De lagarta a borboleta: Quando o amor se transforma
Parte XIII
P A R T E X I I I
Alguns anos depois...
Gabriela pegou a caixa que estava
lá no alto, no seu lugar secreto. Havia decidido se desfazer de todas as recordações do passado. Mas antes disso, Sentou-se na cama e a abriu. Lá haviam inúmeras fotos dela e Malu juntas... Nos aniversários... Viagens... Com os amigos... Nos jogos de futebol em que Malu era sempre a artilheira... Gabi juntou as duas mãos sobre uma das fotos e já ia começar a rasga-la, quando parou. Não teve coragem. Pegou, então, um volume de cartas. Abriu a primeira e começou a ler:
28.04.1999 (um dia antes de Gabi
ir embora para Salvador):
"Gabi,
Várias pessoas passam em nossas
vidas e passam. Mas você entrou na minha e ficou gravada em meu coração e permanecerá para sempre. E digo isso com toda a autoridade de um coração apaixonado. Loucamente apaixonado.
Sei que nessa hora faltam
palavras para expressar o quanto dói ficar sem você, sem teu carinho, teu cheiro, teu beijo, teu amor. Mas fica a certeza de que um dia vou te ver novamente. Ou talvez não te veja mais. Só quero que quando você parar e olhar para trás, lembre-se de alguém que se deu inteira para você e te amou intensamente e que não vai desistir de você, mesmo que eu tenha que lutar contra o mundo.
Olha, eu pensei que já tivesse
vivido tudo nessa vida, mas você me fez viver tantas outras coisas, emoções, sentimentos diferentes que eu já sinto a tua falta desde já. Amor, eu só te peço uma coisa: não me esquece, tá? Não deixa que a distância nos separe e nem deixe que outras coisas e pessoas supra a minha falta.
Gostaria de te dizer milhões de
coisas, principalmente pedir: "fica comigo"! Mas acho que o destino pode estar nos reservando algo e temos que esperar para saber. Se nosso amor for forte e verdadeiro irá resistir a tudo isso.
Só quero que você saiba de uma
coisa:
Eu aprendi a te amar e vou te
amar para sempre. Não vou dizer adeus... direi até breve.
Você sempre será a minha
estranha loucura e a minha mais bela realidade.
Te amo!
Malu."
Gabriela suspirou longamente e
em seguida abriu outra carta:
30.10.1999
"Amor
Hoje é um dia especial. Aliás,
todos os dias são especiais quando estou com você. Uma pessoa que sabe me fazer feliz e realizada, que me ensinou o que é amar de verdade.
Você é a mulher que eu quero
viver para sempre. Dividir as alegrias, as tristezas, as conquistas e desilusões. A mulher que eu quero ter ao meu lado pelo resto da vida.
Saiba que eu estarei sempre ao
seu lado, te amando e te ajudando no que for preciso. Se eu tenho essa vontade de vencer, Gabi, tenha certeza que é por tua causa, para ter você comigo e eu sei que o amor que tenho me ajuda muito.
Te amo para sempre...de todo o
meu coração e por toda a minha vida.
Eternamente tua: Malu."
03.02.2000
"Minha vida,
Às vezes penso que vou explodir
de tanto amor... Te respiro, sinto o teu cheiro por aonde eu vou... Será que estou ficando louca? Se for, quero viver intensamente essa loucura.
Com você quero passar o resto da
minha vida e eu sei que isso é possível, mesmo contrariando todas as leis humanas.
Enfrentarei tudo e todos, mas
quero sentir que valerá a pena.
Te darei tudo que existe de mais
belo e verdadeiro no meu coração, para te fazer feliz.
Confia no meu amor... Te amo
para sempre. Tua metade."
29.03.2001
"Quisera eu um dia escrever com
exatidão a grandeza do sentimento que tenho por você e poder dizer com todas as palavras que você é a pessoa mais especial desse mundo, uma pessoa com tantas qualidades que os defeitos se tornam inferiores. Uma pessoa amável, delicada, graciosa, sensível, inteligente, adorável ...e sedutora.
E foi com esse poder de sedução
que você me conquistou, como você mesma diz, "de uma forma arrebatadora", que me deixou caidinha por você. Seja lá que charme você usou, só sei que conseguiu o que queria.
Isso tudo você já sabe. Só quero
te lembrar, com essa introdução, que apesar das poucas vezes que te decepcionei, o que é indiscutivelmente humano, eu mudei a minha vida por você e mudei para melhor. Se eu faço algo que te magoa, por favor me perdoa, eu prefiro morrer a te fazer infeliz ou te machucar. Pois você é o tesouro mais precioso que eu tenho e se eu te perder um dia, nada mais fará sentido: nem a vida, nem o amor.
