Como se casar com um marquês

Julia Quinn · Capítulo 5 de 26

Páginas do PDF

Como se casar com um marquês

Capítulo 4

 

– Não está um lindo dia?

Elizabeth encarou o rosto animado da irmã, do outro lado da mesa de café. O sorriso de Susan só estava menos radiante do que o brilho do sol, já que tudo indicava que de novo o tempo ficaria bom naquele dia, o que de fato não era comum.

– Não está? – insistiu Susan.

Elizabeth simplesmente a ignorou e continuou atacando o bolinho à sua frente com uma faca.

– Se não vai comer esse bolinho, posso ficar com ele? – perguntou Lucas.

Elizabeth começou a empurrar o prato pela mesa.

– Espere! Eu também queria mais um pouco – atalhou Jane.

Elizabeth puxou o prato de volta, dividiu ao meio os restos do bolinho trucidado e empurrou o prato novamente adiante.

– Você está muito emburrada esta manhã – comentou Jane, enquanto pegava sua parte do bolinho.

– Sim, estou.

Como se tivesse sido coreografado, todos os três Hotchkisses mais jovens recuaram e trocaram olhares. Era raro ver Elizabeth de mau humor, mas quando isso acontecia...

– Acho melhor ir brincar lá fora – disse Lucas.

E levantou-se tão rápido que derrubou a cadeira.

– E acho melhor que eu me junte a você – falou Jane enfiando o resto do bolinho na boca.

As duas crianças saíram em disparada pela porta da cozinha. Elizabeth dirigiu um olhar insolente na direção de Susan.

– Eu não vou a lugar nenhum – avisou Susan. – Temos muito que conversar.

– Talvez você tenha percebido que não estou com humor para conversa.

Elizabeth deu um gole no chá. Estava morno. Ela voltou a pousar a xícara e se levantou para colocar mais água para ferver.

O dia anterior havia sido um fiasco absoluto. Um completo desastre. O que ela pensara? Deveria ter aproveitado para praticar suas habilidades sociais, mas acabara tagarelando sobre nabos.

Nabos!

Odiava nabos.

Elizabeth tentou convencer a si mesma de que não tivera escolha. O Sr. Siddons não era a pessoa que parecia numa primeira impressão, e ele claramente ficou fazendo algum joguinho com ela. Mas nabos? Por que ela escolhera nabos? E por que dissera que os malditos nabos tinham algo a ver com perseverança? Santo Deus, como conseguiria explicar uma coisa dessas?

O Sr. Siddons provavelmente contara a todos na Casa Danbury sobre a bizarra fascinação dela por tubérculos. Quando Elizabeth chegasse para o trabalho naquela manhã, a história talvez já tivesse circulado dos estábulos para a cozinha e de volta. Todos estariam rindo dela. E, por mais que não se importasse muito com a perda do Sr. Siddons como um “pseudomarquês”, teria que trabalhar com o homem por meses – quem sabe até por anos! E ele possivelmente estava achando que ela era louca.

Elizabeth deu um passo na direção das escadas.

– Vou passar mal.

– Ah, não, não vai, não! – exclamou Susan, dando a volta na mesa e segurando o braço de Elizabeth. – Você vai para a Casa Danbury mesmo que isso acabe com você.

– Está acabando comigo. Pode apostar.

Susan apoiou a mão livre no quadril.

– Nunca a vi como uma covarde, Elizabeth Hotchkiss.

Elizabeth puxou o braço para se libertar e encarou a irmã com fúria.

– Não sou covarde. Só sei quando não dá para vencer uma batalha. E, acredite, essa tem Waterloo escrita nela em letras garrafais.

– Nós vencemos a batalha de Waterloo – lembrou Susan com um sorrisinho pretensioso.

– Finja que somos franceses – retrucou Elizabeth. – Estou lhe dizendo, o Sr. Siddons não é uma boa escolha.

