De lagarta a borboleta: Quando o amor se transforma

Prólogo

P R Ó L O G O

 

1998. Foi um ano difícil, pensou

Gabriela. E de uma constante mutação. Mas em sua frente descortinava-se uma nova oportunidade de vencer o passado e recomeçar.

 

Gabriela perdeu-se em

pensamentos, tentando assimilar todos os últimos acontecimentos que mudaram a sua vida para sempre.

 

Foram tantas transformações que parecia inacreditável. Lucas agora e tudo que fazia parte dele tinha ficado para trás e ela até agradeceu intimamente, pois a decepção que havia sofrido apenas a levou ao caminho da liberdade. E de novas escolhas.

 

Gabi conheceu Lucas quando

tinha apenas quinze anos. Ele, dezoito. A irmã dele era a sua melhor amiga e isso automaticamente os levaram a uma inevitável convivência. Tornaram-se amigos, mas certo dia, por impulso, beijaram-se. Surgiu, então, um típico início de namoro. Viviam juntos o tempo inteiro. Gabi criou um laço muito forte com a família de Lucas e eles apoiavam totalmente o namoro.

O sentimento ia crescendo e se

chocando com uma inesperada mudança de comportamento dele. Lucas era infiel. E todo o respeito e atenção que dedicava a Gabi foi se esvaindo, substituídas por ofensas e agressões verbais, principalmente quando ele bebia, o que se tornou frequente.

 

Surgiu, então, uma esperada

crise, que se intensificou quando, dessas traições, veio à tona uma gravidez. Foram inúmeros momentos de tormento para Gabi, que não soube lidar com essa situação, já que Lucas negava veementemente ser o pai, e ela, por estar apaixonada, foi se acomodando a situação e não terminou. Mas a mãe da criança acabou, de certa forma, interferindo bastante na relação deles, encorajada pelo próprio Lucas, sendo o maior culpado, já que alimentava.

 

A gravidez foi interrompida,

naturalmente, aos oito meses, mas isso não diminuiu o problema, pois a mãe da criança criava situações constrangedoras diversas vezes em público, fazendo com que Gabriela se desgastasse emocionalmente, passando da raiva para finalmente o cansaço.

 

Gabriela, anos depois, tornou-se amiga da que era, até então, sua rival. Mas de tanta confusão, a relação já estava afetada demais para continuar. Depois disso e de outros fatores, como: ciúme, brigas violentas e infantilidades, Gabriela decidiu colocar um ponto final no seu namoro de três anos com Lucas.

 

Gabriela sabia que duas coisas

foram responsáveis por esse rompimento. Primeiro: ela já havia relevado tudo o que o seu limite de bom senso poderia suportar. Foi um processo lento, mas ela percebeu que poderia viver sem ele. Ter seus próprios interesses, sua individualidade, sem depender dele para ficar triste ou alegre, dedicando-lhe sua juventude e liberdade. Além do mais, sua visão estava se abrindo para o futuro e ela perguntava-se se ele seria o marido que desejava. Não, não era. Imaturo e irresponsável demais para administrar uma relação. Lucas fora o primeiro amor de Gabriela, e como todo primeiro amor, viera cheio de devaneios, despreocupações, fantasias, imediatismos, “nuncas" e "sempres"...mas nascia dentro dela uma súbita e curiosa necessidade de livrar-se do laço de submissão que a prendia a Lucas e de viver novas experiências.

 

Ele, previsivelmente, não

entendeu sua brusca mudança de atitude e tentou atingi-la, quando minutos antes de viajar, disse-lhe que seria melhor que os dois ficassem separados por um tempo, ao que calmamente Gabriela respondeu:

— Concordo. Ultimamente não

estamos mesmo nos entendendo, terminar parece ser a melhor solução.

 

Lucas, para se defender, acusou

Gabriela de não estar dando atenção a relação, ao que ela imediatamente rebateu:

— Eu? Eu não e s t o u dando

atenção? Você é mesmo

engraçado! — riu sarcasticamente. — durante todo esse tempo o que eu fiz foi respirar esse namoro. E você, Lucas? — seu tom agora era de mágoa — me deixava sozinha nos fins de semana, me traía, não deu a menor importância ao que eu sentia, porque acreditava que eu nunca iria te deixar, que me teria para sempre, que eu não me cansaria nunca... — fez uma pausa, enquanto olhava friamente para o namorado, que baixou a cabeça, desarmado. — pois eu me cansei! E eu estou te deixando...você não me deu o devido valor, então não venha me culpar agora!

