Como se casar com um marquês

Julia Quinn · Capítulo 10 de 26

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Como se casar com um marquês

Capítulo 9

 

 

– A senhora vai fazer o quê?

Elizabeth parou diante de lady Danbury boquiaberta.

– Eu já lhe disse, vou tirar um cochilo.

– Mas a senhora nunca faz isso.

Lady Danbury ergueu a sobrancelha.

– Tirei um apenas dois dias atrás.

– Mas... mas...

– Feche a boca, Elizabeth. Você está começando a parecer um peixe.

– Mas a senhora me disse várias vezes que a marca de uma civilização é a rotina – protestou Elizabeth.

Lady D. deu de ombros e deixou escapar uma espécie de gorjeio presunçoso.

– Uma dama não pode mudar sua rotina de vez em quando? Todas as rotinas precisam de um ajuste periódico.

Elizabeth conseguiu fechar a boca, mas ainda não podia acreditar no que estava ouvindo.

– Talvez eu tire um cochilo todo dia – declarou a velha dama, cruzando os braços. – Ora, que diabo você está procurando?

Elizabeth, que estava lançando olhares desnorteados ao redor da sala, respondeu:

– Um ventríloquo. Essas palavras não podem de forma alguma estar saindo da sua boca.

– Eu lhe asseguro que estão. Estou achando esses cochilos da tarde incrivelmente restauradores.

– Mas aquele que a senhora tirou outro dia... o único desde a sua infância, devo acrescentar... foi de manhã.

– Humpf. Talvez tenha sido. Talvez não tenha.

– Foi.

– Teria sido melhor se tivesse sido à tarde.

Elizabeth não tinha ideia de como argumentar contra algo tão ilógico, então apenas jogou os braços para o alto e disse:

– Então vou deixá-la para que durma um pouco.

– Sim. Faça isso. E feche a porta ao sair. Com certeza vou precisar de silêncio absoluto.

– Eu não imaginaria que fosse exigir nada menos que isso.

– Menina abusada. De onde veio todo esse atrevimento?

Elizabeth encarou a patroa com uma expressão zombeteira.

– Sabe muito bem que veio da senhora, lady Danbury.

– Sim, estou fazendo um ótimo trabalho moldando você, não estou?

– Que Deus me ajude – murmurou Elizabeth.

– Eu ouvi isso!

– Acredito que não há a menor chance de que sua audição seja o primeiro de seus sentidos a falhar.

Lady Danbury riu alto ao ouvir isso.

– Você sabe como distrair uma velha dama, Elizabeth Hotchkiss. Não pense que não aprecio isso. Na verdade, gosto muito de você.

Elizabeth ficou surpresa diante daquela demonstração sentimental tão pouco característica de lady D.

– Ora, obrigada.

– Nem sempre sou uma criatura rude. – Lady Danbury consultou o pequeno relógio que usava pendurado em uma corrente ao redor do pescoço. – Acho que eu gostaria de ser acordada em setenta minutos.

– Setenta minutos?

De onde diabos lady D. tirava aquele número aleatório?

– Uma hora não seria o bastante, mas sou ocupada demais para desperdiçar uma hora e meia. Além disso – acrescentou lady Danbury com um olhar arrogante –, gosto de mantê-la atenta.

– Disso não tenho a menor dúvida – voltou a resmungar Elizabeth.

– Setenta minutos, então. E nem um minuto mais cedo.

Elizabeth assentiu, perplexa, e caminhou em direção à porta. Mas, antes de sair, virou-se e perguntou:

– Tem certeza de que está se sentindo bem?

– Tão bem quanto uma mulher de 58 anos tem o direito de se sentir.

– O que é uma verdadeira bênção, já que a senhora tem 66 – comentou Elizabeth, com um toque de ironia.

– Menina impertinente. Saia daqui antes que eu reduza o seu salário.

Elizabeth arqueou as sobrancelhas.

– A senhora não ousaria.

Lady Danbury sorriu enquanto observava sua dama de companhia fechar a porta ao sair.

– Estou fazendo um bom trabalho – disse para si mesma, a voz carregada de ternura... e talvez com um ligeiro toque de autossatisfação. – Ela está se tornando a cada dia mais parecida comigo.

