De lagarta a borboleta: Quando o amor se transforma

Parte VI

P A R T E V I

 

Foi a sua mãe quem anunciou:

— Nós pensamos bem e achamos

que o melhor é você ir passar uns tempos na casa do seu primo Luís, pois quem sabe longe você não "se cure dessa doença", não arranje um namorado ou até quem sabe se case? Nós já ligamos para ele, está tudo certo, ele disse que você pode ir quando quiser... — Gabriela não acreditava no que estava ouvindo. — portanto, nós decidimos que você viaja depois de amanhã, pois Aloísio, que é comissário de menor e amigo de Alberto, está indo a Salvador neste exato dia e concordou em te deixar lá. É mais seguro.

— Mas eu não quero ir a lugar

nenhum! — Gabriela já começava a se assustar com a ideia — E eu não preciso me curar, pois não estou doente. Vocês não podem decidir as coisas por mim, eu já tenho dezoito anos!

Não importa! — disse sua mãe —

você pode até ter dezoito anos, como você diz, mas vive embaixo do meu teto, depende de mim, então tem que me obedecer.

A sensação de inutilidade que

Gabriela sentia aumentava cada vez mais. Sua mãe estava certa. Sua raiva nesse momento foi de si mesma, por não encontrar dentro de si coragem o suficiente para andar sozinha, pois sabia, no fundo, que só sua vontade não bastaria. De nada adiantaria exigir respeito se quando era preciso, fugia às responsabilidades. Ela tinha medo até disso: de ser responsável pelos próprios atos, sofrer e depois não ter onde se apoiar. Foi esse seu grande erro, mas só veria as consequências disso tempos depois.

De uma hora para outra, Gabi viu

a sua vida mudar, literalmente, e era difícil assimilar isso. Mudaria de cidade, se afastaria dos amigos, de Malu. Isso sim, era algo doloroso demais para aceitar.

Como diria isso a ela? Tinha

medo de tantas coisas...de Malu desistir, porque pensaria que ela mesma havia desistido de lutar pelas duas, de perdê-la, de esvair-se no esquecimento. Mas não havia a menor saída; se ficasse, nada mudaria. E viver naquele eterno conflito ela não suportava mais. Precisava de paz. Mas essa paz lhe custava ficar longe de Malu.

Naquela noite, a tristeza não

cabia dentro delas. Malu sentia-se impotente diante da situação. Queria fazer mais por Gabriela, queria ajuda-la, viver com ela, tê-la ao seu lado e protegê-la de tudo. Mas ainda não podia. Provavelmente teriam que voltar em pouco tempo para a casa dos pais e isso seria mais humilhante ainda. Era mais independente que Gabi, mas ganhava pouco, seria inconsequência dar um passo tão grande.

— Eu não sei como vou conseguir viver sem você— disse Malu — tenho medo que você me esqueça, que conheça outras pessoas interessantes e se apaixone. Eu não estou preparada para isso, Gabi.

— Eu nunca vou esquecer você,

meu amor — afirmou Gabriela, convicta — porque não há ninguém no mundo melhor que você. Na minha vida não há espaço para outra pessoa, outro abraço, outro beijo, que não seja o seu. Eu vou pensar em você todos os dias e vou lutar por nós duas...eu não vou desistir de você — se abraçaram — nunca...nunca...nunca!

— Nem eu—segurou seu rosto

entre as mãos: está ouvindo? Lágrimas incontroláveis já escorriam pelo rosto de Malu.

Abraçaram-se e romperam em

soluços, que demorou um tempo para serem contidos, mas Malu respirou fundo e enxugou as próprias lágrimas, enxugando as de Gabi, em seguida.

Colocou Gabriela entre suas

pernas, como sempre fazia, afagando os seus cabelos. Tirou seu próprio casaco e colocou em volta dos ombros de Gabi, que a olhava, vez ou outra, aninhando-se fortemente em seus braços.

E assim ficaram, unidas naquele

abraço, até que o céu começasse a clarear, indicando que já estava amanhecendo.

Era chegada a hora de despedir-

se. Gabriela viajaria dali a três horas.

Gabriela não conseguia sair dos braços de Malu, que por sua vez, tinha que fazê-la ir, mesmo que aquilo fosse a última coisa que desejasse. Então sussurrou baixinho em seu ouvido:

— Gabi, acorda, meu amor! Já

está amanhecendo...você precisa descansar um pouco, antes de viajar.

