Como se casar com um marquês

Julia Quinn · Capítulo 18 de 26

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Como se casar com um marquês

Capítulo 17

 

 

A noite estava plena de magia. A lua cintilava, o ar guardava o delicado aroma das flores do campo e o vento era como um sussurro romântico contra a pele.

Elizabeth achou que devia ser uma princesa. A mulher cruzando os campos, com os cabelos escorrendo pelas costas como uma faixa dourada, não podia ser a comum e sem graça Elizabeth Hotchkiss. Por uma noite, ela se transformaria. Por uma noite, seu coração não guardaria pesos nem preocupações. Estava banhada em risos e paixão, envolvida pela mais pura alegria.

De mãos dadas, eles correram. A Casa Danbury sumiu de vista, embora os sons da festa ainda pairassem no ar. As árvores ao redor deles ficaram mais densas e, finalmente, James parou, a respiração pesada pelo esforço da corrida e pelo desejo.

– Ai, meu Deus – arquejou Elizabeth, quase caindo em cima dele. – Não corro tanto assim desde...

James passou os braços ao redor dela e Elizabeth parou de respirar.

– Beije-me – ordenou ele.

Ela se perdeu no encanto da noite e qualquer hesitação que pudesse ter tido, qualquer noção do que seria adequado ou escandaloso, se perdeu junto. Elizabeth arqueou o pescoço, oferecendo os lábios a ele, e James os tomou, a boca capturando a dela na mistura mais doce de ternura e desejo primitivo.

– Não vou possuí-la. Não agora... não ainda – prometeu ele contra a pele dela. – Mas deixe-me amá-la.

Elizabeth não sabia o que ele queria dizer, mas seu sangue correu mais rápido e mais quente pelas veias, e ela não conseguiria lhe negar nada. Elizabeth levantou a cabeça, viu fogo nos olhos cor de chocolate e tomou sua decisão.

– Me ame – sussurrou ela. – Confio em você.

Os dedos de James tremiam quando ele os deixou correr com reverência sobre a pele suave das têmporas dela. Os cabelos de Elizabeth eram como seda dourada sob o toque dele, e ela parecia dolorosamente pequena e frágil sob suas mãos grandes e então desajeitadas. Elizabeth era preciosa, e o dever dele era protegê-la.

– Serei delicado – sussurrou, mal reconhecendo a própria voz. – Nunca a machucarei. Nunca.

Elizabeth confiava nele. E isso era uma dádiva poderosa, capaz de transformar a alma de alguém.

James deixou os dedos descerem suavemente pelos contornos do rosto dela até a pele nua do pescoço. A fantasia que Elizabeth estava usando era diferente de tudo o que ela já usara antes e provocava o desejo dele com vislumbres dos ombros nus, o tecido ameaçando escorregar em um mínimo toque. Ele poderia passar o dedo pelo tecido branco macio e expor um dos ombros delicados, então o outro, e poderia abaixar o vestido, despindo-a...

O sangue correu ardente pelas veias de James, parecendo acumular-se em seu baixo ventre. Santo Deus, se ele já estava ficando rígido só de pensar em despi-la, que diabo aconteceria quando ele realmente a tivesse nua e cheia de desejo nos braços? Como conseguiria fazer amor com Elizabeth com a delicadeza e o cuidado que ela merecia?

A respiração parecia queimar os pulmões de James, quando ele deslizou lentamente o vestido dela por um ombro, sem nunca afastar os olhos da pele que ia aparecendo. Elizabeth cintilava sob a luz do luar como a pérola mais rara, e quando ele abaixou a cabeça para enfiá-la na curva quente e sedutora onde o pescoço encontrava o ombro dela, foi como estar em casa.

James a beijou, e a mão dele fez a mesma mágica no outro lado do vestido. Ele a ouviu arquejar quando o tecido foi abaixado, revelando a curva suave do início dos seios. Elizabeth murmurou algo – James achou que foi o nome dele –, mas não disse não, e assim ele desabotoou o único botão que descansava entre os seios dela, abrindo a frente do vestido o bastante para expor seu torso.