 

Elizabeth deixou escapar um longo suspiro e afundou o corpo em um banco acolchoado no corredor. O que faria agora? Se soubesse antes que lady Danbury tiraria seus cochilos de forma rotineira, teria levado consigo algo para remendar ou talvez as contas de casa para organizar. Só Deus sabia quanto as finanças dos Hotchkisses estavam sempre precisando de ajuste.

É claro que também havia Como se casar com um marquês. Ela jurara que nem sequer olharia mais para o maldito livro, mas talvez pudesse apenas dar uma espiada na biblioteca para se certificar de que James não o trocara de lugar, ou o virara, ou amassara as páginas, ou... ou, ora, que não fizera qualquer coisa com o livro.

Não, disse a si mesma com firmeza, agarrando o veludo marrom que forrava o assento do banco para se impedir de levantar. Não teria mais nada a ver com a Sra. Seeton e seus decretos. Ficaria sentada onde estava, colada àquele banco, até que decidisse como passaria os setenta minutos seguintes.

Sem entrar na biblioteca. Fizesse o que fizesse, não entraria na biblioteca.

– Elizabeth?

Ela levantou o rosto e viu James – ou melhor, a cabeça de James, saindo de uma fresta da porta da biblioteca.

– Poderia se juntar a mim por um momento?

Elizabeth ficou de pé.

– Algum problema?

– Não, não. Na verdade, exatamente o oposto.

– Parece promissor – murmurou ela.

Já fazia muito tempo desde a última vez que alguém a chamara para dar boas notícias. Poderia se juntar a mim por um momento? costumava ser um modo delicado de dizer: O pagamento que você deveria ter feito já está atrasado há muito tempo e, se não o fizer imediatamente, terei que notificar as autoridades.

James chamou-a com um gesto de mão.

– Preciso falar com você.

Elizabeth foi até a biblioteca. A mais recente decisão dela não durara muito.

– O que houve?

Ele levantou Como se casar com um marquês e franziu o cenho.

– Andei lendo isso.

Ah, não.

– É realmente fascinante.

Elizabeth resmungou e levou as mãos aos ouvidos.

– Não quero ouvir nada a respeito.

– Estou convencido de que posso ajudá-la.

– Não estou ouvindo.

James segurou as mãos dela e puxou-as até que Elizabeth estivesse com os braços abertos como uma estrela-do-mar.

– Posso ajudá-la – repetiu ele.

– Estou além de qualquer ajuda.

Ele riu e o som cálido aqueceu Elizabeth até os dedos dos pés.

– Vamos, vamos, não seja pessimista – animou ele.

– Por que você está lendo isso? – perguntou ela.

Santo Deus, o que poderia James, ou qualquer outro homem belo e encantador, ver de interessante em um livro como aquele? Encarando da forma mais simples possível, era um material de pesquisa para mulheres desesperadas. E os homens não tinham por hábito comparar mulheres desesperadas com urtigas, infecção alimentar e peste bubônica?

– Pode atribuir a leitura à minha curiosidade insaciável – retrucou ele. – Como eu poderia resistir depois de ser forçado a ter atitudes tão heroicas para colocar as mãos no livro hoje mais cedo?

– Atitudes heroicas? – desafiou Elizabeth. – Você o arrancou de baixo de mim.

– A palavra “heroica” está sempre aberta a interpretações – retrucou ele em tom animado, brindando-a com outro daqueles sorrisos perigosamente masculinos.

Elizabeth fechou os olhos e deixou escapar um suspiro perplexo e cansado. Sem dúvida, aquela era a conversa mais estranha que já tivera na vida e, ainda assim, de algum modo parecera bastante natural.

A parte mais bizarra era que ela não se sentia constrangida. Ah, com certeza seu rosto estava um pouco mais rosado que de costume, e ela não conseguia acreditar que estivesse permitindo que certas palavras saíssem da própria boca, mas se houvesse pensado a respeito antes teria achado que, àquela altura, já teria morrido de vergonha.

Era por causa de James, percebeu. Algo nele a deixava à vontade. Ele tinha um sorriso fácil, uma risada confortante. Há nele algo como um lado perigoso e absolutamente misterioso, e, às vezes, James olhava para ela de uma forma ardente que sem dúvida tornava o ar mais denso, de um jeito bom. Apesar disso, era quase impossível se sentir desconfortável na companhia dele.

– No que está pensando? – Elizabeth o ouviu perguntar.

Ela abriu os olhos.