Gabriela a olhou, sonolenta e nos

seus olhos havia súplica. Queria pedir a Malu que fizesse alguma coisa, em seu desespero pensou em chamá-la para fugir, mas desistiu. Não seria muito maduro da sua parte. Malu levantou-se e lhe estendeu a mão. Em seguida colocou seu braço ao redor dos ombros de Gabi e Caminharam, em silêncio, até a sua casa.

Abraçaram-se, uma última vez.

Malu pegou a mão de Gabi e colocou no seu próprio peito, que batia, descompassado. Gabriela fez o mesmo. Mas não soltou sua mão. Segurou-a fortemente, como uma última tentativa de permanecer ao seu lado. Mas Malu engoliu em seco e a olhou, encorajando-a e o toque foi aos poucos suavizando, até que seus dedos afastaram-se e Gabi sabia que não seria prudente voltar. E antes de entrar em sua casa, sentiu vontade de olhar para trás e lá estava Malu, parada no mesmo lugar, sob a fina chuva, que já começava a cair.

***********************************

 

Durante toda a viagem, Gabriela

não pronunciou uma só palavra. Ignorou totalmente o motorista, olhando para o lado de fora da janela todo o tempo. Uma música tocava baixinho e chovia, ininterruptamente, o que a deixou ainda mais deprimida.

Quando finalmente chegaram, sua

prima Margarida veio recebê-la, com um sorriso entusiasmado no rosto, mas notando a expressão tristonha de Gabriela, conteve-se em fazer muitas perguntas. Apenas ajudou com as malas e perguntou se ela queria comer alguma coisa.

— Não, obrigada. — respondeu

Gabi educadamente — só quero tomar um banho e descansar um pouco.

Gabriela olhou ao seu redor e

apesar de não estar muito animada, pôde reparar que a casa era bastante espaçosa e tinha um ar informal. Alguns brinquedos espalhados pela casa demonstrava que as pessoas que moravam ali eram descontraídas e provavelmente se sentiria, com o tempo, confortável naquele ambiente.

Margarida lhe mostrou o seu novo

quarto, que dividiria com ela. Lá haviam duas camas, um armário, que sua prima havia separado um lugar para Gabriela colocar as suas coisas e uma tv, menor do que a da sala, mas que serviria para quando Gabi quisesse isolar-se um pouco.

Por volta do meio dia, Margarida

bateu levemente na porta e perguntou se ela queria almoçar. Seu estômago já começava a dar sinais de fome e então, ela aceitou. Margarida pediu que ela ficasse à vontade e que não poderia lhe fazer companhia, pois o restaurante simples, que era do seu irmão, e ficava a cinco metros da sua casa, lhe ocupava bastante tempo.

— Gabi, aqui você não precisa

ficar tímida para nada. Pode pegar o que quiser se sentir fome, não tenha receio. Nós não temos empregada, então eu que faço o almoço. Quando dá tempo, limpo a casa ou a própria Cintia faz isso, quando chega do cursinho. Luís trabalha o dia inteiro, só chega à noite, então é cada um por si. Não temos nenhuma formalidade, portanto, sinta-se em casa. — ao ver tanta hospitalidade, Gabriela conseguiu sorrir e agradeceu, mais uma vez.

Terminado o almoço, Gabriela retirou a mesa e lavou toda a louça. Tinha consciência de que, se ia morar naquela casa, precisava fazer algo para retribuir a generosidade do seu primo e ajudaria no que fosse preciso. Não gostaria de ser um peso para eles.

Gabriela havia prometido a Malu

que ligaria, tranquilizando-a sobre a sua chegada. Abriu a sua bolsa e contou o dinheiro que seu irmão havia lhe dado. Então, separou uma parte e colocou no bolso. Com ele, compraria cartões telefônicos. Não iria ligar do telefone da casa de Luís, pois sabia que mesmo que se oferecesse para pagar a sua parte na conta, ele não aceitaria.

Ao sair de casa, pôde reparar

mais no lugar que a rodeava. Era uma espécie de Vila, onde todos se conheciam e não haviam apartamentos, apenas casas. Aquele ambiente lhe pareceu familiar, pois não era muito diferente do interior, onde morava. Mas Margarida havia lhe dito que bastava andar uns vinte minutos que logo chegariam à Orla e ela se sentiria realmente em Salvador. Mas Gabriela não estava empolgada. Por ela, ficaria ali mesmo, até que conseguisse voltar para casa.