Quando os poetas tentaram
escrever sobre o amor, esqueceram-se de citar a nossa história, que é tão mágica e tão profunda, capaz de quebrar todas as barreiras e superar tudo. Um amor que faz, com um simples olhar, mover todas as células do nosso corpo.
Que amor é esse? esse não é o
amor que sinto por você, pois sentir, nós sentimos muitas coisas e passam. Esse é o amor que TENHO por você, pois ele já vive em mim e é para sempre.
Não sou tão boa escritora quanto
você, eu sei. (risos)... só queria colocar no papel para ficar registrado e para que você guarde e leia, sempre que puder. Assim você nunca esquecerá o quanto é especial em minha vida.
Eu te amo. E sempre vou te amar.
Tua Malu."
Gabriela dobrou as cartas e as
colocou de volta na caixa, junto com as outras. Decidiu não jogar fora o seu passado. Ali era parte da sua vida, fragmentos de quase seis anos que vivera ao lado de uma pessoa. E por mais que tenha terminado de forma dolorosa, tiveram muitos momentos felizes. Portanto, colocou de volta em seu esconderijo e lá ficaria, até o fim da sua vida.
No entanto, seus diários de
quando era adolescente já não faziam sentido para ela. Havia mudado muito desde então e ali também havia segredos de outras pessoas, que poderiam ser expostos caso alguém lesse.
Juntou, então, um grande volume
deles e decidiu queima-los. Exceto o último, que haviam alguns registros dos anos de 2004 e 2005, que ela considerava realmente valiosos, pois falava da maior reviravolta da sua vida, até então. Esse último, ela preservaria e guardaria como lembrança. Depois de ver que só restaram cinzas de todos os outros diários, ela pegou o que havia sobrado e o abriu, relendo, então, as páginas principais:
28.09.2004
"Meu Deus, me ajuda! O que vou
fazer agora? Minha família, meus amigos...o que eles vão dizer?
A culpa é toda minha. Todos já
haviam percebido: os seios crescendo, o corpo se transformando, a menstruação que não vinha...eu deveria ter feito logo esse exame. Quis mentir pra mim mesma. Mas agora é tarde: três meses de gestação.
Nem acreditei quando vi aquele
pedacinho de gente, ali vivo, se mexendo...e era dentro de mim. Fiquei atônita. Não ouvi nada do que o médico falou. Só queria sumir. Ou morrer. Mas aí "ele" ia ter que morrer também. E seria justo?
Estou desolada. Como pude ser
tão idiota ao ponto de acreditar em Renato, quando me disse que não podia mais ter filhos?
Éramos amigos...ele deveria ter
sido mais ético. Tudo bem que estávamos bebendo e enfim... Aconteceu. Ninguém está livre disso. Mas não ia acontecer mais. Não temos nenhum tipo de sentimento um pelo outro, como faremos?
Quer saber? vou dormir. Ainda
estou em estado de choque. Quem sabe amanhã eu não acorde e descubra que tudo não passou de um sonho?"
30.09.2004
“Maurício já sabe. Brena contou.
Ela estava junto comigo, na hora que descobri. Ela e Izabel estão grávidas também. Izabel está com seis meses e já sabe o sexo: é um menino. Brena está com o mesmo tempo que eu, apesar de eu só ter tido certeza agora.
Meu irmão ficou bastante
empolgado com a notícia. Me disse pra eu não me preocupar, que tudo seria resolvido. Ele mesmo contaria aos meus pais e cuidaria do meu filho como se fosse dele.
Mais tarde fiquei sabendo que
todos já sabem. Meu pai, como eu previa, aceitou, naquele jeitinho dele, conformado. Minha mãe se calou. Não toca no assunto. Mas não está necessariamente com raiva. Acho que um pouco abalada ainda. Claro que menos do que na primeira vez, afinal, hoje já sou uma mulher. Sinto que ela, no fundo, vê nessa gravidez uma possibilidade de mudança definitiva na minha vida. E acredito que ela esteja certa."
02.10.2004
"Carol está gravida. Descobriu
hoje. É incrível! Nunca vi tanta coincidência na minha vida. Ou será destino? Nós três, grávidas, do mesmo mês, do mesmo ano. E Izabel apenas com três meses de diferença. Uau! É Simplesmente inacreditável!"
03.10.2004
“Malu me ligou hoje perguntando
se era verdade.
Respirei fundo e disse que sim.
Ela ficou calada do outro lado da linha. Pude ver sua cara de choque. Me perguntou quem era o pai, respondi que ela estava sendo indelicada e então ela se desculpou e entendeu que no momento certo eu contaria.