– Estava pensando que não consigo me lembrar da última vez que me senti tão ridícula.

– Não seja tola.

– Às vezes não consigo evitar – disse ela com um balançar de cabeça autodepreciativo.

James ignorou o comentário e levantou o livro, sacudindo-o com breves movimentos do punho.

– Este livro tem problemas.

– Como se casar com um marquês?

– Muitos problemas.

– Fico felicíssima em ouvir isso. Devo dizer que parece extremamente difícil seguir os decretos dele.

James começou a andar de um lado para outro, os olhos castanhos cálidos, claramente perdidos em pensamento.

– Me parece óbvio que a Sra. Seeton... se é que esse é o nome verdadeiro dela... jamais consultou um homem quando redigiu seus decretos – anunciou ele.

Elizabeth achou aquilo tão interessante que se sentou.

– Ela pode decretar quantas regras quiser, mas sua metodologia é falha – esclareceu James. – Ela afirma que se você seguir os decretos do livro, se casará com um marquês...

– Acredito que ela use “marquês” querendo se referir a qualquer cavalheiro elegível, um bom partido – interrompeu Elizabeth. – Imagino que apenas tenha achado que chamava mais atenção colocar “marquês” no título.

Ele balançou a cabeça.

– Não faz diferença. Marquês, cavalheiro elegível... somos todos homens.

– Sim – falou Elizabeth lentamente, mal resistindo à vontade de verificar o fato examinando-o de cima a baixo.

James se inclinou para a frente e a encarou com intensidade.

– Eu lhe pergunto: como, diga-me, por favor, a Sra. Seeton... se é que esse é mesmo o nome verdadeiro dela... pode julgar se as regras que propõe são apropriadas?

– Ora – balbuciou Elizabeth –, imagino que ela tenha sido acompanhante de algumas jovens damas e...

– Lógica falha – interrompeu ele. – A única pessoa que pode julgar se as regras dela são de fato apropriadas é um marquês.

– Ou um cavalheiro elegível – acrescentou ela.

– Ou um cavalheiro elegível – reconheceu James, balançando a cabeça ligeiramente para o lado. – Mas posso lhe assegurar, como um cavalheiro um pouco elegível, que se uma mulher se aproximasse de mim seguindo todos esses decretos...

– Mas ninguém se aproximaria de você – interrompeu Elizabeth. – Não se estivesse seguindo as instruções da Sra. Seeton. Seria contra as regras. Uma dama deve esperar até que um cavalheiro se aproxime dela. Não consigo me lembrar em que decreto isso está escrito, mas sei que está no livro.

– O que só mostra como a maior parte dessas regras é idiota. O argumento que eu estava tentando defender, no entanto, era de que se eu conhecesse uma protégée da nossa querida Sra. Seeton.... se esse for mesmo o nome verdadeiro dela...

– Por que continua repetindo isso?

James pensou a respeito por um momento. Devia ser por causa de todos aqueles anos como espião. No entanto, tudo o que respondeu foi:

– Não tenho a mais vaga ideia. Mas, como eu estava dizendo, se eu conhecesse uma das protégées dela, sairia correndo e gritando na direção oposta.

Houve um instante de silêncio, então Elizabeth disse, com a sombra de um sorriso travesso no rosto:

– Você não correu de mim.

James levantou rapidamente a cabeça para encará-la.

– O que quer dizer?

O sorriso dela ficou mais largo e sua expressão pareceu quase felina com o prazer de tê-lo irritado.

– Você não leu o decreto sobre a prática dos decretos? – Elizabeth se inclinou para a frente a fim de espiar as páginas do manual, que ele estava folheando, em busca do decreto mencionado por ela. – Acho que é o de número dezessete – acrescentou.

James a encarou incrédulo por longos dez segundos, antes de perguntar:

– Você praticou comigo?

– Sei que soa meio frio, e em alguns momentos me senti culpada, mas realmente não tive escolha. Afinal, se não fosse com você, com quem seria?

– É verdade, com quem... – murmurou James, sem saber exatamente por que estava irritado.

Não era pelo fato de Elizabeth ter treinado com ele; isso, na verdade, era até engraçado. É provável que a causa da irritação tenha sido ele não ter percebido que ela vinha treinando com ele.

Para um homem que se orgulhava de seu instinto e de sua capacidade de percepção, era mesmo irritante não ter percebido.