Descobriu, feliz, que havia um

orelhão em frente ao restaurante onde Margarida trabalhava. Inseriu o cartão e discou o número da casa de Malu. Ela atendeu na terceira chamada:

— Alô?

— Oi meu amor, sou eu.

— Gabi! — exclamou, feliz! —

como foi a viagem? correu tudo bem?

— Sim. Cheguei viva. — Gabi

sorriu com os lábios.

— As pessoas te receberam bem?

você gostou do lugar?

— Por enquanto só vi Margarida,

minha prima. Luís e Cíntia ainda não chegaram. Mas ela foi bem receptiva, sim.

— Que bom! ao menos você se

sente um pouco mais à vontade, não é amor?

— É, sim. Mas apesar disso, não

sei se vou conseguir viver aqui.

— Não se preocupe, Gabi. Isso não vai durar muito tempo. Nós iremos dar um jeito de resolver essa situação... — e completou: — Já estou morrendo de saudades.

— Eu também.

— Promete que não vai me

esquecer?

— Nem que eu quisesse... —

murmurou Gabi.

— Eu te amo, viu?

— Eu te amo também. Para

sempre. — prometeu Gabriela, despedindo-se e pondo o telefone no gancho.

Permaneceu com a mão por

alguns segundos sobre o telefone, pensativa, até que ouviu a voz de Margarida, que a chamou para conhecer o restaurante e lhe ofereceu um refrigerante. Gabriela sentou-se e aos poucos, foi se sentindo menos angustiada, pois Margarida tratava-a com intimidade, confidenciando-lhe sua vida pessoal e Gabriela ouvia, atenta, rindo de vez em quando e opinando, quando lhe era permitido. Sua prima namorava um rapaz há anos, um cantor de barzinho, no qual ela ressaltava o tempo todo as suas qualidades e prometendo a Gabriela que a levaria para ouvi-lo cantar, assim que pudesse e que seu sonho era casar com ele e ter muitos filhos, pois adorava crianças. Seria, visivelmente, uma dedicada esposa e dona de casa.

Já estava quase escurecendo

quando Gabriela lembrou-se em desfazer suas malas. Depois de colocar tudo em seu devido lugar, pegou seu diário e o abriu. Escreveria antes de dormir, como sempre fazia. Pegou a foto de Malu que estava entre suas páginas e a olhou, saudosa. Encostou a foto nos lábios e a beijou, carinhosamente. Em seguida, colocou-a dentro do diário novamente, guardando-o embaixo das suas roupas.

Ouviu vozes de pessoas que

chegavam e fechou então, o armário, dirigindo-se a sala.

Luís e Cíntia sorriram

entusiasmados, quando a viram, abraçando-lhe, enquanto perguntavam como foi a viagem e desejando as boas-vindas. O filho deles, de cinco anos, a olhava curiosa e então lhe perguntou:

— Como é o seu nome?

Gabriela inclinou-se e o beijou no

rosto, enquanto respondia:

— Meu nome é Gabriela. E o seu?

— Eu me chamo Guilherme. Eu

tenho muitos brinquedos. Você quer ver?

Cíntia o interrompeu,

repreendendo- lhe:

— Meu filho, deixe sua prima em

paz. Ela deve estar cansada e também com fome, depois você mostra os brinquedos para ela, tudo bem? — e direcionando-se a Gabi: — Não repara não. Ele é assim mesmo. Se deixar, não larga de você um minuto.

— Ah, não, tudo bem, eu não me importo! Eu adoro crianças!

Luís perguntou se ela estava com

fome. Respondeu que não, educadamente, como sua mãe havia lhe ensinado desde pequena. Mas lembrou-se que já era adulta e que seu estômago já começava a reclamar, por isso decidiu aceitar o jantar.

