Como se casar com um marquês
Capítulo 1
Surrey, Inglaterra
Agosto de 1815
Quatro mais seis mais oito mais sete mais um mais um mais um, menos oito, vão dois...
Elizabeth Hotchkiss somou os números pela quarta vez, chegou ao mesmo resultado das últimas três vezes que fizera a conta e resmungou.
Quando levantou os olhos, três rostos tristes a encaravam – eram seus três irmãos mais novos.
– O que houve, Lizzie? – perguntou Jane, de 9 anos.
Elizabeth deu um sorrisinho desanimado, enquanto tentava imaginar como conseguiria dinheiro para comprar lenha. Era inverno, e seria necessário aquecer o pequeno chalé em que moravam.
– Nós, hã... estamos com poucos recursos, lamento dizer.
Susan, que aos 14 anos tinha a idade mais próxima à de Elizabeth, franziu o cenho.
– Tem certeza? Devemos ter alguma coisa. Quando papai estava vivo, nós sempre...
Elizabeth encarou a irmã com ar de urgência e a fez silenciar. A família tinha muitas coisas quando o pai estava vivo, mas ele não lhes deixara nada além de uma pequena quantia no banco. Nenhuma renda, nenhuma propriedade. Nada além de lembranças. E essas – ao menos as que Elizabeth guardava consigo – não eram do tipo que aquecia o coração.
– As coisas são diferentes agora – disse ela com firmeza, esperando pôr fim ao assunto. – Não dá para comparar os dois momentos.
Jane sorriu com ironia.
– Podemos usar o dinheiro que Lucas vem enfiando na caixa em que guarda seus soldados de brinquedo.
Lucas, o único menino do clã Hotchkiss, gritou:
– Por que andou mexendo nas minhas coisas?! – Ele se virou para Elizabeth com uma expressão que poderia ter sido descrita como “severa” se não estivesse tornando ainda mais bonitinho o rosto de um menino de 8 anos. – Não se tem privacidade nesta casa?
– Ao que parece, não – respondeu Elizabeth, distraída, encarando os números à sua frente.
Ela fez algumas anotações com o lápis, enquanto tentava pensar em novos meios de economizar.
– Irmãs são uma praga na minha vida – resmungou Lucas, parecendo exageradamente aborrecido.
Susan deu uma olhada nas contas de Elizabeth.
– Não podemos cortar algum custo? Fazer o dinheiro render um pouco mais?
– Não há nada para cortar. Graças a Deus o aluguel do chalé está pago, ou seríamos despejados.
– A situação está mesmo tão ruim assim? – sussurrou Susan.
Elizabeth assentiu.
– Temos o bastante para chegar ao fim do mês, e teremos um pouco mais quando eu receber meu pagamento de lady Danbury, mas depois...
Ela deixou as palavras se perderem e desviou o olhar, pois não queria que Jane e Lucas vissem seus olhos marejados. Elizabeth vinha cuidando daqueles três havia cinco anos, desde seus 18 anos. Os irmãos dependiam dela para ter comida, teto e, o mais importante, estabilidade.
Jane cutucou Lucas e, como ele não teve qualquer reação, acertou-o no ponto delicado entre o ombro e a clavícula.
– O que foi? – perguntou ele, irritado. – Isso dói.
– Não é educado falar assim – advertiu Elizabeth, de imediato. – É preferível perguntar “Pois não?”.
Lucas ficou boquiaberto, ultrajado.
– Não foi educado da parte dela me cutucar daquele jeito. E com certeza não sou eu que vou dizer “Pois não?” a ela.
Jane revirou os olhos e suspirou.
– Você precisa lembrar que ele só tem 8 anos.
Lucas deu um sorrisinho afetado.
– E você só tem 9.
– Sempre serei mais velha do que você.
– Sim, mas eu logo ficarei mais alto e então você vai se arrepender.
Os lábios de Elizabeth se curvaram em um sorriso melancólico enquanto ela observava a implicância entre os irmãos. Já ouvira a mesma discussão milhões de vezes, mas também já surpreendera Jane entrando na ponta dos pés no quarto de Lucas, depois de escurecer, para dar um beijo de boa-noite na testa do irmão.
