De lagarta a borboleta: Quando o amor se transforma
Parte IV
P A R T E I V
Já não bastasse Gabriela ter sido
forçada a transferir-se de colégio, o turno também havia mudado. Ela agora estudava pela manhã, o que a chateava ainda mais, pois tinha dificuldade para acordar cedo.
Estava assim, totalmente absorta,
a mão apoiada no queixo, ouvindo vagamente o que a professora dizia, quando uma aluna da outra turma interrompeu a aula:
— Quem é Gabriela?
— Sou eu.
— O porteiro pediu para avisar
que tem alguém lá à sua procura — disse a garota, apontando para o lado de fora do colégio. Gabi ia perguntar quem era, mas ela já havia saído. Então pediu licença a professora e saiu.
Quando viu que era Malu, tentou
voltar, mas ela, ágil, a segurou pelo braço, pedindo:
— Espera, por favor! Não saia
assim, antes de ouvir o que eu tenho pra dizer...
Gabriela a olhava friamente:
— Nós não temos mais nada para
conversar. E se você me der licença, tenho que voltar para a aula. — já havia dado as costas, quando Malu a chamou novamente, fazendo-a parar:
— Me dá uma chance de me
explicar! Eu prometo que não vou forçar nada, só quero que você me ouça.
Gabriela continuava irredutível:
— Não estou interessada em
ouvir suas explicações. Você já fez a sua escolha, não tem mais nada que fazer aqui.
— Para de falar bobagens, eu não
fiz escolha nenhuma! — e ameaçando — E se você não aceitar falar comigo, eu vou até a sua casa e faço um escândalo!
Gabriela disse, sem muita
certeza:
— Você não faria isso...!
— Não? — perguntou Malu, arqueando as sobrancelhas.
Gabi acreditava que Malu não
chegaria a tanto, mas sabia que persistência ela tinha de sobra. Ela não sairia dali enquanto Gabi não cedesse. Finalmente, Gabriela concordou em encontra-la em uma lanchonete, depois da aula.
Marília, a colega mais próxima de
Gabi, era quem mais a estimulava a continuar estudando naquele colégio. Passava todas as manhãs em sua casa e não deixava que Gabi faltasse às aulas. Tinha um jeito franco e até ríspido de falar, mas era uma boa amiga.
Naquele dia, foi ela quem
incentivou Gabi a conversar com Malu:
— Deixa de ser cabeça dura,
Gabriela! Vai lá conversar com a garota, ouvir pelo menos o que ela tem a dizer...
— Sei não... eu ainda acho que
seria melhor deixar as coisas como estão. Ela que fique com sua ex namorada e me deixe em paz!
Já em frente à lanchonete, Gabi
parou e viu Malu, na mesa do canto, de costas para ela. Mordeu os lábios, nervosa.
— Anda logo! — disse Marília,
empurrando Gabi para dentro da lanchonete — depois você me conta tudo. Até logo!
Gabriela se aproximou de Malu,
com os cadernos contra o peito, como um gesto de defesa. Malu fechou a revista que estava lendo e pediu:
— Senta, por favor!
— Não há necessidade. — disse
Gabi, friamente — se você tem algo a me dizer, seja breve, pois não tenho tempo a perder.
— Você pode sentar, pelo menos?
Depois de hesitar um pouco,
Gabriela sentou-se e a olhou, esperando. No seu olhar havia súplica. Mas permaneceu em silêncio. Então ela mesma decidiu começar:
— Olha Malu, quando me envolvi
com você, sabia o risco que estava correndo: de perder, de sofrer, de ficar em segundo plano.
Mas foi inevitável, e você sabe
disso. Foi mais forte que nós duas. O problema é que se isso não acabar agora, vai crescer ainda mais... — fez uma pausa — vou me apaixonar ainda mais e eu não quero ser coadjuvante nessa história.
— Você não sabe o que está
dizendo! — disse Malu, segurando em suas mãos e olhando fixamente para Gabi — Você é mais importante pra mim do que eu mesma poderia imaginar. Você mudou a minha vida, desde aquele primeiro beijo. Depois daquele dia, eu sei que jamais será a mesma coisa, jamais serei a mesma, principalmente com Joane.
—Se isso que está dizendo fosse
verdade, você não estaria conversando com ela ontem, enquanto eu te esperava na sua casa. — disse Gabi, magoada.
