquei aos seus vários convidados... que se reuniram aqui sem serem convidados... que estávamos de saída.
– Ele não está levando bem a situação – sussurrou Caroline para Blake.
Elizabeth cruzou os braços.
– Não vou a lugar nenhum.
A expressão de James se tornou de fato ameaçadora.
– Se ele ao menos a tivesse convidado de forma gentil... – murmurou Caroline para Blake.
– Blake – chamou James –, amordace a sua esposa.
Blake riu, o que lhe garantiu um soco no braço com bastante força, dado pela esposa.
– E quanto a você – James dirigiu-se a Elizabeth. – Já tive toda a paciência possível. Precisamos conversar. Podemos fazer isso lá fora ou aqui dentro, na frente da minha tia, dos seus irmãos e – nesse momento ele indicou Caroline e Blake com a cabeça – desses dois.
Elizabeth engoliu em seco, nervosa, paralisada pela indecisão.
James se inclinou mais para perto dela.
– Você decide, Elizabeth.
Ela não fez nada, incapaz de pronunciar qualquer palavra.
– Muito bem, então – disse James, irritado. – Eu decidirei por você.
E sem mais discussão, passou a mão ao redor da cintura dela, jogou-a por sobre o ombro e saiu da sala carregando-a.
Blake, que observara o drama se desenrolar à sua frente com um sorriso no rosto, virou-se para a esposa e falou:
– Na verdade, querida, tenho que discordar. Levando tudo em consideração, acho que ele lidou muito bem com a situação.