– Não vou mais fazer isso – prometeu Elizabeth. – Foi bastante injusto da minha parte.

Ele voltou a andar de um lado para outro, tamborilando com os dedos no queixo, enquanto tentava decidir qual seria a melhor maneira de reverter a situação a seu favor.

– James?

Arrá! Ele se virou rapidamente, os olhos iluminados com a perspectiva de uma nova ideia.

– Você estava treinando para conquistar quem?

– Não entendi.

Ele se sentou diante dela e deixou os braços descansarem sobre as coxas enquanto se inclinava para a frente. Mais cedo, naquela manhã, James jurara para si mesmo que acabaria com a expressão de desespero que vira nos olhos dela. Na verdade, ela não estava com aquele olhar no momento, mas ele sabia que retornaria assim que se lembrasse dos três irmãos famintos em casa. E agora ele achara um modo de ajudá-la e de se divertir muito ao mesmo tempo.

Seria o instrutor dela. Elizabeth queria arrastar algum homem desavisado para o casamento... ora, ninguém poderia saber mais sobre esse tipo de armadilha do que o marquês de Riverdale. Ele fora alvo de todos os truques – de debutantes cheias de risinhos que o seguiam para cantos escuros, até cartas de amor chocantemente explícitas, chegando a viúvas nuas na cama dele.

Parecia razoável que, se ele aprendera tão bem a evitar o casamento, fosse também capaz de aplicar esse conhecimento na direção oposta. Com um pouco de empenho, Elizabeth conseguiria agarrar qualquer homem na face da Terra.

Era esse detalhe – o do “empenho” – que fazia a pulsação de James acelerar e certas partes menos mencionáveis da anatomia dele se enrijecerem. Porque qualquer aula que fosse dar a Elizabeth teria que envolver pelo menos uma abordagem superficial das artes amorosas. Nada, é claro, que comprometesse a jovem, mas...

– Sr. Siddons? James?

Ele olhou para cima e se deu conta de que estivera divagando. Santo Deus, a moça tinha o rosto de um anjo. James achava quase impossível acreditar que Elizabeth precisasse de ajuda para conseguir um marido. Mas ela achava que precisava, e isso dava a ele a mais esplêndida oportunidade...

– Quando você estava praticando comigo, quem era o seu objetivo final? – perguntou James com uma voz baixa e concentrada.

– Para conseguir me casar, você quer dizer?

– Sim.

Ela pareceu confusa e moveu ligeiramente os lábios antes de dizer:

– Eu... na verdade, não sei. Não cheguei a pensar tão longe. Estava apenas contando em comparecer a uma das reuniões sociais de lady Danbury. Me parece um bom lugar para encontrar um cavalheiro elegível.

– Ela tem alguma marcada para uma data próxima?

– Uma reunião social? Sim. No sábado, acredito. Uma pequena festa ao ar livre.

James voltou a se sentar. Maldição. A tia não dissera a ele que estava esperando visitas. Se algum dos convidados dela o conhecesse, ele teria que se fazer inacessível bem rápido. A última coisa que precisava era de algum dândi de Londres dando tapinhas nas costas dele na frente de Elizabeth e chamando-o de Riverdale.

– Mas acredito que ninguém esteja planejando passar a noite aqui – acrescentou ela.

James assentiu, pensativo.

– Então essa será uma excelente oportunidade para você.

– Concordo – disse Elizabeth, mas não soou tão animada quanto ele teria esperado.

– Tudo o que tem que fazer é descobrir quais homens entre os convidados estão solteiros e escolher o melhor do lote.

– Já examinei a lista de convidados e são esperados vários cavalheiros descompromissados. Mas... – Ela deixou escapar uma risadinha frustrada – ... você se esquece de uma coisa, James. O cavalheiro em questão também deve me escolher.

Ele afastou o comentário com um aceno.

– O fracasso não é uma possibilidade. Quando terminarmos com você...

– Não estou gostando disso.

– ... será impossível resistir aos seus encantos.

Elizabeth levou uma das mãos ao rosto, inconscientemente, enquanto o encarava surpresa. James estava se oferecendo para treiná-la? Para torná-la casável? Ela não sabia por que se sentia surpreendida com isso – afinal, ele nunca dera qualquer indicação... a não ser aquele beijo suave... de que estava interessado nela. Além disso, Elizabeth deixara claro que não se casaria com um administrador sem um tostão.