Eles podiam não ser uma família típica – afinal, eram apenas os quatro, órfãos havia anos –, mas o clã dos Hotchkisses era especial. Elizabeth se comprometera a manter a família unida cinco anos antes e jurava que não seria um problema financeiro que os afastaria agora.
Jane cruzou os braços.
– Você deve dar seu dinheiro a Lizzie, Lucas. Não é certo guardá-lo.
O menino assentiu com uma expressão solene e deixou o quarto, a cabeça loura baixa. Elizabeth olhou de volta para Susan e Jane. As duas também eram louras, com os olhos azuis cintilantes da mãe deles. E Elizabeth se parecia com os irmãos – formavam um pequeno exército dourado, sem dinheiro para comida.
Ela suspirou e encarou as irmãs com uma expressão séria.
– Vou ter que me casar. Não há mais o que fazer.
– Ah, não, Lizzie! – protestou Jane com um gritinho. A menina pulou da cadeira e praticamente escalou a mesa até chegar ao colo da irmã. – Isso não! Qualquer coisa menos isso!
Elizabeth virou para Susan com uma expressão confusa, perguntando silenciosamente se ela sabia por que Jane ficara tão aborrecida com a ideia. Susan apenas balançou a cabeça e deu de ombros.
– Essa sugestão não é tão ruim – disse Elizabeth, acariciando os cabelos de Jane. – Se eu me casar, provavelmente terei um filho, e você será tia. Não seria bom?
– Mas a única pessoa que a pediu em casamento foi Squire Nevins, e ele é horrível! Simplesmente horrível.
Elizabeth deu um sorriso nada convincente.
– Estou certa de que podemos encontrar alguém que não seja Squire Nevins. Alguém menos... hã... horrível.
– Não vou morar com ele – declarou Jane cruzando os braços em um gesto de rebeldia. – Não vou. Prefiro ir para um orfanato. Ou para um desses reformatórios horrorosos.
Elizabeth não a culpava. Squire Nevins era velho, gordo e cruel. E sempre a encarava de um jeito que a fazia suar frio. Para dizer a verdade, ela também não gostava muito do modo como ele olhava para Susan. E para Jane, por sinal.
Não, ela não poderia se casar com Squire Nevins.
Lucas voltou para a cozinha carregando uma pequena caixa de metal e a estendeu para Elizabeth.
– Economizei uma libra e quarenta – disse ele. – Ia usar para... – O menino engoliu em seco. – Não importa. Quero que fique com o dinheiro. Para ajudar a família.
Em silêncio, Elizabeth pegou a caixa e olhou dentro dela. Lá estava... uma libra e quarenta, tudo em moedas.
– Lucas, meu querido – falou ela com delicadeza. – Essas são suas economias. Você levou anos para juntar esse valor.
O lábio inferior do menino tremeu, mas ele deu um jeito de estufar o peito até ficar firme como um de seus soldados de brinquedo.
– Sou o homem da casa, agora. E tenho que sustentar vocês.
Elizabeth assentiu solenemente e passou as economias do irmão para a caixa onde guardava o dinheiro para a manutenção da casa.
– Muito bem. Vamos usar essa quantia para comprar comida. Você pode ir fazer compras comigo na próxima semana e escolher algo de que goste.
– Minha horta logo deve começar a produzir legumes e verduras – avisou Susan, querendo ajudar. – O bastante para nos alimentar e talvez um pouco a mais para que possamos vender ou trocar por mercadorias na cidade.
Jane começou a se remexer no colo de Elizabeth.
– Por favor, diga que não plantou mais nabos. Odeio nabos.
– Não é muito fácil de comer – resmungou Lucas.
Elizabeth deixou escapar o ar e fechou os olhos. Como haviam chegado àquela situação? A família deles era antiga e respeitada – o pequeno Lucas era um baronete! E, ainda assim, estavam limitados a cultivar nabos – que todos detestavam – em uma horta caseira.
Ela era um fracasso. Achara que poderia criar o irmão e as irmãs. A época em que o pai morreu fora a mais difícil da vida dela, e só o que a fizera seguir em frente fora o pensamento de que precisava proteger os irmãos, mantê-los felizes e acolhidos. Juntos.