Elizabeth tentou se cobrir, mas James a impediu segurando as mãos dela, enquanto se inclinava para a frente e pousava um beijo muito delicado em seus lábios.

– Você é linda – sussurrou ele, o calor de sua voz penetrando na boca de Elizabeth. – Muito linda...

Ainda segurando Elizabeth com uma das mãos, James usou a outra para envolver delicadamente um dos seios dela, deixando que preenchesse a palma de sua mão. O seio dela era surpreendentemente cheio e exuberante, e James não conseguiu conter um gemido de prazer quando sentiu o mamilo se enrijecer sob seu toque.

Ele olhou para o rosto dela, pois queria ver sua expressão, precisava saber que ela estava gostando. Os lábios de Elizabeth estavam entreabertos e cintilavam, já que ela havia acabado de umedecê-los com a língua. Os olhos dela estavam nublados e desfocados, a respiração saía em pequenos arquejos.

James deixou a outra mão descer até envolver o traseiro dela, sustentando-a enquanto ambos desciam até o chão. A relva era um tapete macio e frio sob seus corpos e os cabelos de Elizabeth se espalharam como um leque dourado precioso. James ficou apenas encarando-a por um instante, murmurando baixinho um agradecimento a fosse qual fosse o deus que o levara àquele momento. Então abaixou a cabeça até alcançar os seios dela e a amou com a boca.

Elizabeth deixou escapar um “Ah” chocado quando os lábios de James se fecharam ao redor do seu mamilo. O hálito saía quente em seu seio e ela sentia o sangue correr quente e acelerado nas próprias veias. Seu corpo se tornou absolutamente estranho a ela e foi quase como se não estivesse conseguindo ser contido pela pele. Estava louca de vontade de se mexer, de esfregar as solas dos pés na grama, de enfiar as mãos nos cabelos cheios e castanhos de James.

Elizabeth arqueou as costas sob o corpo dele, consumida por uma paixão imprudente que a levara a aceitar o que quer que James oferecesse.

– James – ofegou ela, e logo repetiu isso sussurrando. O nome dele parecia ser a única palavra que se formava em seus lábios, e soava como uma súplica e uma oração.

O vestido dela fora abaixado o máximo possível e James deixou uma das mãos descer até a perna dela, passando pela panturrilha até subir para a parte externa do joelho. Então, em um movimento tão lento que fez Elizabeth arder de expectativa, a mão de James subiu do joelho para pressionar a pele macia da coxa.

O nome dele voltou a escapar dos lábios dela, mas a boca de James estava sobre a dela e assim as palavras se perderam no beijo. A mão dele agora acariciava toda a extensão da perna dela, movendo-se até a área muito delicada da parte interna da coxa. Elizabeth enrijeceu o corpo, sentindo que chegara ao limite de alguma coisa, que navegara na direção de algum lugar secreto de onde não haveria retorno.

James ergueu a cabeça de modo a olhar para ela. Elizabeth teve que piscar várias vezes antes de conseguir focalizar as feições amadas dele, e então, com um sorriso malicioso nos lábios, James perguntou:

– Mais?

Que deus a ajudasse, porque ela assentiu e viu o sorriso dele se alargar pouco antes de sua boca descer para a parte de baixo do queixo dela, empurrando o rosto de Elizabeth para cima, para que ele pudesse explorar toda a extensão do seu pescoço.

Então a mão dele subiu mais.

James havia quase chegado ao alto da coxa agora, portanto mais perto do ponto mais íntimo da feminilidade dela. A proximidade era enervante, e as pernas de Elizabeth começaram a tremer em expectativa.

– Confie em mim – sussurrou James. – Apenas confie em mim. Farei com que seja bom para você. Eu prometo.

O tremor no corpo de Elizabeth não parou, mas ela abriu ligeiramente as pernas, permitindo que ele acomodasse o próprio corpo entre suas coxas. Ela não se dera conta até aquele momento de que James vinha se mantendo afastado dela, usando os braços fortes para suportar o próprio peso.

