De lagarta a borboleta: Quando o amor se transforma
Parte V
P A R T E V
Gabriela era filha adotiva. E
talvez por isso, a cobrança era maior e sua responsabilidade em corresponder, também. Seus pais tinham medo de serem acusados de não lhe ter dado uma boa educação. Idealizaram um futuro para Gabi, mas nada saiu conforme o planejado.
Gabriela não casaria virgem,
como esperavam e escolhia suas amizades segundo os seus próprios critérios. Sua personalidade era absolutamente diferente de todos da família. Era de uma nova geração, e seus costumes se chocavam. No máximo, o que herdara foi a educação a que lhe foi ensinada, os bons modos e a ética, que Gabi levaria para o resto da sua vida.
Gabriela não sabia qual era a sua
real história. O que a sua família contava é que a mãe biológica dela precisava trabalhar, mas ninguém a aceitava com uma criança ainda pequena. Assim, ela a deixava com alguns parentes, que mal cuidavam dela. Vivia de mão em mão, meio esquecida, quando S. José conhecido dessas pessoas, viu a situação da menina, sentiu compaixão e decidiu adota-la. Depois desse dia, o destino de Gabriela foi mudado para sempre. Tinham as suas necessidades supridas, ganhou uma casa, uma nova família, uma boa educação e sua saúde recuperada, que na época era bastante debilitada. Gabi vivia doente, mas Dona Verônica e seus irmãos juntaram todas as suas economias e pagaram médicos, que a trataram. Gabi passou a ser uma criança saudável e alegre. E especialmente mimada. Era superprotegida, tinha tudo que os seus irmãos nunca tiveram. E se por um lado, era cômodo para ela ter sempre onde se apoiar, era também incômoda a necessidade de retribuir tudo isso.
Quanto aos seus pais verdadeiros,
ela não conhecia, nem sabia onde moravam. Será que tinha irmãos? se pareciam com ela? Gabi perguntava-se intimamente, mas raramente perguntava aos seus pais. Eles poderiam pensar que ela não era feliz, que não lhes tinham gratidão. E no momento Gabi convivia com esse fato naturalmente, sem o trauma que a acompanhou alguns anos da sua puberdade até a adolescência, após sua mãe ter lhe contado tudo.
Aos dezoito anos ela já conseguia
entender os motivos que levaram sua mãe a lhe abandonar e não a julgava. Até sentia pena. Era o único sentimento cabível dentro dela, pois Gabi acreditava que sem convivência não seria possível existir amor. Ela se questionava, às vezes, o que sentiria se um dia a visse, afinal, mesmo sem convívio, ela era a sua mãe. Isso era um fato irremediável. Não havia como ficar indiferente a essa realidade.
No entanto, parecia estranho aos
outros que ela não se importasse em conhecer as suas origens, as pessoas não entendiam. Mas ela sabia que não era por falta de sensibilidade, ou alguma espécie de rancor. Ela simplesmente não sentia falta de nada. Era como se aquela sempre fosse a sua única família. E era. Eles a tinham escolhido por amor, lhe oferecendo o melhor e Gabi era muito grata por isso. E por gratidão, não sentia necessidade em remexer no seu passado.
Ao ver o rosto sério da sua mãe, Gabriela perguntou, num fio de voz:
— O que foi mãe?
— O que foi? — Dona Verônica
repetiu, gritando — seu tom de voz era habitualmente alto, mas com raiva, triplicava. — você ainda pergunta o que foi? Pensa que eu já não sei de tudo? Você não tem vergonha não? Já não bastasse tanta coisa, agora eu tenho uma... uma sei lá o que dentro de casa.
Gabriela empalideceu.
— Mas do que é que a senhora
está falando?
— Estou falando de você e
daquela sem-vergonha, filha de Rosana. Já tinham me contado, mas eu não acreditei. Então hoje fiquei escondida e vi quando ela te deixou aqui na frente da minha casa.
— Mãe, não é nada disso! Malu é
minha amiga, a gente estava só conversando. Afinal, eu vou deixar de ser amiga dela, só porque as pessoas inventam histórias? nada a ver!