Tias, tios e primos haviam se oferecido para cuidar de uma das crianças Hotchkisses, normalmente o pequeno Lucas, que, com o título que ostentava, em algum momento poderia se casar com uma moça com um belo dote. Mas Elizabeth recusou todas as ofertas, mesmo quando as amigas e os vizinhos a aconselharam a entregar o irmão.
Queria manter a família unida, dissera. Era pedir muito?
Mas estava fracassando. Não havia dinheiro para aulas de música ou qualquer uma das coisas que Elizabeth contara como garantidas quando era pequena. Só Deus sabia como ela conseguiria mandar Lucas para Eton. E ele precisava estudar lá. Há quatrocentos anos, todos os homens da família Hotchkiss estudavam em Eton. Nem todos conseguiram se formar, mas todos foram para lá.
Ela teria que se casar. E o marido precisaria ter muito dinheiro. Era simples assim.
– Abraão gerou Isaque; Isaque gerou Jacó; Jacó gerou Judá...
Elizabeth pigarreou baixinho e levantou os olhos com uma expressão esperançosa. Lady Danbury já adormecera? Ela se inclinou para a frente e examinou o rosto da velha dama. Era difícil dizer...
– ... Judá gerou, de Tamar, Perez e Zerá; e Perez gerou Esrom...
Os olhos da senhora sem dúvida estavam fechados havia um bom tempo, mas, ainda assim, nunca era demais ser cuidadosa.
– ... Esrom gerou Arão...
Aquilo fora um ronco? A voz de Elizabeth agora era apenas um sussurro.
– ... Arão gerou Aminadabe; Aminadabe gerou Naassom...
Elizabeth fechou a Bíblia e se encaminhou para sair da sala de estar pé ante pé, andando de costas. Normalmente não se importava de ler para lady Danbury – na verdade, essa era uma das melhores partes de seu trabalho como dama de companhia da condessa viúva. Mas nesse dia ela precisava voltar para casa. Se sentira muito mal por sair enquanto Jane ainda estava tão abalada com a perspectiva de Squire Nevins entrar para sua pequena família. Elizabeth assegurara à irmã que não se casaria com Nevins nem se ele fosse o último homem na face da Terra, mas Jane não acreditava muito que outro pretendente pediria Elizabeth em casamento, e...
TUM!
Elizabeth quase morreu de susto. Ninguém era melhor do que lady Danbury em fazer barulho com a bengala no piso.
– Não estou dormindo! – bradou lady D.
Elizabeth se virou com um sorrisinho sem graça.
– Peço desculpas.
Lady Danbury deu uma risadinha.
– Até parece que está arrependida. Volte para cá.
Elizabeth reprimiu um murmúrio e voltou para a cadeira de espaldar reto. Gostava de lady Danbury. De coração. Na verdade, ansiava pelo dia em que poderia usar a idade como desculpa para exibir a franqueza que era marca registrada da condessa.
Só que de fato precisava ir para casa e...
– Você é muito ardilosa, isso sim – comentou lady Danbury.
– Perdão?
– Todos aqueles “gerou”. Escolhidos a dedo para me fazerem adormecer.
Elizabeth sentiu o rosto esquentar com um rubor culpado e tentou organizar as palavras que diria a seguir como uma pergunta.
– Será que entendi o que quer dizer?
– Você pulou uma parte. Ainda tínhamos que estar em Moisés e a grande enchente, não na parte do “gerou”.
– Acho que não era Moisés que estava na grande enchente, lady Danbury.
– Bobagem. É claro que era.
Elizabeth acreditava que Noé compreenderia seu desejo de não prolongar a discussão sobre referências bíblicas com lady Danbury e ficou quieta.
– De qualquer modo, não importa quem foi atingido pelo dilúvio. O que importa é que você se adiantou na leitura só para me fazer adormecer.
– Eu... Hã...
– Ah, admita logo, menina. – Os lábios de lady Danbury se alargaram em um sorriso sagaz. – Na verdade, eu a admiro por isso. Eu teria feito a mesma coisa na sua idade.
Elizabeth revirou os olhos. Se esse não era um caso de “encrencada por fazer e encrencada por não fazer”, ela não sabia o que mais seria. Por isso, apenas suspirou, pegou a Bíblia e perguntou:
– Que trecho gostaria que eu lesse?
– Nenhum. Isso é muito entediante. Não temos nada mais animado na biblioteca?
