Como se casar com um marquês
Capítulo 15
James caminhava em direção aos estábulos com as mãos enfiadas nos bolsos. Estava se permitindo um raro surto de chateação; não era comum que tivesse que se negar algo que realmente desejava, e saber que teria que adiar a conquista de Elizabeth o deixara de mau humor.
O ar fresco não ajudara muito, por isso ele decidira levar a ideia ao próximo nível e sair a cavalo. Uma cavalgada capaz de quebrar o pescoço, na velocidade do vento, daquelas que deixam os cabelos como um ninho de rato. Como administrador de Agatha, tinha acesso livre aos estábulos, e se não era comum que esse tipo de profissional saísse galopando como louco... bem, James pretendia disparar tão rápido que ninguém o reconheceria.
Mas quando ele chegou à área dos estábulos, Malcolm estava sentado sobre as patas traseiras, arranhando loucamente a porta de um deles e gritando como se estivesse possuído.
– Santo Deus, gato. O que deu em você?
Malcolm uivou, recuou alguns passos e bateu com a cabeça na porta.
Foi então que James se deu conta de que as portas de um estábulo estavam fechadas, o que era estranho naquela hora do dia. Embora os cavalos dos convidados já tivessem sido cuidados havia algum tempo, e os cavalariços provavelmente já tivessem partido para a Bag of Nails, a taberna, para tomar uma caneca de cerveja, era de esperar que as portas tivessem sido deixadas abertas. Afinal, estava um dia quente e os cavalos apreciariam qualquer brisa que entrasse.
James abriu a porta, encolhendo-se ao ouvir o rangido das dobradiças enferrujadas. Imaginou que fosse seu trabalho tomar conta de coisas como aquelas. Ou pelo menos providenciar que alguém fizesse isso. Ele tamborilou na coxa com os dedos enluvados por um momento, então seguiu na direção do armário de suprimentos para procurar graxa para as dobradiças. Não demoraria muito para ajeitar aquilo e, além do mais, achou que um pouco de trabalho manual lhe faria bem naquele momento.
No entanto, quando chegou à porta do armário, ouviu um som estranho.
Não passava de um farfalhar, na verdade, mas algo naquele som não parecia vir de um cavalo.
– Há alguém aqui? – chamou James.
Mais farfalhar, dessa vez mais rápido e mais frenético, acompanhado por um estranho barulho abafado de pânico.
James sentiu o sangue gelar nas veias.
Havia dezenas de baias. O barulho poderia estar vindo de qualquer uma delas. Mas de algum modo ele soube. Seus pés o levaram até a baia no extremo mais distante e, com um grito selvagem nascido no fundo de sua alma, ele derrubou a porta.
Elizabeth descobriu como era a face do inferno. Tinha olhos azuis, cabelos louros e um sorriso cruel e bestial. Ela lutou contra Fellport com todas as forças que tinha, mas era leve demais, e foi como se ele estivesse arrastando uma pena ao longo dos estábulos.
Fellport colou a boca à dela, e Elizabeth lutou para manter os lábios fechados. Ele podia estar roubando a dignidade e a capacidade de controle dela, mas a jovem estava decidida a manter ao menos uma parte de si protegida daquele homem.
Fellport afastou a cabeça e pressionou Elizabeth contra uma pilastra, os dedos envolvendo com força os braços dela.
– Acabei de beijá-la, Srta. Hotchkiss – disse Fellport em uma voz arrastada. – Agradeça-me.
Elizabeth apenas o encarou, muda.
Ele a puxou na direção dele, então empurrou-a de volta na direção da pilastra, sorrindo com malícia quando a cabeça de Elizabeth bateu na madeira dura, cheia de farpas.
– Acho que você tem algo a me dizer – continuou ele em uma voz falsamente suave.
– Vá para o inferno! – cuspiu Elizabeth.
Ela sabia que não deveria provocá-lo, que fazer isso só o tornaria mais cruel, mas maldito fosse, ela não permitiria que aquele homem controlasse suas palavras.
