De lagarta a borboleta: Quando o amor se transforma

Parte II

P A R T E I I

 

Gabriela tentou disfarçar o

espanto forçando um sorriso:

— Oi Joane. Entra!

 

— Não, aqui está bom pra mim!

— respondeu, friamente— Acredito que você já deve imaginar o porque estou aqui...

 

— Não faço a menor ideia.

 

— Não mesmo? — perguntou Joane, irônica. — então você pode me dizer o que é que você e Malu estavam fazendo, sozinhas, às dez horas da noite?

 

— Puxa! — exclamou Gabi

tranquilamente — Izabel foi bem precisa nos detalhes, não foi?

 

— Não foi ela quem me contou —

mentiu Joane. — eu segui vocês e vi tudo.

 

— Tudo o quê? Não aconteceu

nada, Joane! Eu e Malu somos apenas amigas. Nós nos encontramos por acaso, era meu aniversário, ela me cumprimentou e viemos para casa juntas, já que moramos perto uma da outra. Qual o problema?

 

— O problema, Gabriela, —

começou Joane. Seu tom agora era de mágoa — é que eu não confio em ninguém. Muito menos em Malu. Não é a primeira vez que isso acontece e não é agora que eu vou me enganar.

 

Gabriela sentiu vontade de dizer

a Joane que não foi de propósito, nada foi planejado. Que aconteceu de repente e ela foi dominada por algo maior. Mas Joane não entenderia, o que é compreensível. Sentiu vontade também se lhe dizer que sabia que o relacionamento delas estava em crise, por conta dos rumores de que ela, Joane, estaria tendo um caso já há algum tempo, com seu chefe. Mas preferiu não abordar um assunto, que por certo, traria ainda mais discussão. Por isso Gabi manteve a mesma postura:

 

— Olha Joane, eu repito que eu e

Malu nunca tivemos nada mais que amizade e nem existe essa possibilidade. Mas se você não acredita, infelizmente eu não posso fazer nada. Só acho que você está nervosa e que vocês deveriam conversar e tentar se acertar. Não tome nenhuma atitude precipitada por conta de um mal entendido. — Apesar de não estar falando a verdade, Gabriela desejava verdadeiramente preservar Malu e não se sentir responsável pelo que Joane faria com ela, pois sabia do seu temperamento agressivo.

 

— Não é um mal entendido. E nós

sabemos disso. Mas tudo bem, já terminamos. Pode ficar com ela. — Joane virou as costas e foi embora.

 

Estranhamente, Gabriela não se

sentiu feliz com a notícia. Ela não queria que tudo tivesse acontecido daquela forma. Não queria Malu daquele jeito. Na verdade, chegou à conclusão de que tudo fora um sonho, mas que já era hora de acordar.

 

Logo elas fariam as pazes, depois brigariam e fariam as pazes de novo. Mas não se separariam, mesmo infelizes.

 

Gabriela não queria fazer parte

daquela loucura, não queria se machucar, nem machucar ninguém. Decidiu isolar-se um tempo até que as coisas se acalmassem e com o tempo tudo voltasse ao que era antes.

 

*****************************************************

 

Gabriela já não estava mais de

repouso. Faltava menos de um mês para acabar o ano letivo e ela decidiu ficar mais tempo em casa, estudando para recuperar as aulas que tinha faltado.

 

Entediada, jogou o livro no sofá e

decidiu tomar banho. Aproveitando que sua mãe havia saído, ligou o som no último volume e entrou no banheiro, cantarolando as músicas animadamente. Ouviu a campainha tocar e gritou do banheiro, em meio ao barulho:

 

— Dalva! Atende pra mim, por

favor!

 

Desligou o chuveiro e ao sair do

banheiro, percebeu que Dalva já havia ido embora. Então secou os cabelos rapidamente e se enrolou na toalha, se encaminhando até a porta.

 

Quando a abriu, ficou totalmente

imobilizada ao ver Malu.

 

Conseguiu dizer, num fio de voz:

— Oi.

 

Malu sorriu naturalmente e Gabi

a odiou por lhe provocar tantas reações e continuar tão impassível.

