De lagarta a borboleta: Quando o amor se transforma
Parte XI
P A R T E X I
Os meses seguintes foram para
Gabi como uma espécie de pesadelo, em que não encontrava forças para acordar.
Estava vivendo os seus piores
momentos, tendo que lidar com a dor de ver a pessoa que amava com outra, sem poupar os seus sentimentos, e ao mesmo tempo, enfrentar a sua própria impotência diante de tal situação. Toda a sua dignidade havia lhe abandonado, assim como as teorias que defendia de como deveria se comportar diante de uma traição. Sentia diferente, não tinha controle nem equilíbrio para se impor. E isso a deprimia ainda mais, pois tinha consciência do absurdo a que tinha se submetido, envolvendo-se nesse triângulo amoroso, mas ela não queria perder Malu de vez.
Não estava enganada. Sabia de
todas as mentiras de Malu. Não era credulidade mais o que a mantinha junto a ela, mas seu amor imenso, maior que tudo. Esse amor acreditava que se continuasse lutando, venceria. Malu acordaria e entenderia que isso tudo não passava de uma loucura da sua parte e tudo voltaria a ser como antes.
Em meio a tudo isso, Bruno havia
conhecido Ernesto, que morava na mesma cidade de Laura. Em menos de uma semana, já estavam morando juntos e Gabi passou a visita-los frequentemente, tendo a infelicidade de vê-las mais do que esperava e queria.
Malu agia de forma estranha,
parecia sentir prazer em expor e ridicularizar Gabriela diante da sua inimiga, mas um dia depois a procurava para pedir perdão e que voltasse para ela. Gabriela, completamente fragilizada, cedia, acreditando que dessa vez seria diferente. Mas nunca era. Logo, Laura reaparecia e Malu voltava a ter o mesmo comportamento robótico, correndo sempre ao seu chamado e deixando Gabriela sozinha. Foi assim também no dia do seu aniversário, no Natal e no Réveillon. O primeiro de cinco anos que não passaram juntas.
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Gabriela ouviu a voz de
Maurício, que se misturava com outra e eles pareciam discutir, mas em tom razoavelmente baixo. Foi então ver o que estava acontecendo e viu Laura, que estava ali, insistindo para falar com ela, enquanto Maurício questionava:
— O que você quer com a minha
irmã?
— Calma, Maurício, eu prometo que vim em paz. — assegurava
Laura, enquanto olhava para
Gabi, observando a sua reação. Ela então, fez um sinal para o seu irmão, indicando que estava tudo bem e pediu que as deixassem à sós.
Sem convida-la para sentar,
perguntou friamente:
— O que você veio fazer aqui?
Da última vez me lembro que veio se queixar com a minha mãe porque te agredi, mas agora não posso imaginar o motivo.
— Gabriela, naquele dia, eu só
fiz aquilo porque fiquei com muita raiva, mas enfim, passou. Porque você não conversou comigo quando soube de tudo?
— Como é que é? — Gabriela perguntou, surpresa.
— Gabriela, veja só: — começou
Laura, mas antes perguntou se podia sentar e Gabi concordou, à contra gosto — eu sei que você tem todos os motivos para me odiar, pois eu tirei Malu de você. Eu fui errada, reconheço, pois sabia que ela tinha alguém, mas você não acha que quem tinha de ser fiel a você era Malu e não eu?
— Aonde você quer chegar com
essa conversa?
— Eu quero dizer que se naquele
dia, você tivesse chegado para mim de forma civilizada e me pedido para não continuar com ela, eu não teria ficado. Mas você foi agressiva, por isso disse a mim mesma: agora é que eu não abro mão de Malu mesmo! Porque eu gosto de desafio, entende? e você me desafiou!
Gabi riu ironicamente:
— Ah, então você veio aqui me
dizer que eu tinha que lhe implorar para não ficar com Malu? A pessoa que eu tinha um relacionamento há mais de quatro anos e que você saiu de lá, do nada e veio se intrometer entre nós duas? — Laura a ouvia, calada e Gabi continuou: — Você não sabe de nada da nossa história, você não tem noção das coisas que tive que enfrentar pra ficar com Malu. Então você aparece, como uma "intrusa", que é isso que você é, e me vem com essa historinha de que eu agi errado. Isso é no mínimo, cinismo da sua parte.
Laura não se mostrou abalada:
— Gabriela, entenda: eu não
forcei Malu a ficar comigo. Você se engana muito com ela.
— Eu sei que ela não é nenhuma
santa. Mas você também não é melhor do que ela. — Gabi se viu defendendo Malu.
Laura não respondeu e Gabi
continuou, olhando-a de forma gelada:
— Laura, eu não confio em vc. E
não tenho porque confiar. Depois que você apareceu, minha vida se transformou em um inferno. Você vive jogando para conseguir o que quer. E eu sinceramente, cansei dos seus joguinhos. Você não me engana mais. E você sabe o que eu penso a seu respeito, não sabe?