Mas tudo mudou quando ele abaixou o corpo sobre o dela. O peso de James era excitante, a altura dele, o calor. Ele era muito maior do que ela. Elizabeth se deu conta de que nunca havia notado a plena extensão da força e do poder dele até tê-lo colado tão intimamente ao corpo dela.

A mão dele se espalhou por toda a largura da coxa dela, o polegar chegando particularmente perto dos pelos que protegiam a feminilidade dela. Ele apertou-a ali, provocou-a.

E então, James a tocou.

Elizabeth estava completamente despreparada para a onda de pura eletricidade que disparou por sua espinha. Nunca imaginara que pudesse se sentir tão quente, tão pulsante, tão desesperada pelo toque de outro ser humano.

Os dedos dele a provocaram até ela estar certa de que não conseguiria aguentar mais, então ele foi além. O hálito quente dele brincou na orelha de Elizabeth até ela ter certeza de que entraria em autocombustão, e James continuou a sussurrar palavras de amor e de paixão. Toda vez que ela tinha certeza de que chegara a algum limite, ele a levava além, fazendo com que Elizabeth alcançasse um novo patamar de paixão.

Ela se agarrou à relva, com medo de acabar rasgando a camisa de James caso passasse os braços ao redor dele. Mas então, quando deslizou o dedo para dentro dela, James sussurrou:

– Toque-me.

Hesitante, com medo da própria paixão, ela levou as mãos ao colarinho da camisa dele. O botão de cima já estava aberto, e o segundo foi rapidamente desabotoado na pressa que Elizabeth sentia de tocar a pele dele.

– Meu Deus, Elizabeth – arquejou James. – Assim você me mata.

Ela parou e levantou os olhos para encontrar os dele.

– Não – disse ele, rindo apesar do desejo que o consumia. – Isso é bom.

– Tem certeza? Porque.... ahhhhhhhhhh!

Elizabeth não tinha ideia do que ele fizera, de como exatamente movera os dedos, mas a pressão que vinha crescendo dentro dela subitamente explodiu. Ela sentiu o corpo muito tenso, arqueou-o, então estremeceu e, quando finalmente voltou a descansar o corpo trêmulo no chão, teve certeza de que devia estar em cacos.

– Ah, James – disse Elizabeth em um suspiro. – Você me faz sentir tão bem por dentro.

O corpo de James ainda estava rígido como uma rocha, tenso com um desejo que ele sabia que não conseguiria satisfazer naquela noite. Os braços dele começaram a tremer sob o peso do corpo, por isso ele rolou para o lado e se acomodou junto a Elizabeth na grama. Apoiou a cabeça sobre um dos cotovelos e ficou aproveitando a visão preciosa do rosto dela. Elizabeth estava com os olhos fechados, os lábios entreabertos, e James nunca vira nada tão lindo na vida.

– Há tanto que eu preciso lhe contar – murmurou ele, afastando os cabelos dela da testa.

Elizabeth abriu os olhos.

– O que é?

– Amanhã – prometeu ele, fechando com delicadeza o corpete do vestido dela.

Era uma pena cobrir uma beleza tão perfeita, mas James sabia que ela ainda ficava constrangida com a própria nudez. Ou ao menos ficaria, depois que se lembrasse de que estava nua.

Elizabeth ficou ruborizada, o que confirmou a suposição de James de que, enquanto ainda se recuperava dos efeitos da paixão, ela havia esquecido seu estado de nudez.

– Por que não pode me contar hoje à noite? – perguntou.

Era uma boa pergunta. E por muito pouco James não contou logo sua verdadeira identidade e a pediu em casamento, mas algo o deteve. Só iria pedir alguém em casamento uma vez na vida, e queria que o momento fosse perfeito. Nunca sonhara em encontrar uma mulher que capturasse tão completamente a sua alma. Elizabeth merecia rosas e diamantes, e que ele estivesse de joelhos à sua frente.

James também achava que devia contar a Agatha que estava encerrando aquela farsa antes de fazê-lo.