– O que há de errado com ele?

– O que há de errado com ele? O que há de errado com ele? – A indignação fez Elizabeth alterar o tom de voz. – Não há nada errado com ele. Tudo está errado com ele.

Susan coçou a cabeça.

– Talvez seja por causa da minha pouca idade ou porque meu cérebro não está tão plenamente desenvolvido como o seu...

– Ah, por favor, Susan.

– ... mas não estou entendendo absolutamente nada do que você está falando. Se não há nada errado com o homem...

– Ele é perigoso. E está fazendo joguinhos comigo.

– Tem certeza?

– Ele já seduziu centenas de mulheres. Estou certa disso.

– Um administrador? – perguntou Susan, meio cética. – Eles não costumam ser baixos e gordos?

– Esse é belo como o pecado. Ele...

– Belo como o pecado? Sério? – Susan arregalou os olhos. – Como ele é?

Elizabeth ficou em silêncio por algum tempo, tentando não ruborizar enquanto o rosto do Sr. Siddons pairava em sua mente. O que havia de tão atraente naquele homem? Algo na boca, talvez. Os lábios de um fino contorno tinham a tendência a se curvar levemente para cima, como se guardassem a chave para uma piada secreta. Mas... podiam ser os olhos dele. Tinham um tom comum de castanho, da mesma cor dos cabelos, na verdade, e deveriam parecer banais, mas eram muito profundos, e quando ele olhava para ela, Elizabeth se sentia...

– Elizabeth?

Quente. Ela se sentia quente.

– Elizabeth?

– O que foi? – perguntou ela, distraída.

– Como ele é?

– Ah. Ele... ah, Deus, como posso descrevê-lo? Ele parece um homem.

– Que detalhado – comentou Susan em tom de deboche. – Lembre-me de nunca aconselhá-la a procurar trabalho como romancista.

– Eu jamais conseguiria inventar uma história mais ridícula do que a que estou vivendo agora.

Susan ficou séria.

– Está tão ruim assim?

– Sim – respondeu Elizabeth com um suspiro que foi dois terços de frustração e um terço de irritação. – O dinheiro que papai nos deixou está quase acabando, e o salário que recebo de lady Danbury não é nem de longe o bastante para nos sustentar... principalmente depois que o aluguel do chalé vencer. Tenho que me casar, mas o único homem disponível no distrito além de Squire Nevins é o novo administrador de lady D., e ele, além de ser muito bonito e perigoso e de achar que sou completamente louca, não deve ganhar o bastante para se qualificar como um candidato adequado. Assim, eu lhe pergunto – acrescentou ela, a voz aumentando em irritação e volume –: como você já declarou que não vou fazer fortuna publicando meus escritos, o que propõe que eu faça?

Elizabeth cruzou os braços, satisfeita com o discurso.

Susan apenas piscou e perguntou:

– Por que ele acha que você é louca?

– Isso não importa – declarou Elizabeth. – O que importa é que estou de mãos atadas.

– Por acaso, tenho a resposta – disse Susan com um sorriso lento e intenso.

Elizabeth viu a irmã levar o braço às costas para pegar algo e sentiu a raiva explodir em seu peito.

– Ah, não, não ouse pegar esse livro de novo.

Mas Susan já estava com o livrinho vermelho aberto.

– Escute só – pediu ela, animada. – Decreto no 17...

– Já estamos no dezessete?

– Fique quieta. “Decreto no 17: A vida é um ensaio até que você encontre o homem com quem irá se casar.” – Susan assentiu com entusiasmo. – Viu?

Silêncio.

– Elizabeth?

– Você está brincando, não está?

Susan olhou para o livro e voltou a fitar a irmã.

– Nãããão – disse lentamente. – Eu...

– Dê esse livro aqui!