Conversaram trivialidades,

assuntos basicamente relacionados à família. Luís era muito divertido e Cíntia, mais reservada, mas também agradável e simpática, fazendo assim, com que Gabriela se assegurasse mais ainda de que viveria em um ambiente alegre e informal. Gabriela notou que ele tentava buscar uma forma de lhe dizer que todos sabiam o motivo pelo qual ela estava ali, no entanto, sem querer tocar explicitamente no assunto. Então, discursou sobre a inutilidade de querer proibir o jovem de vivenciar suas experiências, já que isso só os incitaria mais. Declarou que era, junto com sua família, pessoas bastante liberais e que não concordava com a atitude tirânica da mãe de Gabi, mas a respeitava como tia e por isso, aceitou Gabriela em sua casa a seu pedido. Mas que Gabriela soubesse que tinha todo o seu apoio e que sentia muito pelo que lhe estava acontecendo.

Apesar de sentir-se à vontade

com Luís e sua família, Gabriela não conseguia se adaptar inteiramente. Ocupava seus dias ajudando Margarida no que fosse preciso e lhe fazendo companhia no restaurante. À noite via televisão e brincava com Guilherme, lhe contando histórias todos os dias antes de dormir. Relacionava-se bem com as pessoas do bairro, que tentavam, visivelmente, integra-la no grupo, mas dentro dela, guardava um segredo e por isso, sentia-se, de certa forma, uma estranha no ninho. Não participava dos comentários que as meninas faziam sobre os garotos, nem entrava em detalhes sobre a sua estadia ali. Sabia que aquele não era o seu mundo. De qualquer forma, se permitia trocar conversas em rodas que se sentavam na frente do restaurante, na tentativa de se distrair.

Uma vez ou outra aceitava ir à

praia com Margarida. Gostava do sol e daquele ambiente natural. Da brisa e de olhar as pessoas passando. De ler um livro, mesmo sendo interrompida várias vezes por sua prima, que falava, sem parar. Mas no fundo apenas desejava que Malu estivesse ali. Sem ela, tudo era incompleto.

Aos fins de semana, Luís insistia

para que ela saísse junto com eles, para almoçar no shopping ou conhecer a cidade, mas Gabi preferia ficar em casa, sozinha, vendo tv, deitada no sofá, de pijama, ao lado do telefone. Tinha medo de Malu ligar e ela não estar.

Já haviam se passado dois meses

desde que Gabi havia chegado em Salvador e sua família continuava irredutível. Em suas ligações, Gabi pedia que cedessem e a levassem de volta, mas seu irmão argumentava que seria melhor que ela continuasse por lá, para evitar brigas com a sua mãe. Gabriela sabia que Malu não lhe esperaria a vida toda. Temia que ela se cansasse e arranjasse outra pessoa. Não. Isso ela não suportaria.

Gabriela arrumava seu quarto,

quando Margarida adentrou-o, eufórica, lhe perguntando de forma misteriosa:

— Advinha o que aconteceu?

Gabi deu de ombros.

— Tenho uma notícia que vai te

deixar a pessoa mais feliz do mundo.

Gabriela já se inquietava:

— Vai, mulher, fala logo! Você

quer me matar de curiosidade?

— Então... — começou Margarida — Luís foi convidado para ser padrinho de um casamento esse final de semana. E advinha onde é a cidade?

Gabriela arregalou os olhos e

inclinou a cabeça para frente:

 

— Sério? é onde estou pensando?

— hum rum! isso mesmo! você

vai ver Malu de novo, sua boba! — disse sua prima, animadamente, enquanto abraçava Gabi, que permanecia imóvel, mal podendo acreditar.

Gabi colocou a mão sobre a boca

e depois deu um gritinho, abraçando Margarida, novamente, mal contendo-se de felicidade.

A viagem foi longa para Gabi.

Quase não falava. Estava ansiosa, mas de forma diferente de quando fora para Salvador. Ainda lembrava da sensação nostálgica, quase fúnebre, que invadia seu peito, enquanto olhava para o lado de fora daquela janela e a chuva, que era cenário ainda sombrio daquela partida.

Quando viu a entrada da sua

cidade, um calafrio fez seu estômago contrair. Apesar de tudo, sentia saudades da sua família e da sua casa. Entretanto, depois de abraçar seus pais e seu irmão, só conseguia pensar em uma maneira de encontrar com Malu. Então, colocou a mala no quarto e disse a sua mãe que ia na casa de Carol. Mas na verdade, seu destino era a casa de Renata.

— Gabi! — Renata levantou da

cama e lhe deu um abraço. — menina, que surpresa é essa? Eu não sabia que você viria. Malu já sabe?