 

— Não vai me convidar para

entrar?

— Claro, entra! — disse Gabi,

desajeitada. — deu um passo para trás e se esbarrou no sofá. Percebeu que Malu escondeu um sorriso zombador.

 

— Sua mãe não vai me colocar

pra correr não né? Gabi sorriu.

 

— Claro que não, sua boba. Ela

não está em casa. — e apontando para o sofá— pode ficar à vontade. — E então olhou para o próprio corpo, se dando conta que ainda estava de toalha — espera só um minutinho que eu vou me trocar. Volto já!

— Por mim, não precisa se

incomodar — Malu deu um sorriso malicioso e Gabi sentiu o rosto enrubescer. E então saiu, voltando em seguida, já com os cabelos penteados e usando um vestido floral despojado. Sentou na poltrona com as pernas cruzadas e mesmo estando em sua casa, sentia-se pouco à vontade, com a presença perturbadora de Malu, que a olhava compenetrada, perguntando:

 

— Como você está?

 

— Bem. Pronta para outra. —

em seguida, Gabi bateu na madeira três vezes e as duas sorriram.

— Como você soube? — Gabi

lembrou-se de perguntar.

 

— Izabel...

 

— hum...!

 

— Joane veio aqui. — disse Gabi,

mudando de assunto.

 

— É, eu sei. Ela te ofendeu?

 

— N ã o , s ó d i s s e o que

estava sentindo. Vocês voltaram? — perguntou Gabi, embora com medo da resposta.

 

— Na verdade, nem chegamos a

romper. Mas acabou, de qualquer forma. É só uma questão de tempo.

 

— Eu s i n t o m u i t o , não

queria ter provocado

nada disso...— murmurou Gabi, baixando os olhos.

 

Malu tocou em sua mão e todo o

corpo de Gabi reagiu a esse toque. O sangue correu mais rápido em suas veias e um calafrio atravessou violentamente sua espinha. Malu demostrava ter as mesmas reações, pois apertou sua mão ainda mais, enquanto dizia:

 

— Gabi, você não provocou nada.

Foi maravilhoso e eu não me arrependo. Não deixei

de pensar em

você um dia sequer...porque acha que estou aqui?

 

Gabi não respondeu. Nem resistiu

quando Malu a beijou. Apenas se deixou mergulhar nas sensações que o contato com Malu lhe provocava. E então ela percebeu que não poderia fugir. Tudo nelas imploravam para que se tocassem. Era algo tão forte que no tempo que se seguiu, passaram a se encontrar todos os dias.

 

*********************************************

 

Gabriela passou a frequentar a

casa de Malu constantemente. Era mais fácil, pois a mãe de Malu, D. Rosana, não ficava tanto tempo em casa quanto a mãe de Gabriela e mesmo quando estava, aparentemente não notava diferença, já que Gabi já costumava visitar Malu quando eram amigas.

 

Aproveitavam ao máximo a

companhia da outra. Gabriela estudava pela manhã e Malu era monitora de outra escola no mesmo período, então tinham a tarde inteira livre para ficarem juntas.

 

Quando estavam na casa de Malu,

costumavam assistir a filmes ou ouvir música, enquanto falavam de tudo com um prazer e sintonia incríveis, e o tempo passava sem que percebessem. Outras vezes, Gabi ouvia

Malu tocar violão, com sua

voz rouca e melodiosa. Malu cantava olhando para Gabi, que sorria, sem graça.

 

Quase todas as tardes, passeavam na inseparável bicicleta verde de Malu, pelas ruas desertas da cidade e volta e meia paravam, para beijar-se quando não tinha ninguém olhando. Às vezes iam tomar sorvete e depois sentavam no jardim e lá ficavam, por infindáveis horas, alheias ao mundo, entregando-se aos momentos de magia e descontração, olhando nos olhos, rindo das coisas mais bobas.