— Não tente me enganar
Gabriela! Você sempre gostou de andar com esse tipo de gente. Você faz de tudo para envergonhar a mim e ao seu pai. Você achou pouco ter perdido a "honra" com quinze anos? E agora mais essa! mas não... — Ela não parava de falar, estava descontrolada. — mas pelo menos era com um homem! Agora, com uma mulher, Gabriela? Você quer me matar de vergonha? E o seu pai? Ele está lá, no quarto, nem consegue dormir direito.
— Claro, não é mãe? Do jeito que
a senhora está falando alto, vai acordar até a vizinhança!
— Cala a boca! — Gabriela
estava encolhida em sua cama, com o cobertor até os joelhos e pensava que a única coisa que ela queria era que a sua mãe parasse de gritar, mas ela não parecia querer calar-se:
— Você está com vergonha agora?
Pois é bom que todos saibam quem você é: um sapatão!
Essa palavra soou extremamente
ofensiva para Gabi, principalmente da forma que sua mãe falava, com a única intenção de atingi-la. E ela não parava de repetir.
Gabi sentia um nó na garganta.
Havia se controlado ao máximo para evitar uma briga maior, mas sua mãe não fazia menção de acalmar-se, então, perdendo a paciência, Gabi gritou:
— Chega, mãe! Eu não sou
obrigada a ouvir essas coisas! Me deixa dormir, pelo amor de Deus! Eu já estou com dor de cabeça, não aguento mais!
— Que morra! É melhor do que
viver sujando o nome da família.
Gabriela havia convivido a sua
vida inteira com a homossexualidade do seu irmão Maurício, e depois do susto inicial, quando lhe foi confirmada por terceiros, e ela, já conseguindo entender melhor as coisas, passara a aceitar com naturalidade, pois amava a seu irmão incondicionalmente.
Sua mãe também não escondia
sua predileção por Maurício e nunca o ofendia ou invadia a sua privacidade, apesar de saber da sua opção.
Maurício era muito discreto, não
gostava de exposições e por isso, não se tocavam nesse assunto na família, pelo menos não diretamente, portanto Gabriela o respeitava e assim, para não o envolver, evitou uma comparação naquele momento em que a sua mãe a acusava, pois não achava justo expor a intimidade do seu irmão apenas para se defender, já que ele era tão bom para ela. Mas ao ouvir aquela frase, Gabriela ironizou:
— Eu, sujando o nome da
família? A senhora fala como se a sua família fosse a mais perfeita de todas, sem erros, sem manchas, e eu, a ovelha negra que veio para suja-la? me poupe!
Dona Verônica avançou sobre
Gabi, dando- lhe um tapa, que lhe cortou a alma, como uma lâmina. Seu rosto ardia e lágrimas quentes escorriam, entrando em seus ouvidos. Gabriela soluçava, enquanto dizia:
— Saia do meu quarto, por favor!
me deixe em paz!
Sua mãe continuava a lhe cobrir
de ofensas e Gabi sentiu vontade de sair dali correndo e desaparecer. Deitada de bruços, os braços dobrados sob o rosto, Gabriela chorava compulsivamente, atingida pelas palavras da sua mãe.
Pensava em Malu e no quanto
precisava dela naquele momento. Com seu jeito protetor ela lhe abraçaria e lhe diria que iria ficar tudo bem.
Quando finalmente Dona
Verônica resolveu apagar a luz e dormir, Gabriela estava física e emocionalmente exausta de tanto chorar. Ainda pôde ouvir o barulho na cozinha, da sua mãe tomando os seus rotineiros remédios para dormir e um suspiro longo e angustiado do seu pai vindo do quarto ao lado.
Depois de um ou dois soluços
indicando que seu choro havia encerrado, Gabriela então adormeceu.
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Na manhã seguinte, ao abrir os
olhos, Gabriela imediatamente lembrou-se do que aconteceu na noite anterior. Fechou-os novamente, com uma sensação de angústia no peito. Tudo aquilo era real. Ela tinha que levantar e encarar a sua mãe, mas estava sem coragem. Queria dormir de novo ou ficar o dia inteiro naquele quarto. Virou-se, pondo seu travesseiro sobre a cabeça, mas estava sem sono. E ansiosa.
