De lagarta a borboleta: Quando o amor se transforma

Parte VII

P A R T E V I I

 

Gabriela deu uma última olhada

no espelho e constatou que estava adequadamente vestida para a ocasião: trajava uma calça social de cor preta e uma blusa de tecido mais fino, de cor branca. Nada de decote. Usava um sapato de salto baixo, fechado e sem detalhes. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo e sua maquiagem era leve e discreta.

 

Estava um pouco nervosa, afinal,

essa seria sua primeira entrevista de emprego. Mas ao mesmo tempo, estava empolgada, pois trabalhar em um jornal era o que mais desejava e por isso se empenharia ao máximo para conseguir a vaga.

 

Desde que chegara de Salvador,

saía todos os dias, espalhando currículos por toda a cidade. Mesmo já tendo alcançado a maioridade, sabia que precisava ser um pouco mais independente para conseguir o respeito da sua família.

Ao chegar ao lugar indicado,

estranhou, ao ver que havia ali, um bonito e elegante restaurante. Mesmo assim, respirou fundo e entrou. Atrás de um balcão, havia uma mulher que aparentava ter seus trinta e poucos anos, distraída em organizar notas e vários papéis.

Gabriela se aproximou e a

 

cumprimentou, educadamente:

— Boa tarde! Me informaram que

havia neste local um jornal e estavam precisando de colaboradores. Mas acho que houve um engano.

— Ah, não! — exclamou a

simpática balconista — é aqui mesmo. Fica no primeiro andar. Pode subir. O senhor Rogério está a sua espera.

— Obrigada — Gabriela sorriu e

subiu os degraus, até chegar a uma grande sala, onde um senhor, muito concentrado, estava sentado em frente a um computador.

Ao notar a presença de Gabi, o

senhor, de baixa estatura e bigodes, a olhou por debaixo dos óculos, mostrando seus olhos grandes e expressivos. No seu rosto, uma expressão de dúvida. Então Gabriela apressou-se em apresentar-se, estendendo-lhe a mão:

— Oi, meu nome é Gabriela. Sou

a moça que vocês ligaram. — ele ainda não entendia — a vaga do jornal! — disse Gabi, rindo sem graça.

— Ah! claro...claro! Me perdoe

— desculpou-se o senhor Rogério — vamos, sente-se. Pode ficar à vontade. Estava aqui tão concentrado que até já havia me esquecido. Espere só um minutinho enquanto termino isso aqui para conversarmos.

—T u d o b e m , n ã o estou

com pressa. —

respondeu Gabi, enquanto olhava discretamente para todo o ambiente.

Uma estante repleta de livros

ocupava um lado inteiro da parede, fazendo com que Gabriela ficasse totalmente excitada. Era fascinada por livros. Sentiu vontade de devora-los, um a um, avidamente. O senhor Rogério, percebendo o brilho em seus olhos, perguntou:

— Gosta?

— Hã? — ela não entendia.

— Os livros. Você gosta de ler?

— Nossa! Eu sou louca por

livros! Desde pequena que eu não aguentava ver uma revistinha em quadrinhos que ia logo comprando

e... — conteve-se, com receio de

que não fosse conveniente ser tão informal naquela situação. Mas o rosto daquele senhor era bastante receptivo e ele riu da sua empolgação. No centro da grande sala, havia uma mesa, inteiramente coberta por jornais e revistas, todas em desordem, demonstrando, assim, que ele estava realmente precisando de ajuda.

G a b r i e l a d i s t r a í a -s e e m suas

observações, quando

ele finalmente terminou o que estava fazendo e iniciou a conversa:

— Bem, pelo que vê, aqui está

uma grande bagunça. — riu. — e eu sozinho não tenho como administrar o jornal, pois o restaurante me ocupa bastante tempo. Tenho uma funcionária, na verdade, uma grande amiga, que me ajuda, viajando pela região, fazendo assinaturas e divulgando o nosso projeto. Mas ela sozinha não está dando conta. Então irei precisar de uma pessoa para auxilia-la nessas vendas e também para pesquisar fatos, notícias, enfim, você sabe como é.

— Entendo — consentiu Gabriela.

— Na verdade, senhorita...como é

mesmo seu nome? Olhou no currículo— senhorita Gabriela. Então...o que acontece? Esse sempre foi um grande sonho meu. E aos poucos espero que as pessoas valorizem mais a cultura da nossa cidade e toda essa questão da leitura e dos benefícios que ela traz. A leitura nos enriquece, nos leva a mundos antes desconhecidos. Para quem gosta, realmente, é um prazer indescritível.