– Amanhã – prometeu ele de novo. – Amanhã.

Isso pareceu satisfazer Elizabeth, porque ela suspirou e se sentou.

– Acho que precisamos voltar.

Ele deu de ombros e sorriu.

– Não tenho nenhum compromisso urgente.

Aquilo fez com ele recebesse um divertido olhar de repreensão.

– Sim, mas eu sou esperada. Lady Danbury passou a semana toda me perturbando para que eu comparecesse ao baile de máscaras. Se eu não aparecer, terei que escutá-la até o fim da vida. – Elizabeth deu uma olhada de lado para ele, com uma expressão irônica. – Ela está bem perto de me enlouquecer. Um sermão interminável sobre eu não comparecer ao baile provavelmente será o que falta para isso.

– Sim, ela sabe jogar com a culpa como ninguém – murmurou James.

– Por que não vem comigo?

Aquela era a pior das ideias. Muitas pessoas poderiam reconhecê-lo.

– Eu adoraria, mas não posso – mentiu James.

– Por quê?

– Hã, estou todo empoeirado da estrada, e...

– Podemos limpá-lo.

– Não tenho fantasia.

– Aff! Metade dos homens se recusa a usar fantasias. Estou certa de que conseguimos encontrar uma máscara para você.

Desesperado, ele soltou:

– Simplesmente não posso me misturar com as pessoas no meu estado atual.

Isso fez com que ela calasse qualquer comentário que pretendesse fazer. Depois de vários segundos de um silêncio constrangedor, Elizabeth finalmente perguntou:

– A que estado você se refere?

James resmungou. Ninguém explicara a ela como funcionavam as coisas entre homens e mulheres? Provavelmente não. A mãe dela morrera quando Elizabeth tinha apenas 18 anos, e ele achava difícil que a tia dele assumisse tarefa tão delicada. James encarou Elizabeth. Os olhos dela esperavam pela resposta.

– Acho que você não vai deixar que eu apenas lhe diga que gostaria de pular em um lago e não dar mais explicações – disse ele.

Ela fez que não com a cabeça, confirmando o que James pensara.

– Foi o que imaginei – murmurou James.

– Você não... hã...

Ele se agarrou às palavras dela.

– Exatamente! Eu não.

– O problema – explicou Elizabeth, sem encará-lo – é que não sei o que exatamente você não fez.

– Eu lhe mostrarei mais tarde – prometeu ele. – Que Deus me ajude! Se eu não lhe mostrar mais tarde, estarei morto antes do fim do mês.

– Vai demorar um mês inteiro?

Um mês? Ele estava louco? Teria que conseguir uma licença especial. Como lady Danbury poderia permitir?

– Uma semana. Definitivamente, uma semana.

– Entendi.

– Não, você não entendeu. Mas vai entender.

Elizabeth tossiu e ficou ruborizada.

– Seja o que for de que você está falando, tenho a sensação de que é bastante malicioso – balbuciou.

James levou a mão dela aos lábios.

– Você ainda é virgem, Elizabeth. E estou frustrado como o diabo.

– Ah! Eu... – Ela deu um sorriso envergonhado. – Obrigada.

– Eu lhe diria que não foi nada – falou James, pegando o braço dela –, mas seria uma mentira deslavada.

– E suponho – acrescentou Elizabeth, em tom travesso – que você também estaria mentindo se dissesse que o prazer foi seu.

– Isso seria uma enorme mentira. De proporções imensas.

Ela riu.

– Se você não começar a me tratar com o devido respeito, posso acabar jogando-a no lago junto comigo – resmungou James.

– Você com certeza é capaz de aguentar umas provocações.

– Acho que já suportei todas as provocações que meu corpo conseguiria aguentar esta noite.

Elizabeth deixou escapar mais risadas.

– Desculpe – pediu em um arquejo. – Não tenho a intenção de rir de você, mas...

– Sim, você tem.

Ele tentou ficar sério, mas não teve sucesso.