Não lhe devo explicações, eu sei.
Estamos separadas há quase seis meses e só fiquei grávida depois disso, ou seja, não a traí. Mas confesso que temia pela sua reação, de certa forma isso era importante para mim. Acho que não queria quebrar a sua admiração. E acho que consegui, pois depois do choque inicial, ela se mostrou carinhosa e solidária. É estranho...não estamos mais juntas, mas de certa forma, ainda mantemos essa...ligação.
Ela está namorando. A garota se
chama Débora e mora em outra cidade. Parece que é coisa séria. Ouvi até dizer que Malu estava pensando em ir embora, pra morar com ela. Mas não tenho certeza. Preferi não perguntar."
07.11.2004
"Parece que o pior já passou.
Minha mãe aceitou melhor do que eu poderia sonhar. Não fica paparicando a minha barriga, que não é do feitio dela, mas em compensação não me trata mal nem questiona nada. E do jeito dela, demonstra algum interesse reclamando de uma atitude inadequada que eu faça por falta de experiência ou com suas superstições. Na verdade, não foi ela que mudou. Eu que decidi ser mais paciente. Enfim, estamos vivendo de forma pacífica.
Meus amigos aceitaram a minha
gravidez sem críticas. Me sinto amada e mimada. Todos eles: Bruno, Vítor, Nino, Otávio, Margarete, Fabiana, não largam de mim um minuto. Vivem sempre aqui em casa. As minhas amigas que moram em outra cidade, como Jacy e Kênia, sempre que podem vem me visitar e são igualmente carinhosas. Jacy comprou uma roupinha rosa e me deu de presente. Diz que tem certeza que é menina. Vou saber o sexo amanhã.
Meus amigos realmente estão fazendo uma grande diferença na minha vida neste momento, pois me apoiaram no momento em que mais precisei. Nunca deixam eu me sentir sozinha e fazem de tudo para eu me alegrar. Me inclui nos seus programas, apesar de eu não estar bebendo e fazem todas as minhas vontades.
Eu amo os meus amigos."
18.11.2004
Vou ter um menino. Maurício
ficou super feliz. Era o que ele desejava. Eu também não tinha preferências. Aceitei no mesmo momento. Ele vai ser o meu homenzinho, carinhoso e companheiro. Já escolhi até o nome: meu filho vai se chamar Daniel."
19.11.2004
“Não aguentei esperar até o
último mês. Hoje arrumamos o quarto do meu bebê. Ficou lindo. Pintamos de azul e colocamos papel de parede. O berço ficou lindo com o kit que Malu me deu, combinando com a cômoda e seus detalhes. Para finalizar, estrelas fluorescentes no teto, um quadro e um tapete."
30.12.2004
"Malu me ligou para se despedir.
Disse que hoje é o seu último dia de trabalho e que vai embora amanhã. Vai morar com Débora.
Me desejou Feliz Ano Novo e
saúde para o meu filho. Que eu continuasse em paz e que sempre me ligaria para saber como estou.
Disse que sentiria a minha falta,
mas que nossas vidas haviam tomado outro rumo e era preciso aceitar. Olharmos para frente e seguir.
Apenas desejei boa sorte e disse
que também sentiríamos a sua falta.
Ela me perguntou como estava o
meu coração e eu então respondi: "Tranquilo. Fiel ao mesmo amor, mas muito mais à dona dele. Logo esse amor será transferido de uma forma maior e recíproca. Vida nova agora: Você está indo embora, Daniel está vindo. E isso confirma a minha crença de que tudo o que nos é tirado, é recompensado de uma forma melhor. Tudo ensina."
31.12.2004
"Mudança...
Pela primeira vez, sei o que me
espera. Em minha vida, não poderia ter havido transformação maior.
Este ano foi o momento de
descobrir os meus limites e parar de sofrer. Renunciar ao que eu sentia, mesmo sendo ainda muito forte e buscar outras coisas.
Coloquei um ponto final em uma
história que não era mais de amor, mas de sofrimento. E sei que foi melhor assim, mesmo tendo aberto caminho para outra pessoa vivenciar toda a parte que eu tinha vivido de bom. Doeu, mas no fim eu sei que foi a melhor decisão. Ela está bem, encontrou outra pessoa, que não lhe fará o mal que Laura lhe fez. Espero que Débora cuide dela e a ame como eu amei.
E eu estou aqui, esperando meu
filho nascer, recebendo todo o carinho dos meus amigos e apoio da minha família.