Elizabeth arrancou o livro das mãos da irmã e leu:

a vida é um mero ensaio até que você encontre o homem com quem irá se casar. assim, você deve

praticar esses decretos o tempo todo, com todos os homens que encontrar. não importa se não tem

intenção de se casar com determinado homem. você deve lidar com ele como lidaria com um

marquês. porque, caso se desabitue a seguir meus decretos, acabará se esquecendo do que deve

fazer quando realmente deparar com uma perspectiva de casamento. aperfeiçoe suas habilidades.

esteja pronta. seu marquês pode estar na próxima esquina.

– Ela enlouqueceu de vez? – perguntou Elizabeth. – Isso não é um conto de fadas. Não há marqueses na próxima esquina. E, francamente, achei tudo isso bastante ofensivo.

– Que parte?

– Tudo isso. Se levarmos em conta o que essa mulher diz, eu nem sequer existo até que encontre um marido. Isso é um disparate. Se sou tão sem importância, então o que venho fazendo nesses últimos cinco anos? Como consegui manter esta família unida? Não foi girando os polegares e esperando que algum cavalheiro bondoso se dignasse a casar comigo!

Susan abriu a boca em uma exclamação silenciosa. Depois de algum tempo, disse:

– Acho que ela não quis dizer...

– Sei que não quis... – interrompeu-a Elizabeth, um pouco constrangida com o seu desabafo explosivo. – Desculpe. Não tive a intenção... Por favor, esqueça que eu disse qualquer coisa.

– Tem certeza? – perguntou Susan, a voz baixa.

– Sim, está tudo bem – retrucou Elizabeth rapidamente.

Então se virou e olhou pela janela. Lucas e Jane estavam brincando no jardim. Eles haviam começado um jogo que envolvia um pedaço de tecido azul amarrado a um pau e davam gritinhos de alegria.

Elizabeth engoliu em seco, sentindo o amor e o orgulho transbordando dentro de si. Passou a mão pelos cabelos, deixando os dedos pararem no início da trança.

– Desculpe – disse para Susan. – Eu não deveria ter descontado em você desse jeito.

– Não me importo – retrucou Susan em tom solidário. – Você tem vivido sob grande tensão. Sei disso.

– É só que... estou muito preocupada. – Agora Elizabeth levou a mão à testa e a esfregou. De repente, se sentiu muito cansada e muito velha. – De que adianta praticar meus truques de sedução no Sr. Siddons se na verdade não há qualquer perspectiva real de casamento em vista?

– Lady Danbury recebe visitas o tempo todo – falou Susan em uma voz encorajadora. – Não é verdade? E você me disse que todos os amigos dela são ricos e ostentam títulos de nobreza.

– Sim, mas ela me dá folga quando recebe convidados. Diz que não precisa da minha companhia quando há hóspedes na residência.

– Você terá que achar um modo de burlar isso. Invente algum motivo para ir até a Casa Danbury. E essa festa no fim do mês? Você não disse que ela sempre a convida para eventos assim?

– Será um baile de máscaras, na verdade. Ela me informou ontem.

– Melhor ainda! Podemos não ser boas o bastante com agulhas para lhe costurar um vestido de baile, mas com certeza conseguimos improvisar uma fantasia. Você não precisa usar nada sofisticado.

Susan agitava as mãos com animação enquanto falava e, por um estranho momento, Elizabeth teve a impressão de estar vendo a si mesma aos 14 anos – numa época em que achava que tudo era possível. Antes que o pai morresse e a deixasse com um monte de responsabilidades. Antes que ele se fosse e levasse consigo a inocência da infância dela.

– Nós somos tão parecidas, você e eu... – sussurou Elizabeth.

Susan pareceu confusa.

– Como assim?

– Não, é que... – Elizabeth parou e deu um sorriso melancólico para a irmã. – É que às vezes o fato de sermos tão parecidas fisicamente me faz lembrar de como eu já fui como você.

– E não é mais?