— Entendo perfeitamente —

concordou Gabi.

— E então, quando começamos?

— perguntou senhor Rogério, fazendo com que Gabi quase pulasse de felicidade. No entanto, apenas respondeu:

— Quando o senhor quiser.

— Você pode vir amanhã cedo?

— Sim, claro, sem problemas.

Gabriela despediu-se, com um

aperto de mão e voltou para casa, animadíssima.

Assim que chegou, pegou o

telefone e discou o número de Bruno:

— Você não acredita...consegui o

emprego!

— Nossa, que ótimo! Parabéns

Gabi! E começa quando?

— Amanhã cedo.

— Muito bom! E Malu, você já

falou com ela hoje?

— Ainda não. Vou ligar mais

tarde, para dar a notícia. Ela vai ficar muito feliz.

Gabriela e Malu falavam-se todos

os dias pelo telefone, amenizando, assim, a distância de tempo e espaço.

— E ela, volta quando? —

continuou Bruno.

— Então...era sobre isso também que eu queria falar com você...Daqui a uma semana é o aniversário de Malu. Coincidentemente na data que ela volta de São Paulo. E aí eu pensei que poderia aproveitar e recepciona-la com uma surpresa de aniversário. O que você acha?

— Eu acho uma ideia

maravilhosa! — exclamou Bruno — Vamos fazer, sim. Ela merece. Pode deixar que eu cuido de tudo. Você já pensou no lugar?

— Bem, eu pensei na casa de

Júlio. Ele mora sozinho e eu tenho certeza que do jeito que gosta de Malu, não irá se incomodar.

— Perfeito! — Bruno estava

empolgado. — Faz assim: deixa que eu trato disso com ele. Você me dá a lista dos convidados e eu ligo para confirmar um a um. E as bebidas?

— Isso fica por minha conta. E a

comida Carol já disse que faz. você sabe que ela é nossa "mestre-cuca"— riu.

— Ok. Tenho certeza que vai dar

tudo certo. Não se preocupe.

— Obrigada meu amigo. Qualquer

coisa que precisar me liga.

— Ligo sim. Beijo, meu amor. —

Bruno desligou.

Gabriela parou por uns instantes

e roeu as unhas. Era extremamente ansiosa. Qualquer coisa que planejava fazer, sofria por dias de antecedência, perdia até o sono.

O seu primeiro dia de emprego e

a chegada de Malu eram bons acontecimentos para ela. No entanto, o frio no estômago persistia. Tinha medo que algo de ruim atrapalhasse a sua felicidade, já que tinha passado por tantos momentos difíceis ultimamente.

Ao chegar no jornal, o senhor

Rogério lá estava, sentado em frente ao computador, como no dia anterior.

— Bom dia! — cumprimentou

Gabi.

— Olá, senhorita! bom dia! —

respondeu alegremente, seu simpático chefe — bem, vamos lá! sei que o primeiro dia é sempre difícil, você deve estar meio perdida, mas não se preocupe, aos poucos você acaba se acostumando. Primeiro — continuou — quero que organize esses papéis da maneira que vou te explicar. No período da tarde, preciso que saia com Elza para tentar fazer algumas assinaturas. Você pode fazer isso?

— Pode deixar comigo —

respondeu, decidida.

No dia da chegada de Malu,

Gabriela trabalhou normalmente durante o dia, enquanto se comunicava com Bruno, para ver se estava correndo tudo bem com os preparativos.

— Gabi, já falei com todos. Não

faltará ninguém. Você acha que ela não vai desconfiar de nada?

— Creio que não, Bruno, pois falei com ela hoje e combinamos de nos encontrar na casa de Júlio, depois que ela matar a saudade da família.

— Então até mais tarde. Ei! como

é que está esse coraçãozinho aí?

— Ai...! — Gabi se derrete —

nem me fale. Estou aqui com a cabeça nas nuvens. Nem acredito que aguentei mais um mês.

— Eu imagino. Mas agora vai

ficar tudo bem. Nada mais vai atrapalhar vocês. Respire, vá para casa, tome um banho e fique bem bonita para esta noite. O universo vai devolver a vocês todo o tempo que foi roubado de felicidade. Vocês merecem! — Gabriela abriu um largo sorriso e desligou o telefone, dando um longo suspiro.

 

Quando chegou na casa de Júlio,

estavam todos lá. Gabi abraçou e beijou cada um deles, carinhosamente. Era querida pelos amigos justamente pelo modo amoroso com que os tratava. Gabi gostava de abraços e demonstrava livremente seus afetos.

Todos conversavam

animadamente quando Vitor interrompe, com o dedo indicador sobre a boca, pedindo silêncio.