– Acredito que sim. Posso checar, se quiser.
– Sim, faça isso. Mas, antes, poderia me passar aquele livro-caixa? Sim, aquele que está sobre a mesa.
Elizabeth se levantou, caminhou até a mesa e pegou o livro-caixa encadernado em couro.
– Aqui está – falou, entregando-o a lady Danbury.
A condessa folheou o livro com precisão militar antes de voltar a olhar para Elizabeth.
– Obrigada, minha menina. Contratei um novo administrador. Ele chega hoje e quero memorizar todos esses números para me certificar de que ele não terá me roubado tudo daqui a um mês.
– Lady Danbury, nem mesmo o demônio ousaria roubá-la – comentou Elizabeth com extrema sinceridade.
Lady D. bateu com a bengala como forma de aplauso e riu.
– Falou bem, minha menina. É bom ver alguém tão jovem com cérebro. Meus próprios filhos... ah, bem, não vou entrar nesse assunto agora, a não ser para lhe dizer que, certa vez, meu filho ficou com a cabeça presa entre as estacas da cerca que contorna o Castelo de Windsor.
Elizabeth levou a mão à boca em um esforço para abafar uma risada.
– Ah, pode rir à vontade. – Lady Danbury suspirou. – Descobri que a única maneira de evitar a frustração materna é encará-la como uma fonte de divertimento.
– Bem – disse Elizabeth com cautela –, essa parece uma estratégia sábia...
– Você daria uma excelente diplomata, Lizzie Hotchkiss – retrucou lady Danbury com uma gargalhada. – Onde está meu bebê?
Elizabeth nem piscou. As mudanças súbitas de assunto de lady D. eram bastante comuns.
– Seu gato está dormindo na otomana há uma hora – falou, apontando para o outro lado da sala.
Malcolm levantou a cabeça peluda e tentou focalizar os olhos levemente estrábicos, mas logo decidiu que não valia a pena e voltou a apoiá-la no estofado.
– Malcolm, venha com a mamãe! – chamou lady Danbury com a voz melosa.
Malcolm a ignorou.
– Tenho uma surpresa para você.
O gato bocejou, reconheceu lady D. como sua principal fonte de fornecimento de comida e desceu de onde estava.
– Lady Danbury, a senhora sabe que esse gato está gordo demais – repreendeu Elizabeth.
– Bobagem.
Elizabeth balançou a cabeça em desaprovação. Malcolm pesava mais de cinco quilos, embora seus pelos representassem boa parte desse peso. Toda noite, já em casa, ela passava um bom tempo limpando pelos da roupa.
O que era realmente impressionante, porque em cinco anos o bicho esnobe não se dignara a deixar Elizabeth pegá-lo no colo.
– Bom gatinho – disse lady D., esticando os braços.
– Gato estúpido – resmungou Elizabeth quando o felino bege parou, encarou-a e seguiu adiante.
– Você é uma coisinha muito fofa. – Lady D. acariciou a barriga peluda do bicho. – Uma coisinha muito fofa.
O gato esticou o corpo no colo de lady Danbury, deitado de costas, as patas acima da cabeça.
– Isso não é um gato, é uma imitação barata de um tapete.
Lady D. ergueu a sobrancelha.
– Sei que você não teve a intenção de dizer isso, Lizzie Hotchkiss.
– Tive, sim.
– Tolice. Você ama Malcolm.
– Como amo Átila, o Huno.
– Ora, Malcolm ama você.
O gato levantou a cabeça e Elizabeth poderia jurar que o bichano havia mostrado a língua para ela.
Ela se levantou, soltando um grunhido indignado.
– Esse gato é perigoso. Vou para a biblioteca.
– Boa ideia. Encontre um novo livro para mim.
Elizabeth seguiu na direção da porta. Lady D. completou:
– E nada com “gerou...!”.
Elizabeth riu mesmo sem querer e atravessou o corredor até a biblioteca. O som de seus passos desapareceu quando passou a pisar no tapete que cobria o chão do cômodo, e ela suspirou. Santo Deus, havia muitos livros ali. Por onde começaria?
Ela separou alguns romances, então pegou uma coleção de comédias de Shakespeare. Juntou à pilha um volume fino de poesia e então, quando já estava prestes a voltar para a sala de estar de lady D., outro livro chamou sua atenção.