– Não, definitivamente não. Às vezes sim, mas só por pouco tempo. – Ela se inclinou para a frente em um impulso e deu um beijo no rosto da irmã. – Esses são meus momentos favoritos.

Susan piscou com força e parecia que estava tentando conter as lágrimas, antes de assumir novamente sua personalidade profissional.

– Precisamos voltar ao assunto em questão.

Elizabeth sorriu.

– Esqueci completamente qual era.

– Quando lady Danbury vai receber visitas? – perguntou Susan com impaciência. – Não estou falando do baile de máscaras. Apenas de visitas.

– Ah, sim – retrucou Elizabeth, com amargura. – Ela vai receber algumas pessoas no próximo fim de semana. Acredito que fará uma pequena recepção ao ar livre. Na verdade, será mais uma reunião do que uma festa formal. Eu enderecei os convites.

– Para quantos convidados?

– Não mais do que dez ou doze, acho. Será à tarde. Afinal, estamos bem perto de Londres, e as pessoas podem vir e voltar para lá no mesmo dia.

– Você precisa estar lá.

– Susan, não fui convidada!

– Com certeza só não foi porque lady D. acha que você não aceitaria o convite. Se disser a ela...

– Não vou forçar um convite – declarou Elizabeth com determinação. – Até eu tenho mais orgulho do que isso.

– Você não pode pelo menos esquecer alguma coisa sua lá na sexta-feira? Então, teria que retornar no sábado para pegá-la. – Susan fez uma careta que era mais esperançosa do que persuasiva. – Talvez você seja convidada a se juntar às festividades.

– E você não imagina que lady Danbury vai achar essa coincidência meio esquisita? – zombou Elizabeth. – Já trabalho como sua dama de companhia há cinco anos e nunca esqueci nada lá antes.

– Talvez ela ache. Talvez não. – Susan deu de ombros. – Mas você não vai saber até tentar. E com certeza não vai encontrar um marido se ficar se escondendo aqui o dia todo.

– Ah, tudo bem – concordou Elizabeth com grande relutância. – Vou fazer isso. Mas só depois de checar a lista de convidados e se eu me certificar de que haverá algum homem solteiro entre eles. Não vou passar vergonha diante de lady Danbury só para depois descobrir que todos os convidados são casados.

Susan bateu palmas.

– Excelente! E, nesse meio-tempo, você vai praticar com esse Sr...

– Não! – retrucou Elizabeth em voz alta. – Não vou.

– Mas...

– Eu disse não. Não vou correr atrás desse homem.

Susan ergueu as sobrancelhas com uma expressão inocente.

– Ok, não há necessidade de correr atrás dele. De qualquer modo, a Sra. Seeton diz que não se deve fazer esse tipo de coisa. Mas se por acaso você esbarrar com ele...

– Isso será bem improvável, já que planejo evitá-lo como a uma praga.

– Mesmo assim...

– Susan!

Elizabeth dirigiu seu olhar mais severo à irmã.

– Tudo bem, mas se você...

Elizabeth ergueu a mão.

– Nem mais uma palavra, Susan. Vou agora mesmo para a Casa Danbury e cuidarei de lady Danbury, e apenas dela. Fui clara?

Susan assentiu, mas claramente não estava sendo sincera.

– Tenha um bom dia, então. Estou certa de que não terei nada a contar quando voltar para casa. – Elizabeth caminhou em direção à porta e abriu-a. – O dia hoje deve ser bastante tedioso. Absoluta e abençoadamente tedioso. Estou certa disso. Na verdade, estou convencida de que não verei o Sr. Siddons nem de longe.

 

Ela estava errada. Muito, muito errada. Ele esperava por ela na porta da frente.

– Srta. Hotchkiss, é um prazer vê-la de novo – disse ele, a voz tão agradável que Elizabeth não conseguiu confiar inteiramente em sua sinceridade.