— Sim, eu avisei. Ela pediu para

eu vir aqui quando chegasse que você daria um jeito da gente se encontrar. Ah! — lembrou Gabi de repente,

tirando da sua

bolsa um volume de cartões telefônicos. — Trouxe para você. Sei que faz coleção.

— Nossa! você usou muitos hein?

— riu — obrigada. Encaminhou-se até o telefone — vou ligar para casa de Malu para saber se ela está lá.

Gabriela contorcia as mãos,

quando Renata desligou o telefone e confirmou:

— Ela está em casa. Sozinha e

ansiosa, à sua espera.

Quando Malu abriu a porta e viu

Gabriela, apenas sorriu, emocionada. Pegou lentamente na mão de Gabi, que transpirava, e a puxou para si, em um abraço intenso e demorado. Gabi fechou os olhos, enquanto sentia o cheiro do cabelo de Malu e a abraçou, ainda mais forte.

Era amor. Não importava que

Malu fosse mulher, como ela. Se ela fosse homem, nunca teria aquele efeito sobre os seus sentidos, de um amor sensível, mágico e tão encantador. Tudo em Malu mexia com Gabriela inteira. Se ouvisse a sua voz de longe, seu coração já disparava. Viajaria quilômetros e quilômetros somente para que pudesse olhar para ela um só minuto e enfrentaria o mundo inteiro para ter a sua companhia. A presença de Malu alimentava qualquer fome, qualquer sede que sentisse. Seu cheiro e a maciez da sua pele eram suas necessidades maiores. Malu era o ser mais importante da sua vida. Morreria por ela.

Malu afastou-se um pouco e a

olhou, admirando-a:

— Você está linda!

Gabriela sorriu, timidamente.

Malu fechou a porta e a fez sentar.

Gabi fechou os olhos, quando sentiu a respiração de Malu junto da sua. E então Gabriela deu um suspiro, quando Malu a beijou, apaixonadamente. Ao afastarem-se, seus olhos brilhavam intensamente e tentando conter a respiração, Gabriela murmurou:

— Preciso ir. Minha mãe já deve

estar notando a minha demora. — e acrescentou — mas não se preocupe. Mais tarde vai ter uma festa e meus primos estão falando em ir, depois do casamento em que Luís vai ser o padrinho. Vou junto com eles e depois arranjamos um jeito de fugir de lá.

— Combinado — respondeu

Malu. Até lá então. Beijou-a mais uma vez e depois Gabi saiu, apressada.

Durante toda a festa, Olhavam-se

de longe, mas sem poder se aproximarem, pois para surpresa de Gabriela, sua mãe resolveu ir também. Mas isso não impediria Gabi. Não voltaria para casa sem antes, ficar com Malu, no pouco tempo que lhe restava.

No meio da noite, aproveitando-

se da distração de todos, as duas saíram, sorrateiramente. Tinham seu lugar secreto. Lá, as únicas companhias eram a lua e as estrelas. Lá, esqueciam do tempo. Declaravam-se. Entregavam-se, sem pudor.

Depois de vestirem-se, Gabi ficou

na posição que mais gostava: Malu sentava-se e a colocava entre as suas pernas. Assim, sentia-se protegida.

De repente, levantou a cabeça do

ombro de Malu, animando-se:

— Malu, eu tive uma ideia! Luís

vai embora pela manhã bem cedo. Se eu não chegar a tempo, ele não vai me esperar. E acaba viajando sem mim. O que você acha?

Malu dividia-se entre a excitação

e a preocupação:

— Meu amor, você sabe que o

que eu mais quero é que você fique aqui comigo. Só eu sei como foi difícil ficar esse tempo longe de você. Mas tenho medo que isso lhe traga problemas. Você conhece a sua mãe...

— Eu não me importo. Não quero

mais voltar, Malu, não é justo... — Gabi já fazia menção de chorar, quando Malu a aconchegou em seus braços, confortando-a:

— Tudo bem. Estou do seu lado,

para o que der e vier. Mas se acalme que vai dar tudo certo, tá bom?

Gabriela balançou a cabeça que

sim.

Em pouco tempo, já era dia.

Decidiram ficar ainda mais um pouco, até que Luís tivesse ido. Mas Malu tinha que ir para casa também. Sua mãe não era tão rígida quanto a de Gabi, mas Malu morava em sua casa, portanto, lhe devia satisfações.