Levantou-se devagar e olhou-se no espelho: seus olhos estavam inchados e sua aparência, abatida. Lavou o rosto e foi tomar café.
Para seu alívio, só a empregada
estava em casa.
— Dalva, cadê todo mundo?
— Seu irmão foi trabalhar, seu
pai, como sempre, está andando por aí e sua mãe saiu cedo, dizendo que ia à casa do seu irmão Alberto.
Gabi revirou os olhos.
Certamente sua mãe tinha corrido contar a seu irmão o que estava acontecendo e ele, sendo o mais velho, casado, pai de duas filhas de quinze e onze anos, logo chegaria para lhe passar sermões e pregar a moral e os bons costumes.
Era cedo ainda e Malu
provavelmente estaria em casa. Mais que rapidamente, Gabi pegou o telefone e discou o número dela.
— Alô?
— Malu?
— Oi meu amor, bom dia! Que
bom ouvir sua voz, assim, tão cedo!
— Malu, aconteceu uma coisa...
— O que foi? fala logo!
— Minha mãe...ela descobriu
tudo. Me disse coisas absurdas.
Me bateu... — a voz de Gabi já
embargava — foi horrível...
Silêncio.
— Malu? você está aí?
— Sim, estou, mas é que...estou
meio tonta ainda... E como foi isso? quem contou?
— Ela disse que viu quando você
me deixou em casa ontem.
— E será que ela viu quando nos
beijamos?
— Não sei. Não me disse. Ai, não
quero nem pensar nisso.
— E o que você pretende fazer
agora?
— Continuar negando, claro. Não
posso assumir nada agora, não seria inteligente da minha parte.
— Não, claro. Mas...e nós? Você quer um tempo pra pensar?
— Não. — respondeu Gabi, sem
vacilar — isso não vai mudar nada. Eu não vou ficar longe de você. Não agora, que estamos tão felizes. Ninguém vai nos separar, Malu!
— Promete?
—Prometo. — respondeu
decidida. Ouviu passos no corredor.
— Agora vou ter que desligar,
está vindo alguém.
— Certo, meu amor. Mas se
precisar de mim, é só ligar. Não se esqueça de me dar notícias, para eu não ficar preocupada. Te amo.
— Também te amo. — finalizou Gabi, desligando o telefone.
Verônica passou por ela, sem a
encarar, mas Alberto pediu que ela sentasse e sem rodeios foi logo perguntando:
— Gabriela, o que mamãe falou é
verdade?
— Eu não sei o que ela falou... —
Gabi se fez de desentendida.
— Você sabe. Sobre você e Malu.
— Claro que não é verdade. Malu
é minha amiga, eu já disse. E eu não tenho preconceito com essas coisas. Cada um faz da sua vida o que quiser. Quem sou eu para recrimina-la?
— Eu sei disso. Inclusive, eu
gosto muito dela. Sou muito amigo da sua mãe, Rosana, e de toda a sua família. Não tenho nada contra Malu, nem com o jeito que ela escolheu viver. Mas nesse caso é diferente. Eu não vou admitir que os meus pais, a essa altura da vida deles, passem por isso. Já basta o desgosto que eles já tem. Bem...deixa pra lá! O fato é que onde há fumaça há fogo... Enfim... — Alberto continuou: — eu vou lhe dar um voto de confiança. Mas nem pense em andar mais com ela. Você está proibida de ver e falar com Malu, está ouvindo?
— Poxa! Por quê? — Gabi
reclamou — Malu é uma ótima pessoa. Você mesmo disse isso. Ela só quer meu bem e além do mais você precisa ver os conselhos que ela me dá...
— Não importa — Alberto arregalou os olhos e aumentou um pouco o tom de voz — ela pode ser uma ótima pessoa, mas é sapatão, Gabriela! E você sabe que em uma cidade pequena dessa, as pessoas comentam. Você quer que papai e mamãe morram de desgosto, é isso?
Gabriela revirou os olhos.
— Acabou? Posso sair agora?
— Vai onde?
— Vou à casa de Carol. Posso
não?
— Pode. Mas chegue cedo.