 

Finalmente, depois de muitas

acusações, Lucas disse que não aceitava as suas novas amizades, que foi o segundo motivo responsável pelo rompimento.

— Escolha elas ou eu!

— Escolho eu mesma. —

respondeu Gabi, saindo do carro, sem olhar para trás.

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Renata estava frequentando a

casa de Gabi há pouco tempo, por causa da sua recente amizade com Maurício, irmão de Gabriela. Renata era brincalhona e sempre muito carinhosa com Gabi, que subitamente passou a prestar atenção no corpo bonito que se escondia nas roupas largas que ela sempre usava. Renata não era nem um pouco feminina, talvez por isso Gabriela sentiu-se inesperadamente atraída, mesmo que dissesse a si mesma que era loucura da sua cabeça.

 

Gabi lembrava-se que na sua infância, quase na puberdade, ela e suas amigas beijavam-se umas às outras, treinando para não errar quando o "príncipe encantado" aparecesse. Mas entendia que foi um processo de descoberta, uma curiosidade natural, que não representava uma opção sexual definitiva. Até aquele momento apenas os garotos chamavam a sua atenção, por isso se chocou com a possibilidade de sentir-se atraída pelo mesmo sexo. Mas era curiosa e impulsiva demais para se negar a essa experiência. Gabriela decidiu se arriscar, tirar a sua dúvida e depois ela optaria. Depois pensaria nas consequências.

Já decidida, procurou deixar

evidências para Renata, enviando sinais através de algumas atitudes, sutis, mas claras.

Estavam juntas naquele barzinho.

Em meio as músicas e o álcool, foi tomando coragem. No momento que se sentiu desinibida, disse a si mesma: "é agora! estou pronta." E então seguiu Renata até o banheiro e a beijou. Sua reação foi de uma breve surpresa, mas logo correspondeu. Riram em seguida, pela inusitada situação, até que alguém bateu na porta e elas recompuseram-se. Voltaram e se juntaram novamente aos amigos, que aparentemente não perceberam nada e então tudo voltou ao normal. Mas dentro de Gabi havia uma avalanche de sentimentos, que ela remoeu por toda a noite.

Havia beijado pela primeira vez

uma mulher, já adulta. E gostou. Não sentiu repulsa, como imaginara várias vezes. Foi natural. E mais que isso, sentiu desejo. Queria mais.

 

Nos dias que se seguiram,

Gabriela tentou ser o mais espontânea possível na presença de Renata, não superdimensionado o que seria apenas uma experiência. A amizade continuaria e tudo voltaria a ser como antes. Mas logo recomeçaram as aulas e as duas passaram a ver-se diariamente, já que estudariam no mesmo colégio.

Gabi, aos poucos, via-se

envolvida com Renata, que se mostrava sempre muito afetuosa, apesar de na maioria das vezes, tratar Gabi com um carinho que dispensamos a uma criança frágil.

 

Passaram a andar sempre juntas

no colégio e foi nesse momento que Gabriela descobriu como as pessoas poderiam ser preconceituosas. Cochichavam quando elas passavam. Algumas colegas se distanciaram e outras falavam forçadamente, como se tivessem receio de serem desagradáveis, mas ao mesmo tempo, algo em suas atitudes denunciava que não queriam muito contato, não queriam "se misturar". Sua única amiga que não mostrou mudança ainda era Carol.

Gabriela procurava não se abalar

com esse tipo de atitude das pessoas, até o diretor chamar Carol e ela na diretoria. As duas entreolharam-se, sem entender.

— Por favor, sentem-se! —

ordenou.

— Bem — ele começou — eu sei

que como diretor, talvez vocês achem que eu não tenho esse direito, mas estou observando o comportamento das duas e percebi que não estão andando em boa companhia.

 

Gabriela abriu a boca para falar,

mas ele a interrompeu:

— Não adianta vocês acharem

que ninguém vai comentar, pois todos já estão comentando. Essa Renata tem a vida dela, todos a conhecem e sabem que ela é... diferente. Mas eu sou amigo da família de vocês e sinto informar que vou ter de comunica-los sobre o que está acontecendo.

— Mas isso é um absurdo! —

disse Gabi, indignada, porém, sem alterar a voz — ela é uma pessoa como qualquer outra, o senhor não pode julgá-la dessa maneira. Isso é totalmente preconceituoso e injusto!

— Injusto ou não, dona Gabriela

— continuou o diretor, calmamente — o fato é que vocês ainda não completaram dezoito anos e aqui, na escola, sou o responsável pelo bem- estar dos meus alunos.