– Está certo, sim, eu tenho, mas só porque... – Ela parou de caminhar e levantou a mão para tocar o rosto amado dele. – Porque você me faz sentir muito feliz, muito livre. Não consigo me lembrar da última vez que fui capaz de simplesmente rir.

– E quando você está com a sua família? – perguntou ele. – Sei que você os adora.

– É verdade. Mas mesmo quando estamos rindo, brincando, vivendo bons momentos, sempre há uma nuvem pairando acima de mim, lembrando-me a cada instante de que podemos perder tudo aquilo. De que tudo aquilo estaria perdido no momento em que eu me descobrisse incapaz de sustentá-los.

– Você nunca mais terá que se preocupar com isso – disse James, a voz séria. – Nunca mais.

– Ah, James... – O tom de Elizabeth era melancólico. – Você é um amor por dizer isso, mas não vejo como pode...

– Terá que confiar em mim – interrompeu ele. – Tenho alguns truques na manga. Além do mais, acho que você disse que quando está comigo essa nuvem cinza desagradável desaparece.

– Quando estou com você, eu me esqueço das minhas preocupações, mas isso não significa que elas estejam resolvidas.

James deu um tapinha carinhoso na mão dela.

– Ainda posso surpreendê-la, Elizabeth Hotchkiss.

Eles caminharam em direção à casa em um silêncio cúmplice. Quando chegaram mais perto, os sons da festa ficaram mais altos, música misturada com vozes e risadas ocasionais.

– Parece que a festa está animada... – comentou Elizabeth.

– Lady Danbury não aceitaria menos do que isso – comentou James.

Ele olhou de relance para a majestosa mansão de pedra, que acabara de surgir à vista. Havia ainda mais convidados espalhados pelo gramado, e ele sabia que teria que desaparecer dali imediatamente.

– Elizabeth, agora preciso ir, mas eu a procurarei amanhã.

– Não, por favor, fique aqui. – Ela sorriu para ele, os olhos azul-escuros tão expressivos que eram de partir o coração. – Nós nunca dançamos.

– Eu lhe prometo que faremos isso.

James manteve os olhos fixos nas pessoas mais próximas. Não viu ninguém conhecido, mas não custava ser cuidadoso.

– Conseguirei uma máscara para você, se essa é a sua preocupação.

– Não, Elizabeth, simplesmente não posso. Você precisa aceitar isso.

Ela franziu o cenho.

– Não vejo por que você precisa...

– Apenas porque é assim que tem que ser. Eu... Ai!

Alguma coisa muito grande e acolchoada esbarrou nas costas de James. Claramente eles não estavam tão longe da aglomeração de convidados quanto ele imaginara. James se virou para censurar o convidado desastrado...

E se viu encarando os olhos azul-esverdeados de Caroline Ravenscroft.

 

Elizabeth observou a cena que se desenrolava à sua frente com ceticismo e horror crescentes.

– James? – chamou Caroline, arregalando os olhos de alegria. – Ah, James! Como é bom ver você!

Elizabeth olhou rapidamente de James para Caroline, enquanto tentava descobrir como aquelas duas pessoas se conheciam. Se Caroline o conhecia, então certamente ela saberia que ele era o administrador que mencionara mais cedo naquela noite.

– Caroline – respondeu James, a voz tensa de um modo irrefreável.

Caroline tentou passar os braços ao redor do pescoço dele, mas sua fantasia de abóbora dificultava abraços.

– Por onde você andou? – perguntou ela. – Blake e eu não ficamos nada satisfeitos. Ele vem tentando encontrá-lo... Elizabeth?

James ficou paralisado.

– Como você conhece Elizabeth? – ele quis saber, as palavras saindo em tom lento e cuidadoso.

– Nos conhecemos esta noite – explicou Caroline, acenando com a mão como se para afastar o assunto e se virando para a sua nova melhor amiga. – Elizabeth, eu vim procurando por você até agora. Onde estava? Você desapareceu! E como conhece James?

– Eu... eu...

Elizabeth não conseguiu encontrar as palavras, não conseguiria de forma alguma verbalizar o que estava se tornando cada vez mais óbvio.