 

Malu encontrava em Gabriela a

felicidade nas coisas mais simples, que junto com ela se tornaram as mais prazerosas. Sua leveza e espontaneidade a fazia esquecer os seus problemas e sem se dar conta, pegou-se sentindo saudade dela mais que o normal, dependendo da sua companhia e então ela saía de casa a qualquer hora e assoviava na frente da sua casa. E lá vinha Gabriela, com seu sorriso que ela já se acostumava, se atirando em seus braços sem pudor, deixando qualquer coisa que estivesse fazendo para encontrá-la.

 

Era final de novembro. Já se

iniciavam as preparações para a Festa da padroeira, tradicional na cidade. Oito dias em que o Padre rezava as missas e no final, Bandas de música da região animavam a Praça. As quermesses se enchiam de gente, comprando comidas típicas ou mandando recado pelo "correio do amor".

 

Gabi estava animadíssima, pois veria Malu todos os dias, mesmo à distância. Mesmo sabendo que ela estaria com Joane. Ela aceitara aquela posição e por isso não podia lhe cobrar nada. Tentava controlar seus impulsos e não exigir de Malu mais do que ela poderia lhe dar. Chegou a experimentar certa excitação, ao pensar na cara de Malu, quando a visse com suas amigas, sem poder demonstrar qualquer reação suspeita.

 

Gabi decidiu contar a Bianca. Ela

era sua amiga há anos e não deixaria de ser por causa disso.

 

— Eu já sabia!

— Já? — surpreendeu-se Gabi.

 

— Claro— respondeu Bianca

naturalmente — do jeito que vocês se olham, só um cego não enxerga.

Durante todo o tempo, Bianca

cutucava Gabi, cochichando:

 

— Ela não tira os olhos de você.

Nem consegue disfarçar.

 

Horas mais tarde, depois de

deixar Joane em casa, Malu aproximou-se de Gabi e Bianca, avisando que estava indo embora e perguntando discretamente se Gabriela iria naquele momento. Bianca, sem querer atrapalhar, despediu-se e foi embora. Malu percebeu que ela já sabia e sorriu satisfeita. Gostava dela.

 

G a b r i e l a e s t a v a m a i s calada

que o costume e Malu

estranhou:

 

— O que foi meu bem? aconteceu

alguma coisa?

 

— Não, claro que não. —

respondeu Gabi, evasivamente.

 

Malu estava sentada e Gabi estava entre suas pernas, com a cabeça encostada em seu ombro, olhando para um ponto qualquer à sua frente. Malu pegou delicadamente em seu rosto e a virou, olhando em seus olhos:

 

— Gabi, você não sabe fingir.

Está distante...Porque não me diz o que está te incomodando?

 

Então Gabi a encarou, dizendo:

 

— Aconteceu.

 

Malu, confusa, estreitou os olhos, sem entender.

 

— É isso, Malu, aconteceu! Eu

tentei ser forte, fiz o que pude para evitar. Quando decidi ficar com você, sabia que correria esse risco, mas algo mais forte latejava dentro de mim e eu me rendi. Mas agora sinto que já não tenho mais controle. Ver você e Joane juntas está mexendo comigo e eu penso em você o tempo inteiro e sinto vontade de te ver um minuto depois de ter visto — respirou fundo — Aconteceu, eu me apaixonei. É isso, me apaixonei perdidamente por você, e sinceramente, não sei o que fazer para mudar isso.

Malu sorriu com um intenso

brilho nos olhos e abraçando

Gabriela, sussurrou:

 

— Então você demorou muito

para descobrir, porque eu acho que me apaixonei por você desde a primeira vez.

 

Gabriela desvencilhou-se do

abraço, olhando-a, contente:

 

— Sério?

 

— Hum rum!

Gabi abraçou Malu novamente,

encostando a cabeça em seu peito, e as duas ficaram assim por um longo momento. Passando a mão no cabelo preto e liso de Gabi, Malu perguntou:

 

— O que eu faço com você, hein

menina?

 

Gabi sorriu e se aninhou mais

ainda nos braços de Malu.

 

***************************************************

Era véspera de Natal. Joane havia

rompido definitivamente com Malu, o que a fez balançar completamente. Era cômodo para Malu manter dois relacionamentos sem ter que fazer uma escolha, por isso, a decisão de Joane não lhe trouxe alívio, mas uma forte sensação de rejeição.