Era muito pequeno, encadernado no couro de vermelho mais intenso que Elizabeth já vira. Porém, o mais estranho era que ele estava deitado, e não em pé, na estante de uma biblioteca que poderia ser a definição da palavra “ordem”. Poeira nenhuma ousaria assentar sobre aquelas prateleiras, e com certeza nenhum livro ficaria naquela posição.
Elizabeth pousou a pilha que carregava e pegou o livrinho vermelho. Estava de cabeça para baixo, por isso ela teve que virá-lo para ler o título:
COMO SE CASAR COM UM MARQUÊS
Elizabeth largou o livro, quase como se achasse que um raio a atingiria bem ali na biblioteca. Com certeza aquilo devia ser algum tipo de brincadeira. Afinal, naquela tarde mesmo decidira que precisava se casar, e se casar bem.
– Susan? – chamou. – Lucas? Jane?
Ela balançou a cabeça. Estava sendo ridícula. Os irmãos, por mais atrevidos que pudessem ser, não entrariam escondidos na casa de lady Danbury e colocariam um livro falso na estante, e...
Ora, na verdade, pensou Elizabeth, virando o fino exemplar vermelho na mão, não parecia falso. A encadernação parecia resistente e o couro da capa, de alta qualidade. Ela olhou ao redor para se certificar de que ninguém a estava observando – embora não estivesse certa da razão por que se sentia tão constrangida – e abriu com cuidado a primeira página.
A autora era uma tal de Sra. Seeton, e o livro fora impresso em 1792, o ano do nascimento de Elizabeth. Uma coincidenciazinha engraçada, pensou ela, mas não era supersticiosa. E com certeza não precisava de um livrinho para lhe dizer como viver a própria vida.
Além do mais, indo direto ao ponto, o que aquela Sra. Seeton realmente sabia? Afinal, se ela tivesse se casado com um marquês, não seria lady Seeton?
Elizabeth fechou o livro, resoluta, e o devolveu a seu lugar na estante, certificando-se de que permanecesse deitado do modo como o encontrara. Não queria que ninguém pensasse que ela prestara atenção a uma tolice daquelas.
Pegou a pilha de livros que separara e voltou à sala de estar, onde lady Danbury ainda estava sentada, acariciando o gato e olhando pela janela como se estivesse esperando alguém.
– Peguei alguns livros – disse Elizabeth. – Acho que a senhora não vai encontrar muitos “gerou...” nestes aqui, embora talvez em Shakespeare...
– Sem tragédias, espero.
– Sim, imaginei que em seu atual estado de humor se distrairia mais com as comédias.
– Boa menina – elogiou lady Danbury. – Mais alguma coisa?
Elizabeth ficou confusa por um momento e baixou os olhos para os livros nos braços.
– Uns dois romances e alguns livros de poesia.
– Queime os de poesia.
– Perdão?
– Bem, não queime exatamente... Livros com certeza são mais valiosos do que lenha. Mas com certeza não quero ouvir poesia. Meu falecido marido deve ter comprado esses. Era um sonhador.
– Entendo – falou Elizabeth, basicamente porque imaginou que era isso que se esperava que dissesse.
Com um movimento repentino, lady Danbury pigarreou e acenou com a mão.
– Por que não vai para casa mais cedo hoje?
Elizabeth encarou-a boquiaberta. Lady Danbury nunca a liberava mais cedo.
– Tenho que lidar com esse maldito administrador, e com certeza não preciso de você aqui para isso. Além do mais, se ele tiver um bom olho para jovens bonitas, nunca conseguirei que preste atenção em mim com você por perto.
– Lady Danbury, acho que dificilmente...
– Bobagem. Você é uma coisinha muito atraente. Homens adoram cabelos louros. Sei disso. Os meus eram tão claros quanto os seus.
Elizabeth sorriu.
– Eles ainda são claros.
– São brancos, isso sim – retrucou lady D. com uma risada. – Você é uma menina muito gentil. Não deveria estar aqui comigo, e sim em busca de um marido.
– Eu... hã...
O que poderia dizer?
– É muito nobre da sua parte se devotar aos irmãos, mas você também tem que viver.