Fellport a encarou com raiva e, por um momento abençoado, Elizabeth achou que ele talvez não a castigasse pelo insulto. Mas então, com um grunhido furioso, ele a puxou da pilastra e jogou-a dentro de uma baia vazia. Elizabeth caiu sobre o feno e tentou ficar de pé, mas Fellport foi mais rápido e era muito grande, então aterrissou sobre ela com uma força que a deixou sem ar.
– Deixe-me em paz, seu...
Ele voltou a cobrir a boca de Elizabeth com a mão, e a cabeça dela foi virada com violência para o lado. A jovem sentiu o feno áspero se enterrando em seu rosto, mas não sentiu dor. Não sentiu... nada. Estava saindo do próprio corpo, a mente percebendo que esse era o único modo de atravessar aquele horror para o qual ela fora arrastada: observar de longe, como se aquele corpo, o que estava sendo abusado por Fellport, não pertencesse a ela.
Então, bem no momento em que aquela separação entre corpo e mente estava quase completa, Elizabeth ouviu um barulho.
Fellport também ouviu e sua mão apertou com ainda mais força a boca de Elizabeth. Ele ficou completamente imóvel.
A porta do estábulo rangeu. O chefe dos cavalariços deveria tê-la consertado no dia anterior, mas fora chamado para resolver alguma coisa, e todos os outros funcionários estavam ocupados demais naquele dia, com tantos convidados a atender.
Mas o rangido significava que alguém estava ali. E se alguém estava ali, Elizabeth tinha uma chance.
– Há alguém aqui?
A voz de James.
Elizabeth se debateu como nunca fizera antes. Descobriu uma força que nunca sonhara possuir, enquanto se agitava e se contorcia sob a mão de Fellport.
O que aconteceu a seguir foi como um borrão na mente dela. Houve um grito alto que nem sequer parecia humano, e então a porta da baia foi aberta com muita força. Fellport foi tirado de cima dela e Elizabeth cambaleou para um canto, agarrando as saias.
James estava possuído. Ele atingiu Fellport com golpes brutais e seus olhos estavam com uma expressão feroz, selvagem mesmo, quando ele empurrou o rosto do homem contra o feno.
– Gosta do sabor do feno? – sibilou James. – Gosta de ter o rosto pressionado contra o chão?
Elizabeth ficou encarando os dois homens com um fascínio horrorizado.
– Você se sente mais forte ao subjugá-la, ao abusar de alguém com metade do seu tamanho? É isso? Você consegue fazer o que quer só porque é maior e mais forte? – James empurrou a cabeça de Fellport mais para baixo, arrastando o rosto dele no feno e na terra. – Ah, mas eu sou maior e mais forte do que você. Qual é a sensação, Fellport? Como se sente agora que está à minha mercê? Eu poderia parti-lo em dois.
Houve um momento de silêncio duro, pontuado apenas pela respiração entrecortada e arquejante de James. Ele encarava Fellport com intensidade, mas seus olhos pareceram estranhamente diferentes quando sussurrou:
– Esperei muitos anos pelo momento de me vingar.
– De mim? – disse Fellport com a voz estrangulada.
– De todos vocês – declarou James. – De cada um de vocês. Não pude salvar...
Ele engasgou com as palavras, e ninguém respirou enquanto os músculos do rosto dele se retesavam.
– Posso salvar Elizabeth – sussurrou James. – Não deixarei que tire a dignidade dela.
– James? – foi a vez de Elizabeth sussurrar.
Santo Deus, ele ia acabar matando Fellport. E Elizabeth, que Deus salvasse sua alma, queria ver isso. Queria ver James partir aquele homem em dois.
Mas não queria ver James ser enforcado, o que quase certamente seria a consequência daquilo. Fellport era um baronete. Um administrador nunca mataria um baronete e sairia ileso disso.