— Admito que eu fui errada, mas
ela disse que precisava falar comigo. Depois de um longo relacionamento, ficam sempre alguns assuntos pendentes, mas nós duas sabemos que não existe a menor possibilidade de um recomeço. E não foi por sua causa. — continuou — Já estava acabando, estávamos sustentadas pelo costume e aí você apareceu em minha vida...linda, meiga, carinhosa...era tudo que eu precisava.
Gabriela a ouvia, ainda insegura.
— Eu imagino o que você deve
estar sentindo Gabi. Deve achar que estou mentindo. Eu admito que já havia conversado com Joane outras vezes, depois do término, pois não queria que ela ficasse com raiva de mim, Mas acredite: hoje Joane é uma pessoa que eu respeito muito e admiro também. Ela não merecia nada que eu fiz com ela e eu espero que ela seja feliz. Ela está namorando, sabia?
— Sei, claro. Mas isso também
não faz a menor diferença. Deve ser por isso que você está me usando — falou Gabi, de maneira infantil.
— Eu? usando você? — Malu
ofendeu-se. — Poxa Gabi, ninguém pode obrigar o outro a fazer o que não quer. Eu poderia ficar sozinha, dar um tempo pra mim, não acha? Mas não...eu quero ficar com você. Quero não repetir os mesmos erros, ser outra pessoa. Eu seria incapaz de te magoar. Aliás, quem seria? — perguntou Malu, afetuosamente, depois de colocar atrás da orelha de Gabi uma mecha de cabelo que acabara de cair em seu olho. — e continuou — você é diferente de todas as pessoas que eu me relacionei e ontem, pude perceber o quanto é importante pra mim, pois não suportei a ideia de te perder. — e engolindo em seco, disse: — Eu amo você, Gabi.
Suas palavras soaram totalmente
sinceras, mas Gabi não estava disposta a ceder. E levantando, disse:
— Eu também te amo, mas não há
amor que resista a tanta indecisão. E saiu, deixando-a sozinha, com uma expressão triste que ela carregou na sua mente o dia inteiro, mas não se permitiu sentir remorso.
Malu não desistiu. No dia seguinte, pediu a Marília que levasse Gabi até a casa de Carol sem que ela soubesse que estaria lá.
Malu apareceu em sua frente
repentinamente, e ela tentou desviar-se, mas
Malu segurou em seus braços e
dominou todos os seus movimentos, colocando-a em seus ombros, enquanto Gabi esperneava. Jogando-a em cima da cama, Malu pousou seu corpo sobre o dela, de maneira dominadora. Gabi ainda tentou lutar, mas foi inútil. Seus rostos estavam muito próximos e as respirações eram uma só. Malu a beijou. Carol e Marília saíram, sorrateiramente, trocando sorrisos cúmplices.
Um desafio estava sendo vencido
por Gabriela e Malu: o desafio de vencer o passado. Porém, muitos maiores que este, esperavam pelas duas.
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Na hora do intervalo, no colégio
em que Gabi estudava, era um verdadeiro burburinho. Os alunos se reuniam no pátio, falavam alto. Outros transitavam pelos corredores, faziam círculos, onde se reuniam com os mais próximos.
Gabriela não tinha a menor
afinidade com nenhuma das turmas. Normalmente não tinha dificuldade para fazer amizades, mas ali, preferia ficar mais reservada e se restringia apenas à companhia de Marília. As duas sentavam para comer alguma coisa, enquanto conversavam amenidades.
Gabriela não tinha inimigos. Era
simpática e gentil, porém, havia uma garota que a provocava, gratuitamente, sem o menor motivo aparente. Gabi ignorava, pois Marília a aconselhou a não dar espaço, já que aquela garota costumava fazer aquilo com pessoas que ela não simpatizava, por puro despeito.
As provocações se tornavam cada
vez mais frequentes e Gabi já estava perdendo a paciência. Era normalmente dócil, mas ficava bastante nervosa quando se sentia desrespeitada.
O intervalo havia terminado e
Gabi já estava entrando na sala, quando percebeu que sua colega tentava colocar o pé em sua frente, para que ela caísse, entre risinhos das outras amigas.
Gabriela reuniu todas as suas
forças para ignorar. Respirou fundo e virou-se devagar, perguntando, tranquilamente:
— Porque eu te incomodo tanto,
hein garota? Qual o seu problema? Pois saiba que você para mim é tão insignificante que eu nem vou me dar ao trabalho de ficar aqui, discutindo com você. — disse Gabi, fazendo menção de entrar, mas a garota continuou:
— É que me incomoda respirar o mesmo ar que uma pessoa com gostos tão estranhos...