Gabriela ia saindo, quando sua
mãe veio em direção do seu quarto segurando um urso de pelúcia e dizendo:
— Olha aqui, Alberto, o presente que aquela sem-vergonha deu a ela. — se dirigiu a cozinha, abriu o armário e pegou uma faca — pois olhe o que eu vou fazer com isso — ameaçou a mãe de Gabi, enquanto introduzia com raiva a faca no ursinho de Gabi e o partiu no meio, fazendo com que se espalhassem pela sala o que restou dele.
Gabriela tentou impedir,
ajoelhando-se no chão e tentando junta-lo, mas já era tarde. Lágrimas já começavam a lhe escorrer pelas faces, pois tinha muito apego aquele mimo que Malu havia lhe dado e só dormia com ele.
Em seguida, Gabi viu Dona
Verônica surgir com uma caixa nas mãos. Já sabendo do que se tratava, apressou-se para lhe tomar, mas não podia entrar em luta corporal com sua mãe, então a viu rasgar uma a uma todas as fotos que ela guardava de Malu e também suas cartas. Ao ver sua intimidade sendo estraçalhada, literalmente, em sua frente, uma onda de revolta a invadiu e ela gritou com raiva:
— A senhora não tem esse
direito! — recolheu os pedaços de tudo que havia guardado com tanto carinho e encostou no próprio peito, colocando, em seguida dentro da mesma caixa, com a esperança de que pudesse recupera-las de alguma forma.
Aquela atitude deixou sua mãe e
Alberto indignados e ele, então a empurrou na cama, lhe apontando o dedo:
— Então você admite que está realmente tendo um caso com Malu, não é Gabriela?
— Sim, estou! — Gabriela gritou,
corajosamente. — Estamos namorando sim e eu amo Malu. E ninguém vai me separar dela.
Alberto então, involuntariamente,
deu-lhe um tapa e ela avançou sobre ele, mas seu irmão a derrubou novamente na cama e com os pés ela o chutou, para se defender, até que ele recuou e Gabi escapou, lançando um olhar carregado de ódio para os dois e então bateu a porta e saiu, em direção a casa de Carol.
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Nos meses que se seguiram, foi
ficando cada vez mais difícil a convivência com a sua mãe, pois ela remoía o mesmo assunto a todo momento, ironizando e ameaçando Gabi de lhe expulsar de casa. Enquanto isso, a relação de Gabriela e Malu ia se fortalecendo. Iam a todos os lugares juntas: festas, barzinhos, viagens, nas casas dos amigos...tornaram-se inseparáveis. E isso foi gerando um conflito familiar que Gabi até esperava, mas não imaginava que fosse tão difícil.
As brigas tornaram-se diárias e
por mais que ela tentasse ser forte, sentir o desprezo da sua mãe não lhe era indiferente. Lhe tratava com desdém, mal lhe dirigia a palavra. Mas para Gabi. isso era preferível do que as vezes em que ela resolvia desabafar.
A chantagem emocional era a sua
principal arma. Lhe perguntava como Gabi podia ser tão mal agradecida, depois de tudo que tinha feito por ela. Que aquela não era a vida que ela havia sonhado para Gabriela e que seus esforços foram todos em vão.
No Natal daquele ano, Gabriela
pôde experimentar a exclusão explícita da sua mãe, quando, depois da Ceia, ela começou a distribuir os presentes. A cada um dos seus irmãos, ela deu algo, enquanto dizia palavras afetuosas e os abraçava. A Gabriela não deu nada.
Apesar de sentir o carinho dos
seus irmãos e sobrinhas, Gabriela experimentava mais uma vez a sensação de não fazer parte daquela família. Sentia-se observada nessas reuniões e pouco à vontade. Então ela passou a isolar-se em seu próprio mundo e vivia maior parte do tempo com as suas amigas e com Malu.
Gabriela sentiu as lágrimas
embaçarem -lhe os olhos e foi nesse momento em que seu irmão Maurício se aproximou e lhe presenteou com um CD que ela gostava. Gabi sabia que ele havia comprado para si mesmo e aquele gesto a emocionou.