– James – voltou a falar Elizabeth, em uma voz mais alta –, você precisa parar.
James parou, apenas por tempo bastante para Fellport dar uma boa olhada no rosto dele.
– Você! – grunhiu Fellport.
O corpo de James estava tremendo, mas ele manteve a voz baixa e firme quando disse:
– Peça perdão à dama.
– A essa prostituta?
A cabeça de Fellport bateu novamente contra o chão.
– Peça perdão à dama.
Fellport não disse nada.
Então, em um movimento tão rápido que Elizabeth mal conseguiu acreditar nos próprios olhos, James sacou um revólver.
Elizabeth prendeu a respiração e levou a mão trêmula à boca.
Ouviu-se um clique baixo, e James pressionou o cano do revólver contra a cabeça de Fellport.
– Peça perdão à dama.
– Eu... eu...
Fellport começou a tremer incontrolavelmente, e não conseguia pronunciar as palavras.
– Peça perdão à dama.
– James – falou Elizabeth, o terror evidente na voz –, você precisa parar. Está tudo bem. Não preciso...
– Não está tudo bem! – rugiu ele. – Nunca ficará tudo bem! E esse homem vai pedir perdão a você, ou eu...
– Perdão!
A palavra explodiu da boca de Fellport, em uma voz aguda, carregada de pânico.
James agarrou o colarinho de Fellport e o ergueu do chão. Fellport arquejou quando o tecido cortou sua pele.
– Você vai embora desta festa – disse James em uma voz letal.
Fellport apenas deixou escapar um som engasgado.
James se virou para Elizabeth, sem soltar Fellport em momento algum.
– Voltarei logo.
Ela assentiu, trêmula, apertando uma mão contra a outra em um esforço para fazê-las pararem de tremer.
James arrastou Fellport para fora, deixando Elizabeth sozinha na baia. Sozinha com mil perguntas na mente.
Por que James carregava um revólver? E onde aprendera a lutar com precisão tão letal? Aqueles golpes não haviam sido aprendidos com a prática do amigável pugilismo... tinham a intenção de matar.
E havia perguntas mais assustadoras, que não permitiriam que o coração dela se acalmasse, que seu corpo parasse de tremer. E se James não tivesse aparecido a tempo? E se Fellport tivesse sido brutal? E se...?
A vida não podia ser vivida de acordo com os “e se?”, e Elizabeth sabia que só estava prolongando seu sofrimento demorando-se no que poderia ter acontecido em vez de no que realmente acontecera, mas não conseguia parar de reviver o ataque inúmeras vezes na mente. E sempre que chegava ao ponto em que James a salvara, ele não aparecia, e Fellport ia mais longe, rasgava suas roupas, arranhava sua pele, a tomava...
– Pare! – disse em voz alta, pressionando os dedos contra as têmporas enquanto arriava no chão.
Seus tremores aumentaram e os soluços do choro que ela não permitira cair antes começaram a apertar sua garganta. Ela respirou fundo várias vezes, tentando manter o corpo traiçoeiro sob controle, mas não tinha força para conter as lágrimas.
Elizabeth apoiou a cabeça nas mãos e começou a chorar. Então sentiu a coisa mais estranha. Malcolm se arrastou para cima de seu colo e começou a lamber suas lágrimas. E por algum motivo aquilo a fez chorar ainda mais.
A conversa de James com sir Bertram Fellport foi breve. Não foram necessárias muitas palavras para explicar o que aconteceria ao baronete se ele algum dia voltasse a colocar os pés na propriedade de lady Danbury. E enquanto Fellport tremia de medo e ressentimento, James agravou a ameaça e incluiu a ordem de que Fellport nunca mais chegasse a menos de 20 metros de Elizabeth, não importava onde ela estivesse.
Afinal, se James seguisse com os planos de fazer dela sua esposa, os caminhos deles sem dúvida voltariam a se cruzar em Londres.
– Estamos entendidos? – perguntou James, a voz terrivelmente calma.