 

Carol permanecia calada,

visivelmente mexida com a notícia de que as pessoas estavam comentando que ela seria lésbica, mas Gabi não se deixou abater e respirando fundo, disse:

— Eu gostaria, sinceramente, que

o senhor tirasse os meus pais dessa história. Eles não entenderiam e eu creio que sou crescida o suficiente para resolver isso sozinha.

— Tudo bem, não envolverei os

seus pais — Gabi respirou aliviada, mas logo desanimou-se novamente — mas vou chamar seu irmão Maurício aqui.

A revolta de Gabi foi crescendo.

 

Olhou para Carol e não encontrou apoio. No início ficara apreensiva, pois acreditava que seriam chamadas atenção pelo fato de estarem fumando escondido no colégio, mas diante de tanta discriminação ela não se conteve e o enfrentou:

— O senhor não tem esse direito!

Como aluna, eu devo sim, ser corrigida por algum erro, mas minha amizade com Renata é um problema pessoal meu, é minha vida, o senhor não tem nada a ver com isso e...

 

O diretor a interrompeu

novamente, com a mão estendida em sua direção:

— O assunto está encerrado.

 

Carol sabia que não adiantaria

mais Gabriela argumentar, por isso lançou-lhe um olhar significativo, alertando-a silenciosamente, que era o momento dela se calar. E então, muito à contragosto, Gabi abandonou a sala.

 

********************************

 

Passou-se uma eternidade até

Maurício sair da diretoria e Gabriela roía as unhas e balançava as pernas, ansiosamente. Momentos depois, ela foi informada que seria transferida de colégio.

 

Quanto à Renata, passaram a ver-

se cada vez com menos frequência, até que separaram- se, sem traumas. Seus pais foram poupados e por isso não houve nenhum conflito familiar, apenas eles acreditaram que Gabriela era liberal e moderna demais, por isso não sabia escolher suas amizades. As duas tornaram-se boas amigas.

 

Gabriela conformou-se, pois

sabia que nunca daria certo. Não pelo preconceito das pessoas, que ela certamente enfrentaria de cabeça erguida, mas principalmente pelo fato de Renata nunca ter se entregado inteiramente, pois amava outra garota e o que sentia por Gabi era apenas carinho e um certo envolvimento, mas nada profundo. Ela havia ajudado Gabriela a descobrir-se, a conhecer aquele mundo misterioso e a aproxima-la da pessoa que Gabi não ousara imaginar, seria seu grande amor.

 

************************************

 

Cinco meses se passaram. Nesse

meio tempo, Gabriela teve um curto relacionamento com um garoto da sua idade, no qual houve uma relativa afinidade, mas que não foi à frente, pois ambos tinham ainda muitas coisas para viver e não estavam dispostos a assumir um compromisso mais sério, mas no tempo que ficaram juntos, deram-se muito bem e Gabi guardara boas lembranças dele. Gabi estava aproveitando ao máximo sua liberdade, indo a barzinhos e inúmeras festas. Conheceu pessoas novas e seus amigos eram sua companhia predileta.

 

Tudo transcorria normalmente,

quando certo dia, Lucas pediu a uma amiga em comum para intermediar um encontro com Gabi, apenas para conversarem, justificou ele. As lembranças dele eram bem vagas, já que Gabriela substituiu sua ausência com coisas que para ela eram prazerosas, evitando, assim, uma possível recaída. Por isso se recusou a falar com ele, pois remexer no passado não seria uma atitude prudente. Porém, de forma inconsciente, queria provar a si mesma que poderia encara-lo de cabeça erguida e lhe ser indiferente, por isso, acabou aceitando.

 

Lucas a esperava sentado, em um

barzinho tranquilo, quase sem nenhum barulho, exceto pela música ambiente. Inicialmente, eram só formalidades, perguntas referentes à família ou comentários superficiais sobre amigos próximos. Mas, como Gabi já esperava, logo Lucas começar a falar dos dois:

— Gabi, eu pedi para falar com

você porque senti vontade de te ver ... quero que saiba que sinto muito a sua falta e ...

 

Gabriela o interrompeu:

— Lucas, prefiro não falar sobre

isso. Você sabe que já não existe mais nada entre nós e eu quero que continue assim. Nada será igual a antes. Nós nos separamos justamente porque já tínhamos vivido tudo o que tínhamos de viver... você teve seus motivos, eu tive os meus, enfim...

Mas Lucas insistiu:

— Gabi, o que vivemos não pode

ser esquecido assim. Eu errei muito com você, mas eu vou mudar. Eu quero mudar. Prometo que dessa vez vai ser tudo diferente. Eu não vou mais te decepcionar.