Elizabeth se pegou dividida entre o desejo de disparar para dentro de casa e a vontade de arrancar aquele sorrisinho confiante do rosto dele. O orgulho venceu. Ela ergueu uma das sobrancelhas louras em uma expressão arrogante que aprendera com lady Danbury e comentou em tom ácido:

– É mesmo?

Um dos cantos da boca dele se ergueu, mas não se poderia chamar aquilo exatamente de um sorriso.

– Você não parece acreditar em mim.

Elizabeth deixou escapar o ar longamente por entre os lábios cerrados. Que diabo ela deveria fazer agora? Havia jurado para si mesma que não treinaria mais os decretos de Como se casar com um marquês com aquele homem. Ele sem dúvida era muito bem versado nas artes do flerte para ser afetado por qualquer uma das tentativas patéticas dela.

E depois da conversa da véspera sobre nabos, o Sr. Siddons provavelmente a estava considerando uma completa tola. O que levantava a pergunta: que diabo ele queria com ela naquele momento?

– Srta. Hotchkiss – começou a falar o Sr. Siddons, depois de esperar em vão que ela se pronunciasse –, eu esperava apenas que pudéssemos desenvolver um tipo de amizade. Afinal, vamos trabalhar juntos aqui na Casa Danbury por algum tempo. E ambos ocupamos esses cargos intermediários, como os de governanta e mordomo... um pouco bem-educados demais para nos misturarmos aos criados, ainda que não sejamos parte da família.

Elizabeth considerou as palavras dele – ou, para ser mais precisa, o tom estranhamente amigável dele. Então o encarou, e a expressão do homem também parecia gentil e simpática.

A não ser pelos olhos. Havia algo espreitando naquelas profundezas cor de chocolate. Algo... perspicaz.

– Por que está sendo tão legal comigo? – perguntou Elizabeth em um rompante.

Ele pareceu surpreso e deixou escapar um breve pigarro.

– Sinceramente, não sei o que quer dizer com isso.

Ela apontou o dedo para ele e balançou-o de modo avaliador.

– Sei o que o senhor está planejando, portanto não tente me fazer de tola.

Isso fez com que ele erguesse a sobrancelha, o que aborreceu Elizabeth, porque o homem obviamente fazia aquilo muito melhor do que ela.

– Como? – perguntou o Sr. Siddons.

– O senhor é muito sedutor e sabe disso.

Ele entreabriu os lábios e então, depois de um breve momento de silêncio, disse:

– Não me resta nada a dizer além de “obrigado”.

– Isso não foi propriamente um elogio.

– Mas poderia ter sido? – perguntou ele em tom provocador.

Elizabeth balançou a cabeça.

– O senhor quer algo de mim.

– Apenas sua amizade.

– Não, o senhor quer algo e está tentando conseguir isso jogando seu encanto para cima de mim.

– E está funcionando?

– Não!

Ele suspirou.

– É uma pena. Normalmente funciona.

– O senhor admite, então?

– Acredito que deva admitir. – Ele ergueu as mãos, rendendo-se. – Mas se quer que eu responda às suas perguntas, peço que me faça a gentileza de caminhar comigo aqui fora por alguns minutos.

Elizabeth titubeou. Ir a qualquer lugar sozinha com aquele homem seria um erro imenso.

– Não posso. Lady Danbury está esperando por mim.

O Sr. Siddons abriu o relógio de bolso.

– Não pelos próximos quinze minutos.

– E como o senhor sabe disso? – perguntou ela.

– Talvez a senhorita se lembre de que fui contratado para cuidar dos interesses de lady Danbury.

– Mas o senhor não é secretário dela. – Elizabeth cruzou os braços. – Administradores não são responsáveis pela agenda de seus patrões.

Talvez tenha sido imaginação dela, mas a expressão nos olhos dele pareceu ficar mais ardente e intensa.

– Sempre achei que não há nada mais poderoso do que ser bem informado – retrucou ele. – Lady Danbury é uma mulher pontual. Me pareceu prudente ficar a par da agenda dela para que essa pontualidade não seja afetada.