Sua irmã mais velha, Leonora,
morava pouco afastada da cidade e tinha cinco filhos, que iam a casa de Gabi esporadicamente, apenas uma vez na semana, mas apesar de não vê-los com tanta frequência, Gabriela amava seus sobrinhos, especialmente a Davi, filho de Cristina, que tinha quatro anos e ela o via diariamente. E também Rana e Letícia, filhas do seu irmão Alberto. Letícia era a sobrinha mais próxima de Gabriela, em termos de afinidade. Haviam convivido em tempo integral na infância e sua sobrinha simplesmente a adorava. Com quinze anos, já entendia o que se passava e por isso, se aproximou de Gabriela e lhe deu um beijo no rosto, dizendo:
— Não fica assim não, tia...
Gabriela olhou para aqueles olhos
azuis e afagou seus cabelos loiros e cacheados. Era tão linda! Letícia desconhecia o fato de que Dona Verônica havia lhe proibido de se aproximar das suas sobrinhas, alegando que era uma má influência. Ouvir aquilo foi extremamente doloroso para Gabi.
Situações como esta, em que sua
mãe a hostilizava, tornaram-se cotidianas e Gabriela já tentava se acostumar. Quando as ofensas eram insuportáveis, Gabi refugiava-se em Malu, que lhe acalmava e pedia que ela tivesse paciência e não tivesse a pretensão de ser aceita. Apenas tentasse demonstrar maturidade e resignação, enquanto recebia desprezo. No entanto, todas aquelas brigas deixavam-na cansada, lhe tirava o ânimo e a paz, fazendo com que, muitas vezes, ela se questionasse até que ponto a sua necessidade de retribuir o que seus pais haviam feito por ela, seria válido, já que estava tão pesado conviver com a culpa de não ser o que eles projetaram. Além disso, dentro dela sabia que não estava fazendo nada para desafiar a sua família. Ela só queria ser feliz, sem fazer a infelicidade de ninguém.
A falta de respeito diante da sua
escolha já ultrapassava os limites e Gabriela sentia-se ainda pior pelo fato de que sua mãe não tinha essa mesma atitude com seu irmão Maurício, portanto parecia ser algo pessoal.
Era compreensível para ela que
estivessem decepcionados, que cada um lidasse com a sua dor da maneira que sabiam e podiam, que a sua mãe apenas soubesse demonstrar seu desapontamento de modo agressivo, mas Gabriela já era adulta e sentia-se no direito de trilhar seu caminho em busca do amadurecimento.
No entanto, Gabi sentia-se cada
vez mais pressionada e infeliz. Quando ela pensava que as coisas iam se estabilizar, era surpreendida, como naquela manhã, em que ainda atordoada pelo sono, foi atender a alguém que tocava a campainha, insistentemente. Como parecia que ninguém estava disposta a abrir a porta, Gabriela o fez e deparou-se com a oficial de justiça que lhe estendeu um papel, pedindo que ela assinasse.
Assim o fez, ainda sem entender. Depois de agradecer e fechar a porta, descobriu que era uma intimação, pedindo que ela comparecesse ao Fórum no dia seguinte.
Dirigindo-se à sua mãe, ela
perguntou:
— Mas o que é isso? Por acaso a
senhora tem alguma a ver com essa palhaçada?
— É uma intimação, não está
vendo?
— Mas que crime eu cometi? eu
matei alguém, por acaso?
— Não, mas vai acabar matando a
mim e ao seu pai. Eu pedi a Alberto que tomasse uma providência e a promotora vai conversar com você amanhã. Pelo menos a ela você vai ouvir.
— Eu não acredito! Gabriela riu
nervosamente — a senhora não fez isso...mãe, nós somos uma família, poderíamos ter tentado resolver entre nós...sei lá! mas não...a senhora fez questão de me expor a esse ponto, só pra me humilhar... —sentia um nó na garganta — porquê, mãe?
Dalva a olhava, compadecida.
Mas era muito discreta, por isso não interferia.
— Uma intimação... isso é
ridículo! Sim? e que argumentos a senhora usou? Porque eu não consigo ver nada para me acusar...