 

Malu gostava de Gabriela. Mais

que isso: ela não se lembrava de ter sido tão feliz ao lado de alguém. Gabi lhe trazia paz. E a enlouquecia. Era meiga e compreensiva. Ao mesmo tempo, sedutora e perigosa. Fascinava -lhe o seu jeito de menina e ao mesmo tempo de mulher. Ela nunca havia experimentado tanto perigo ao lado de outra pessoa e nunca ficara tão excitada. Ao seu lado, sentia-se viva, fazendo as maiores loucuras da sua vida, encontrando o apoio que precisava. Gabi entregava-se completamente a ela e não cobrava nada em troca. Era a mulher perfeita. Era tudo que Malu desejava.

 

No entanto, aquilo não foi

suficiente. Gabi era algo novo e arrebatador, mas Joane significava estabilidade e segurança. E Malu sentiu falta disso. Tudo o que elas construíram juntas estava acabado e Malu não tinha certeza se queria assumir uma nova relação, sem antes, curar suas feridas, avaliar-se e descobrir o que realmente queria e sentia.

Malu e Gabriela resolveram se

afastar também. Ambas optaram pela sensatez de, naquele momento, não misturar os sentimentos, que já estavam bastante confusos.

 

Era noite de natal e Gabi não

sentia o menor ânimo. Bianca e Carol insistiam mais uma vez:

 

— Vamos, Gabi, levanta dessa

cama! Não tem sentido você ficar aí, enquanto todos estão animados, comemorando o dia de hoje. Não tem a menor graça sair sem você...

Balançando a cabeça, Gabriela

repetiu:

 

— Não, podem ir! Eu estou

indisposta e além do mais, vou ser uma péssima companhia. Vão e divirtam-se por mim!

 

— Mas em pleno Natal, Gabi,

você ficar aí, servindo de babá! — reclamou Bianca, referindo-se ao seu filho Leonardo, de oito meses, que ela tinha tido aos vinte anos, com seu ex namorado.

 

— Garanto que vai ser melhor

ficar olhando pra esse rostinho lindo do que pra vocês duas, suas feiosas! — brincou Gabi.

Bianca fingiu estar ofendida,

fazendo uma careta para sua amiga, depois olhando no espelho, perguntou:

 

— Como estou?

 

— Linda! — respondeu Gabi,

sinceramente.

 

Bianca usava uma calça preta e

blusa sem alças, de cor verde, combinando com seus olhos. Seus cabelos lisos e castanhos estavam na altura dos ombros e Gabi constatou que sua amiga era realmente muito bonita.

 

Depois que elas saíram, Gabriela

deu um longo suspiro. Olhou para o pequeno Leo, que dormia, alheio ao barulho da televisão e Gabi pensou: "Ah! como eu gostaria de voltar a ser criança, para não pensar em nada...!"Passou os dedos em seu rostinho gordo e rosado e sorriu afetuosamente.

 

Lembrou-se de Malu. "como ela

estaria?", perguntou-se. Não tinham se visto, nem se falado, nos últimos dias. E Gabi estava evitando que isso acontecesse, pois tinha consciência da atração que sentiam e provavelmente acabariam juntas naquela noite, o que não seria prudente para o seu coração.

 

************************************

 

Último dia do ano.

 

— Ah. Não, agora é a minha vez

— reclamou Carol — Você já está há quase meia hora neste espelho, Gabi!

 

— Tudo bem, agora já estou

pronta— disse Gabriela, dando uma última olhada em sua imagem.

Ela usava um vestido branco na altura dos joelhos, e o único detalhe era a renda transparente um pouco acima dos seios, deixando-os parcialmente à mostra. Sua estatura média foi ressaltada pelas sandálias de salto alto e seus cabelos estavam cortados na altura dos ombros, os fios levemente repicados. A maquiagem, um pouco mais pesada que o costume, finalizou o efeito desejado.

 

Gabriela era naturalmente

feminina. Gostava de roupas delicadas, que não chamassem muito a atenção, especialmente vestidos. Malu costumava dizer que a reconhecia a quilômetros de distância, pela sua mania repetitiva de passar a mão pelos cabelos.