Elizabeth torceu os lábios. Ele estava certo, que maldito! A primeira coisa que ela mesma fizera quando começara a trabalhar para lady D. fora memorizar a agenda da velha dama.

– Posso ver que concorda comigo, por mais relutante que se sinta em me lisonjear admitindo isso.

Ela o encarou com irritação. Realmente aquele homem passava dos limites da arrogância.

– Vamos – disse ele, em tom sedutor. – Com certeza a senhorita pode dedicar alguns momentos para ajudar um recém-chegado na região.

– Tudo bem – concordou Elizabeth, incapaz de dizer não depois que ele apresentou o convite como um pedido de ajuda. Ela nunca fora capaz de virar as costas a alguém que precisasse de auxílio. – Vou caminhar com o senhor, mas agora só tenho dez minutos.

– Que dama generosa – murmurou ele, e deu o braço a ela.

Elizabeth engoliu em seco quando sentiu a mão dele envolver a curva do seu braço. E voltou a experimentar a mesma sensação de antes – aquela estranha e ofegante consciência de si mesma que a envolvia sempre que ele estava perto. E a pior parte era que o homem parecia frio e tranquilo como sempre.

– O que acha de pegarmos um atalho pelo roseiral? – sugeriu ele.

Ela assentiu, incapaz de dizer mais alguma coisa. O calor da mão dele havia subido pelo braço de Elizabeth, e ela parecia ter esquecido como respirar.

– Srta. Hotchkiss?

Elizabeth voltou a engolir em seco e finalmente encontrou a própria voz.

– Sim?

– Espero que não se sinta desconfortável pelo fato de eu querer sua companhia.

– De forma alguma – retrucou ela, com a voz aguda.

– Ótimo – disse James com um sorriso. – É que não sei a quem mais recorrer.

Ele relanceou o olhar para ela e percebeu que o rosto da jovem tinha um adorável tom rosado.

Eles não disseram nada enquanto seguiam através do arco de pedra que levava ao roseiral. James a guiou para a direita, passando pelas famosas rosas Scarlet Scotch da Casa Danbury, que desabrochavam em uma linda exibição de cor-de-rosa e amarelo. Ele se inclinou para sentir o perfume de uma das flores, ganhando tempo enquanto tentava decidir a melhor maneira de proceder a partir dali.

James havia pensado na Srta. Hotchkiss a noite toda e uma boa parte da manhã. Era uma moça inteligente e sem dúvida estava com algum plano em andamento. Ele já passara tempo o bastante desvendando tramas secretas para saber quando uma pessoa estava agindo de modo suspeito. E todos os seus instintos lhe diziam que no dia anterior a Srta. Hotchkiss havia se comportado de forma fora do comum.

A princípio, parecera estranho que ela fosse a chantagista. Afinal, a jovem não devia ter muito mais de 20 anos. Com certeza não era mais velha do que Melissa, que tinha 32. Portanto, não poderia ter conhecimento em primeira mão do caso extraconjugal de lady Danbury.

Mas a própria Srta. Hotchkiss dissera que vivera a vida toda naquela região. Talvez os pais dela houvessem lhe confidenciado o acontecido. Segredos tinham um modo todo especial de perdurar por anos em cidades pequenas.

Isso sem mencionar que a Srta. Hotchkiss tinha livre acesso à Casa Danbury. Portanto, se a tia dele houvesse deixado alguma evidência incriminadora, a pessoa mais provável a descobri-la seria sua dama de companhia.

Não importava para onde ele se virasse, era sempre levado de volta à Srta. Elizabeth Hotchkiss.