— Ela chegou! Apaguem as luzes!

ninguém fala nada!

— Júlio? — Malu abriu a porta

devagar. — Gabi? tem alguém aí?

De repente as luzes se acendem e

todos gritam ao mesmo tempo:

— Surpresa!

Malu arregalou os olhos e

colocou as mãos sobre a boca, num gesto de choque e emoção ao mesmo tempo. Gabriela não esperava outra reação dela: Malu nunca reagia de forma contida a coisas, palavras e pessoas que ela gostava. Suas mãos, cabelos e braços respondiam a tudo ao seu redor. Seus famosos gestos exagerados, tão dela! E aquele largo sorriso de felicidade...ah, como Gabriela amava e sentiu falta!

Todos a abraçam, um a um,

enquanto ela, ainda atônita, agradece pelo gesto e diz que não esperava. As pessoas se dispersam, cada um pegando a sua bebida e conversando entre si. Os olhares de Malu e Gabi se encontram exatamente no instante em que alguém põe a música preferida delas.

— Não vai me dar um abraço? —

Malu abre os braços.

Gabriela literalmente se joga nos

braços de Malu e logo em seguida ouvem aplausos e gritos dos amigos, que fizeram um círculo ao redor delas, em seguida, unindo-se todos, em um só abraço.

 

A noite foi a mais agradável e

divertida possível. Gabi sentou-se no colo de Malu, enquanto ela narrava a todos como foi a viagem, fazendo piadas de tudo, com seu típico bom humor, exacerbado. Seus amigos faziam brincadeiras também, fazendo com que Gabi recuperasse toda a alegria que havia perdido. Constatou, naquele momento, que seus amigos eram os mais leves e mais engraçados que existiam no mundo inteiro. E ali ela se encontrava. Estava feliz por Carol, Bianca e Marília estarem ali, também, fazendo parte do seu mundo, lhe dando apoio incondicional.

Gabi levantou-se para pegar mais

uma taça de vinho e viu Bruno, que fumava um cigarro no quintal.

— Bruno? — Grita Gabi — posso

ir aí te fazer companhia?

— Claro, vem!

Bruno colocou seus longos braços ao redor de Gabi e a envolveu, em um abraço caloroso:

— E aí, "tá" feliz?

— Muito. — o abraçou mais forte

— muito mesmo.

 

******************************

 

Gabriela havia sido incumbida de

ir a uma grande empresa renomada, com o objetivo de fazer a assinatura do jornal, que estava crescendo a cada dia, mas que precisava ainda de estímulos dos representantes empresariais daquela cidade, já que o senhor Rogério buscava sempre o aprimoramento do jornal, aumentando mais as suas páginas, investindo em seu sonho.

Depois de uma bem-sucedida

negociação, o empresário sentado à sua frente perguntou -lhe:

—Então, você trabalha com

Rogério...?

— Sim, trabalho. E gosto muito

do que faço. Além do mais, ele é um patrão muito bom.

— Entendo. Mas você não tem

pretensão de fazer outra coisa? Ganhar mais, talvez?

— Por enquanto, não. Ele está

precisando de mim no momento e o senhor sabe, aqui na cidade não temos lá muitas opções... — fez uma pausa — mas me desculpe, porque o senhor está me perguntando isso?

— Bem, — respondeu o homem

de estatura baixa e muito branco, do outro lado da mesa — é que nossa secretária foi embora ontem e vamos precisar de uma substituta. E...enfim, achei você bem inteligente e comunicativa.

— Oh, eu agradeço, de verdade,

mas é que realmente não posso deixar meu patrão na mão. O senhor entende...

— Ah, sim, claro, não tem

problema. De qualquer forma, foi bom conhecer a senhorita. — despediu-se, estendendo-lhe a mão.

Gabi já saía, quando subitamente

algo lhe veio à mente:

— Olha só, eu não estou

disponível no momento, mas conheço alguém que pode preencher os requisitos que o senhor procura. Ela é responsável, organizada e até mais comunicativa que eu.

— É mesmo? e quem é? —

interessou-se.

— É... uma grande amiga.

— Pois bem, então peça para ela

vir amanhã conversar comigo.

— Ela virá. Muito obrigada. E

tenha um bom dia.

No dia seguinte, no final do

expediente de Gabriela, Malu foi busca-la no trabalho.

— E aí, me conta como foi Malu, a entrevista.

Malu baixou a cabeça, por alguns

segundos, com uma expressão de desânimo e o sorriso de Gabriela esvaiu-se do seu rosto. Mas repentinamente anunciou:

— Começo amanhã!