Confesso que estou um pouco
ansiosa, afinal, é algo novo para mim. Às vezes acordo no meio da noite e passa um filme na minha cabeça: o primeiro sinal, as sacolas arrumadas, a roupa de hospital, minha mãe orando, a coragem que terei de ter, algo que só eu poderei fazer por mim. Ao mesmo tempo, certo otimismo, o pensamento de que vai ser tudo rápido e indolor. De que meu parto será tão tranquilo quanto a minha gestação.
Já sinto um grande afeto pelo
meu filho. Sei que o amor irá aumentar mais e mais, com o passar do tempo. Meu instinto de proteção já me impede de fazer algo que o prejudique e assim, passei a ter hábitos mais saudáveis.
Daqui pra frente nada será como
antes. Sei que muitas responsabilidades estão por vir. Muitas renúncias também. Mas valerá a pena. Disso tenho certeza."
Abril de 2005
“Daniel nasceu.
Claro, não estou escrevendo no
exato dia do meu parto.
Nem teria condições para isso.
Como descrever uma sensação
tão inexplicável que é ter um filho? Emocionante, talvez. É bem mais que isso. É uma experiência grandiosa colocar alguém no mundo e ser responsável por ele.
Graças a Deus correu tudo bem.
Meu parto foi marcado com antecedência e eu fui à clínica sem sentir uma pontada de dor sequer. Fui internada às oito da manhã e de desagradável, só a fome, que tive de suportar até as três da tarde, horário em que entrei na sala de cirurgia. Mas até lá, me distraí com as visitas, que comecei a receber cedo. A sala era clara e espaçosa. Estavam a instrumentista, uma enfermeira que aferia a minha pressão e o médico, claro. Meu queridíssimo Dr. que cuidou tão bem de mim esse tempo todo. Ele tentava visivelmente quebrar a tensão e me distrair. Me mandou sentar com as pernas cruzadas e aplicou a anestesia, que não doeu, apenas deu uma pontada. Deitei e não senti, mas vi quando ele me cortou e passei o tempo inteiro levantando a cabeça para assistir tudo, mas quando finalmente, meu filho foi arrancado e colocado sobre mim, me sentia nauseada. Ele estava roxo e inchado. E só chorou depois de uma leve palmadinha. Ainda assim era um choro baixo, dengoso. Não discerni seus traços na hora. Me sentia extremamente cansada. Mas estava aliviada. Meu filho havia nascido.
Depois de um tempo, ele foi
colocado do meu lado e eu pude vê-lo melhor. Muitos traços do pai, principalmente o nariz e o formato do rosto. A boca é minha e os olhos pretos e puxados também. Os cabelos são bem espessos e escuros. A cor é parda. Pesou 4.350 e é enorme.
No início, não tive leite, por isso
Izabel o amamentou. Aos poucos, fui conseguindo e hoje já amamento o meu filho e também o de Carol, que nasceu vinte dias depois. O filho de Brena nasceu quatro dias depois do meu. A boca é igual ao do pai, os olhos da bisavó e o rosto é bem delicado, como o da mãe. Perto de Daniel ele parece tão pequenininho...
Ser mãe é algo Simplesmente
incrível. Você se sente gigante por ter colocado alguém no mundo e saber que ele depende exclusivamente de você. Ao mesmo tempo, se sente pequena, por saber que não vai poder protegê-lo de tudo, sempre. Fico assustada com tudo, até quando ele engasga com o leite, jogo logo no colo da minha mãe. É um amor tão grande que ultrapassa qualquer tipo de egoísmo. É tudo ele, em primeiro lugar. Você pensa em ser alguém melhor, para que no futuro, ele venha a te admirar e hoje eu sei que realmente daria a minha vida por alguém.
Minha rotina mudou totalmente.
Mas não tem sido tão difícil quanto pensei. Meu filho é tranquilo, não chora durante a noite. Muitas vezes nem percebo que ele acordou para mamar. Meu irmão Mauricio, sempre atento, vai até o berço e ele está lá, com os olhinhos abertos, mas sem reclamar. Então, ele me chama e eu o alimento. Logo em seguida, ele o coloca de volta e espera ele adormecer. Tem sido um verdadeiro pai, cuidando e o amando, incondicionalmente.
Renato, até agora, não veio vê-lo.
Vou esperar mais um tempo até que eu me restabeleça totalmente para podermos conversar sobre o assunto.
De qualquer forma, eu sinto como
se ele fosse apenas meu. E que o pai foi apenas uma ponte para que eu chegasse ao destino traçado. Acredito que nada é em vão. Esta criança tinha que vir ao mundo, para mudar a minha vida e me ensinar coisas que só saberei mais tarde, quando tiver finalmente realizado a minha missão aqui no mundo."