— Eu disse que você não é minha
filha biológica e que não tenho a obrigação de suportar as coisas que você anda fazendo, assim, sem questão de esconder nada de ninguém. Que seja tomada uma providência, pois como está não pode ficar.
— Mas seria tão simples...era só
me mandar embora e pronto! Não precisava ser outra pessoa a me dizer isso.
— E ir pra onde, Gabriela? Meu
Deus! porque você não coloca um pouco de juízo nessa cabeça dura, larga essa vida miserável e dá um pouco de orgulho pra gente? Quando eu penso... — antes que a sua mãe começasse a falar, Gabi já sabia todo o texto — nós te criamos com tanto amor...você foi a criança mais feliz que eu já conheci... eu sonhei tantas coisas pra você...pensei que você ia casar, ter filhos, se formar...
— Eu ainda posso me formar
mãe...sou nova.
— Você tem é que arrumar um
homem! Uma menina bonita dessa, jogando fora toda a sua juventude...Todas as suas amigas tem namorado. Não sei mais o que dizer aos parentes quando me perguntam se você já casou... — Dona Verônica colocou a mão na cabeça, num gesto dramático — Ai que vergonha, meu Deus!
— Para, mãe! Para de se
preocupar com o que os outros vão dizer. Ninguém se importa realmente. Não se importa em como você se sente, se está precisando de algo. Se preocupam apenas em se intrometer na vida alheia pelo puro prazer da fofoca e do sofrimento que o outro lhe traz! A senhora já viu a felicidade das pessoas atrair tanto interesse assim? Tanta empatia?
Dalva olhou para Gabriela,
concordando silenciosamente com a cabeça e então ela continuou:
— Para de querer passar essa
imagem de família perfeita, que na verdade não existe. Os mesmos que me apontam certamente procuram um espelho, que refletem a vida vazia que eles mesmos tem. Quem julga o que eu sinto apenas demonstram o ódio ou a infelicidade que estão neles mesmos! Eu não posso ser culpada por isso!
— Você está cega, Gabriela! Está
nas trevas e pelo jeito não quer sair...eu desisto! Não sei mais o que fazer com você...
Gabriela sentou-se, segurando a
intimação entre as mãos, que aos poucos ficava marcada pelas suas lágrimas, enquanto ela dizia:
— Eu só quero ser feliz, mãe!
— Feliz? eu nem quero ouvir
isso...que felicidade você vê ao lado de uma mulher, Gabriela? Você acha que Deus está do seu lado, concordando com um pecado desses?
— Deus é amor! E qualquer que
seja a espécie de amor, só pode vim Dele. Se não for, que seja Ele o único a me julgar. A Bíblia não diz isso também? Quem é melhor que eu para me atirar a primeira pedra? Quem faz distinção são os homens, não é Deus. Não minha mãe, não é isso que Ele me diz nas conversas que temos todos os dias. Ele me ama como eu sou e me protege a todo momento. E sabe porquê? — continuou — porque eu não estou fazendo mal a ninguém. Ainda sou a mesma pessoa, com o mesmo caráter. Eu não mudei de sexo...sou sua filha...a mesma de antes...
— Você não é mais minha filha —
a mãe de Gabriela desabafou, virando as costas e encerrando a conversa.
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Seu encontro com a promotora foi
pior do que imaginava. Gabriela praticamente não abriu a boca e nas poucas vezes que o fazia era cortada, rispidamente, impedindo-a de defender-se.
Ouviu sermões de quase duas
horas, que tratavam de regras que deveria obedecer e de horários estipulados para chegar em casa. Ela falava como se tivesse contando uma verdade que ninguém mais no resto do mundo sabia e Gabriela já começava a ficar entediada.
Decepcionada com a expectativa
que criara em ter a chance de expor seus sentimentos a uma mulher mais velha e aparentemente esclarecida, que talvez a entenderia, acabou desistindo e ouviu tudo, respeitosamente, até o final.