Então, por que estava tão deprimida como o fato de ele parecer tão ansioso para casá-la com um cavalheiro rico e bem-relacionado? Isso era exatamente o que ela dissera a ele que queria e precisava mais do que tudo.

– O que envolve esse treinamento? – perguntou Elizabeth, desconfiada.

– Ora, não temos muito tempo – comentou ele, pensativo –, e não há nada que possamos fazer a respeito do seu guarda-roupa.

– Que gentil da sua parte lembrar disso... – resmungou ela.

James dirigiu a ela um olhar vagamente repressor.

– Se me lembro bem, você não teve o menor pudor de insultar minhas roupas mais cedo.

Ele tinha razão, admitiu Elizabeth. E as boas maneiras a forçaram a dizer, um tanto emburrada:

– Suas botas são muito bonitas.

Ele sorriu e olhou para os próprios calçados que, embora velhos, pareciam bem-acabados.

– São mesmo, não são?

– Apesar desses arranhões – acrescentou ela.

– Vou engraxá-las amanhã – prometeu James, o olhar ligeiramente superior deixando claro que se recusava a morder a isca dela.

– Desculpe – disse Elizabeth, baixinho. – Fui deselegante. Elogios devem ser feitos sem restrições nem qualificações.

James olhou para ela com uma expressão avaliativa por um momento, antes de perguntar:

– Sabe o que eu gosto em você, Elizabeth?

Ela não tinha a menor ideia.

– Você é uma pessoa boa e gentil – continuou ele –, mas, ao contrário da maior parte das pessoas boas e gentis, não é chegada a fazer sermões ou se gabar, nem fica tentando fazer todas as outras pessoas serem boas e gentis.

Elizabeth o encarou boquiaberta. Aquele era o discurso mais inacreditável que já ouvira.

– E por trás de toda essa gentileza e bondade, você parece possuir um senso de humor afiado, não importa quanto se esforce de vez em quando para reprimi-lo.

Ah, santo Deus, se ele dissesse mais alguma coisa, ela se apaixonaria ali mesmo.

– Não há mal algum em implicar com um amigo se não tem a intenção de ser maldosa – prosseguiu James, a voz parecendo se dissolver em uma suave carícia. – E acho que você não saberia ser maldosa mesmo se alguém lhe apresentasse uma dissertação sobre o assunto.

– Então suponho que isso nos torna amigos – disse ela, a voz ligeiramente abalada.

James sorriu e Elizabeth sentiu o coração parar de bater.

– Você não tem outra escolha além de ser minha amiga – retrucou ele, inclinando-se mais para perto. – Afinal, conheço seus segredos mais constrangedores.

Um risinho nervoso escapou dos lábios dela.

– Um amigo que vai encontrar um marido para mim. Que curioso.

– Ora, imagino que consigo fazer um trabalho melhor do que a Sra. Seeton. Se é que esse é o verdadeiro...

– Não repita isso – pediu ela.

– Considere como não dito. Mas se quiser mesmo ajuda... – Ele a encarou de forma mais detida. – Você quer ajuda, não quer?

– Hã... sim.

Eu acho.

– Vamos precisar começar imediatamente.

Elizabeth olhou de relance para um relógio de mesa, muito rebuscado, que lady Danbury importara da Suíça.

– Preciso estar de volta à sala de estar em menos de uma hora.

James folheou algumas páginas de Como se casar com um marquês e balançou a cabeça enquanto examinava as palavras.

– Humm, não é muito tempo, mas... – Ele a encarou com intensidade. – Como conseguiu escapar de lady Danbury a essa hora do dia?

– Ela está tirando um cochilo.

– De novo?

A expressão no rosto dele não escondeu a surpresa.

Ela deu de ombros.

– Achei tão inacreditável quanto você, mas ela insistiu. Exigiu silêncio absoluto e me disse para só acordá-la dali a setenta minutos.

– Setenta?

Elizabeth fez uma careta.

– Isso foi para me manter atenta. Estou citando-a de forma literal, a propósito.

– Por algum motivo, isso não me surpreende. – James tamborilou com os dedos sobre a mesa principal da biblioteca, então olhou para Elizabeth. – Podemos começar depois que você for liberada do trabalho, esta tarde. Vou precisar de algum tempo para preparar um plano de aula, e...