Finalmente, decidiram ir.

Gabriela inventaria qualquer desculpa pelo atraso, diria a sua mãe que havia passado mal e teve que ficar em observação, no hospital.

Gabriela apertou as mãos de

Malu, olhando em seus olhos e lhe disse, seguramente:

— Eu não vou. Você vai ver.

Logo seu telefone irá tocar, você vai sair na frente da sua casa e eu estarei lá, te esperando.

— Tomara, meu amor. Tomara.

Gabi a beijou rapidamente e se foi.

Chegando em casa, seu sorriso se

esvaiu quando viu Luís tirar seu carro da garagem e desligando-o, em seguindo, ao vê-la. Gabriela correu até o seu quarto e se jogou em sua cama, aos prantos. Luís e Cíntia, sem saberem o que fazer, apenas esperavam por uma resposta de D. Verônica, que disse, decisiva:

— Levanta dessa cama, Gabriela!

Luís não pode ficar o dia inteiro te esperando.

— Mas mãe, eu não quero ir! Por

favor, me deixa ficar!

— Eu vou lhe dar cinco minutos

para ajeitar as suas coisas e entrar naquele carro.

Gabriela colocava suas coisas de

volta na mala, ao mesmo tempo que enxugava as lágrimas com os punhos, quando Margarida entrou em seu quarto e alisando o seu ombro, sussurrou:

— Eu sinto muito. Mas...não

podemos ir de contra a minha tia. — deu de ombros e saiu.

Não se despediu de ninguém.

Sentia mágoa do que estavam fazendo com ela. Exceto seu pai, que em nenhum momento manifestou qualquer atitude ofensiva ou humilhante para com ela. Mas seu silêncio e sua omissão também a magoava, pois gostaria que ele pelo menos reagisse em sua defesa. Procurou-o para lhe dar um beijo, mas ele havia desaparecido, provavelmente para não vê-la sair. Gabriela olhou para trás e viu, através do vidro, lágrimas escorrendo pelo rosto da sua mãe.

 

*****************************

Pararam, para almoçar, mas

 

Gabriela não quis comer nada. Não tinha fome. Já em Salvador, lhe perguntaram se queria dar uma volta, conhecer a cidade, mas Gabi balançou a cabeça que não. Não queria nada, apenas voltar para sua cidade e para Malu.

 

Gabriela ouviu Luís falando ao

telefone com a sua filha mais velha, Priscila, fruto do seu primeiro casamento, pedindo que lhe fizesse uma visita para ver sua prima, que havia chegado e precisava se divertir um pouco.

Priscila era uma garota de

personalidade forte. Não gostava da sua madrasta e as duas viviam brigando. Por esse motivo, não visitava frequentemente o pai, apesar de serem bastante unidos. Mas ela tinha ciúme de Cíntia e fazia tudo para chamar a atenção de Luís. No entanto, nas vezes em que ela foi até lá, Gabi sentiu-se bem melhor, pois Priscila era espontânea e muito animada.

As férias de Gabriela há haviam

terminado e já ia dar início ao ano letivo. Luís perguntou-lhe se queria que lhe matriculasse em uma escola em Salvador, mas Gabi recusou-se. Não pretendia ficar lá por muito tempo.

Já haviam se passado três meses

desde que chegara Gabi e dentro dela, nada havia mudado. Não havia se adaptado, nem se interessado por nenhum garoto. Nem mesmo de sair ela sentia vontade. Não deixou de falar com Malu um dia sequer pelo telefone e o tempo só serviu para aproxima-las ainda mais.

Gabriela virava de um lado para o

outro, chamando pelo nome de Malu. Sentia frio e não parava de tremer. Ouviu, de longe, Margarida dizer para Luís, depois de tocar em sua testa:

 

— Ela está com febre. Luís, não é

certo ficar com essa menina aqui, sofrendo desse jeito. É febre emocional. Você precisa convencer Maurício a leva-la de volta. — Margarida era bastante emotiva e já tinha se afeiçoado a Gabi. — isso é coisa que se faça? dá até dó!

— Tem razão. — respondeu Luís

— vou ligar para ele assim que o dia amanhecer.