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Malu já não suportava ver
Gabriela naquela situação. Sentia-se culpada, em vê-la tão triste e ao mesmo tempo, admirava a sua determinação em não desistir. Comovia-se com o seu companheirismo incondicional. E apesar de não querer ficar longe dela, só conseguia pensar que a estava fazendo mal e que o melhor seria afastar-se dela, para evitar um sofrimento maior. Malu não se conformava em ver Gabi dormir praticamente todos os dias na casa das amigas porque a sua mãe não a deixava entrar depois de um certo horário. "Gabi está perdendo tudo. E a culpa é minha", pensava.
Decidida, falou a Gabi que
precisavam se afastar por um tempo, até que as coisas melhorassem. Fez um grande esforço para parecer tranquila, mas Gabi percebeu a dificuldade com que Malu pronunciava cada palavra e então ela percebeu que sua intenção era apenas protegê-la, mesmo renunciando aos próprios sentimentos, por isso, acabou aceitando, resignada, mas deixou claro para Malu que seria provisoriamente, pois não ia abrir mão da relação por nada desse mundo.
Uma semana havia se passado e
Gabriela pôde experimentar pela primeira vez o vazio que era a sua vida sem Malu. Sem ouvir a sua voz e a sua risada que enchia seus dias de alegria.
Sentia-se terrivelmente só
naquela noite, mesmo entre os seus amigos, que conversavam animadamente e bebiam, alheios ao silêncio de Gabi. Fernanda, sabendo o motivo do seu desânimo, cochichou no seu ouvido que Malu não havia saído naquela noite. Sem pensar duas vezes, Gabi pediu para Carlos que a levasse na casa de Malu.
E n t r o u d e v a g a r i n h o , mesmo
o s saltos lhe
denunciando.
Parou na porta e olhou pela
janelinha que estava entreaberta. Malu estava de calcinha e camiseta, exatamente como Gabi havia imaginado. Olhava para a tv, absorta. Gabi respirou fundo e bateu levemente na porta. Malu, paralisada, olhou surpresa para Gabi, no seu minúsculo vestido preto, a sensualidade contrastando com o olhar tímido, como se não tivesse certeza se Malu a queria ali.
Malu a pegou pela mão,
lentamente, e a abraçou. Assim ficaram, durante alguns segundos, antes de beijarem-se, apaixonadamente.
Quando separaram-se, Malu a fez
sentar-se e passando os dedos sobre os cabelos e rosto de Gabi, sussurrou:
— Que bom que você veio!
— Eu não aguentei. Senti muito a
sua falta. É tudo tão sem graça sem você, Malu! Eu saí, mas não consegui me divertir...pensei em você o tempo inteiro.
— Eu também pensei muito em
você, coisa linda. Você não faz ideia do quanto foi difícil para mim tomar aquela decisão...eu só queria que você ficasse bem...E aí, como estão as coisas?
— Não mudou muita coisa. E eu
sei que não adianta tentar forçar um rompimento nesse momento em que estamos assim, no auge. Eu não quero ficar longe de você. Você, quer?
— Não... eu não consigo.
Também senti saudade. Mas é que eu fico preocupada... — Gabi a interrompeu, pondo gentilmente o dedo em sua boca:
— Não fala nada...só me beija.
Malu a beijou, enquanto a arrastava até o banheiro:
— Malu... não! Para... por favor!
— Gabi foi se esquivando, mas Malu a puxou para junto de si e Gabriela soltou um grito ao sentir a água sobre sua cabeça. Mas logo silenciou-se, ao sentir Malu tão perto, olhando-a tão profundamente nos olhos, enquanto lhe desnudava. Nada mais restava: nenhuma peça de roupa, nenhum vestígio de maquiagem, apenas a cama de Malu que a esperavam e foi lá que se amaram até serem vencidas pelo sono.
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Gabriela sentia-se aliviada e até
feliz, pois a sua família finalmente parecia ter aceitado que de nada adiantava toda aquela repressão. Já não comentavam sobre o assunto, viviam em um silêncio, no mínimo, suspeito. Mas Gabi descobriu, infelizmente, que estavam apenas ganhando tempo, enquanto planejavam o seu futuro.
Em pouco tempo, Gabi foi
surpreendida pela notícia de que seria mandada para Salvador, com a intenção de afasta-la de Malu. Sem que ela pudesse tomar conhecimento, seu destino já havia sido decidido.