Fellport assentiu.
– Então desapareça desta propriedade.
– Preciso pegar as minhas coisas.
– Farei com que enviem suas coisas para você – avisou James. – Veio de carruagem?
Fellport fez que não com a cabeça.
– Vim com Binsby.
– Ótimo. A cidade fica a menos de 2 quilômetros. Lá você pode contratar alguém para levá-lo de volta a Londres.
Fellport assentiu.
– E se disser uma única palavra do que aconteceu aqui para qualquer pessoa, se você sequer mencionar a minha presença aqui, eu o matarei – avisou James em uma voz letal.
Fellport voltou a assentir, e parecia não desejar nada além de seguir as ordens e partir, mas James ainda o segurava pelo colarinho.
– Mais uma coisa – continuou James. – Se mencionar a mim, repito, irei matá-lo, mas se mencionar a Srta. Hotchkiss...
Fellport não controlou os intestinos.
– Farei isso de forma lenta.
James soltou o colarinho de Fellport, e o baronete cambaleou alguns passos antes de sair correndo. James observou-o desaparecer sobre a inclinação suave da colina, então voltou pisando firme para os estábulos. Preferia não ter deixado Elizabeth sozinha depois de uma experiência tão traumática, mas não tivera escolha. Precisava lidar com Fellport, e achou que a moça não iria querer estar no mesmo ambiente que aquele canalha por um instante que fosse além do necessário.
Isso sem mencionar que Fellport poderia ter revelado a verdadeira identidade de James a qualquer momento.
No instante em que entrou no estábulo, James a ouviu chorar.
– Maldição – sussurrou, hesitando um passo enquanto caminhava para onde ela estava.
Não sabia como confortá-la, não tinha a menor ideia do que fazer. Tudo o que ele sabia era que Elizabeth precisava dele, e pediu a Deus para não decepcioná-la.
Ele chegou à baia do canto, a porta ainda pendurada nas dobradiças. Elizabeth estava agachada contra a parede no outro extremo, os braços ao redor das pernas, a testa descansando contra os joelhos. O gato dera um jeito de se enfiar no espaço entre as coxas e o tronco de Elizabeth e, para espanto de James, parecia estar tentando confortá-la.
– Lizzie? – sussurrou James. – Ah, Lizzie...
O corpo dela oscilava ligeiramente de um lado para outro, e ele viu que os ombros dela subiam e desciam a cada respiração trêmula.
James conhecia aquele tipo de respiração. Era do tipo que acontece quando a pessoa está tentando com muita determinação guardar os próprios sentimentos para si, mas não se sente forte o bastante para isso.
Ele foi rapidamente até o lado dela, sentou-se sobre o feno e passou o braço ao redor dos ombros esguios. Então falou baixinho:
– Ele foi embora.
Ela não disse nada, mas James sentiu os músculos dela ficarem tensos.
James olhou para Elizabeth. As roupas dela estavam sujas mas não rasgadas, e embora estivesse certo de que Fellport não conseguira violentá-la, ele rezou para que o ataque do homem não tivesse ido além de um beijo brutal.
Beijo? James quase cuspiu a palavra. O que quer que Fellport tivesse feito com Elizabeth, por mais que tivesse forçado sua boca contra a dela, não fora um beijo.
James desviou os olhos para o topo da cabeça de Elizabeth. Os cabelos de um dourado muito claro estavam cheios de palha, e mesmo sem conseguir ver seu rosto, ela parecia bastante perdida...
James cerrou o punho. Estava voltando rapidamente... aquela sensação familiar de impotência. Conseguia sentir o terror dela, que parecia atravessá-lo e revirar suas entranhas.
– Por favor – sussurrou ele. – Diga-me o que posso fazer.
Ela não deixou escapar qualquer som, mas se aconchegou mais ao corpo dele. James abraçou-a com mais força.
– Ele não a perturbará mais – garantiu com intensidade. – Eu lhe prometo.