No dia seguinte, Gabi foi

informada que voltaria para casa dentro de três dias. Mas a sua felicidade durou pouco quando ouviu Malu lhe comunicar do outro lado da linha:

— Gabi, minha passagem está

comprada para São Paulo para exatamente daqui a três dias. Eu estava me sentindo muito só e decidi passar as minhas férias com meu irmão e minhas sobrinhas, que não vejo há um bom tempo e que também sentem minha falta. Sinto muito. Eu não sabia que você viria.

— Mas quanto tempo você vai ficar lá? — perguntou Gabi, tristemente.

— Um mês.

Gabriela não conseguia dizer

mais nada.

— Gabi? você está aí? fala

alguma coisa!

— Estou sim. — respondeu num

fio de voz.

Ei! — Malu tentava anima-la. —

fica assim não! Pensa que o pior já

passou. Você vai voltar, isso

não é maravilhoso?

— Mas do que adianta? lutei

tanto pra isso e nem ao menos vou te ver.

— Você pode me ver antes da

viagem. Que horas você vem?

— Eu não sei ainda. E você?

— Minha viagem está marcada

para as quatorze horas. Se você sair daí bem cedo, ainda podemos ficar juntas. Que tal?

— Mas é tão pouco tempo... —

Gabi não estava tão feliz quanto antes. Muito pelo contrário.

— Eu sei meu anjo. Mas não é

melhor do que não nos vermos nem sequer por um minuto? hein? — Malu tinha o poder de derretê-la facilmente.

— Tudo bem então. Se não há

outro jeito...

Gabriela desligou o telefone e

permaneceu durante alguns minutos olhando para o nada, com uma terrível sensação de frustração. Todos os caminhos a levavam para Malu. Mas ao mesmo tempo, o destino que as uniam, ironicamente a distanciavam.

Apesar de saber que não foi feliz

ali, quanto deveria, Gabi sentiria saudades das pessoas que conviveu e seria eternamente grata pela forma tão acolhedora com que a receberam.

Agradeceu a Luís e Cinthia,

desculpou-se pelos transtornos e beijou carinhosamente Guilherme, colocando-o no colo e o abraçando, emocionada. Sentiria falta daquela criança linda e tão inteligente que a tinha cativado profundamente.

A mãe de Cíntia, Vera, disse que

detestava despedidas e saiu chorando. Gabi, durante o tempo que ali ficou, lhe fez companhia muitas vezes e Vera apegou-se a Gabi como a uma filha.

Margarida, por sua vez, chorava

explicitamente, enquanto dizia:

— Você chega, faz todo mundo se

acostumar com você e agora vai embora, não é?

— Oh, Margarida, fica assim

não...eu vou vim te visitar — e levantando seu rosto — Ei! muito obrigada viu? você foi um amor comigo! Aliás, todos vocês! — e recompondo-se: — mas vamos parar de choramingar, senão eu não saio daqui hoje.

Luís a levou até a rodoviária e

depois de entrar no ônibus, Gabriela respirou fundo e olhou pela janela,

pensando que em outras circunstâncias teria aproveitado mais a beleza daquela cidade. Um dia voltaria lá com Malu para visitar todos.

Olhou no relógio: eram nove

horas da manhã. Teria ainda umas poucas horas para ficar com Malu e mais uma vez, despedir-se dela. Como não havia dormido bem por causa da ansiedade, decidiu fechar os olhos e tentar relaxar um pouco.

 

Acordou num sobressalto,

surpreendida com vozes de várias pessoas que falavam ao mesmo tempo, em uma verdadeira confusão. Manifestantes haviam incendiado a estrada em um protesto que Gabi nem quis saber qual era. Policiais e bombeiros tentavam amenizar o verdadeiro caos que se formara, mas Gabriela sabia que isso não seria algo tão fácil. Demoraria tempo suficiente para, no mínimo, atrasar a viagem. Então, ela se inquietou, olhando frequentemente para o relógio, angustiada por não poder fazer nada e desesperada pela hipótese de não conseguir chegar a tempo.

Depois do que para Gabi fora uma

eternidade, o ônibus finalmente seguiu viagem.

Quando enfim, chegaram na

rodoviária da sua cidade, Gabi saiu quase correndo, atropelando todos no corredor. E mesmo com os olhos embaçados pelas lágrimas que ameaçavam começar a brotar, conseguiu ver o ônibus de Malu, que acabara de partir.