Gabriela estreitou os olhos:
—Hum...entendi. Sabe que eu
estou começando a achar que é você que está apaixonada por mim? Desculpa, mas definitivamente você não faz o meu tipo.
A outra ofendida, começou a falar
alto:
— Eu, apaixonada por você? Eu
gosto é de homem! — e repetiu, soletrando:
— Ho-mem!
— E os homens, gostam de você?
— Gabi deu um riso irônico. E continuou: — pois a mim não importa do que você goste ou deixe de gostar, da mesma forma que a minha vida não lhe diz respeito. — levantou a cabeça — o que você sabe sobre mim? que intimidade eu lhe dei para lhe questionar minhas preferências? Eu nem te conheço, menina! Vai cuidar da tua vida e me deixa em paz!
— É isso mesmo — interviu
Marília — deixe ela em paz!
Gabriela considerava encerrada a
discussão, quando ouviu aquela frase que a deixou furiosa:
— Cuidado, hein Marília!
Qualquer dia desses ela pode te agarrar no banheiro!
Gabriela a fuzilou com o olhar,
um momento antes de voar sobre seus cabelos, enquanto Marília pedia que ela parasse. A essa altura, o pátio já estava rodeado de alunos curiosos que só olhavam, enquanto as duas rolavam pelo chão, entre socos e pontapés.
Marília tentava separa-las, mas
ela sozinha não conseguiu. Até que teve a ideia de chamar a diretora, que se pôs ao lado delas, gritando com um tom de voz cortante:
— Parem com isso, as duas!
Agora!
Gabriela se ajeitava, enquanto
pegava as suas coisas e ia para a diretoria. Não sentia nenhum constrangimento. Estava, ainda, com muita raiva.
As duas foram colocadas, propositalmente, ao lado da outra, que trocavam, vez ou outra, olhares carregados de ódio.
A diretora começou:
— Eu gostaria que alguém me
explicasse o motivo dessa confusão.
As duas começaram a falar ao
mesmo tempo e a diretora, com a mão estendida, declarou:
— Uma de cada vez!
— Me desculpe diretora —
começou Gabi — eu não costumo fazer isso, mas esta garota está me provocando há dias, deliberadamente, soltando piadinhas quando eu passo, até aí, tudo bem, ignorei. Mas ela se referir a mim daquela maneira? Não me contive! perdi toda a minha educação. A senhora sabe, ninguém é de ferro.
— E eu posso saber o motivo
dessas provocações, senhorita Patrícia? — perguntou a diretora, severa.
— Ah diretora, não sou só eu que
falo dela! O colégio inteiro comenta que todos os dias a namorada dela vem busca-la na porta da escola. Mas só eu tenho coragem de falar na cara.
— E você, claro, considera isso
um ato heroico... — ironizou a diretora, intimidando - a.
— Não é isso...é que eu não
acho...normal.
— E o que você não acha normal?
Patrícia parecia não encontrar
palavras para explicar-se.
— Ah, sei lá, esse desvio dela.
Acho falta de vergonha. Não aceito.
— Por acaso, você provocou
Gabriela pelo fato dela não ter a mesma preferência sexual que você? É isso?
Patrícia balançou a cabeça que
sim.
— E o que muda na sua colega,
como pessoa, exceto uma forma diferente de relacionar-se sexualmente? E em sua vida, que diferença faz com quem uma amiga, vizinha, conhecida ou seja lá quem for, divide a cama? — fez uma pausa — Porque se faz diferença, então me perdoe minha filha, mas quem está com problemas é você.
Patrícia estava desconcertada e
então, a diretora continuou:
— O que você pretende fazer
quando terminar os estudos?
— Como assim? — Patrícia não
entendia.
— Eu perguntei que profissão
você pretende exercer.
— Eu pretendo ser advogada, ou
juíza — respondeu Patrícia com orgulho.
— E então, se um cliente lhe
procurar, para que você defenda uma causa, você recusará, se ele for homossexual? E você tratará com desprezo os seus colegas, todos ao seu redor, se eles tiverem uma orientação sexual diferente da sua?
O silêncio reinava na sala.