– Tento tanto ser forte – falou Elizabeth em um arquejo. – Todo dia, tento tanto...
James se virou e segurou-a pelos ombros, forçando-a a levantar os olhos cheios de lágrimas em sua direção.
– Você é forte – afirmou ele. – É a mulher mais forte que eu conheço.
– Tento tanto – repetiu Elizabeth, como se procurasse reafirmar para si mesma. – Todo dia. Mas não fui forte o bastante. Não fui...
– Não diga isso. Não foi culpa sua. Homens como Fellport... – James fez uma pausa para deixar escapar o ar com dificuldade. – Eles machucam as mulheres. É a única forma que conhecem de se sentirem fortes.
Elizabeth ficou em silêncio e James percebeu que ela estava se esforçando para engolir os soluços que subiam por sua garganta.
– Essa... essa violência... é fruto de um defeito de caráter dele, não seu. – Ele balançou a cabeça e fechou os olhos com força por um brevíssimo instante. – Você não pediu que ele fizesse isso com você.
– Eu sei. – Ela ficou inquieta e seus lábios se abriram no sorriso mais triste que James já vira. – Mas não consegui detê-lo.
– Elizabeth, ele tem duas vezes o seu tamanho!
Ela deixou escapar um longo suspiro, se afastou dele e se apoiou contra a parede.
– Estou cansada de ser forte. Muito cansada. Desde a morte do meu pai...
James a encarou e examinou os olhos dela, que ficaram sem expressão. Um mau pressentimento apertou seu coração.
– Elizabeth, como seus pais morreram? – perguntou ele com cuidado.
– Minha mãe morreu em um acidente de carruagem – respondeu ela, a voz tão sem expressão quanto os olhos. – Todos viram. A carruagem destruída. Cobriram o corpo dela, mas todos viram como ela morreu.
James esperou que ela dissesse algo sobre o pai, mas isso não aconteceu. Por fim, ele perguntou baixinho:
– E seu pai?
– Ele se matou.
Os lábios de James se entreabriram de surpresa e ele se viu dominado por uma raiva incontrolável. Não tinha ideia do que acontecera para que o pai de Elizabeth se sentisse tão desesperado, mas o Sr. Hotchkiss escolhera o caminho dos covardes e deixara a filha mais velha a cargo da família.
– O que aconteceu? – questionou ele, tentando não deixar transparecer a raiva na voz.
Elizabeth olhou para James e um som amargo e fatalista escapou de seus lábios.
– Foi seis meses depois do acidente da minha mãe. Ele sempre... – Ela teve dificuldade em continuar. – Ele sempre a amou demais.
James começou a dizer algo, mas as palavras agora escapavam dos lábios de Elizabeth com a velocidade de água correndo. Foi como se ele tivesse rompido um dique, e agora ela não conseguia conter o fluxo de emoção.
– Ele simplesmente não conseguiu seguir em frente – continuou ela, os olhos cintilando de raiva. – A cada dia ele deslizava mais e mais para algum lugar secreto que nenhum de nós conseguia alcançar. E nós tentamos! Meu Deus, juro a você, nós tentamos.
– Sei que tentaram – murmurou ele, apertando o ombro dela. – Conheço você. Sei que tentou.
– Até Lucas e Jane. Eles continuaram a subir no colo dele, exatamente como antes, mas papai os afastava. Não nos abraçava. Não nos tocava. E, já perto do fim, nem mesmo falava conosco. – Elizabeth respirou bem fundo, mas isso não serviu para acalmá-la. – Eu sempre soube que ele nunca nos amaria como a amou, mas era de imaginar que pelo menos nos amasse o suficiente.
Ela cerrou o punho e James a observou com uma tristeza impotente, pressionando o punho com força contra a boca. Então ele estendeu a mão e tocou os dedos dela, sentindo-se estranhamente aliviado quando eles se fecharam ao redor da mão dele.