Gabi não era em nada esnobe,

 

muito pelo contrário: era bastante simpática e agradável com todos. Aquele era só o jeito particular dela.

 

A Praça Principal estava em festa.

Os pinheiros estavam ainda todos enfeitados com as luzes de Natal e o clima era de magia. As pessoas sorriam, como sempre sorriem na véspera de um novo ano, com a esperança de uma vida melhor.

 

Gabriela conversava distraidamente com suas amigas, quando ouviu uma voz atrás dela dizer:

 

— Olha só, chegaram as três

mulheres mais bonitas da festa! Gabriela sentiu seu coração dar um pulo.

 

Carol e Bianca sorriram,

entusiasmadas, ao ver Malu. A abraçaram, exclamando:

 

— Nossa, como você está linda!

 

Malu vestia um conjunto branco,

a calça destacando as suas formas e a blusa com um decote ousado nas costas. Havia caprichado na maquiagem e Gabi a achou estonteante.

 

Seus olhares se cruzaram e

quando perceberam, estavam sozinhas. Novamente, aquela sensação de que o resto do mundo havia parado de repente.

 

Com os olhos ainda fixos em

Gabi, Malu sussurrou:

 

—Senti a sua falta!

 

— Eu também — respondeu Gabi, no mesmo tom de voz.

 

— Você vai agora? — Malu lhe

estendeu a mão.

 

— Não, eu...eu vou depois. Eu

vou com as meninas...encontramo-nos lá!

 

— Tudo bem. Nos vemos lá então

— Malu foi se afastando. Sua expressão demonstrava ter estranhado a reação de Gabi.

 

Depois que ela saiu, Gabriela

sentou, pesadamente. Suspirou alto e segurou os joelhos. Suas amigas aproximaram-se e Carol perguntou:

 

— Que cara é essa?

 

— Cara? que cara? Ora, essa é a

minha cara de sempre.

 

— Sei...— Bianca colocou a mão

na cintura. Gabriela desabafou finalmente:

 

— Ai gente, eu "tô" apaixonada!

 

— Que novidade! — responderam em uníssono. — em seguida Carol a puxou pela mão, animada e a arrastou para a festa.

 

*************************************************

 

Vinte minutos antes da meia -

noite, Gabriela já sentia os efeitos de uma noite agitada. Estava suada e seus pés doíam terrivelmente. Decidiu, então, ir ao jardim, tomar um ar.

 

Suspirou aliviada ao sentar e foi,

aos poucos, tirando as sandálias. Fechou os olhos e levantou o rosto, sentindo o vento suave.

Quando abriu os olhos, assustou-

se, ao ver que Malu estava

ao seu lado.

 

— Eu vi quando você saiu e achei

que estivesse indo embora...

 

— Isso significa que estava me

espionando? — perguntou Gabi, ironicamente.

 

— Digamos que sim — respondeu

Malu, balançando a mão de um lado para o outro.

As duas sorriram.

 

— Como é que você está? — Gabi

ficou séria de repente.

 

— Pra falar a verdade eu não sei.

Me sinto confusa e cheia de dúvidas. — começou Malu, com o olhar pensativo — o fim de um relacionamento é sempre doloroso, Gabi, mas eu sei que ninguém é insubstituível e também que ninguém fica sozinho nesse mundo. Minha mãe viveu com meu pai durante tantos anos e apesar da separação, sobreviveu. Então eu também sobrevivo — finalizou, dando de ombros.

Malu e sua mãe eram muito

 

apegadas e Gabi admirava isso. Os três irmãos dela eram todos homens, dois casados e um solteiro e moravam todos em São Paulo, onde conseguiram uma razoável estabilidade financeira. De certa forma, Dona Rosana tinha apenas a Malu como companhia.

 

— Falando nisso — continuou

Malu — minha mãe foi para São Paulo. Estou sentindo muito a sua falta — fez uma pausa — mas ela estava precisando disto. Viajar vai lhe dar um ânimo novo e quem sabe ela até arranje um namorado por lá?