– Quando conheceu Elizabeth? – Caroline se virou para James, a trança de cabelos castanhos batendo no ombro dele. – Comentei a seu respeito essa tarde mesmo e ela disse que não o conhecia.

– Você falou comigo sobre ele? – questionou Elizabeth em um sussurro. – Não, não falou. Você não o mencionou. A única pessoa de quem me falou foi de...

– James – interrompeu Caroline. – O marquês de Riverdale.

– Não – disse Elizabeth com a voz trêmula, a mente de repente se enchendo de imagens de um livrinho vermelho e de inúmeros decretos. Como se casar com um marquês. Não, não era possível. – Esse não é...

Caroline se virou para James.

– James? – Ela arregalou os olhos quando se deu conta de que, sem querer, revelara um segredo. – Ah, não. Desculpe. Nunca sonhei que você estivesse trabalhando disfarçado aqui na Casa Danbury. Você me disse que havia parado com tudo isso.

– Com tudo isso o quê? – perguntou Elizabeth, a voz ligeiramente aguda.

– Isso não ter a ver com o Departamento de Guerra – retrucou James secamente.

– E tem a ver com o quê, então? – insistiu Caroline.

– O marquês de Riverdale? – repetiu Elizabeth. – Você é um marquês?

– Elizabeth – disse James, ignorando completamente Caroline –, me dê um momento para explicar.

Um marquês. James era um marquês. E devia estar rindo dela havia semanas.

– Seu desgraçado – sibilou.

Então, aplicando cada uma das lições de pugilismo que ele lhe dera, somadas a um pouco de puro instinto, ela posicionou o braço direito para trás e atacou.

James cambaleou. Caroline deu um gritinho. Elizabeth foi embora pisando firme.

– Elizabeth! – berrou James, indo atrás dela a passos largos. – Volte aqui agora mesmo. Você vai me ouvir.

A mão dele se fechou ao redor do cotovelo dela.

– Solte-me! – vociferou ela.

– Não até que você me escute.

– Ah, como você deve ter se divertido comigo! – acusou ela com a voz engasgada. – Muito bom me ensinar como me casar com um marquês. Seu desgraçado. Desgraçado imundo.

James quase se encolheu com o rancor que ouviu na voz dela.

– Elizabeth, eu nunca...

– Você riu de mim com seus amigos? Riu da pobre dama de companhia que pensou ser capaz de se casar com um marquês?

– Elizabeth, tive minhas razões para manter minha identidade em segredo. Você está tirando conclusões precipitadas.

– Não seja condescendente comigo – bradou ela, tentando soltar o braço que ele segurava. – Nunca mais fale comigo novamente.

– Não vou deixar que você saia correndo sem antes me ouvir.

– E eu deixei você me tocar – sussurrou ela, o horror visível na expressão de seu rosto. – Deixei você me tocar e foi tudo uma mentira.

James segurou o outro braço dela e puxou-a contra o corpo até que os seios de Elizabeth ficassem esmagados contra o abdômen dele.

– Jamais chame o que aconteceu de mentira.

Agora era ele quem estava sibilando.

– Então o que foi aquilo? Você não me ama. Nem sequer me respeitou o bastante para me contar sua verdadeira identidade.

– Você sabe que isso não é verdade. – James se deu conta de que uma pequena aglomeração de pessoas começara a se formar perto de Caroline, que ainda estava parada, boquiaberta, a cerca de 9 metros de distância. – Venha comigo! – ordenou ele, puxando-a para que fossem em direção a um canto da Casa Danbury. – Vamos discutir isso em particular.

– Não vou a lugar algum com você. – Ela fincou os pés no chão, mas não era páreo para a força de James. – Eu vou para casa, e, se você algum dia tentar voltar a falar comigo, não responderei pelas consequências.

– Elizabeth, você está sendo irracional.

Aquilo foi o limite para ela. Fosse por causa da voz ou das palavras dele, foi o limite.

– Não me diga o que eu sou! – esbravejou ela, socando o peito dele. – Não me diga nada!