– Era de esperar – continuou ela, a voz baixa e triste – que ele nos amasse o bastante para viver.
– Não precisa dizer mais nada – sussurrou James, ciente de que seria assombrado para sempre por aquele momento. – Não precisa me contar.
– Não. – Elizabeth balançou a cabeça. – Eu quero. Nunca externei essas palavras.
Ele esperou enquanto ela reunia coragem para continuar.
– Ele atirou em si mesmo – contou Elizabeth, tão baixo que James mal conseguiu ouvir. – Eu o encontrei no jardim. Havia muito sangue. – Ela engoliu várias vezes. – Eu nunca vira tanto sangue.
James permaneceu em silêncio, querendo muito dizer algo para confortá-la, mas sabendo que nenhuma palavra ajudaria.
Elizabeth deixou escapar um risinho amargo.
– Tentei me convencer de que aquele fora seu último ato de carinho, atirar em si mesmo no jardim. Precisei ir muitas vezes ao poço para buscar água e limpar o local, mas pelo menos a sujeira foi absorvida pela terra. Se ele tivesse se matado dentro de casa, só Deus sabe como eu teria limpado tudo.
– O que você fez? – perguntou ele em tom suave.
– Fiz com que parecesse um acidente de caça – sussurrou ela. – Arrastei o corpo para o bosque. Todos sabiam que ele caçava. Ninguém desconfiou que fosse qualquer outra coisa ou, se desconfiaram, não disseram nada.
– Você o arrastou? – perguntou James, surpreso. – Seu pai era um homem pequeno? Quero dizer, você é bem pequenina e...
– Ele tinha mais ou menos a sua altura, embora fosse um pouco mais magro. Não sei de onde tirei forças – explicou Elizabeth, balançando a cabeça. – Acho que do mais puro terror. Eu não queria que as crianças soubessem o que ele fizera. – Ela levantou a cabeça, a expressão nos olhos subitamente insegura. – Eles ainda não sabem.
James apertou a mão dela.
– Tentei não falar mal dele – continuou a jovem.
– E vem carregando esse peso nos ombros há cinco anos – concluiu ele com ternura. – Segredos são pesados, Elizabeth. É difícil carregá-los só.
Os ombros dela se ergueram e se abaixaram em um movimento exausto.
– Talvez eu tenha agido errado. Mas entrei em pânico. Não sabia mais o que fazer.
– Pois a mim parece que você fez exatamente o que precisava ser feito.
– Ele foi enterrado em solo consagrado – contou ela, em uma voz sem expressão. – De acordo com a igreja... de acordo com todos menos eu... não foi suicídio. Todos ficaram me dando condolências, dizendo que tinha sido uma tragédia, enquanto eu precisei me controlar para não gritar a verdade.
Elizabeth virou a cabeça para encarar James. Os olhos dela estavam marejados, brilhando, da cor exata das violetas.
– Odiei vê-lo ser descrito como herói. Fui eu que optei por esconder o suicídio, e ainda assim queria contar a todos que meu pai fora um covarde, que me deixara para recolher os pedaços dele. Eu tinha vontade de sacudir a todos várias vezes para que parassem de dizer como ele fora um bom pai. Porque ele não foi. – A voz dela ficou mais baixa e mais firme. – Ele não foi um bom pai. Ele ficava incomodado com os filhos. Meu pai só queria a minha mãe. Ele nunca nos quis.
– Sinto muito – sussurrou James, pegando a mão dela.
– Não é sua culpa.
Ele sorriu, tentando arrancar um sorriso dela também.
– Eu sei, mas sinto muito mesmo assim.
Os lábios dela estremeceram... foi quase um sorriso, mas não chegou a tanto.
– Não é irônico? Era de imaginar que o amor fosse uma coisa boa, não acha?
– O amor é uma coisa boa, Elizabeth. – E ele estava sendo sincero.
Estava sendo mais sincero do que jamais sonhara ser.
Ela balançou a cabeça.