Gabriela balançava a cabeça,

desacreditada. Não se iludiria com nada que estava ouvindo, mesmo que no fundo soubesse que ele, de alguma forma, nutria sim, um sentimento por ela, mesmo que este não fosse mais válido naquele momento. Ela sabia que voltar para seu antigo namorado seria como regredir. Seria totalmente irracional. Por isso continuou explicando a Lucas os motivos — mais que suficientes — que impediriam a harmonia da relação. Ela acreditava que as diferenças entre eles eram tão grandes que nenhum momento bom superaria. Mas foi inútil. Lucas a fez calar com um beijo.

Nos dias que se seguiram, os dois

passaram a se encontrar frequentemente. Mas já não era a mesma coisa. Já não sentiam a mesma paixão de antes. Estavam se agarrando a tentativa de resgatar os momentos dos bons tempos de namoro, mas os maus momentos prevaleceram. E prevaleceriam sempre. Gabi havia descoberto que reatar com ele seria como voltar ao tempo para viver as mesmas coisas. Mas o destino, aliado ao descuido de ambos, preparou uma armadilha e justo quando eles já não tinham a menor chance, Gabriela ficou grávida.

 

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A ferida havia cicatrizado, mas

pensando nisso, Gabriela estremeceu. Ela sabia que havia sido a situação mais difícil que vivera. Deu um suspiro e continuou com seus pensamentos...

 

Quando recebeu o resultado da

gravidez, teve que ler várias vezes para poder acreditar que não era um pesadelo. Sentou-se pesadamente no sofá da clínica e a moça da recepção perguntou se ela queria um copo com água, pois Gabi sabia que estava lívida. Ela recusou, agradeceu e saiu, meio desorientada, até chegar na lanchonete onde Carol a esperava, junto com sua mãe e seu novo namorado.

 

Gabi olhou para todos e em

seguida, jogou o exame sobre a mesa. Carol foi a primeira a ler e deu gritinhos de felicidade, mas ao ver a expressão desolada de Gabi tentou anima-la, juntamente com sua mãe, lhe oferecendo apoio e afirmando que tudo ia dar certo. As duas desandaram a falar e a fazer planos, mas Gabi já nem ouvia. Estava se conscientizando aos poucos da brusca e definitiva mudança que havia sofrido e sentia que ninguém poderia realmente ajudá-la a passar por isso. No dia seguinte, Lucas já sabia. Gabriela não tinha mais vontade de ficar com ele, mas esperava que ao menos ele assumisse o filho. Mas infelizmente, não foi isso o que aconteceu:

— Gabi, isso não podia ter

acontecido! você sabe que eu não tenho emprego fixo, deveria ter ao menos se cuidado.

Gabriela estava chocada:

— Como assim? Você acha que eu

planejei isso? como EU deveria ter me cuidado? Eu não fiz esse filho sozinha, Lucas!

— Eu sei, não é isso...mas é que

não temos cria-lo ... você não pode ter esse filho.

Sua revolta foi crescendo:

— Você está em pedindo para

abortar, é isso?

Lucas deu de ombros.

O mundo desabou na cabeça de

Gabi naquele momento. Ela sentiu o chão fugir dos seus pés e o olhou, estarrecida. Uma intensa fúria tomou conta do seu corpo e Gabriela começou a esmurra-lo no peito, gritando:

— Eu odeio você, seu cretino! —

e continuou repetindo — eu te odeio! eu te odeio! — até que foi tomada por um choro compulsivo que a venceu e Lucas tentou segura-la pelos braços, tentando argumentar o quanto pôde, mas Gabi enxugou as lágrimas com os punhos e disse, com orgulho:

— Quer saber? isso só serviu para

me mostrar quanto tempo eu perdi com um ser tão desprezível como você. — mas tudo bem — continuou — Eu vou te provar que não preciso de você pra nada. Eu vou criar meu filho sozinha e ele não vai querer nem ouvir falar no seu nome.

— Gabi, espera um pouco...

— Vai pro inferno, Lucas!

Naquela noite, Gabriela dormiu

na casa de Carol, que vendo o estado da amiga, simplesmente a abraçou, confortando-a. Lhe desejou boa noite, apagou a luz e fechou a porta do quarto devagar, dando uma última olhada para Gabi, que se encolheu e chorou, copiosamente, até pegar no sono.

Nos dias que se seguiram, Gabi

sentia suas emoções alternarem-se entre: dúvidas, esperança, ressentimento e um instinto de proteção que já começava a brotar dentro dela. Mas a realidade gritava em seus ouvidos, dizendo-a que ela não tinha estrutura financeira nem emocional para arcar sozinha com essa gravidez. E o pior: não tinha sequer o apoio da sua família, muito menos do pai do seu filho.