Gabriela a empurrou levemente

pelo ombro, exclamando:

— Sua palhaça! Não faz isso! —

em seguida a abraçou, contente.

 

— Parabéns! Eu sabia que você ia

conseguir!

O celular de Malu tocou:

— Oi tia Lúcia. Não, não estou ocupada. Posso, posso sim.

Daqui a quinze minutos chego aí.

— Aconteceu alguma coisa? —

perguntou Gabi.

— Não sei bem, mas me parece

que Brena aprontou mais uma.

Quando as duas chegaram na casa

de Lúcia, ela estava aos prantos e depois que Malu lhe deu um copo com água, ela se acalmou um pouco e começou a falar:

— Eu acordei, fui no quarto de

Brena. Ela não estava. Saiu de madrugada e deixou este bilhete aqui:

Gabriela leu em voz alta:

"Mãe, me desculpe pela

decepção, mas eu preciso buscar minha felicidade. Fui embora com Amanda. Não contei antes porque sabia que a senhora não ia aceitar, mas estou apaixonada por ela e estamos indo morar juntas. Eu mando notícias. Me desculpe mais uma vez. Te amo."

Gabriela e Malu entreolharam-se,

chocadas.

— Quem é essa Amanda, gente?

quando foi que tudo aconteceu que eu não vi? aquela menina ainda vai me matar! — clamava Lúcia.

 

Foi Malu quem começou:

— Bom, tia, na verdade Gabi e eu

já desconfiávamos que elas estavam meio...próximas demais. Daí chamamos Brena para conversar, pois ficamos preocupadas em a senhora pensar que fosse influência nossa. Mas ela não aceitou conselhos e disse que nós duas não tínhamos moral para lhe impor nada. E diante disso, resolvemos lavar as mãos — completou Gabi — mas não pensamos que fosse tão sério assim. Além do mais, Amanda é uma pessoa tão sensata, me admiro que ela tenha abandonado o emprego assim! Me parecia tão responsável...não é, Malu?

— Ela é uma corruptora de

menores, isso sim! — revoltou-se Lúcia — mas isso não vai ficar assim. Vou ligar agora para o pai de Brena e mandar ele tomar uma providência. Eu encontro a minha filha, nem que para isso ele precise acionar a polícia ou seja lá o que for!

Gabi e Malu permaneceram

caladas.

— Quando é que eu vou ter

sossego, meu Deus? — Lúcia desabafava — essa menina já fugiu de casa, já falsificou cheques do pai, já fingiu uma gravidez, já tentou se matar...e agora mais essa!

— Calma, tia — Malu afagava

seus ombros — não se preocupe que logo ela volta. Brena gosta de chamar a atenção. Logo ela se cansa, descobre que não era isso que ela quer realmente e tudo voltará ao normal. É só uma questão de tempo.

Malu tinha razão. Meses depois,

as dificuldades começaram a aparecer. As economias de Amanda acabaram, as duas sem emprego e morando de favor na casa dos outros, tudo isso foi contribuindo para o desencanto.

Brena voltou para a sua casa. Mas

não por muito tempo. Sua inquietação e ansiedade de viver não a permitia fixar-se em só um lugar. Como não gostava de estudar, nem de trabalhar, logo descobriu uma nova maneira de ganhar a vida. Sendo Jovem e bonita, cabelos loiros e brilhantes, Brena decidiu explorar seus dotes físicos, transformando-se assim, em garota de programa.

 

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Gabriela terminava de se maquiar,

 

quando seu celular toca:

— Oi Malu.

— Poxa Gabi, já estou há quase

quinze minutos te esperando aqui na esquina da sua casa. Vai casar é?

— Só se você me pedir em

casamento. — riu. — desculpa meu amor pela demora. Já terminei. Estou saindo agora mesmo.

Gabriela e Malu moravam perto

uma da outra, por isso sempre combinavam no mesmo lugar, quando iam sair juntas.

Era aniversário de Gisele. Todos

os anos ela reunia os amigos para comemorar, regados a licor e comidas típicas dos festejos juninos, que era no mesmo dia. Estavam todos reunidos em volta da fogueira, celebrando alegremente aquela data.

Depois do aniversário, todos

resolveram ir a outra festa.

Dividiram-se, então, entre dois

taxis. Gabriela pede:

— Entra, Malu! O que é que você

está fazendo parada aí?

— Espera Gabi. — gesticulou

com a mão, apreensiva — eu acho que está acontecendo alguma coisa ali.

Gabi olhou para trás através do

vidro e viu que suas amigas discutiam com alguém.