– Meus pais se amavam muito. Simplesmente não sobrava amor suficiente para nós. E quando mamãe morreu... bem, nós simplesmente não conseguimos ocupar o lugar dela.
– Isso não é culpa sua – concluiu James, os olhos buscando os dela com uma intensidade hipnotizante. – Não há limite para o amor. Se o coração do seu pai não foi grande o bastante para caber toda a família dele, isso era um defeito dele, não seu. Se ele tivesse sido qualquer outro tipo de homem, teria percebido que os filhos eram extensões milagrosas do amor dele por sua mãe. E teria tido força para continuar sem ela.
Elizabeth digeriu as palavras e deixou que penetrassem lentamente no coração. Sabia que James estava certo, que a fraqueza do pai era dele, não dela. Mas era tão difícil aceitar isso, maldição... Ela se voltou para James, que a encarava com os olhos mais cálidos e bondosos que ela já vira.
– Seus pais devem ter se amado bastante – comentou ela baixinho.
James recuou, surpreso.
– Meus pais... – disse ele lentamente. – Eles não se casaram por amor.
– Ah... – comentou ela baixinho. – Mas talvez tenha sido melhor assim. Afinal, meus pais...
– O que seu pai fez – interrompeu James – foi um erro, uma fraqueza, uma covardia. O que meu pai fez...
Elizabeth viu a dor nos olhos dele e apertou suas mãos.
– O que meu pai fez deve ter garantido a ele um lugar no inferno – sussurrou ele em tom selvagem.
Elizabeth sentiu a boca seca.
– O que quer dizer?
Houve um longo silêncio e quando James finalmente falou, sua voz soou de forma muito estranha.
– Eu tinha 6 anos quando a minha mãe morreu.
Ela permaneceu em silêncio.
– Me disseram que ela havia caído da escada. Quebrado o pescoço. Uma tragédia, era o que todos diziam.
– Ah, não. – As palavras escaparam dos lábios de Elizabeth.
– Ela sempre tentava me fazer acreditar que era desastrada, mas eu a via dançar. Ela costumava murmurar uma música enquanto valsava sem par pela sala de música. Era a mulher mais linda, mais graciosa que já vi. Às vezes, minha mãe me pegava no colo e valsava comigo apoiado em seu quadril.
Elizabeth tentou confortá-lo com um sorriso.
– Eu costumava fazer isso com o Lucas.
James balançou a cabeça.
– Ela não era desastrada. Nunca esbarrou em um castiçal nem derrubou uma vela. Ele batia nela, Elizabeth. Ele a agredia todo maldito dia...
Elizabeth engoliu em seco e mordeu o lábio inferior. De repente, a fúria incontrolável de James por Fellport fez um pouco mais de sentido. Aquela fúria tinha mais de duas décadas, vinha queimando em fogo lento havia muito tempo.
– Ele... ele batia em você? – perguntou ela em um sussurro.
Ele balançou rapidamente a cabeça, negando.
– Nunca. Eu era o herdeiro dele. Meu pai costumava lembrar isso o tempo todo à minha mãe. Dizia que ela não valia mais nada, pois já me tivera. Ela podia ser esposa dele, mas eu tinha o sangue dele.
Um tremor percorreu a espinha de Elizabeth quando se deu conta de que ele estava citando palavras que ouvira vezes sem conta.
– E ele me usava – continuou James. Os olhos dele ficaram sem expressão e suas mãos grandes e fortes estavam trêmulas. – Ele me usava para justificar seus ataques de fúria contra ela. Nunca concordava com os métodos da minha mãe para me criar. Se a via me abraçando ou me consolando quando eu chorava, ficava furioso. Se ela estava me fazendo carinho, gritava. Dizia que iria me transformar em um homem fraco.
– Ah, James.
Elizabeth estendeu a mão e acariciou os cabelos dele. Não conseguiu se conter. Nunca conhecera ninguém que precisasse tanto de conforto humano.