Laura a olhava por baixo, um
pouco intimidada:
— Você é uma pessoa perturbada,
espiritualmente, e só gosta do que é dos outros. Você ouviu falar de mim e de Malu, e de como éramos felizes e decidiu que queria ela pra você. Viu a nossa foto e desejou estar no meu lugar. Deixa ver se me lembro de como foi que você disse: — Gabi colocou o dedo nos lábios, sarcasticamente — ah, tá, lembrei: "Eu quero essa mulher por bem ou por mal"— não foi assim, Laura?
Gabriela encarava os olhos da sua
oponente com altivez, enquanto que ela não rebatia, como sempre, às suas palavras. Havia uma espécie de receio da parte de Laura em reagir ao ataque, talvez por reconhecer que tudo o que ouvia era verdade. Apesar disso, ela insistiu:
— Gabi, eu quero que você saiba
que eu te acho uma mulher maravilhosa e que Malu foi muito burra em ter te deixado, mas você não soube fazer as coisas do modo certo, para que ela ficasse em suas mãos. — Gabi ia abrir a boca para rebater, mas ela pediu que esperasse até que terminasse de falar. — Gabriela, Malu precisa de alguém que faça com que ela se sinta ameaçada, que a deixe insegura, que ela tenha medo de perder. Alguém como ela, entende? E eu sou essa pessoa. — Laura falava do seu comportamento com orgulho e mesmo achando-a vulgar, reconheceu intimamente que ela tinha certa razão, no que se referia a sua passividade diante de Malu, por isso não a interrompeu, deixando-a concluir:
— E é isso. Eu sou o oposto de
você. Eu não aceito imposição nem traição de mulher nenhuma. Se me trair, eu traio também. E ainda assumo. Você não...você é aquela menina meiga, fiel, que Malu sabe que vai estar sempre ali. Ela sabe que você vai sempre perdoar tudo o que ela fizer, pois tem certeza do amor que você sente. — Gabriela a olhava, pensativa — mas eu vou te dizer uma coisa: ela te ama. E muito. O que ela sente por mim é paixão, porque eu sou diferente de você, porque eu a desafio, coisa que nunca fizeram antes com ela... — Laura suavizou a expressão — mas é você que ela ama, é você que ela tem vontade de construir uma vida e apesar de tudo, ela nunca te esqueceu.
Gabriela engoliu em seco. As
palavras de Laura mexerem com ela, mas mesmo assim, manteve a mesma postura defensiva de antes, erguendo a cabeça e dizendo:
— Laura, eu não sou como você.
Eu não posso reproduzir um comportamento que eu mesma abomino, senão eu estaria me igualando a ela. Eu só sei ser assim e não vou mudar apenas para ter Malu de volta.
— Tudo bem, eu sei disso. Só
quero que saiba que acho você uma mulher linda e que eu te admiro muito.
— Você já disse isso. — Gabi
falou secamente — mas sinceramente, não entendi ainda o que você veio fazer aqui.
Laura passou a língua entre os
lábios e a encarou, falando de maneira bastante segura:
— Gabi, eu não vou negar que me
envolvi com Malu. No começo foi por provocação, mas depois, enfim...mas eu não a amo. E eu sei o mal que fiz em ter interferido entre vocês duas dessa maneira e tenho consciência que posso pagar muito caro lá na frente. Por isso vim te dizer que se você quiser, eu saio da vida de Malu hoje mesmo e deixo o caminho livre para vocês voltarem.
Houve uma pausa, em que Gabi a
olhou desconfiada, tentando distinguir qual seria realmente a sua intenção. Será que dentro daquela mulher existia um mínimo de ética? De humanidade? será que ela estava realmente sendo solidária ao sofrimento de Gabi ou aquele era mais um jogo, entre tantos outros?
Não, Laura não lhe inspirava a
menor confiança. E Gabi constatou que apesar de Laura demonstrar certa admiração por ela, o fato é que ela estava envolvida com Malu sim. Talvez no início quisesse apenas reafirmar o seu poder de sedução, mas àquela altura, não abriria mão de Malu tão facilmente, por isso
Gabriela decidiu não ser ingênua
novamente:
— Olha só, Laura, eu jamais te
pediria isso, nem no meu pior pesadelo. Seria me rebaixar demais. E agora, se você já me disse tudo o que queria... — apontou a porta de saída.
Laura não parecia ofendida com a
rispidez de Gabi. Em resposta, abriu um largo sorriso e estendeu a mão:
— Podemos tentar ser amigas?
Gabriela ignorou o seu gesto,
cruzando os braços, como sinal de defesa, enquanto dizia:
— Me desculpe Laura, mas eu
não sou falsa. Não há a menor possibilidade de sermos amigas.
— Tudo bem. Eu entendo. Agora
tenho que ir...me perdoe pelo incômodo. — Laura retirou-se, deixando Gabriela na mesma posição, em pé, de braços cruzados. Mordeu o lábio inferior e estreitou os olhos, ainda intrigada com toda aquela conversa. Que confusão a sua vida havia se transformado!