Sorriram.

 

Malu olhou no relógio:

 

— Já é quase meia-noite. Você

não vai querer passar réveillon sentada no jardim com uma companhia chata como eu, vai?

 

— Chata é a última coisa que te

definiria. — disse Gabi sinceramente — eu acho até que você é a melhor companhia que alguém poderia ter, aquela que torna tudo melhor e mais divertido.

Malu sorriu sem graça e Gabi

constatou que aquilo era algo raro. Era inacreditável que uma pessoa tão desinibida se mostrasse tímida ao receber um elogio.

 

— Você também é ótima, Gabi —

disse Malu, com um olhar franco — É doce, companheira, divertida...

 

— Eu, divertida?

 

— É sim. E também muito

sensual.

Gabriela riu alto, jogando os

cabelos para trás:

 

— Você não deve estar falando

sério...

 

— Eu nunca falei tão sério em

toda a minha vida...— a voz de Malu tornou-se mais rouca — eu te desejo muito e sei que você sente o mesmo por mim.

 

Não foi preciso dizer mais nada.

Nenhuma dúvida seria capaz de estragar aquele momento e de evitar aquela entrega. Elas precisavam uma da outra. Atraíam-se e se completavam, não havia como fugir.

Estavam sozinhas no quarto de

 

Malu e nada as impedia, exceto o medo. O medo de arriscar, de se ferir, de se entregar totalmente. Mas elas enfrentariam isso depois. Naquele momento, tudo foi esquecido. Algo mais forte predominava: era a paixão latejando dentro delas

 

Apesar do desejo, não tinham

pressa. Queriam explorar aquele universo de puro mistério, que era a descoberta de seus corpos.

 

Malu colocou uma música e de

pé, frente à outra, olharam-se por um longo momento. Gabi tocou o rosto de Malu com carinho e esta respondeu com um beijo suave. Seus lábios tremeram e então Malu intensificou o beijo, mergulhando sua língua quente e macia na boca de Gabi, deixando - a totalmente entregue.

 

Quando Malu a soltou, seu olhar

era de súplica. Sua boca estava entreaberta e seu rosto afogueado, fazendo com que Malu a achasse ainda mais adorável. Começou a beijar-lhe o pescoço, enquanto descia o zíper do seu vestido, que em poucos segundos estava no chão.

 

Em seguida, beijaram-se

novamente, e Gabi deitou, os seios arfantes pelo ritmo da respiração.

Malu ficou de pé e despiu-se,

ficando apenas de calcinha, deixando à mostra seios alvos e macios. Gabi a puxou, sedenta.

 

Seus corpos se juntaram e

estavam quentes.

 

Beijaram-se. No início com

suavidade, depois com mais urgência, à medida que seus dedos entrelaçavam no cabelo da outra e as respirações tornavam-se uma só.

 

O corpo de Gabi implorava por mais toques, mas Malu levantou-se, ficando de joelhos sobre seu corpo, adiando o momento de dar-lhe o prazer total.

 

Tocou seus seios com os dedos,

acariciando-os lentamente, para depois descer a boca sobre um deles, em seguida no outro, fazendo círculos com a língua, antes de suga-lo, fazendo com que Gabi apertasse as suas costas macias, puxando-a para si.

 

Malu beijou seu ventre e foi

descendo. Gabriela, sabendo o que ela ia fazer, soltou um gemido involuntário, que se intensificou quando ela chegou até seu ponto central de prazer e o explorou, com contornos ágeis, que fez Gabi, em pouco tempo, quase atingir o clímax. Gabriela apertava fortemente seus ombros quando Malu de repente parou e colocou-se ao seu lado. Gabi beijou seus seios, enquanto arrancava a sua calcinha.

 

Suas mãos se apertavam,

trêmulas, quando finalmente desceram e juntas, tocaram-se intimamente, sentindo a umidade resultante de tanto prazer e no mesmo ritmo, dedilhavam-se, beijando-se incessantemente, até que finalmente explodiram, ao mesmo tempo, invadidas por algo que ultrapassava toda e qualquer experiência que já tiveram antes.