Mas, se queria descobrir os segredos dela, tinha que fazê-la confiar nele. Ou, ao menos, precisava baixar a guarda dela o suficiente para que a moça deixasse escapar uma confidência ocasional daqueles deliciosos lábios rosados. James tinha a sensação de que a melhor maneira de fazer isso era pedindo a ajuda dela. A Srta. Hotchkiss era o tipo de mulher que levava a educação até as últimas consequências. Não havia como ela se negar caso ele pedisse ajuda para se familiarizar com a vizinhança. Mesmo se fosse a chantagista – e, portanto, egoísta até a alma –, ela precisava manter as aparências. A Srta. Elizabeth Hotchkiss, dama de companhia da condessa de Danbury, não poderia se permitir ser vista como nada menos do que uma pessoa encantadora e gentil.

– Talvez a senhorita já tenha percebido que sou novo na região – começou ele.

Ela assentiu lentamente, os olhos cautelosos.

– E, ontem, a senhorita me disse que morou a vida toda neste distrito.

– Sim...

James sorriu calorosamente.

– Estou precisando de alguma orientação. De alguém para me mostrar as principais atrações daqui. Ou, no mínimo, para me falar a respeito deste lugar.

Ela pareceu confusa.

– Quer ver as principais atrações? Como assim?

Maldição. Ela o pegara. Não se podia dizer que a cidadezinha transbordava cultura e história.

– Talvez “principais atrações” não seja a melhor escolha de palavras – improvisou James. – Mas cada lugar tem os próprios costumes, e se quero ser eficiente em meu trabalho como administrador da maior propriedade do distrito, preciso conhecê-los.

– Isso é verdade – disse ela, assentindo com uma expressão pensativa. – É claro que não sei exatamente o que o senhor precisaria conhecer, já que nunca administrei uma propriedade. E é de imaginar que o senhor esteja se sentindo perdido, já que também nunca administrou uma propriedade antes.

Ele a encarou muito sério.

– Eu nunca disse isso.

Ela parou de caminhar.

– Não? Ontem, quando mencionou que era de Londres.

– Eu falei que não havia propriedades a serem administradas em Londres, não que não havia feito esse trabalho antes de morar lá.

– Entendi. – A Srta. Hotchkiss inclinou a cabeça para o lado e o encarou com uma expressão avaliativa. – E onde administrou propriedades, se não em Londres?

Ela o estava testando, a maldita moça. Ele não sabia o motivo ao certo, mas ela com certeza o estava testando. Só que ele não a deixaria vencer. James Sidwell havia se disfarçado mais vezes do que podia contar e nunca se descuidara.

– Em Buckinghamshire – respondeu. – Cresci lá.

– Ouvi dizer que é um lindo lugar – comentou ela de forma educada. – Por que saiu de lá?

– Pelos motivos de sempre.

– Que são?

– Por que está tão curiosa?

A jovem deu de ombros.

– Sou sempre curiosa. Pode perguntar a quem quiser.

Ele parou e colheu uma rosa.

– São lindas, não são?

– Sr. Siddons – disse a Srta. Hotchkiss com um suspiro exagerado –, temo que não saiba de uma coisa a meu respeito.

James sentiu o corpo ficar tenso enquanto esperava por qualquer que fosse a confissão que ela estava prestes a fazer.

– Tenho três irmãos mais jovens.

Ele a encarou, confuso. Que diabo aquilo tinha a ver com o assunto?

– Por consequência – continuou ela, sorrindo para ele de um modo que o fez não ter mais tanta certeza se a moça estava realmente planejando algo além de ter uma conversa agradável –, sou muito boa em reconhecer quando uma pessoa está fugindo de uma pergunta. Na verdade, meus irmãos mais novos diriam que sou boa nisso de um jeito assustador.

– Estou certo que sim – murmurou ele.

– No entanto – prosseguiu a Srta. Hotchkiss, em tom amigável –, o senhor não é um dos meus irmãos e com certeza não tem obrigação de compartilhar seu passado comigo. Todos nós temos direito de preservar nossa privacidade.

– Hã, sim – concordou James, se perguntando se a jovem não era só o que parecia: uma bem-educada senhorita do campo.