Elizabeth ficou apenas encarando a patroa, horrorizada ao perceber que os próprios olhos começavam a ficar marejados. Trabalhava havia cinco anos para lady Danbury, e as duas nunca tinham conversado sobre esses assuntos.
– Vou... vou embora, então, já que a senhora disse que posso sair mais cedo.
Lady Danbury assentiu, parecendo estranhamente desapontada. Será que esperara que Elizabeth desse sequência ao assunto?
– Só coloque esse livro de poesia no lugar antes de ir embora – pediu a velha dama. – Estou certa de que não vou lê-lo, mas não confio nos criados para manterem meus livros em ordem.
– Pode deixar.
Elizabeth pousou o resto dos livros em um criado-mudo, recolheu suas coisas e se despediu. Quando estava saindo da sala, Malcolm saltou do colo de lady Danbury e a seguiu.
– Está vendo? – bradou lady D. – Eu disse que ele adora você.
Elizabeth olhou para o gato com desconfiança enquanto andava em direção ao corredor.
– O que você quer, Malcolm?
Ele balançou o rabo, mostrou os dentes e miou.
– Ah! – exclamou Elizabeth, deixando cair o livro de poesia. – Seu monstro. Seguindo-me até aqui fora só para miar...
– Você jogou um livro no meu gato? – gritou lady D.
Elizabeth decidiu ignorar a pergunta e preferiu apontar o dedo na direção de Malcolm enquanto pegava o livro do chão.
– Volte para o colo de lady Danbury, criatura terrível.
Malcolm levantou o rabo e se afastou.
Elizabeth respirou fundo e entrou na biblioteca. Foi até onde ficavam agrupados os livros de poesia, mantendo as costas escrupulosamente viradas para o pequeno livro vermelho. Não queria pensar nele, não queria olhar para ele...
Maldição, aquela coisa estava praticamente clamando por ela. Nunca na vida Elizabeth se sentira tão consciente de um objeto inanimado.
Ela devolveu o volume de poesia à prateleira e saiu pisando firme pela porta, porque já estava começando a ficar irritada consigo mesma. Aquele livrinho tolo não deveria afetá-la de forma alguma. Ao evitá-lo como a uma praga, ela na verdade estava atribuindo a ele um poder que ele não merecia, e...
– Ah, pelo amor de Deus! – desabafou finalmente.
– Você disse alguma coisa? – perguntou lady Danbury da sala ao lado.
– Não! Eu só... ai, só tropecei na ponta do tapete. Só isso – resmungou Elizabeth depois de sussurrar outro “Pelo amor de Deus” baixinho e seguir pé ante pé na direção do livro.
Ele estava com a capa virada para baixo e, para grande surpresa de Elizabeth, a mão dela, como se tivesse vida própria, pegou o volume e o virou.
COMO SE CASAR COM UM MARQUÊS
Lá estava, exatamente como antes. Encarando-a, zombando dela, parado ali como se dissesse que Elizabeth não tinha coragem bastante para lê-lo.
– É só um livro – murmurou. – Só um livrinho tolo, com uma capa vermelha chamativa.
E ainda assim...
Elizabeth precisava desesperadamente de dinheiro... Lucas tinha que ser mandado para Eton e Jane chorara por uma semana quando acabou a última de suas tintas aquarela. E os dois estavam crescendo mais rápido que ervas-daninhas no verão. Jane podia se virar com os vestidos antigos de Susan, mas Lucas precisaria de roupas adequadas à sua posição.
O único caminho para a riqueza era o casamento, e aquele livrinho atrevido alegava ter todas as respostas. Elizabeth não era tola a ponto de acreditar que pudesse chamar a atenção de um marquês, mas talvez alguns conselhos a ajudassem a conquistar um bom cavalheiro do campo... algum que tivesse uma situação financeira confortável. Ela se casaria até com um comerciante. O pai dela se reviraria no túmulo, mas uma moça precisava ser prática, e Elizabeth poderia apostar que havia um bom número de comerciantes abastados que gostariam de se casar com a filha falida de um baronete.
Além do mais, ela estava naquela situação por culpa do pai. Se ele não tivesse...
Elizabeth balançou a cabeça. Aquela não era hora de pensar no passado. Precisava se concentrar em seu dilema do presente.