Gabriela estava comovida e Patrícia, envergonhada. A diretora fez uma pausa e depois, finalizou, dizendo:
— É uma pena realmente que
ainda exista pessoas desinformadas e preconceituosas, principalmente com tanta juventude e um futuro tão belo pela frente. A nossa escola tem a intenção de não só formar alunos, para ter uma boa profissão, mas para que respeitem o outro, sejam cidadãos e seres humanos educados e pacíficos. Espero que a partir de hoje, olhe as pessoas de maneira diferente, procure conhecê-las e saber o que existe de bom dentro delas — e dirigindo-se a Gabriela: — E você, minha querida, não pense que com violência conseguirá respeito. Dê o melhor de si, mostre a sua essência, faça-se respeitar. — sorriu brevemente — E agora, voltem para suas salas que o "estudo" dignifica o homem.
Gabriela parou na porta, olhou
para a diretora e disse:
— Obrigada.
Ela apenas sorriu, maternalmente.
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Malu e Gabriela encontravam-se,
geralmente, na casa de Carol. Sua mãe, Eva, era divorciada e morava apenas com Carol e Michele, que era, ao contrário da irmã, introspectiva, séria. Gostava de dança, de música, praticava esportes. Vivia na casa do namorado, não ia às festas, nem tinha muitos amigos. Era o oposto de Carol, que tinha espírito aventureiro, era independente, entusiasmada e alegre. Não se dava ao luxo de sofrer por nenhum homem, nem perdia tempo correndo atrás deles. E todos viviam aos seus pés.
Eva era alegre e batalhadora.
Jovialidade de sobra, gostava de sair, de preferência nos mesmos locais e com os mesmos amigos da filha. Ela e Carol tinham um relacionamento aberto.
Confidenciavam-se e brigavam,
na mesma proporção. Modelo da filha, Eva não baixava a cabeça para os homens, nem para as dificuldades. Era uma mulher forte e de muitos amores.
Ela não se importava com a
presença de Malu e Gabriela, até saía e se divertia muito com as duas. Mas volta e meia, algumas pessoas faziam comentários maldosos sobre ela aceitar em sua casa um casal de mulheres e para preserva-la, se afastaram um pouco e só apareciam ocasionalmente, para uma visita.
Gabriela não abria mão das suas
velhas amizades, sempre tão leais às suas escolhas, mas tinha agora, outros amigos também. Passou a viver em outro universo, antes desconhecido, que era onde ela se encaixava naquele momento, com pessoas que viviam a sua realidade e partilhavam dos mesmos gostos, prazeres e dificuldades.
Gabi descobriu que todo aquele
estereótipo criado por pessoas desinformadas não era em absoluto, verdadeiro. Tinham algo em comum, mas eram individualmente diferentes nas suas preferências. Eram pessoas bem resolvidas, inteligentes, criativos e extremamente divertidos. Seus amigos eram pessoas que tinham um espaço na sociedade, uma conquistada admiração e retribuíam com trabalho, cultura e muito senso de humor.
Era realmente um mundo de
diversidades e Gabi estava aprendendo, sobretudo, a não sentir-se diminuída com o preconceito de algumas pessoas, nem incomodar-se com a estranheza de quem ela sabia incapaz de compreender, de fato, aquele sentimento. Não valia mais a pena brigar com estranhos, que não a conhecia, portanto, não merecia relevância. Até aquele momento nenhuma distinção havia agredido a sua existência. Exceto pelo ocorrido na escola, mas a diretora tinha razão: de nada adiantaria impor aceitação aos ignorantes e pobres de espírito. A quem não fazia parte da sua história, a quem sequer experimentou um amor tão grande como o dela. Sua defesa tinha que ser a doçura da sua essência, que falava por si só e a sua arma foi sendo a admiração, que ela e Malu, naturalmente conquistavam, de maneira gradativa, sem guerras nem esforços, apenas respeitando o espaço do outro, simplesmente sendo elas mesmas.
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Gabriela chegava de mais um
encontro com Malu. Estava feliz. Na companhia dela, sentia-se viva, plena, realizada, como nunca havia se sentido antes. Malu era atenciosa e a cobria de mimos, fazendo-a se sentir amada e segura. Tinha tudo que Gabi havia procurado nos homens, inutilmente. A relação delas era de puro encanto.
Gabi tirou as sandálias
cuidadosamente e andava quase com as pontas dos dedos. Tentou girar a chave sem fazer barulho e mesmo no escuro, procurava seu quarto, apalpando os móveis. Logo estaria em sua cama, dormindo tranquilamente. Mas antes que se despisse, a luz foi acesa.
A expressão da sua mãe lhe
avisou instintivamente que ela havia descoberto tudo.