– Então eu aprendi a não chorar. – James balançou a cabeça com certo desespero. – E, depois de algum tempo, eu me afastei dos abraços da minha mãe. Se ele não a surpreendesse me abraçando, talvez parasse de bater nela.
– Mas ele não parou, não é?
– Não. Sempre havia um motivo para ela ser colocada em seu devido lugar. E, no fim... – A respiração dele saiu em um suspiro rouco e trêmulo. – No fim ele decidiu que o lugar dela era caída na base da escada.
Elizabeth sentiu algo quente escorrer por seu rosto, e foi só então que se deu conta de que estava chorando.
– O que aconteceu com você?
– Esse talvez seja o único ponto positivo na história – respondeu James, a voz ficando um pouco mais forte. – Minha tia, a irmã da minha mãe, foi até a minha casa e me levou embora com ela. Acho que minha tia sempre havia suspeitado que a minha mãe era maltratada, mas nunca imaginou que fosse tão grave. Muito mais tarde, ela me contou que jamais permitiria que meu pai começasse a fazer o mesmo comigo.
– Você acha que isso teria acontecido?
– Não sei. Eu ainda era valioso para ele. Seu único herdeiro. Mas ele precisava abusar de alguém, e como minha mãe não estava mais lá... – Ele deu de ombros.
– Sua tia deve ser uma mulher muito especial.
James olhou para Elizabeth, querendo mais do que tudo na vida contar a verdade a ela, mas não podia. Ainda não.
– Ela é mesmo – disse ele, a voz rouca de emoção. – Ela me salvou. Foi como se tivesse me tirado de um prédio em chamas.
Elizabeth tocou o rosto dele.
– Sua tia deve ter lhe ensinado a ser feliz.
– Ela ficava tentando me abraçar – contou ele. – Naquele primeiro ano, ela tentava demonstrar amor, e eu sempre a afastava. Eu achava que meu tio me bateria se ela me abraçasse. – Ele passou os dedos pelos cabelos, e uma risadinha escapou de seus lábios. – Acredita nisso?
– Como você poderia pensar de outro modo? – perguntou Elizabeth, baixinho. – Seu pai era o único homem que você conhecia.
– Minha tia me ensinou a amar. – Ele deu um breve suspiro. – Ainda não cheguei ao refinamento de saber perdoar, mas sei amar.
– Seu pai não merece perdão – constatou ela. – Sempre tentei seguir os sermões de Deus, e sei que devemos dar a outra face, mas seu pai não merece isso.
James ficou em silêncio por um momento, então se virou para ela e disse:
– Ele morreu quando eu tinha 20 anos. Não compareci ao funeral.
Aquele era o insulto máximo que um filho poderia dirigir a um pai. Elizabeth assentiu com uma aprovação sombria.
– Você voltou a vê-lo nesse meio-tempo?
– Tive que ver em determinada ocasião. Foi inevitável. Eu era filho dele. Legalmente, minha tia não podia evitar isso. Mas ela foi forte e o intimidou. Até então meu pai nunca conhecera uma mulher que o enfrentasse. E não tinha ideia de como lidar com ela.
Elizabeth se inclinou para a frente e deu um beijo delicado na testa dele.
– Vou incluir sua tia nas minhas preces hoje à noite.
Ela deixou a mão pousar no rosto dele e o encarou com pesar e melancolia, desejando que houvesse algum modo de voltar o relógio, alguma forma de abraçar aquele menininho que ele fora e mostrar a ele que o mundo podia ser um lugar seguro e afetuoso.
James virou o rosto e o pousou na mão dela. Pressionou os lábios contra a palma, buscando o calor da pele dela e cheio de respeito pelo calor que Elizabeth tinha no coração.
– Obrigado – sussurrou ele.
– Por quê?
– Por estar aqui. Por ouvir. Por apenas ser você.
– Obrigada a você também, então – sussurrou ela de volta. – Por todas as mesmas coisas.