– Um plano de aula? – ecoou ela.

– Precisamos ser organizados. A organização torna qualquer objetivo alcançável.

Elizabeth voltou a ficar boquiaberta.

James franziu o cenho.

– Por que está me olhando desse jeito?

– Você falou exatamente como lady Danbury. Na verdade, ela costuma dizer essa mesma frase.

– É mesmo?

James pigarreou. Maldição, estava se descuidando. Alguma coisa em Elizabeth e naqueles olhos azuis angelicais o faziam esquecer que estava trabalhando sob disfarce. Nunca deveria ter usado uma das máximas preferidas de Agatha. Elas haviam sido incutidas em sua mente com tanta frequência quando ele era criança que agora também eram máximas dele.

E acabara se esquecendo de que estava falando com a única pessoa que conhecia cada uma das excentricidades de Agatha tão bem quanto ele.

– Estou certo de que é apenas uma coincidência – disse James, mantendo o tom firme.

Sua experiência dizia que as pessoas tendiam a acreditar em qualquer coisa que dissesse desde que ele passasse a ideia de que sabia do que estava falando.

Mas, ao que parecia, isso não se aplicava a Elizabeth.

– Ela diz isso pelo menos uma vez por semana.

– Ora, então devo tê-la ouvido dizer essa frase em algum momento.

Elizabeth pareceu aceitar essa explicação, porque deixou de lado o assunto e disse:

– Você estava dizendo alguma coisa sobre planos de aula...

– Sim. Vou precisar da tarde para me organizar, mas podemos nos encontrar depois que terminar seu horário de trabalho. Posso acompanhá-la até em casa e começamos no caminho.

Ela deu um sorrisinho.

– Muito bem. Eu o encontrarei no portão da frente às 4h35. Sou liberada às quatro e meia, mas levo cinco minutos para caminhar até o portão – explicou.

– Não podemos nos encontrar aqui?

Ela fez que não com a cabeça.

– Não, a menos que você queira todos os fofoqueiros da Casa Danbury falando de nós.

– Excelente argumento. No portão da frente, então.

Elizabeth assentiu e saiu da biblioteca, as pernas ligeiramente bambas mal conseguindo levá-la de volta ao banco acolchoado. Santo Deus, no que estava se metendo?

Miau.

Ela olhou para baixo. Malcolm, o gato demônio, estava sentado aos pés dela, encarando-a como se ela fosse um rato de cozinha.

– O que você quer?

O gato pareceu dar de ombros. Até então, Elizabeth não sabia que um gato era capaz de demonstrar sentimentos, mas a verdade era que também nunca imaginara que se veria sentada no grande corredor da Casa Danbury, conversando com sua nêmesis felina.

– Você me acha ridícula, não é mesmo?

Malcolm bocejou.

– Concordei em deixar o Sr. Siddons me treinar para conseguir um marido.

As orelhas do gato se inclinaram para a frente.

– Sim, eu sei que você gosta mais dele do que de mim. Aliás, você gosta mais de qualquer pessoa que não seja eu.

O gato voltou a dar de ombros, mostrando claramente que não estava disposto a contradizê-la.

– Você acha que não consigo, não é?

Malcolm girou o rabo uma vez. Elizabeth não tinha a menor ideia de como traduzir aquilo, mas dado o bem-documentado desprezo do gato por ela, acreditava que quisesse dizer “Eu tenho mais chances de conseguir um marido do que você”.

– Elizabeth?

Ela ficou vermelha como um tomate e virou a cabeça rapidamente. James enfiara a cabeça pela porta da biblioteca e estava olhando para ela com uma expressão interrogativa.

– Você está conversando com o gato?

– Não.

– Eu poderia jurar que a ouvi conversando com ele.

– Pois bem, não estou.

– Ah.

– Por que eu conversaria com o gato? Ele me odeia.

Os lábios de James se curvaram para cima.

– Sim. É o que você diz.

Elizabeth tentou fingir que não percebera quanto o próprio rosto estava vermelho e perguntou:

– Você não tem nada para fazer?

– Ah, sim, planos de aula. Vejo você logo depois das quatro e meia.

Elizabeth esperou até ouvir a porta da biblioteca se fechar com um clique.

– Santo Deus – sussurrou. – Fiquei louca. Completamente louca.

E, em uma afronta final, o gato assentiu.