 

Não queria mais saber de Lucas.

Ele já desfilava com sua nova namorada e ela, armou-se de orgulho, e já não sofria mais por ele. Estava se acostumando a situação, mas sabia que tinha um desafio a enfrentar, que seria o momento de dar a notícia a sua família. Pediu a Carol que fizesse isso, já que não tinha coragem. Sua mãe dera um escândalo, contou Carol. Ameaçou um infarto e teve que tomar seus calmantes, pra "variar". Seu pai, previsivelmente, isolou-se, perdido em seus próprios pensamentos, como sempre fazia. Seus quatro irmãos, dois homens e duas mulheres, tentaram amenizar a situação, procurando proteger Gabi de alguma forma.

 

O dilema terminou em menos de

dois meses. Gabriela perdera o filho.

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Depois de oito dias, foi

acometida de fortes dores e então foi obrigada a submeter-se a uma espécie de limpeza, sendo internada imediatamente.

Gabriela entrou na enfermaria e

era a única paciente. A enfermeira entregou-lhe uma toalha e uma roupa de hospital, informando-lhe que ela deveria tomar banho e em seguida deitar-se, para tomar soro e aguardar a chegada do médico. Falou, ainda, que ela não poderia receber visitas por enquanto e saiu.

 

Gabi entrou no banheiro e olhou-

se no espelho. Não se reconheceu; seu rosto estava pálido e os olhos, assustados. Lucas tinha roubado algo dela, que no momento, não conseguia definir.

 

Seu banho foi demorado. Sem

mover-se, apenas deixou que a água quente escorresse pelo seu corpo. “Quem sabe ela não tenha o poder de lavar minha alma também?", pensou. Foi preciso que a enfermeira batesse na porta para desperta-la do "transe".

Depois de uma hora, foi

informada que havia chegado o momento. O médico lhe perguntou se estava com medo e ela balançou a cabeça que sim. Ele alisou gentilmente sua mão, distraindo-lhe, enquanto o rosto da enfermeira que lhe aplicava a anestesia geral, foi sumindo aos poucos, até desaparecer por completo.

 

O que se passou depois Gabriela

não se lembrava. Nem mesmo soube explicar ao certo como, pouco tempo depois, foi tomada de uma espécie de delírio e todo o quarto girava. Gritava desesperada, tentando saber onde estava e quem eram aquelas pessoas estranhas ao seu redor. Enxergava turvamente e a sua mente trabalhava de forma rápida, como se ela estivesse no meio de várias luzes piscando, enlouquecendo-a. Chovia muito, acompanhada de relâmpagos e trovões, o que a deixou mais assustada e ela segurava a mão da enfermeira, pedindo para não deixa-la sozinha, ao mesmo em que chamava pela sua mãe. Até que acabou pegando no sono.

 

Quando acordou, seu irmão

Maurício e sua cunhada Sílvia estavam ao seu lado. Disseram que todos estavam preocupados. Gabi perguntou que dia ia embora e Sílvia pediu que ela tivesse paciência e descansasse. Gabi, então, reclamou que estava com fome e logo em seguida, trouxeram-lhe algo para comer, que ela devorou rapidamente. Conversaram mais algumas amenidades, depois foram embora.

 

Gabi tentou ver televisão, mas

não conseguiu concentrar-se em nada. Finalmente, depois de olhar para as programações sem saber exatamente o que se passava, ela adormeceu.

 

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Gabriela abriu os olhos e viu o

céu, através da janela. Olhou ao redor e deu um longo suspiro. Não sabia que horas eram, mas que logo o médico ia lhe dar alta.

 

Lembrou-se de Lucas e sentiu

alívio. Sim, um alívio indescritível. Ela, descobriu, feliz, que eles já não tinham o menor vínculo. Vasculhou-se inteira e nada dele restava, literalmente, dentro dela. Ela o tinha esquecido de vez e isso quase a fez pular de felicidade.

 

Gabriela deixaria o passado

naquela clínica. E o que a esperava, não tinha dúvida, era desafiador. Mas ela precisava disso. Era o seu recomeço.

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Gabi voltou a realidade. Olhou no

relógio: nove horas. Sobressaltou-se e saiu apressada. Estava atrasada, Malu já deveria ter chegado ao restaurante onde marcaram.

Era aniversário de namoro: três

anos. E elas iam jantar para comemorar. Estavam transbordando de felicidade. No auge do amor. Mas não foi nada fácil chegar até lá.