James ficou parado, deixando que ela batesse nele. Ficou tão imóvel que por fim os braços de Elizabeth, como não sentiram resistência, tiveram que parar.

Ela se afastou, o corpo movido por arquejos profundos e violentos, e passou a encará-lo.

– Odeio você – disse ela em voz baixa.

James ficou em silêncio.

– Você não tem ideia do que fez – sussurrou Elizabeth, balançando a cabeça sem acreditar. – Nem sequer acha que fez algo de errado.

– Elizabeth.

James nunca imaginara que pudesse ser necessário tanto esforço para pronunciar uma simples palavra.

Os olhos dela assumiram uma leve expressão de pena, como se Elizabeth tivesse percebido de repente que James estava abaixo dela, que nunca seria digno do amor e do respeito dela.

– Vou para casa. Pode informar a lady Danbury que pedi demissão.

– Você não pode pedir demissão.

– E por que não?

– Ela precisa de você. E você precisa...

– Do dinheiro? – cuspiu Elizabeth. – Era isso que você ia dizer?

James sentiu o rosto ficar quente e soube que ela havia sido capaz de ver a resposta nos olhos dele.

– Há algumas coisas que não faço por dinheiro, e se você acha que vou voltar aqui e trabalhar para a sua tia... Ah, meu Deus! – arquejou ela, como se houvesse acabado de se dar conta do que dissera. – Ela é sua tia. Devia estar sabendo de tudo. Como lady Danbury pôde fazer isso comigo?

– Agatha não tinha conhecimento do que estava acontecendo entre nós. Seja qual for a culpa que você resolva delegar, nenhuma pode recair sobre os ombros dela.

– Eu confiei nela – continuou Elizabeth. – Ela era como uma mãe para mim. Por que deixou que isso acontecesse?

– James? Elizabeth?

Os dois se viraram para ver uma abóbora muito hesitante enfiar a cabeça pelo canto da casa, seguida por um pirata de cabelos negros um tanto irritado, que acenava com os braços na direção oposta à da casa e gritava:

– Vão embora! Todos vocês! Não há nada para ver aqui.

– Esta não é uma boa hora, Caroline – disse James, o tom tenso.

– Na verdade acredito que é exatamente a hora certa – retrucou ela suavemente. – Não seria melhor entrar? Encontrar um lugar reservado?

Blake Ravenscroft, marido de Caroline e melhor amigo de James, se adiantou.

– Ela está certa, James. Já estão começando o falatório. Metade da festa estará se esgueirando até aqui em questão de minutos.

Caroline assentiu.

– Temo que haja um terrível escândalo.

– Estou certa de que o escândalo já se instaurou – retrucou Elizabeth. – Não que eu me importe. Tenho certeza de que nunca mais voltarei a ver essas pessoas.

James cravou as unhas nas palmas das mãos. Estava ficando cansado da teimosia de Elizabeth. Em nenhum momento ela lhe dera a oportunidade de se explicar. E aquela conversa sobre confiar nele? Se ela realmente confiasse, teria deixado que ele falasse.

– Você vai ver essas pessoas de novo – disse James em uma voz perigosa.

– Ah, é mesmo? E quando será isso? – ironizou Elizabeth. – Não sou do seu nível, como você tão eficientemente, mesmo que em segredo, deixou claro.

– Não – falou ele, baixinho –, você é melhor.

Isso a fez ficar em silêncio. A boca de Elizabeth tremeu e sua voz também saiu trêmula quando ela finalmente disse:

– Não, não faça isso. O que você fez é imperdoável e não pode usar palavras doces para tentar se redimir.

James cerrou os dentes e deu um passo na direção dela, sem se importar com o modo como Caroline e Blake o encaravam boquiabertos.

– Vou lhe dar um dia para se recuperar da raiva que está sentindo, Elizabeth. Você terá até essa mesma hora, amanhã.

– E então o que acontecerá?

Os olhos de James ardiam quando ele se inclinou para a frente, intimidando-a de propósito com seu tamanho.

– Então você vai se casar comigo.