Para ser bem sincera, ela não sabia muito sobre homens. Não sabia o que deveria dizer a eles nem como deveria agir para fazê-los se apaixonar por ela.
Encarou o livro com determinação.
Olhou ao redor. Será que havia alguém por perto?
Respirou fundo e, rápida como um raio, enfiou o livro na bolsinha de mão que carregava.
Então saiu correndo da casa.
James Sidwell, o marquês de Riverdale, gostava de passar despercebido. O que mais o agradava era se misturar à multidão, sem que ninguém o reconhecesse, e ficar a par de tramas e fatos. Provavelmente fora por isso que gostara tanto dos anos em que tinha trabalhado para o Departamento de Guerra.
E ele fizera um trabalho muito bom. O mesmo corpo e o mesmo rosto que chamavam tanta atenção nos salões de baile de Londres desapareciam nas multidões com um sucesso estarrecedor. James simplesmente apagava o brilho confiante dos olhos, curvava os ombros e ninguém suspeitava que ele fosse de uma linhagem nobre.
É claro que os cabelos e olhos castanhos também ajudavam. Era sempre bom ter características mais comuns. James duvidava que houvesse muitos agentes ruivos bem-sucedidos.
Mas apenas um ano antes o disfarce dele fora descoberto por uma espiã de Napoleão Bonaparte, que revelou sua identidade aos franceses. Agora o Departamento de Guerra se recusava a designá-lo a qualquer missão mais emocionante do que a prisão ocasional de contrabandistas.
James aceitou seu destino tedioso com um suspiro profundo e um ar de resignação. De qualquer modo, provavelmente já estava mesmo na hora de ele se dedicar às suas propriedades e ao seu título. Precisaria se casar em algum momento – por mais desagradável que pudesse ser tal perspectiva – e gerar um herdeiro para o marquesado. Assim, James havia voltado a atenção para o cenário social de Londres, onde um marquês – ainda mais sendo jovem e belo – nunca passava despercebido.
Ele vinha se sentindo ora enojado, ora entediado, ora entretido. Enojado porque as jovens damas – e suas mães – o viam apenas como um grande peixe a ser fisgado. Entediado porque depois de anos de intrigas políticas, a cor das fitas e o corte de um colete não eram um assunto dos mais fascinantes para ele. E entretido porque, para ser franco, se não mantivesse o senso de humor ao longo de toda aquela provação, enlouqueceria.
Quando o bilhete da tia foi entregue por um mensageiro especial, James quase deixou escapar um grito de alegria. Agora, conforme se aproximava da casa dela em Surrey, ele tirou o bilhete do bolso e voltou a lê-lo.
Riverdale,
Preciso de sua ajuda com urgência. Por favor, venha à Casa Danbury o mais rápido possível.
Não viaje em suas melhores roupas. Direi a todos que você é o novo administrador da propriedade.
Seu nome fictício será James Siddons.
Agatha, lady Danbury
James não tinha ideia do que se tratava tudo aquilo, mas sabia que era exatamente o que precisava para suavizar o tédio que sentia e permitir que saísse de Londres sem culpa por estar negligenciando seus deveres. Ele viajou em uma carruagem alugada, já que um simples administrador não teria cavalos elegantes como os de um marquês, e caminhou pelos quase 2 quilômetros que separavam o centro da cidade da Casa Danbury. Tudo de que precisava estava guardado em uma bolsa de viagem.
Aos olhos do mundo, ele se tornou apenas o Sr. James Siddons, um cavalheiro, sem dúvida, mas provavelmente sem muitos recursos. A roupa que estava usando fora encontrada no fundo do armário – bem-feita, mas gasta nos cotovelos e conforme a moda de dois anos antes. Alguns retoques com a tesoura de cozinha com certeza haviam comprometido o excelente corte de cabelo que recebera apenas uma semana antes. Para todos os propósitos, o marquês de Riverdale desaparecera, e James não poderia estar mais satisfeito.
É claro que o plano da tia tinha um enorme defeito, mas isso era de esperar, já que tinha sido arquitetado por amadores. James não visitava a Casa Danbury havia quase uma década – o trabalho dele para o Departamento de Guerra não lhe deixara muito tempo para a família, e obviamente não quisera expor a tia a nenhum risco. Mas com certeza havia alguém – algum empregado mais idoso, o mordomo, talvez – que o reconheceria. Afinal, James passara a maior parte da infância ali.