A Srta. Hotchkiss voltou a sorrir para ele.

– Tem irmãos, Sr. Siddons?

– Eu? Não. Nenhum. Por quê?

– Como eu disse, sou infinitamente curiosa. A família pode revelar muito sobre o caráter de uma pessoa.

– E o que a sua família revela sobre o seu caráter, Srta. Hotchkiss?

– Que sou leal, imagino. E que faria qualquer coisa por meu irmão e minhas irmãs.

Inclusive chantagem? James se inclinou na direção dela, alguns poucos centímetros, mas ainda assim o bastante para fazer o lábio inferior dela tremer. Ele sentiu uma satisfação primitiva com isso.

A jovem apenas o encarou, com certeza inexperiente demais para saber lidar com um homem de atitude tão predatória. Os olhos dela eram enormes e do azul mais escuro e mais límpido que James já vira.

O coração dele começou a bater mais rápido.

– Sr. Siddons?

James sentiu a pele quente.

– Sr. Siddons?

Ele precisava beijá-la. Não tinha como evitar. Era a ideia mais idiota e menos recomendável que tivera em anos, mas parecia não haver nada que pudesse contê-lo. James se adiantou, diminuindo a distância entre os dois, saboreando com antecedência o momento em que os lábios dele pousariam sobre os dela, e...

– Ui!

Que diabo?

Ela deixou escapar um gritinho nervoso e logo se afastou, agitando os braços.

Então a Srta. Hotchkiss escorregou – no que, James não sabia, já que o solo estava seco. Mas ela continuou a agitar desesperadamente os braços para evitar cair e, no processo, acertou-o sob o queixo. Com força.

– Au! – uivou ele.

– Ai, perdão! – apressou-se em dizer a jovem. – Venha cá, deixe-me ver.

Ela pisou no pé dele.

– Ai!

– Desculpe, desculpe, desculpe.

A Srta. Hotchkiss parecia bastante preocupada, e normalmente ele teria deixado para lá, mas... maldição, o pé dele estava doendo muito.

– Vou ficar bem, Srta. Hotchkiss – disse ele. – Só preciso que saia de cima do meu dedo, e....

– Ah, desculpe! – repetiu ela, pelo que pareceu ser a centésima vez. E recuou um passo.

James aproveitou para flexionar os dedos dos pés.

– Desculpe – falou ela, novamente.

Ele estremeceu.

– Não repita isso.

– Mas...

– Eu insisto.

– Ao menos me deixe examinar seu pé.

Ela se abaixou.

– Por favor, não.

Havia poucas situações em que James considerava adequado implorar, mas aquela era uma delas.

– Está certo – disse a jovem, endireitando o corpo. – Mas eu tinha que...

Plec!

– Ai, minha cabeça! – gritou ela, esfregando o topo da cabeça.

– Meu queixo... – mal conseguiu dizer James.

Os olhos azuis dela se encheram de preocupação e embaraço.

– Desculpe.

– Bela mira, Srta. Hotchkiss – comentou ele, fechando os olhos em agonia. – Acertou no mesmo lugar em que havia me atingido com a mão.

Ele a ouviu engolir em seco.

– Desculpe.

E foi nesse momento que James cometeu seu erro fatal. Nunca mais ele manteria os olhos fechados quando estivesse perto de uma mulher tão desajeitada como essa, não importava quanto ela fosse atraente. Ele não sabia como ela conseguira, mas ouviu um novo gritinho, agora de surpresa, e então, de algum modo, todo o corpo da jovem colidiu com o dele, que cambaleou em direção ao chão.

Bem, ele achava que era em direção ao chão.

Se tivesse lhe ocorrido, James teria torcido para ter caído no chão.

Aliás, acabou percebendo que deveria ter rezado para ter caído no chão. Teria sido muito mais agradável do que cair sobre o roseiral.