Mas a verdade era que as pessoas viam o que esperavam ver, e quando James agia como um administrador, todos enxergavam um administrador.
Ele estava quase na Casa Danbury – praticamente nos degraus da entrada – quando a porta da frente se abriu e uma mulher miúda e loura saiu apressada, a cabeça baixa, os olhos fixos no chão, movendo-se quase como uma potranca a pleno galope. James nem teve oportunidade de fazer qualquer coisa antes que ela fosse direto de encontro a ele.
Os dois corpos colidiram em um baque surdo e a jovem deixou escapar um gritinho de surpresa enquanto se afastava dele e aterrissava no chão de forma nada elegante. Um arco, ou uma fita, ou fosse lá como as mulheres chamassem aquelas coisas, voou dos cabelos dela, fazendo com que um grosso cacho de cabelos de um dourado muito claro escapasse do penteado e se acomodasse de forma desajeitada sobre os ombros da moça.
– Perdão – disse James, estendendo a mão para ajudá-la a se levantar.
– Não, não – retrucou a jovem, limpando as saias –, a culpa foi toda minha. Eu não estava olhando para onde ia.
Ela não se deu ao trabalho de pegar a mão dele, e James ficou estranhamente desapontado. Nenhum dos dois estava usando luvas, e ele teve a estranha compulsão de sentir na palma o toque da mão dela.
Mas não poderia dizer uma coisa dessas em voz alta, por isso se inclinou para ajudá-la a pegar os pertences que haviam caído no chão. A bolsinha de mão que ela carregava se abrira quando atingira o chão e todo o seu conteúdo agora estava espalhado aos pés deles. James entregou as luvas a ela, o que a fez corar.
– Está muito quente – explicou a moça, enquanto olhava para as luvas com resignação.
– Não as coloque por minha causa – disse James com um sorriso fácil. – Como pode ver, também escolhi usar o tempo ameno como desculpa para não colocar as minhas.
A jovem observou as mãos dele por um instante antes de balançar a cabeça e murmurar:
– Esta é a conversa mais estranha que já tive.
Ela se ajoelhou para recolher o resto das coisas que caíram da bolsa, e James fez o mesmo. Ele pegou um lenço e estava esticando a mão para alcançar um livro quando a moça de súbito deixou escapar um som estranho – como um grito abafado – e pegou o volume antes que James pudesse tocar nele.
Ele se pegou com muita vontade de saber o que havia naquele livro.
A jovem pigarreou umas seis vezes e só então falou:
– É muito gentil da sua parte me ajudar.
– Não é problema algum, eu lhe garanto – murmurou James, claramente tentando dar uma olhada no livro.
Mas ela já o colocara de volta na bolsinha.
Elizabeth deu um sorriso nervoso para ele, enquanto enfiava a mão na bolsa para se certificar de que o livro estava mesmo ali, escondido e em segurança. Se fosse pega lendo uma coisa daquelas, ficaria mais constrangida do que as palavras poderiam descrever. Era comum acreditar que toda mulher solteira estava procurando um marido, mas apenas as mulheres mais patéticas seriam flagradas lendo um manual sobre o assunto.
O homem não disse nada, apenas a encarou com um olhar avaliador que a deixou ainda mais nervosa. Por fim, Elizabeth perguntou em um rompante:
– O senhor é o novo administrador?
– Sim.
– Entendi. – Ela voltou a pigarrear. – Bem, então imagino que eu deva me apresentar, já que nossos caminhos certamente se cruzarão. Sou a Srta. Hotchkiss, dama de companhia de lady Danbury.
– Ah, sou o Sr. Siddons, acabei de chegar de Londres.
– Foi um grande prazer conhecê-lo, Sr. Siddons – disse ela, com um sorriso que James achou estranhamente encantador. – Lamento muitíssimo pelo acidente, mas preciso ir.
Ela esperou pelo aceno de cabeça dele, então saiu quase correndo pelo caminho que levava para fora da propriedade, agarrando a bolsa como se sua vida dependesse disso.
James apenas observou-a, incapaz de tirar os olhos da jovem que se afastava apressadamente, por mais que isso lhe soasse estranho.